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Gorillaz – Sound Machine, Season One: Strange Timez

Terça-feira, 27.10.20

Já chegou aos escaparates Song Machine, Season One: Strange Timez, o sétimo álbum dos britânicos Gorillaz, a última materialização e a maior do mais recente e inovador projeto da banda, intitulado Song Machine, uma aventura que teve início em janeiro com o lançamento do single Momentary Bliss. Depois disso, foram sendo divulgados outros episódios e temas, que mostraram Russell, Noodle, 2D e Murdoc, por locais tão díspares como Paris, Marrocos, Londres, Lago de Como e até a Lua. Sound Machine, Season One: Strange Timez é um portento de world music e conta com a participação de diversos artistas, como Elton John, Robert Smith, Fatoumata Diawara, Beck, ou Peter Hook, entre outros, e tal diversidade artística apenas sucede porque tem no seu âmago o enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro. Em jeito de curiosidade, importa também referir que este novo disco dos Gorillaz marca o retorno do baixista Murdoc Niccals, depois de não ter feito parte dos créditos de The Now Now, por ter sido preso, tendo, nesse registo, sido substituído por Ace, da série Meninas Superpoderosas.

Gorillaz unveil new album 'Song Machine, Season One: Strange Timez'

Melhor álbum dos Gorillaz desde o fabuloso Plastic Beach (2012) e produzido por Remi Kabaka Jr., Sound Machine, Season One: Strange Timez é um passo seguro e estrondosamente feliz deste projeto, no que concerne ao modo como mais uma vez se reinventa, sem renegar, como seria de esperar, a sua essência. Refiro-me a criar canções onde a experimentação é uma matriz essencial, tem a eletrónica aos comandos, o hip-hop e o R&B na mira, mas também olha para o rock com uma certa gula. E nestas dezassete canções encontramos tudo isto e com um grau de ecletismo nunca visto, estando o centro nevrálgico em redor do qual gravita toda esta diversidade em muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico. E uma das facetas mais curiosas das dezassete composições é todas elas conseguirem atingir com enorme mestria o propósito simbiótico entre aquilo que é o som Gorillaz e o adn do convidado desse tema.

A eletrónica minimalista e melancólica de Aries, o ambiente dançante e humorístico de The Valley Of The Pagans, abrilhantado por um Beck na sua melhor forma, o transe melódico de The Lost Chord, o ambiente retro de Pac-Man, abrilhantado por beats inconfundíveis e um jogo vocal entre Albarn e ScHoolboy Q espetacular, a tonalidade pop de Chalk Tablet Towers, a fusão entre rap e o piano de Elton John em The Pink Phantom, a fusão entre dub e downtempo de Friday 13th, o travo latino e caliente de Dead Butterflies e o inesperado cruzamento entre jazz soul e bossanova em Désolé, são os instantes maiores de toda esta caldeirada impressiva, rematada pela simbólica e justíssima homenagem a Tony Allen em How Far?, músico falecido já este ano e parceiro de Albarn em variadíssimas aventuras musicais, com particular destaque para o projeto The Good, The Bad and The Queen.

Portanto, escuta-se o álbum de fio a pavio e parece que estamos a escutar uma coletânea riquíssima dos melhores temas de cada um dos artistas convidados. Tal evidência alimenta a perceção que este foi um registo que se foi alimentando, durante o seu processo de criação e de composição, de um certo caos, de uma amálgama mais ou menos indefinida, como se tivesse florescido num Kong Studios, em Essex, arredores de londres, aberto para quem quisesse nele entrar e gravar com Albarn, não importanto a sua proveniência e gostos musicais, porque havia abertura de espírito e pafernália física e tecnológica disponível para captar o que surgisse. É, por isso, um trabalho que se alimenta do desconhecido e também o faz no modo como funciona, claramente, em puro caos.

Com a voz de Albarn a ser aquele inconfundível e delicioso apontamento de charme, serenidade e harmonia, numa multpilicade e heterogeneidade de outros registos, quase sempre abuptos, graves, determinados, contestatários e buliçosos, Sound Machine, Season One: Strange Timez é um intrigante exemplo sonoro de mescla de diferentes culturas, num pacote seguro e familiar, que permite a Albarn deixar mais uma vez vincada a sua apetência natural para se servir das raízes de qualquer estilo e conferir às mesmas o seu toque de personalidade, contornando, sem beliscar, todas as referências culturais dos seus convidados que, se não tivessem a mente tão aberta como o anfitrião, poderiam ver limitado o processo criativo. E assim, isentos de tais formalismos, não receiam misturar tudo aquilo que ouvem, aprendem e assimilam nas respetivas carreiras, fazendo-o com enorme bom gosto, ao mesmo tempo que refletem com indisfarçável temperamento sobre este mundo conturbado em que todos vivemos. Espero que aprecies a sugestão...

