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Os melhores discos de 2020 (20 - 11)

Domingo, 20.12.20

20 - Sufjan Stevens - The Ascension

The Ascension é uma jornada eletrónica climática e intimista, mas também algo inquietante, feita de um psicadelismo eminentemente experimental. Mesmo contendo alguns dos tiques identitários que marcam uma carreira de quase duas décadas, impressos na intimidade dialogante da sua escrita, que atingiu o apogeu no antecessor que se debruçava sobre o súbito desaparecimento da mãe e na seleção de alguns arranjos e detalhes que ainda têm um travo folk inconfundível, The Ascension oferece-nos, acima de tudo, um vasto e barroco festim eletrónico, justificado em diversas composições recheadas de uma vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que servem bem à medida da imensidão e do silêncio que carateriza o vazio cósmico a que o músico de Chicago nos tem habituado ultimamente.

Sufjan Stevens - The Ascension

01. Make An Offer I Cannot Refuse
02. Run Away With Me
03. Video Game
04. Lamentations
05. Tell Me You Love Me
06. Die Happy
07. Ativan
08. Ursa Major
09. Landslide
10. Gilgamesh
11. Death Star
12. Goodbye To All That
13. Sugar
14. The Ascension
15. America

 

19 - Woods - Strange To Explain

Os Woods são, claramente, uma verdadeira instituição do indie rock alternativo contemporâneo. De facto, esta banda norte americana oriunda do efervescente bairro de Brooklyn, bem no epicentro da cidade que nunca dorme e liderada pelo carismático cantor e compositor Jeremy Earl e pelo parceiro Jarvis Taveniere, tem-nos habituado, tomo após tomo,  a novas nuances relativamente aos trabalhos antecessores, aparentes inflexões sonoras que o grupo vai propondo à medida que publica um novo alinhamento de canções. Mas, na verdade, tais laivos de inedetismo entroncam sempre num fio condutor que tem sido explorado até à exaustão e com particular sentido criativo, abarcando todos os detalhes que o indie rock, na sua vertente mais pura e noise e a folk com um elevado pendor psicadélico permitem. Estes são os grandes pilares que, juntamente com o típico falsete de Jeremy, orientam o som dos Woods e que se mantêm, com enorme primor, em Strange To Explain, um disco eminentemente cru, envolvido por um doce travo psicadélico, enquanto passeia por diferentes universos musicais, sempre com um superior encanto interpretativo e um sugestivo pendor pop.

Woods - Strange To Explain

01. Next To You And The Sea
02. Where Do You Go When You Dream?
03. Before They Pass By
04. Can’t Get Out
05. Strange To Explain
06. The Void
07. Just To Fall Asleep
08. Fell So Hard
09. Light Of Day
10. Be There Still
11. Weekend Wind

 

18 - Destroyer - Have We Met

Have We Met é um disco algo intrincado, mas bastante sedutor, um dobrar de esquina consistente e apurado, mesmo sendo o trabalho recente dos Destroyer que mais se aproxima da herança atmosférica da obra-prima Kaputt (2011). Tal sucede porque é feito por um grupo que também já habituou os seus fãs a um espetro rock onde não faltavam de guitarras distorcidas e riffs vigorosos, mas que opta agora, e mais do que nunca, num claro sinal de maturidade e de pujança criativa, por compôr composições que olham de modo mais anguloso para a eletrónica e para ambientes eminentemente clássicos, fazendo-o com superior apuro melódico. São, portanto, composições conduzidas por uma ímpar diversidade instrumental, com o modo como as teclas do piano são enormes protagonistas, a meias com a guitarra maravilha de Nicolas Bragg, a serem dois trunfos maiores deste modus operandi com elevado charme quilate.

Destroyer - Have We Met

01. Crimson Tide
02. Kinda Dark
03. It Just Doesn’t Happen
04. The Television Music Supervisor
05. The Raven
06. Cue Synthesizer
07. University Hill
08. Have We Met
09. The Man In Black’s Blues
10. Foolssong

 

17 - The Strokes - The New Abnormal

The New Abnormal solidifica e tipifica com ainda maior clareza a filosofia interpretativa deste projeto nova iorquino que depois de ter começado a carreira com um formato sonoro claramente balizado, foi apalpando terreno noutros espetros,  sendo um disco com uma espécie de dupla identidade, porque além de culminar com elevado esplendor um regresso ao punk rock como trave mestra da maioria das composições do disco, aquele rock mais enérgico, direto e incisivo a que nos habituámos no dealbar deste século, permite que este modus operandi seja adornado por uma mescla entre a típica eletrónica underground nova iorquina e o colorido neon pop dos anos oitenta.

The Strokes - The New Abnormal

01. The Adults Are Talking
02. Selfless
03. Brooklyn Bridge To Chorus
04. Bad Decisions
05. Eternal Summer
06. At The Door
07. Why Are Sundays So Depressing
08. Not The Same Anymore
09. Ode To The Mets

 

16 - Bill Callahan - Gold Record

Mais do que um simples registo de canções avulsas e que procuram dissertar abstratamente e filosoficamente sobre o amor ou as agruras ou benesses deste mundo em que vivemos, Gold Record é um compêndio de histórias simples, mas cheias de brilho, intensidade e mérito, porque são concretas. Às vezes, uma coleção bem pensada de histórias simples, contada com as palavras certas e acessíveis e sem desnecessárias preocupações estilísticas, é meio caminho andado para assegurar um registo discográfico de superior quilate. E este é, sem dúvida, o grande trunfo de dez temas que escavam a cultura norte americana para encontrar um tesouro de raízes identitárias, fazendo-o, sonoramente, com a toada eminentemente acústica que define o adn do músico, plasmada num registo interpretativo que privilegia aquele formato canção que vai gradativamente agrupando novos elementos e sons distintos, até um final envolvente e, liricamente, feito com uma sucessão de histórias com as quais todos nós nos identificamos facilmente, já que certamente, apropriando-nos delas e dando-lhes um ou outro retoque, temos impressivos relatos de alguns momentos marcantes da nossa existência pessoal. Este disco com essa notável componente narrativa também comprova, com enorme mestria e refinadíssima acusticidade, a superior capacidade interpretativa de Callahan aos comandos de uma viola, uma espécie de trovador da era moderna, que sussura contos pessoais, enquanto comunica directamente connosco e, ao mesmo tempo, parece que fala consigo próprio.

