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Warpaint – Paralysed

Terça-feira, 23.03.21

Como todos certamente se recordam, o ano passado partiu do nosso mundo Andy Gill, um dos pilares do mítico projeto britânico Gang Of Four, que se notabilizou por uma ímpar discografia, dentro de um punk rock adornado por tiques da funk e do dub e que olhava com gula para as mazelas sociais e políticas da sociedade, sendo Entertainment! a obra master do catálogo da banda de Leeds e uma das mais aclamadas da história do rock dos últimos quarenta anos.

Warpaint share Gang of Four cover, 'Paralysed' | News | DIY

Logo após o desaparecimento de Andy Gill começou a ser burilado um registo de tributo aos Gang Of Four, que começa finalmente a ganhar forma. O registo vai chamar-se The Problem With Leisure: A Celebration Of Andy Gill And Gang Of Four e irá ver a luz do dia já em maio. Um dos temas já conhecidos do alinhamento desse trabalho é a cover assinada pelas Warpaint da canção Paralysed, que fazia parte do disco Solid Gold que os Gang Of Four lançaram há precisamente quatro décadas. Esta nova roupagem do projeto formado por Theresa Wayman, Emily Kokal, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa adiciona a Paralysed uma nova envolvência e um clima mais refinado e cuidado, sem que isso coloque em causa a orgânica e o pulsar rítmico sui generis do original. Confere a cover e o original...

 

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publicado por stipe07 às 17:02

Tindersticks - Distractions

Quinta-feira, 04.03.21

Os Tindersticks de Stuart Staples e David Boulter estão finalmente de regresso aos discos com Distractions, um alinhamento de sete canções bastante marcadas pelo contexto pandémico atual, nomeadamente no processo de gravação das mesmas que, de acordo com Staples, foi algo doloroso porque criar, compor, misturar e produzir à distância não é um modus operandi com o qual a dupla que encabeça o projeto se sinta particularmente confortável. Seja como for, Distractions, o décimo terceiro disco dos Tindersticks, é um registo muito orgânico, encarnando uma forte componente experimental e uma busca por novas sonoridades algo inéditas na discografia do grupo, nomeadamente as origens do chamado punk rock, com o groove do baixo a ser um instrumento fulcral no arquétipo sonoro do registo, assim como o piano, tocado sempre com uma elegância sombria inimitável.

Tindersticks Announces New Album Distractions for February 2021 Release and  Shares New Song "Man along (can't stop the fadin')" - mxdwn Music

Com quatro originais e três versões, A Man Needs a Maid, de Neil Young, You’ll Have To Scream Louder, dos Television Personalities e Lady With the Braid, de Dory Previn, Distractions abre as hostilidades com Man Alone (Can’t Stop The Fadin’), a mais longa canção que os Tindersticks já gravaram até hoje. É uma espetacular composição, tremendamente cinematográfica, assente num vigoroso baixo, uma batida hipnótica e variadíssimas sobreposições milimétricas de efeitos vocais, tudo apresentado com uma emotividade crescente, e um clima impregnado numa aúrea de mistério e sensualidade únicos. 

Está dado o mote para um alinhamento com uma míriade instrumental densa e elaborada, como é apanágio dos Tindersticks, onde não faltam os habituais sopros, sem dúvida outra das principais imagens de marca deste projeto. É um naipe de canções ricas em pequenos detalhes e muitos deles deliciosamente hipnóticos, que evidenciam o charme muito próprio e a matriz identitária bastante vincada do grupo, ao mesmo tempo que absorve a tal exploração de um ideário sonoro que há umas quatro décadas colocou um universo mais negro e depressivo na primeira linha do rock alternativo.

Assim, num registo que pleno de soul, exuberante e hirto, que penetra na nossa pele até ao âmago e nos faz tremer, enquanto eriça todos os nossos sentidos, canções como a já referida You’ll Have To Scream Louder, uma versão bastante solarenga e jazzística do original dos Television Personalities, Tue-moi, um dos originais, inspirado nos ataques a Paris e Manchester, cantado na língua de Voltaire e com Staples divino ao piano e The Bough Bends, outra longa composição, na qual um chilrear de pássaros e uma flauta embalam a magnífica capacidade declamativa de Staples, são o pináculo de uma teia sublime, mágica e com uma beleza muito imediata e acessível. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 13:23

The Horrors - Lout

Sábado, 27.02.21

Os The Horrors de Faris Badwan, Joshua Hayward, Tom Cowan, Rhys Webb e Joseph Spurgeon, preparam-se para lançar às feras o sexto tomo de uma discografia ímpar, idealizada por um quinteto de rapazes com o típico ar punk de há quarenta anos atrás, mas que têm mostrado que não pretendem apenas ser mais uma banda propagadora do garage rock ou do pós-punk britânico dos anos oitenta, mas donos de uma sonoridade própria e de um som adulto, jovial e tremendamente inovador, que, pelos vistos, se prepara para virar agulhas para o rock mais industrial.

The Horrors Announce Lout EP, Share New Song: Listen | Pitchfork

Tal suposição baseia-se no conteúdo do single que dá nome ao novo álbum dos The Horrors e que será, talvez, o disco mais arriscado e eclético da carreira do projeto natural de Southend-on-Sea. Falo de Lout, uma vigorosa composição sobre a relação entre a escolha e o acaso, a tomada compulsiva de riscos e o empurrar da sorte, conforme referiu recentemente Faris Badwan e que, da viscerilidade e do fuzz agreste das guitarras, à aspereza da bateria e dos arranjos, nos oferece um rock duro, corrosivo e denso. Sobre a canção, Tom Furse, o teclista, acrescentou que parece um regresso a um som mais pesado mas está a um milhão de milhas de distância de qualquer coisa que a banda tenha feito antes. Confere...

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publicado por stipe07 às 13:29

Fontaines D.C. – A Heros Death (Soulwax Remix)

Sexta-feira, 29.01.21

Os irmãos génios belgas da eletrônica Dewaele, que quando são DJs chamam-se 2ManyDJs e como banda Soulwax, pegaram em A Hero’s Death, o tema homónimo do último álbum dos irlandeses Fontaines DC e fizeram com ele uma incrível remistura. Recordo, já agora, que este trabalho dos Fontaines DC ficou em sexto lugar na lista dos melhores trabalhos de dois mil e vinte para esta redação, um disco que tem o dom de soar a uma espécie de filme de terror, mas captado num registo algo comediante, como se exige a um projeto que sempre se fez notar por uma filosofia estilística de choque com convenções e normas pré-estabelecidas. É um disco que contém onze enraivecidas canções, assentes num punk rock de elevado calibre e com uma forte toada abrasiva, temas que enriquecem o modus operandi de um projeto único no panorama alternativo contemporâneo e que parece disposto a não ser visto no futuro, como um cometa que passou, brilhou no momento e depois foi esquecido no ocaso do tempo e do espaço negro e profundo, mas que se quis manter à tona, altivo e agitador, tornando-se num dos grupos mais influenciadores do indie rock contemporâneo.

