01. On Reflection
02. Raining Whilst She Sleeps
03. Pull Apart
04. All We Said
05. Rescue
06. New Air
07. Away From You
08. Small Light
09. Convalescence
10. We All Were Swallowed By Sleep
11. Nowhere
Pouco mais de dois anos depois do excelente EP All We Know, o vocalista, compositor e instrumentista, Tim Crabtree, está de regresso com o seu alter ego Paper Beat Scissors, um projeto que chega de Halifax, no Canadá. Parallel Line é o título do novo álbum deste músico e contém onze canções misturadas pelos conceituados Sandro Perri e Dean Nelson, masterizadas por Andy Magoffin e produzidas pelo próprio Tim Crabtree.

Terceiro longa duração do projeto Paper Beat Scissors e gravado, à semelhança dos antecessores, na zona rural de Ontario, Parallel Line mergulha de modo ainda mais penetrante e realista do que os trabalhos antecessores numa folk que não deixa ninguém indiferente e que delicia pelo modo exímio como utiliza toda uma orgânica instrumental e vocal para dar vida a poemas lindíssimos, através da inserção de diferentes texturas, muitas vezes em várias camadas de sons.
Se logo na acusticidade de Gun Shy percebemos que há aqui um charme incomum e que é viciante porque nos embala e paralisa, é na soul da guitarra de All It Was e no vasto emaranhado de interseções instrumentais que se estabelecem com as cordas nesse tema, que se percebe o nível mais apurado, maduro e coerente do cardápio atual de Paper Beat Scissors. De facto, ao terceiro trabalho Crabtree prova ter dado um salto qualitativo enorme no que concerne à sua capacidade de criar e recriar emoções e sentimentos, geralmente algo tristes e depressivos, sem nos trespassar a alma ou nos fazer sentir dor. Assim, se impressiona mais do que nunca a perceção de que é imensamente apurada a enorme sensibilidade e o intenso sentido melódico deste extraordinário músico e compositor, move-nos o desejo da audição contínua deste alinhamento de canções, a certeza de que são um bálsamo retemperador sempre que as temos por perto, em especial nos instantes da nossa existência em que precisamos de usufruir de um certo isolamento e tranquilidade que nos façam refletir e decidir novas opções e caminhos.
De facto, na toada mais vibrante e pulsante de Don't Mind, um tema sobre o destino e a pouca importância que as pedras que se atravessam no nosso caminho poderão ter quando estamos certo da rota que queremos trilhar, é evidente que ficamos ainda mais absorvidos por esta estética delicada, mas também plena de personalidade, cor e harmonia, mas também acabamos por, inconscientemente, ganhar ânimo para as batalhas futuras e os dilemas que carecem de mais ou menos urgente resolução.
Detentor de um registo vocal também ímpar e capaz de reproduzir variados timbres e diferentes níveis de intensidade, Crabtree tem um dom que certamente já terá nascido consigo e que se define pela capacidade de emocionar, mas também de nos converter a uma causa muito sua e que vive da visão poética de que as tesouras representam a agressão dos fantasmas do passado que muitas vezes insistem em se manter acoplados e o papel aquela tela branca que se disponibiliza a receber os nossos recomeços e expetativas. No fim, neste processo de passagem, a delicadeza e a candura acabam por vencer a agressividade e a rispidez, com estas canções a servirem de banda sonora exemplar durante este salto fraticida. Espero que aprecies a sugestão...

01. Respire
02. Gun Shy
03. All It Was
04. Don’t Mind
05. Grace
06. Anything
07. All We Know
08. Shapes
09. Better
10. Half Awake
11. Little Sun

Cerca de dois anos e meio depois do excelente No Shape, Mike Hadreas, aka Perfume Genius, está de regresso com novidades que poderão muito bem antecipar o lançamento em breve do quinto álbum da carreira de um dos nomes mais excitantes do cenário musical alternativo. Importa, no entanto, ressalvar que Hadreas não este parado durante este par de anos, já que criou os temas Eighth Grade, Booksmart e13 Reasons Why, para a banda sonora do filme The Goldfinch, além de ter andado em digressão a promover No Shape e de ter ainda autorizado algumas remisturas e participado em colaborações.
Entretanto também já era do conhecimento público que Perfume Genius andava a colaborar com a coreógrafa Kate Wallich e com a companhia de dança The YC, num bailado contemporâneo e numa performance ao vivo. O nome dessa inusitada obra éThe Sun Still Burns Here e têm sido poucos os detalhes revelados do produto final e da performance, estando o seu conteúdo confinado aos estúdios de dança onde têm decorrido os ensaios e as gravações.
Eye In The Wall acaba por ser o grande detalhe já revelado desse trabalho colaborativo, uma composição sonora assinada por Perfume Genius e que nos oferece uma espécie de sinistro western percurssivo, com uma impactante atmosfera lo-fi, mas também com aquela dose de delicadeza e emotividade que carateriza, através de um aparato tecnológico amplo, os principais caminhos de expressão musical da sua discografia. Confere...
22, A Million, o excelente registo que o projeto Bon Iver de Justin Vernon lançou em dois mil e dezasseis, já tem sucessor. O novo trabalho do grupo liderado por este músico norte-americano natural de Eau Claire, no Wisconsin, chama-se i,i, tem novamente a chancela do selo Jagjaguwar e contém treze canções que trilham diversos caminhos, expandem horizontes e aprimoram o modo como Vernon se manifesta artisticamente num processo de mutação que reflete ousadia e inquietude, duas permissas indispensáveis em qualquer artista que queira levar cada vez mais adiante a sua carreira.

