Terça-feira, 10 de Julho de 2018

Linda Martini - É só uma canção vs Quase se fez uma casa

Os Linda Martini de André Henriques (Voz e Guitarra), Cláudia Guerreiro (Baixo e Voz), Hélio Morais (Bateria e Voz) e Pedro Geraldes (Guitarra e Voz), continuam a retirar dividendos do excelente homónimo que editaram recentemente e que os catapultou, definitivamente e com toda a justiça, para o pódio dos melhores projetos de indie rock alternativo nacionais da atualidade.

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Sucessor do aclamado Sirumba, editado em dois mil e dezasseis, Linda Martini foi gravado na Catalunha entre Outubro e Novembro de 2017, com produção da própria banda e Santi Garcia e com todos os detalhes pensados até ao mais ínfimo pormenor. Por exemplo, o retrato a óleo da capa é a rapariga italiana a quem a banda pediu emprestado o nome no início do século, quando o projeto surgiu e o seu conteúdo sonoro não pretende ser uma mera continuidade da sonoridade habitual, mas antes uma fuga da zona de conforto, com um equilíbrio cada vez maior de elementos como o ritmo, a melancolia e o intimismo, relativamente não só ao antecessor, mas também a todo o cardápio do projeto, que conta já com seis tomos.

Em suma, os Linda Martini de hoje podem ser Rock e Fado, Fugazi e Variações, Fela Kuti e Afrobeat, Tim Maia e Funk, sem nunca soarem a outra coisa que não eles e são poucas as bandas que, remexendo e criando desconforto à primeira audição, conseguem depois, da harmonia ao caos, do balanço lânguido às cavalgadas épicas, soarem harmoniosos e profundamente cativantes.

Para espalhar ainda mais a sua doutrina, os Linda Martini acabam de retirar de Linda Martini dois singles e em simultâneo, os temas É só uma canção e Quase se fez uma casa. De acordo com o press release do lançamento, neste duplo videoclip, o grupo abre com É só uma canção, composição que nos fala sobre o peso da maldita folha em branco. São eles a contornar o que já fizeram, a contrariar rotinas para descobrirem outro ângulo e em Quase se fez uma casa, o segundo filme, amachucam o rascunho para que nada fique de pé. Peritos em adocicar a tragédia, a amargar-nos a felicidade, entram num jogo de tensão e libertação; um workshop de gestão de raiva do qual todos saíram ilesos e um pouco mais leves. Confere...


autor stipe07 às 09:40
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Sábado, 16 de Junho de 2018

Hooded Fang – Dynasty House EP

Já chegou aos escaparates à boleia da DAPS Records Dinasty House, o novo EP dos canadianos Hooded Fang, uma banda natural de Toronto, formada por April Aliermo, Daniel Lee, D. Alex Meeks e Lane Halley e que do blues dos anos sessenta, ao punk setentista, passando pelo rock experimental e de garagem, são competentes na forma como abordam diferentes estilos e tendências dentro do universo sonoro mais alternativo. Este EP sucede ao aclamado álbum Venus On Edge, editado há pouco mais de dois anos, um alinhamento que chamou ainda mais a atenção da crítica para o grupo e com temas que chegaram a fazer parte da banda sonora de vários anúncios comerciais em televisões europeias e em programas de televisão norte-americanos, tais como The Flash, Parenthood e CSI New York.

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Este quarteto tem vindo a apresentar, registo após registo, um som cada vez mais adulto e intrincado, com uma forte tonalidade urbana e típica dos subúrbios. O baixo e a guitarra abrasiva de Nene Of The Light, o single entretanto extraído de Dinasty House, é uma boa amostra desta evolução e os desvios rítmicos percussivos dessa canção, clarificam um trabalho exploratório que tem feito sempre parte do adn dos Hooded Fang que, sem colocarem de lado a essência pop dos anos sessenta e setenta, usam uma impressiva veia experimentalista para piscarem com cada vez maior confiança o olho a um universo ainda mais progressivo e sombrio.

