Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018

Kurt Vile – Bottle It In

Apesar da curiosa colaboração o ano passado com Courtney Barnett que resultou no excelente registo Lotta Sea Lice, a verdade é que depois de ter lançado Smoke Ring For My Halo, no início de dois mil e onze e Wakin On A Pretty Daze dois anos depois, Kurt Vile não deu mais sinais de vida depois de b’lieve i’m goin down…, álbum que viu a luz do dia a vinte e cinco de setembro de dois mil e quinze por intermédio da Matador Records e o sexto da carreira deste músico que descende da melhor escola indie rock norte americana, quer através da forma como canta, quer nos trilhos sónicos da guitarra elétrica. Finalmente, três anos depois desse excelente disco, Kurt Vile volta a lançar um novo alinhamento intitulado Bottle It In, o sétimo da carreira, treze temas gravados em várias cidades norte-americanas e finalizados com o produtor Shawn Everett nos estúdios Beer Hole em Los Angeles, contando com a participação especial de nomes tão notáveis como Kim Gordon, Cass McCombs, Stella Mozgawa e Mary Lattimore.

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Disco que abre com Loading Zones, uma composição repleta de ironia que se debruça sobre a experiência pessoal de Kurt Vile relativamente às estratégias que costuma usar para estacionar sem pagar em Filadélfia, a sua terra natal, Bottle It In é um registo que, no seu todo, sonoramente, obedece à tal herança do rock mais genuíno, com canções conduzidas por cordas elétricas e acústicas inspiradas, a criarem um disco com um resultado final bastante fluído e intenso. Quanto à vertente temática, conhecer a fundo Bottle It In é entrar em contacto com as profundezas da mente de Vile, já que este é um disco bastante reflexivo e onde o autor revela muito de si.

É inevitável escutar-se canções como Yeah Bones ou Cold Was The Wind e não se concluir que, mesmo que Vile não o deseje, Bottle It In está cheio de poemas com uma elevada componente biográfica, que nos permitem entender melhor o âmago do autor, com a curiosidade de o fazermos através de tudo aquilo que de mais transcendental e lisérgico tem sempre a composição e a criação musical. Se Kurt Vile despe-se logo em Loading Zones do modo humorístico que já descrevi e se em One Trick Ponies ele parece gozar com alguns dos seus demónios pessoais, em Bassackwards, por exemplo, o tom é bastante mais sério, à boleia de um tratado folk rock psicadélico divagante, que nos apresenta um Vile algo confuso, resignado e até distante, como se deambulasse em busca de algo inexistente (The sun went down, and I couldn’t find another one… for a while).

O grande trunfo de Bottle It In é mesmo esta dicotomia estilística sonora e o modo como ela entronca numa mesma filosofia, a da auto-descoberta. As canções sucedem-se sem pressa e muitas vezes sem se perceber se o autor está mais precoupado em comunicar com o ouvinte ou em efetuar um monólogo algo divagante e nem sempre lúcido e consistente. Independentemente de toda esta trama, parece-me conseunsual que esta sonoridade descomprometida e apimentada com pequenos delírios acústicos e elétricos será bem capaz de oferecer ao autor um lugar de destaque no que concerne aos álbuns mais influentes, inspirados e acolhedores deste ano.

De facto, Bottle It In parece ser, por cá, a banda sonora ideal para aquecer os dias mais tristonhos e sombrios que se aproximam, mas também já serve para contemplarmos como serenidade o ocaso de um verão algo frenético e que para muitos não ficará gravado pelos melhores motivos. Mesmo sendo um registo que oferece ao ouvinte diferentes perspetivas sobre a realidade sociológica e psicológica que abriga o autor, é também um álbum sobre o presente, a velhice, o isolamento, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, em suma, sobre a inquietação sentimental, ou seja, o existencialismo e as perceções humanas comuns a todos nós. Espero que aprecies a sugestão...

