Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

The KVB – Only Now Forever

Foi no passado dia doze de outubro à boleia da Invada Records que chegou aos escaparates Only Now Forever, o sexto registo de originais da carreira dos londrinos The KVB, mais uma banda a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta. Liderados pela dupla Nicholas Wood e Kat Day, o núcleo duro do projeto, os The KVB gravaram este Only Now Forever em Berlim, no apartamento que a banda tem nessa cidade alemã, depois de um ano de dois mil e dezasseis particularmente intenso e repleto de concertos.

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Only Now Forever é um extraordinário registo sonoro em cuja concepção a dupla esmerou-se na construção de composições volumosas e conduzidas por um som denso, atmosférico e sujo, que encontra o seu principal sustento nas guitarras, na bateria e nos sintetizadores, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções que espreitam perigosamente uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia.

Com vários instantes sonoros relevantes, nomeadamente o compositório eletrónico que sustenta a voluptuosa epicidade de Above Us, o clima hipnótico do ecos e do som repetitivo das teclas de On My Skin e a melodia enleante de Only Now Forever, o tema homónimo do disco, três dos vários momentos altos deste agregado, Only Now Forever está recheado de canções onde os sintetizadores se posicionam numa posição cimeira, mas onde a primazia melódica foi entregue às guitarras, sempre acompanhadas por um baixo vibrante que nos recorda a importância que este instrumento ainda tem no punk rock mais sombrio que influencia tanto e tão bem esta banda. E há que realçar que os The KVB conseguem aliar às cordas desse instrumento, cuja gravidade exala ânsia, rispidez e crueza, uma produção cuidada, arranjos subtis e uma utilização bastante assertiva da componente maquinal.

Only Now Forever é mais uma cabal demonstração do modo exemplar como os The KVB são capazes de se insinuar nos nossos ouvidos com uma toada geral de elevado travo orgânico e fazem-no de modo inédito, porque são poucos os projetos contemporâneos que conseguem aliar desta forma a monumentalidade das cordas eletrificadas e da percurssão, com uma abundância de arranjos delicados, quer sintéticos, quer feitos com metais minimalistas. De facto, enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os The KVB já balizaram com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical. Espero que aprecies a sugestão...

The KVB - Only Now Forever

01. Above Us
02. On My Skin
03. Only Now Forever
04. Afterglow
05. Violet Noon
06. Into Life
07. Live In Fiction
08. Tides
09. No Shelter
10. Cerulean


autor stipe07 às 21:42
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Quinta-feira, 4 de Outubro de 2018

We Were Promised Jetpacks – The More I Sleep The Less I Dream

Foi no passado dia catorze de setembro que viu a luz do dia The More I Sleep The Less I Dream, o novo registo de originais dos We Were Promised Jetpacks, quarto disco desta banda de indie rock escocesa, natural de Edimburgo e já com década e meia de carreira. O projeto é composto atualmente por Adam Thompson, Michael Palmer, Sean Smith e Darren Lackie e tem apostado, registo após registo, num som que plana entre a experimentação e o psicadelismo e que se mostra cada vez mais maduro e consistente.

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Este projeto começou a sua carreira em 2003 num concurso de bandas de escola e o primeiro disco, These Four Walls, deveu muito do sucesso às músicas que colocou em várias séries de televisão e filmes. Tal facto não alçou os We Were Promised Jetpacks à fama no imediato, mas deixou-os debaixo do olho clinico de muita gente que, como eu, se interessa pela sonoridade tipica do grupo. Foi no segundo disco, In The Pit Of The Stomach, que este coletivo escocês obteve a consagração definitiva junto da crítica e do grande público, uma visibilidade que se cimentou há cerca de quatro anos com Unravelling, o antecessor deste The More I Sleep The Less I Dream, um disco liderado pelas guitarras e onde se escuta canções fáceis e ao mesmo tempo complexas, com variações, ruídos e efeitos variados.

Um dos factores que vai fazendo elevar a bitola qualitativa dos registos dos We Were Promised Jetpacks é o cada vez mais aturado trabalho de produção, desta vez a cargo de Jonathan Low. Percebe-se, ao longo das dez canções do alinhamento, que nenhum detalhe foi deixado ao acaso e houve sempre a intenção de dar algum sentido épico e grandioso às canções, arriscando-se o máximo até à fronteira entre o indie mais comercial e o teste de outras sonoridades.

