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Sufjan Stevens – Fourth Of July

Segunda-feira, 04.07.22

Na primavera de dois mil e quinze, há já mais de sete anos, Sufjan Stevens regressou algo negro, sombrio e recatado com Carrie And Lowell, um disco que marcou o retorno do músico à folk mais intimista, nostálgica e contemplativa e que volta a estar na ordem do dia devido a um dos temas do seu alinhamento intitulado Fourth Of July, que acaba de ser revisto pelo músico com duas novas versões.

Sufjan Stevens “Fourth of July” | Optimistic Underground

Quatro de julho é o dia do feriado nacional nos Estados Unidos da América e esta canção com esse título debruça-se sobre as memórias de infância que o músico tem da efeméride, exorcizadas numa composição singela, honesta e intimista, que faz parte do alinhamento de um disco que, recordo, tem como título os sobrenomes da sua mãe e do seu padrasto (Carrie & Lowell) e está imbuído de um puro sentimentalismo, embalado por uma folk madura e nostálgica, que se debruça sobre o falecimento da sua mãe, ocorrido há uma década atrás, em dois mil e dez, após uma vida de excessos, abusos e um dignóstico de esquizofrenia.

A canção oferece-nos, portanto, um Sufjan Stevens na pele de um trovador acompanhado apenas pelas cordas de uma viola, com a nova versão da canção a conferir um ainda maior charme e brilho à moldura sonora estética de um tema que pode ser considerado uma verdadeira jóia, em todos os sentidos. Confere...

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publicado por stipe07 às 14:46

Warpaint – Radiate Like This

Quinta-feira, 23.06.22

Theresa Wayman, Emily Kokal, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa estão de regresso com Heads Up, um título feliz para batizar aquele que é o quarto disco das Warpaint, sucessor do registo Heads Up, lançado já no longínquo ano de dois mil e dezasseis. Produzido por Sam Petts-Davies e as próprias Warpaint, Radiate Like This viu a luz do dia no início do passado mês de maio à boleia da Heirlooms em parceria com a Virgin Records e nele estas quatro miúdas deixaram, mais uma vez, as guitarras, o baixo e a bateria seguirem a sua dinâmica natural e assumirem uma faceta eminentemente polida e luminosa, para criar um álbum tipicamente rock, etéreo q.b. e esculpido com cordas ligadas à eletricidade e com uma identidade muito particular.

Warpaint lança seu quarto álbum, “Radiate Like This” - Vitrolando

Repleto de lindíssimas melodias, Radiate Like This é um portento de luminosidade e astúcia criativa. Como é óbvio, o seu alinhamento plasma todas as transformações que as integrantes do projeto sofreram na sua vida pessoal durante um hiato de seis anos desde o álbum anterior, com artistas que emigraram, que foram mães ou que tiveram alguns problemas de saúde delicados, mas é curioso perceber que, felizmente, o som identitário e tipicamente Warpaint mantém-se intocável e, melhor do que isso, ainda mais aprimorado. O trip hop exótico de Champions, o perfil simbólico e ousadamente etéreo de Hard To Tell You, o sensualismo percurssivo de Melting e o intimismo aconchegante de Send Nudes, são belíssimos exemplos de uma heterogeneidade que foi sempre imagem de marca das Warpaint e que se afinou, sem ofuscar a típica densidade orgânica, harmoniosa e vibrante do quarteto, criada a partir de uma espécie de cruzamento feliz entre alguns dos detalhes fundamentais da dream pop e do chamado trip-hop que fez escola nos anos noventa, uma combinação que nestes pouco mais de quarenta minutos que duram Radiate Like This, se inunda de nostalgia e contemporaneidade, sempre com elevado groove e uma clara sapiência melódica.

Quando a pausa é prolongada, o retorno só se justifica se com ele for satisfeita e, já agora, bem sucedida a incessante busca por algo diferente e inovador. E, de facto, Radiate Like This plasma nitidamente as Warpaint a darem mais um passo em frente num projeto que nunca se acomodou a uma abordagem estilística estanque, apesar de manter no seu epicentro sonoro uma intensa aúrea emotiva, que as despe de um mistério tantas vezes artificial. É um dis com uma inegável atmosfera psicadélica, experimentalmente rico e que nos envolve sem mácula, mostrando, sem rodeios e mais uma vez, com ousadia, a verdadeira personalidade de um coletivo inegavelmente maduro e confiante. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 14:04

The Mary Onettes - What I Feel In Some Places

Terça-feira, 21.06.22

Os suecos The Mary Onettes já têm na forja um novo registo de originais. Chama-se What I Feel In Some Places, irá ver a luz do dia no início do próximo mês de julho e, de acordo com o próprio Philip Ekström, líder do projeto, é um registo bastante inspirado no melhor catálogo do mítico Peter Gabriel.