i,i é o quarto registo do percurso discográfico de Bon Iver e conta com as participações especiais de James Blake, Aaron e Bryce Dessner, Moses Sumney, Velvet Negroni, Sean Carey, Andrew Fitzpatrick, Mike Lewis, Matt McCaughan, Rob Moose, Jenn Wasner, Phil Cook, Bruce Hornsby, Channy Leaneagh, Naeem Juwan, Veludo Negroni, Marta Salogni, Francis Starlite, Moses Sumney, TU Dance, o coro Brooklyn Youth e muitos outros, uma infindável lista que atesta o grau de ecletismo e de heterogeneidade de treze canções com uma sonoridade única e peculiar. É um alinhamento repleto de paisagens sonoras que, do minimalismo eletrónico eminentemente etéreo e com uma forte vocação experimental, ao R&B, passando pelo hip-hop e a típica pop do outro lado do atlântico, estão impregnadas com uma beleza e uma complexidade tal que merecem ser apreciadas com alguma devoção e fazem-nos sentir vontade, no fim, de carregar novamente no play e voltar ao início.
Nos efusiantes sopros e nas cordas vibrantes e luminosas de iMi, mas também na tonalidade eminentemente grave de We, induzida por um baixo vigoroso, acompanhada por uma vasta miríade instrumental, sempre insinuante, que busca a criação de uma paisagem algo inquietante, é-nos apresentado um álbum que até ao seu ocaso está repleto de paisagens onde o orgânico e o sintético se misturam com superior elegância. Estamos, sem dúvida, na presença de um conjunto notável de composições que, no seu todo, homogéneo e impressivo, nos oferecem um amplo panorama de descobertas sonoras, incubadas durante um processo criativo que terá sido claramente exaustivo e onde cada contributo, cada fragmento sonoro, cada peça de um puzzle repleto de emaranhados e detalhes difíceis de destrinçar, por mínimo que tenha sido, foi fundamental para o painel final, já que, se lá não estivesse, este catálogo de explosivas sensações ficaria incompleto e sem o fulgor e a beleza que transpira.
Disco imaginado por Justin Vernon, mas onde, como insinuei, cada artista convidado vestiu a sua própria pele enquanto se dedicou, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor lhe designou, i,i é, liricamente, um clamor ruidoso à necessidade imperiosa do autor de nos converter a uma causa que é muito sua, mas também passível de ser apropriada por qualquer um de nós, enquanto mostra ao mundo a sua identidade vincada e se assume explicitamente como um ser humano que tem as suas fragilidades e os seus demónios, mas que também tem um lado muito corajoso e interventivo. Nele, canções como Faith, uma composição que encontra o seu sustento em guitarras agrestes, sintetizadores incisivos e um registo vocal modificado, mas pleno de alma e de um sentimento e que nos enche de paixão e luz, mas também o modo delicado como o piano de U (Man Like) nos afaga a alma e a superior prestação vocal de Naeem, aliada a uma ala percurssiva que vai aumentando de arrojo à medida que nos reergue, ou o tom fortemente denso e contemplativo e os timbres de voz únicos em Jelmore, que, nesse tema, conseguem trazer a oscilação necessária para transparecer mais sentimentos, são outros momentos obrigatório de contemplação enquanto se relacionam connosco com elevada empatia. Espero que aprecies a sugestão...

01. Yi
02. iMi
03. We
04. Holyfields,
05. Hey, Ma
06. U (Man Like)
07. Naeem
08. Jelmore
09. Faith
10. Marion
11. Salem
12. Sh’Diah
13. RABi

Será a vinte e cinco de outubro que irá chegar aos escaparates Cry, o novo registo de originais dos norte americanos Cigarettes After Sex, um projeto oriundo de El Paso, no Texas e liderado por Greg Gonzalez, ao qual se juntam Jacob Tomsky, Phillip Tubbs e Randy Miller. Este novo alinhamento de uma das novas coqueluches da indie pop de cariz mais ambiental, terá a chancela da Partizan Records e sucede ao muito aclamado registo homónimo de estreia que este grupo lançou há pouco mais de dois anos.
Gravado em sessões noturnas numa mansão na ilha de Maiorca e, de acordo com o grupo, uma meditação cinematográfica sobre as muitas facetas complexas do amor – encontro, desejo, necessidade, perda… ou tudo uma vez só, Cry tem em Heavenly o primeiro single divulgado, uma composição que serve-se de um imponente baixo, do reverb ecoante de uma guitarra e do ritmo hipnótico da bateria para, com uma filosofia estilística assente numa sonoridade simples e nebulosa, mas bastante melódica e etérea, arrastar-nos com complacência e sem pressas, para um universo feito com uma aura melancólica e mágica indistinta. Confere...
The Unforgiving Current é o título do quarto registo de originais dos britânicos Horsebeach, um quarteto natural de Manchester e formado por Ryan Kennedy (voz) Matt Booth (bateria), Tom Featherstone (guitarra) e Tom Critchley (baixo). Os Horsebeach estrearam-se nos discos há cerca de meia década com um homónimo e este The Unforgiving Current sucede a Beauty & Sadness, um álbum com dois anos e que reforçou a aposta da banda em sonoridades eminentemente etéreas e melancólicas, dentro de um catálogo indie virtuoso, com uma atmosfera particularmente íntima e envolvente.

Uma das boas surpresas da temporada são, claramente, estes Horsebeach, mestres no balanço inspirado entre uma rugosidade bastante vincada e plena de groove, bem patente no baixo que conduz Net Cafe Refuge, uma das canções do ano para esta redação e aquela dream pop de forte cariz lo fi, conduzida por uma guitarra com um efeito metálico particularmente vibrante, acompanhada por um registo vocal ecoante e uma bateria multifacetada e bastante omnipresente, em Dreaming. E é no meio destes dois opostos de The Unforgiving Current, bem explícitos no tema homónimo, conduzido por um baixo e uma guitarra com as diretrizes identificadas nas duas composições acima descritas, mas também no ecoante frenesim de Unlucky Strike e muitas vezes numa filosofia simbiótica de fronteiras que carecem de simples definição e recorte, que escorre um disco bastante homogéneo, uma perfeita banda sonora de um dia de verão, com quarenta e cinco minutos repletos de boas letras e onde abundam, como seria de esperar, arranjos feitos de detalhes típicos da pop e do punk dos anos oitenta.
De facto, se além do protagonismo do baixo e da guitarra, se a bateria e a secção rítmica são também intervenientes preciosos no arquétipo sonoro do registo, com destaque para o excelente exercício rítmico que ambos protagonizam nos avanços e recuos de Trust, ali no meio, quando surge uma espécie de mistura entre surf rock e chillwave na complacência deVanessa, no encanto vintage, relaxante e atmosférico do instrumental Yuuki e no insinuante charme das teclas que adornam Mourning Thoughts, é feito o indispensável contraponto que confere a este alinhamento a tal riqueza estilística que faz de The Unforgiving Current também um claro favorito, caso o objetivo do ouvinte seja recriar e dar vida a um ambiente que também tenha algo de soturno e melancólico.
Disco descontraído, jovial e que carece de audição atenta e dedicada, The Unforgiving Current é um cenário idílico para quem, como eu, aprecia alguns dos detalhes básicos da melhor pop lo fi contemporânea, um oásis de contida elegância que impressiona pelo bom gosto com que cruza vários estilos e dinâmicas sonoras. Espero que aprecies a sugestão...