Gorillaz - Sound Machine Season One - Strange Timez

01. Strange Timez (Feat. Robert Smith)
02. The Valley Of The Pagans (Feat. Beck)
03. The Lost Chord (Feat. Leee John)
04. Pac-Man (Feat. ScHoolboy Q)
05. Chalk Tablet Towers (Feat. St Vincent)
06. The Pink Phantom (Feat. Elton John And 6LACK)
07. Aries (Feat. Peter Hook And Georgia)
08. Friday 13th (Feat. Octavian)
09. Dead Butterflies (Feat. Kano And Roxani Arias)
10. Désolé (Feat. Fatoumata Diawara) (Extended Version)
11. Momentary Bliss (Feat. slowthai And Slaves)
12. Opium (Feat. EARTHGANG)
13. Simplicity (Feat. Joan As Police Woman)
14. Severed Head (Feat. Goldlink And Unknown Mortal Orchestra)
15. With Love To An Ex (Feat. Moonchild Sanelly)
16. MLS (Feat. JPEGMAFIA And CHAI)
17. How Far? (Feat. Tony Allen And Skepta)

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publicado por stipe07 às 16:08

Local Natives – Sour Lemon EP

Sexta-feira, 23.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que tem a chancela do selo Loma Vista.

Local Natives share “Lemon” featuring Sharon Van Etten | lab.fm

Novidades dos Local Natives são sempre de saudar efusivamente. E quando trazem na bagagem participações especiais de nomes como Sharon Van Etten, então o regozijo torna-se ainda mais audível e justificado. De facto, as quatro canções de Sour Lemon aprimoram ainda mais o habitual patamar instrumental arrojado deste quinteto californiano, mantendo-se a excelência nas abordagens ao lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzida em inspirados versos e a formatação primorosa de diferentes nuances melódicas numa mesma composição, duas imagens de marca do projeto.

Sour Lemon EP convida-nos a penetrar no seu âmago à boleia de Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, Rice e Van Etten, que encaixam na perfeição. Depois, os seguidores mais puristas do grupo ficarão certamente deliciados com o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico, uma canção que nos mostra os Local Natives soterrados em variadas emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, como é apanágio do seu adn. Para o ocaso, se Lost não engana no modo como, etereamente, pisca o olho a ambientes mais nebulosos e jazzísticos, sem descurar uma leve pitada de R&B, já Future Lover tem o condão de nos fazer levitar e nos dar aconchego, através de um espírito interpretativo intenso e charmoso, onde se destaca o timbre metálico de uma divagante guitarra que contradiz na perfeição um registo percurssivo hipnótico, num resultado final de forte cariz pop.

Uma das grandes virtudes destas quatro novas canções dos Local Natives tem a ver com o facto de se sustentarem numa calculada complexidade, aliada a uma inspirada riqueza estilística, aspectos que fazem muitas vezes parecer que uma mesma composição dos Local Natives resulta de uma colagem simbiótica de diferentes puzzles com tonalidades e características diferentes. E estes dois aspetos peculiares marcam, claramente, um EP de enorme beleza e que merece ser apreciado com cuidado e real atenção, deixando bastante água na boca relativamente a um próximo longa duração deste grupo ímpar no panorama indie atual. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sour Lemon

01. Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02. Statues In The Garden (Arras)
03. Lost
04. Future Lover

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publicado por stipe07 às 16:35

Throwing Muses - Sun Racket

Quinta-feira, 22.10.20

O excelente registo Purgatory/Paradise de dois mil e treze, da autoria do mítico projeto Throwing Muses de Kristin Hersh, David Narcizo e Bernard Georges, já tem finalmente sucessor, para gaúdio dos fiéis seguidores desta mítica banda norte-americana. Sun Racket é o título do novo trabalho discográfico do trio de Rhode Island, um poderoso alinhamento de dez canções que viu a luz do dia no início do passado mês de setembro, à boleia da Fire Records.