Sendo assim, The More I Sleep The Less I Dream é um registo que pega nas experiências pessoais mais recentes do grupo e nas típicas agruras e peripécias de uma banda que passa bastante tempo em digressão, para incubar um som que, não renegando a instintiva simplicidade que sempre pautou a filosofia interpretativa dos We Were Promised Jetpacks, acaba por representar uma nova fase mais eclética, abrangente e sofisticada no formato sonoro do grupo. Basta escutar a toada negra e intrincada do single Hanging In, as guitarras luminosas de Thompson e Michael em In Light, o sumptuoso exercício percurssivo que alicerçou Impossible e o groove do baixo de Sean, exemplar em Someone Else’s Problem, para perceber uma busca pela construção de hinos de estádio à boa maneira do rock britânico, num disco cheio de energia e dominado por um descarado sentimento de urgência, aquele que poderá mostrar a luz a este grupo caso tenha a pretensão de ascender definitivamente à premier league rockeira no arquipélago de Sua Majestade. Espero que aprecies a sugestão...

We Were Promised Jetpacks - The More I Sleep The Less I Dream

01. Impossible
02. In Light
03. Someone Else’s Problem
04. Make It Easier
05. Hanging In
06. Improbable
07. When I Know More
08. Not Wanted
09. Repeating Patterns
10. The More I Sleep, The Less I Dream


autor stipe07 às 20:44
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Sábado, 15 de Setembro de 2018

Smashing Pumpkins – Silvery Sometimes (Ghosts)

Smashing Pumpkins - Silvery Sometimes (Ghosts)

Billy Corgan continua a tentar que os seus The Smashing Pumpkins, uma banda fundamental do rock alternativo das últimas três décadas, consigam regressar aos bons e velhos tempos. Desta vez, parece-me haver uma maior possibilidade de sucesso porque, além de contar com o guitarrista Jeff Schroeder, colaborador de longa data de Corgan, finalmente conseguiu fazer regressar a casa James Iha e Jimmy Chamberlin, elementos fundamentais no conteúdo dos discos mais emblemáticos da banda, lançados na primeira metade da década de noventa.

Após meses de ensaio, o trio tem vindo a apresentar as suas primeiras amostras em dezoito anos, sendo a mais recente um tema intitulado Silvery Sometimes (Ghosts), canção que deverá fazer parte de Shiny and Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun., um álbum gravado com a ajuda de Rick Rubin e que verá a luz do dia a dezasseis de novembro via Napalm. A canção encaixa de modo assertivo na melhor herança dos The Smashing Pumpkins e mostra que a química afinal pode ainda existir. Confere...


autor stipe07 às 10:59
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

Shame - Songs Of Praise

É com genuína mágoa que confesso ter sido já tardiamente que descobri Songs Of Praise, o disco de estreia dos britânicos Shame, um quinteto formado por Eddie Green, Charlie Forbes, Josh Finerty, Sean Coyle-Smith e Charlie Steen, oriundo dos arredores de Londres, abrigado pela chancela da Dead Oceans e que em dez canções oferece-nos um punk rock de primeira água, com um espetro identitário abrangente que, dos The Fall aos Stone Roses, passando pelos Buzzcocks, Ride, os Blur, os Primal Scream, os Joy Division e os mais contemporâneos Parquet Courts ou Interpol, encontra as suas origens no rock psicadélico setentista e no punk da década seguinte e que não renegando algumas caraterísticas essenciais do rock alternativo noventista, também não enjeita abraçar a herança nova iorquina que tentou salvar o rock no início deste século.

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Songs Of Praise foi um dos discos mais comentados pela crítica britânica no início deste ano e a publicação New Musical Express chegou mesmo a dar nota máxima (cem valores) ao seu conteúdo quando publicou a crítica do álbum, um valor incomum e que expressa, de certo modo, a ânsia que existe nesse mercado pela descoberta e posterior garantia de sobrevivência de projetos sonoros que fujam ao apelo radiofónico e que consigam também oferecer ao rock novos fôlegos e heróis. E de facto, para os amantes do género, Songs Of Praise é um disco que merece audição cuidada e que irá, certamente, tornar-se objeto de culto e de devoção durante algum tempo.