Kurt Vile - Bottle It In

01. Loading Zones
02. Hysteria
03. Yeah Bones
04. Bassackwards
05. One Trick Ponies
06. Rollin With The Flow
07. Check Baby
08. Bottle It In
09. Mutinies
10. Come Again
11. Cold Was The Wind
12. Skinny Mini
13. (Bottle Back)


autor stipe07 às 17:20
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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018

Thom Yorke – Suspirium

Líder dos Radiohead, verdadeiros Fab Five do novo milénio, não só porque estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, mas também porque, disco após disco, acabam por estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto na linha da frente das suas maiores influências, Thom Yorke está de regresso à atividade musical com a sua participação na banda sonora de Suspiria. Originalmente lançado em 1977, Suspiria, um dos grandes clássicos do cinema de terror, dirigido por Dario Argento, acaba de ser revisto pelas lentes do cineasta italiano Luca Guadagnino e Thom Yorke criou vinte e cinco originais para a banda-sonora, com a colaboração de Sam Petts-Davies, Noah Yorke, Pasha Mansurov e de elementos da Orquestra Contemporânea de Londres, que já participaram em A Moon Shaped Pool.

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Suspirium é o primeiro tema divulgado dessa banda-sonora, uma composição de intensidade crescente, onde um piano se deixa rodear graciosamente pelo típico registo vocal em falsete de Yorke, fazendo-o de modo particularmente sensível e com um toque de lustro de forte pendor introspetivo, recriando, de certo modo, o típico ambiente soturno que este autor tão bem recria no seu projeto a solo há já mais de uma década. Confere Suspirium e o alinhamento de Suspiria, que estará nos escaparates a partir do próximo dia vinte e seis, via XL...

Suspiria

01 A Storm That Took Everything
02 The Hooks
03 Suspirium
04 Belongings Thrown In A River
05 Has Ended
06 Klemperer Walks
07 Open Again
08 Sabbath Incantation
09 The Inevitable Pull
10 Olga’s Destruction
11 The Conjuring Of Anke
12 A Light Green
13 Unmade
14 The Jumps
15 Volk
16 The Universe Is Indifferent
17 The Balance Of Things
18 A Soft Hand Across Your Face
19 Suspirium Finale
20 A Choir Of One
21 Synthesizer Speaks
22 The Room Of Compartments
23 An Audition
24 Voiceless Terror
25 The Epilogue


autor stipe07 às 21:00
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

Low – Double Negative

Três anos depois do extraordinário Ones And Sixes, os Low de Alan Sparhawk, Mimi Parker e Steve Garrington voltam a impressionar-nos com a sua pop emotiva e sedutora à boleia de Double Negative, o décimo segundo e mais recente disco deste grupo norte americano oriundo de Duluth, onze canções abrigadas pela Sub Pop Records e que constituem outro marco significativo na carreira de um projeto ímpar do indie rock e da dream pop atuais.

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Por norma, escutar um disco dos Low nem sempre é um exercício à primeira audição reconfortante e aprazível, já que estamos na presença de um grupo que prima pela construção de um som negro e potenciador no modo como suscita a vinda à tona de alguns dos receios, dores e angústias que todos nós guardamos, de forma mais ou menos disfarçada, no nosso âmago. No entanto, há algo de viciante nesta espécie de terapia, um magnetismo óbvio, porque acabamos por perceber que já que foram desencadeadas determinadas memórias menos aprazíveis ao som dos Low, podemos aproveitar o momento para exorcizar alguns desses demónios, porque a música deles também tem esse lado em que luz e positivismo encontram forma de se mostrar, mesmo que o façam de uma forma algo inesperada. E a receita para que tal suceda está mais ou menos bem definida; É uma fórmula sonora que esconde no seu seio uma pancada seca e certeira numa pop paciente e charmosa, nas asas de uma fidelidade quase canónica à lentidão melódica, ao charme da guitarra e à capacidade que o uso assertivo de agudos e falsetes na voz têm de colocar em causa todos esses cânones e normas que também definem, quer queiramos quer não, alguns dos pilares fundamentais da nossa interioridade.

