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Bleachers – Chinatown vs 45

Quinta-feira, 19.11.20

Jack Antonoff é a mente brilhante que conduz as reluzentes águas pelas quais navega o projeto norte-americano Bleachers que se estreou em dois mil e catorze com o estrondoso registo Strange Desire. Depois, a curiosidade relativamente a este nome imprescindível da pop da última década ampliou-se, em dois mil e dezassete, com Gone Now, um disco onde participaram Lorde, Carly Rae Jepsen e MØ, entre outros e, a partir daí, Antonoff foi sendo consecutivamente recrutado para colaborar com diversos outros artistas e projetos, podendo ser encontrado nos créditos de álbuns como Melodrama desse mesmo Lorde, Norman Fucking Rockell, de Lana Del Rey, Gaslighter  dos The Chicks e Folklore, de Taylor Swift.

Bruce Springsteen Joins Bleachers for New Song “chinatown”: Watch the Video  | Pitchfork

Agora, quase no ocaso de dois mil e vinte, Antonoff cria água na boca com Chinatown, inusitada criação que conta com a participação de Bruce Springsteen e ainda 45. São dois temas que fazem adivinhar um novo álbum dos bleachers, temas repletos de uma impressionante sensibilidade e assentes num conceito de fusão entre alguns dos canônes fundamentais de uma etérea cosmicidade, com cordas camufladas por uma ímpar lisergia que nos transporta para a melhor herança oitocentista. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:23

Sigur Rós – Stendur æva

Quarta-feira, 18.11.20

Os islandeses Sigur Rós são provavelmente os maiores responsáveis pela geração a que pertenço se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e de estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical. Ao lado da conterrânea Björk, este projeto não apenas colocou a Islândia no mapa dos grandes expoentes musicais, como definiu de vez o famigerado pós rock, género que mesmo não sendo de autoria da banda, só alcançou o estatuto e a celebração de hoje graças, em grande parte, ao rico cardápio instrumental que este grupo conseguiu alicerçar nas mais de duas décadas que já leva de existência.

Stream "Stendur æva", Sigur Rós' New Orchestral Single | Consequence of  Sound

Agora, sete anos depois do último disco da banda, o aclamado Kveikur,  os Sigur Rós voltam a fazer mossa com Odin’s Raven Magic, um disco orquestral ao vivo, que conta com as participações de vários músicos do país da banda, nomeadamente Maria Huld Markan Sigfúsdóttir do projeto Amiina, Hilmar Örn Hilmarsson e Steindór Andersen e que é inspirado num poema medieval islandês chamado Edda e que retrata um banquete de deuses marcado por presságios agoirentos sobre o fim do mundo. Já agora, a primeira interpretação desta verdadeira banda sonora de um poema sucedeu um par de vezes, há já dezoito anos, em dois mil e dois, no evento Reykjavik Arts Festival. Este lançamento em disco de Odin’s Raven Magic, que vai acontecer a quatro de dezembro à boleia do consórcio Krunk vs Warner, teve os arranjos assinados por Kjartan Sveinsson e por Sigfúsdóttir, da banda Amiina e capta uma performance no La Grande Halle de la Villette, em Paris, em setembro de dois mil e quatro.

Stendur æva (stands alive) é o mais recente tema divulgado deste novo registo dos Sigur Rós que faz uma súmula desse concerto em Paris, uma composição efervescente e onde todas as opções instrumentais, predominantemente sintéticas e minimalistas, mas também fortemente orgânicas e dominadas pelas cordas e pelos sopros da orquestra participante, se orientaram de forma controlada. A canção é marcada por um loop hipnótico conferido por um curioso xilofone construído a partir de fragmentos de pedra rudemente talhados, da autoria do escultor Páll Guðmundsson. A partir dessa base, os restantes elementos instrumentais, a voz profunda de Andersen e o falsete de Jonsi vão conjurando entre si até se aglutinarem num clímax sereno, mas bastante emotivo, resultando, no seu todo, num salutar grau de epicidade, sendo a audição da composição uma experiência auditiva de forte pendor metafísico e sensorial. Confere Stendur æva e a tracklist de Odin’s Raven Magic...