Realmente Songs Of Praise está repleto de instantes que impressionam e deliciam. No clima intuitivo e ao mesmo tempo imponente de Dust On Trial, no modo como a bateria e as guitarras se entrelaçam com o baixo em Concrete, no punk direto de Donk, na energia intiuitiva de Lampoon, na riqueza instrumental de Tasteless, canção que cita o lendário Bigby de Trainspotting ou na simplicidade melódica assustadoramente feliz de Friction, talvez os dois temas que melhor homenageiam a britpop no disco e, principalmente, no clima contemplativo e denso de Angie, uma canção que fala de um amor não correspondido que um adolescente sente por alguém que está prestes a suicidar-se, aborve-se até ao tutano uma obra repleta de méritos e de acertadas conexões criativas entre diferentes espetros de um mesmo universo sonoro, que abraça o lado mais negro do amor e as suas habituais agonias, mas também as dores e os medos de quem procura sobreviver nesta típica urbanidade ocidental cada vez mais decadente de valores e referências, a viver o brexit e social e politicamente cada vez mais crispada e bipolarizada.

Songs Of Praise é o reflexo contundente, seco e profuso de um rock de guitarras que emergiu para dias de infinita glória de um canto escuro dos subúrbios de uma problemática Londres e da sua zona sul em parte decadente, um rock que mostra sem medo as suas garras, um rock feito intuitivamente e que não quer dar concessões ao mainstream. Os seus autores são cinco jovens britânicos de gema, rudes e efervescentes, que parecem já ter o seu modus operandi presente e, devido a esta extraordinária estreia, brilhante, madura e refrescante, um futuro devidamente consolidado na primeira linha do indie rock alternativo. Espero que aprecies a sugestão...

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autor stipe07 às 14:54
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Domingo, 9 de Setembro de 2018

Menace Beach – Black Rainbow Sound

Pouco mais de ano e meio após o excelente Lemon Memory, a dupla Menace Beach de Ryan Needlham e Liza Violet está de regresso aos lançamentos discográficos com Black Rainbow Sound, um compêndio de dez canções que, sendo o terceiro da carreira deste projeto oriundo de Leeds, na Inglaterra, tem tudo para lançar definitivamente o grupo para uma projeção superior que o antecessor e Ratworld, o álbum de estreia, editado no início de dois mil e quinze, têm vindo a prometer e a projetar desde que viram a luz do dia.

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Apesar das origens, os Menace Beach continuam com os ouvidos muito colocados no outro lado do atlântico, continuando a apostar numa sonoridade ser fortemente influenciada pelo rock alternativo americano, mas desta vez também olham com especial atenção para a Europa, com a herança do punk de Manchester e da eletrónica alemã e a própria contemporaneidade de nomes como os Bauhaus, TOY, The Horrors, Spacemen 3 e outros a saltarem ao pensamento do ouvinte mais atento à medida que se escuta este Black Rainbow Sound. E isso sucede porque, desta vez, os Menace Beach oferecem um alinhamento com uma menor crueza lo fi que os registos anteriores, em favor de um som mais elaborado, negro e intrincado, com Black Rainbow Sound, o tema homónimo e que conta com a participação especial de Brix Smith, a mostrar esse lado inédito no grupo, assente numa mistura do sintético com as guitarras, com um nível de psicadelia incomum tendo em conta o historial anterior da banda.

Esta caraterística nova dos Menace Bech, plasmada logo nesse primeiro tema de Black Rainbow Sound e, por sinal o homónimo, serve para o grupo afirmar essa espécie de virar de página, que funciona, neste caso concreto, como um avanço em frente rumo a novos territórios, fruto não só da ânsia de experimentar nvas receitas mas também de provar o amadurecimento e o grau de confiança cada vez maior de uma dupla que percebe que já conseguiu grangear uma bade de fâs sólida e devota e que quer agora alargar o seu espetro sonoro e chegar a outros ouvintes. Os teclados Cósmicos de Satellite e o clima progressivo, negro e rugoso de Crawl In Love, além de abrirem portas para o habitual mundo paralelo feito de guitarras distorcidas governado pela nostalgia do grunge e do punk rock a que os Menace Beach nos habituaram, já não está impregnado por aquela visceral despreocupação juvenil relativamente ao ruído e à crueza melódica e à temática das canções que era apanágio da dupla, plasmando agora um clima mais adulto, ponderado e, acima de tudo, mais elaborado e amplo.