Embrenhamo-nos corajosamente em Dinasty House e, ainda sem sabermos que, lá mais para o ocaso, o solo do baixo de Mama Pearl vai convencer definitivamente os mais cépticos acerca da excelência criativa destes Hooded Foang, a distorção metálica e as insinuantes cadências rítmicas de Queen Of Agusan Del Norte e o devaneio fortememente etílico que transborda do andamento punk de Sister And Suns, são bons exemplos de duas canções que poderiam estar esquecidas algures numa cassete legendada com uma banda lá do bairro, que apesar de nunca ter saído de um sala de ensaios que também servia de destilaria, tinha todo o potencial para poder chegar a um universo sempre ávido de sonoridades inéditas, como parece ser o caso destes Hooded Fang, já merecedores de uma posição de relevo na esfera indie punk rock internacional

Os Hooded Fang são canadianos, mas é o rock americano, com uma produção forte e notoriamente agressiva e progressiva que se torna no verdadeiro cavalo de batalha do seu som, montado numa crueza lo fi e rugosa, muitas vezs algo inquietante, mas sempre sedutora, até porque este verdadeiro caldeirão insinuante de ruído é ordenado e feito com propósito, num grupo que, lançamento após lançamento, tem aperfeiçoado a sua linguagem sonora. Espero que aprecies a sugestão...

Hooded Fang - Dynasty House

01. Queen Of Agusan Del Norte
02. Sister And Suns
03. Nene Of The Light
04. Paramaribo Prince
05. Doñamelia
06. Mama Pearl


autor stipe07 às 12:05
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Quinta-feira, 7 de Junho de 2018

We Are Scientists - Megaplex

Os norte americanos We Are Scientists estão de regresso aos discos em 2018 com Megaplex, o sexto registo discográfico desta banda que teve as suas raízes na Califórnia, está atualmente sedeada em Nova Iorque e já leva dezassete anos de carreira, sendo formada atualmente por Keith Murray, Chris Cain e Scott Lamb e um dos nomes fundamentais do pós punk atual. Sucessor do excelente Helter Seltzer, este novo trabalho dos We Are Scientists viu a luz do dia a vinte e sete de abril através da Grönland Records e foi produzido por Max Hart.

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Escuta-se os últimos discos dos We Are Scientists e a sensação que muitas vezes fica é que estamos na presença de uma daquelas bandas que não quer ser levada muito a sério. Não indo mais longe, basta pensar no antecessor deste Megaplex, o disco Helter Seltzer, título que resultou de um trocadilho entre uma conhecida marca de águas internacional e o clássico dos The Beatles Helter Skelter, para ficar expressa a habitual boa disposição de uma banda que, apesar de já amealhar na sua herança alguns pergaminhos sonoros que apesar de inapelavelmente fazerem alas para os jeans coçados escondidos no guarda fatos e as t-shirts coloridas e convidarem a que se ponha o congelador a bombar com cerveja e a churrasqueira a arder porque é hora de festa, também são verdadeiros marcos sonoros, já que temas como Nobody Move, Nobody Get Hurt ou The Great Escape e Impatience, são hinos não só de uma geração mas de todos aqueles que acompanham com particular devoção o universo sonoro dominado pelo rock alternativo.

Sendo assim, uma das primeiras impresões que fica após a audição deste portento sonoro chamado Megaplex é que a habitual banda sonora destes We Are Scientists firmada no velhinho rock n'roll feito sem grandes segredos e carregado de decibeis, um rock algo inofensivo e que aqui, em canções como Notes In A Bottle ou a rugosa Your Heart Has Changed se materializa através da habitual simplicidade melódica do projeto, não foi colocado inteiramente de parte, mas houve, desta vez uma clara preocupação em olhar para uma faceta mais synthpop e até retro, como demonstram, desde logo, os sintetizadores e a toada épica de forte cariz oitocentista de One In One Out. Para que esta opção resultasse de modo tão eficaz houve certamente uma elevada dose de responsabilidade do produtor Max Hart, que orientou um trabalho de produção e mistura que não descurou quer as noções de grandiosidade, quer de ruído, além de alguns efeitos imponentes que acabaram por adornar e dar mais brilho e cor à maioria das composições. Lá mais para o meio do disco, em No Wait At Five Leaves, esta abordagem mais sintética ganha ainda um maior fulgor ao encostar-se a alguns tiques do punk nova iorquino de início deste século, com os Interpol a serem, quanto a mim, uma influência declarada não só neste tema mas em outros momentos de Megaplex.