Bill Callahan -  Gold Record

01. Pigeons
02. Another Song
03. 35
04. Protest Song
05. The Mackenzies
06. Let’s Move To The Country
07. Breakfast
08. Cowboy
09. Ry Cooder
10. As I Wander

 

15 - The Magnetic Fields - Quickies

Vinte anos depois da mítica obra conceptual 69 Love Songs, Stephin Merritt mantém uma insciável gula interpretativa, que alimenta uma espécie de mania das grandezas à qual os fâs dos The Magnetic Fields já se habituaram e que nunca os deixa ficar mal, diga-se na verdade. Quickies, o novo registo deste projeto natural de Boston, no Massachussetts, é mais uma prova inequívoca de toda uma trama com já três décadas de existência, um tomo de vinte e oito canções que enriquece substancialmente o cardápio de um grupo que tem dado ao indie rock experimental norte-americano, registo após registo, uma notoriedade e uma relevância ímpares, através de canções quase sempre assentes em sonoridades eminentemente clássicas, geralmente acústicas e de forte pendor orgânico.

The Magnetic Fields - Quickies

01. Castles Of America
02. The Biggest Tits In History
03. The Day The Politicians Died
04. Castle Down A Dirt Road
05. Bathroom Quickie
06. My Stupid Boyfriend
07. Love Gone Wrong
08. Favorite Bar
09. Kill A Man A Week
10. Kraftwerk In A Blackout
11. When She Plays The Toy Piano
12. Death Pact (Let’s Make A)
13. I’ve Got A Date With Jesus
14. Come, Life, Shaker Life!
15. (I Want To Join A) Biker Gang
16. Rock ‘n’ Roll Guy
17. You’ve Got A Friend In Beelzebub
18. Let’s Get Drunk Again (And Get Divorced)
19. The Best Cup Of Coffee In Tennessee
20. When The Brat Upstairs Got A Drum Kit
21. The Price You Pay
22. The Boy In The Corner
23. Song Of The Ant
24. I Wish I Had Fangs And A Tail
25. Evil Rhythm
26. She Says Hello
27. The Little Robot Girl
28. I Wish I Were A Prostitute Again

 

14 - Jeff Tweedy - Love Is The King

Love Is The King é a mais recente obra discográfica de um compositor que assenta o seu processo criativo numa concepção de escrita que explora bastante a dicotomia entre sentimentos e no modo criativo e refinado como musica as letras que daí surgem, aliando o seu adn pessoal às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo. De facto, Love Is The King é um voo picado que o autor faz sobre si próprio, a sua existência e a daqueles que lhe são mais próximos, nomeadamente os seus herdeiros Spencer e Sam. Acaba por ser um disco feito em família, com a participação direta da mesma na sua concepção e definição do conteúdo sonoro e que, como é natural, sendo eminentemente autobiográfico, constitui um exercício sonoro de exorcização de alguns dos demónios, angústias, eventos traumáticos e conflitos interiores de Tweedy. Este é, pois, um alinhamento com um travo melancólico particularmente abundante, mas também um registo quente, positivo e sorridente, um álbum direto, cru, tremendamente orgânico, claramente lo-fi, um impressivo e jubilante tratado folk, dominado por timbres de cordas particularmente estridentes, que abastecem uma constante dicotomia entre sentimentos e confissões.

Jeff Tweedy - Love Is The King

01. Love Is The King
02. Opaline
03. A Robin Or A Wren
04. Gwendolyn
05. Bad Day Lately
06. Even I Can See
07. Natural Disaster
08. Save It For Me
09. Guess Again
10. Troubled
11. Half-Asleep

 
13 - Matt Berninger - Serpentine Prison

Por muitas voltas que Matt Berninger dê à sua carreira musical, seja a solo, seja nos The National ou no projeto El VY, há sempre um tronco comum a todas as suas abordagens artísticas, as ideias de melancolia, de angústia amorosa e de sofrimento mais ou menos profundo devido a esse sentimento único. Serpentine Prison não foge à regra, num registo instrumentalmente riquíssimo e repleto de arranjos das mais diversas proveniências, com uma toada emotiva crescente e na qual cordas e piano se deixam cobrir com mestria por uma nuvem espessa de classicismo e por uma aúrea de sentimentalismo e sensibilidade únicos, impressões ampliadas pela superior delicadeza do registo vocal grave de Berninger, um músico, na sua essência, confessionalmente monocromático e, artisticamente, uma fonte inesperada de soul. Em suma, Serpentine Prison oferece-nos com tremenda nitidez alguns dos maiores medos e inseguranças do autor e Berninger fá-lo aqui tornando-se na própria estrela que interpreta o estilo particulamente cinematográfico de uma escrita sempre tocante, intensa e realista.