Sigur Rós - Stendur æva

1. Prologus 
2. Alföður orkar 
3. Dvergmál 
4. Stendur æva 
5. Áss hinn hvíti 
6. Hvert stefnir 
7. Spár eða spakmál 
8. Dagrenning

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publicado por stipe07 às 10:20

Matt Berninger – Serpentine Prison

Segunda-feira, 16.11.20

Já viu a luz do dia Serpentine Prison, o disco de estreia da carreira a solo de Matt Berninger, um registo que deve muito do seu conteúdo ao período de confinamento que o músico viveu em Nova Iorque e que lhe permitiu debruçar-se com maior empenho neste seu projeto paralelo à realidade The National. Serpentine Prison conta nos créditos com os produtores Booker T. Jones e Sean O’Brien, e viu a luz do dia através da Book Records, uma nova etiqueta, subsidiária da Concord Records e formada por Berninger e Jones em conjunto.

Matt Berninger – 'Serpentine Prison' review: poise and prowess

Por muitas voltas que Matt Berninger dê à sua carreira musical, seja a solo, seja nos The National ou no projeto El VY, há sempre um tronco comum a todas as suas abordagens artísticas, as ideias de melancolia, de angústia amorosa e de sofrimento mais ou menos profundo devido a esse sentimento único. Serpentine Prison não foge à regra, num registo quem mostra logo esse adn do músico em My Eyes Are T-Shirts (When I see you something sad goes missing, I stop crying, lay down and listen, I hear your voice and my heart falls together, please come back, baby, make me feel better) e, logo a seguir e com uma sobriedade descomunal em Distant Axis, um tema que foi crescendo a partir de um esboço criado por Walter Martin (The Walkmen) e que tinha o nome inicial Savannah. Distant Axis é, aliás, a canção que melhor conjuga, na minha opinião, as dimensões lírica e sonora de Serpentine Prison, uma lindíssima composição, instrumentalmente riquíssima e repleta de arranjos das mais diversas proveniências, com uma toada emotiva crescente e na qual cordas e piano se deixam cobrir com mestria por uma nuvem espessa de classicismo e por uma aúrea de sentimentalismo e sensibilidade únicos, impressões ampliadas pela superior delicadeza do registo vocal grave de Berninger.

Berninger é, na sua essência, confessionalmente monocromático e, artisticamente, uma fonte inesperada de soul, conforme se percebe, por exemplo, em One More Second, ou nas cordas que abraçam generosamente a sua voz suplicante em Loved So Little. Poucos duvidam que pessoalmente não seja uma personagem irrequieta, bem humorada e divertida, sendo público o seu sorriso fácil e uma genuína simpatia. É um ser repleto de cor e de jovialidade, mas, artisticamente, este autor, cantor e compositor sempre preferiu uma outra profundidade, fazendo-o com uma abordagem genuína e biográfica, plasmada numa faceta cinza que o coloca num pedestal de refinamento e classicismo exuberante e até algo distante da filosofia dos The National, eminentemente crua, enérgica e imediata, quando comparada com esta proposta em nome próprio.  O piano que conduz Take Me Out Of Town é uma sagaz ilustração desta sua visão requintada e charmosa do processo de composição e o cariz boémio e nublado de Collar Of Your Shirt um marco de nobreza melancólica que todos devemos apreciar com elevada devoção.

Em suma, Serpentine Prison oferece-nos com tremenda nitidez alguns dos maiores medos e inseguranças do autor e Berninger fá-lo aqui tornando-se na própria estrela que interpreta o estilo particulamente cinematográfico de uma escrita sempre tocante, intensa e realista. Espero que aprecies a sugestão...