The Mary Onettes - What I feel in some places - Popmuzik

O tema homónimo do trabalho é um bom exemplo da trama estilística e sonora que deverá guindar o conteúdo global de What I Feel In Some Places. Trata-se de uma canção que mistura com charme e mestria a mais efervescente pop lo fi contemporânea com uma psicadelia cósmica que fez fulgor há umas quatro décadas e que este grupo, que também tem no seu alinhamento os músicos Henrik Ekström, Simon Fransson e Petter Agurén, replica com inegável bom gosto e clarividência. Confere...

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publicado por stipe07 às 16:28

Preoccupations – Ricochet

Segunda-feira, 20.06.22

Quatro anos depois do registo New Material, os canadianos Preoccupations de Matt Flegel, Mike Wallace, Scott Munro e Daniel Christiansen, voltam finalmente a dar sinais de vida com o anúncio de um novo registo de originais que terá um alinhamento de sete canções. O novo álbum dos Preoccupations chama-se Arrangements e será o primeiro lançado pela etiqueta do próprio grupo que cessou a sua ligação à Jagjaguwar.

Preoccupations (@pre_occupations) / Twitter

Ricochet é o primeiro avanço revelado do alinhamento de Arrangements. É uma contundente canção, que de algum modo condensa todos os atributos sonoros dos Preoccupations, já que nela, cascatas de guitarras e inebriantes sintetizadores situam-se em posição de elevado destaque, um modus operandi estilístico muito identitário e que combina post punk com shoegaze. Na composição o ruído não funciona com um entrave à sua expansão, mas como mais um veículo privilegiado para lhe dar um relevo muito próprio que, sem esse mesmo ruído, Ricochet certamente não teria. É, em suma, uma composição criada num clima marcadamente progressivo e rugoso, mas simultaneamente harmonioso, provando, uma vez mais, o modo exímio como este quarteto ímpar faz da rispidez visceral algo de extremamente sedutor e apelativo. Confere...

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publicado por stipe07 às 12:47

José Tornada - Visions EP

Sexta-feira, 17.06.22

A dupla lusa Los Waves, formada por José Tornada e Jorge da Fonseca, tem merecido destaque por parte da nossa redação na última década, porque, quando surge com novidades, consegue dar sempre nas vistas devido à sonoridade única e até algo inovadora, tendo em conta o panorama musical nacional. Recodamo-nos particularmente do disco de estreia, lançado em dois mil e catorze. Intitulava-se This Is Los Waves So What? e continha onze canções dominadas pelo rock festivo e solarengo, mas onde a eletrónica também tinha uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduziam, quase sempre, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressionou pelo charme vintage.

José Tornada edita EP de estreia “Visions” – Glam Magazine

Agora, quase no verão de dois mil e vinte e dois, chamou a nossa atenção um dos membros da dupla Los Waves, o José Tornada. Ele está prestes a lançar um disco a solo intitulado Love, Hope, Desire and Fear, que foi antecipado com a divulgação do single Visions, em formato EP.

Assim aproveitando e citando a nota de lançamento do single, recordemos que pianista, compositor e produtor, José Tornada descobre o seu interesse pela música e melodia desde muito cedo. É através dos jogos de consola japoneses dos anos noventa e de Claude Debussy que começa a explorar o piano e a reproduzir pequenos trechos melódicos dos mesmos. Aos dezanove anos desiste do curso de arquitectura e muda-se para Londres para perseguir uma carreira na música. Lá dá os seus primeiros concertos e faz as primeiras composições para filmes e televisão. Warner Bros, BBC, FOX, MTV, AXN, VH1 e CBS são algumas das produtoras que fazem parte do portfólio de Tornada. É também em Londres que edita os primeiros discos através da Urban Outfitters UK, Rimeout Records Japan e na Optimus Discos Portugal.