01. Net Cafe Refuge
02. The Unforgiving Current
03. Dreaming
04. Mourning Thoughts
05. Vanessa
06. Yuuki
07. Trust
08. Unlucky Strike
09. Mother
10. Acting
O sono é talvez a atividade humana que ainda carece de maior profundo conhecimento, acerca não só da sua função e dos benefícios que traz para o funcionamento do nosso organismo, mas também do modo como se processa e as caraterísticas essenciais dos diferentes ciclos que contém. Isso não impediu que os islandeses Sigur Rós, provavelmente os maiores responsáveis por toda uma geração de ouvintes se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical, procurassem criar uma espécie de banda sonora perfeita para uma sessão de sono completa, tendo nascido assim Sigur Rós Presents Liminal Sleep, um alinhamento de nove canções pensadas para as diferentes fases do nosso sono, de modo a tornar essa necessidade fisiológica fundamental ainda mais reconfortante e bem sucedida ( we like the fact that sleep remains defiantly mysterious; something we all do — all need to do — but can’t ever get fully inside. this playlist is a modest attempt to mirror the journey of a sleep cycle, with its curves, steady states and natural transitions. - Jónsi, Alex Somers & Paul Corley).

Cada uma das nove composições de Sigur Rós Presents Liminal Sleep, representa um momento específico do ciclo do sono e nelas todas as opções instrumentais, predominantemente sintéticas e minimalistas, se orientaram de forma controlada. Assim, todos os detalhes escutados funcionam como um todo, agregados em nove composições que não deixam de ser um bloco único de som que dá cor, movimento e substância à exuberância natural de um dos pilares essenciais da nossa existencia enquanto organismos vivos e que se querem saudáveis.
Na verdade, neste Sigur Rós Presents Liminal Sleep, os Sigur Rós acabaram por criar um alinhamento musical com um objetivo eminentemente funcional, mas que não deixa de ter uma vincada veia de sensibilidade e emoção. Se a música, como forma eminente de manifestação artística, teve sempre, ao longo da história do homem, seu criador privilegiado, uma faceta bastante recreativa e se culturalmente essa função este sempre um pouco acima de todas as outras, estas nove canções foram idealizadas como elixir soporífero relaxante e meditativo, ou seja, são, na minha modesta opinião, um bom remédio para quem tenha insónias ou outros distúrbios de sono.
Em suma, Sigur Rós Presents Liminal Sleep é claramente capaz estar presente e de ir ao encontro da necessidade intuitiva que todos nós temos de dormir, utilizando essa atividade como arma capaz não só de fazer o nosso corpo descansar e recarregar baterias mais também de modular o nosso humor, sendo, esse mesmo sono, por excelência, o refúgio onde podemos encontrar, também sonoramente, a pura realização feliz e plena desse preenchimento interior.
O resultado final deste trabalho sui generis é um falso minimalismo ambiental que desafia os nossos sentidos, segundo após segundo, tal é a opulência sonora de detalhes, ruídos e efeitos que cruzam as melodias, uma receita que não soará particularmente estranha a quem já está devidamente identificado com a discografia dos Sigur Rós e percebe que há aqui o apelo da novidade, mas sem abandonar a essência. Espero que aprecies a sugestão...

01. Sleep 1
02. Sleep 2
03. Sleep 3
04. Sleep 4
05. Sleep 5
06. Sleep 6
07. Sleep 7
08. Sleep 8
09. Sleep 9
Dez anos depois de uma profícua colaboração que resultou num disco intitulado Discovery (2009) e de Rostam Batmanglij, membro dos Vampire Weekend de Ezra Koenig, ter produzido, cerca de meia década depois, Need Your Light, o último registo de originais dos Ra Ra Riot, alinhamento que continha Water, um tema composto a meias por Rostam e a banda, o músico nova iorquino e o coletivo de Siracusa, nos arredores da mesma cidade, voltam a unir esforços em Superbloom, o novo compêndio discográfico do grupo liderado por Wes Miles e ao qual se juntam atualmente Mathieu Santos, Milo Bonacci, Rebecca Zeller e Kenny Bernard, um album com doze canções que colocam os Ra Ra Riot na senda de uma pop nostálgica, mas que entronca nas tendências mais atuais que misturam cordas e sintetizadores sempre com luminosidade e irrepreensível assertividade melódica.

Quem conhece a fundo o trabalho de Rostam Batmanglij, quer como músico quer como produtor, percebe facilmente que Superbloom é um daqueles discos em que o produtor tem uma palavra decisiva no seu conteúdo, mesmo no que concerne ao próprio arquétipo fundamental das canções. Se Need Your Light já tinha mostrado uns Ra Ra Riot mais radiofónicos e longe do lo fi, Superbloom coloca-os decisivamente na rota de uma sonoridade que se quer apelativa, otimista e de fácil assimilação, mas sem deixar de exalar um superior quilate criativo.
Assim, se logo na majestosidade e na amplitude de Flowers é percetível a vasta míriade instrumental que sustenta Superbloom, em Bad To Worse, canção inspirada em vagas memórias e longas viagens rodoviárias, o ritmo divagante e melancólico da bateria e o modo como encaixa na perfeição com o registo vocal em falsete de Miles, enquanto as sintetizações e as cordas, à medida que se acomodam progressivamente na melodia, fazem a canção levitar, levando-nos com ela, deixa-nos letargicamente logo à mercê de um alinhamento que faz ressurgir o nosso baú de memórias, mas também nos acomoda dentro das tendências essenciais da pop atual. E esta dupla capacidade que Superbloom tem de nos surpreender é um dos seus maiores trunfos, amplificada na impetuosidade de Belladonna e no neopsicadelismo de Dangerous, mas também na cadência milimétrica da rugosidade progressiva de Endless Pain/Endless Joy, na cosmicidade retro das sintetizações e da batida de Bitter Conversation e, principalmente, no groove festivo de This Time Of Year, uma das composições mais divertidas da carreira dos Ra Ra Riot.
Superbloom eleva o quinteto para um novo patamar instrumental mais arrojado e afina a excelência com que o grupo continua a abordar o lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzindo essa valência em inspirados versos e, principalmente, num cruzamento feliz entre eletrónica e indie pop, sendo exercício nitidamente recompensador escutar o álbum e conferir a vasta heterogeneidade de elementos e nuances que caraterizam cada um dos tema do melhor registo da carreira dos Ra Ra Riot. Espero que aprecies a sugestão...