Matt Berninger - Serpentine Prison

01. My Eyes Are T-Shirts
02. Distant Axis
03. One More Second
04. Loved So Little
05. Silver Springs (Feat. Gail Ann Dorsey)
06. Oh Dearie
07. Take Me Out of Town
08. Collar Of Your Shirt
09. All For Nothing
10. Serpentine Prison

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publicado por stipe07 às 17:56

Glass Vaults – Sounds That Sound Like Music

Sexta-feira, 13.11.20

Os Glass Vaults são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em dois mil e quinze à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

Glass Vaults Drop New LP 'Sounds That Sound Like Music' - Music News at  Undertheradar

Dois anos depois, em dois mil e dezassete, The New Happy, o magnífico sucessor desse registo de estreia e que contava com as participações especiais de Daniel Whitaker, Ben Bro e Hikurangi Schaverien-Kaa, inebriou-nos com mais um desfile multifacetado de temas que impressionavam pela grandiosidade, patente nos samples, nos teclados e nos sintetizadores, sempre livres de constrangimentos, num disco onde não havia regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos.

Agora, em dois mil e vinte, a banda neozelandesa volta à carga com Sounds That Sound Like Music, onze composições misturadas por Bevan Smith e que têm como maior destaque o notável trabalho percurssivo que cobre todo o alinhamento do registo. Logo à primeira audição percebe-se que essa é a nuance que mais impressiona num álbum bastante vivo, tremendamente dançável e que mostra este projeto inimitável no modo como genuinamente manipula o sintético e o torna vibrante, fazendo-nos bater constantemente o pé e abanar a anca à boleia de determinados sons que, à partida, poderiam ser compreendidos por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, sem potencial para se converterem em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico e festivo.

O contagiante e sensual clima techno de Oils And Perfume, a sensualidade glam de High Heels, a toada escaldante de Pure Imagination, a banda sonora que vai abrir a primeira rave em Saturno em dois mil e oitenta e nove, o forte cariz sensorial com ligeiro resvalo no funk de Who Would I Become For Love, a magnificiência pop e daftpunkiana de Boys On Boys e o minimalismo hipnótico de Flat White Boy, são canções impregnadas com essa filosofia estilística que encharca este Sounds That Sound Like Music e que tem nas batidas, nos compassos e no andamento harmónico e melódico, as referências maiores, num resultado final que pode ser por nós apropriado para expormos, intimamente ou publicamente, sentimentos de alegria e exaltação, mas também de arrepio e um certo torpor perante a grandiosidade de uma receita sonora cujos fundamentos só podem ser descodificados pelos membros de um dos projetos mais inovadores e consistente da indie pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Vaults - Sounds That Sound Like Music

01. Sounds That Sound Like Music, Part 1
02. Oils And Perfume
03. Pure Imagination (Feat. Instant Fantasy)
04. Who Would I Become For Love?
05. High Heels
06. Better Weather
07. Boys On Boys
08. Flat White Boy
09. Jang 97 BPM
10. Dilute The Water
11. Sounds That Sound Like Music, Part 2

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publicado por stipe07 às 18:03

The Antlers – It Is What It Is

Quinta-feira, 12.11.20

Projeto fundamental do indie rock experimental norte-americano da última década, os The Antlers de Peter Silberman e Michael Lerner, habituaram-nos desde o fabuloso Hospice (2009) a um faustoso banquete de composições encharcadas em sensibilidade, angústia e conflito, canções cheias de sons aquáticos e claustrofóbicos, mas que nos mantinham sempre à tona porque também sabiam salvaguardar um soporífero cariz relaxante. Após o monumental registo Familiars, editado em dois mil e catorze e colocado em primeiro lugar nos melhores álbuns desse ano para a nossa redação, esse desfile de discos assertivos e metaforicamente intensos foi interrompido por opção da própria dupla e os The Antlers entraram num hiato que parece ter sido finalmente interrompido, para gaúdio de todos aqueles que se têm deliciado com a sua notável discografia.