Com este seu disco de estreia José Tornada volta a redescobrir o interesse pela música clássica e instrumental, voltando ao ponto de partida, a simplicidade melódica da sua infância. É com esta premissa, a de explorar a música no seu estado mais simples e puro, que se isola na ruralidade do Alentejo durante um ano para compor o seu primeiro álbum de música clássica. A viver num pré-fabricado de 15m2, rodeado de ovelhas, começa a construir a sua identidade e a sua interpretação do que é a música clássica contemporânea: influenciado pelas bandas sonoras de jogos e animes da sua infância, pela cadência de Carlos Paredes e os acordes de Radiohead descobertos na adolescência e pela experiência de produção e composição adquirida em idade adulta. As influências e experiências do seu passado recente trazem ao seu trabalho uma sensibilidade pop mantendo a profundidade e a simplicidade na composição, arranjo e produção.

Assim, o resultado final de toda esta trama é o já citado álbum Love, Hope, Desire and Fear, um alinhamento que nasce desta busca de uma essência e uma identidade sonora e que será certamente analisado por cá num futuro próximo, tendo como porta de entrada a canção Visions, uma peça de piano com métrica de “canção” cuja composição vai buscar influências a artistas como Ryuichi Sakamoto e Philip Glass. Confere...

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publicado por stipe07 às 17:40

Nightlands – Moonshine

Quinta-feira, 02.06.22

Nightlands é um projeto musical de Dave Hartley, baixista dos The War On Drugs, que se estreou nesta aventura a solo em dois mil e dez com um álbum intitulado Forget The Mantra. Três anos depois impressionaram a nossa redação com Oak Island, o sucessor e agora, quase uma década depoi,s voltam a chamar a nossa atenção por causa de um par de canções que farão parte de Moonshine um alinhamento de dez canções que chegará aos escaparates a quinze de julho próximo, com a chancela da insuspeita Wetern Vinyl.

Nightlands (Dave Hartley of The War on Drugs) Announces New Album, Shares  Video for Title Track | Under The Radar Magazine

Moonshine, o tema homónimo, é uma das tais duas composições que nos entreabrem as portas para Moonshine, um trabalho produzido por Adam McDaniel e que sucede ao registo de dois mil e dezassete I Can Feel The Night Around Me. Já agora, Moonshine foi gravado no estúdio caseiro de Hartley em Asheville e conta com as contribuições ímpares do saxofonista Joseph Shabason e os parceiros do músico nos The War On Drugs, Robbie Bennet, Anthony Lamarca, Eliza Hardy Jones e Charlie Hall).  Adam McDaniel.

Este tema homónimo é um momentos intenso de uma sonoridade que é intencionalmente algo andrógena, já que, se por um lado é audível uma certa inocência que se revê em alguns detalhes acústicos e na crueza de determinados arranjos, por outro, são inúmeros os detalhes sintéticos que não deixam de estar muito presentes num tema que plasma arte no modo como consegue uma perfeita simbiose entre estes dois mundos, certamente o maior desafio em que assentará o leme de Moonshine, o disco. Confere...


01 “Looking Up”
02 “Down Here”
03 “Stare Into The Sun”
04 “Greenway”
05 “Moonshine”
06 “With You”
07 “Blue Wave”
08 “No Kiss For The Lonely”
09 “Break My Bones”
10 “Song For Brad”

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publicado por stipe07 às 21:29

The Lumineers – Just Like Heaven

Quinta-feira, 05.05.22

Os The Lumineers dos irmãos Fraites (Josh e Jeremiah) e de Wesley Schultz, não têm por hábito revelarem versões de temas de outros projetos, mas quando o fazem é sempre com grande pompa e elevada bitola qualitativa. Desta vez propuseram-se a olhar para o clássico dos Cure, Just Like Heaven, durante uma iniciativa patrocinada pela rádio SiriusXM, intitulada Spectrum Session.

The Lumineers reprend "Just Like Heaven" de The Cure ! (vidéo)

Com Schultz ao microfone e Fraites aos comandos do piano, Just Like Heaven, dos Cure, ganhou uma roupagem mais contemporânea e particularmente etérea e intimista, sem colocar em causa o cariz tremendamente apelativo do clássico que fez parte do disco Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, editado em mil novecentos e oitenta e sete pelo coletivo liderado por Robert Smith. É, em suma, uma versão que tem todos os ingredientes sonoros que mantêm intacto o adn dos The Lumineers, impressionando pela simplicidade e classicismo e demonstrando que, para criar uma bonita versão, não é preciso ser demasiado extravagante e ousado. Confere...

