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Father John Misty - The Old Law EP

Segunda-feira, 12.01.26

Um dos grandes discos do ano de dois mil e vinte e quatro foi, sem dúvida, Mahashmashana, o sexto compêndio de originais da carreira do músico norte-americano Josh Tillman, que assina a sua música como Father John Misty. Esse álbum, com oito canções, foi produzido pelo próprio Father John Misty e por Drew Erickson e dissertava sobre o momento civilizacional atual e a ténue fronteira que todos nós sabemos que existe entre e vida e a morte, considerando, o autor, que temos os nossos arraiais assentes em Mahashmashana, (महामशान) uma palavra em sânscrito que significa grande campo de cremação. E, de facto, este registo oscilava entre canções com um intenso espírito roqueiro, viçoso, inquieto e irrequieto e baladas de elevado pendor melodramático e quase desesperante, sendo transversal a todo o registo uma permanentes sensação de tensão e de inquietude, que personifica, de certa forma, a tal fronteira ténue em que vivemos.

Father John Misty, photo by Bradley J. Calder

pic by Bradley J. Calder

Agora, cerca de catorze meses depois do lançamento de Mahashmashana, Father John Misty regressa ao nosso radar devido a um EP intitulado The Old Law que, tendo a chancela do consórcio Bella Union e Sub Pop Records, contém um novo tema original do autor, que dá nome ao registo, acompanhado de dois dos momentos mais altos de Mahashmashana, as canções Josh Tillman And The Accidental DoseI Guess Time Just Makes Fools Of Us All.

Este tema The Old Law, que já se chamou The God's Trash, foi produzido, uma vez mais, por Drew Erickson e pelo próprio Josh Tillman, misturado por Michael Harris e Jonathan Wilson nos estúdios Fivestar Studios, em Los Angeles e masterizado por Adam Amyan. É uma canção vigorosa e enleante, conduzida por uma guitarra agreste, exemplarmente entrelaçada com o piano e a bateria, num resultado final com um ímpar travo psicadélico, aprimorando, como não podia deixar de ser, a ímpar capacidade que Tillman tem demonstrado ultimamente para  criar sobreposições orgânicas e sintéticas e jogos de sedução entre sons das mais diversas proveniências, sempre com a mira apontada ao rock sessentista e ao clima mais experimental e progressivo da década seguinte, fazendo-o com um charme inconfundível. Confere...

01. The Old Law
02. Josh Tillman And The Accidental Dose
03. I Guess Time Just Makes Fools Of Us All

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publicado por stipe07 às 13:31

Hank Bee - 10:23

Sábado, 10.01.26

Hannah Brown é de Liverpool e encabeça o projeto a solo Hank Bee, que se vai estrear nos lançamentos musicais com um EP intitulado a sudden hankering, que irá ver a luz do dia a trinta de janeiro, em formato digital e fisicamente em formato cassete, com a chancela da londrina Memorials of Distinction.

pic by Alice Lovatt

10:23 é o mais recente tema divulgado do alinhamento de cinco composições que incorporam a sudden hankering. A canção foi escrita em março de dois mil e vinte e três, enquanto Bee olhava pela janela do sotão do seu quarto, numa casa de estilo georgiano em Liverpool e o título indica a hora em que a artista começou a escrever a canção inspirando-se no que via lá fora, na rua, durante esse momento.

Sonoramente, 10:23 é um tema intimista e contemplativo, conduzido por uma guitarra exemplarmente eletrificada e plena de soul, que depois vai sendo revestida de modo charmoso com uma vasta miríade de elementos orgànicos, acústicos e eletrificados, que se cruzam com um registo percussivo bem vincado, nuances que ampliam um certo sentimento de urgência que se vai sentindo ao longo da canção que, quase no seu ocaso, ganha arrojo e imponência, dando uma espécie de salto conceptual sonoro da folk para o rock. Confere 10:23 e o vídeo do tema assinado por Aidan Shard, assim como o acesso ao restante conteúdo de a sudden hankering EP...

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publicado por stipe07 às 14:56

VIAL - Never Been Better

Sexta-feira, 09.01.26

As VIAL são uma banda americana de punk rock, formada em dois mil e dezanove em Minneapolis, no Minnesota e atualmente composta pelo vocalista e guitarrista KT Branscom, a vocalista e baterista Katie Fischer e a vocalista e baixista Taylor Kraemer. Acabam de chamar a nossa atenção devido a Never Been Better, um novo single do trio que antecipa Hellhound, o novo disco do projeto, um alinhamento de treze canções que irá ver a luz do dia a vinte de março com a chancela da Trout Hole Records, a etiqueta da própria banda.

