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Os Melhores discos de 2021 (10 - 01)

Sexta-feira, 31.12.21

10 - Suuns - The Witness

The Witness, o quinto e mais recente disco da carreira dos Suuns, verdadeiros músicos e filósofos, além de não colocar minimamente em causa a herança do projeto, oferece-nos, principalmente ao nível da escrita e da composição, mais um fantástico naipe de canções com um forte cariz impressivo e realístico. Neste alinhamento de oito canções, que tem na sua génese o jazz experimental, explícito, os Suuns refletem sobre a contemporaneidade que os inquieta e os absorve, criando um alinhamento sedutoramente intrigante, bem no centro de um noise rock apimentado, convém também dizê-lo, por uma implícita dose de punk dance. Simultaneamente existencial e sinistro e arrebatadoramente humano, The Witness é, talvez, o disco mais cândido e direto do grupo. Assenta numa definição estrutural quase metódica e, independentemente das diversas abordagens que cada canção contém, tem aquele toque experimental que nos faz crer, logo à primeira audição, que este é um disco colossal, mas também tremendamente reflexivo.

9 - José González - Local Valley

Local Valley é o álbum mais enérgico e diversificado do catálogo de José González. É o primeiro alinhamento em que o músico utiliza ritmos sintéticos em vez da subtileza orgânica percurssiva dos três registos anteriores, sem deixarem de continuar a existir muitas guitarras, como é obrigatório no seu adn, e o primeiro também cantado em mais do que uma língua. É, em suma, um disco multifuncional, intenso e confessional, que nos escancara a porta para a mente de um dos artistas mais humanos da folk atual.

8 - The Dodos - Grizzly Peak

Disco muito coeso, maduro, impecavelmente produzido e um verdadeiro manancial de melodias lindíssimas, Grizzly Peak é muito centrado numa filosofia interpretativa em que sobressai uma intensa dinâmica percurssiva, entrelaçada com cordas faustosas e com uma crueza metálica ímpar. O registo materializa um novo rumo sonoro para os The Dodos, colocando o projeto novamente na senda daquela toada folk que marcou os primeiros trabalhos da dupla, enquanto nos transporta para um universo particularmente melancólico, sensível e confessional.

7 - Courtney Barnett - Things Take Time, Take Time

Fruto desta pandemia que nos assola, Things Take Time, Take Time, tem o condão de nos convidar a um certo recolhimento, mas também a nos tornarmos, em simultâneo, confindentes e bons amigos desta artista cada vez mais impressiva e realista. Fá-lo em dez canções sonoramente assentes na destemida companheira de sempre de Barnett, a guitarra, mas também com os sintetizadores a se quererem mostrar cada vez mais interventivos no catálogo da australiana, assim como o piano. Em suma, testemunha e materializa o cada vez maior ecletismo de Barnett, enquanto oferece ao ouvinte diferentes perspetivas sobre a realidade sociológica e psicológica que abriga a autora. 

6 - The Antlers - Green To Gold

Green To Gold traz consigo uma nova fase criativa do grupo de Brooklyn, promissora, luminosa e empolgante, assente na terna indulgência das cordas e na ardente soul das mesmas. Este sabor vai sendo ampliado, ao longo das dez canções, por portentosos violinos, sopros inspiradíssimos e um efeito metálico na guitarra com um adn muito vincado e pelo modo como este receituário se entrelaça sempre com a cândura vocal de Silberman e com o registo jazzístico da bateria. O resultado final é um alinhamento repleto de nostalgia e que versa quase sempre sobre a inocência que carateriza a esmagadora maioria das memórias da infância.

5 - Helado Negro - Far In

Far In é uma coleção irrepreensível de sons inteligentes e solidamente construídos, um naipe de belíssimas canções que são mais um momento marcante deste músico sedeado em Brooklyn, um alinhamento com forte pendor temperamental e com um ambiente feito com cor, sonho e sensualidade. Nele percebe-se esta filosofia de alguém positivamente obcecado pela evocação de memórias passadas e, principalmente, pela concretização sonora de sensações, estímulos, reações e vivências cujo fato serve a qualquer comum mortal.