À medida que Black Rainbow avança notamos, em suma, que as canções dos Menace Beach estão menos simples e diretas e, por isso, mais desafiantes. Se em 8000 Molecules as vocalizações de Liza, de cariz aspero e lo fi, com um ligeiro efeito reverberado na voz, encantam pelo modo como ela consegue salvaguardar aquela delicadeza tipicamente feminina, sem ser ofuscada pela distorção das guitarras e pelos efeitos das teclas e se em Hypnotiser Keeps The Ball Rolling há uma demanda por territórios mis viscerais e crus, já em Tongue alguns dos principais ingredientes típicos do grunge e do punk rock direto e preciso também estão presentes, nomeadamente no baixo, mas é mais intrincada e feliz a mistura destes elementos com travos de shoegaze, num resultado final que não é tão pesado e visceral como o habitual grunge, mas que, honrando a herança desse subgénero do rock alternativo, também não é apenas delírio e pura experimentação sónica, até porque, logo a seguir, em Mutator, os Menace Beach até colocam a própria eletrónica setentista em elevado ponto de mira e em Holy Crow o rock psicadélico típico dessa mesma década.

Caldeirão sonoro contundente e mais elaborado que os dois discos anteriores dos projeto, Black Rainbow Sound coloca os Menace Beach na senda de um clima mais pop, com as guitarras em looping e que disparam em todas as direções, acompanhadas por uma bateria que não desarma nem dá descanso, a serem também agora acompanhadas, em termos de protagonismo, por uma vertente sintética, uma nuance nova que dá à banda novos horizontes, sendo o resultado final uma espécie de eletropop rock, neste caso baseado num leque alargado de sonoridades que incluem o punk, o psicadelismo, o krautrock ou o post rock, tudo aliado a um trabalho de exploração experimental pleno de bom gosto, criatividade e consistência. Espero que aprecies a sugestão...

Menace Beach - Black Rainbow Sound

01. Black Rainbow Sound (Featt. Brix Smith)
02. Satellite
03. Crawl In Love
04. Tongue
05. Mutator
06. 8000 Molecules
07. Hypnotiser Keeps The Ball Rolling
08. Holy Crow
09. Watermelon
10. (Like) Rainbow Juice (Feat. Brix Smith)


autor stipe07 às 16:16
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2018

Spiritualized - And Nothing Hurt

Chegou hoje mesmo aos escaparates e à boleia da Fat Possum And Nothing Hurt, disco que quebra um hiato de seis anos dos britânicos Spiritualized e que sucede ao muito aclamado Sweet Heart Sweet Light, um dos álbuns que mais rodou na nossa redação em 2012. And Nothing Hurt é o oitavo disco da carreira dos Spiritualized e foi gravado na íntegra por Jason Pierce, a.k.a. J. Spaceman, líder do grupo, numa pequena divisão da sua casa, contendo nove canções que, num processo contínuo de tentativa vs erro, se tornaram num verdadeiro desafio para o músico, que procurou um ambiente intimista e recatado sem colocar em causa o exigido som de estúdio que faz parte do adn do projeto.

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Jason Pierce é um eterno insatisfeito e esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a um artista que se serve desse eterno incómodo relativamente à sua obra, neste caso musical, para, disco após disco, tentar sempre superar-se e apresentar algo de inédito e que surpreenda os fãs. E no caso específico dos Spiritualized, uma daquelas bandas nada concensuais e, por isso, com seguidores que são, na sua esmagadora maioria, bastante devotos, como é o meu caso, ainda mais exigente se torna para o íntimo deste cantor, poeta e compositor britânico conseguir que esta sua filosofia de vida tenha efeitos práticos e seja bem sucedida. Assim, para Jason Pierce, não deverão haver dúvidas, neste dia em que o disco é finalmente colocado à venda, que And Nothing Hurt é a sua obra-prima, o melhor trabalho do catálogo dos Spiritualized, apesar de conter obras-primas do calibre de Songs In A&E (2008) ou ladies and gentlemen we are floating in space (1997), só para citar dois registos que são verdadeiros icônes sonoros da história da música das últimas duas décadas.

Logo em I'm Your Man, o segundo tema do disco, Jason Pierce expôe este seu modus operandi com ímpar clarividência e, além da o fazer através da letra da canção (I could be faithful, honest and true … dependable all down the line. But if you want wasted, loaded, permanently folded … I’m your man.), também no edifício melódico e instrumental da mesma, coloca todas as fichas em cima da mesa relativamente aquele que é o adn conceptual dos Spiritualized, exímios criadores de canções que assentam em guitarras que escorrem  pelas melodias com o notável travo lisérgico, exemplarmente preenchidas por arranjos de cordas, orquestrações, efeitos e vozes, uma receita onde tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração de cada canção tivesse um motivo para ser audível dessa forma.