Throwing Muses Announce First Album in Seven Years, Sun Racket |  Consequence of Sound

Em pouco mais de meia hora, Sun Racket proporciona um verdadeiro festim para todos os amantes daquele punk rock mais sujo e visceral e, talvez por isso, o mais genuíno e eficaz. Distorções de guitarras em catadupa, espirais de batidas vigorosas proporcionadas por um baixo sempre inquietante, cascatas de ruídos e uma bateria que nunca se escusa a induzir o ritmo que a personalidade de cada canção exige, são os pontos fortes de um alinhamento que também pode ser considerado, de algum modo, como bipolar, à imagem de Hersch, diagnosticada com esse distúrbio desde os dezasseis anos quando conduzia uma bicicleta, foi atropelada e bateu violentamente com a cabeça no chão. Esse evento traumático, e que provocou tal distúrbio mental em Kristin, gerou na artista mudanças de comportamento imprevisíveis, algo constante ao longo de várias décadas, um processo doloroso que, de acordo com a própria autora, ainda hoje só alivia quando ela tansforma os estímulos que sente em canções e depois as grava.

De facto, não faltam em Sun Racket décibeis arrebatadores, mas também dedilhares orgânicos, quebras rítmicas e frenesim constante, em suma, instantes ora fortemente eletrificados ou claramente minimalistas e até, como é o caso de St. Charles, uma simbiose quase indelével, mas indesmentível, de toda esta cópula. No entanto, a matriz é sempre a mesma em todos os segundos do alinhamento; rock puro e duro, sem estigmas nem concessões ao mainstream. Por exemplo, logo a abrir o alinhamento, se Dark Blue uma composição entalhada por um vigoroso indie rock de forte cariz lo fi, está coberta por uma aúrea de aspereza e rugosidade únicas, nuances facultadas por guitarras plenas de poder e fúria, mas também de subtileza e charme, num resultado final inebriante, já Bo Diddley Bridge proporciona-nos comoção ardente, mas sem fazer relaxar o cerrar de punhos que os primeiros segundos de Sun Racket logo incentivaram.

É assim, no dorso de guitarras que oscilam entre o melódico e o distorcido e uma Kristin Hersh nada popupada a debitar letras surrealistas, que se sustenta um disco fascinante, assustador e viciante, enquanto nos leva a testemunhar os delírios e o sofrimento da grande mentora deste projeto único e influente do panorama alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

Throwing Muses - Sun Racket

01. Dark Blue
02. Bywater
03. Maria Laguna
04. Bo Diddley Bridge
05. Milk At McDonald’s
06. Upstairs Dan
07. St. Charles
08. Frosting
09. Kay Catherine
10. Sue’s

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publicado por stipe07 às 16:52

The Killers - Imploding The Mirage

Quarta-feira, 21.10.20

Um dos marcos discográficos de dois mil e vinte é, naturalmente, Imploding The Mirage, o sexto registo de originais dos The Killers, um álbum que tinha edição prevista para o final do passado mês de maio, mas que só viu a luz do dia alguns meses depois, por dificuldades e atrasos na conclusão do disco, de acordo com a própria banda liderada por Brandon Flowers. Produzido por Jonathan Rado e Shawn Everett, Imploding The Mirage conta com participações especiais de nomes tão proeminentes como Weyes Blood, K.D. Lang, Adam Granduciel, Blake Mills, Lucius e Lindsey Buckingham e marca o ocaso de um período particularmente turbulento do grupo que teve de lidar com a saída do guitarrista Dave Keuning e a participação apenas em estúdio do baixista Mark Stoemer.

The Killers Announce New Album 'Imploding The Mirage' & North American Tour  2020, Share Single

Apesar de os The Killers terem andado a divagar, nos discos anteriores, fruto da obsessão de Flowers pelos anos oitenta, por sonoridades onde o experimentalismo dita regras e terem espreitado extremos tão díspares como a pop mais polida ou o rock progressivo, sustentáculos importantes do álbum anterior, o Wonderful Wonderful de dois mil e dezassete, é no clássico rock de arena, vigoroso, imponente e efusivo, que este coletivo se sente mais confortável. Imploding The Mirage encaixa neste arquétipo sonoro como uma luva, mesmo não deixando de conter algumas nuances desses outros espetros sonoros que enchem a alma de Flowers. Aqui, tais homenagens estão impressas indelevelmente no enlace entre a guitarra de Lindsey Buckingham, guitarrista do Fleetwood Mac e os sintetizadores em Caution ou, piscando o loho ao krautrock, nas diversas interseções que definem o andamento vigoroso de running Towards A Place, não esquecendo a utilização de excertos do clássico Hallogallo dos alemães NEU! e de Moonshake dos também germânicos Can em Dying Breed.