Matt Berninger - Serpentine Prison

01. My Eyes Are T-Shirts
02. Distant Axis
03. One More Second
04. Loved So Little
05. Silver Springs (Feat. Gail Ann Dorsey)
06. Oh Dearie
07. Take Me Out of Town
08. Collar Of Your Shirt
09. All For Nothing
10. Serpentine Prison

 

12 - Gorillaz - Sound Machine, Season One: Strange Timez

Song Machine, Season One: Strange Timez, o sétimo álbum dos britânicos Gorillaz, a última materialização e a maior do mais recente e inovador projeto da banda, intitulado Song Machine, uma aventura que tem no seu âmago o enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro. Melhor álbum dos Gorillaz desde o fabuloso Plastic Beach (2012), Sound Machine, Season One: Strange Timez é um passo seguro e estrondosamente feliz deste projeto, no que concerne ao modo como mais uma vez se reinventa, sem renegar, como seria de esperar, a sua essência. Refiro-me a criar canções onde a experimentação é uma matriz essencial, tem a eletrónica aos comandos, o hip-hop e o R&B na mira, mas também olha para o rock com uma certa gula. E nestas dezassete canções encontramos tudo isto e com um grau de ecletismo nunca visto, estando o centro nevrálgico em redor do qual gravita toda esta diversidade em muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico. E uma das facetas mais curiosas das dezassete composições é todas elas conseguirem atingir com enorme mestria o propósito simbiótico entre aquilo que é o som Gorillaz e o adn do convidado desse tema.

Gorillaz - Sound Machine Season One - Strange Timez

01. Strange Timez (Feat. Robert Smith)
02. The Valley Of The Pagans (Feat. Beck)
03. The Lost Chord (Feat. Leee John)
04. Pac-Man (Feat. ScHoolboy Q)
05. Chalk Tablet Towers (Feat. St Vincent)
06. The Pink Phantom (Feat. Elton John And 6LACK)
07. Aries (Feat. Peter Hook And Georgia)
08. Friday 13th (Feat. Octavian)
09. Dead Butterflies (Feat. Kano And Roxani Arias)
10. Désolé (Feat. Fatoumata Diawara) (Extended Version)
11. Momentary Bliss (Feat. slowthai And Slaves)
12. Opium (Feat. EARTHGANG)
13. Simplicity (Feat. Joan As Police Woman)
14. Severed Head (Feat. Goldlink And Unknown Mortal Orchestra)
15. With Love To An Ex (Feat. Moonchild Sanelly)
16. MLS (Feat. JPEGMAFIA And CHAI)
17. How Far? (Feat. Tony Allen And Skepta)

 

11 - Kevin Morby - Sundowner

Sundowner é um relato impressivo e clarividente de uma América claramente dividida entre dois pólos e que talvez, no campo musical, tenha na típica folk o instrumento mais eficaz de busca de pontes entre tão vincado antagonismo. Kevin Morby vem, disco após disco, aprimorando um modus operandi bem balizado, que se define por opções líricas em que dominam ambientes nublados, intimistas e reflexivos e um catálogo sonoro emimentemente delicado e fortemente orgânico, sem artifícios desnecessários, ou uma artilharia instrumental demasiado intrincada. E é este, claramente, o travo geral de Sundowner, um disco minimalista, que procura a interação imediata, mas também profunda, com o ouvinte e que tem no piano e nas cordas as armas de arremesso preferenciais. Kevin Morby é sagaz no modo como vai, disco após disco, subindo degraus no que concerne ao conteúdo qualitativo dos seus registos, fazendo-o com segurança e altivez, nunca beliscando uma apenas aparente dicotomia entre aquilo que é a grandiosidade da sua filosofia criativa e o modo minimal, simples e direto como a expôe, através de canções repletas de beleza, sensibilidade e conteúdo.

Kevin Morby - Campfire

01. Valley
02. Brother, Sister
03. Sundowner
04. Campfire
05. Wander
06. Don’t Underestimate Midwest American Sun
07. A Night At The Little Los Angeles
08. Jamie
09. Velvet Highway
10. Provisions

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publicado por stipe07 às 23:25

Badly Drawn Boy – Banana Skin Shoes

Sexta-feira, 11.12.20

O inglês Damon Gough, aka Badly Drawn Boy, passou grande parte da última fase da sua carreira a assinar ou a fazer parte dos créditos de algumas bandas-sonoras, com especial destaque para o alinhamento que criou para os filmes About a Boy, uma comédia adaptada de um romance de Nick Hornby Being Flynn, ambos do realizador Paul Weitz. De facto, desde que em dois mil e dez editou a triologia It’s What I’m Thinking, Badly Drawn Boy não editou qualquer registo de originais fora dessa bitola cinéfila, um hiato que teve, finalmente, os dias contados em dois mil e vinte, com a edição do álbum Banana Skin Shoes, o nono trabalho da carreira do artista.

Badly Drawn Boy Announces New Album, Shares "Banana Skin Shoes" |  Consequence of Sound

Produzido e misturado por Gethin Pearson (Kele Okereke, JAWS), Banana Skin Shoes é um registo animado e bem humorado, um alinhamento em que versatilidade e heterogeneidade combinam entre si, plasmando o vasto leque de influências que Badly Drawn Boy abarcou quando entrou e estúdio para dar vida às suas catorze canções. logo na vasta amálgama de efeitos, flashes e devaneios rítmicos do tema homónimo o ouvinte fica com uma ideia bastante clara do que o espera daí para a frente, uma orgia de sons díspares perfeitamente enleados e onde pop, indie rock, funk, rap, bossanova e jazz vão espreitando e atiçando todos os nossos sentidos. Logo a seguir, em Is This A Dream?, um tema vibrante e épico, onde se torna quase impercetível o jogo de sedução incrivelmente libdinoso que se estabelece entre teclas e cordas, enquanto uma enleante melodia, repleta de cor e otimismo, faz tudo para colocar no nosso rosto o melhor sorriso que conseguirmos armar, se dúvidas ainda exsitiam acerca da enorme beleza deste álbum, certamente que elas ficam dissipadas com este tema extraordinário.