Este modo de criar acaba por ser transversal num alinhamento particularmente homogéneo, que nos permite aceder a uma outra dimensão, mística e cósmica, num subida feita à boleia de timbres, detalhes e harmonias, peças montadas e agregadas com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, sem nunca descurarem as mais básicas tentações pop e onde tudo soa, no final e no seu todo, utopicamente perfeito. De facto, se nos sopros de I'm Your Man há um calafrio na espinha que não nos deixa duvidar acerca das boas intenções de Pierce, se nas teclas sintetizadas, na bateria frenética e na guitarra agreste de On The Sunshine é possível obtermos uma portentosa tomada de consciência acerca dos nossos maiores atributos e se na delicadeza crescente e progressiva de Let's Dance escuta-se um convite explícito ao optimismo, é na soul da guitarra e no riff do refrão do single Here It Comes (The Road) Let’s Go, que se cerra os punhos (Take the road down to the stream, Be sure to keep your licence clean.) e que se deixa para trás todas as dúvidas acerca da capacidade que este álbum poderá ter para ser uma banda sonora indicada para instantes da nossa existência em que somos desafiados e superar obstáculos que à partida, por falta de coragem, fé e alento, poderiam ser insuperáveis, mas que durante a audição do registo sabem a meros precalçõs ou areias na engrenagem de fácil superação.

Esta capacidade que a música dos Spiritualized tem de fazer-nos sorrir sem razão aparente, de nos conseguir pôr a correr mais depressa, a pensar com mais clarividência e a sentir e a amar com maior arrojo, emoção e intensidade, está, mais uma vez, exemplarmente plasmada neste And Nothing Hurt, um disco onde gospel, rock, country, pop e psicadelia se juntaram mais uma vez para fazer a vontade a Pierce e, pelo menos por alguns meses, deixá-lo descansado, satisfeito e realizado com esta grandiosa e lindíssima obra, que tem tudo e mais alguma coisa para surgir no topo de algumas listas dos melhores registos do ano, lá para dezembro. Espero que aprecies a sugestão...

Spiritualized - And Nothing Hurt

01. A Perfect Miracle
02. I’m Your Man
03. Here It Comes (The Road) Let’s Go
04. Let’s Dance
05. On The Sunshine
06. Damaged
07. The Morning After
08. The Prize
09. Sail On Through

 


autor stipe07 às 16:01
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

El Ten Eleven - Banker's Hill

Kristian Dunn e Tim Fogarty são a dupla que dá vida ao projeto El Ten Eleven, uma banda com origem em Los Angeles e um nome fundamental do chamado post rock. É uma dupla que desde dois mil e dois vem direcionando o seu processo de criação sonora dentro de uma psicadelia rock ampla, progressiva e elaborada, através de um som firme e definido e onde a bateria e a guitarra assumem uma função de controle simbiótico, nunca se sobrepondo demasiado um instrumento ao outro, com Banker's Hill, o mais recente disco do grupo, a encarnar toda esta trama com elevada bitola qualitativa, através de um espírito ecoante e esvoaçante, transversal às nove canções do seu alinhamento e que, sendo devidamente degustado, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

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Começa-se a escutar com a merecida devoção Banker's Hill e percebe-se, no imediato, o superior grau de cumplicidade dos dois músicos que esculpem, com denodo, composições que são verdadeiras telas sonoras que exigem demorada contemplação para serem devidamente saboreadas e entendidas, tendo em conta o espetro sonoro que baliza alguns dos cânones fundamentais da história do rock contemporâneo que guiam o percurso musical destes El Ten Eleven.