Cada uma destas novas dez músicas que os We Are Scientists propôem, reflete, portanto, um sustentado crescimento da banda, ao mesmo tempo que fornecem mais uma coleção de composições que vão cair facilmente no goto de todos aqueles que apreciam quer o género, quer o grupo e que perceberão certamente o grau de inedetismo deste Megaplex. O grande segredo dos We Are Scientists reside exatamente na capacidade que demonstram de se renovarem e exerimentarem coisas novas e, ao mesmo tempo, não quererem complicar. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:15
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Sexta-feira, 1 de Junho de 2018

The Flaming Lips – Greatest Hits Vol. 1

Basta fazer uma pesquisa ao histórico de Man On The Moon para perceber que no dia um de junho, o Dia Mundial da Criança é, curiosamente, o dia de ser publicado neste blogue algo sobre uma das bandas fundamentais e mais criativas do cenário musical indie e alternativo. Falo, como é natural, dos The Flaming Lips de Oklahoma, um dos projetos sonoros mais curiosos e animados da cultura musical contemporânea. Há quase três décadas que gravitam em torno de diferentes conceitos sonoros e diversas esferas musicais e em cada novo disco reinventam-se e quase que se transformam num novo projeto. Oczy Mlody foi o nome do último trabalho que este coletivo liderado pelo inimitável Wayne Coyne lançou no dealbar de 2017, uma verdadeira orgia lisérgica de sons e ruídos etéreos que direcionaram, em simultâneo, esta banda para duas direções aparentemente opostas, a indie pop etérea e psicadélica e o rock experimental, o último capítulo de uma saga alimentada por histórias complexas (Yoshimi Battles the Pink Robots), sentimentos (The Soft Bulletin) e experimentações únicas (Zaireeka) e ruídos inimitáveis (The Terror), que acaba de ser revisitada numa edição de luxo de três tomos intitulada Greatest Hits Vol. 1, que abarca todo o catálogo dos The Flaming Lips na Warner Brothers, não só os singles e temas mais conhecidos do grupo mas também alguns lados b, versões demo e temas que nunca foram gravados.

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O alinhamento de Greatest Hits, Vol. 1 começa logo nos singles editados em 1992 e retirados do mítico álbum Hit to Death in the Future Head e só termina no já referido Oczy Mlody. Todas as canções dos três discos que faem parte do lançamento foram remasterizadas a partir das gravaçoes originais, pela mão de Dave Fridmann, o produtor de sempre dos The Flaming Lips. Haverá também uma edição em vinil de Greatest Hits, Vol. 1 que condensará onze dos melhores temas do grupo, estando todo o arsenal do lançamento e material promocional disponível na página oficial do grupo a preços particularmente acessíveis.

