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The National – I Am Easy To Find

Terça-feira, 21.05.19

Já chegou aos escaparates I Am Easy To Findo novo registo de originais dos norte-americanos The National, um álbum que viu a luz do dia a dezassete de maio, através da 4AD. Oitavo disco da carreira do grupo, I Am Easy To Find sucede a Sleep Well Beast, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no final do verão de dois mil e dezassete e tem um alinhamento de dezasseis canções que colocam os The National num pedestal de refinamento e classicismo algo exuberante e cada vez mais distante dos primeiros trabalhos do grupo nova-iorquino, que eram eminentemente crus, enérgicos e imediatos, quando comparados com estas últimas propostas mais contemporâneas.

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Antes de olhar a fundo no conteúdo de I Am Easy To Find, é importante esclarecer que uma das grandes curiosidades do disco é ser um trabalho colaborativo e conceptual. Resulta de uma parceria da banda com o realizador Mike Mills, sendo um dos componentes de 20th Century Womeno mais recente filme do cineasta, que também dirigiu uma curta-metragem com o nome do álbum. Mike Mills acabou por realizar também alguns videos de singles entretanto divulgados do disco, produções independentes do filme, com destaque para a interpretação de dança, protagonizada pela israelita Sharon Eyal em Hairpin Turns e que, de acordo com Mills, acaba por funcionar neste video como uma espécie de alter ego da personagem interpretada pela atriz sueca Alicia Vikander no filme.

Nome maior do panorama alternativo norte-americano das últimas duas décadas, sempre com elevada consistência e sem necessidade de grandes inflexões sonoras, o grupo liderado por Matt Berninger chega ao oitavo disco a oferecer à sua vasta legião de fãs o alinhamento mais longo, ambicioso e intrincado de um dos percursos mais dinâmicos e ricos da história do rock alternativo contemporâneo. E fá-lo cada vez mais centrado na figura do vocalista que, rodeado de quatro dos melhores músicos da atualidade, vai expressando, álbum após álbum, todas as suas agruras e frustrações, mas também sonhos, alegrias e realizações pessoais. Ele é o tipo de cantor e poeta capaz de oferecer com tremenda nitidez os seus maiores medos e inseguranças e fá-lo tornando-se na própria estrela que interpreta o estilo particulamente cinematográfico de uma escrita sempre tocante, intensa e realista. É, portanto, impossível indissociar os poemas musicados pelos The National do próprio trajeto pessoal de Berninger, sendo quase possível redigir uma espécie de biografia do homem tendo por base a análise e interpretação do catálogo sonoro deste quinteto.

Uma das nuances mais interessantes de I Am Easy To Find e que reforçam este exercício de exposição pública por parte de Berninger, foi a opção por se fazer acompanhar por um interessantíssimo conjunto de vozes femininas que ajudam a ampliar toda a aúrea de sentimentalismo, sensibilidade e até de uma certa pureza e requinte, sensações que exalam facilmente do âmago deste disco. Na nobreza melancólica de Oblivions, composição sobre a beleza do casamento e com a voz de Pauline de Lassus, esposa de Bryce Dessner, na condução, no modo como em Hey Rosey, um tema sobre a exposição das vulnerabilidades individuais sempre subjacentes a uma relação profunda e bem sucedida, Mina Tindle acaba mesmo por assumir o protagonismo vocal numa lindíssima canção que também tem nos créditos líricos Carin Besser, esposa de Berninger, na religiosidade mítica que o coletivo Brooklyn Youth Chorus nos proporciona em Her Father In The Pool e com maior cosmicidade no tema Dust Swirls in Strange Light, no modo delicado como na luxuriante e efusiva rugosidade de Where Is Her Head, um dos melhores temas que os The National compuseram esta década, Eve Owens canta um excerto do livro que o pai lê à protagonista do filme adjacente ao álbum e, principalmente, na presença de Gail Ann Dorsey, baixista e segunda voz durante longo período da carreira do malogrado David Bowie em You Had Your Soul With You, fica plasmada uma evidência inegável; Estas vozes femininas assumem a primazia interpretativa e delegam, em muitos casos, Matt Berninger para um papel de coadjuvante, algo difícil de se imaginar numa banda que sempre foi sonoramente tão íntima e dependente da sua voz principal.