Seja como for, Imploding The Mirage clama, canção após canção, por um olhar nostálgico do ouvinte, para que ele perceba que houve aqui um firme propósito dos The Killers de darem um sinal vigoroso de vida, mostrarem que ainda criam canções orelhudas e que o fazem de modo criativo, cuidado e eclético, ou seja, que aquele período aúreo inicial do grupo ainda não está esquecido. Composições do calibre da já referida Fire In BoneMy Own Soul’s Warning, uma daquelas típicas canções de rock de arena, springsteeniana, majestosa e teatral, assente numa guitarra efusiante, um registo percurssivo vincado e efeitos sintetizados plenos de charme, num resultado final melodicamente marcante e que se debruça sobre as típicas lutas que muitas vezes travamos no nosso íntimo (If you could see through the banner of the sun, Into eternity’s eyes, Like a vision reaching down to you, Would you turn away?), não ficariam nada mal no alinhamento dos clássicos da banda Hot Fuss e Sam’s Town.

Disco indutor, frenético e provocante e cheio de solenidade, Imploding The Mirage cimenta novamente uma posição de relevodos The Killers no panorama sonoro atual, graças a dez canções que, de forma imaculada nos arrastam sem dó nem piedade para o profundo universo emocional que conforta Brandon Flowers e que levam a própria banda a assumir que há um caminho que só eles podem trilhar solitariamente e que, nesse percurso, talvez as formas antigas de composição sejam mesmo as mais eficientes, No entanto, isso não significa que não se devam também orgulhar dos atalhos e das rotas divergentes que já exploraram. Fazendo essa mescla neste trabalho, quebram o enguiço de quem insiste em querer catalogar com injusto menosprezo alguns instantes discográficos de determinados projetos que procuraram apenas, ao longo da carreira, perceber zonas de conforto ou, radicalmente, procurar romper com as mesmas e até viver numa espécie de limbo criativo e ir vendo o que dá. Espero que aprecies a sugestão...

The Killers - Imploding The Mirage

01. My Own Soul’s Warning
02. Blowback
03. Dying Breed
04. Caution
05. Lightning Fields (Feat. K.D. Lang)
06. Fire In Bone
07. Running Towards A Place
08. My God (Feat. Weyes Blood)
09. When The Dreams Run Dry
10. Imploding The Mirage

 

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publicado por stipe07 às 13:54

Wye Oak – No Horizon EP

Terça-feira, 20.10.20

Foi há já algumas semanas que os infatigáveis Wye Oak nos ofereceram No Horizon, um novo EP desta dupla de Baltimore formada por Jenn Wasner e Andy Stack. Mestres da folk e do indie rock, mas com um cardápio sonoramente cada vez mais eclético, suportado por uma sólida carreira de pouco mais de uma década cujos maiores trunfos são a belíssima voz de Jenn e o magnífico trabalho instrumental de Andy, os Wye Oak têm solidificado, nas suas últimas propostas discográficas, nomeadamente o disco de dois mil e dezoito,The Louder I Call, The Faster It Runs, uma opção clara por sonoridades mais contemporâneas e direcionadas, essencialmente, para cruzamentos entre a pop e a eletrónica. Assim, fiéis à natureza maleável da banda, os Wye Oak convidaram o Brooklyn Youth Chorus, um coro gigantesco que empresta uma dose de grandiosidade instantânea a tudo aquilo em que mexe e criaram, todos juntos, um alinhamento de cinco temas exemplarmente ornamentados e imponentes e meticulosamente traçados de modo a oferecer ao ouvinte o máximo impacto orquestral possível.