4 - Liars - The Apple Drop

The Apple Drop é o disco mais esplendoroso e simultaneamente acessível da carreira dos Liars. Nele, o projeto que é a solo desde dois mil e catorze, altura em que o australiano, radicado em Nova Iorque, Angus Andrew tomou definitivamente as suas rédeas, podemos contemplar um krautrock que mistura eletrónica com rock alternativo, funk, noise rock, avant garde, post punk e quase todas as outras sonoridades que possas imaginar e que cabem num espetro sonoro que podia muito bem personificar a mescla perfeita entre os Radiohead pós Kid A e a melhor herança dos alemães Kraftwerk.

3 - Bill Callahan & Bonnie “Prince” Billy - Blind Date Party

Repleto de convidados de referência e nomes ímpar da indie cotemporânea, Blind Date Party é um exercício criativo ímpar e robusto, quer na concepção, quer no conteúdo, uma homenagem feliz e muito bem sucedida a uma herança e um género sonoro que é muitas vezes negligenciado mas que, bem vistas as coisas, contém os alicerces de toda a diversidade musical que o indie hoje em dia contém. Mesmo sendo uma obra comunitária, confirma a genialidade de dois nomes essenciais da folk norte-americana atual.

2 - Elbow - Flying Dream 1

Flying Dream 1 é um deleite melódico, um registo que brilha, canção após canção, no modo como nos oferece composições irrepreensíveis ao nível da beleza, um portento de majestosidade sonora e um dos trabalhos mais refinados, envolventes e íntimos da discografia dos Elbow, enquanto reflete, mais uma vez, um universo muito pessoal de Garvey, desta vez as memórias e os encantamentos que foram ficando dos seus primeiros anos de vida e que o marcaram para sempre.

1 - Damon Albarn - The Nearer The Fountain, More Pure The Stream Flows

Álbum intenso e cinematográfico, The Nearer The Fountain, More Pure The Stream Flows explora com minúcia temas como a fragilidade, a perda, a emergência e o renascimento e o seu título é um excerto do poema Love and Memory, de John Clare. O disco mostra um lado experimental que Albarn gosta de explorar com uma delicadeza bem presente e um lado também algo sombrio e questionador, que tão bem o carateriza, em onze canções que pretendem, no seu todo, dar vida a uma peça orquestral inspirada na Islândia, país onde o músico tem assentado arraiais periodicamente nos últimos anos. É um registo, de facto, maravilhoso, que encarna na perfeição o ambiente muito peculiar de uma ilha com caraterísticas únicas, mas que também exibe, a espaços com enorme esplendor, toda a cartografia sonora que faz com que Damon Albarn seja um dos músicos mais ecléticos e completos das últimas duas décadas. 

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publicado por stipe07 às 12:19

White Lies – I Don’t Want To Go To Mars

Terça-feira, 07.12.21

As I Try Not To Fall Apart, um disco gravado nos estúdios Assault & Battery, no oeste de Londres e produzido por Ed Buler, é o título do novo disco dos White Lies, de Charles Cave, Harry McVeigh e Jack Lawrence-Brown. Esse novo registo do trio iráchegar aos escaparates a dezoito de fevereiro do próximo ano.

White Lies contempla espaço na nova faixa 'I Don't Want To Go To Mars'

I Don't Want To Go To Mars é o título do primeiro single retirado de As I Try Not To Fall Apart, uma composição que sonoramente aposta num elevado equilibrio entre os sintetizadores e teclados com timbres variados e o pulsar das guitarras, sempre em busca de uma toada que não olhe apenas para o óbvio comercial mais radiofónico, mas também para uma acolhedora face mais sombria e nostálgica, enquanto disserta sobre uma personagem imaginária que tem de passar a viver num outro planeta e, em paralelo, reflete a vertigem atual que existe na comunidade científica sobre a exploração das possibilidades de habitar outros planetas e como isso se pode refletir no bem estar da humanidade. Confere...