The Antlers Share "It Is What It is": Listen - Stereogum

Assim, e ainda sem trazer consigo o anúncio de um sucessor de Familiars, conferimos há algumas semanas a composição Wheels Roll Home e agora It Is What It Is,  dois novos temas que parecem ter uma lógica sequencial e que marcam o arranque de uma nova fase da carreira dos The Antlers que, tendo em conta estas amostras, será certamente ainda mais promissora, luminosa e empolgante do que a anterior.

A terna acusticidade das cordas que conduzem What Is What It Is e o travo jazzístico das mesmas, um sabor impregnado ardentemente no efeito da guitarra e no modo como tais cordas se entrelaçam com a cândura da bateria,  e com um insinuante teclado, um trompete esguio e o sedutor e impressivo registo vocal de Silberman, sustentam uma canção que nos proporciona aquele limbo matinal e intimista que todos nós tanto desejamos.

It Is What It Is já tem também direito a um extraordinário vídeo, protagonizado pelos dançarinos Bobbi-Jene Smith e Or Schraiber e realizado por Derrick Belchman e Emily Terndrup. A trama do mesmo inicia onde terminou o filme de Wheels Roll Home. Confere...

The Antlers - It Is What It Is

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publicado por stipe07 às 18:13

Silente - Ninguém Tem de Saber

Segunda-feira, 09.11.20

Silente é um novo projeto nacional assinado por Miguel Dias (ex-Rose Blanket) e Filipa Caetano, um novo nome a ter em conta no nosso panorama sonoro alternativo e que acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com um charmoso trabalho homónimo, gravado na última meia década, entre o Mindelo e Figueiró dos Vinhos, período durante o qual o gosto pela experimentação contribuiu para alongar, sem pressas, todo o processo criativo. Masterizado por Miguel Pinheiro Marques (Arda Recorders), Silente conta com a colaboração do escritor e poeta Frederico Pedreira, que assina as letras das canções da dupla, mas também de Miguel Ângelo na bateria e de Miguel Ramos no baixo.

Silente… novo projecto de Miguel Dias lança single “Em Espera” – Glam  Magazine

Silente remete-nos para a ideia de silêncio e, num encadeamento algo grosseiro, do silêncio podemos passar ao sossego e daí à contemplação, que pode ser reflexiva, ou não. Caso seja, dúvidas poderão levantar-se, com elas é bem possível que surja o caos e, caso se consiga lidar com ele, reordenam-se as ideias, surgem novos objetivos, sonhos e projetos e, assim, irrequietos, avançamos rumo a novas aventuras e realizações pessoais. Silente, o disco, intenso e sensorial, tem tudo isto na sua bagagem, carrega consigo a doutrina, dá-nos as pistas e ainda, qual cereja no topo do bolo, serve como banda sonora para a demanda. A mesma sustenta-se numa simbiose bastante criativa entre a típica folk encharcada de nuances eminentemente clássicas e o cru e impaciente indie rock, sempre em busca de sonoridades plenas de charme e contemporaneidade, mas que também não descuram a bizarria experimental, pronta a explorar as cada vez mais ténues fronteiras entre o orgânico, acústico ou elétrico e o sintético, contemplativo ou ruidoso, fazendo-o de forma indesmentivelmente inovadora e sedutora.

Ninguém Tem de Saber, o mais recente single extraído do registo, é um claro exemplo de toda esta trama, uma canção eminentemente pop e na qual prevalece o gosto pela experimentação e a procura duma sonoridade única e irrepetível. O tema tem como base um teclado ligado a pedais de guitarra, enquanto que a tabla, um instrumento de percussão de origem indiana, tem numa das duas pistas com que foi gravada, um delay associado. Confere...