Listen to Soulwax's new remix of Fontaines D.C.'s 'A Hero's Death'

Voltando à remistura do tema que dá nome a este disco, lançada digitalmente via Partisan, em colaboração com os próprios Soulwax, tendo também uma tiragem limitada de mil vinis estampados à mão, nela está nitidamente impresso o adn sonoro dos irmãos Dewaele. O resultado, conduzido por uma espetacular linha de baixo e diversos arranjos percurssivos enleantes, é um extraordinário tratado de eletropop, vigoroso, insinuante, sexy e cheio de funk, tremendamente dançável e divertido e sem deturpar o forte cariz filosófico do original pensado por Grian Chatten e que carrega nas costas uma grande parte da herança musical e literária de Dublin, a cidade dos Fontaines D.C.. Confere...

Fontaines D.C. - A Heros Death (Soulwax Remix)

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publicado por stipe07 às 11:05

Os melhores discos de 2020 (10 - 1)

Segunda-feira, 21.12.20

10 Surfer Blood - Carefree Theatre

Catalogados frequentemente como uma banda de surf rock, provavelmente pelos tais desatentos que mencionei acima, os Surfer Blood têm neste Carefree Theatre o disco menos surf rock da carreira, dvendo ser colocado sem receio e de modo cimentado bem no centro do espetro do puro e clássico indie rock, não deixando até de em determinadas distorções e apontamentos, quer do baixo, quer da guitarra, de piscar o olho a espetros sonoros tão variados como o punk ou o próprio garage rock. Disco tremendamente confiante, dinâmico, altivo, lúcido, objetivo, direto e incisivo e com um forte cariz radiofónico, Carefree Theatre inspira os Surfer Blood a manterem-se fiéis ao seu adn e a não hesitarem nem por um instante na sua louvável cruzada de busca incessante do melhor estilo sonoro, num percurso cheio de energia criativa, marcad, amiúde, por uma angústia quase inofensiva, mas que neste caso está repleto momentos altos e de notável esplendor e júbilo.

Surfer Blood - Carefree Theatre

01. Dessert Island
02. Karen
03. Carefree Theatre
04. Parkland (Into The Silence)
05. In the Tempest’s Eye
06. In My Mind
07. Unconditional
08. Summer Trope
09. Uneasy Rider
10. Dewar
11. Rose Bowl

 

9 Spun Out – Touch The Sound

É fácil perdermos o tino à medida que somos enredados pelo perfil exótico das músicas exuberantes e envolventes de Touch The Sound, o disco de estreia do projeto Spun Out, dez temas plenos de groove hipnotizante, um orgasmo de pop melancólica e experimental pleno de emoção e cor, onde não faltam composições perfeitas para o airplay radiofónico, mas também para a introspeção pura e dura. Registo que nos agarra e comove a cada audição, Touch The Sound resulta de um soberbo exercício exploratório de diferentes sons, instrumentos, influências, nuances e conceitos, aquilo que é muitas vezes descrito como o picotar de uma verdadeira amálgama sonora, mas que pouco tem de caótico. Enquanto este álbum investiga o confuso território emocional que se apodera de tods aqueles que têm de conviver com as indiespensáveis dores do crescimento, Touch The Sound também aproveita para fortalecer laços, funcionando como uma espécie de carta de amor à amizade de três artistas, mas também à vibrante comunidade musical de Chicago.

Spun Out - Touch The Sound

01. Another House
02. Such Are The Lonely
03. Dark Room
04. Running It Backwards
05. Antioch – Easy Detroit
06. Off The Vine
07. Don’t Act Down
08. Pretender
09. Cruel And Unusual (Feat. Caroline Campbell)
10. Plastic Comet

 

8 Fleet Foxes - Shore

Shore tem um propósito bem claro e claramente optimista, mostrar ao mundo que é nas piores circunstâncias que as melhores qualidades de cada um de nós se podem com maior astúcia se revelar e que a música deste disco pode servir de inspiração para darmos aquele empurrãozinho que muitas vezes nos falta, para que coloquemos ao nosso serviço e dos outros os nossos melhores atributos. É um tapete de luz que se acomoda no nosso íntimo, uma viagem por um imenso oceano de exuberantes e complexas paisagens sonoras, com a mira apontada ao experimentalismo folk inspiradíssimo, um retrato humanamente doce e profundo, mas também necessariamente inquitetante e por isso revelador, da génese e dos alicerces da realidade civilizacional em que vivemos, que não sendo a mais feliz, tem nos seus pilares aquilo que de mais genuíno podemos experienciar enquanto seres vivos, que é a vibração do interior desta terra mãe que nos alimenta e que nos quer fazer refletir sobre aquilo que somos hoje e os desafios que nos esperam.

Fleet Foxes - Shore

01. Wading In Waist-High Water
02. Sunblind
03. Can I Believe You
04. Jara
05. Featherweight
06. A Long Way Past The Past
07. For A Week Or Two
08. Maestranza
09. Young Man’s Game
10. I’m Not My Season
11. Quiet Air /Gioia
12. Going-to-the-Sun Road
13. Thymia
14. Cradling Mother, Cradling Woman
15. Shore

 

7 I LIKE TRAINS - Kompromat

Kompromat é uma expressão russa que significa material comprometedor, no sentido de haver um propósito claro de fornecer informações sobre um político, empresário ou outra figura pública, de modo a criar publicidade negativa, chantagem e extorsão sobre ele. De acordo com o grupo, alguns governos, são diretamente responsáveis por toda uma campanha de desinformação que está a tomar conta dos media a nível global e que visa a eliminação de qualquer tipo de crítica ou alternativa a uma forma de governar que protege cada vez mais o capitalismo, tornando as sociedades menos solidárias e quem as governa menos atentos aqueles que mais sofrem e que não têm acesso às benesses de uma sociedade de consumo que divide para reinar. É este o mote de um disco que obedece ao ADN que tem tipificado a carreira dos I LIKE TRAINS, assente num punk rock de forte cariz progressivo, com uma originalidade muito própria e um acentuado cariz identitário, por procurar, em simultâneo, uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, mas sem descurar o indispensável pendor lo fi e uma forte veia experimentalista, abertamente nebulosa e cinzenta. Essa atmosfera é percetivel no perfil detalhista das distorções das guitarras, no vigor do baixo, nos sintetizadores vibrantes e, principalmente, num registo percurssivo compacto, que funciona com a amplitude necessária para dar às canções uma sensação plena de epicidade e fulgor. De facto, Kompromat é uma súmula rara de um pós punk anguloso, um passeio emocionante e encadeado, com cada tema a personificar um ataque bombástico aos nossos sentidos, um incómodo sadio que se vai aprimorando num fluxo constante e paciente e onde não falta, imagine-se, um leve toque de graciosidade.