No que concerne à componente instrumental do disco, como de certo modo já referi acima, os The National continuam, ao oitavo disco, a enriquecer o seu impressionante catálogo com novas nuances instrumentais, cada vez mais firmadas nas teclas do piano e dos sintetizadores e em diversos dos atuais entalhes entre eletrónica e rock alternativo, opções que procuram incutir luminosidade e cor ao que aparentemente já foi muito mais sombra e rugosidade. Assim, acaba por ser comum escutar em simultâneo, como é o caso de Light Years, instantes em que os instrumentos clamam pela simplicidade e outros, como You Had Your Soul With You, que acabam por resvalar para uma teia sonora que se diversifica e se expande, à medida que a composição evolui. Depois há ainda canções, como Roman Holiday, que prezam pelo minimalismo da combinação de poucos instrumentos, mas que, no fundo, tornam-se num refúgio bucólico e denso que impressiona pelo forte cariz sensorial. Finalmente, há ainda outras que soam mais ricas e trabalhadas, como Quiet Lighttalvez um dos temas do disco que exala com superior precisão o cada vez maior ecletismo estilístico do grupo.

Os The National sempre foram bem aceites e acarinhados por cá devido ao modo como, nos primeiros discos, se tornavam automaticamente nossos amigos e confidentes, não só pela forma como abordavam a tristeza, dando-nos pistas concretas no modo de lidar com ela e apontando caminhos de redenção, nem que fosse através da simples lembrança de que amanhã há sempre um novo dia e que a esperança nunca pode esmorecer. Agora, a sensação que fica é que o efeito pretendido é um pouco o contrário, ou seja, existe uma pretensão mais ou menos clara por parte de Berninger de querer que sejamos nós a sacar as suas confidências e sente-se que ele suspira por uma retribuição da nossa parte relativamente a essa entrega e exposição ímpares. No travo psicadélico invulgar de So Far So Fast, na sobriedade do piano e da batida sintética que conduz Hairpin Turns, uma ode às memórias que deixamos para os outros depois de partirmos deste mundo, na exaltação à beleza do mundo infantil feita em Rylan, um tema com raízes nas sessões de gravação de High Violet (2010), na suprema luminosidade de Light Years, uma canção sobre esperança, luta e vitória, composta num piano sueco numa casa que a família de Berninger alugou na Dinamarca, para onde se mudaram há alguns anos, durante uma temporada, depois da sogra de Berninger ter sido diagnosticada com cancro e, principalmente, em Not In Kansas, uma canção que contém referências aos R.E.M., aos The Strokes, a um fornecedor de erva antigo do músico e ao seu ódio de estimação pela extrema-direita e incubada também na Dinamarca a partir de um instrumental intitulado Everything to Everyone, do projeto Everyone Moves Away, Berninger é particularmente explícito neste exercício comunicacional confessional que procura estabelecer com a intimidade de cada um de nós, dentro de um disco pensado com um propósito bem definido, mas que pode muito bem também ser apropriado pelos fãs da banda para ser lido e interpretado do modo que melhor lhe convier. Esta possibilidade que a música dos The National sempre nos ofertou é, sem dúvida, uma das suas  imagens de marca e um dos legados únicos que a banda deixa para a história do indie rock contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

The National - I Am Easy To Find

01. You Had Your Soul With You
02. Quiet Light
03. Roman Holiday
04. Oblivions
05. The Pull Of You
06. Hey Rosey
07. I Am Easy To Find
08. Her Father In the Pool
09. Where Is Her Head
10. Not In Kansas
11. So Far So Fast
12. Dust Swirls In Strange Light
13. Hairpin Turns
14. Rylan
15. Underwater
16. Light Years

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publicado por stipe07 às 15:35


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