01. Flowers
02. Bad To Worse
03. Belladonna
04. Endless Pain/Endless Joy
05. War And Famine
06. Bitter Conversation
07. This Time Of Year
08. Gimme Time
09. Backroads
10. Dangerous
11. An Accident
12. A Check For Daniel
Message To Bears é o nome do projeto a solo do cantor, compositor e multi-instrumentista inglês Jerome Alexander. Esta banda de um homem só estreou-se em 2007 com um EP que chamou a atenção pelo conteúdo um pouco confuso, com algumas distorções tímidas, violinos, ecos e susurros. Message To Bears encontrou um rumo mais definido no álbum seguinte, The Soul's Release, com uma sonoridade que passava pela pop atmosférica, a folk e o post rock, com destaque para as canções Joy Leaves, Cathing Fireflies e principalmente Where the Trees are Painted White. A esta promissora estreia nos álbuns sucedeu, em 2009, Departures, um disco ainda mais sólido, com melhor definição sonora e bastante hipnótico e, três anos depois, Jerome brindou-nos com Folding Leaves, um álbum surpreendente, rústico e orgânico, lançado pela Dead Pilot Records. Nessa altura Jerome mudou-se de Bristol para Londres, lançou mais dois discos, mas resolveu fazer marcha atrás, voltar à terra natal e criar no seu estúdio caseiro Constants, o seu quinto longa duração, um alinhamento de onze canções emocionalmente poderosas e com tudo para ser um marco discográfico do ano dentro do espetro sonoro em que se situa.

Constants funciona como uma espécie de válvula de escape para o autor, já que no registo exorciza alguns demónios que o período londrino colocou no seu equilíbrio psicológico pessoal e serve para o ouvinte como um confortável e sossegado refúgio, num mundo cada vez mais dominado pela pressãoque é exercida pelos media. Esta é a grande ideia temática de quarenta minutos introduzidos, em On Reflection, por um ternurento piano que logo nos abre de par em par um portal de luz, magia e cor, incomparável a algo que faça parte do mundo concreto em que vivemos.
Saborear Constants tem obrigatoriamente essa permissa de suscitar no ouvinte a necessidade de usar a sua imaginação para melhor percepcionar um universo mágico e que causa impacto por ser complexo e detalhado, mas também (e isso é possível) graciosamente simples. Nele, Jerome combinou em várias canções diversas camadas de cordas, com elementos percurssivos eminentemente orgânicos e melodias sintetizadas únicas e criou assim um ambiente aconchegante, difícil de definir, um som que se constrói ao longo de cada canção e em todo o álbum, com especial destaque para a graciosidade de Raining Whilst She Sleeps, a religiosidade de Rescue, o cariz místico dos violinos que gravitam em Away From You e a esplendorosa emotividade que exala em cada nota e arranjo de Small Light.
Em Bristol, Jerome consegue testemunhar com outra clarividência a constância das estações do ano, os diferentes sons que a natureza tem durante essa roda viva, os odores dos cursos de água, este ciclo da vida e da morte que recorda ao músico quer o efémero da sua existência quer a fragilidade e tantas vezes a insginificância que carateriza a presença de tantos de nós neste mundo. A eletrónica ambiental inspirada de Constants é o tal refúgio, mas também um grito de alerta, um apelo ao desassossego onde estão plasmadas emoções e sugestões sempre de modo humilde, carinhoso, sincero e, obviamente, nada pretensioso. Espero que aprecies a sugestão...
Os Work Drugs de Benjamin Louisiana e Thomas Crystal são uma dupla de Filadélfia já com um assinalável cardápio e que se mantém bastante ativa e profícua, lançando um disco praticamente todos os anos, além de alguns singles e compilações, desde que se estrearam com Summer Blood, há já quase uma década. Enquanto não chega aos escaparates lá para o final deste ano o sucessor do excelente Holding On To Forever de dois mil e dezoito, têm-se mostrado visíveis e audíveis com a edição em formato EP. Belize foi editado em março e agora acaba de ser divulgado Surface Waves. Ambos compilam não só alguns singles que poderão fazer parte desse novo álbum dos Work Drugs, mas também diversos instrumentais e material nunca antes divulgado e que foi sobrando das sessões de gravação de alguns dos antecessores do futuro trabalho discográfico do projeto.