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publicado por stipe07 às 16:50

The Horrors – Against The Blade

Segunda-feira, 18.10.21

Depois de em fevereiro último terem relevado uma canção chamada Lout sobre a relação entre a escolha e o acaso, a tomada compulsiva de riscos e o empurrar da sorte e que acabou por dar origem a um EP com esse nome, os The Horrors de Faris Badwan, Joshua Hayward, Tom Cowan, Rhys Webb e Joseph Spurgeon, preparam-se para lançar às feras um lançamento discográfico em formato semelhante, idealizado por um quinteto de rapazes com o típico ar punk de há quarenta anos atrás, mas que têm mostrado que não pretendem apenas ser mais uma banda propagadora do garage rock ou do pós-punk britânico dos anos oitenta, mas donos de uma sonoridade própria e de um som adulto, jovial e tremendamente inovador, que, pelos vistos, se prepara para virar agulhas para o rock mais industrial.

The Horrors have announced a new EP with title-track, 'Against The Blade' |  Upset

Against The Blade é o título deste novo EP dos The Horrors que está prestes a ver a luz do dia, um alinhamento que, de acordo com o tema homónimo, uma canção bastante abrasiva e crua, sobre a liberdade que chega quando perdemos toda a esperança, repleta de arranjos sintéticos de forte travo maquinal, nos irá oferecer um rock duro, corrosivo e denso, ou seja, tudo aquilo que, por definição, é habitual condensar e suportar esse rock mais pesado e industrial.

Aliás, declarações recentes de vários membros da banda natural de Southend-on-Sea sobre o conteúdo deste EP, que também irá incluir os temas Twisted Skin e I Took a Deep Breath And I Kept My Mouth Shut, comprovam essa inflexão sonora dos The Horrors para um rock mais industrial. Se Faris Badwan fala de Against The Blade como uma descida ao caos, Rhys Webb, o baixista, chama para si grande parte dos créditos nesta viragem ao referir ter sido ele quem desafiou os colegas a levar as novas canções na direção mais extrema possível. Confere...

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publicado por stipe07 às 12:43

Low – Hey What

Quarta-feira, 15.09.21

Três anos depois do excelente Double Regist, os Low de Alan Sparhawk, Mimi Parker e Steve Garrington voltam a impressionar-nos com a sua pop emotiva e sedutora à boleia de Hey What, o décimo terceiro disco deste grupo norte americano oriundo de Duluth, no Minnesota e que há cerca de três décadas nos oferece um maravilhoso cardápio que é, no seu todo, um marco significativo na carreira de um projeto ímpar do indie rock e da dream pop contemporânea.

Low's 'Hey What' Review: A Seamless Mix of Nighmarish and Romantic

Hey What é um registo que, na sua essência, está assente num som negro, mas potenciador no modo como suscita a vinda à tona de todos nós alguns dos receios, dores e angústias que guardamos no nosso âmago, de forma mais ou menos disfarçada. Em Days Like These, por exemplo, a limpidez do registo inicial à capella da dupla Alan e Mimi, agarra-nos, desde logo, a uma enganadora luminosidade, que rapidamente resvala para uma vasta míriade de ruídos, que em vez de terem um efeito abrasivo e repugnante, são facilmente entendidos como traves mestras de uma inesperada luz e positivismo.

De facto, esta bem pensada e criativa dicotomia arquitetada pelos Low, esconde, no seu seio, uma pancada seca e certeira numa pop paciente e charmosa e que, escutada com a merecida devoção, coloca em causa todos os cânones e normas que definem alguns dos pilares fundamentais da nossa interioridade. E, apesar de a acima referida Days Like These ser, talvez, a composição que melhor define Hey What, logo a abrir o disco, em White Horses, percebemos o que nos espera ao sermos agitados por um pendor abrasivo e até algo inquietante, que não é mais do que um esplendoroso dinamismo, feito com uma abordagem lânguida e, por incrível que possa parecer, harmoniosa, porque, na verdade, nos mostra o rock, uma forma de criação musical essencialmente agreste e ruidosa, na sua essência mais pura.