I LIKE TRAINS - Kompromat

01. A Steady Hand
02. Desire Is A Mess
03. Dig In
04. PRISM
05. Patience Is A Virtue
06. A Man Of Conviction
07. New Geography
08. The Truth
09. Eyes To The Left (Feat. Anika)

 

6 Fontaines D.C. - A Hero's Death

A Hero's Death tem o dom de soar a uma espécie de filme de terror, mas captado num registo algo comediante, como se exige a um projeto que sempre se fez notar por uma filosofia estilística de choque com convenções e normas pré-estabelecidas. É um disco que contém onze enraivecidas canções, assentes num punk rock de elevado calibre e com uma forte toada abrasiva, temas que enriquecem o modus operandi de um projeto único no panorama alternativo contemporâneo e que parece disposto a não ser visto no futuro, como um cometa que passou, brilhou no momento e depois foi esquecido no ocaso do tempo e do espaço negro e profundo, mas que se quis manter à tona, altivo e agitador, tornando-se num dos grupos mais influenciadores do indie rock contemporâneo.

Fontaines D.C.: A Hero's Death Album Review | Pitchfork

01. I Don’t Belong
02. Love Is The Main Thing
03. Televised Mind
04. A Lucid Dream
05. You Said
06. Oh Such A Spring
07. A Hero’s Death
08. Living In America
09. I Was Not Born
10. Sunny
11. No

 

5 Eels - Earth To Dora

Earth To Dora marca não só o regresso de Mark Everett à vida ativa na profissão que escolheu e com uma clarividência ímpar, depois da sua própria quarentena, mas também funciona, tendo em conta o conteúdo das doze canções que compôem o seu alinhamento, como um atestado da sua alta clínica, o documento sonoro que confirma o seu regresso em pleno e completamente revigorado ao universo da escrita e composição de canções que, por sinal e como é sabido por todos, são sempre intensamente pessoais e profundas, tratando de temas como a morte, transtornos mentais, a solidão e o amor. De facto, se Mr E. gosta de surpreender e consegue sobreviver no universo indie rock devido à forma como tem sabido adaptar os Eels às transformações musicais que vão surgindo no universo alternativo sem que haja uma perca de identidade na conduta sonora do grupo, Earth To Dora mantém-no, nesse aspecto, num nível muitíssimo acima da simples tona da água, tal é o grau qualitativo sentimental deste registo, que instrumentalmente é intenso e melodicamente orelhudo. Tal sucede porque o disco assenta num formato eminentemente pop rock lo fi de elevado travo blues, um clima geral ditado pela orgânica distorção metálica da guitarra e dos arranjos das teclas e de outras cordas, como violinos ou o banjo, de forte índole melancolica e introspetiva, um efeito ampliado por uma percurssão sempre bastante aditiva. Enquanto isso, canção após canção, somos presenteados com belíssimos poemas, quase todos sobre o amor e as múltiplas facetas que ele pode ter, desde o irónico ao depressivo, passando pelo falso e o mais puro e genuíno.

EELS - Are We Alright Again

01. Anything For Boo
02. Are We Alright Again
03. Who You Say You Are
04. Earth To Dora
05. Dark And Dramatic
06. Are You Fucking Your Ex
07. The Gentle Souls
08. Of Unsent Letters
09. I Got Hurt
10. OK
11. Baby Let’s Make It Real
12. Waking Up

 

4 Widowspeak - Plum

Os Widowspeak começaram por alimentar a carreira à sombra daquela pop de finais dos anos oitenta muito sustentada por elementos sintetizados, mas não restam dúvidas que foi nas construções musicais lançadas há cerca de três décadas que melhor navegaram, nomeadamente a dream pop e a psicadelia sessentistas. Agora, em Plum, os Widowspeak acrescentam ao seu catálogo elementos sonoros mais atuais, fazendo-o através de uma simbiose muito particular e caraterística entre um baixo pulsante, guitarras com um timbre encharcado em brilho e sintetizadores minuciosamente apetrechados com diversas camadas melodicas, em deterimento dessa identidade puramente vintage que marcou os registos anteriores. E fazendo-o, viajam pela ansiedades típicas da nossa contemporaneidade, ironizando sobre temas tão díspares como o poder financeiro e o modo como nos domina, mas também sobre o amor na era digital.

Widowspeak - Plum
01. Plum
02. The Good Ones
03. Money
04. Breadwinner
05. Even True Love
06. Amy
07. Sure Thing
08. Jeanie
09. Y2K

 

3 STRFKR - Future Past Life

É impressionante a sua capacidade de criar composições que oferecem êxtase às pistas de dança, mas também de proporcionar instantes sonoros contemplativos que, escutados, por exemplo, numa estufa de plantas, tornam-se no adubo ideal para as fazer crescer. Aliás, não será assim tão absurdo quanto isso, acreditar que aquela new wave de forte intensidade e que num misto de nostalgia e contemporaneidade, baliza o catálogo dos STRFKR, foi pensada por Hodges, o grande cérebro criativo do projeto, para o cultivo de sementes. Future Past Life mostra-nos isso e os STRFKR a fazerem aquilo que sabem melhor, canções com elevada cosmicidade e lisergia e em que rock e eletrónica conjuram entre si com elevada mestria e bom gosto.