A partir daí e depois de as hostilidades terem sido abertas de modo tão convincente, no festim percurssivo enleante de Tony Wilson Said, no melancólico piscar de olhos à bossa nova em You And Me Against The World, uma harmoniosa composição que impressiona pela solidez das flautas, na cadência lo fi setentista de Never Change e no orquestral dramatismo que exala de Apple Tree Boulevard, fica carimbada não só a tal diversidade de estilos já referida, mas também o poder que estas canções têm de fazer sorrir, mesmo o ouvinte mais céptico. Num ano tão estranho e bizarro, é mesmo um disco tão multifacetado, divertido e dançante como este que estamos a precisar de ouvir na sua reta final, para termos um pouco mais de fé relativamente ao futuro próximo. Espero que aprecies a sugestão...

Badly Drawn Boy - Banana Skin Shoes

01. Banana Skin Shoes
02. Is This A Dream?
03. I Just Wanna Wish You Happiness
04. I’m Not Sure What It Is
05. Tony Wilson Said
06. You And Me Against The World
07. I Need Someone To Trust
08. Note To Self
09. Colours
10. Funny Time Of Year
11. Fly On The Wall
12. Never Change
13. Appletree Boulevard
14. I’ll Do My Best

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publicado por stipe07 às 18:09

Gorillaz – Sound Machine, Season One: Strange Timez

Terça-feira, 27.10.20

Já chegou aos escaparates Song Machine, Season One: Strange Timez, o sétimo álbum dos britânicos Gorillaz, a última materialização e a maior do mais recente e inovador projeto da banda, intitulado Song Machine, uma aventura que teve início em janeiro com o lançamento do single Momentary Bliss. Depois disso, foram sendo divulgados outros episódios e temas, que mostraram Russell, Noodle, 2D e Murdoc, por locais tão díspares como Paris, Marrocos, Londres, Lago de Como e até a Lua. Sound Machine, Season One: Strange Timez é um portento de world music e conta com a participação de diversos artistas, como Elton John, Robert Smith, Fatoumata Diawara, Beck, ou Peter Hook, entre outros, e tal diversidade artística apenas sucede porque tem no seu âmago o enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro. Em jeito de curiosidade, importa também referir que este novo disco dos Gorillaz marca o retorno do baixista Murdoc Niccals, depois de não ter feito parte dos créditos de The Now Now, por ter sido preso, tendo, nesse registo, sido substituído por Ace, da série Meninas Superpoderosas.

Gorillaz unveil new album 'Song Machine, Season One: Strange Timez'

Melhor álbum dos Gorillaz desde o fabuloso Plastic Beach (2012) e produzido por Remi Kabaka Jr., Sound Machine, Season One: Strange Timez é um passo seguro e estrondosamente feliz deste projeto, no que concerne ao modo como mais uma vez se reinventa, sem renegar, como seria de esperar, a sua essência. Refiro-me a criar canções onde a experimentação é uma matriz essencial, tem a eletrónica aos comandos, o hip-hop e o R&B na mira, mas também olha para o rock com uma certa gula. E nestas dezassete canções encontramos tudo isto e com um grau de ecletismo nunca visto, estando o centro nevrálgico em redor do qual gravita toda esta diversidade em muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico. E uma das facetas mais curiosas das dezassete composições é todas elas conseguirem atingir com enorme mestria o propósito simbiótico entre aquilo que é o som Gorillaz e o adn do convidado desse tema.

A eletrónica minimalista e melancólica de Aries, o ambiente dançante e humorístico de The Valley Of The Pagans, abrilhantado por um Beck na sua melhor forma, o transe melódico de The Lost Chord, o ambiente retro de Pac-Man, abrilhantado por beats inconfundíveis e um jogo vocal entre Albarn e ScHoolboy Q espetacular, a tonalidade pop de Chalk Tablet Towers, a fusão entre rap e o piano de Elton John em The Pink Phantom, a fusão entre dub e downtempo de Friday 13th, o travo latino e caliente de Dead Butterflies e o inesperado cruzamento entre jazz soul e bossanova em Désolé, são os instantes maiores de toda esta caldeirada impressiva, rematada pela simbólica e justíssima homenagem a Tony Allen em How Far?, músico falecido já este ano e parceiro de Albarn em variadíssimas aventuras musicais, com particular destaque para o projeto The Good, The Bad and The Queen.

Portanto, escuta-se o álbum de fio a pavio e parece que estamos a escutar uma coletânea riquíssima dos melhores temas de cada um dos artistas convidados. Tal evidência alimenta a perceção que este foi um registo que se foi alimentando, durante o seu processo de criação e de composição, de um certo caos, de uma amálgama mais ou menos indefinida, como se tivesse florescido num Kong Studios, em Essex, arredores de londres, aberto para quem quisesse nele entrar e gravar com Albarn, não importanto a sua proveniência e gostos musicais, porque havia abertura de espírito e pafernália física e tecnológica disponível para captar o que surgisse. É, por isso, um trabalho que se alimenta do desconhecido e também o faz no modo como funciona, claramente, em puro caos.

Com a voz de Albarn a ser aquele inconfundível e delicioso apontamento de charme, serenidade e harmonia, numa multpilicade e heterogeneidade de outros registos, quase sempre abuptos, graves, determinados, contestatários e buliçosos, Sound Machine, Season One: Strange Timez é um intrigante exemplo sonoro de mescla de diferentes culturas, num pacote seguro e familiar, que permite a Albarn deixar mais uma vez vincada a sua apetência natural para se servir das raízes de qualquer estilo e conferir às mesmas o seu toque de personalidade, contornando, sem beliscar, todas as referências culturais dos seus convidados que, se não tivessem a mente tão aberta como o anfitrião, poderiam ver limitado o processo criativo. E assim, isentos de tais formalismos, não receiam misturar tudo aquilo que ouvem, aprendem e assimilam nas respetivas carreiras, fazendo-o com enorme bom gosto, ao mesmo tempo que refletem com indisfarçável temperamento sobre este mundo conturbado em que todos vivemos. Espero que aprecies a sugestão...