Surface Waves contém oito composições perfeitas para saborear estes últimos raios de sol mais quentes, enquanto não chega a longa penumbra outunal e o interminável frio e implacável inverno. Se a melhor herança de Michael Jackson conduz Embers Never Fade e uma bateria eletrónica bastante insinuante sustenta Burned, em L.A. Looks dominam paisagens com uma mais acentuada tonalidade surf rock, enquanto a chillwave de Counterclaims contém um encanto vintage, relaxante e atmosférico, intenso e charmoso.
O resultado final de Surface Waves é um compêndio particularmente eclético, que além de proporcionar instantes de relaxamento, também poderá adequar-se a momentos de sedução e recolhimento, um EP que faz adivinhar um disco tremendamente sensorial e emotivo e que será, sem dúvida, mais um episódio significativo e bem sucedido num já riquíssimo compêndio proporcionado por um dos projetos mais excitantes da pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

01. Embers Never Fade
02. Burned
03. L.A. Looks
04. Counterclaims
05. Reunions
06. Do It Like We Used To Do
07. Counterclaims (Instrumental)
08. Embers Never Fade (Instrumental)

22, A Million, o excelente registo que o projeto Bon Iver de Justin Vernon lançou em dois mil e dezasseiss, já tem sucessor. O novo trabalho deste músico norte-americano natural de Eau Claire, no Wisconsin, chama-se i,i, terá novamente a chancela do selo Jagjaguwar e irá conter treze canções que trilham diversos caminhos, expandem horizontes e aprimoram o modo como Vernon se manifesta artisticamente num processo de mutação que reflete ousadia e inquietude, duas permissas indispensáveis em qualquer artista que queira levar cada vez mais adiante a sua carreira.
i,i será o quarto registo do percurso discográfico de Bon Iver, conta com as participações especiais de James Blake, Aaron Dessner, Moses Sumney e Velvet Negroni e tem já vários temas do seu alinhamento divulgados. O mais recente é Faith, uma canção que encontra o seu sustento em guitarras agrestes, sintetizadores incisivos e um registo vocal modificado, mas pleno de alma e sentimento e que nos enche de paixão e luz. Confere Faith e o alinhamento de i,i...
01 Yi
02 iMi
03 We
04 Holyfields,
05 Hey, Ma
06 U (Man Like)
07 Naeem
08 Jelmore
09 Faith
10 Marion
11 Salem
12 Sh’Diah
13 RABi
Mestres e pioneiros do shoegaze e uma referência ímpar do indie rock alternativo de final do século passado, os britânicos Slowdive voltaram a reunir-se há quase meia década, vinte e dois anos depois de Pygmalion (1995), e fizeram-no com a edição de um disco homónimo que continha oito maravilhosas canções que fizeram as delicias de todos os seguidores deste nome incontornável da cena musical contemporânea. Mas além desse quarto álbum dos Slowdive e de uma aclamada digressão, o novo fôlego desse projeto também fez com que Rachel Goswell, a vocalista e guitarrista, conhecesse Steve Clarke. Daí resultou uma união sentimental já oficializada e o surgimento de um novo projeto encabeçado pela dupla e intitulado The Soft Cavalry, que acaba de se estrear nos discos com um fabuloso homónimo, à sombra da insuspeita Bella Union.

Explorando, tal como os Slowdive, os mesmos meandros do indie rock mais contemplativo, melancólico e atmosférico, os The Soft Cavalry vão um pouco mais longe, injetando na sua sonoridade uma maior vertente sintética, atributo plasmado num disco homónimo produzido por Michael Clarke, irmão de Steve e que contém uma indesmentível aúrea de dramatismo e espiritualidade, como seria de esperar num registo que é também um ato de amor genuíno partilhado por duas pessoas que, tendo casado o ano passado e vivendo em Devon, encontraram uma na outra e na música um novo e feliz fôlego para as suas vidas pessoais.
Intensamente melódico e com uma atmosfera sonora a lembrar interseções eficazes entre nomes tão ímpares como os Pink Floyd, Talk Talk ou R.E.M., The Soft Cavalry reescreve, de certo modo, a narrativa de Steve, um homem que viveu os últimos anos profundamente amargurado com o destino, fruto de um divórcio conturbado em dois mil e onze e que, mesmo a tocar baixo em alguns projetos ou a agenciar digressões de bandas como os já referidos Slowdive, só reencontrou o equilíbrio depois de conhecer Rachel. Assim, homenageando a sua nova companheira e servindo-se dos imensos atributos vocais e interpretativos dela, Steve criou neste álbum um extraordinário exercício de criatividade terapêutica, com canções como a buliçosa e enleante Bulletproof, a nostálgica Never Be Without You, a etérea Passerby, uma canção sobre abraços genuínos ou Spiders, uma balada sobre a fase inicial do encantamento por alguém, a abrigarem-se numa filosofia estilística simples e nebulosa, mas bastante melódica e climática.
Com as participações especiais do teclista Jesse Chandler (Mercury Rev, Midlake), do guitarrista Tom Livermore e do baterista Stuart Wilkinson, este é, pois, um disco que se arrasta com complacência e sem pressas, espraiando-se no tempo certo, alicerçado em melodias envoltas por cordas de forte pendor acústico e orgânico, mas amiúde eletrificadas com uma subtil vibração metálica particularmente charmosa, girando tudo em redor de um sintetizador assertivo e com efeitos recheados de eco, nuances que fazem sobressair a aura melancólica e mágica de um alinhamento que também deve muito do seu cariz impressivo aos tais atributos vocais de Rachel, que reforçam a elevada bitola qualitativa da estreia destes novos mestres da melancolia aconchegante.
Os The Soft Cavalry emergem-nos num universo muito próprio e no qual só penetra verdadeiramente quem se predispuser a se deixar absorver pela sua cartilha. E o arquétipo sonoro de tal ambiente firma-se também num falso impressionismo e num exemplar cariz lo fi na produção, elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador, plasmado num trabalho discográfico que tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, sendo, no seu todo, um disco cuja atmosfera densa e pastosa, é também libertadora e esotérica. Espero que aprecies a sugestão...

01. Dive
02. Bulletproof
03. Passerby
04. The Velvet Fog
05. Never Be Without You
06. Only In Dreams
07. Careless Sun
08. Spiders
09. The Light That Shines On Everyone
10. Home
11. Mountains
12. The Ever Turning Wheel
Quase quatro anos depois de um excelente homónimo, os Tape Junk de João Correia regressaram aos lançamentos discográficos no início da última Primavera, em formato digital e em cassete, com Couch Pop, o terceiro disco do projeto, um compêndio de nove canções pensadas e estruturadas pela mente do cérebro da banda. De facto, os Tape Junk assumem-se cada vez mais como um projeto a solo deste músico que também fundou os Julie & The Carjackers e os They’re Heading West, já que neste Couch Pop todos os instrumentos foram registados pelo João, que contou apenas com o apoio de António Vasconcelos Dias nos sintetizadores.