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publicado por stipe07 às 11:02

Cass McCombs – Belong To Heaven

Terça-feira, 03.05.22

Três anos depois do belíssimo registo Tip Of The Sphere, o norte-americano Cass Mc Combs está de regresso com uma novidade intitulada Belong To Heaven, canção que resulta de uma colaboração estreita com o produtor Ariel Rechtshaid. Recordo que esta parceria já tinha dado resultados profícuos em alguns dos melhores discos do catálogo do músico de Los Angeles, nomeadamente o trio Catacombs (2009), Humor Risk (2011) e Wit’s End (2011), este último um extraordinário álbum que tinha canções tão inesquecíveis como The Lonely Doll ou County Line.

Listen to Cass McCombs' New Song “Belong to Heaven” | Pitchfork

Mestre do vernáculo mais subtil e abstrato que possas imaginar e sempre com uma escrita tremendamente irónica, mas profundamente realista, McCombs oferece-nos neste tema Belong To Heaven, que também conta com as vozes das irmãs Chaplin, a bateria de Danielle Haim, o baixo, as teclas e o piano de Shahzad Ismaily, as sintetizações de Frank LoCastro e o orgão de Buddy Ross, uma emocionada reflexão sobre a perda de um amigo chegado. Instrumentalmente é uma riquíssima canção, um vasto oceano de nostalgia que se espraia nos nossos ouvidos, abrigado por um faustoso enredo entre teclas e cordas que plasma com fino recorte alguns dos elementos essenciais daquela folk tipicamente americana que nos transporta para o tradicional jogo de sons e versos que caracterizam este género musical tão específico. Confere...

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publicado por stipe07 às 14:38

Helado Negro – Ya No Estoy Aquí

Quarta-feira, 27.04.22

Poucos meses depois de ter editado o registo Far In, que figurou na lista dos melhores álbuns de dois mil e vinte e um para a nossa redação, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, um filho de emigrantes equatorianos radicado nos Estados Unidos, está de regresso com um novo tema intitulado Ya No Estoy Aquí, que tem o título inspirado num filme com o mesmo nome assinado por Fernando Frias.

Helado Negro comparte el video de su nueva canción “Ya No Estoy Aquí” -  Rock101

De facto, Roberto Carlos Lange está a começar em grande estilo a sua caminhada ao lado da etiqueta 4AD, para onde se transferiu em dois mil e vinte, quer com o disco Far In, quer com esta nova composição, comprovando, também, estar a viver um dos períodos mais profícuos da sua já respeitável carreira. Além dessa exuberância criativa quantitativa, deve ser realçada igualmente a bitola qualitativa da mesma. Ya No Estoy Aquí é uma lindíssima canção, que escorre sorrateiramente pelos nossos ouvidos, enquanto encarna as já habituais experimentações com samples e sons sintetizados, que fazem parte do receituário de Lange, para recriar um clima bastante acolhedor e imediato e que encarna na perfeição o espírito muito particular e simbólico que pretende para esta nova etapa da sua carreira e da sua música. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:30

Spiritualized - Everything Was Beautiful

Sexta-feira, 22.04.22

O extraordinário registo And Nothing Hurt, de dois mil e dezoito, assinado pelo projeto britânico Spiritualized, tem finalmente sucessor. Everything Was Beautiful é o nome do novo alinhamento de sete maravilhosas canções da banda de Jason Pierce e viu a luz do dia hoje mesmo, para gaúdio da nossa redação, com as chancelas da Bella Union e da Fat Possum.

Spiritualized - 'Everything Was Beautiful': a sonic feast

Everything Was Beautiful é um clássico instantâneo, diga-se. O nono disco da carreira dos Spiritualized foi gravado na íntegra por Jason Pierce, a.k.a. J. Spaceman, líder do grupo, um músico, cantor e compositor extraordinário, que também tocou variadíssimos instrumentos no álbum. E fê-lo em mais de uma dezena de estúdios diferentes e com um elevado naipe de músicos convidados legível nos seus créditos, incluindo Poppy, a filha, num processo contínuo de tentativa vs erro, que se tornou num verdadeiro desafio para o músico, que procurou um ambiente luminoso e de forte pendor ambiental, sem colocar em causa o exigido som de estúdio que faz parte do adn do projeto.