Gorillaz - Sound Machine Season One - Strange Timez

01. Strange Timez (Feat. Robert Smith)
02. The Valley Of The Pagans (Feat. Beck)
03. The Lost Chord (Feat. Leee John)
04. Pac-Man (Feat. ScHoolboy Q)
05. Chalk Tablet Towers (Feat. St Vincent)
06. The Pink Phantom (Feat. Elton John And 6LACK)
07. Aries (Feat. Peter Hook And Georgia)
08. Friday 13th (Feat. Octavian)
09. Dead Butterflies (Feat. Kano And Roxani Arias)
10. Désolé (Feat. Fatoumata Diawara) (Extended Version)
11. Momentary Bliss (Feat. slowthai And Slaves)
12. Opium (Feat. EARTHGANG)
13. Simplicity (Feat. Joan As Police Woman)
14. Severed Head (Feat. Goldlink And Unknown Mortal Orchestra)
15. With Love To An Ex (Feat. Moonchild Sanelly)
16. MLS (Feat. JPEGMAFIA And CHAI)
17. How Far? (Feat. Tony Allen And Skepta)

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publicado por stipe07 às 16:08

Local Natives – Sour Lemon EP

Sexta-feira, 23.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que tem a chancela do selo Loma Vista.

Local Natives share “Lemon” featuring Sharon Van Etten | lab.fm

Novidades dos Local Natives são sempre de saudar efusivamente. E quando trazem na bagagem participações especiais de nomes como Sharon Van Etten, então o regozijo torna-se ainda mais audível e justificado. De facto, as quatro canções de Sour Lemon aprimoram ainda mais o habitual patamar instrumental arrojado deste quinteto californiano, mantendo-se a excelência nas abordagens ao lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzida em inspirados versos e a formatação primorosa de diferentes nuances melódicas numa mesma composição, duas imagens de marca do projeto.

Sour Lemon EP convida-nos a penetrar no seu âmago à boleia de Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, Rice e Van Etten, que encaixam na perfeição. Depois, os seguidores mais puristas do grupo ficarão certamente deliciados com o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico, uma canção que nos mostra os Local Natives soterrados em variadas emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, como é apanágio do seu adn. Para o ocaso, se Lost não engana no modo como, etereamente, pisca o olho a ambientes mais nebulosos e jazzísticos, sem descurar uma leve pitada de R&B, já Future Lover tem o condão de nos fazer levitar e nos dar aconchego, através de um espírito interpretativo intenso e charmoso, onde se destaca o timbre metálico de uma divagante guitarra que contradiz na perfeição um registo percurssivo hipnótico, num resultado final de forte cariz pop.

Uma das grandes virtudes destas quatro novas canções dos Local Natives tem a ver com o facto de se sustentarem numa calculada complexidade, aliada a uma inspirada riqueza estilística, aspectos que fazem muitas vezes parecer que uma mesma composição dos Local Natives resulta de uma colagem simbiótica de diferentes puzzles com tonalidades e características diferentes. E estes dois aspetos peculiares marcam, claramente, um EP de enorme beleza e que merece ser apreciado com cuidado e real atenção, deixando bastante água na boca relativamente a um próximo longa duração deste grupo ímpar no panorama indie atual. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sour Lemon

01. Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02. Statues In The Garden (Arras)
03. Lost
04. Future Lover

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publicado por stipe07 às 16:35

Portugal. The Man – Who’s Gonna Stop Me (feat. Weird Al” Yankovic)

Quinta-feira, 15.10.20

Pouco mais de três anos após o lançamento do excelente Woodstock, os norte americanos Portugal. The Man de John Baldwin Gourley estão de regresso com um novo single intitulado Who’s Gonna Stop Me e que resulta de uma colaboração estreita com o artista, escritor e comediante “Weird Al” Yankovic. O tema tem o propósito claro de celebrar o Indigenous Peoples’ Day, um importante feriado norte-americano que homenageia e enaltece os povos e culturas indígenas do país, versando sobre a dificuldade que muitas pessoas pertencentes a essas etnias têm em sobreviver e prosperar numa América onde impera o feroz capitalismo que não tem em conta as especificidades culturais.

Stream Portugal. The Man & “Weird Al”'s New Song “Who's Gonna Stop Me” –  Ten15AM

Além de contar com a prestação vocal do rapper Last Artful Dodgr e de Weird Al” Yankovic, que chegou a remisturar os inéditos da banda de Portland, Feel It Still e Live In The Moment, Who's Gonna Stop Me, uma composição que abraça hip-hop, R&B e eletrónica, com criatividade e uma salutar dose de experimentalismo, também conta nos créditos com a presença de Jeff Bhasker, habitual colaborador de nomes como Mark Ronson e Kanye West, Paul Williams, que já escreveu algumas das canções mais emblemáticas dos Carpenters ou Barbra Streisand, Brian De Palma e Kermit The Frog.

O vídeo do tema é dirigido pela dupla Aaron Brown e Josué Rivas e nele podemos observar a banda ao redor de uma fogueira enquanto Weird Al” Yankovic tenta encarnar um coiote e diversos artistas e líderes indígenas vão surgindo vocalizando a canção, encarnados por diversos atores, destacando-se entre eles Acosia Red Elk, uma dançarina do povo Umatilla, nativo do estado norte-americano do Oregon. Confere...

Portugal. The Man - Who's Gonna Stop Me

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publicado por stipe07 às 17:07

Yellow Days – A Day In A Yellow Beat

Segunda-feira, 21.09.20

Três anos após o EP de estreia Harmless Melodies e o seu primeiro longa duração, Is Everything OK In Your World?, o cantor e multi-instrumentista britânico George van den Broek, de vinte e um anos, natural de Manchester e que assina a sua música como Yellow Days, está de regresso com A Day In A Yellow Beat, um tratado de indie pop de forte toada jazzística, gravado em Los Angeles, com forte influência da soul e do blues e sonoramente bastante eclético, também por causa de uma ilustre lista de convidados especiais, nomeadamente Shirley Jones, Nick Walters, Mac DeMarco e Bishop Nehru.