STRFKR - Future Past Life

01. Dear Stranger
02. Never The Same
03. Deep Dream
04. Second Hand
05. Better Together
06. Budapest (Feat. Shy Boys)
07. Palm Reader
08. Sea Foam
09. Pink Noise
10. Cold Comfort

 
2 Muzz - Muzz
O super grupo Muzz  de Paul Banks dos Interpol, Matt Barrick dos The Walkmen e Josh Kaufman dos Bonny Light Horseman, estreou-se em dois mil e vinte com doze canções com elevado travo indie e onde do rock alternativo à folk, funde-se o adn de Banks, que olhou sempre com gula para um registo eminentemente punk, com as sonoridades mais atmosféricas e luminosas do agrado de Barrick, admirador confesso de referências como Neil Young ou Bob Dylan. Outro aspeto interessante durante a audição de Muzz é a percepção clara de que fica sempre à tona um salutar minimalismo que, diga-se, é o registo instrumental interpretativo que melhor faz sobressair a voz inconfundível de Banks, uma das mais sagazes do indie rock contemporâneo e que, podendo estar a perder alguma potência com a idade, está a ganhar claramente em afinação e sentimento. Não sendo ainda claramente percetível em que direção pretendem estes três amigos talentosos caminhar, algo que até abona positivamente em relação às expetativas futuras relativamente a este projeto, é já certo poder dizer-se que Muzz é uma feliz e promissora estreia de um conjunto de músicos que parecem ter encontrado o ninho perfeito para deixarem a sua criatividade fluir livremente, sem os constrangimentos óbvios do adn sonoro das bandas de onde são originários.

Muzz - Muzz

01. Bad Feeling
02. Evergreen
03. Red Western Sky
04. Patchouli
05. Everything Like It Used To Be
06. Broken Tambourine
07. Knuckleduster
08. Chubby Checker
09. How Many Days
10. Summer Love
11. All Is Dead To Me
12. Trinidad

 

1 The Flaming Lips - American Head

American Head é a visão pura, crua e dura, apartidária, sem preconceitos e amiúde até irónica de uma América que vive uma contemporaneidade algo perigosa, fraturada em dois extremos dominantes, espartilhada por um vírus que não tem sido fácil de lidar nesse vasto território e ensaguentada de traumas e males raciais, assentes numa sequência nada feliz de décadas e até de séculos de casos mal resolvidos, que remontam ao período da escravatura, o grande motivo da Guerra Civil que o país viveu há pouco mais de duzentos anos e que deixou fantasmas ainda a pairar. E fê-lo, sonoramente, ampliando a dose de arrojo que tem caraterizado, como já referi, a carreira dos The Flaming Lips, espeditos a rejeitar todas as referências normais do que compreendemos por música, um pouco em contraciclo com uma imensidão de projetos que, com a massificação das formas de divulgação e audição, insistem em colocar a vertente mais comercial na ordem do dia. De facto, é nas raízes mais profundas e puras do rock tradicional americano que American Head entronca. Desiludido com o seu país, Coyne resolveu colocar na primeira linha do novo álbum da sua banda, aquilo que a América ainda tem de melhor, a sua herança sonora, inigualável no cenário indie e alternativo contemporâneo. Assim, não há como negar que este extraordinário registo é mais uma prova da abrangência que os The Flaming Lips transportam no seu adn e solidifica a habitual estratégia da banda de construir alinhamentos de vários temas que funcionem como uma espécie de tratado de natureza hermética, onde esse bloco de composições não é mais do partes de uma só canção de enormes proporções, num resultado final que ilustra na perfeição o cariz poético de um grupo ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade e sempre capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-lo para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas que só estes The Flaming Lips conseguem transmitir.

The Flaming Lips - American Head

01. Will You Return / When You Come Down (Feat. Micah Nelson)
02. Watching The Lightbugs Glow
03. Flowers Of Neptune 6
04. Dinosaurs On The Mountain
05. At the Movies On Quaaludes
06. Mother I’ve Taken LSD
07. Brother Eye
08. You N Me Sellin’ Weed
09. Mother Please Don’t Be Sad
10. When We Die When We’re High
11. Assassins Of Youth
12. God And The Policeman (Feat. Kacey Musgraves)
13. My Religion Is You

 

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publicado por stipe07 às 21:53

Os melhores discos de 2020 (20 - 11)

Domingo, 20.12.20

20 - Sufjan Stevens - The Ascension

The Ascension é uma jornada eletrónica climática e intimista, mas também algo inquietante, feita de um psicadelismo eminentemente experimental. Mesmo contendo alguns dos tiques identitários que marcam uma carreira de quase duas décadas, impressos na intimidade dialogante da sua escrita, que atingiu o apogeu no antecessor que se debruçava sobre o súbito desaparecimento da mãe e na seleção de alguns arranjos e detalhes que ainda têm um travo folk inconfundível, The Ascension oferece-nos, acima de tudo, um vasto e barroco festim eletrónico, justificado em diversas composições recheadas de uma vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que servem bem à medida da imensidão e do silêncio que carateriza o vazio cósmico a que o músico de Chicago nos tem habituado ultimamente.

Sufjan Stevens - The Ascension

01. Make An Offer I Cannot Refuse
02. Run Away With Me
03. Video Game
04. Lamentations
05. Tell Me You Love Me
06. Die Happy
07. Ativan
08. Ursa Major
09. Landslide
10. Gilgamesh
11. Death Star
12. Goodbye To All That
13. Sugar
14. The Ascension
15. America

 

19 - Woods - Strange To Explain

Os Woods são, claramente, uma verdadeira instituição do indie rock alternativo contemporâneo. De facto, esta banda norte americana oriunda do efervescente bairro de Brooklyn, bem no epicentro da cidade que nunca dorme e liderada pelo carismático cantor e compositor Jeremy Earl e pelo parceiro Jarvis Taveniere, tem-nos habituado, tomo após tomo,  a novas nuances relativamente aos trabalhos antecessores, aparentes inflexões sonoras que o grupo vai propondo à medida que publica um novo alinhamento de canções. Mas, na verdade, tais laivos de inedetismo entroncam sempre num fio condutor que tem sido explorado até à exaustão e com particular sentido criativo, abarcando todos os detalhes que o indie rock, na sua vertente mais pura e noise e a folk com um elevado pendor psicadélico permitem. Estes são os grandes pilares que, juntamente com o típico falsete de Jeremy, orientam o som dos Woods e que se mantêm, com enorme primor, em Strange To Explain, um disco eminentemente cru, envolvido por um doce travo psicadélico, enquanto passeia por diferentes universos musicais, sempre com um superior encanto interpretativo e um sugestivo pendor pop.