Vial

pic by Katy Kelly

Desde que se formaram as VIAL, que apostam num punk rock incisivo, cru e imponente, à sombra de um catálogo interessante de influências que abraçam os cânones essenciais do grunge, do garage e do gótico, estilos que se cruzam e se mesclam sem receios nas suas criações sonoras, sempre vincaram com vigor as suas opiniões políticas e sociais, servindo-se da música para marcar posições e opinar sobre o estado atual de uma América cada vez mais emaranhada em conflitos, dilemas e tensões políticas e sociais.

Visceral e imponente, Never Been Better tem essa marca reinvindicativa, numa canção que assenta os seus pilares numa guitarra épica e abrasiva, um baixo vigoroso e uma bateria com uma cadência enleante, um modus operandi que sustenta um ímpeto de imediatismo e de urgência indisfarçáveis, afagado nos braços de uma melodia algo hipnótica e sombria. confere Never Been Better e o artwork e a tracklist de Hellhound...

Infected
Scorpio Moon
Creep Smoothie
Idle Hands
Sob
Never Been Better
Hellhound
Undermine Me
Blah
Puke
Talktalktalk
Boredom/Combustion
Blood Red

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publicado por stipe07 às 13:24

GEE‑AITCH - Mess Of Words

Terça-feira, 06.01.26

GEE‑AITCH é um projeto musical encabeçado por José Gentil‑Homem, músico portuense com uma trajetória que atravessa várias influências antes de se dedicar a uma eletrónica alternativa e experimental. O projeto estreou-se em dois mil e dezoito com o EP Left Hand Page, que recebeu atenção da crítica, que destacou o clima caseiro, denso e quase claustrofóbico do seu conteúdo, recheado de temas brilhantes, gravados com recursos mínimos.

Stream GEE-AITCH music | Listen to songs, albums, playlists for free on  SoundCloud

Dois anos depois, em dois mil e vinte, GEE‑AITCH evoluiu e estreou-se no formato longa duração com o registo Odyssey, ao qual se seguiu, logo no ano seguinte, Insane, dois álbuns eminentemente introspetivos e minimalistas e assentes em texturas eminentemente eletrónicas, que acabaram por vincar um adn e uma assinatura sonora muito próprias e marcadas por sensibilidade e honestidade.

Agora, no início de dois mil e vinte e seis, GEE‑AITCH acaba de chamar a nossa atenção devido a Mess Of Words, o terceiro disco do projeto. É um alinhamento de oito canções que, em pouco menos de vinte minutos, encarnam uma filosofia interpretativa muito pessoal já que, de acordo com o próprio José Gentil-Homem, plasmam uma fase mais madura e consistente da sua vida. Todas as faixas foram inicialmente compostas ao piano, mas, naturalmente, durante a produção, o piano desapareceu. O resultado é um disco alternativo, pensado para que a música se integre na vida de quem a ouve, criando memórias e pequenas alegrias, seja numa conversa, num cheiro, numa lembrança do dia a dia.

Misturado e masterizado no ArdaRecorders, pelo técnico Ze Nando Pimenta, no Porto, o álbum reflete equilíbrio, clareza e uma maturidade que se distancia das primeiras experiências mais experimentais do artista. São oito canções de cariz fortemente ambiental, como se percebe logo na incontetável beleza e coerência de Here In The Dark, sustentadas por várias camadas de sintetizações, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. No entanto, a acusticidade das cordas também deixa uma marca impressiva, nomeadamente em Fish Fillet, canção que impressiona pela cândura inicial, mas que depois se desenvolve e simultaneamente nos envolve, numa espiral de sentimento e grandiosidade. Já Look Like Him, por exemplo, aposta num som mais esculpido e complexo, plasmando uma dinâmica feliz entre um enorme manancial de efeitos e samples de sons que nos obrigam a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. Por outro lado, temas como a lisérgica No Pressure, o clima punk de Homicide ou Mess Of Words, uma espiral frenética e empolgante de synthpop, impressionam pelo cariz sensorial, criando um cenário de certo modo idílico também para os apreciadores daquele rock progressivo mais enérgico e libertário.