Hey What avança e, à boleia do travo maquinal cavernoso de I Can Wait e, um pouco adiante, da cosmicidade de All Night, quem conhece profundamente o cardápio dos Low vai rapidamente sentir-se nostálgico porque irá recordar o conteúdo de Things We Lost In The Fire, o clássico que a dupla lançou no início deste século e que continha uma beleza discreta e uma inconfundível tristeza sonora. Depois, em Disappearing, avançamos até dois mil e quinze e ao universo de Ones and Sixes, um trabalho que foi um dos melhores desse ano para a nossa redação e que, parecendo amiúde, desesperadamente assustador e claustrufóbico, como um fantasma apaixonado a tentar romper um véu, não deixava, no meio de tamanha hostilidade, de esconder uma lindíssima fidelidade canónica a uma espécie de lentidão melódica. A etérea Don't Walk Away, uma música que começa sem bússola, serpenteia por toda a parte e termina num lugar que é surpreendente e desconhecido e There Is A Comma After Still, um tratado esotérico, semelhante a um sinal de rádio interceptado de uma raça alienígena distante, amplificam ainda mais esta impressiva filosofia interpretativa que, no fundo, reescreve, com uma nova contemporaneidade, a linguagem essencial de um espetro do rock que, parecendo, à primeira vista, eminentemente sombrio e negativo, não deixa de, no fundo, desfilar emoções e jorrar sentimentos por todos os seus acordes, mesmo os menos percetíveis, podendo-se mesmo falar em poros, porque este é um modus operandi que transmite sensações físicas tácteis, nem sempre passíveis de apurado controle pelo nosso lado mais racional.

Hey What e os seus antecessores, quer Ones And Sixes, quer o mais recente Double Negative, são, em jeito de conclusão, uma feliz personificação da evolução mundial nos últimos anos. Este planeta foi-se tornando mais hostil e inquietante, mas sem deixar de nos proporcionar eventos esperançosos e a música dos Low também seguiu essa demanda dualista com uma quase impercetível serenidade. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 13:45

Nothing – Amber Gambler

Terça-feira, 31.08.21

Editado em dois mil e catoze, Guilty of Everything foi o trabalho de estreia dos Nothing, uma banda de Filadélfia, que logo nesse primeiro disco clarificou deambular entre a dream pop nostálgica e o rock progressivo amplo e visceral. Após essa estreia, o grupo foi, com mais dois registos no catálogo, Tired Of Tomorrow e Dancing On The Blacktoop, impressionando audiências com um som cativante e explosivo, sempre com fuzz nas guitarras e o nível de distorção no red line, oferecendo, a quem os quisesse ouvir, o melhor da herança do rock alternativo de finais do século passado, suportada por nomes tão fundamentais como os My Bloody Valentine ou os Smashing Pumpkins, só para citar algumas das influências mais declaradas do grupo.

Nothing's Domenic Palermo on Inspirations Behind New Album 'The Great Dismal'  | Revolver

O ano passado os Nothing editaram The Great Dismal, o quarto disco do grupo liderado por Dominic Palermo, mais um documento essencial para se perceber a progressão do quarteto. The Great Dismal tinha um alinhamento assente na primazia das guitarras, mas também contava com um elevado teor sintético, uma nuance que conferiu ao seu som uma toada muito rica e luminosa e um travo pop que, na verdade, acabou por amenizar o cariz eminentemente sombrio do rock que os Nothing se gabam de saber replicar melhor que ninguém.

Amber Gambler, o novo single divulgado pelos Nothing e que irá fazer parte do alinhamento de The Great Dismal B-Sides, um acrescento a The Great Dismal e que além desta nova canção incluirá uma cover do clássico dos Delfonics,  La La Means I Love You e ainda uma nova roupagem do tema que dá nome a The Great Dismal, é um claro exemplo desta filosofia interpretativa. A canção sopra na nossa mente e envolve-nos com uma toada emotiva e delicada, mesmo abundando a rudeza das distorções e o ruido sombrio de guitarras, em reverb, numa postura claramente lo fi, importante para criar o ambiente soturno e melancólico pretendido. The Great Dismal B-Sides foi produzido, misturado e materizado por Will Yip e chegará aos escaparates em formato digital e em vinil de doze polegadas, a oito de outubro, via Relapse. Confere...

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publicado por stipe07 às 13:58

Phoebe Bridgers – Nothing Else Matters

Sábado, 21.08.21

Num ano em que têm abundado as versões de alguns temas incontornáveis da última década do século passado, merece superior destaque a nova roupagem que Phoebe Bridgers, criou para o clássico Nothing Else Matters dos Metallica e que fará parte de um disco de tributo à banda de James Hetfield intitulado The Metallica Blacklist, que verá a luz do dia digitalmente a dez de Setembro e fisicamente no início do mês seguinte, através da Blackened Recordings, um registo que pretende marcar o trigésimo aniversário da edição do mítico álbum The Black Album.