WYE OAK share second track from 'No Horizon EP' - Werkre

No Horizon é, do princípio ao fim, sobre a linguagem e o poder de comunicar. É um alinhamento de assumido confronto com a autoridade politica vigente no país de origem da dupla, que pensa ter a capacidade de minimizar a nossa existência e remover as palavras que usamos. No entanto, os Wye Oak consideram que a linguagem é um poder maior do que  aqueles que a tentam controlar e que somos muito maiores que a linguagem e do que qualquer coisa que possa ser sugerida com palavras. A visão caleidoscópica que os Wye Oak têm da eletrónica atual e que é audível em AEIOU, o tema que abre o alinhamento deste EP, gira em redor deste conceito e explica-o com superior requinte. No ocaso do disco, o grito de revolta da dupla em relação ao status quo vigente é rematado com tremenda inteligência e subtileza em Sky Witness, uma aconchegante imensidão de cordas, teclas e diversos fragmentos samplados, agregados em redor de um fluído de elevado travo orgânico (When the world is just a concept, everything has hidden meaning). Pelo meio, outro grande destaque vai para No Place, canção que reforça essa aposta em sonoridades de forte pendor sintético, apesar da tal filosofia rock que esteve sempre subjacente ao adn dos Wye Oak. É uma canção assente numa salutar confusão sonora muito experimental e apelativa e que originou uma atmosfera sonora simultaneamente íntima e vibrante, que se debruça sobre a fronteira que existe entre a nossa dimensão corporal e biológica e a nossa dimensão metafísica e como muitas vezes as pessoas, recentemente mais direcionadas para profissões que exigem o uso predominante da mente e do pesamento, se esquecem do seu lado físico, descurando o bem estar dessa sua dimensão orgânica.

No Horizon é, em suma, um espelho dos tempos em que vivemos, um modo eloquente mas também intrigante de demonstrar a nossa incapacidade de percebermos que é muito pouco aquilo que controlamos realmente do nosso destino, quando comparado com aquilo que pensamos e ansiamos controlar. Ter essa perceção é meio caminho andado para uma existência mais livre e feliz, uma recomendação que nos é oferecida em bandeja de ouro por uma banda rara no modo como se reinventa em cada novo lançamento e que tem claramente ainda intacta a sua já mítica capacidade de nos surpreender constantemente. Espero que aprecies a sugestão...

Wye Oak - No Horizon

01. AEIOU
02. No Place
03. Spitting Image
04. (Cloud)
05. Sky Witness

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publicado por stipe07 às 13:24

Local Natives - Lemon (feat. Sharon Van Etten)

Segunda-feira, 19.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um novo EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que terá a chancela do selo Loma Vista.

Sharon Van Etten Joins Local Natives On New Song "Lemon": Listen - Stereogum

Como certamente os leitores mais atentos deste espaço se recordam, há quase um mês divulgámos o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico. Essa composição fará parte do alinhamento de Sour Lemon, juntamente com Lemon, a mais recente canção divulgada pelos Local Natives e que conta com a participação especial de Sharon Van Etten, ultimamente ocupada a criar versões de clássicos dos Nine Inch Nails.

Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades, e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, que encaixam na perfeição, já tem direito a um vídeo dirigido por Kenny Laubbacher e que mostra Rice e Van Etten passeando em margens opostas do Rio Los Angeles. Confere LemonStatues In The Garden (Arras) e a tracklist de Sour Lemon...

Local Natives - Lemon

01 Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02 Statues In The Garden (Arras)
03 Lost
04 Future Lover

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publicado por stipe07 às 13:14

Clap Your Hands Say Yeah – Hesitating Nation & Thousand Oaks

Sexta-feira, 16.10.20

Os norte americanos Clap Your Hands Say Yeah já têm sucessor para o excelente registo The Tourist lançado no início de dois mil e dezassete e que continha um olhar particularmente anguloso, para sonoridades mais ecléticas, tendo os anos oitenta em particular, como principal ponto de mira. New Fragility, título inspirado no conto de David Foster Wallace Forever Overhead, chega no início do próximo ano e é o título daquele que será o sexto trabalho da banda oriunda de Brooklyn, Nova Iorque, liderada pelo carismático por Alec Ounsworth e que há década e meia causou enorme furor com um fabuloso homónimo junto de uma blogosfera atenta, que sempre os seguiu com devoção e na qual me incluo, até se tornarem, aos dias de hoje, num projeto de dimensão mundial. New Fragility foi produzido pelo próprio Alec Ounsworth, com produção adicional de Will Johnson, gravado por Britton Beisenherz em Austin, no Texas, misturado por John Agnello e masterizado por Greg Calbi.