Os The Flaming Lips causaram furor desde o início da carreira e posicionaram-se desde logo na linha da frente dos grupos que se assumem como bandas de rock alternativo mas que não se coibem de colocar toda a sua criatividade também em prol da construção de canções que obedeçam a algumas das permissas mais contemporâneas, nomeadamente a eletrónica ambiental, muito presente nos discos da banda desde Yoshimi Battles the Pink Robots. Essa busca de abrangência está muito bem plasmada nesta súmula que chega agora aos escaparates e que foi servindo para solidificar tamém o desejo da banda de construir alinhamentos temáticos, onde os temas se colocassem ao serviço de uma espécie de tratado de natureza hermética e esse bloco de composições não fosse mais do que partes de uma só canção de enormes proporções. Assim, podemos, sem receio, olhar para Greatest Hits Vol. 1 como uma grande composição que se assume como um veículo pronto a conduzir-nos numa espécie de viagem apocalíptica, onde Coyne, sempre consciente das transformações que foram abastecendo a musica psicadélica, assume o papel de guia e conta o seu percurso pessoal das últimas trêsdécadas, servindo-se ora de composições atmosféricas com marcas sonoras relacionadas com vozes convertidas em sons e letras que praticamente atuam de forma instrumental e tudo é dissolvido de forma aproximada e homogénea como de ondas sonoras expressivas relacionadas com o espaço sideral através de guitarras experimentais, com enorme travo lisérgico, ou tratados de indie rock rugoso, épico e submersivo, que não se coibem de piscar o olho ao grunge e ao próprio punk mais intuitivo.

Uma das virtudes e encantos dos The Flaming Lips foi sempre a capacidade de criarem discos algo desfasados do tempo real em que foram lançados, quase sempre relacionados com um tempo futuro, cenários imaginados e universos paralelos. E na verdade, além disso, o que eles têm feito tem sido, no fundo, musicar todas as atribulações normais da existência comum, especialmente, na algo desregulada sociedade norte americana contemporânea. A poesia dos The Flaming Lips é sempre metafórica, o que faz deles um grupo ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade, capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-los para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas e que só eles conseguem transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

The Flaming Lips - Greatest Hits Vol. 1

CD 1

01. Talkin’ ‘Bout the Smiling Deathporn Immortality Blues (Everyone Wants To Live Forever)
02. Hit Me Like You Did The First Time
03. Frogs
04. Felt Good To Burn
05. Turn It On
06. She Don’t Use Jelly
07. Chewin The Apple Of Your Eye
08. Slow Nerve Action
09. Psychiatric Explorations Of The Fetus With Needles
10. Brainville
11. Lightning Strikes The Postman
12. When You Smile
13. Bad Days (Aurally Excited Version)
14. Riding To Work In The Year 2025
15. Race For The Prize (Sacrifice Of The New Scientists)
16. Waitin’ For A Superman (Is It Getting Heavy?)
17. The Spark That Bled
18. What Is The Light?

CD 2
01. Yoshimi Battles The Pink Robots, Pt. 1
02. In The Morning Of The Magicians
03. All We Have Is Now
04. Do You Realize??
05. The W.A.N.D.
06. Pompeii Am Gotterdammerung
07. Vein Of Stars
08. The Yeah Yeah Yeah Song
09. Convinced Of The Hex
10. See The Leaves
11. Silver Trembling Hands
12. Is David Bowie Dying? (Feat. Neon Indian)
13. Try To Explain
14. Always There, In Our Hearts
15. How??
16. There Should Be Unicorns
17. The Castle

CD 3
01. Zero To A Million
02. Jets (Cupid’s Kiss vs. The Psyche Of Death) [2-Track Demo]
03. Thirty-Five Thousand Feet Of Despair
04. The Captain
05. 1000ft Hands
06. Noodling Theme (Epic Sunset Mix #5)
07. Up Above The Daily Hum
08. The Yeah Yeah Yeah Song (In Anatropous Reflex)
09. We Can’t Predict The Future
10. Your Face Can Tell The Future
11. You Gotta Hold On
12. What Does It Mean?
13. Spider-man Vs. Muhammad Ali
14. I Was Zapped By The Lucky Super Rainbow
15. Enthusiasm For Life Defeats Existential Fear Part 2
16. If I Only Had A Brain
17. Silent Night / Lord, Can You Hear Me


autor stipe07 às 18:27
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Quinta-feira, 31 de Maio de 2018

Cave Story - Special Diners

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Os Cave Story de Pedro Zina (baixo), Ricardo Mendes (bateria) e Gonçalo Formiga têm novas histórias para contar e ainda este ano, através de um registo de originais que é também um panfleto de estudos, intitulado Punk Academics e que irá ver a luz do dia até ao ocaso de 2018 à boleia da Lovers & Lollypops. O seu alinhamento irá dissertar sobre a Punk Rock Academy mencionada no disco de 1997 A Society of People Named Elihu, do projeto Atom & His Package.