Yellow Days: A Day In A Yellow Beat — sprawling, ambitious and irritating |  Financial Times

Se nos seus dois primeiros registos, o EP e o álbum, Yellow Days focou-se nas temáticas da ansiedade e da depressão, com uma forte componente auto-biográfica, neste A Day In A Yellow Beat o compositor não deixa de versar sobre os dilemas típicos da entrada na vida adulta, mas logo no orgão buliçoso e na farta seleção de samples que constroem o diálogo que se estabelece na Intro, o autor mostra um lado mais irrequieto, luminoso e optimista, parecendo que deixou de vez a escuridão e o odor bafiento que marcava os seus dias para se encontrar com a luz e passar a viver tempos mais felizes e esperançosos. Não é claro se houve algum evento específico na sua vida que tenha originado tal transformação, mas é um facto que, logo após o rock experimental repleto de groove de Be Free, tema em que a voz de George atinge um registo que não fica a dever nada aos melhores intérpretes da soul americana do último meio século, canções como Getting Closer, uma composição com um clima retro setentista inconfundível, ou Let You Know, tema que também nos remete para a mesma época, mas de um modo mais charmoso, principalmente devido ao modo como o piano se intercepta com vários efeitos percurssivos, mostram um disco de janelas abertas para brisas suaves e aconchegantes e para um sol radioso e retemperador. Quer estas composições, quer, por exemplo, Who´s There?, uma obra-prima de pop funk, ou a sensualidade inconfundível de Keeps Me Satisfied, estão repletas de menções e clichés sobre o amor, do mais romântico ao mais lascivo, mas também sobre a alegria e a positividade. A expressão Put your hate away, que ciranda pelo space funk de Let’s Be Good to Each Other, é, talvez, o exemplo mais paradigmático desta impressão feliz que, a espaços, para ampliar a sensação de festa que Yellow Days certamente procurou incutir num alinhamento longo, mas que nunca satura, obedece a uma lógica sonora próxima do chamado discosound, feita com um elevado toque de modernidade, num ambiente algo psicadélico e que apela claramente às pistas de dança. 

Com nomes tão proeminentes como Howlin’ Wolf e Ray Charles como influências declaradas e repleto de diversos interlúdios feitos apenas à boleia da voz, com destaque para a enigmática Pot Party (The trippers, the grasshoppers, the hip ones, all gathered in secrecy, and flying high as a kite), A Day In A Yellow Beat  proporciona-nos uma experiência sensorial única e até intrigante, já que cada audição é uma janela de oportunidade que se abre para descobrir mais um efeito, uma nuance, um flash, uma corda, um sopro ou uma nota que ainda não tinha sido captada pelo nosso âmago.É um disco criado por uma das personagens mais queridas da indie britânica atual e que se expôe bem menos caótico e confuso do que antes e mais aprumado e organizado, fruto, certamente, de uma nova dinâmica existencial certamente mais feliz e que este A Day In A Yellow Beat claramente exala. Espero que aprecies a sugestão...

Yellow Days - A Day in a Yellow Beat

01. Intro
02. Be Free
03. Let You Know
04. (The Outsider)
05. Who’s There? (Feat. Shirley Jones)
06. Getting Closer
07. Come Groove (Interlude)
08. Keep Yourself Alive
09. Open Your Eyes (Feat. Nick Walters)
10. ! (Feat. Bishop Nehru)
11. (Pot Party)
12. Keeps Me Satisfied
13. You
14. (What Goes Up Must Come Down)
15. The Curse (Feat. Mac Demarco)
16. Let’s Be Good To Each Other
17. Whatever You Wanna Do
18. Something Special (Interlude)
19. So Lost
20. I Don’t Mind
21. (Mature Love)
22. Treat You Right
23. Love Is Everywhere

 

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publicado por stipe07 às 13:21

Glass Animals - Dreamland

Terça-feira, 25.08.20

Já chegou aos escaparates Dreamland, o terceiro registo de originais dos britânicos Glass Animals, álbum que sucede ao aclamado compêndio How To Be A Human Being e um disco de forte cariz autobiográfico, já que, além de nostalgicamente ter servido para regatar algumas das memórias mais indelévies da infância e da adolescência de Dave Bayley, o vocalista do grupo, é também bastante inspirado num acidente que quase paralisou o baterista da banda Joe Seaward, um evento que marcou imenso quer o próprio, quer os seus companheiros, o já referido Dave Bayley, assim como o guitarrista Drew MacFarlane e o baixista Ed Irwin-Singer. Em julho de dois mil e dezoito Joe foi atropelado por um camião em Dublin enquanto andava de bicicleta e além de ter ficado com múltiplas fraturas numa perna, teve uma grave lesão craniana que o levou duas vezes à mesa de operações e que o fez perder algumas das suas faculdades psíquicas e partes da sua memória, obrigando-o a um longo e doloroso processo de fisioterapia, de modo a recuperar do evento.

Glass Animals – 'Dreamland' album review

Dreamland é, conforme indica o titulo, implicitamente, uma espécie de fuga da realidade, mas não na forma de busca de um mundo paralelo e imaginário. O objetivo é criar uma banda sonora que poderia muito bem ter servido para ilustrar um passado que marcou intensamente Bayley. Captações de gravações em VHS, alusões nada discretas a alguns ícones dos anos noventa do século passado, como o Pokémon, o jogo Street Fighter ou a série Friends, não enganam relativamente a esse propósito. É um relato de uma época ainda bastante fresca na memoria de muitos de nós, impressivo desde o tema homónimo, um tratado de pop eletrónica algo viciante e hipnótico, onde abundam harmonias vocais belíssimas, que se espraiam lentamente pela canção e se deixam afagar livremente pelo manto sonoro que as sustenta, até Helium, tema rico em detalhes e com um groove muito genuíno e uma atmosfera dançante, onde encaixa indie popfolkhip-hop e electrónica, com noção de equilíbrio e um limbo perfeito.