Disco que convoca vários universos sonoros que, da eletrónica, à pop, passando pelo próprio rock progressivo, criou uma relação simbiótica bastante sedutora, Mess of Words é, acima de tudo, uma continuação do percurso de GEE‑AITCH: uma vida confusa e complexa, agora traduzida numa fase estável e introspectiva, com o desejo de que, de acordo com o autor, cada música faça parte da vida das pessoas, acrescentando algo a cada memória que desperta. Espero que aprecies a sugestão...

 

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publicado por stipe07 às 18:32

Nothing – Purple Strings (Feat. Mary Lattimore)

Segunda-feira, 05.01.26

Editado em dois mil e catorze, Guilty of Everything foi o trabalho de estreia dos Nothing, uma banda de Filadélfia liderada pelo vocalista Nicky Palermo, que logo nesse primeiro disco clarificou deambular entre a dream pop nostálgica e o rock progressivo amplo e visceral. Após essa estreia, o grupo foi, com mais dois registos no catálogo, Tired Of Tomorrow e Dancing On The Blacktoop, impressionando audiências com um som cativante e explosivo, sempre com fuzz nas guitarras e o nível de distorção no red line, oferecendo, a quem os quisesse ouvir, o melhor da herança do rock alternativo de finais do século passado, suportada por nomes tão fundamentais como os My Bloody Valentine ou os Smashing Pumpkins, só para citar algumas das influências mais declaradas do grupo.

Em dois mil e vinte os Nothing chamaram a nossa atenção com The Great Dismal, o quarto disco do grupo liderado por Dominic Palermo e ao qual se juntam atualmente o guitarrista Doyle Martin, o baixista Bobb Bruno, o baterista Zachary Jones e o guitarrista Cam Smith.Esse álbum era mais um documento essencial para se perceber a progressão do quarteto. Tinha um alinhamento assente na primazia das guitarras, mas também contava com um elevado teor sintético, uma nuance que conferiu ao seu som uma toada muito rica e luminosa e um travo pop que, na verdade, acabou por amenizar o cariz eminentemente sombrio do rock que os Nothing se gabam de saber replicar melhor que ninguém.

Agora, meia década depois, o projeto norte-americano regressa à nossa órbita à boleia de alguns avanços que tem revelado de A Short History of Decay. Trata-se do quinto disco da banda, um registo com nove canções, produzido pelo próprio Nicky Palermo, com a ajuda de Nicholas Bassett, líder dos Whirr e que foi gravado nos estúdios Sonic Ranch, no Texas, estando previsto ver a luz do dia a vinte e sete de fevereiro, com a chancela da Run For Cover Records.

Cru, sujo e rude, Cannibal World foi o primeiro single que passou por cá, em novembro último, do alinhamento de A Short History of Decay. O tema assentava a sua filosofia interpretativa no ruído sombrio de guitarras tocadas em reverb, numa postura claramente lo fi.

Agora temos para escuta Purple Strings, o quinto tema do alinhamento de A Short History of Decay. Com a participação especial da harpista Mary Lattimore, de Jason Adams aos comandos do violoncelo e de Camille Getz no violino, Purple Strings é uma composição intimista e sentimentalmente forte, com um registo melódico envolvente, que vai sendo trespassado por diversas nuances conferidas por cordas das mais variadas proveniências, criando um clima impactante, que vinca uma identidade sonora muito própria e que define, sem sombra de dúvida, o melhor adn dos Nothing. Confere...

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publicado por stipe07 às 19:35

Arkells - Money (feat. Portugal. The Man)

Domingo, 04.01.26

Sedeados em Hamilton, no Ontário, e já com mais de duas décadas de carreira, os Arkells de Max Kerman, deram as mãos aos norte americanos Portugal. The Man, de John Baldwin Gourley e juntos criaram um tema intitulado Money, que antecipa um novo disco do projeto canadiano para este ano de dois mil e vinte e seis.

Arkells - Money (feat. Portugal. The Man)

Money é uma canção vigorosa, impulsiva, cativante, com um ímpar travo retro e com uma têmpora algo lisérgica. Uma batida sintética contundente, exemplarmente acompanhada por um baixo vigoroso e diversos loops e efeitos enleantes e um registo vocal ligeiramente robotizado, oferecem à canção uma curiosa sensação nostálgica, ao mesmo tempo que induzem no tema uma estética bastante abrangente e de elevado pendor pop. Confere...