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publicado por stipe07 às 10:12

Kevin Morby - Sundowner

Quinta-feira, 05.11.20

Foi em dois mil e dezanove que Kevin Morby nos presenteou com Oh My God, um compêndio de catorze excelentes canções que exploravam até à exaustão o conceito de religiosidade, em temas como OMG (abreviatura de Oh My God)Congratulations, canção em que eram audíveis várias mulheres de diferentes idades a pedir a Deus por misericórdia, ou Sing A Glad Song, canção que evocava as qualidades de um Deus chamado Bob Dylan, só para citar alguns exemplos de um trabalho que foi muito bem aceite pela crítica e que assentava numa folk rock de primeira água.

Kevin Morby on the Midwestern romance behind Sundowner | The FADER

Esse registo Oh My God já tem sucessor, um trabalho intitulado Sundowner, o sexto da carreira do músico natural de Lubbock, no Texas e que começou a ser gravado depois de Morby ter regressado aos arredores de Kansas City, após uma temporada em Los Angeles. Esse regresso a casa, a relação com a também cantora e compositora Katie Crutchfield, do projeto Waxahatchee e a realidade pandémica atual acabam por definir o triângulo filosófico de um trabalho que também tem o propósito de colocar a América mais profunda no centro das atenções, de acordo com o próprio Morby (Sundowner is a attempt to put the Middle American twilight, its beauty profound, though not always immediate, into sound).

Não será por acaso que Don’t Underestimate Midwest American Sun é a canção preferida de Morby deste Sundowner, uma relato impressivo e clarividente de uma América claramente dividida entre dois pólos e que talvez, no campo musical, tenha na típica folk o instrumento mais eficaz de busca de pontes entre tão vincado antagonismo (Don’t Underestimate Midwest American Sun is my favorite song off of the new album, and the one I’m most proud of. I consider space to be a prominent instrument on the song, and here it is as important as anything else you hear on the track. It was my goal to capture the vast openness of the middle American landscape sonically. To this end, there is a whole track of nothing but Texas air, birds and wind chimes living beneath the song).

Wander, uma composição intensa e com aquele travo típico da melhor folk norte-americana, tendo já direito a um vídeo filmado nas proximidades de Kansas e que mostra a já referida Katie Crutchfield a conduzir uma carrinha de caixa aberta por uma estrada vazia, é uma espécie de apelo sentido de Morby à reconciliação, uma canção conduzida por uma viola acústica e bastante melancólica e climática, mas intensa e com uma amplitude muito vincada, fazendo juz à descrição da mesma, feita por Morby e transcrita acima.

De facto, Kevin Morby vem, disco após disco, aprimorando um modus operandi bem balizado, que se define por opções líricas em que dominam ambientes nublados, intimistas e reflexivos e um catálogo sonoro emimentemente delicado e fortemente orgânico, sem artifícios desnecessários, ou uma artilharia instrumental demasiado intrincada. E é este, claramente, o travo geral de Sundowner, um disco minimalista, que procura a interação imediata, mas também profunda, com o ouvinte e que tem no piano e nas cordas as armas de arremesso preferenciais.

Temas como a sussurrante e melancólica A Night at the Little Los Angeles, a etérea e contidaValley, ou a já citada Wonder, assim como a emotiva Campfire, são, além de outras canções acima descritas, a prova cabal de que Kevin Morby é sagaz no modo como vai, disco após disco, subindo degraus no que concerne ao conteúdo qualitativo dos seus registos, fazendo-o com segurança e altivez, nunca beliscando uma apenas aparente dicotomia entre aquilo que é a grandiosidade da sua filosofia criativa e o modo minimal, simples e direto como a expôe, através de canções repletas de beleza, sensibilidade e conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Kevin Morby - Campfire

01. Valley
02. Brother, Sister
03. Sundowner
04. Campfire
05. Wander
06. Don’t Underestimate Midwest American Sun
07. A Night At The Little Los Angeles
08. Jamie
09. Velvet Highway
10. Provisions

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publicado por stipe07 às 20:50

Zero 7 – Shadows EP

Segunda-feira, 26.10.20

Seis anos após o EP Simple Science e cinco depois de EP3, os britânicos Zero 7, um dos nomes fundamentais da eletrónica downtempo e da chillwave, estão de regresso com um novo EP intitulado Shadows, que também serve para apresentar o novo vocalista principal da banda de Sam Hardaker e Henry Binns, o cantor britânico Lou Stone. Já agora, recordo que os Zero 7 não lançam um disco desde o já longínquo Yeah Ghost de dois mil e nove.