Mantendo-se em Double Negative toda esta filosofia de edificação sonora, os Low acabaram, no entanto, por subverter um pouco a componente prática da mesma porque, preservando estes ideais, optaram, desta vez, por um modus operandi que privilegiou o caos, o rugoso, a distorção e o ruído em detrimento da limpidez sonora e da habitual minúcia melódica, presentes nos últimos registos dos Low, nomeadamente o já referido Ones And Sixes e o muito recomendável C'mon de dois mil e onze. Nas guitarras plenas de reverb e no efeito vocal ecoante de Quorum e de Dancing and Blood e nas asas do eco e do ruído hertziano que fazem levitar Poor Sucker, assim como na cadência subtil das camadas instrumentais que suportam a melódica Dancing and Firetestemunhamos toda esta reconfiguração estilística, um caos que é apenas aparente e que serve na perfeição para fazer passar sensações como isolamento e angústia, transversais, como já referi, à carreira discográfica deste projeto.

Double Negative contém, pois, e como seria de esperar, um alinhamento que personifica sonoramente um desfile intenso de emoções. É um disco que jorra sentimentos por todos os seus acordes, podendo-se mesmo falar em poros, porque, de acordo com a descrição do primeiro parágrafo, esta é uma música que, mesmo apresentado-se com uma tonalidade mais experimental e imprevisível, transmite, com o habitual impressionismo dos Low, determinadas sensações físicas tácteis, nem sempre passíveis de apurado controle pelo nosso lado mais racional. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Quorum
02. Dancing And Blood
03. Fly
04. Tempest
05. Always Up
06. Always Trying To Work It Out
07. The Son, The Sun
08. Dancing And Fire
09. Poor Sucker
10. Rome (Always In The Dark)
11. Disarray


autor stipe07 às 17:15
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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018

Alt-J (∆) – Reduxer

Quase um ano depois do excelente Relaxer, os Alt-J (∆) de Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green, estão de regresso com Reduxer, uma revisitação incrível de onze temas desse disco que viu a luz do dia no ocaso de dois mil e dezassete e que sendo tematicamente corajoso e sonoramente muito complexo e encantador, foi desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasmando, à época, mais uma completa reestruturação no que parecia ser o som já firmado na premissa original da banda. Reduxer acaba por ampliar ainda mais esta permissa, ao oferecer o flanco de Relaxer ao hip hop, num alinhamento que conta com colaborações de GoldLink, o rapper parisiense Lomepal, Kontra K de Berlim, o rapper Rejjie Snow nascido em Dublin, Tuka da Austrália, o rapper porto-riquenho PJ Sin Suela e o aclamado Little Simz de Londres, entre outros, claramente alguns dos mais influentes e prolíficos artistas e produtores de hip hop da atualidade.