Woods - Strange To Explain

01. Next To You And The Sea
02. Where Do You Go When You Dream?
03. Before They Pass By
04. Can’t Get Out
05. Strange To Explain
06. The Void
07. Just To Fall Asleep
08. Fell So Hard
09. Light Of Day
10. Be There Still
11. Weekend Wind

 

18 - Destroyer - Have We Met

Have We Met é um disco algo intrincado, mas bastante sedutor, um dobrar de esquina consistente e apurado, mesmo sendo o trabalho recente dos Destroyer que mais se aproxima da herança atmosférica da obra-prima Kaputt (2011). Tal sucede porque é feito por um grupo que também já habituou os seus fãs a um espetro rock onde não faltavam de guitarras distorcidas e riffs vigorosos, mas que opta agora, e mais do que nunca, num claro sinal de maturidade e de pujança criativa, por compôr composições que olham de modo mais anguloso para a eletrónica e para ambientes eminentemente clássicos, fazendo-o com superior apuro melódico. São, portanto, composições conduzidas por uma ímpar diversidade instrumental, com o modo como as teclas do piano são enormes protagonistas, a meias com a guitarra maravilha de Nicolas Bragg, a serem dois trunfos maiores deste modus operandi com elevado charme quilate.

Destroyer - Have We Met

01. Crimson Tide
02. Kinda Dark
03. It Just Doesn’t Happen
04. The Television Music Supervisor
05. The Raven
06. Cue Synthesizer
07. University Hill
08. Have We Met
09. The Man In Black’s Blues
10. Foolssong

 

17 - The Strokes - The New Abnormal

The New Abnormal solidifica e tipifica com ainda maior clareza a filosofia interpretativa deste projeto nova iorquino que depois de ter começado a carreira com um formato sonoro claramente balizado, foi apalpando terreno noutros espetros,  sendo um disco com uma espécie de dupla identidade, porque além de culminar com elevado esplendor um regresso ao punk rock como trave mestra da maioria das composições do disco, aquele rock mais enérgico, direto e incisivo a que nos habituámos no dealbar deste século, permite que este modus operandi seja adornado por uma mescla entre a típica eletrónica underground nova iorquina e o colorido neon pop dos anos oitenta.

The Strokes - The New Abnormal

01. The Adults Are Talking
02. Selfless
03. Brooklyn Bridge To Chorus
04. Bad Decisions
05. Eternal Summer
06. At The Door
07. Why Are Sundays So Depressing
08. Not The Same Anymore
09. Ode To The Mets

 

16 - Bill Callahan - Gold Record

Mais do que um simples registo de canções avulsas e que procuram dissertar abstratamente e filosoficamente sobre o amor ou as agruras ou benesses deste mundo em que vivemos, Gold Record é um compêndio de histórias simples, mas cheias de brilho, intensidade e mérito, porque são concretas. Às vezes, uma coleção bem pensada de histórias simples, contada com as palavras certas e acessíveis e sem desnecessárias preocupações estilísticas, é meio caminho andado para assegurar um registo discográfico de superior quilate. E este é, sem dúvida, o grande trunfo de dez temas que escavam a cultura norte americana para encontrar um tesouro de raízes identitárias, fazendo-o, sonoramente, com a toada eminentemente acústica que define o adn do músico, plasmada num registo interpretativo que privilegia aquele formato canção que vai gradativamente agrupando novos elementos e sons distintos, até um final envolvente e, liricamente, feito com uma sucessão de histórias com as quais todos nós nos identificamos facilmente, já que certamente, apropriando-nos delas e dando-lhes um ou outro retoque, temos impressivos relatos de alguns momentos marcantes da nossa existência pessoal. Este disco com essa notável componente narrativa também comprova, com enorme mestria e refinadíssima acusticidade, a superior capacidade interpretativa de Callahan aos comandos de uma viola, uma espécie de trovador da era moderna, que sussura contos pessoais, enquanto comunica directamente connosco e, ao mesmo tempo, parece que fala consigo próprio.

Bill Callahan -  Gold Record

01. Pigeons
02. Another Song
03. 35
04. Protest Song
05. The Mackenzies
06. Let’s Move To The Country
07. Breakfast
08. Cowboy
09. Ry Cooder
10. As I Wander

 

15 - The Magnetic Fields - Quickies

Vinte anos depois da mítica obra conceptual 69 Love Songs, Stephin Merritt mantém uma insciável gula interpretativa, que alimenta uma espécie de mania das grandezas à qual os fâs dos The Magnetic Fields já se habituaram e que nunca os deixa ficar mal, diga-se na verdade. Quickies, o novo registo deste projeto natural de Boston, no Massachussetts, é mais uma prova inequívoca de toda uma trama com já três décadas de existência, um tomo de vinte e oito canções que enriquece substancialmente o cardápio de um grupo que tem dado ao indie rock experimental norte-americano, registo após registo, uma notoriedade e uma relevância ímpares, através de canções quase sempre assentes em sonoridades eminentemente clássicas, geralmente acústicas e de forte pendor orgânico.

The Magnetic Fields - Quickies

01. Castles Of America
02. The Biggest Tits In History
03. The Day The Politicians Died
04. Castle Down A Dirt Road
05. Bathroom Quickie
06. My Stupid Boyfriend
07. Love Gone Wrong
08. Favorite Bar
09. Kill A Man A Week
10. Kraftwerk In A Blackout
11. When She Plays The Toy Piano
12. Death Pact (Let’s Make A)
13. I’ve Got A Date With Jesus
14. Come, Life, Shaker Life!
15. (I Want To Join A) Biker Gang
16. Rock ‘n’ Roll Guy
17. You’ve Got A Friend In Beelzebub
18. Let’s Get Drunk Again (And Get Divorced)
19. The Best Cup Of Coffee In Tennessee
20. When The Brat Upstairs Got A Drum Kit
21. The Price You Pay
22. The Boy In The Corner
23. Song Of The Ant
24. I Wish I Had Fangs And A Tail
25. Evil Rhythm
26. She Says Hello
27. The Little Robot Girl
28. I Wish I Were A Prostitute Again

 

14 - Jeff Tweedy - Love Is The King

Love Is The King é a mais recente obra discográfica de um compositor que assenta o seu processo criativo numa concepção de escrita que explora bastante a dicotomia entre sentimentos e no modo criativo e refinado como musica as letras que daí surgem, aliando o seu adn pessoal às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo. De facto, Love Is The King é um voo picado que o autor faz sobre si próprio, a sua existência e a daqueles que lhe são mais próximos, nomeadamente os seus herdeiros Spencer e Sam. Acaba por ser um disco feito em família, com a participação direta da mesma na sua concepção e definição do conteúdo sonoro e que, como é natural, sendo eminentemente autobiográfico, constitui um exercício sonoro de exorcização de alguns dos demónios, angústias, eventos traumáticos e conflitos interiores de Tweedy. Este é, pois, um alinhamento com um travo melancólico particularmente abundante, mas também um registo quente, positivo e sorridente, um álbum direto, cru, tremendamente orgânico, claramente lo-fi, um impressivo e jubilante tratado folk, dominado por timbres de cordas particularmente estridentes, que abastecem uma constante dicotomia entre sentimentos e confissões.

