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Julien Baker – Little Oblivions

Terça-feira, 06.04.21

Já está nos escaparates Little Oblivions, o terceiro disco da norte-americana Julien Baker, que se estreou há pouco mais de meia década com Sprained Ankle, um álbum que desde logo impressionou a crítica pelo modo como a autora partilhou angústias, experiências e sonhos, com ímpar intimidade. Um ano depois, em Turn Out The Lights, o receituário aprimorou-se em canções que expuseram com realismo o conturbado e problemático universo pessoal de alguém que desde a infância nunca se sentiu confortável por crescer no seio de uma família cristã com valores tradicionais bastante rígidos, no profundo Tennessee, mas com um progenitor afundado no mundo das drogas e com uma deficiência motora grave. Little Oblivions acrescenta mais um capítulo nessa demanda de exorcização pessoal de demónios, mas exala uma maior espiritualidade e luminosidade, porque é um grito de esperança de alguém que quer seguir de modo feliz a sua permanência neste mundo repleto de estereótipos e especialista na rotulagem simplista, baseada em primeiras impressões.

Little Oblivions" é o novo álbum de Julien Baker | Arte Sonora

Little Oblivions tem a chancela da Matador Records e conta com diversas participações especiais, nomeadamente Phoebe Bridgers e Lucy Dacus, suas parceiras no grupo paralelo Boygenius, que as três detêm além dos respetivos projetos a solo, todos bem sucedidos e que há quase três anos. Nele, uma vasta miríade instrumental, tocada quase na íntegra pela autora e onde abundam cordas, mas também teclas e arranjos das mais diversas proveniências e com um elevado travo classicista, mas também com aquele odor tipicamente sulista, conferimos uma interseção feliz entre folk, eletrónica e rock, que sustenta momentos sonoros que, sendo essencialmente soturnos e abertamente sofridos, ampliam continuamente as virtudes de Baker como cantora e criadora de canções impregnadas com uma rara honestidade, já que, como de algum modo já referi, são profundamente autobiográficas e, ao invés de nos suscitarem a formulação de um julgamento acerca das opções pessoais da artista e da forma vincada como as expõe, optam por nos oferecer esperança enquanto se relacionam connosco com elevada empatia.

De facto, composições do calibre de Favor, canção que tem na delicadeza do piano o indispensável tempero que confere à canção um notável equilíbrio, não a deixando resvalar para um caos depressivo e inquietante, a majestosidade desarmante das guitarras que deambulam por Faith Healer, ou o deslumbre percurssivo que conduz Ringside, proporcionam-nos emotivos e exigentes encontros com o âmago da autora e toda a intrincada teia relacional que ela estabelece com um mundo nem sempre disposto a aceitar abertamente a diferença e a busca de caminhos menos habituais para o encontro da felicidade plena, até porque ela coloca-se permanentemente na linha da frente de uma questão muito em voga no meio artístico norte-americano, relacionada com a homossexualidade, cada vez mais uma arma de arremesso felizmente eficaz contra a opressão da direita conservadora.

No final desta jornada redentora, que deixa claramente mossa no ouvinte se ele se predispuser a assimiliar com devoção as confidências e o processo redentor fino e impressivo que carateriza Little Oblivions, temos o disco mais consistente e feliz de Julien Baker, um alinhamento que lança os holofotes não só sobre a artista, mas também sobre nós próprios, já que ajuda ao contacto e à tomada de consciência de muito do que guardamos dentro de nós e tantas vezes nos recusamos a aceitar e passamos a vida inteira a renegar. Espero que aprecies a sugestão...

Julien Baker - Little Oblivious

01. Hardline
02. Heatwave
03. Faith Healer
04. Relative Fiction
05. Crying Wolf
06. Bloodshot
07. Ringside
08. Favor
09. Song In E
10. Repeat
11. Highlight Reel
12. Ziptie

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publicado por stipe07 às 17:10

Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow

Sábado, 26.01.19

Quase meia década depois do excelente e melancólico Are We There, e com o nascimento de uma filha pelo meio e a participação nas séries The OA e Twin Peaks como atriz, Sharon Van Etten está de regresso aos discos com um trabalho intitulado Remind Me Tomorrow. Este disco com dez temas é o quinto alinhamento da carreira da autora e compositora norte americana, natural do Tennessee e foi lançado à boleia da Jagjaguwar, tendo sido produzido pela própria e pelo reputado John Congleton.

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Sempre resistente, inventiva e apaixonada, em Remind Me Tomorrow Sharon Van Etten volta a surpreender-nos com a sua voz inconfundível e a sua capacidade única de conseguir fazer-nos crer na nossa capacidade de perseguirmos os nossos sonhos mais verdadeiros, neste caso através de um disco repleto de energia e emotividade e onde a autora encara novamente o ouvinte como uma espécie de amigo e confindente. Fá-lo de modo genuíno e até, em alguns temas, desarmante, ou seja, de modo a não deixar quem a escuta indiferente à sua mensagem e aos seus apelos, quase sempre relacionados com a temática daquele amor que não resultou e do modo como a autora se sente frequentemente infeliz ou desiludida com o mundo que a rodeia.

De facto, Remind Me Tomorrow soa a mais um capítulo desta sua saga pessoal, o quinto álbum da carreira de uma cantora e compositora que com uma mão na indie folk e a outra no rock alternativo e também na eletrónica, letra após letra, verso após verso, abre-se connosco enquanto discute consigo mesma e coloca-nos na primeira fila de uma vida, a sua, que acontece mesmo ali, diante de nós.

Ao longo destas dez canções, Sharon construiu belíssimas melodias pop que se entrelaçaram com as letras e com a sua voz marcante com enorme mestria, num disco que palpita uma notória sensação instintiva, como se ela tivesse deixado fluir livremente tudo aquilo que sente e já descrevi e assim potenciado a possibilidade de nos emocionarmos genuinamente com estas canções. Temas como Seventeen, sobre a sempre difícil transição da juventude para a vida adulta numa cidade como Nova Iorque, I Told You Everything, uma canção que descreve uma amargurada conversa de balcão, ou Stay, dedicado à filha, são excelentes exemplos deste exercício algo dramático de partilha, assim como a ode ao romantismo feita em No One’s Easy To Love e os factos descritos em Comeback Kid,  uma canção que instrumentalmente impressiona pela inserção de uma vertente sintética algo inédita na carreira da Etten, que se repete impressivamente em Jupiter 4, e que relata memórias da sua infância despertadas durante uma visita a casa dos pais.

Em suma, Remind Me Tomorrow marca uma nova etapa na carreira discográfica de Sharon Van Etten, principalmente no modo como olha com maior gula para o sintético e aprimora o uso dessa vertente estilística na sua habitual folk tipicamente americana e sulista. Tematicamente, a poetisa mantém o tom intimista e comunicativo, mas fá-lo com uma ainda maior profundidade, fruto certamente das mudanças vividas na sua vida na última meia década e que a tornaram ainda mais sapiente, instruída e rica no modo como disserta e reflete sobre a sua existência. Espero que aprecies a sugestão...

Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow

01. I Told You Everything
02. No One’s Easy To Love
03. Memorial Day
04. Comeback Kid
05. Jupiter 4
06. Seventeen
07. Malibu
08. You Shadow
09. Hands
10. Stay

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publicado por stipe07 às 10:37






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