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Os Alt-J (∆) têm pautado a sua carreira por bem sucedidas abordagens à pop ambiental contemporânea e ao art-rock clássico e esta abertura às especificidades de um hip hop que, atualmente, está cada vez mais disponível para se cruzar com a eletrónica, acaba por ser uma opção feliz quando a banda achou que deveria dar uma nova roupagem a alguns dos temas do seu último disco , alguns deles já autênticos clássicos do grupo. Portanto, Reduxer assume-se como uma epopeia onde em pouco mais de quarenta minutos se acumula um amplo referencial de elementos típicos de diversos universos sonoros, que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual, também muito por causa da performance vocal de alguns dos convidados, com especial destaque para Little Simz e Pusha T, que souberam como se aliar à subtileza vocal ímpar de Joe Newman. Assim, no desempenho emotivo de Pusha T em In Cold Blood, um trecho movido a sintetizador, rasgado por uma melodia profundamente sintética e digital, no modo como Jimmy Charles se adaptou ao virtuosismo da guitarra que trespassa o funk de Hit Me Like That Snare, no modo como em Pleader PJ Sin Suela deu um toque de exotismo curioso aos riquíssimos arranjos do diverso arsenal instrumental monumental cuidadosamente executado pela Orquestra Metropolitana de Londres no original, na sensualidade ímpar que Paigey Cakey e Hex ofereceram ao trip-hop acústico de Adeline e na leveza tocante e singela de Terrace Martin em Last Year, rematada pelo modo como o tom grave deste rapper consegue fazer sobressair ainda mais o travo melancólico da voz de Marika Hackman, fica expresso um arregaçar de mangas com uma linguagem criativa bem balizada, com o trio a mostrar uma visão democrática sobre como conseguir expandir o grau de ecletismo do seu cardápio sonoro, neste caso com uma dose algo arriscada de experimentalismo, mas que foi bem sucedida até porque souberam rodear-se das pessoas certas tendo em conta o território sonoro selecionado.

Em suma, mais do que um complemento de um disco anterior, como se fosse uma espécie de seleção de lados b ou novas versões, Reduxer é um álbum com uma identidade muito própria, um registo pleno de especificidades e indutor de novas nuances no seio do universo Alt-J (∆), um registo que além de não renegar a identidade sonora distinta da banda, ainda a elevou para um novo patamar de novos cenários e experiências instrumentais. Espero que aprecies a sugestão...

Alt-J (∆) - Reduxer

01. 3WW (Feat. Little Simz) [OTG Version]
02. In Cold Blood (Feat. Pusha T) [Twin Shadow Version]
03. House Of The Rising Sun (Feat. Tuka) [Tuka Version]
04. Hit Me Like That Snare (Jimi Charles Moody Version)
05. Deadcrush (Feat. Danny Brown) [Alchemist x Trooko Version]
06. Adeline (Feat. Paigey Cakey And Hex) [ADP Version]
07. Last Year (Feat. GoldLink) [Terrace Martin Version]
08. Pleader (Feat. PJ Sin Suela) [Trooko Version]
09. 3WW (Feat. Lomepal) [Lomepal Version]
10. In Cold Blood (Feat. Kontra K) [Kontra K Version]
11. Hit Me Like That Snare (Feat. Rejjie Snow) [Rejjie Snow Version]


autor stipe07 às 14:31
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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018

Sleep Party People – Lingering Pt. II

Pouco mais de um ano após Lingering, o registo de originais que o projeto Sleep Party People do dinamarquês Brian Batz nos ofereceu no verão passado à boleia da Joyful Noise Recordings e que contava com as participações especiais de Peter Silberman dos The Antlers e Beth Hirsch na suavidade tocante de We Are There Together, cantora que emprestou a sua voz a alguns dos temas mais emblemáticos de Moon Safari, a obra-prima dos franceses Air, já está nos ecaparates Lingering Pt. II, disco que, de acordo com Batz, encerra um círculo artístico temático especifico em que o autor quis abordar, em dois momentos, a temática do intimismo.

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Alinhamento de continuidade relativamente ao antecessor, Lingering Pt. II oferece-nos nove canções que se mantêm na senda de uma dream pop de forte cariz eletrónico, amiúde rugosa e imponente, instrumentalmente arriscada e onde não falta imensa diversidade, principalmente ao nível das orquestrações e do conteúdo melódico. É uma filosofia de composição incubada por um músico que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nu algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia. Esta odisseia de dois capítulos intitulada Lingering acaba por ser o momento mais alto e afirmativo desta caminhada filosófica e estilística e nesta segunda parte, canções do calibre da sumptuosa e vibrante de The Fallen Barriers, da delicada Outcast Gatherings ou da interestelar Moving Cluster, são momentos maiores de um registo eminentemente experimental, que sobrevivendo também à custa de alguns dos detalhes fundamentais do indie rock atual, tem na eletrónica contemporânea e no cruzamento que esta efetua com campos tão díspares como o r&b ou paisagens mais eruditas e clássicas, a sua grande força motriz.