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publicado por stipe07 às 19:21

Matt Corby – Know It All

Sexta-feira, 02.01.26

Há pouco mais de uma década, no meio da interminável vaga de novos artistas que iam surgindo todos os dias e que foram consolidando os alicerces de um blogue já numa fase de afirmação consistente da sua existência, houve alguns autores que, nesse inesquecível ano de dois mil e doze, acabaram por ficar na retina da nossa redação. Um deles foi o australiano Matt Corby, músico cujo primeiro single, Brother, editado no verão desse ano e grande destaque de um EP intitulado Into The Flame, soou do lado de cá como um daqueles singles revelação e que fez querer descobrir, na altura, toda a obra que esse artista já tinha lançado.

Entretanto, há quase três anos, na alvorada da primavera de dois mil e vinte e três, e depois de no final de dois mil e vinte e quatro termos divulgado um single intitulado Problems, Matt Corby voltou aos nossos radares, também pouco mais de dois anos depois de um par de canções chamadas If I Never Say a Word e Vitamin, que o músico lançou em dois mil e vinte. E fê-lo à boleia de um disco intitulado Everything's Fine, o terceiro da sua carreira, um alinhamento de onze canções gravado nos Rainbow Valley Studios com Chris Collins e que foi cuidadosamente dissecado pela nossa redação.

Agora, Matt corby anuncia finalmente o sucessor de Everything's Fine. Trata-se de um trabalho intitulado Tragic Magic. É um registo com treze canções, que vai ver a luz do dia a seis de março e que resultou de dezoito meses de árduo trabalho de composição e gravação em estúdio e que foi produzido por Chris Collins, seu habitual colaborador.

Do seu alinhamento revelámos, no início de dezembro último, o single Burn It Down, uma composição repleta de soul, com um groove e uma luminosidade ímpares. Cerca de duas semanas depois tivemos para escuta Big Ideas, mais um dos momentos altos do alinhamento de Tragic Magic, uma composição angulosa e com um perfil percussivo bastante vincado, assente num vigoroso baixo e em alguns entalhes orgànicos.

Agora no início de dois mil e vinte e seis, já é possível conferir o terceiro tema retirado do alinhamento de Tragic Magic. É uma longa canção chamada Know It All, que tem um piano intrincado, buliçoso e tocante como grande trave mestra. As suas teclas trocam com o timbre adocicado vocal ligeiramente reverberado de Corby, um emaranhado de subtilezas, olhares e toques, aparecendo a bateria e uma secção de cordas a dois minutos do fim, com o intuíto de ampliar o perfil tocante e sensitivo de Know It All. O resultado final é charmoso, intimista e intenso, plasmando alguns dos melhores atributos de um artista inovador e bastante criativo e que, no modo como agrega, burila e mistura o orgânico e o sintético, mostra uma saudável e sedutora faceta marcadamente contemporânea. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:20

Os Melhores Discos de 2025 (10-01)

Segunda-feira, 29.12.25

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10 - Califone - The Villagers Companion

Intenso, orgânico, intimista e intrincado, The Villager's Companion é um autêntico regalo para os ouvidos de todos aqueles que sentem prazer em sentir canções que escorrem lentamente, enquanto absorvem todas as suas nuances e detalhes, até os mais ínfimos e, durante esse processo, dão, muitas vezes instintivamente, forma a ideias, conceitos, pensamentos e até decisões, que as mesmas suscitam. De facto, a audição dedicada das nove composições do disco é marcante e deixa um lastro de sensações que espicaçam e se sentem com elevado grau impressivo, mesmo após o ocaso dos pouco mais de quarenta minutos que dura o registo.

9 - Noiserv - 7305

7305 é um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcança, no seu todo, laivos de excelência que alargam os horizontes sonoros do autor e o arco concetual estilístico do seu catálogo, com superior mestria. Ao longo de pouco mais de trinta e dois minutos estabelece pontes entre aquilo que é definido como o orgânico e acústico e o sintético, através de um manancial de ligações de fios e transistores que debitam um infinito catálogo de sons e díspares referências, únicas no cenário alternativo nacional e que também exalam um intenso charme, induzido por uma filosofia interpretativa que, mesmo tendo por trás um cada vez mais diversificado arsenal instrumental, nunca abandona aquele travo minimalista, pueril, orgânico e meditativo que carateriza o modus operandi deste músico único.

8 - Cass McCombs – Interior Live Oak

Cometa repleto de brilho e de cor, Interior Live Oak é, portanto, uma verdadeira experiência imersiva e metafórica, plena de densidade, onde muitas vezes o acústico e o elétrico se confundem. É um disco generoso e esteticamente inquietante, porque não lhe falta diversidade. Mas também é um trabalho emocionalmente acolhedor, porque tem uma estética conselheira e dialogante que não é de descurar.