Álbum escrito e construído sem pressas, entre o início de dois mil e dezasseis e o ocaso do verão passado e com um alinhamento que foi sendo continuamente aperfeiçoado, mutado e aprimorado de acordo com o estado de espírito do autor e ao sabor de um tempo que nunca o pressionou, Couch Pop tem um conjunto notável de composições que, no seu todo, homogéneo e impressivo, nos oferecem um amplo panorama de descobertas sonoras, que acabam por personificar uma espécie de exercício criativo nostálgico, onde cada uma veste a sua própria pele enquanto se dedica, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor lhe designou.
Pavement, Giant Sand, Yo La Tengo, Rolling Stones ou Velvet Underground são influências óbvias e algumas até assumidas e declaradas, mas quem vence é, na soma de todas as partes, aquele rock clássico e intemporal, que General Population, o mais recente single retirado de Couch Pop, tão bem comprova. E fá-lo através de um curioso nonsense e uma vibe soalheira com um charme incomum. General Population é, portanto, um exemplo claro de uma elogiável despreocupação e do desejo pessoal que os Tape Junk sentem, na pessoa do João Correia, de não serem levados demasiado a séria no que concerne não só ao arquétipo, mas também à vertente lírica e poética das canções. Confere...
Produzido por Gareth Jones, All é o décimo registo de originais do músico francês Yann Tiersen, um registo com onze composições, lançado no passado dia quinze de fevereiro através da Mute Records e que foi gravado na ilha de Ushant, na costa oeste de França, onde o músico vive. Nesse local Yann Tiersen converteu uma antiga discoteca num estúdio de música e num centro cultural, batizado de The Eskal e inaugurado em fevereiro com a apresentação deste álbum que conta com as participações especiais dos músicos Ólavur Jákupsson, Anna von Hausswolff, Emilie Tiersen e Denez.

All está marcado pela temática do ambiente, já presente no antecessor EUSA (2016) e as composições estão impregnadas de sons gravados na natureza, na região da Bretanha e nos Estados Unidos, uma nuance que confere ao registo um intenso dramatismo e uma permanente tensão, num alinhamento que funciona como um bloco único, uma grande banda sonora, um pouco à semelhança das que já idealizou para filmes tão importantes como Alice et Martin de Juliette Binoche ou Amélie, de Jean-Pierre Jeunet.
Continuando a utlizar o piano como instrumento de eleição na condução do processo de construção do arquétipo sonoro das canções, algo que já sucedeu com EUSA de um modo mais minimal, All leva-nos de modo submersivo e particularmente realista para um universo feito de cândura e beleza, mas também de alguma angústia e temor, idealizado por um músico que tocou também quase todos os outros instrumentos que se escutam e que soube como os relacionar com os tais sons de ambiente que captou. Em Tempelhof, a lindíssima melodia tocada ao piano e o modo como nela encaixam vozes de crianças, captadas num setor do aeroporto de Berlim onde hoje funciona um dos maiores centros de refugiados da Europa, é um excelente exemplo desse modus operandi que se repete, logo depois, em Koad e, no ocaso de All, em Beure Kentañ, com sons de aves, mas também nos sinos de Bloavezhioù ou, em Pell, com frequências de rádio, detalhes que fazem com que estas composições de All tenham calibre para serem apreciadas e devidamente absorvidas, numa óptica eminentemente reflexiva, mas também como veículos promotores da diferença e da ação, ou seja, são canções capazes de nos fazer ganhar coragem para agir um pouco mais relativamente à dor que nos rodeia.
O momento mais belo de All acaba por estar em Heol, uma canção onde as letras sussurradas em bretão contam uma parábola sobre um castelo trancado e indicam a chave dourada que a abre e que todos guardamos dentro de nós. O caminho para ela vai-nos sendo revelado em cada novo som, sejam cordas violentas ou soturnas, mas também fanfarras de metais e diversos elementos percurssivos estonteantes, numa canção em que progressivamente Tiersen constrói a tal tensão e nos faz subir, sem apelo nem agravo, em direção a um pico envolto em luz. Positivamente edificante e com uma conectividade com o ouvinte irrepreensível, Heol é, pois, o âmago de um disco profundamente humano e sensorial, assente numa indulgência que nos transporta para um mundo que também tem muito de solene e de espiritual, nessa conetivdade que estabelece com cada um de nós. Espero que aprecies a sugestão...

01. Tempelhof
02. Koad (Feat. Anna Von Hausswolff)
03. Erc’h (Feat. Olavur Jakupsson)
04. Usal Road
05. Pell
06. Bloavezhioù
07. Heol
08. Gwennilied (Feat. Denez)
09. Aon
10. Prad
11. Beure Kentañ
Já viu a luz do dia ANIMA, o terceiro registo de originais da carreira a solo de Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, verdadeiros Fab Five do novo milénio, não só porque estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, mas também porque, disco após disco, acabam por estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto na linha da frente das suas maiores influências. ANIMA foi lançado pela XL Recordings e produzido por Nigel Godrich, colaborador de longa data do músico de Oxford. Ambos desenvolveram este alinhamento através de performances ao vivo e trabalho de estúdio, que também já deu origem a uma curta-metragem realizada por Paul Thomas Anderson e disponível no canal Netflix.