Lingering Pt. II mostra um Batz cada vez mais maduro e assertivo e apostado em servir de exemplo, acerca do modo como se pode ir saindo, pouco a pouco, daquele casulo instrospetivo e daquela timidez que enclausura muitos de nós, fazendo-o à custa de um ambiente sonoro que, numa espécie de dicotomia entre um lado mais orgânico e outro mais sintético, expressa com luminosidade, frescura e cor a segurança, o vigor e o modo criativamente superior como este projeto dinamarquês entra hoje em estúdio para compôr e criar um arquétipo sonoro que não tem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Sleep Party People - Lingering Pt. II

01. 4th Drawer Down
02. The Mind Still Travels
03. The Fallen Barriers Parade
04. Moving Cluster
05. Renhoh 93
06. Outcast Gatherings
07. Push The Walls Aside
08. Towering Trees
09. Echoing Childhood


autor stipe07 às 18:07
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2018

Big Red Machine – Big Red Machine

Os mais atentos realtivamente ao histórico relativamente recente do universo sonoro indie e alternativo recordam-se, certamente, da coletânea de beneficiência Dark Was The Night, lançada em dois mil e nove e cujos fundos revertiam a favor a Red Hot Organization, uma organização internacional dedicada à angariação de receitas e consciencialização para vírus HIV. Do alinhamento dessa coletânea fazia parte uma canção intitulada Big Red Machine, da autoria de Justin Vernon aka Bon Iver e Aaron Dessner, distinto membro dos The National, dois artistas que juntos também já desenvolveram a plataforma PEOPLE, que reúne composições inéditas de mais de oitenta artistas, organizaram festivais (Eaux Claires) e agora têm um projeto sonoro intitulado exatamente Big Red Machine, que acaba de se estrear nos discos com um extraordinário homónimo, abrigado pela já referida PEOPLE.

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Produzido pelos próprios Justin Vernon e Aaron Dessner em colaboração com Brad Cook e com a participação especial de vários músicos que fazem parte do catálogo da PEOPLE, nomeadamente Phoebe Bridgers, This Is the Kit e músicos dos The Staves e que costumam tocar com os Arcade Fire, Big Red Machine coloca Vernon e Dessner na senda de sonoridades intimistas e ambientais, com composições de cariz predominantemente minimal mas que nem por isso deixam de ser intrincadas e de conterem várias nuances e detalhes que vale bem a pena destrinçar ao longo da audição das dez canções que compõem o registo.

Com a herança sonora de ambientes urbanos originários do outro lado do atlântico a ter sido certamente a grande força motriz da inspiração criativa da dupla e com uma filosofia soul sempre em ponto de mira, este é um disco com um universo sonoro fortemente cinematográfico e imersivo, um funk digital que nos leva numa viagem lisérgica por paisagens que, do dub ao R&B, passando pelo rap, o jazz, o afro beat e até o trip-hop, sobrevivem muito à custa de um cuidado arsenal instrumental, eminentemente eletrónico e, por isso, de forte cariz sintético.

Começamos a ouvir o registo e logo na batida de Deep Green, tema com forte cariz étnico e, ao mesmo tempo, uma ode inspirada à dita música negra e no modo como é feita a inserção de uma vasta miríade de efeitos e sons sintetizados em Gratitude, percebemos que este é um álbum complexo, onde é forte a dinâmica entre os diferentes elementos que esculpem as canções e que virá, daí em diante, mais um encadeamento de oito temas que nos obrigará a um exercício exigente de percepção, mas que será, de certeza, fortemente revelador e claramente recompensador, até porque tudo isto é ampliado, como todos sabemos, pelo claro charme e misticismo que estes dois músicos transportam sempre e que trespassa muitas vezes o cenário do que é apenas audível.