FLOOD | Zero 7 Discuss Returning to Form for Their New “Shadows” EP

Este EP Shadows viu a luz do dia a vinte e três de outubro e oferece-nos um alinhamento muito quente e a apelar à soul, com quatro canções que exalam aquele charme típico da dupla e que reforçam o ambiente fashion que sempre caraterizou os Zero 7. São composições com um enredo bastante centrado nas memórias que Binns e Sam carregam consigo, individualmente e como peças fulcrais do universo Zero 7 e de como as duas décadas que levam juntos as criar e a compôr foram marcando as suas vidas e dando sentido a uma existência que sempre se centrou na necessidade de ambos em criar artisticamente.

É, pois, um EP vibrante, mas também soturno, quatro pérolas buriladas em cima de sintetizadores cósmicos, efusivos em Shadows e algumas cordas, serenas em Take My Hand e belíssimas em After The Fall, esta uma composição onde os típicos violinos, que eram peças chave dos primeiros registos da dupla, se mostram exuberantes. Pelo meio vai sendo tudo acomodado por interseções de arranjos que, contrastando com a emotividade vocal de Stone, uma voz habituada a registos mais folk, mas que se assentou como uma luva nos Zero 7, nos proporciona um resultado final lindíssimo, refinado e tremendamente contemplativo. Espero que aprecies a sugestão...

Zero 7 - Shadows

01. Shadows (Feat. Lou Stone)
02. Take My Hand (Feat. Lou Stone)
03. After The Fall (Feat. Lou Stone)
04. Outline (Feat. Lou Stone)

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publicado por stipe07 às 12:54

Local Natives – Sour Lemon EP

Sexta-feira, 23.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que tem a chancela do selo Loma Vista.

Local Natives share “Lemon” featuring Sharon Van Etten | lab.fm

Novidades dos Local Natives são sempre de saudar efusivamente. E quando trazem na bagagem participações especiais de nomes como Sharon Van Etten, então o regozijo torna-se ainda mais audível e justificado. De facto, as quatro canções de Sour Lemon aprimoram ainda mais o habitual patamar instrumental arrojado deste quinteto californiano, mantendo-se a excelência nas abordagens ao lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzida em inspirados versos e a formatação primorosa de diferentes nuances melódicas numa mesma composição, duas imagens de marca do projeto.

Sour Lemon EP convida-nos a penetrar no seu âmago à boleia de Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, Rice e Van Etten, que encaixam na perfeição. Depois, os seguidores mais puristas do grupo ficarão certamente deliciados com o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico, uma canção que nos mostra os Local Natives soterrados em variadas emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, como é apanágio do seu adn. Para o ocaso, se Lost não engana no modo como, etereamente, pisca o olho a ambientes mais nebulosos e jazzísticos, sem descurar uma leve pitada de R&B, já Future Lover tem o condão de nos fazer levitar e nos dar aconchego, através de um espírito interpretativo intenso e charmoso, onde se destaca o timbre metálico de uma divagante guitarra que contradiz na perfeição um registo percurssivo hipnótico, num resultado final de forte cariz pop.