7 - The Antlers - Blight

Os pouco mais de quarenta e cinco minutos de Blight impressionam imenso, quer pela riqueza detalhística e pela diversidade de nuances, transversal às nove canções do alinhamento, quer pela própria filosofia lírica e estilística subjacente ao registo e, acima de tudo, pela emotividade e assombro que a sua audição dedicada suscita. O álbum encarna uma espécie de epopeia sonora que acumula um amplo referencial de elementos típicos de diversos universos sonoros, que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica, cinematográfica e até, diria eu, objetivamente sensual.

6 - Damien Jurado - Private Hospital

Private Hospital proporciona-nos, em pouco mais de trinta e dois minutos, um festim de indie pop rock luxuriante e vibrante, com forte travo vintage, potenciado por um processo de gravação eminentemente analógico, que coloca as fichas num clima ligeiramente jazzístico. Estas novas canções de Damien Jurado, sendo instrumentalmente fartas e filosoficamente tocantes, comunicam com o nosso âmago, através de uma forma de compôr que, algures entre a penumbra e a luz e com uma sofisticação muito própria, é incubada por um dos maiores cantautores e filósofos do nosso tempo, um artista sem paralelo no panorama da indie folk contemporânea.

5 - Lord Huron - The Cosmic Selector Vol. 1

Com uma discografia já bastante sólida e com uma vasta legião de seguidores fiéis, Lord Huron solidifica em The Cosmic Selector Vol. 1, com notável eficácia, a elevada bitola qualitativa do seu catálogo, à boleia de doze canções que, em quase cinquenta minutos, nos presenteiam com canções que calcorreiam caminhos tão díspares como a folk introspetiva, o rock alternativo e o rock progressivo e o próprio jazz. É um disco fantástico e cheio de nuances, mas também íntimo, profundo, reflexivo. É um registo repleto de laivos musicais de excelência e que proporcionam ao ouvinte muitas boas sensações, que só a vivência da audição consegue suscitar e descrever com detalhe.

4 - Midlake - A Bridge To Far

Com um alinhamento de dez canções e produzido por Sam Evian, A Bridge To Far reclama, com firmeza, o posicionamento dos seus autores num lugar de relevo do panorama indie e alternativo, nomeadamente naquele espetro sonoro que aposta na riqueza dos detalhes e na sapiência melódica, como traves mestras do processo criativo. De facto, os Midlake sempre tiveram apetência para a criação de canções aprazíveis e reluzentes e que, simultaneamente, contendo sempre um elevado grau de acessibilidade, mostrassem um elevado grau de refinamento, servindo-se da típica folk norte-americana, feita de cordas reluzentes e com aquele timbre metálico ecoante tão caraterístico. Em suma, se o resultado final de A Bridge To Far não deixa de ser vistoso, a verdade é que é também profundamente comovente, até no modo como nos mostra que os Midlake investiram muito de si próprios e da sua exposição pessoal perante o mediático, naquele que é o conteúdo do registo. Essa coragem, geralmente universalmente incompreensível, é sempre de realçar e de elogiar e ainda mais quando acontece de modo tão deslumbrante e bonito.

3 - Dumbo Gets Mad - Five Eggs

Five Eggs é uma elegante e bem sucedida viagem sonora, que nos proporciona, em pouco mais de trinta minutos, uma espetacular e efusiante trip psicadélica de elevado calibre e verdadeiramente narcótica para quem se deixar levar por uma doutrina que se serve de guitarras, acústicas ou eletrificadas e de sintetizadores inspirados para, com uma ímpar teatralidade e uma inimitável versatilidade estilística, criar grandiosas canções que versam sobre algumas dicotomias que, no fundo, regem a nossa existência mais metafísica. É um disco compacto, mas multifacetado, solidificando a habitual estratégia de Luca Bergomi de construir alinhamentos de vários temas que funcionem como uma espécie de tratado de natureza hermética, onde esse bloco de composições não é mais do que partes de uma só canção de enormes proporções, porque é esse o efeito que este disco de certa forma transmite.