Assim, as inserções ritmícas que sustentam o funk incisivo de Lyla, na insanidade desconstrutiva em que alicerçam as camadas de sons das guitarras e do teclas que dão vida a Air Stryp, a espiral pop majestosa que exala do piano e da voz imponente de Vernon em Hymnostic e a incontestável beleza e coerência dos detalhes orgânicos e dos flashes sintetizados que nos fazem levitar em Forest Green, justificam, sem qualquer sombra de dúvida, a atribuição de um claro nível de excelência aos diferentes fragmentos que Vernon e Dessner convocaram nos vários universos sonoros que os rodeiam para este álbum, criando nele uma relação simbiótica bastante sedutora, enquanto partiram à descoberta de texturas sonoras que podem muito bem servir de referência para outros projetos futuros. Espero que aprecies a sugestão...

Big Red Machine - Big Red Machine

01. Deep Green
02. Gratitude
03. Lyla
04. Air Stryp
05. Hymnostic
06. Forest Green
07. OMDB
08. People Lullaby
09. I Won’t Run From It
10. Melt


autor stipe07 às 18:58
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2018

Jon Hopkins - Singularity

Singularity é o quinto álbum de estúdio do músico, produtor, DJ e pianista inglês Jon Hopkins, um alinhamento lançado na passada primavera pela Domino Records e que sucedendo ao aclamado registo Immunity, consolida a mestria deste músico como escultor exímio de composições sonoras com elevado travo tridimensional, uma eletronica de cariz eminentemente ambiental, onde reina a complexidade do sintético.

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Seguidor confesso de Brian Eno, mas também a seguir o rasto de nomes tão importantes como Four Tet ou os Boards of Canada, Jon Hopkins oferece-nos em Singularity um verdadeiro banquete de revisitação de um período da eletrónica que foi praticamente marcante, as décadas de setenta e de oitenta do século passado, com o clima progressivo da primeira e uma faceta mais pop da segunda a serem aqui fundidas, muitas vezes e modo quase impercetivel, como se percebe logo na espiral crescente do volumoso tema homónimo que abre o disco, uma canção onde a um trecho melódico constante, vão sendo adicionados efeitos cada vez mais rugosos e distorcidos. Depois, no psicadelismo abrasivo de Emerald Rush, uma canção construída através de uma sóbria sobreposição de diferentes camadas de batidas e efeitos, com um resultado final praticularmente cósmico e etéreo, somos transportados para um território insinuante no modo como nos convida à dança e à inquietude física e mental.

Após este início promissor, Singularity entra num período mais climático e experimental, com Hopkins a olhar sempre para o tal passado de modo a criar na nossa mente uma sensação de constante incerteza, já que nunca sabemos muito bem como o registo vai continuar a progredir. Temas como Neon Pattern Drum, um banquete percussivo muito heterógeneo e repleto de efeitos curiosos, Everything Connected, uma fusão de techno com post rock repleta de colagens e variações rítmicas, o minimalismo hipnótico de Feel First Life e de COSM e o piano intrigante que sustenta Echo Dissolve, são composições que, fazendo-nos muitas vezes flutuar e divagar por um universo que será sempre oculto para quem não crê no poder da música como indutor de estados de alma e terapeuta emocional, contêm uma leveza rara e mágica só possível de ser entendida por quem se deixar enlear por esta espécie de filosofia meditativa.