Listen to Clap Your Hands Say Yeah's 'Hesitating Nation' and 'Thousand Oaks'  from new album 'New Fragility'

Temas com forte motivação política e declaradamente canções de intervenção, Hesitating Nation e Thousand Oaks são os dois primeiros avanços já revelados de New Fragility. O primeiro tema reflete sobre o modo como Alec Ounsworth se sente desiludido e até alienado com a tão propalada democracia americana, uma efervescente composição, com uma toada minimal mas crescente, adornada por uma guitarra ondulante e com uma interpretação vocal irrepreensível. Já Thousand Oaks versa sobre o tiroteio que ocorreu em Thousand Oaks, na Califórnia, em mil novecentos e dezoito e que matou treze pessoas. É uma canção que assenta num formato mais contemplativo e altivo, à boleia de uma guitarra insinuante que se vai entrecortando com a bateria, à medida que a canção progride. Confere Hesitating Nation e Thousand Oaks e a tracklist de New Fragility...

Clap Your Hands Say Yeah - Hesitating Nation - Thousand Oaks

01. Hesitating Nation
02. Thousand Oaks

01 “Hesitating Nation”
02 “Thousand Oaks”
03 “Dee, Forgiven”
04 “New Fragility”
05 “Innocent Weight”
06 “Mirror Song”
07 “CYHSY, 2005″
08 “Where They Perform Miracles”
09 “Went Looking For Trouble”
10 “If I Were More Like Jesus”

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publicado por stipe07 às 17:37

Portugal. The Man – Who’s Gonna Stop Me (feat. Weird Al” Yankovic)

Quinta-feira, 15.10.20

Pouco mais de três anos após o lançamento do excelente Woodstock, os norte americanos Portugal. The Man de John Baldwin Gourley estão de regresso com um novo single intitulado Who’s Gonna Stop Me e que resulta de uma colaboração estreita com o artista, escritor e comediante “Weird Al” Yankovic. O tema tem o propósito claro de celebrar o Indigenous Peoples’ Day, um importante feriado norte-americano que homenageia e enaltece os povos e culturas indígenas do país, versando sobre a dificuldade que muitas pessoas pertencentes a essas etnias têm em sobreviver e prosperar numa América onde impera o feroz capitalismo que não tem em conta as especificidades culturais.

Stream Portugal. The Man & “Weird Al”'s New Song “Who's Gonna Stop Me” –  Ten15AM

Além de contar com a prestação vocal do rapper Last Artful Dodgr e de Weird Al” Yankovic, que chegou a remisturar os inéditos da banda de Portland, Feel It Still e Live In The Moment, Who's Gonna Stop Me, uma composição que abraça hip-hop, R&B e eletrónica, com criatividade e uma salutar dose de experimentalismo, também conta nos créditos com a presença de Jeff Bhasker, habitual colaborador de nomes como Mark Ronson e Kanye West, Paul Williams, que já escreveu algumas das canções mais emblemáticas dos Carpenters ou Barbra Streisand, Brian De Palma e Kermit The Frog.

O vídeo do tema é dirigido pela dupla Aaron Brown e Josué Rivas e nele podemos observar a banda ao redor de uma fogueira enquanto Weird Al” Yankovic tenta encarnar um coiote e diversos artistas e líderes indígenas vão surgindo vocalizando a canção, encarnados por diversos atores, destacando-se entre eles Acosia Red Elk, uma dançarina do povo Umatilla, nativo do estado norte-americano do Oregon. Confere...

Portugal. The Man - Who's Gonna Stop Me

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publicado por stipe07 às 17:07

Silente - Silente

Quarta-feira, 14.10.20

Silente é um novo projeto nacional assinado por Miguel Dias (ex-Rose Blanket) e Filipa Caetano, um novo nome a ter em conta no nosso panorama sonoro alternativo e que acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com um charmoso trabalho homónimo, gravado na última meia década, entre o Mindelo e Figueiró dos Vinhos, período durante o qual o gosto pela experimentação contribuiu para alongar, sem pressas, todo o processo criativo. Masterizado por Miguel Pinheiro Marques (Arda Recorders), Silente conta com a colaboração do escritor e poeta Frederico Pedreira, que assina as letras das canções da dupla, mas também de Miguel Ângelo na bateria e de Miguel Ramos no baixo.