Uma das grandes virtudes destas quatro novas canções dos Local Natives tem a ver com o facto de se sustentarem numa calculada complexidade, aliada a uma inspirada riqueza estilística, aspectos que fazem muitas vezes parecer que uma mesma composição dos Local Natives resulta de uma colagem simbiótica de diferentes puzzles com tonalidades e características diferentes. E estes dois aspetos peculiares marcam, claramente, um EP de enorme beleza e que merece ser apreciado com cuidado e real atenção, deixando bastante água na boca relativamente a um próximo longa duração deste grupo ímpar no panorama indie atual. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sour Lemon

01. Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02. Statues In The Garden (Arras)
03. Lost
04. Future Lover

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publicado por stipe07 às 16:35

Sufjan Stevens – The Ascension

Terça-feira, 13.10.20

Já chegou aos escaparates de The Ascension, o quinto e novo trabalho do norte-americano Sufjan Stevens, um registo que viu a luz do dia a vinte e setembro e que sucede ao excelente Carrie & Lowell, de dois mil e quinze, um trabalho que marcou o retorno do músico à folk mais intimista, nostálgica e contemplativa, depois de ter deambulado entre o caótico, o esquizofrénico e o genial em discos tão importantes como Illinoise ou The Age Of Adz.

Sufjan Stevens lança a faixa épica "America" para divulgar o álbum 'The  Ascension' |

The Ascension é uma jornada eletrónica climática e intimista, mas também algo inquietante, feita de um psicadelismo eminentemente experimental. Depois desta evidência, que fica clara logo após uma primeira audição do alinhamento da obra, importa referir que The Ascension é um marco na inflexão sonora que este músico de Chicago tem vindo a fazer ultimamente, não só no seu projeto a solo, mas também nas colaborações onde tem assentado arraiais, com particular destaque para o disco Planetarium que assinou a meias com Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister, há pouco mais de três anos.

Mesmo contendo alguns dos tiques identitários que marcam uma carreira de quase duas décadas, impressos na intimidade dialogante da sua escrita, que atingiu o apogeu no antecessor que se debruçava sobre o súbito desaparecimento da mãe e na seleção de alguns arranjos e detalhes que ainda têm um travo folk inconfundível, The Ascension oferece-nos, acima de tudo, um vasto e barroco festim eletrónico, justificado em diversas composições recheadas de uma vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que, como é o caso da grandiosa composição America, servem bem à medida da imensidão e do silêncio que carateriza o vazio cósmico a que o músico de Chicago nos tem habituado ultimamente, não só nas obras já referidas, mas também no inquietanto trabalho The Age Of Adz, a comemorar dez anos de existência.

No entanto, não há um único fio condutor na descrição estilística de The Ascension, um álbum onde questões como a religiosidade, o sobrenatural e o abstracionismo, no fundo, conceitos que também servem para definir o conceito de amor de que Sufjan Stevens tanto gosta de explorar, são a pedra de toque de cerca de oitenta minutos que formam, no seu todo, moldura sonora estética que pode ser comparada a uma verdadeira jóia, em todos os sentidos.Video Game, talvez a canção da carreira do musico de Chicago que mais fielmente obedece ao formato pop dito convencional, mostra também um perfil radiofónico e acessível no disco, uma canção que, sendo melodicamente feliz, assenta num registo sintético proeminente, em que, numa espécie de dance pop psicadélico, vozes e batidas aproximam perigosamente Sufjan Stevens de um território sonoro dominado por alguns dos maiores mestres do R&B e do hip-hop atual.

Em suma, cinco anos após um período extremamente complicado da vida do músico, o entusiasmo, a inspiração e a apurada veia criativa regressaram a Chicago, envolveram Stevens, deram-lhe uma vontade de trabalhar fora do vulgar e o resultado é um disco cuja audição nos proporciona uma experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Espero que aprecies a sugestão...

Sufjan Stevens - The Ascension

01. Make An Offer I Cannot Refuse
02. Run Away With Me
03. Video Game
04. Lamentations
05. Tell Me You Love Me
06. Die Happy
07. Ativan
08. Ursa Major
09. Landslide
10. Gilgamesh
11. Death Star
12. Goodbye To All That
13. Sugar
14. The Ascension
15. America

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publicado por stipe07 às 16:44






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