Special Diners é o primeiro single divulgado do disco, pouco menos de dois minutos que nos mostram alguns dos melhores atributos sonoros dos Cave Story, descritos dentro dos abrangentes limites definidos por um post punk pop experimental de elevado calibre. O vídeo de Special Diners foi realizado pelos Das Playground que passaram alguns dias com a banda pelo meio de uma viagem de seis meses a filmar à volta do mundo. Confere...


autor stipe07 às 18:26
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Quinta-feira, 24 de Maio de 2018

Parquet Courts - Wide Awake!

Lançado a dezoito de maio último por intermédio da Rough Trade Records, Wide Awake! é o novo registo de originais dos norte americanos Parquet Courts, uma banda nova iorquina formada pelos guitarristas Andrew Savage e Austin Brown, o baixista Sean Yeaton e o baterista Max Savage e um dos coletivos do universo indie e alternativo mais aclamados da última meia década, muito por culpa de canções que parecem viajar no tempo e que, disco após disco, vão amadurecendo numa simbiose certeira entre garage rockpós punk e rock, até se tornarem naquilo que são, peças sonoras que querem brincar com os nossos ouvidos, sujá-los com ruídos intermináveis e assim, proporcionarem uma audição leve e divertida.

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Abrigados numa filosofia instrumental que se tem servido fundamentalmente de arranjos sujos e guitarras desenfreadas, às vezes com uma forte índole psicadélica, os Parquet Courts sempre foram uma banda insatisfeita com o seu adn e disposta a potenciar o seu som de acordo com o momento criativo do coletivo, sem grandes preocupações acerca de eventuais limites ou fronteiras relativamente a esse exercício libertário. Tal opção acabou por fazer do cardápio já disponível do grupo, um emaranhado heterogéneo, que ganha ainda maior abrangência neste Wide Awake!, provavelmente o disco mais eclético e abrangente dos Parquet Courts. E isso também sucede porque além de terem criado Wide Awake! na fase mais madura da sua curta, mas já rica, carreira, também é clara a vontade de baterem com ainda maior estrondo às portas de um sucesso que materialize uma superior e merecida exposição do projeto a um número cada vez maior de ouvintes e de críticos. Sendo assim, a missão está cumprida porque este quarteto é, sem sombra de dúvidas, um dos coletivos mais excitantes e inovadores da atualidade, dentro do espetro musical em que se movimenta.

Se logo nos loopings bizarros da insana cartilha de garage folk que costura o punk shoegaze incisivo de Total Football se percebe que, como é norma no projeto, Wide Awake! é um disco muito concentrado no uso das guitarras, logo a seguir, no devaneio psicadélico funk de Violence, regista-se um incremento da importância da sintetização, com as teclas que conduzem a melodia de Before The Water Gets Too High a cimentarem de modo particularmente impressivo esta nuance, à qual não será alheia a escolha de Danger Mouse para a produção do registo.

O modo harmonioso e eficaz como este núcleo parece funcionar também deve muito ao caos aparente que reina no seu seio. Aí, cada um extraí o melhor de si próprio, dentro das suas responsabilidades líricas e instrumentais, mas fá-lo para proveito imediato do todo. Por exemplo, chega-se ao âmago do disco e em Freebird II fica latente uma certa tensão entre aquilo que é essa individualidade de cada um dos executantes do grupo e a mente de Andrew Savage, que canta uma canção escrita pelo próprio e dedicada à sua mãe e onde disserta sobre a importância dela num período da sua vida em que dominou a solidão e a adição a algumas substâncias psicotrópicas. O espírito descontraído e vibrante da vertente instrumental do tema, contradiz, de algum modo, o cariz depressivo do poema, mas este paradoxo é já uma imagem de marca e funciona, como se percebe na composição, na perfeição. Depois, Mardi Gras Beads, o tema mais etéreo e contemplativo de Wide Awake!, dissertando sobre um vocalista de uma banda punk que sonha constantemente em flutuar sobre uma multidão em êxtase, reforça esse paradoxo e a antítese entre aquilo que é a realidade lírica e a materialização sonora de algumas das canções deste alinhamento. Além disso, o groove setentista do punk rock de Normalization, o piscar de olhos assumidamente sexy a um coito efervescente entre o jazz, a bossa nova e a tropicália no tema homónimo e o blues fumarento e sulista do piano de Tenderness, carimbando de modo qualitativamente superior a tal abrangência, mostra-nos que a banda está a mover-se muito rapidamente para um universo sonoro bastante mágico e com um estilo muito vincado e identitário, sendo difícil prever quais serão, daqui para a frente, os próximos passos musicais dos Parquet Courts.