Phoebe Bridgers mostra um lado sombrio no clipe "I Know the End"

Produzida por Tony Berg e Ethan Gruska, esta versão de Phoebe Bridgers, uma cantora nascida em Los Angeles, a dezassete de agosto de mil novecentos e noventa e quatro, impressiona pela espetacular linha de piano da autoria de Gruska, acomanhado exemplarmente à guitarra por Rob Moose, num resultado final verdadeiramente assombroso e que aprimora ainda mais a ímpar e conturbada intimidade do original. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:48

The Horrors - Lout

Sábado, 27.02.21

Os The Horrors de Faris Badwan, Joshua Hayward, Tom Cowan, Rhys Webb e Joseph Spurgeon, preparam-se para lançar às feras o sexto tomo de uma discografia ímpar, idealizada por um quinteto de rapazes com o típico ar punk de há quarenta anos atrás, mas que têm mostrado que não pretendem apenas ser mais uma banda propagadora do garage rock ou do pós-punk britânico dos anos oitenta, mas donos de uma sonoridade própria e de um som adulto, jovial e tremendamente inovador, que, pelos vistos, se prepara para virar agulhas para o rock mais industrial.

The Horrors Announce Lout EP, Share New Song: Listen | Pitchfork

Tal suposição baseia-se no conteúdo do single que dá nome ao novo álbum dos The Horrors e que será, talvez, o disco mais arriscado e eclético da carreira do projeto natural de Southend-on-Sea. Falo de Lout, uma vigorosa composição sobre a relação entre a escolha e o acaso, a tomada compulsiva de riscos e o empurrar da sorte, conforme referiu recentemente Faris Badwan e que, da viscerilidade e do fuzz agreste das guitarras, à aspereza da bateria e dos arranjos, nos oferece um rock duro, corrosivo e denso. Sobre a canção, Tom Furse, o teclista, acrescentou que parece um regresso a um som mais pesado mas está a um milhão de milhas de distância de qualquer coisa que a banda tenha feito antes. Confere...

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publicado por stipe07 às 13:29

I LIKE TRAINS – Kompromat

Terça-feira, 29.09.20

Já com um histórico de quase duas décadas, visto terem iniciado as lides musicais em dois mil e quatro, os I LIKE TRAINS de Guy Bannister, Alistair Bowis, Simon Fogal, David Martin e Ian Jarrold, têm um novo disco intitulado Kompromat, uma coleção de nove canções que sucedem ao excelente The Shallows, de dois mil e doze e que, uma vez mais, refletem sobre o estado atual do mundo em que vivemos, nomeadamente a conjuntura politica atual, uma imagem de marca sempre muito presente neste grupo natural de Leeds.

I LIKE TRAINS share new single & video "Dig In"- Album 'KOMPROMAT' out Aug  21st via Atlantic Curve - Circuit SweetCircuit Sweet

Se The Shallows versava sobre a relação do homem com as máquinas e, mais especificamente, o modo como a internet está a reescreve a realidade, Kompromat é a materialização de uma visão impressiva feroz relativamente a um mundo que, segundo este projeto, está cada vez mais perigoso, por causa da ascenção dos populismos de direita, com a figura de Trump à cabeça, mas com Boris Johnsson a ser também diretamente visado na crítica, assim como a suposta influência russa em diferentes atos eleitorais. Aliás, Kompromat é uma expressão russa que significa material comprometedor, no sentido de haver um propósito claro de fornecer informações sobre um político, empresário ou outra figura pública, de modo a criar publicidade negativa, chantagem e extorsão sobre ele. De acordo com o grupo, quer estas duas figuras politicas, quer alguns governos, são diretamente responsáveis por toda uma campanha de desinformação que está a tomar conta dos media a nível global e que visa a eliminação de qualquer tipo de crítica ou alternativa a uma forma de governar que protege cada vez mais o capitalismo, tornando as sociedades menos solidárias e quem as governa menos atentos aqueles que mais sofrem e que não têm acesso às benesses de uma sociedade de consumo que divide para reinar.