Em ANIMA Thom Yorke prossegue a sua demanda experimental pelos sinuosos caminhos de uma eletrónica de cariz eminentemente etéreo, uma opção mais sintética do que a trilhada no seio da sua banda de sempre que mesmo tendo virado agulhas para universos mais eletrónicos nos seus últimos capítulos discográficos, continua a ter no indie rock uma elemento nuclear de formatação da sonoridade global das obras criadas pelos Radiohead.
É recorrente que o sonho seja uma temática bastante abordada por artistas plásticos, cineastas e músicos, que têm neles a principal fonte de inspiração e tentam incessantemente produzir algo que se aproxime do que é sentindo num sonho. O norte-americano Steven Ellison, o músico e produtor que assina o projeto The Flying Lotus, não sendo apenas um artista onírico ou surrealista, mas tendo uma imaginação que transcende o estado lógico e comum, porque é muito fácil sentirmo-nos dentro de um sonho ao ouvirmos a música desse seu projeto, acabou por ser uma das grandes inspirações de Thom Yorke, juntamente com algumas das principais teorias do psicanalista Carl Jung, ainda dentro da temática dos sonhos, mas também o modo como nos deixamos influenciar atualmente pelas novas teconlogias e a sensação de anonimato que elas nos dão. Nós enviamos os nossos avatares para abusar e lançar veneno e depois regressamos para o anonimato, referiu Yorke numa entrevista recente acerca desta particularidade influenciadora do conteúdo de ANIMA.
Portanto, e como não podia deixar de ser, escutar ANIMA faz-nos estarmos perante uma experiência não só auditiva, mas também tremendamente visual. No pulsar analógico das batidas de Last I Heard (…He Was Circling The Drain), no apelo tribal do dubstep de Traffic, nas teclas soturnas de Dawn Chorus, no clima borbulhante e positivamente visceral de I Am A Very Rude Person, na intrigante Not The News e na intensidade crescente de Twist, uma composição onde um teclado se deixa rodear graciosamente pelo típico registo vocal em falsete de Yorke, fazendo-o de modo particularmente sensível e com um toque de lustro de forte pendor introspetivo, fica recriado não só o típico ambiente soturno com que este autor tem pautado o seu projeto a solo há já mais de uma década, mas também a densidade e a névoa sombria de um modo de ver a humanidade de hoje como se estivesse globalmente adormecida, num sonho coletivo de felicidade e realização material que nunca se concretizará e, em consequência disso, numa inconsciente caminhada em fila indiana rumo ao abismo.
A sociedade contemporânea e, principalmente, a evolução tecnológica que nem sempre respeita o ritmo biológico de um planeta que tem dificuldade em assimilar e adaptar-se ao modo como apenas uma espécie, possuindo o dom único da inteligência, coloca em causa todo um equilíbrio natural, é um manancial para a escrita de Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nú algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia. ANIMA de certo modo satiriza esse lado menos racional e destrutivo que parece dominar a nossa espécie no seu todo e sem aparente retorno. Espero que aprecies a sugestão...

01. Traffic
02. Last I Heard (…He Was Circling The Drain)
03. Twist
04. Dawn Chorus
05. I Am A Very Rude Person
06. Not The News
07. The Axe
08. Impossible Knots
09. Runwayaway
Já tem sucessor, Vicissitude, o disco que o projeto britânico Maps de James Chapman, nome grande do catálogo da Mute Records, editou em dois mil e catorze. O novo e quarto álbum a solo deste artista de Northampton intitula-se Colours. Reflect. Time. Loss. e as suas dez composições proporcionam-nos o contacto com um feliz exercício de fusão do rock com diversos cânones da eletrónica, uma labuta de corte e recorte feita com um charme e uma elegância inegáveis, uma experiência não só auditiva, mas também tremendamente visual.

Colours. Reflect. Time. Loss. demorou três anos a ser incubado e gravado e muitos dos arranjos orquestrais das canções foram, de acordo com James, inspirados na ruralidade de Northampton. É um registo que reflete, portanto, muitos eventos da vida pessoal do autor, que fez questão de ser também peça fundamental no processo de produção de um trabalho que contou com as participações especiais do grupo clássico de ensemble belga The Echo Collective (famoso por ter interpretado, no início do ano passado, na íntegra, Amnesiac, o clássico da discografia dos Radiohead, lançado em dois mil e um) e com percussionistas e vocalistas de diversas latitudes (I wanted to push everything to the limit with this record and explore new territory for Maps,(...) The orchestral instrumentation and addition of other musicians and singers played a huge part in finding the purer and more human emotion I was searching for. I learnt the violin as I was growing up, so I’m glad it finally came in useful!).
O primeiro single que o compositor e produtor retirou do álbum foi Just Reflecting, a quinta composição do seu alinhamento, um tema que impressiona pela sua beleza utópica, feita de belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos que alicerçaram uma melodia particularmente hipnótica. Tal escolha não foi obviamente feita ao acaso já que é uma bela amostra de um disco idelizado por um verdadeiro escultor sonoro que olha de frente para as guitarras e depois não receia envolvê-las com sintetizadores imbuídos de uma superior inteligência e epicidade, apenas temperados por uma filosofia melódica que procura intuir no ouvinte um desejo de reflexão e introspeção ao som de um universo sonoro fortemente cinematográfico e imersivo.
Depois, na encantadora alegoria pop sessentista de The Plans We Made, na luminosidade do piano e dos sopros de Howl Around, uma canção feita para nos retirar do fundo do poço, ou no clima oitocentista de Wildfire, James dá-nos asas e leva-nos de modo certeiro ao refúgio bucólico e denso onde se embrenharam aquelas nossas emoções que melhor e mais alto nos levantam, num disco que impressiona por este provocador belicismo e pelo seu forte cariz sensorial. Espero que aprecies a sugestão...
Formados em 2008 em São Francisco, os norte americanos Slowness são uma dupla formada por Julie Lynn e Geoffrey Scott, à qual se juntou recentemente Christy Davis. Deram início às hostilidades com Hopeless but Otherwise, um EP produzido por Monte Vallier (Weekend, The Soft Moon, Wax Idols) e em dois mil e treze surpreenderam com o longa duração For Those Who Wish to See the Glass Half Full, produzido pelo mesmo Vallier e que teve uma edição física em vinil, via Blue Aurora Audio Records. Depois, em junho do ano seguinte, passaram com distinção o teste do sempre difícil segundo disco, à boleia de How to Keep From Falling Off a Mountain, um registo que tem finalmente sucessor, um trabalho intitulado Berths e com seis canções que mantêm o trio na senda de um shoegaze de forte pendor ambiental e particularmente contemplativo.


01. The Fall
02. Rose
03. Berlin
04. Breathe
05. Sand And Stone
06. Asunder
Os islandeses Sigur Rós são provavelmente os maiores responsáveis pela geração a que pertenço se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e de estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical. Ao lado da conterrânea Björk, este quarteto, entretanto reduzido a trio, não apenas colocou a Islândia no mapa dos grandes expoentes musicais, como definiu de vez o famigerado pós rock, género que mesmo não sendo de autoria da banda, só alcançou o estatuto e a celebração de hoje graças, em grande parte, ao rico cardápio instrumental que este grupo conseguiu alicerçar nas mais de duas décadas que já leva de existência.