Silente | Silente

Silente remete-nos para a ideia de silêncio e, num encadeamento algo grosseiro, do silêncio podemos passar ao sossego e daí à contemplação, que pode ser reflexiva, ou não. Caso seja, dúvidas poderão levantar-se, com elas é bem possível que surja o caos e, caso se consiga lidar com ele, reordenam-se as ideias, surgem novos objetivos, sonhos e projetos e, assim, irrequietos, avançamos rumo a novas aventuras e realizações pessoais. Silente, o disco, intenso e sensorial, tem tudo isto na sua bagagem, carrega consigo a doutrina, dá-nos as pistas e ainda, qual cereja no topo do bolo, serve como banda sonora para a demanda. A mesma sustenta-se numa simbiose bastante criativa entre a típica folk encharcada de nuances eminentemente clássicas e o cru e impaciente indie rock, sempre em busca de sonoridades plenas de charme e contemporaneidade, mas que também não descuram a bizarria experimental, sempre pronta a explorar as cada vez mais ténues fronteiras entre o orgânico, acústico ou elétrico e o sintético, contemplativo ou ruidoso, fazendo-o de forma indesmentivelmente inovadora e sedutora. Se há discos do panorama nacional obrigatórios em dois mil e vinte este é um deles, claramente. Espero que aprecies a sugestão...

Bandcamp: https://silente.bandcamp.com/

Facebook: https://www.facebook.com/BSilente

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publicado por stipe07 às 18:39

Born Ruffians - Squeeze

Segunda-feira, 12.10.20

Os Born Ruffians de Luke Lalonde, Mitch DeRosier e Steve Hamelin provam estar no momento maior de forma de uma já irrepreensível e astuta carreira de quinze anos, uma evidência que ficou bem assente nas nove canções de Juice, o sexto e novo disco deste projeto canadiano e que chegou aos escaparates na passada primavera. Este momento de elevada criatividade acaba de ser reforçado com o anúncio surpreendente de um novo álbum dos Born Ruffians intitulado Squeeze, escrito e composto durante o período de confinamento e que acaba por ser uma espécie de segundo tomo de um olhar fortemente crítico à nossa contemporaneidade.

Born Ruffians To Release 'SQUEEZE' October 2nd

A filosofia de Squeeze terá sido mesmo a de, conforme indica o título, espremer ao máximo o conceito intepretativo e o modus operandi que conduziram o processo de criação do antecessor Juice, mas dando mais importância à vertente instrumental, do que propriamente à diomensão lírica. Aliás, a voz de Lalonde é utilizada em algumas composições como um recurso eminentemente instrumental, no que concerne aos sons que debita. Por exemplo, em Rainbow Superfriends é notória essa permissa vocal, neste caso num espetro algo humorístico, o modo como o cantor versa sobre e fama e a amizade, mas os efeitos vocais presentes em Leaning on You, que contribuem para o acerto melódico da canção, também atestam a teoria.

Seja como for, e um pouco à semelhança do que sucedeu com Juice, o ouvinte é anestesiado com um indie rock vibrante, afoito e jovial, muito também devido ao excelente trabalho de produção de Graham Walsh, que, mais uma vez, foi fundamental para o eclodir de um som polido e confiante e com fortes reminiscências no período mais aúreo daquele experimentalismo setentista que tanto dava enorme ênfase ao vigor das cordas, como à opção por arsenais instrumentais de proveniências menos orgânicas.

Temas como 30th Century War, uma ritmada e divertida canção, assente em exuberantes cordas, das quais sobressai o timbre metálico reluzente da viola e um riff de guitarra efusiante, a epicidade funk de Noodle Soup, a subtileza melódica de Sentimental Saddle e a intimista e reflexiva Albatross, uma composição de elevado travo Radioheadiano, que vale pela delicadeza dos seus arranjos, principalmente os que são assegurados pelos teclados, por uma secção de sopros que vai ganhando imponência e brilho à medida que o tema progride e, de um modo geral, pelo seu elevado cariz emocional, assumem o nobre papel de fiéis sustentáculos de uma permissa revivalista plena de atitude e firmeza, num disco pleno de consistência corrosiva e atualidade. Espero que aprecies a sugestão...

Born Ruffians - Squeeze

01. Sentimental Saddle
02. 30th Century War
03. Waylaid (Feat. Hannah Georgas)
04. Rainbow Superfriends
05. Sinking Ships
06. Death Bed
07. Leaning On You
08. Noodle Soup
09. Albatross
10. Waylaid (Feat. Hannah Georgas) (Edit)

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publicado por stipe07 às 17:56






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