Independentemente de todas as referências nostálgicas e mais contemporâneas que Wide Awake! possa suscitar, este tomo raivoso de canções que mostram os dentes sem receio, possibilita-nos apreciar uns Parquet Courts renovados, enérgicos e interventivos, instalados no seu trabalho mais divertido, mas também ousado, uma sucessão incrível de canções que são passos certos e firmes para um futuro que não deverá descurar um piscar de olhos a ambientes ainda mais experimentalistas, sem colocar em causa esta óbvia e feliz vontade de chegarem a cada vez mais ouvidos. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:50
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

The Vaccines – Combat Sports

Produzido por Ross Orton, Combat Sports é o novo registo discográfico dos britânicos The Vaccines de Justin Young, Freddie Cowan, Pete Robertson, Árni Árnason, o quarto registo de originais da carreira deste projeto que se estreou em 2011 com o aclamado  What Did You Expect from The Vaccines? e que desde então tem pautado o seu percurso discográfico pela consolidação de uma estética sonora que, numa esfera indie rock, nunca deixou de olhar quer para alguns detalhes do punk, como para certos tiques e arranjos que sobrevivem à sombra da eletrónica.

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Vistos por alguma crítica como a resposta britânica ao nova iorquinos The Strokes, quer na postura, quer na sonoridade rock frenética, livre de constrangimentos e adornos desnecessários e certeiros no modo como adoptam uma estética sonora retro à boleia de riffs de guitarra potentes e uma voz poderosa, os The Vaccines chegam ao quarto tomo do seu percurso discográfico seguros do som que pretendem apresentar que, com um pé na new wave e outro no pós punk, procura atingir uma maior luminosidade e amplitude melódica.

Resistindo teimosamente à passagem do tempo, em Combat Sports os The Vaccines não se desviam muito da habitual bitola e, ao mesmo tempo que apostam nessa coerência, tentam acrescentar alguns detalhes que permita afastarem-se cada vez mais de outros nomes com os quais sempre foram comparados e muitas vezes acusados de apenas replicarem uma fórmula que, por acaso, tem sido bem sucedida desde o início deste século.

A fina fronteira que separa o baixo do sintetizador na oitocentista Your Love Is My Favourite Band, um dos meus temas preferidos de Combat Sports e, numa abordagem mais groove, o indie rock exuberante e irresistível de Put It On A T-Shirt e, principalmente, do extraordinário single I Can't Quit, canção que assenta numa bateria frenética, plena de mudanças ritmicas, que se escuta em sintonia com riffs de guitarra melódicos e uma voz poderosa, mostram a outra face de uma mesma moeda que os The Vaccines cunharam neste disco e que os fará novamente render milhões, pelo modo como é bem explorada.