Assim, logo no ambiente etéreo e imersivo criado pelos riffs planantes da guitarra de Three And A Half High And Rising ficamos esclarecidos acerca da constante omnipresença daquele experimentalismo rock que ditou a sua lei nos grandiosos anos setenta e da salutar psicadelia instrumental e melódica que tem vindo a definir alguns dos nomes fundamentais desse género e que hoje está a ser replicado com enorme sucesso, principalmente do lado de lá do atlântico. Depois, o baixo vincado, a bateria elaborada e a distorção agreste de Phenomenal Problems, assim como a majestosidade das guitarras que conduzem We Don't Have A Sail But We Have A Rudder e a direção delicada e ao mesmo tempo mais esculpida e etérea, que a banda assume em You Are Enough e o acabamento límpido e minimalista, mas fortemente sentimental e profundo de Gyroscopic Precession, além de arrancarem o máximo daquilo que as guitarras conseguem enfatizar ao nível dos efeitos e das distorções hipnóticas, acabam também por ser, cada tema à sua maneira, um piscar de olhos insinuante a um krautrock que, cruzado com um subtil minimalismo eletrónico, provam o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco que parece estar sempre em ritmo ascendente e que acaba por ter o seu momento maior, na minha opinião, no tema homónimo, pouco mais de seis minutos de altos e baixos, mudanças ritmicas e melódicas com um travo sempre nostálgico e até, em alguns instantes, algo inquietante, que parece querer retratar fielmente nada mais do que o simples ocaso.

Disco assertivo e onde os El Ten Eleven utilizaram todas as ferramentas e fórmulas necessárias para a criação de algo verdadeiramente único e imponente, Banker's Hill é marcado pela proximidade entre as canções que faz-se de uma instrumentação focada em estruturas técnicas particularmente elaboradas, que ampliam claramente os horizontes e os limites que vão sendo traçados por uma dupla que criou neste alinhamento mais uma fornada de instrumentais que têm tudo para tornarem-se em verdadeiros clássicos do chamado rock experimental. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:08
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Segunda-feira, 27 de Agosto de 2018

Interpol - Marauder

Depois de um interregno de quase quatro anos os Interpol já ofereceram aos escaparates Marauder, o novo disco desta banda nova iorquina liderada por Paul Banks. Marauder viu a luz do dia através da Matador Records e estão já agendadas algumas datas de uma extensa digressão para promover um registo que mantém este trio naquele formato que exalta o espírito sombrio dos anos oitenta e que têm replicado com elevado quilate. Esta trajetória leva já seis registos e ainda não é em Marauder que os Interpol largam aquele porto seguro onde Banks, Fogarino e Kessler atracaram um dia e que Dave Fridmann (Weezer, MGMT, The Flaming Lips, Tame Impala, Spoon), o produtor deste trabalho, parece ter sabiamente destrinçado, já que também não é ele que coloca em causa a herança identitária do trio, ao longo das treze canções do registo.

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Não é necessário escutar demasiados acordes de If You Really Love Nothing, o tema de abertura de Marauder, para se perceber essa evidência, à medida que iniciamos uma viagem alicerçada num Banks incisivo como sempre, nomeadamente no modo como toca aquela guitarra agreste, agudizada pelo efeito identitário da banda, aquele timbre metálico que lançou os Interpol para as luzes da ribalta no início deste século, quando com o indie rock genuíno de Antics e o post punk revivalista de Turn On The Bright Lights conquistaram meio mundo. Depois, mesmo que falte ao baixo aquele incisivo groove punk que os Interpol nunca mais mostraram desde que Carlos D abandonou a banda, Sam Fogarino cola, na bateria, todos os elementos acima referidos, com uma coerência exemplar. A receita repete-se em The Rover, mas de modo mais ritmado, um tema intenso e visceral, melodicamente bastante sedutor, um psicotrópico mental verdadeiramente eficaz e aditivo que, não sendo uma cover do clássico dos Led Zepellin com o mesmo nome, como à partida muitos poderão pensar, não deixa de conter aquela virilidade elétrica misturada com uma espécie de absurdo lírico que, sendo uma imagem de marca da escrita e composição de Paul Banks, também caraterizava muitos instantes sonoros da carreira do grupo de Jimmy Page e Robert Plant.

Este prometedor arranque de Marauder não é defraudado nas canções seguintes, caso o ouvinte tenha ficado entusiasmado com o mesmo. O modo como a guitarra se insinua em Complications, à espera que as distorções cheguem e se aconcheguem, fora de tempo, aos tambores da bateria e o cerrar de punhos que somos convidados a fazer em Flight Of Fancy, um dos momentos maiores de Marauder, pelo modo como homenageia aquele rock sombrio e nostálgico mas que nos preenche a alma porque nos faz vibrar e pular sem que haja amanhã e o piscar de olhos quase abusador que os Interpol fazem a territórios mais psicadélicos e progressivos no groove de Stay In Touch, além de nos permitirem renovar aquele prazer, tantas vezes difícil de descrever, que eles sempre provocaram no nosso íntimo, são canções que servem como resposta eloquente por parte da banda a todos aqueles que já duvidavam das capacidades do grupo em se focar novamente no som que melhor os identifica e na temática lírica que exemplarmente sempre abordaram, relacionada com o lado mais complicado das relações, a frustração, o tal absurdo e uma faceta algo provocatória que nunca enjeitaram demonstrar.