Complexo, às vezes contemplativo e vagaroso, mas também muitas vezes extasiante, tridimensional e frenético, Singularity é um disco onde a clareza de ideias e o torpor, o desânimo e a euforia também se misturam, através de um alinhamento ondulante que, no seu todo, constitui uma viagem impressiva pela mente de um músico que quer que este disco seja olhado como uma experiencia transcendental, ou seja, é um álbum que deve ser aborvido como um todo e escutado do início ao fim, sem quebras, porque esse é o único modo que, na sua óptica, nos permite retirar dele toda a sua energia e decifrar todo o seu potencial comunicativo. Espero que aprecies a sugestão....


autor stipe07 às 19:07
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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2018

Elephant Micah – Genericana

Os norte-americanos Elephant Micah de Joe O'Connell, Matt O'Connell, Jason Evans Groth e Zeke Graves estão de regresso aos discos com Genericana, seis canções misturadas por Scott Hirsch e masterizadas por Carl Saff e capazes de nos enredar de modo particularmente hipnótico num universo que tendo tanto de alienigena como de alucinogénico. É um disco que comprova a já mítica mestria que este projeto oriundo da Carolina do Norte tem revelado ao longo da carreira para criar composições sonoras onde o salutar experimentalismo, que não renega o uso de nenhuma fonte sonora, é a principal filosofia prática no momento de compôr. Neste caso, um sintetizador barato, alguns artefactos da marca Hindustani e um antigo deck de três pistas, foram parte do arsenal utilizado para criar e captar toda a miríade de sonse ruídos que se escutam ao longo deste incrível alinhamento de seis canções.

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Logo nos segundos iniciais de Genericana, um álbum com o artwork da autoria de Pete Schreiner, percebe-se que este disco é um poiso hermeticamente isolado do mundo real que conhecemos e que só é possível usufruir de tudo aquilo que ele tem para nos oferecer se nos deixarmos levar pela sua doutrina. Começa-se a escutar Surf A e percebe-se que ondas de ruído estático, loops de uma bateria eletrónica e alguns efeitos sintetizados muitas vezes impercetíveis são o ganha pão do arquétipo de um tema que acaba por nos apresentar com impressiva fidelidade o ambiente de um alinhamento que volta a repetir esta tríade, mas com outras nuances, em canções que contendo uma falsa sensação de minimalismo e atravessadas por uma guitarra que tanto pode estar eletrificada como ser dedilhada com elevada crueza, encarnam uma banda sonora que serve para os Elephant Micah refletirem e criticarem a realidade de uma América que culturalmente vive numa era em que vê a política a dominar e a condicionar cada vez mais, direta ou indiretamente o mundo do entretenimento.

Genericana tem este claro propósito de colocar em causa todos os estereótipos que parecem nos dias de hoje condicionar todos aqueles que criam musica no outro lado do atlântico. Para Joe O’Connell, o líder deste projeto, é necessário agitar as águas, remexer no que é efetivamente comercial e colocar os consumidores de música a refletirem se aquilo que escutam nos dias de hoje acrescenta ou não algo de importante e significativo às suas vidas. O disco serve também de crítica ao airplay que domina as rádios americanas e o modo como aquela que é a génese da música nativa tem sido abafada pelas recentes tendências da pop. Se Fire A homenageia a essência da country com que O'Connell cresceu e que o fez querer criar música, as distorções de Life A e o clima rugoso de Surf B, olham com particular saudosismo para o rock alternativo noventista, aquele rock que entre o grunge, o garage e outras nuances mais progressivas, mostrou a melhor forma do rock independente do lado de lá.

Em suma, prestando tributo aos melhores dias da música alternativa norte-americana de final do século passado, numa época onde a riqueza e a diversidade até deixaram que sonoridades mais dançantes, como o dub nova iorquino e o techno de Detroit, tivessem um espaço de relevo e de simbiose com o rock da altura (escute-se Fire B), Genericana é a tentativa dos Elephant Micah de criar um álbum que possa servir de ponto de partida para a música de um país que está, na óptica deste grupo, amorfa e demasiado amarrada à ditadura das playlists e das vendas, nomeadamente as digitais e que precisa urgentemente de se reinventar e de encontrar novos caminhos, criativamente mais ricos e salutares. Espero que aprecies asugestão..... 