O single The Truth, uma majestosa canção feita com aquele rock que impressiona pela rebeldia com forte travo nostálgico e que contém uma sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem onde mais dói, é o âmago desta filosofia estética de Kompromat, porque é frequente imensas vezes já não se ter muito bem a noção de onde reside a verdade, tão voraz é o nosso consumo de informação nesta era digital, sendo possivel entender e interpretar de modo diferenciado as muitas narrativas que vão invadindo o nosso feed.

Sonoramente, Kompromat obedece ao ADN que tem tipificado a carreira dos I LIKE TRAINS, assente num punk rock de forte cariz progressivo, com uma originalidade muito própria e um acentuado cariz identitário, por procurar, em simultâneo, uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, mas sem descurar o indispensável pendor lo fi e uma forte veia experimentalista, abertamente nebulosa e cinzenta. Essa atmosfera é percetivel no perfil detalhista das distorções das guitarras, no vigor do baixo, nos sintetizadores vibrantes e, principalmente, num registo percurssivo compacto, que funciona com a amplitude necessária para dar às canções uma sensação plena de epicidade e fulgor.

De facto, Kompromat é uma súmula rara de um pós punk anguloso, um passeio emocionante e encadeado, com cada tema a personificar um ataque bombástico aos nossos sentidos, um incómodo sadio audível logo no riff abrasivo de A Steady Hand e que se vai aprimorando num fluxo constante e paciente e onde não falta, imagine-se, um leve toque de graciosidade.

A sensibilidade do efeito metálico abrasivo de uma guitarra que corta fino e rebarba, em Desire Is A Mess, as reverberações ultra sónicas de Dig In e, principalmente, a rispidez visceral extremamente sedutora e apelativa de A Man Of Conviction e a arquitetura sonora variada e sempre crescente de The Truth, um longo tema, mas nada monótono, cheio de mudanças de ritmo, com a junção crescente de diversos agregados e que atinge o auge interpretativo numa bateria esquizofrénica e fortemente combativa, mas incrivelmente controlada, num resultado de proporções incirvelmente épicas, são outros momentos incríveis de um disco sarcástico, mas também atencioso e terno,  em que tudo resulta de forma coesa, inclusive o ruído abrasivo, que aqui em vez de magoar, fascina e seduz. Espero que aprecies a sugestão...

I LIKE TRAINS - Kompromat

01. A Steady Hand
02. Desire Is A Mess
03. Dig In
04. PRISM
05. Patience Is A Virtue
06. A Man Of Conviction
07. New Geography
08. The Truth
09. Eyes To The Left (Feat. Anika)

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publicado por stipe07 às 17:54

The Notwist – Ship

Quarta-feira, 05.08.20

The Notwist - Ship

Considerados por muitos como verdadeiros pais do indie rock, os The Notwist, liderados pelos irmãos Archer, estão de regresso aos lançamentos discográficos com Ship, um EP que irá ver a luz do dia ainda durante este mês de agosto, à boleia da Morr Music, etiqueta alemã, e que será o primeiro sinal de vida do projeto em seis anos. Recordo que em dois mil e catorze este projeto alemão único lançou o disco Close to The Glass, um tomo de onze canções assentes numa eletrónica cheia de elementos do krautrock, mas que também passava pelo hip hop mais negro, o indie rock e o jazz progressivo, um verdadeiro caldeirão sonoro onde cada elemento foi cuidadosamente tratado e que estava minuciosamente carregado de vida.

Para antecipar o lançamento deste EP, ao qual se seguirá, ainda de acordo com a banda, um novo longa duração ainda em 2020, os The Notwist acabam de divulgar o single homónimo do registo, uma canção que conta com a participação vocal da japonesa Saya, vocalista da banda Tenniscoats e que impressiona pelo rigor percurssivo, assente num registo tremendamente hipnótico, devido a uma batida seca que lateja sem cessar, enquanto é constantemente rodeada por uma espiral sintetizada repetitiva e diversas aparições de uma guitarra que se insinua sempre à espreita do momento ideal para explodir em riffs e distorções incontroláveis, algo que acaba por não acontecer. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:31