Até ao ocaso de Marauder, na inquietude crescente de Mountain Child, uma canção que, em espiral, mantém-nos empolgados do início ao fim, no post punk de Nysman, na insinuante melancolia que transborda de Surveillance, no frenesim de Number 10 e na sensualidade algo enigmática de Party's Over, o tal timbre da guitarra tão caraterístico dos Interpol mantém-se convincente, imperial e não deixa que o trio caia na armadilha de se deixar enredar por novas tendências mais intrincadas pelas quais tantos colegas se enlearam com o objetivo de mostrarem novos caminhos e uma superior heterogeneidade, mas acabaram por se perder. Essa opção coerente é, a meu ver, bem sucedida porque mostra uma superior experiência por parte do grupo nova iorquino e tem a mais valia de oferecer ao fã exatamente aquilo que ele espera de um disco dos Interpol e, ainda por cima, com elevada bitola qualitativa. Espero que aprecies a sugestão...

Interpol - Marauder

01. If You Really Love Nothing
02. The Rover
03. Complications
04. Flight Of Fancy
05. Stay In Touch
06. Interlude 1
07. Mountain Child
08. Nysmaw
09. Surveillance
10. Number 10
11. Party’s Over
12. Interlude 2
13. It Probably Matters


autor stipe07 às 22:04
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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018

Foxing – Nearer My God

Três anos depois do muito recomendável Dealer, os Foxing de Conor Murphy, Ricky Sampson, Jon Hellwig e Eric Hudson, estão de regresso aos discos com Nearer My God, o terceiro registo discográfico do grupo, dez canções que viram a luz do dia a dez de agosto último à boleia da Triple Crown Records e que foram produzidas por Chris Walla, antigo membro dos Death Cab For Cutie.

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Imponência e verticalidade na abordagem ao rock mais efusivo e de olhar anguloso a uma salutar epicidade, são duas ideias que assaltam o ouvinte mais atento logo em Grand Paradise, um tema conduzido por guitarras angulares plenas de riffs efusivos e ruidosos e que acaba por ser uma porta de entrada impressiva para um disco que se assume como um dos mais interessantes dentro das propostas recentes que abordam aquele rock progressivo que tem feito escola no outro lado do atlântico nas últimas três décadas. E esta banda de Saint Louis, no Missouri, parece querer assumir-se como porta estandarte de um subgénero do rock que tem tido um airplay cada vez menor depois do período aúreo que viveu no dealbar do novo século.

Nearer My God avança sem concessões no que concerne ao grau de imponência e de profusão sonora e na profunda emotividade lírica do single Slapstick, um tema que fala de dois amigos que dependem um do outro para viverem e o modo como nessa canção o piano se cruza com as guitarras, percebe-se que os Foxing são exímios  também no modo como contemplam o mundo que os rodeia e dissertam sobre algumas das suas maiores fraquezas e inquietações. Aliás, Conor Murphy considera que o mundo, tal como o conhecemos, está nas ruas da amargura social e económica e que vivemos todos a bordo de um navio prestes a afundar-se. Esse navio é a sociedade ocidental contemporânea dita civilizada e Nearer My God, tal como o título indica, pode servir como manual de escape ao cataclismo. O falsete à capella nos momentos iniciais de Lich Prince, antes de chegarem as cordas distorcidas e a bateria imponente e o falsete passar a berro, são apenas mais dois sinais sonoros de aviso urgente e, ao mesmo tempo, duas caraterísticas bem vincadas de uma identidade sonora muito própria, um emo rock que, pouco depois, nas sintetizações amarguradas de Five Cups e no frenesim algo cru e intuitivo de Gameshark, uma canção onde os sons de fundo típicos de jogos de computador são uma das suas nuances mais curiosas, se assume como bandeira para quem quiser trilhar outros caminhos menos sinuosos e mais próximos de uma espécie de espiritualidade que os Foxing aconselham vivamente a ser vivenciada caso ainda queiramos escapar da inevitabilidade e contribuir para o bem comum. O eco das batidas de Heartbeat e os bips telegráficos que se cruzam com o piano em Trapped In Dillard’s parecem conter, na sua sequência, uma espécie de código sagrado que, se conseguirmos decifrar, nos possibilita acedermos ao mundo alternativo que os Foxing consideram ser o melhor refúgio e a alternativa mais segura relativamente ao mundo real em que coexistimos. Espero que aprecies a sugestão...