Até ao ocaso do disco o clima raramente abranda e se no punk cru feito sem rodeios ou concessões, de Surf In The Sky e  se na abordagem ainda mais intensa e rugosa que é feita ao garage em Nightclub, fica explicitado o à vontade com que os The Vaccines também mergulham no rock mais incisivo e direto, já a estética vintage dos elementos sintetizados que deambulam pela luminosidade radiofónica de Maybe (Luck Of The Draw) e a acuidade melódica de Out On The Street, onde aquela pop algo acessível se mascara com ruído e exuberância, sem perder cor e acessibilidade, servem para ampliar o clima de festa e de piscar de olhos que Combat Sports faz às pistas de dança, acabando por ser outros instantes obrigatórios de um álbum que impressiona pelo modo musculado como os The Vaccines abordam diferentes espetros sonoros, com enorme qualidade, jovialidade e bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

The Vaccines - Combat Sports

01. Put It On A T-Shirt
02. I Can’t Quit
03. Your Love Is My Favourite Band
04. Surfing In The Sky
05. Maybe (Luck Of The Draw)
06. Young American
07. Nightclub
08. Out On The Street
09. Take It Easy
10. Someone To Lose
11. Rolling Stones


autor stipe07 às 18:02
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Domingo, 20 de Maio de 2018

The Dirty Coal Train - Portuguese Freakshow

Depois de quatro álbuns, uma compilação e cinco singles, já está nos escaparates Portuguese Freakshow, o novo disco do projeto The Dirty Coal Train que nasceu da mente do casal Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues, uma dupla natural de Viseu e a residir em Lisboa, que se tem assumido na presente década como uma das bandas mais excitantes do garage rock nacional. É um longo registo com quase quatro dezenas de temas e que conta com vários convidados especiais, nomeadamente Carlos Mendes (Tédio Boys, The Parkinsons, The Twist Connection), Nick Nicotine (The Act-Ups, Ballyhoos, The Jack Shits, Bro X), Victor Torpedo (The Parkinsons, Subway Riders), Ondina Pires (The Great Lesbian Show, Pop Dell'Arte), Fast Eddie Nelson (Big River Johnson, Fast Eddie & the Riverside Monkeys), Captain Death (Tracy Lee Summer) e Mário Mendes (Conan Castro & the Moonshine Piñatas), entre outros, um projeto megalómano bem sucedido lançado em vinil pela Groovie Records em parceria com a Garagem Records, tendo sido gravado nos estúdios Golden Pony em Lisboa e no King no Barreiro.

Cheio de acordes rápidos e batidas viciantes, Portuguese Freakshow é um tratado de rock crú e direto, hora e meia de completo transe roqueiro feito com originais, mas também com versões de clássicos, de bandas tão distintas como os Residents, The Animals, Richard & The Young Lions, The Standells, Marti Barris e Beat Happening, entre outros. No seu alinhamento cruzam-se diferentes universos desse espetro sonoro, desde o garage, ao punk sessentista, passando pelo blues, o próprio metal, o rockabilly e o surf rock. Este elevado ecletismo aliado a uma enrome segurança e vigor interpretativos, além de proporcionarem ao ouvinte  contacto com uma personalidade e uma amplitude sonora algo agressiva, no bom sentido, tem como grande cereja no topo, para quem conhecer os trabalhos anteriores dos The Dirty Coal Train, permitir a perceção de que a dupla ampliou a técnica e o apuro interpretativo, quer instrumental quer vocal, com a percussão a ser um dos aspetos em que isso mais se nota, mas com os riffs e os efeitos das guitarras a exalarem também novas nuances, que não se coibem de penetrar por territórios mais intrincados e progressivos, nomeadamente quando deambulam pelos algumas experimentações eletrónicas.

Álbum que impressiona pelo seu todo e repleto de referências a seres fantásticos e ao cinema mais alternativo, Portuguese Freakshow acaba por ser um retrato sonoro bastante interessante e impressivo acerca da nossa realidade atual enquanto povo, que parece muitas vezes bastante desligado da realidade e a viver num permanente estado de alienação que é aqui de certo modo documentado com uma elevada dose de humor, ironia e simbolismo. o registo foi produzido pelos próprios Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues e o artwork é da autoria de Olaf Jens. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:34
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Quinta-feira, 26 de Abril de 2018

