Quinta-feira, 7 de Março de 2019

Tape Junk - Couch Pop

Quase quatro anos depois de um excelente homónimo, os Tape Junk de João Correia estão de regresso aos lançamentos discográficos, em formato digital e em cassete, com Couch Pop, o terceiro disco do projeto, um compêndio de nove canções pensadas e estruturadas pela mente do cérebro da banda. De facto, os Tape Junk assumem-se cada vez mais como um projeto a solo deste músico que também fundou os Julie & The Carjackers e os They’re Heading West, já que neste Couch Pop todos os instrumentos foram registados pelo João, que contou apenas com o apoio de António Vasconcelos Dias nos sintetizadores.

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Álbum escrito e construído sem pressas, entre o início de dois mil e dezasseis e o ocaso do verão passado e com um alinhamento que foi sendo continuamente aperfeiçoado, mutado e aprimorado de acordo com o estado de espírito do autor e ao sabor de um tempo que nunca o pressionou, Couch Pop tem um conjunto notável de composições que, no seu todo, homogéneo e impressivo, nos oferecem um amplo panorama de descobertas sonoras, que acabam por personificar uma espécie de exercício criativo nostálgico, onde cada uma veste a sua própria pele enquanto se dedica, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor lhe designou.

Pavement, Giant Sand, Yo La Tengo, Rolling Stones ou Velvet Underground são influências óbvias e algumas até assumidas e declaradas, mas quem vence é, na soma de todas as partes, aquele rock clássico e intemporal, que logo no delicioso timbre metálico agudo da guitarra de Willow Crown plasma, com notável nitidez instrumental, a tal personificação de soalheiras aventuras sonoras nos temas. E alguns deles até agudizam o elevado pendor pessoal e intimista caraterístico deste projeto, onde não falta, inclusive, um confessado humor negro, e um curioso nonsense, nomeadamente na vibe soalheira de General Population, um exemplo claro desta despreocupação e deste desejo pessoal que os Tape Junk sentem, na pessoa do João Correia, de não serem levados demasiado a séria no que concerne não só ao arquétipo, mas também à vertente lírica e poética das canções.

De facto, o que impressiona na escrita deste cantautor é o modo como disserta sobre banalidades e rotinas comuns e as transforma num interessante conjunto de eventos inspiradores, já que a sua música tem a capacidade de provocar sentimentos e sensações únicas que podem servir de aconchego para as nossas mágoas ou um incentivo ao despertar aquilo que de melhor guardamos dentro de nós. Se a soul contemplativa de Hard Times Blues só não cerra os punhos de quem se sente já demasiado confiante para não perceber que os precalços estão sempre ao virar daquela esquina que cruzamos diariamente e que nunca nos surpreendeu, já o piano de Down, os sons poderosos, tortuosos, luminosos e flutuantes e as vozes deslumbrantes de Carved In Stone ou o riff contagiante da guitarra que acompanha o refrão e os efeitos sintetizados que vão ornamentando diversas mudanças rítmicas no single Cranberry and Thyme, são canções que refletem aquela luz que não se dispersa, mas antes se refrata para inundar os corações mais carentes daquela luminosidade que transmite energia, num disco sem cantos escuros.

Projeto de palco e já com uma notável reputação nesse campo, os Tape Junk têm neste Couch Pop um notável conjunto de canções para juntar ao cardápio que define aquilo que é uma típica banda rock, mas que sabe qual o melhor receituário para adocicar, através de alguns elementos fundamentais da dita pop, a salutar rugosidade de um universo sonoro que tem de guiar a sua sonoridade através de guitarras plenas de eletrificação, mas que pretende fazê-lo de modo a replicar melodias contagiantes e que exalem uma sensação de contemporaneidade. E no caso dos Tape Junk tal pode ser apreciado quer nas notas mais delicadas, até quando elas estão num modo particularmente explosivo, quer nos efeitos selecionados ou nos arranjos simples, mas bastante criativos, mas também em peculiares variações de ritmo e, mais do que tudo isso, numa saudável sensação de crueza e ingenuidade, transversal aos pouco mais de trinta minutos de um disco em que voz e instrumentos fluem naturalmente e se acomodam naquilo a que claramente se chama de som de banda. Em suma, os Tape Junk provam que não é preciso ser demasiado complicado quando o objetivo é criar sons e melodias intrincadas e simultaneamente acessíveis. Consegui-lo é ser-se agraciado pelo dom de se fazer a música que se quer e o João Correia obteve, mais uma vez, tal desiderato, já que usou a fórmula correcta, feita com uma quase pueril simplicidade, para demonstrar uma formatação adulta e a capacidade de se reinventar, reformular ou simplesmente replicar o que de melhor têm alguns projetos bem sucedidos na área sonora em que melhor se identifica, sem deixar de evocar um certo experimentalismo típico de quem procura, através da música, fazer refletir aquela luz que não se dispersa e que fará, certamente parte daquilo que é a sua própria individualidade, não só como artista mas como ser humano. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 16:20
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