Jeff Tweedy - Love Is The King

01. Love Is The King
02. Opaline
03. A Robin Or A Wren
04. Gwendolyn
05. Bad Day Lately
06. Even I Can See
07. Natural Disaster
08. Save It For Me
09. Guess Again
10. Troubled
11. Half-Asleep

 
13 - Matt Berninger - Serpentine Prison

Por muitas voltas que Matt Berninger dê à sua carreira musical, seja a solo, seja nos The National ou no projeto El VY, há sempre um tronco comum a todas as suas abordagens artísticas, as ideias de melancolia, de angústia amorosa e de sofrimento mais ou menos profundo devido a esse sentimento único. Serpentine Prison não foge à regra, num registo instrumentalmente riquíssimo e repleto de arranjos das mais diversas proveniências, com uma toada emotiva crescente e na qual cordas e piano se deixam cobrir com mestria por uma nuvem espessa de classicismo e por uma aúrea de sentimentalismo e sensibilidade únicos, impressões ampliadas pela superior delicadeza do registo vocal grave de Berninger, um músico, na sua essência, confessionalmente monocromático e, artisticamente, uma fonte inesperada de soul. Em suma, Serpentine Prison oferece-nos com tremenda nitidez alguns dos maiores medos e inseguranças do autor e Berninger fá-lo aqui tornando-se na própria estrela que interpreta o estilo particulamente cinematográfico de uma escrita sempre tocante, intensa e realista.

Matt Berninger - Serpentine Prison

01. My Eyes Are T-Shirts
02. Distant Axis
03. One More Second
04. Loved So Little
05. Silver Springs (Feat. Gail Ann Dorsey)
06. Oh Dearie
07. Take Me Out of Town
08. Collar Of Your Shirt
09. All For Nothing
10. Serpentine Prison

 

12 - Gorillaz - Sound Machine, Season One: Strange Timez

Song Machine, Season One: Strange Timez, o sétimo álbum dos britânicos Gorillaz, a última materialização e a maior do mais recente e inovador projeto da banda, intitulado Song Machine, uma aventura que tem no seu âmago o enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro. Melhor álbum dos Gorillaz desde o fabuloso Plastic Beach (2012), Sound Machine, Season One: Strange Timez é um passo seguro e estrondosamente feliz deste projeto, no que concerne ao modo como mais uma vez se reinventa, sem renegar, como seria de esperar, a sua essência. Refiro-me a criar canções onde a experimentação é uma matriz essencial, tem a eletrónica aos comandos, o hip-hop e o R&B na mira, mas também olha para o rock com uma certa gula. E nestas dezassete canções encontramos tudo isto e com um grau de ecletismo nunca visto, estando o centro nevrálgico em redor do qual gravita toda esta diversidade em muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico. E uma das facetas mais curiosas das dezassete composições é todas elas conseguirem atingir com enorme mestria o propósito simbiótico entre aquilo que é o som Gorillaz e o adn do convidado desse tema.

Gorillaz - Sound Machine Season One - Strange Timez

01. Strange Timez (Feat. Robert Smith)
02. The Valley Of The Pagans (Feat. Beck)
03. The Lost Chord (Feat. Leee John)
04. Pac-Man (Feat. ScHoolboy Q)
05. Chalk Tablet Towers (Feat. St Vincent)
06. The Pink Phantom (Feat. Elton John And 6LACK)
07. Aries (Feat. Peter Hook And Georgia)
08. Friday 13th (Feat. Octavian)
09. Dead Butterflies (Feat. Kano And Roxani Arias)
10. Désolé (Feat. Fatoumata Diawara) (Extended Version)
11. Momentary Bliss (Feat. slowthai And Slaves)
12. Opium (Feat. EARTHGANG)
13. Simplicity (Feat. Joan As Police Woman)
14. Severed Head (Feat. Goldlink And Unknown Mortal Orchestra)
15. With Love To An Ex (Feat. Moonchild Sanelly)
16. MLS (Feat. JPEGMAFIA And CHAI)
17. How Far? (Feat. Tony Allen And Skepta)

 

11 - Kevin Morby - Sundowner

Sundowner é um relato impressivo e clarividente de uma América claramente dividida entre dois pólos e que talvez, no campo musical, tenha na típica folk o instrumento mais eficaz de busca de pontes entre tão vincado antagonismo. Kevin Morby vem, disco após disco, aprimorando um modus operandi bem balizado, que se define por opções líricas em que dominam ambientes nublados, intimistas e reflexivos e um catálogo sonoro emimentemente delicado e fortemente orgânico, sem artifícios desnecessários, ou uma artilharia instrumental demasiado intrincada. E é este, claramente, o travo geral de Sundowner, um disco minimalista, que procura a interação imediata, mas também profunda, com o ouvinte e que tem no piano e nas cordas as armas de arremesso preferenciais. Kevin Morby é sagaz no modo como vai, disco após disco, subindo degraus no que concerne ao conteúdo qualitativo dos seus registos, fazendo-o com segurança e altivez, nunca beliscando uma apenas aparente dicotomia entre aquilo que é a grandiosidade da sua filosofia criativa e o modo minimal, simples e direto como a expôe, através de canções repletas de beleza, sensibilidade e conteúdo.

Kevin Morby - Campfire

01. Valley
02. Brother, Sister
03. Sundowner
04. Campfire
05. Wander
06. Don’t Underestimate Midwest American Sun
07. A Night At The Little Los Angeles
08. Jamie
09. Velvet Highway
10. Provisions

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publicado por stipe07 às 23:25

Throwing Muses - Sun Racket

Quinta-feira, 22.10.20

O excelente registo Purgatory/Paradise de dois mil e treze, da autoria do mítico projeto Throwing Muses de Kristin Hersh, David Narcizo e Bernard Georges, já tem finalmente sucessor, para gaúdio dos fiéis seguidores desta mítica banda norte-americana. Sun Racket é o título do novo trabalho discográfico do trio de Rhode Island, um poderoso alinhamento de dez canções que viu a luz do dia no início do passado mês de setembro, à boleia da Fire Records.