Mall Walk - Rose vs Out To Lunch

Criadores do melhor álbum do ano de 2016 para este blogue, os MALL WALK de Daniel Brown, Nicholas Clark e Rob I. Miller, parece que vão, para grande pena desta redação, encerrar hostilidades. Recordo que este trio oriundo de Oakland, na Califórnia e com um cardápio sonoro impregnado com um manancial de efeitos e distorções alicerçadas em trinta anos de um indie rock feito com guitarras bastante inspiradas, estreou-se em outubro de 2014 com S/T, um EP que ainda roda com insistência na redação deste blogue. Seguiu-se, em 2016, Funny Papers, o tal registo que venceu a categoria de melhor disco em 2016 e que impressionou pela amplitude do trabalho de produção e pela procura de uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, dentro de um espetro sonoro onde aquela visceralidade algo sombria, típica do punk, costuma ditar cartas. Esta apenas aparente ambivalência ficou bem expressa na monumentalidade de temas como Street Drugs and Cartoons, canção onde o próprio rock de cariz mais progressivo também estava fortemente impresso, mas também em Call Again e Exhauster, três espetaculares tratados de punk rock, aditivos, rugosos e viciantes.

A sensibilidade dos solos e riffs da guitarra que exibiam linhas e timbres muito comuns do chamado garage rock, também não foram descurados nesse Funny Papers e nas canções Sleeping In Shifts e Protection Spells acabaram por ser aquele complemento perfeito que nos obrigou a afirmar, na altura, que os MALL WALK foram corajosos no modo como se predispuseram a todo este saudável experimentalismo.

Ainda não são claros os motivos da separação dos MALL WALK e, como se sabe, nestas circunstâncias nem sempre é fácil apurar os verdadeiros factos. Seja como for, é pena ver tanto talento no seio de um trio ser desperdiçado assim, deixando-nos apenas, em jeito de despedida, duas canções, Rose e Out To Lunch, canções que encerram em grande estilo a viagem lisérgica através do tempo em completo transe e hipnose de uma discografia que da psicadelia, ao garage rock, passando pelo shoegaze e  também pelo chamado punk rock, abraçou várias vertentes e influências sonoras, numa curta mas respeitável carreira. Deixam saudades... muitas! Confere...


autor stipe07 às 17:35
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Quinta-feira, 19 de Abril de 2018

Huggs - Take My Hand

Duarte Queiroz (voz, guitarra) e Jantónio Nunes da Silva (bateria) são o núcleo duro dos Huggs, dois amigos que se conheceram por acaso na faculdade e que começaram a compôr juntos, inspirados pela energia crua e indisciplinada do panorama underground britânico e pelas baladas românticas típicas dos anos cinquenta e sessenta. A eles junta-se, ao vivo, Guilherme Correia que, depois de assistir a um ensaio, não só se encarregou do baixo como ajudou a produzir e a completar as primeiras canções da banda.

Resultado de imagem para Huggs Take My Hand

Os Huggs vão estrear-se nos lançamentos no último trimestre deste ano com um EP, gravado por Gonçalo Formiga (dos Cave Story) no seu estúdio nas Caldas da Rainha e produzido pelo próprio em conjunto com a banda. Desse registo já se conhece Take My Hand, canção também já com direito a um video realizado por Manuel Casanova, que trabalhou ao longo da carreira com bandas como os Comeback Kid, Japandroids ou os Hills Have Eyes.

Este tema que apresenta os Huggs ao mundo oferece-nos um rock acessível e bastante melódico, uma filosofica sonora que acaba por entroncar em alguns dos principais detalhes daquele anguloso punk rock nova iorquino que bandas como os The Strokes ou os Yeah Yeah Yeahs ajudaram a cimentar no início deste século, mas onde também não falta uma curiosa pitada garage novecentista, em especial na guitarra, essencial para conceder à composição um charme vintage particularmente luminoso e apelativo. Confere...

Facebook: www.facebook.com/freehuggssuck

Instagram: www.instagram.com/freehuggssuck

Bandcamp: www.freehuggssuck.bandcamp.com


autor stipe07 às 21:26
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