Pelo meio, sempre inundados por uma ímpar sensação de nostalgia e por um travo retro com uma estética distinta, composições do calibre de Space Ghost Coast To Coast, um rugoso e buliçoso tratado de R&B repleto de citações ao filme Golden Eye e aos jogos Quake e Doom, Melon And The Coconut, canção com um clima quente, proporcionado por um efeito sintetizado pleno de soul, a crescente efervescência de It's All So Incredible Loud e a curiosa amálgama instrumental efusiante de Waterfalls Coming Out Your Mouth, são temas que conseguem abarcar os melhores detalhes da música eletrónica mais soturna e atmosférica e que, entre o insinuante e o sublime, nos fazem recuar pouco mais de vinte anos até às nebulosas ruas de Bristol e aos primórdios do trip-hop, mas também à Brooklyn dos anos setenta, em pleno ressurgimento da melhor música negra.

Disco competente no modo como personifica o natural processo evolutivo de um dos projetos mais inovadores da eletrónica contemporânea, Dreamland assenta numa receita assertiva onde não falta uma prestação vocal intensa, constituindo, no seu todo, um ambiente sonoro intenso e emocionante, que nunca deixa de lado a delicadeza, uma melancolia digital que traça a régua e esquadro aquele que é um dos discos mais curiosos deste verão. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:17

Sufjan Stevens – Video Game

Segunda-feira, 24.08.20

Sufjan Stevens - Video Game

Está para breve a chegada aos escaparates de The Ascension, o quinto e novo trabalho do norte-americano Sufjan Stevens, um registo que irá ver a luz do dia a vinte e setembro e que sucede ao excelente Carrie & Lowell, um disco com já meia década de existência.

Como bem se recordam, America foi o primeiro single revelado de The Ascension, uma jornada eletrónica climática e intimista, mas também algo inquietante, feita de um psicadelismo eminentemente experimental, assente numa vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que adornaram uma composição bem à medida da imensidão e do silêncio que carateriza o vazio cósmico a que o músico de Chicago nos tem habituado ultimamente.

Agora, cerca de mês e meio depois de contemplarmos essa grandiosa composição, chega a vez de conferirmos a menos ousada, mas igualmente deliciosa, Video Game, talvez a canção da carreira do musico de Chicago que mais fielmente obedece ao formato pop dito convencional, já que, sendo melodicamente feliz, assenta num registo sintético proeminente, em que, numa espécie de dance pop psicadélico, vozes e batidas aproximam perigosamente Sufjan Stevens de um território sonoro dominado por alguns dos maiores mestres do R&B e do hip-hop atual. Confere...

 

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publicado por stipe07 às 21:01

The 1975 – Notes On A Conditional Form

Quarta-feira, 27.05.20

Um dos grandes momentos discográficos do momento é, sem dúvida, o lançamento de Notes On A Conditional Form, o novo registo de originais dos The 1975 de Matt Healy e sucessor do excelente registo A Brief Inquiry Into Online Relationships, que viu a luz do dia em dois mil e dezoito. Notes On A Conditional Form tem a chancela daPolydor Records e contém dezoito temas, sendo, claramente, o projeto mais ambicioso deste extraordinário coletivo natural de Manchester, em Inglaterra.

The 1975: Notes On A Conditional Form - Review | Vinyl Chapters

Quarto disco da carreira dos The 1975, Notes On A Conditional Form é o trabalho mais ambicioso e abrangente da carreira deste coletivo, não só devido ao número de canções que contém, mas também, e principalmente, por causa do seu conteúdo eclético e abrangente. Depois de um percurso discográfico com três tomos em que a grande aposta foi um anguloso piscar de olhos a algumas das referências pop dos anos oitenta com forte tendência radiofónica, não faltando até interseções com o melhor R&B norte americano e a eletrónica mais futurista, este novo trabalho do grupo britânico encarna com ímpar experimentalismo e superior grau criativo um labirinto sonoro que da eletrónica, ao punk rock, passando pela pop e o típico rock alternativo lo fi, abraça praticamente todo o leque que define os arquétipos essenciais da música alternativa atual.

Assim, logo a abrir, depois de um breve discurso de Greta Thunberg, People, o primeiro single revelado de Notes On A Conditional Form, abre as hostilidades e dá as cartas de modo abrasivo. É uma contundente e tenebrosa canção, que traçando uma linha reta entre a herança de nomes tão proeminentes do metal como os Rammstein ou os Marilyn Manson, nos oferece quase três minutos de um punk rock direto e cru, sólido, vibrante e efusivo. A seguir ao interlúdio The End (Music For Cars), a composição Frail State Of Mind leva-nos a um ambiente mais contido e intimista, através de um soft rock que interceta R&B com dubstep, enquanto se debruça sobre a temática da depressão (Go outside? Seems unlikely, I’m sorry that I missed your call, I watched it ring; Don’t waste their time, I’ve always got a frail state of mind).