Throwing Muses Announce First Album in Seven Years, Sun Racket |  Consequence of Sound

Em pouco mais de meia hora, Sun Racket proporciona um verdadeiro festim para todos os amantes daquele punk rock mais sujo e visceral e, talvez por isso, o mais genuíno e eficaz. Distorções de guitarras em catadupa, espirais de batidas vigorosas proporcionadas por um baixo sempre inquietante, cascatas de ruídos e uma bateria que nunca se escusa a induzir o ritmo que a personalidade de cada canção exige, são os pontos fortes de um alinhamento que também pode ser considerado, de algum modo, como bipolar, à imagem de Hersch, diagnosticada com esse distúrbio desde os dezasseis anos quando conduzia uma bicicleta, foi atropelada e bateu violentamente com a cabeça no chão. Esse evento traumático, e que provocou tal distúrbio mental em Kristin, gerou na artista mudanças de comportamento imprevisíveis, algo constante ao longo de várias décadas, um processo doloroso que, de acordo com a própria autora, ainda hoje só alivia quando ela tansforma os estímulos que sente em canções e depois as grava.

De facto, não faltam em Sun Racket décibeis arrebatadores, mas também dedilhares orgânicos, quebras rítmicas e frenesim constante, em suma, instantes ora fortemente eletrificados ou claramente minimalistas e até, como é o caso de St. Charles, uma simbiose quase indelével, mas indesmentível, de toda esta cópula. No entanto, a matriz é sempre a mesma em todos os segundos do alinhamento; rock puro e duro, sem estigmas nem concessões ao mainstream. Por exemplo, logo a abrir o alinhamento, se Dark Blue uma composição entalhada por um vigoroso indie rock de forte cariz lo fi, está coberta por uma aúrea de aspereza e rugosidade únicas, nuances facultadas por guitarras plenas de poder e fúria, mas também de subtileza e charme, num resultado final inebriante, já Bo Diddley Bridge proporciona-nos comoção ardente, mas sem fazer relaxar o cerrar de punhos que os primeiros segundos de Sun Racket logo incentivaram.

É assim, no dorso de guitarras que oscilam entre o melódico e o distorcido e uma Kristin Hersh nada popupada a debitar letras surrealistas, que se sustenta um disco fascinante, assustador e viciante, enquanto nos leva a testemunhar os delírios e o sofrimento da grande mentora deste projeto único e influente do panorama alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

Throwing Muses - Sun Racket

01. Dark Blue
02. Bywater
03. Maria Laguna
04. Bo Diddley Bridge
05. Milk At McDonald’s
06. Upstairs Dan
07. St. Charles
08. Frosting
09. Kay Catherine
10. Sue’s

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publicado por stipe07 às 16:52

Surfer Blood – Carefree Theatre

Sexta-feira, 02.10.20

Parece que ainda foi ontem, mas já tem mais de uma década de vida Astro Coast, o extraordinário registo de estreia dos Surfer Blood e que colocou esta banda oriunda da Flórida no mapa e fez dela, logo à partida, como uma das mais promissoras e merecedora de justas odes, álbum após álbum, num percurso discográfico inatacável no que diz respeito ao valor qualitativo do mesmo. Caso dúvidas ainda persistissem sobre isso em algumas mentes mais desatentas ao fenómeno musical indie norte-americano, Carefree Theatre, o novo álbum deste grupo atualmente formado por John Paul Pitts, Tyler Schwarz, Mike McClear e Lindsey Mills é a demonstração suprema de que este é um dos projetos mais luminosos e otimistas do cenário indie alternativo global dos últimos anos, tendo os Surfer Blood sabido, por exemplo, superar com inegável capacidade de superação a trágica morte do guitarrista Thomas Fekete, um dos fundadores da banda, que sofria de um tipo raro de cancro, em dois mil e dezasseis.

Surfer Blood com novo álbum… “Carefree Theatre” – Glam Magazine

De facto, escuta-se Carefree Theatre e existe no álbum uma luz radiante constante, uma boa disposição encharcada de charme e uma elevada e deliciosa dose de otimismo e celebração. Mesmo nos dois temas finais, a reflexiva Dewar e a nostálgica Rose Bowl, um tema que recorda um daqueles momentos da nossa vida que nunca esquecemos e que gostaríamos que se eternizasse, essas sensações positivas mantêm-se à tona e nunca vacilam.

Em canções que se esfumam mais rápido que um cigarro e que desfilam numa sequência estonteante e de tirar o fôlego, são variados os destaques do trabalho. Assim, da toada inicialmente rugosa mas depois fortemente orquestral de Dessert Island, à empatia ensolarada de Karen e ao frenesim pop do tema homónimo, passando, pouco depois, pelo piscar de olhos da distorção das guitarras ao rock mais progressivo em In the Tempest’s Eye e, no ponto alto do disco, pelo energia otimista que exala de Summer Trope, o alinhamento de Carefree Theatre escorre sem conceder espaço para a depressão, o recolhimento e a nebulosidade.

São vários os elementos que contribuem decisivamente para esta descrição tão elogiosa do álbum e uma delas é, sem sombra de dúvida, a voz de John Pitts, um importante fator para todo um positivismo saudável que acaba por ditar uma indisfarçável aproximação com o ouvinte, até porque, melodicamente, é quem decide a maioria dos rumos sonoros que as diferentes canções têm, mesmo que abundem várias camadas de distorção nos alicerces das mesmas. Seja como for e apesar da tal importância da voz, as guitarras são também um dos principais atributos de Carefree Theatre e imprescindíveis para o seu dinamismo. Tocadas pelo mesmo Pitts e por Mike McClear, são extremamente criativas e diversificadas, num registo que parece ter sido pensado para soar bem nos nossos ouvidos, com naturalidade e sem exageros desnecessários, num resultado final verdadeiramente feliz e inspirado.

Catalogados frequentemente como uma banda de surf rock, provavelmente pelos tais desatentos que mencionei acima, os Surfer Blood têm neste Carefree Theatre o disco menos surf rock da carreira, dvendo ser colocado sem receio e de modo cimentado bem no centro do espetro do puro e clássico indie rock, não deixando até de em determinadas distorções e apontamentos, quer do baixo, quer da guitarra, de piscar o olho a espetros sonoros tão variados como o punk ou o próprio garage rock.

Disco tremendamente confiante, dinâmico, altivo, lúcido, objetivo, direto e incisivo e com um forte cariz radiofónico, Carefree Theatre inspira os Surfer Blood a manterem-se fiéis ao seu adn e a não hesitarem nem por um instante na sua louvável cruzada de busca incessante do melhor estilo sonoro, num percurso cheio de energia criativa, marcad, amiúde, por uma angústia quase inofensiva, mas que neste caso está repleto momentos altos e de notável esplendor e júbilo. Espero que aprecies a sugestão... 