The Psychedelic Furs – Made Of Rain

Segunda-feira, 03.08.20

Trinta anos é uma eternidade, o disco a que se refere este artigo quebra um dos mais longos hiatos da historia do indie rock, mas é exatamente este o tempo que separa World Outside, disco que os londrinos The Psychedelic Furs lançaram no início da década de noventa do século passado, de Made Of Rain, o oitavo e novo registo de originais desta banda londrina de pós punk, liderada pelos irmãos Butler, Richard e Tim, aos quais se juntam, atualmente, o guitarrista Rich Good, o baterista Paul Garisto, o saxofonista Mars Williams e a teclista Amanda Kramer, e cujas raízes remontam a mil novecentos e setenta e sete, tendo o projeto estreado-se nos lançamentos discográficos em mil novecentos e oitenta com um homónimo que, apesar de ter sido um relativo fracasso comercial, foi bem aceite pela crítica e colocou logo este projeto nos holofotes do cenário indie britânico.

The Psychedelic Furs Anuncia Lançamento Do Novo Álbum, Made Of Rain -  RockBizz

Basta ouvir Made Of Rain uma única vez para se perceber que esté um disco de rock puro e duro, pleno de profundidade e força, instrumentalmente luxuoso, adulto, impressionista e com alguns instantes emocionalmente sublimes. Para quem atualmente aprecia nomes tão sobejamente conhecidos como os The National, Interpol, Editors ou The Killers e nunca se esqueceu da herança dos Cure ou Echo & The Bunnymen, Made Of Rain é o registo perfeito para a agregação num só alinhamento de todas as boas sensações que cada uma destas ilustres figuras nos proporcionam isoladamente e com as suas próprias especificidades, já que este é um álbum exuberante, texturizado e moderno, mas nitidamente atemporal.

Uma das grandes virtudes dos The Psychedelic Furs durante os anos oitenta foi sempre o cultivo de uma faceta algo enigmática, dissidente e extravagante, com a vertente comercial a estar sempre em segundo plano. Trinta anos poderiam ter feito mudar esse modo de ver a arte musical e este regresso à atividade poderia muito bem obedecer a um imperativo de aproveitamente de um nome e de uma herança para faturar mais uns milhões e assegurar a segurança financeira definitiva dos três irmãos. Mas nem a essa lógica Made Of Rain parece obedecer, porque mais do que a busca de canções melodicamente radiofónicas, o intuíto terá sido o reencontro com o simples prazer de compôr e criar, tendo apenas como bitola, além da herança rica da banda, o gosto pessoal do núcleo duro que se mantém integro e que não sofreu qualquer desgaste com o tempo. Existem semelhanças na abordagem estética relativamente ao que o grupo fez há quatro décadas atrás, mas há também uma sensação de modernidade indesmentível.

Assim, na enganadora gentileza de Tiny Hands, na absoluta epicidade de You'll Be Mine, no travo gótico do single Don't Believe e de Turn Your Back On Me e na grandiosidade lírica e dramaticamente maleóvola de No-One, situam-se os alicerces fundamentais de um disco imponente, repleto de drama mas também de humor, um alinhamento ao qual é transversal um niilismo melancólico amiúde arrepiante, encharcado de narrativas em que as palavras e frases são como cores feitas para criar pinturas abstratas e impressionistas, mas sentimentalmente bastante evocativas de uma espiritualidade que foi sempre muito intrínseca a um Richard Butler, o grande poeta destes The Psychedelic Furs, ávido por se afogar com as contradições inerentes a quem se deixa ver exteriormente como alguém alegre e sorridente, mas que guarda no seu âmago uma dose nada pequena de negatividade e dramatismo. É esta ambiguidade e este belo caos emocional que Made Of Rain, um disco cinematográfico, impressionista e expressionista, destila por todos os poros. Espero que aprecies a sugestão...

The Psychedelic Furs - Made Of Rain

01. The Boy That Invented Rock And Roll
02. Don’t Believe
03. You’ll Be Mine
04. Wrong Train
05. This’ll Never Be Like Love
06. Ash Wednesday
07. Come All Ye Faithful
08. No-One
09. Tiny Hands
10. Hide The Medicine
11. Turn Your Back On Me
12. Stars

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publicado por stipe07 às 16:31






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