Elephant Micah - Genericana

01. Surf A
02. Fire A
03. Life A
04. Life B
05. Fire B
06. Surf B


autor stipe07 às 18:10
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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2018

Beautify Junkyards - Aquarius

Foi a nove de março último, à boleia da inglesa Ghost Box , que viu a luz do dia The Invisible World of Beautify Junkyards, a nova coleção de canções dos Beautify Junkyards. Este é o terceiro disco deste coletivo formado por João Branco Kyron (sintetizadores e voz), Rita Vian (voz), João Pedro Moreira (viola, sintetizadores), Helena Espvall (violoncelo e viola), Sergue (baixo) e António Watts (bateria e percussões) e que assume de uma vez por todas querer estar na linha da frente do panorama sonoro nacional, através de uma inédita mas convincente folk cósmica, particularmente lisérgica e esplendorosa.

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Primeira aposta internacinal da Ghost Box, The Invisible World of Beautify Junkyards foi misturado por Artur David (Orelha Negra, Mão Morta e Cool Hipnoise), masterizado por Jon Brooks e tem um título feliz porque ao longo do seu alinhamento percebe-se a declarada intenção do projeto em transportar o ouvinte para um universo paralelo ao nosso. Fazem-no mergulhados num mundo controlado por cordas inebriantes e sintetizadores plenos de exotismo, uma eletrónica eminentemente ambiental misturada com folk, que cria melodias que quer claramente levar-nos a passear pelo mundo dos sonhos, algo muito perceptível em Aquarius, o mais recente single retirado do álbum, uma canção assente num extraordinário diálogo percurssivo entre a pafernália instrumental que a sustenta.

Resultado de várias sessões de improviso particularmente inspiradas, The Invisible World of Beautify Junkyards está, em suma, cheio de momentos que configuram um passeio por um universo feito de exaltações melancólicas, que são nada mais nada menos do que um retrato sombrio do estranho quotidiano que sustenta a vida adulta, repleto de alguns instantes em que uma dor profunda que parece em determinados instantes afogar-nos. O amor, a solidão, o abandono, a vida e a morte, tudo parece servir como assunto, conceitos que pouco têm a ver com o universo das histórias infantis, mas antes com a crueza da realidade em que vivemos.

Em Outubro, os Beautify Junkyards irão fazer uma pequena digressão no Reino Unido, estando já marcado para vinte e seis de Outubro um concerto numa das mais emblemáticas salas londrinas, o Cafe OTO, numa noite inteiramente dedicada à editora Ghostbox, em que além dos Beautify Junkyards, actuará também a cantora folk Sharron Kraus e o Focus Group de Julian House (DJ). Confere Aquarius...


autor stipe07 às 10:19
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

Andrew Belle – Fade Into You

Andrew Belle - Fade Into You

Nascido em Chicago, no Illinois, Andrew Belle lançou o ano passado Dive Deep, um disco com canções escritas e compostas por um dos intérpretes mais importantes da indie pop atual no lado de lá do atlântico, um artista que conhece, com minúcia e destreza, como replicar um ambiente sonoro multicolorido e espetral, sendo claramente influenciado pela paisagem multicultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente. Agora, quase um ano depois do lançamento desse excelente registo, Andrew Belle acaba de revelar uma versão do clássico Fade Into You dos Mazzy Star.

Com um clima eminentemente etéreo e fortemente climático, a cover preserva a filosofia de um tema que fala sobre a necessidade que todos aqueles que vivem uma relação têm de se conectar do modo o mais empático possível com o outro, numa letra carregada de nostalgia e melancolia e à qual Belle, sem colocar em causa a estrutura meldódica do original, adicionou detalhes sonoros delicados e introspetivos que nos levam numa viagem bastante impressiva por um mundo muito peculiar e intimista. Confere...


autor stipe07 às 12:16
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