2 - Jeff Tweedy - Twilight Override

Triplo álbum, Twilight Override é um verdadeiro exercício exaustivo de megalomania, para ser escutado na íntegra, como um todo. Instrumentalmente heterogéneo, com momentos épicos e outros intimistas, tem como grande trunfo a força que emana de dentro de si, nomeadamente no modo como se debruça sobre as fragilidades e as potencialidades da nossa espécie, ou seja, sobre o conceito de humanidade, aquela humanidade que todos temos dentro de cada um de nós e como essa mesma humanidade conduz e determina a forma como nos relacionamos com o próximo e vivemos em comunidade. A partir daí, o amor acaba por ser o tema central do disco. Não apenas o amor sensual e que é vivido entre duas pessoas apaixonadas e que se relacionam emocional e fisicamente, mas também a compaixão, a amizade, a ternura e o apego que temos por aqueles que nos rodeiam e fazem parte da nossa vida. É, sonoramente, um impressivo e jubilante tratado folk, dominado, de alto a baixo, por timbres de cordas, muitas vezes particularmente estridentes, que abastecem a tal constante dicotomia entre sentimentos e confissões, não faltando também, algumas nuances mais eletrificadas e radiofónicas, sempre sem descurar a essência eminentemente reflexiva e sentimental da génese do catálogo do autor.

1 - Geese - Getting Killed

Caos e tensão são adjetivos que se ajustam às mil maravilhas aos Geese, uma banda de Nova Iorque pujante e, ao mesmo tempo íntima, contundente e simultaneamente emotiva. São o exemplo perfeito de como na música muitas vezes a ausência de regras estilísticas rigidas, de seguidismos ou de balizamentos é, também, uma boa fórmula para se chegar ao sucesso e à tão almejada perfeição. Getting Killed, o novo álbum do projeto, pode ser catalogado, de modo simplista, como um disco de indie rock, mas é claramente muito mais do que isso. Os seus quarenta e cinco minutos condensam, sem ordem definida e numa espécie de caos ordenado, world music, jazzfolkrockpopR&Bgrungegarage, psicadelia, punk e tudo aquilo que mais quiseres colocar nesta listagem. Depois, qual cereja no topo do bolo, temos Cameron Winter, considerado já por muitos como um dos vocalistas mais carismáticos do cenário indie e alternativo atual. Se num segundo ele choca-te e instiga-te com um voz ensurdecedora e, imagine-se, algo desconfortável, pouco depois está a falar, de modo contundente, ao teu coração, sussurrando-te ao ouvido com o registo mais adoçicado que possas imaginar. Cheio de força e vigor criativo, timbres e dinâmicas, este quarteto nova iorquino mostra em Getting Killed que o sucesso e a felicidade no seio desta forma de arte chamada música, podem andar de mãos dadas, desde que se ponha de lado convenções e regras e se aposte numa fé inabalável no instinto e naquilo que ele nos pedir que seja feito no momento de criar e de desconstruir, porque aí, quando a realidade se dissolve, vale mesmo tudo.

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publicado por stipe07 às 20:23

Os Melhores Discos de 2025 (20-11)

Domingo, 28.12.25

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20 - Jens Lekman - Songs for Other People’s Weddings

Este disco é um verdadeiro musical, com dezassete canções intensas e que exalam uma euforia indescrítivel, que é para ser ouvida em cerca de oitenta minutos sem pausas ou cortes, para poder ser devidamente apreciado. A história das canções, o dito musical, acompanha o arco do romance entre J, o alter ego de Lekman, e V. Conhecem-se num casamento onde todos os convidados estão vestidos como músicas e depois de tomarem um comprimido com sabor a laca, entregam-se à ligação lúdica que definirá a sua intimidade. Trata-se de estar apaixonado e, ao mesmo tempo, ser um observador externo do amor, participante e espectador, uma divisão que esbate a linha entre a vida e a música, algo que Lekman adora fazer.

19 - Living Hour - Internal Drone Infinity

As dez canções deste disco incorporam, na íntegra, doses indiscretas de uma pop suja e nostálgica, que nos leva a degustar, em pouco mais de trinta e cinco minutos, um amigável confronto entre o rock alternativo de cariz mais lo fi com aquela pop particularmente luminosa e com um travo a maresia muito peculiar. Conceitos como densidade, nostalgia, crueza e hipnotismo, assaltam a nossa mente canção após canção, sempre com elevada essência pop e um acerto melódico que nunca vacila.