De facto, a voz sussurrante de Jason Pierce e o glorioso e vastíssimo arsenal instrumental que o circunda, fazem-nos sentir, logo que se carrega no play, que tudo é realmente bonito à nossa volta, como refere o título do álbum, numa viagem com sete paragens que nos levam das profundezas do espaço sideral às ruas desertas de uma grande metrópole, passando, pelo meio, por uma simples linha de caminho-de-ferro. E nem vale a pena pensar sequer em tentar resistir a este inapelável convite que o disco faz, canção após canção, à nossa mente e aos nossos sentidos, para que embarquemos numa epopeia que nos envolve também naquilo que é, sem dúvida, um verdadeiro analgésico soporífero em forma de música. 

Neste disco Jason Pierce, que nunca é artista de meias medidas ou de minimalismos incipientes, colocou mais uma vez a carne toda no assador. Cascatas de guitarras mais ou menos distorcidas, sintetizações cósmicas variadas, espirais de violinos em catadupa, impacientes e rebeldes sopros e um registo percurssivo com a dinâmica e o vigor indicados, são o receituário que suporta a arquitetura sonora de um alinhamento que também se define, como não podia deixar de ser, pela sua destreza melódica, um expediente essencial nas canções dos Spiritualized que buscam sempre os atalhos mais diretos para o coração do ouvinte. Crazy, a quarta canção do alinhamento de Everything Was Beautiful, estrategicamente situada no âmago do disco, é a composição que exagera, no bom sentido da palavra, na beleza e no romantismo, e que, por isso mesmo, espelha com clareza enorme esta caraterística essencial no momento de caraterizar o adn dos Spiritualized. Crazy é mais um bom exemplo de variações eletromagnéticas emanadas por planetas, ruídos intergaláticos e uma série de elementos que ao serem posicionados de forma correta se transformam em música. O tema, que conta com a participação especial vocal da artista country Nikki Lane, é uma lindíssima balada, plena de soul e emotividade, com uma linha eminentemente country pop, mas há outra canção, também estrategicamente posicionada, que não fica atrás de Crazy na hora de nos fazer sorrir sem razão aparente. Refiro-me a Always Together With You, o tema que abre o alinhamento de Everything Was Beautiful, outra estrondosa composição gravada pela primeira vez em dois mil e catorze, na altura com uma roupagem mais agreste e intitulada, à época, Always Forgetting With You (The Bridge Song), sob o pseudónimo Mississippi Space Program.

Para esclarecer de vez os mais exigentes de que este álbum é, sem qualquer possibilidade de rebate ponderado, um dos discos do ano, escuta-se The Mainline Song/ The Lockdown Song, talvez a composição conceptualmente mais de acordo com aquela que é outra grande matriz identitária dos Spiritualized, o confronto com a realidade e a indispensável crítica analítica à mesma. É um longo tema sobre comboios, mas também sobre as agruras que estes dois anos de confinamentos provocaram em todos nós, com uma base melódica de forte cariz hipnótico e progressivo, assente em cordas reluzentes e arranjos sofisticados que vão sendo inseridos na canção de modo a que ela tenha uma progressão contínua rumo aquela majestosidade que quase sempre se confunde com o habitual pendor psicadélico do projeto.

Jason Pierce é um eterno insatisfeito e esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a um artista que se serve desse eterno incómodo relativamente à sua obra, neste caso musical, para, disco após disco, tentar sempre superar-se e apresentar algo de inédito e que surpreenda os fãs. E no caso específico dos Spiritualized, uma daquelas bandas nada consensuais e, por isso, com seguidores que são, na sua esmagadora maioria, bastante devotos, como é o meu caso, ainda mais exigente se torna para o íntimo deste cantor, poeta e compositor britânico conseguir que esta sua filosofia de vida tenha efeitos práticos e seja bem sucedida. Everything Was Beautiful, disco repleto de calafrios na espinha e nós na garganta, faz isso na perfeição. É um fabuloso tratado de indie rock experimental, mas, principalmente, mais uma banda sonora indicada para instantes da nossa existência em que somos desafiados e superar obstáculos que à partida, por falta de coragem, fé e alento, poderiam ser insuperáveis, mas que durante a audição do registo sabem a meros precalços ou areias na engrenagem de fácil superação. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:33






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