Dado o pontapé de partida do álbum com dois temas tão díspares, fica desde logo plasmada a tal abrangência, que se mantém até ao ocaso, sempre com aquele registo pop algo açucarado, mas inconformado, feito de guitarras contundentes, mas também melodicamente sagazes, uma performance percurssiva eclética e que nunca enjeita colocar explicitamente as pistas de dança na mira e uma vasta miríade de efeitos e arranjos, que raramente têm receio de se adornar com cor e exuberância. Canções do calibre de Me And You Together Song, uma composição romântica, amena e contemplativa, assente num rock algo lo fi, onde o vigor das cordas e um ritmo algo frenetico, são amaciados por uma tonalidade ao nível dos arranjos a fazer recordar a euforia pop que marcou grandes sucessos de algumas bandas carismáticas, no dealbar dos anos noventa do século vinte e o início deste, ou Guys, um portento indie de romantismo e nostalgia, em que as guitarras são amaciadas por uma tonalidade cândida ao nível dos arranjos, à medida que Healy homenageia os seus companheiros de grupo, já que o tema versa sobre o modo como determinadas amizades são marcantes na nossa vida, mesmo que o passar dos anos e as vicissitudes da existência de cada um provoquem distanciamento físico, são outros momentos maiores de um registo que tem como ponto comum fundamental deste disco em relação aos seus antecessores. o forte cariz autobiográfico de grande parte das canções. Não faltam, portanto, aqui letras que se debruçam bastante sobre as experiências pessoais e os pontos de vista de Matt Healy, um artista que investe imenso, fisica e psicologicamente, na sua carreira musical e que já confessou que morreria realizado e feliz se isso sucedesse enquanto estivesse em palco.

De facto, o arco narrativo do disco segue Healy desde as suas origens de filho de duas personalidades da televisão britânica relativamente conhecidas e que, não sendo particularmente excepcional no seu percurso educativo, sempre teve o sonho de ser uma estrela rock, desiderato que me parece já ter atingido com este Notes On A Condiotional Form. Mas, apesar deste aparente centralismo narrativo, o foco é abrangente e Healy, olhando para dentro de si com pouco pudor, fá-lo de modo a conciliar também a habitual propensão dos The 1975 para a crítica contundente acerca do estado atual do mundo em que vivemos, com a política, o terrorismo, as questões ambientais e a religião a serem também temas abordados num compêndio que, como já referi, capta na sua essência as tendências mais atuais de um rock alternativo cada vez mais disposto a alargar fronteiras e a misturar, sem receio, estilos, géneros e tiques, de modo a criar uma sonoridade pop cada vez mais futurista e que prime pela diferença. Espero que aprecies a sugestão...

The 1975 - Notes On A Conditional Form

01. The 1975
02. People
03. The End (Music For Cars)
04. Frail State of Mind
05. Streaming
06. The Birthday Party
07. Yeah I Know
08. Then Because She Goes
09. Jesus Christ 2005 God Bless America
10. Roadkill
11. Me And You Together Song
12. I Think There’s Something You Should Know
13. Nothing Revealed / Everything Denied
14. Tonight (I Wish I Was Your Boy)
15. Shiny Collarbone
16. If You’re Too Shy (Let Me Know)
17. Playing On My Mind
18. Having No Head
19. What Should I Say
20. Bagsy Not In Net
21. Don’t Worry
22. Guys

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publicado por stipe07 às 12:05

King Krule – Man Alive!

Quarta-feira, 11.03.20

Já está nos escaparates Man Alive!, o quarto e novo registo de originais do britânico Archy Marshall, que assina a sua inusitada música como King Krule e que nos oferece mais um alinhamento de catorze canções, gravadas entre os estúdios Shrunken Heads, em Nunhead, Londres e, mais tarde nos estúdios Eve, em Stockport, no norte de Inglaterra, para onde teve de se mudar após o nascimento da sua filha.  Co-produzido por Dilip Harris, Man Alive! sucedem ao intimista registo The Ooz (2017) e que fazendo, com a ajuda de Ignacio Salvadores (saxofone), George Bass (bateria), Jack Towell (vocoder) e James Wilson (baixo), interseções únicas entre o rock, a pop, o jazz, o rap, a eletrónica ambiental e o próprio punk lo-fi, proporciona-nos uma experiência sensorial única e até intrigante, já que cada audição é uma janela de oportunidade que se abre para descobrir mais um efeito, uma nuance, um flash, uma corda ou uma nota que ainda não tinha sido captada pelo nosso âmago.

Resultado de imagem para King Krule – Man Alive!

Guitarrista de formação, mas mestre na arte de sobrepôr a mais variada míriade instrumental que a sua profícua mente o induza a usar para adornar as composições sonoras que cria, King Krule revela-se, neste Man Alive!, também um exímio contador de histórias, tal é o travo de autenticidade poética das mesmas e que andam muito à volta do nascimento da sua filha, resultado da relação com a fotógrafa Charlotte Patmore e como esse evento o fez mudar de uma vida de bastantes períodos de bonomia, para uma realidade em que existe o foco concreto de ter de ser um bom pai e proporcionar à filha, material e emocionalmente, tudo aquilo que precisa. Assim, na cosmicidade boémia que abastece, na sobresposição entre guitarra e metais, Cellular, no cru minimalismo ecoante de Supermarché, no rap nebuloso e futurista de Stoned Again, na intrigante Comet Face, no rock experimental repleto de groove de Alone, Omen 3 ou no soturno blues de Perfecto Miserable, encontramos alguns dos melhores momentos de um alinhamento onde não falta luz, optimismo e preserverança, criado por uma das personagens mais queridas da indie britânica atual e que se expôe bem menos caótico e confuso do que antes e mais aprumado e organizado, fruto, certamente, de uma nova dinâmica existencial certamente mais feliz e que Man Alive! claramente exala. Espero que aprecies a sugestão...

King Krule - Man Alive!

01. Cellular
02. Supermaché
03. Stoned Again
04. Comet Face
05. The Dream
06. Perfecto Miserable
07. Alone Omen 3
08. Slinsky
09. Airport Antenatal Airplane
10. (Don’t Let The Dragon) Draag On
11. Theme for The Cross
12. Underclass
13. Energy Fleets
14. Please Complete Thee

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publicado por stipe07 às 22:47






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