18 - The Lemonheads - Love Chant

Love Chant é uma confirmação de um elevado grau de astúcia e criatividade, assinado por Evan Dando, a grande força motriz dos The Lemoheads, um músico que é, sem sombra de dúvida, um dos nomes mais relevantes do indie rock das últimas quatro décadas. São pouco mais de trinta e cinco minutos que nos levam facilmente e num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, à boleia de uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, particularmente luminoso e que acaba por se tornar até viciante, tal é a sua frescura e a proximidade que estabelece com o ouvinte. Em Love Chant não deslumbra apenas a versatilidade instrumental e performativa dos intervenientes, mas também, muitas vezes, o balanço perfeito entre o vigor e a delicadeza dos arranjos, dominados quase sempre pelas cordas, mas, principalmente, pelo tom emocional e profundamente melódico das canções, que plasmam uma evidente maturidade musical de um projeto que ainda se quer mostrar relevante, interventivo e inventivo, através de um dos melhores exemplares de indie rock do ano.

17 - Preoccupations - Ill At Ease

Mestres em replicar um som de forte cariz urbano e industrial, um perfil interpretativo que ali, algures entre o apogeu do punk rock oitocentista e o enganador ocaso daquele krautrock que ganhou forma e sustento na década anterior, encarnado, à época, num vaivem transatlântico entre Berlim e a costa leste dos Estados Unidos, os Preoccupations são, claramente, um dos projetos mais excitantes da atualidade dentro do espetro sonoro em que se movimentam. Neste seu novo álbum, vibrante, efusivo e repleto de efeitos sintéticos de forte cariz retro e com uma ímpar tonalidade abrasiva, os canadianos mostram, com vigor, ao que vêm. O tempero em que se cozem as oito canções Ill At Ease, mostra o modo impressivo como os Preoccupations voltam a querer estar na vanguarda da indução de novas nuances e conceitos estilísticos a um género sonoro demasiado abrangente para se poder dizer que são diminutas as possibilidades de lhe acrescentar algo de novo e diferente.

16 - Ezra Furman - Goodbye Small Head

Goodbye Small Head são doze variações sobre a experiência de perder completamente o controle, seja por fraqueza, doença, misticismo, BDSM, drogas, desgosto ou apenas por viver numa sociedade doente com os olhos abertos. O conteúdo deste incrível tomo de canções profundamente pessoais, ressoam no nosso íntimo sem apelo nem agravo, mesmo que nos possa causar algum desconforto, o conteúdo filosófico das mesmas. Com uma energia, uma autenticidade e um carisma inconfundíveis, Goodbye Small Head oferece-nos uma viagem aventureira e até algo psicadélica, feita por um músico que sente finalmente ter força, amor próprio e vigor para encarar diferente o mundo novo que se abriu de par em par depois de concluído o processo de transformação pessoal que viveu, com a primazia da guitarras, o charme do piano e a insistência em utilizar entalhes sintéticos sem receios, a demonstrarem cabalmente que a carreira de Furman merece, claramente, uma projeção intensa, até porque temos aqui canções que podem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída, ou necessita urgentemente de assumir uma outra identidade.

15 - Throwing Muses - Moonlight Concessions

Os norte-americanos Throwing Muses são, sem qualquer dúvida, um nome fundamental do rock alternativo contemporâneo. Sempre disponíves para acompanhar as novas tendências e conseguindo um equilíbrio perfeito entre o seu adn e algumas nuances mais recentes, vão, disco após disco, mantendo uma vitalidade criativa apreciável, que ganha novo fôlego nesta coleção de canções que encontram o seu sustento no rock lo fi, no garage e também naquele punk rock mais sujo e visceral e, talvez por isso, o mais genuíno e eficaz. Num resultado final bastante orgânico e cheio de personalidade, aspereza e delicadeza são duas faces de uma mesma moeda em que persiste, independentemente do estilo de cada composição, um frenesim sempre latente e um forte cariz lo fi, com as cordas a serem dedilhadas com uma aúrea de aspereza e rugosidade únicas, mas também com ímpar subtileza e charme, num disco que é, no seu todo, algo inebriante e que exala um salutar experimentalismo garage livre de constrangimentos.

14 - Dan Mangan - Natural Light

Natural Light é uma coleção de canções de amor, pensadas para dar alguma cor e alento a um mundo claramente à beira do colapso. Em treze canções, Natural Light oferece-nos um intimista, impressivo e tocante tratado de indie folk, repleto de canções melodicamente inspiradas e que têm no registo vocal rugoso, mas tremendamente realista de Mangan e na guitarra acústica, quase sempre enredada com diversos entalhes percussivos, de pendor essencialmente orgânico, as suas grandes traves mestras.