Foxing - Nearer My God

01. Grand Paradise
02. Slapstick
03. Lich Prince
04. Gameshark
05. Nearer My God
06. Five Cups
07. Heartbeats
08. Trapped In Dillard’s
09. Bastardizer
10. Crown Candy
11. Won’t Drown
12. Lambert


autor stipe07 às 22:18
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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2018

Elephant Micah – Genericana

Os norte-americanos Elephant Micah de Joe O'Connell, Matt O'Connell, Jason Evans Groth e Zeke Graves estão de regresso aos discos com Genericana, seis canções misturadas por Scott Hirsch e masterizadas por Carl Saff e capazes de nos enredar de modo particularmente hipnótico num universo que tendo tanto de alienigena como de alucinogénico. É um disco que comprova a já mítica mestria que este projeto oriundo da Carolina do Norte tem revelado ao longo da carreira para criar composições sonoras onde o salutar experimentalismo, que não renega o uso de nenhuma fonte sonora, é a principal filosofia prática no momento de compôr. Neste caso, um sintetizador barato, alguns artefactos da marca Hindustani e um antigo deck de três pistas, foram parte do arsenal utilizado para criar e captar toda a miríade de sonse ruídos que se escutam ao longo deste incrível alinhamento de seis canções.

Resultado de imagem para Elephant Micah Genericana

Logo nos segundos iniciais de Genericana, um álbum com o artwork da autoria de Pete Schreiner, percebe-se que este disco é um poiso hermeticamente isolado do mundo real que conhecemos e que só é possível usufruir de tudo aquilo que ele tem para nos oferecer se nos deixarmos levar pela sua doutrina. Começa-se a escutar Surf A e percebe-se que ondas de ruído estático, loops de uma bateria eletrónica e alguns efeitos sintetizados muitas vezes impercetíveis são o ganha pão do arquétipo de um tema que acaba por nos apresentar com impressiva fidelidade o ambiente de um alinhamento que volta a repetir esta tríade, mas com outras nuances, em canções que contendo uma falsa sensação de minimalismo e atravessadas por uma guitarra que tanto pode estar eletrificada como ser dedilhada com elevada crueza, encarnam uma banda sonora que serve para os Elephant Micah refletirem e criticarem a realidade de uma América que culturalmente vive numa era em que vê a política a dominar e a condicionar cada vez mais, direta ou indiretamente o mundo do entretenimento.

Genericana tem este claro propósito de colocar em causa todos os estereótipos que parecem nos dias de hoje condicionar todos aqueles que criam musica no outro lado do atlântico. Para Joe O’Connell, o líder deste projeto, é necessário agitar as águas, remexer no que é efetivamente comercial e colocar os consumidores de música a refletirem se aquilo que escutam nos dias de hoje acrescenta ou não algo de importante e significativo às suas vidas. O disco serve também de crítica ao airplay que domina as rádios americanas e o modo como aquela que é a génese da música nativa tem sido abafada pelas recentes tendências da pop. Se Fire A homenageia a essência da country com que O'Connell cresceu e que o fez querer criar música, as distorções de Life A e o clima rugoso de Surf B, olham com particular saudosismo para o rock alternativo noventista, aquele rock que entre o grunge, o garage e outras nuances mais progressivas, mostrou a melhor forma do rock independente do lado de lá.

Em suma, prestando tributo aos melhores dias da música alternativa norte-americana de final do século passado, numa época onde a riqueza e a diversidade até deixaram que sonoridades mais dançantes, como o dub nova iorquino e o techno de Detroit, tivessem um espaço de relevo e de simbiose com o rock da altura (escute-se Fire B), Genericana é a tentativa dos Elephant Micah de criar um álbum que possa servir de ponto de partida para a música de um país que está, na óptica deste grupo, amorfa e demasiado amarrada à ditadura das playlists e das vendas, nomeadamente as digitais e que precisa urgentemente de se reinventar e de encontrar novos caminhos, criativamente mais ricos e salutares. Espero que aprecies asugestão..... 

Elephant Micah - Genericana

01. Surf A
02. Fire A
03. Life A
04. Life B
05. Fire B
06. Surf B


autor stipe07 às 18:10
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