Surfer Blood - Carefree Theatre

01. Dessert Island
02. Karen
03. Carefree Theatre
04. Parkland (Into The Silence)
05. In the Tempest’s Eye
06. In My Mind
07. Unconditional
08. Summer Trope
09. Uneasy Rider
10. Dewar
11. Rose Bowl

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publicado por stipe07 às 18:00

I LIKE TRAINS – Kompromat

Terça-feira, 29.09.20

Já com um histórico de quase duas décadas, visto terem iniciado as lides musicais em dois mil e quatro, os I LIKE TRAINS de Guy Bannister, Alistair Bowis, Simon Fogal, David Martin e Ian Jarrold, têm um novo disco intitulado Kompromat, uma coleção de nove canções que sucedem ao excelente The Shallows, de dois mil e doze e que, uma vez mais, refletem sobre o estado atual do mundo em que vivemos, nomeadamente a conjuntura politica atual, uma imagem de marca sempre muito presente neste grupo natural de Leeds.

I LIKE TRAINS share new single & video "Dig In"- Album 'KOMPROMAT' out Aug  21st via Atlantic Curve - Circuit SweetCircuit Sweet

Se The Shallows versava sobre a relação do homem com as máquinas e, mais especificamente, o modo como a internet está a reescreve a realidade, Kompromat é a materialização de uma visão impressiva feroz relativamente a um mundo que, segundo este projeto, está cada vez mais perigoso, por causa da ascenção dos populismos de direita, com a figura de Trump à cabeça, mas com Boris Johnsson a ser também diretamente visado na crítica, assim como a suposta influência russa em diferentes atos eleitorais. Aliás, Kompromat é uma expressão russa que significa material comprometedor, no sentido de haver um propósito claro de fornecer informações sobre um político, empresário ou outra figura pública, de modo a criar publicidade negativa, chantagem e extorsão sobre ele. De acordo com o grupo, quer estas duas figuras politicas, quer alguns governos, são diretamente responsáveis por toda uma campanha de desinformação que está a tomar conta dos media a nível global e que visa a eliminação de qualquer tipo de crítica ou alternativa a uma forma de governar que protege cada vez mais o capitalismo, tornando as sociedades menos solidárias e quem as governa menos atentos aqueles que mais sofrem e que não têm acesso às benesses de uma sociedade de consumo que divide para reinar.

O single The Truth, uma majestosa canção feita com aquele rock que impressiona pela rebeldia com forte travo nostálgico e que contém uma sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem onde mais dói, é o âmago desta filosofia estética de Kompromat, porque é frequente imensas vezes já não se ter muito bem a noção de onde reside a verdade, tão voraz é o nosso consumo de informação nesta era digital, sendo possivel entender e interpretar de modo diferenciado as muitas narrativas que vão invadindo o nosso feed.

Sonoramente, Kompromat obedece ao ADN que tem tipificado a carreira dos I LIKE TRAINS, assente num punk rock de forte cariz progressivo, com uma originalidade muito própria e um acentuado cariz identitário, por procurar, em simultâneo, uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, mas sem descurar o indispensável pendor lo fi e uma forte veia experimentalista, abertamente nebulosa e cinzenta. Essa atmosfera é percetivel no perfil detalhista das distorções das guitarras, no vigor do baixo, nos sintetizadores vibrantes e, principalmente, num registo percurssivo compacto, que funciona com a amplitude necessária para dar às canções uma sensação plena de epicidade e fulgor.

De facto, Kompromat é uma súmula rara de um pós punk anguloso, um passeio emocionante e encadeado, com cada tema a personificar um ataque bombástico aos nossos sentidos, um incómodo sadio audível logo no riff abrasivo de A Steady Hand e que se vai aprimorando num fluxo constante e paciente e onde não falta, imagine-se, um leve toque de graciosidade.

A sensibilidade do efeito metálico abrasivo de uma guitarra que corta fino e rebarba, em Desire Is A Mess, as reverberações ultra sónicas de Dig In e, principalmente, a rispidez visceral extremamente sedutora e apelativa de A Man Of Conviction e a arquitetura sonora variada e sempre crescente de The Truth, um longo tema, mas nada monótono, cheio de mudanças de ritmo, com a junção crescente de diversos agregados e que atinge o auge interpretativo numa bateria esquizofrénica e fortemente combativa, mas incrivelmente controlada, num resultado de proporções incirvelmente épicas, são outros momentos incríveis de um disco sarcástico, mas também atencioso e terno,  em que tudo resulta de forma coesa, inclusive o ruído abrasivo, que aqui em vez de magoar, fascina e seduz. Espero que aprecies a sugestão...

I LIKE TRAINS - Kompromat

01. A Steady Hand
02. Desire Is A Mess
03. Dig In
04. PRISM
05. Patience Is A Virtue
06. A Man Of Conviction
07. New Geography
08. The Truth
09. Eyes To The Left (Feat. Anika)

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publicado por stipe07 às 17:54

FUGLY - Stay In Bed

Quarta-feira, 16.09.20

Mais de dois anos depois do excelente Millenial Shit, os portuenses FUGLY estão de regresso aos lançamentos com um novo disco, ainda sem nome anunciado e que, de acordo com os próprios, substitui os problemas adolescentes pelos de adulto,  com uma visão (um bocadinho) mais amadurecida do mundo que os rodeia mas sem largar o lado enérgico, satírico e festivo. Será lá para janeiro do próximo ano que o projeto liderado por Pedro Feio, ou Jimmy, ao qual se juntam Rafael Silver, Nuno Loureiro e Ricardo Brito, colocará nos escaparates o seu novo trabalho, um alinhamento com a chancela da O Cão da Garagem e produzido, mais uma vez, pelos próprios FUGLY no Adega Studios.

FUGLY lançam “Stay in Bed” de novo álbum a editar em Janeiro de 2021 – Glam  Magazine

O rock direto e sem espinhas de Space Migrant, um tema que, de acordo com o seu press releasefala sobre a inclusão de todos numa sociedade que tem problemas em unir-se, foi, como certamente se recordam, o primeiro single retirado desse novo álbum dos FUGLY, na passada primavera. Agora, no ocaso deste atípico verão, a banda portuense divulga Stay In Bed, canção rugosa, intensa e crua, assente numa desbravada e inquieta guitarra e num ritmo frenético com um inconfundível vigor punk, quase três minutos que mostram os FUGLY de garras afiadas, enquanto descrevem a frustração causada pelas forças inertes à criatividade. O tema vem acompanhado por um vídeo realizado por Hugo Amaral. Confere...

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publicado por stipe07 às 11:43






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