13 - Sun Kill Moon and Amoeba - Sun Kil Moon And Amoeba, Vol. II

Sun Kil Moon And Amoeba, Vol. II é o segundo capítulo de uma saga colaborativa que Sun Kil Moon tem encetado, nos últimos tempos, com um grupo de músicos húngaro de jazz chamado Amoeba. Trata-se de um belíssimo compêndio sonoro, onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e esteticamente bastante vincada e com uma assintura única, em uma hora de música que transborda uma majestosa e luminosa melancolia.

12 - Ben Kweller - Cover The Mirrors

Cover The Mirrors é um álbum intenso no modo como exala sentimentos profundos e marcantes, sendo o primeiro trabalho lançado pelo autor, depois da morte do seu filho, Dorian Zev, num acidente de viação em dos mil e vinte três. É num vaivém constante entre esperança e acomodação, aceitação e rejeição e luta e desespero, que desfila um verdadeiro festim de canções pop, umas vezes mais límpidas, noutros momentos ruidosas, mas sempre exemplarmente picotadas e fragmentadas, de modo a penetrarem, sem hesitação, no mais profundo no nosso subconsciente. Cover The Mirrors prova que Kweller comunica connosco através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão plasmadas nas suas canções, usando como principal ferramenta alguns dos típicos traços identitários de uma espécie de folk psicadélica, com uma considerável vertente experimental associada.

11 - Arcade Fire - Pink Elephant

Pink Elephant é descrito pelos Arcade Fire como cerca de quarenta e dois minutos de punk místico cinematográfico, que convida o ouvinte para uma odisseia sonora, uma busca pela vida que existe dentro da perceção do indivíduo, uma meditação sobre a escuridão e a luz, a beleza interior, enquanto se debruça sobre aquela sensação que todos conhecemos de querermos evitar um pensamento o mais possível e esse simples facto ser suficiente para que ele não se desvaneça. De facto, quer o aspeto visual do álbum, quer o conteúdo sonoro do mesmo, confirmam estarmos na presença desse tal passo concetual que encarna, claramente, um passo em frente na carreira do projeto canadiano, cada vez mais distante do épico rock alternativo, com deliciosas pitadas de indie folk, que nos marcou a todos no início deste século. Assim, em Pink Elephant, com diversidade, criatividade e, a espaços, com elevado hipnotismo e magnetismo e sempre com uma contemporaneidade ímpar, os Arcade Fire colocam todas as fichas numa filosofia sonora que encarna uma espécie de arco interpretativo que abraça a herança kraftwerkiana setentista com o período áureo do melhor punk rock oitocentista.

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publicado por stipe07 às 21:02

Bill Callahan – Lonely City

Sábado, 27.12.25

Bill Callahan está de regresso ao nosso radar, nesta reta final de dois mil e vinte e cinco, com um naipe de novos singles, quatro anos depois de ter dado as mãos a Will Oldham, que assina a sua música como Bonnie “Prince” Billy. Nessa altura fizeram juntos uma viagem a algum do melhor cancioneiro norte-americano contemporâneo, incubando uma fascinante coleção de versões de originais de nomes que respeitam e veneram, apresentando sempre, em cada nova gravação, um terceiro elemento convidado.

A saga começou no início de novembro com The Man I’m Supposed To Be, um delicioso tratado de country folk rock psicadélico substantivo e de primeira água, feito de uma feliz simbiose entre viola acústica e guitarra rugosa e continua agora, quase no fim de dezembro com Lonely City, um tema que replica o arsenal instrumental do antecessor, mas de um modo mais intimista e cru.

Lonely City é uma canção que vai crescendo em arrojo, tensão e intensidade, à medida que vai recebendo novos detalhes percussivos, enquanto uma guitarra planante ciranda, insistentemente, em oposição ao andamento melódico, comprovando, com enorme mestria e refinadíssima acusticidade e a superior capacidade interpretativa de Callahan.

Estas duas canções são os primeiros avanços revelados de My Days of 58, o disco que o músico norte-americano, natural de Silver Spring, no Maryland, vai colocar nos escaparates a vinte e sete de fevereiro de dois mil e vinte e seis, com a chancela da Drag City e que sucede ao registo  YTI⅃AƎЯ, que o artista lançou em dois mil e vinte e dois. O disco foi criado com a ajuda de Matt Kinsey na guitarra, Dustin Laurenzi no sax tenor e Jim White na bateria, além de Richard Bowden (fiddle), Pat Thrasher (piano), Chris Vreeland (baixo), Mike St. Clair (trombone) e Bill McCullough (pedal steel). Confere Lonely City e o vídeo do tema assinado pelo fotógrafo de rua Daniel Arnold...

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publicado por stipe07 às 14:42






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