Adeptos da constante transformação de suas obras, desde Von, o primeiro álbum, que os Sigur Rós se concentram na produção de discos que, mesmo próximos, organizam-se e funcionam de maneiras diferentes. Têm sido álbuns que acabam sempre por partilhar um novo sentimento ou proposta, utilizando uma fórmula básica que serve de combustível a cada nova estreia.
Apesar dessa brilhante estreia chamada Von, acabou por ser Ágætis Byrjun, o sucessor, que colocou o grupo islandês definitivamente nos holofotes, uma obra introspectiva, misteriosa, cinematográfica e conceptual, que muitas vezes parece ecoar de forma suja, mas que contém uma inolvidável subtileza angelical, um disco repleto de propostas estilísticas únicas, nuances variadas e firmado em harmonias magistrais que fazem do seu alinhamento de dez canções um dos mais belos da história da música.
Hoje faz vinte anos que Ágætis Byrjun viu a luz do dia, uma data que não passará em claro para todos os amantes e seguidores do indie alternativo e que a banda também quis assinalar com toda a pompa e circunstância a efeméride. Para isso, surgirá brevemente nos escaparates uma edição de luxo do disco que, além do alinhamento original, irá conter mais três horas de demos, gravações ao vivo e versões alternativas de todas as dez composições de Ágætis Byrjun, distribuidas por três discos de vinil e que foram subtraídas dos arquivos particulares dos músicos. De realçar que alguns temas já nem faziam memória da própria banda, que só voltou a recordar-se das mesmas depois que começou a preparar esta reedição.
Este lançamento comemorativo de Ágætis Byrjun também inclui o concerto que os Sigur Rós deram neste mesmo dia, há vinte anos atrás, na sala Íslenska Óperan (the Icelandic Opera House), um espetáculo de noventa e cinco minutos que nunca foi reproduzido nem visionado antes e que será hoje mostrado na íntegra, através do canal de youtube da banda, a partir das 22 horas. Nesse concerto ainda tocou Águst Gunnarsson, o primeiro baterista da banda, juntamente com Jón Thor Birgisson, Georg Holm e Kjartan Sveinsson, que oficialmente só se juntou à banda no ano seguinte, em dois mil.
Quando o coração é paciente e sabe que na vida há momentos únicos pelos quais vale a pena esperar, mais claras são as boas sensações que nos preenchem quando os instantes pelos quais tanto esperámos estão ali, ao nosso lado e à nossa frente, ao mesmo tempo, no mesmo espaço físico e temporal. E às vezes estão num simples disco. Há quem vibre com um bom filme quando determinadas imagens projectadas numa tela negra, reais ou cheias de ficção, mexem com todos os nossos sentidos, nos arrepiam e nos dão momentos momentâneos de pura felicidade! Isso acontece-me com frequência em canções como Svefn-g-englar, Olsen Olsen ou Viðrar vel til loftárása, no fundo durante a audição de um álbum que é um refúgio onde consigo encontrar sonoramente a pura realização feliz e plena desse preenchimento interior.
Confere o conteúdo desta edição especial de Ágætis Byrjun já, disponível no bandcamp dos Sigur Rós e que, como já disse, terá também edição física muito em breve.
live at íslenska óperan 1999
Intro

The Unforgiving Current é o título do quarto registo de originais dos britânicos Horsebeach , um quarteto natural de Manchester e formado por Ryan Kennedy (voz) Matt Booth (bateria), Tom Featherstone (guitarra) e Tom Critchley (baixo). Os Horsebeach estrearam-se nos discos há cerca de meia década com um homónimo e este The Unforgiving Current sucede a Beauty & Sadness, um álbum com dois anos e que reforçou a aposta da banda em sonoridades eminentemente etéreas e melancólicas, dentro de um catálogo indie virtuoso, com uma atmosfera particularmente íntima e envolvente.
Dreaming é o primeiro single divulgado de The Unforgiving Current, uma composição assente numa dream pop de forte cariz lo fi, conduzida por uma guitarra com um efeito metálico particularmente vibrante, acompanhada por um registo vocal ecoante e uma bateria multifacetada e bastante omnipresente na condução melódica do tema. Confere...

Quem esteve atento à luta fraticida pelo domínio da brit pop durante a década de noventa, recorda-se imediatamente da dupla Blur vs Oasis e depois acrescenta-lhe os Suede e os Pulp, os The Charlatans e talvez os Spiritualized e os Supergrass, este, sem dúvida, o grupo britânico mais negligenciado nessa altura. Gaz Coombes, antigo líder desta banda britânica, estreou-se numa carreira a solo em 2012 e em boa hora o fez com o fabuloso Here Come The Bombs. Uns dois anos depois desse início prometedor, Coombes regressou mais uma vez à boleia da Hot Fruit Recordings, com Matador, um disco produzido pelo próprio autor e gravado no seu estúdio caseiro em Oxford. No início do verão passado foi a vez de nos revelar o terceiro disco, um trabalho intitulado World's Strongest Man, com onze canções idealizadas por uma das personalidades mais criativas da indie britânica e inspiradas no concurso anual World's Strongest Man, um enorme sucesso televisivo em Inglaterra, um talkshow passado numa qualquer ilha das Caraíbas e que escolhe, após várias provas, aquele que é supostamente o homem mais forte do mundo.
Agora cerca de um ano depois de World's Strongest Man, Gaz está de regresso com novidades, um single intitulado Salamander, mas que ainda não traz a reboque o anúncio, pelo menos oficial, da edição de um novo longa duração do artista britânico. Canção vibrante, rugosa e visceral, conduzida por um efeito de guitarra metálico rebarbante e por uma bateria imponente e bastante ritmada e depois cortada a direito por um insolente piano, Salamander oferece-nos uma relação pouco vista em Coombes entre eletrónica, punk rock e climas mais progressivos, sem descurar um intenso sentido melódico e a tipica epicidade das melhores propostas da indie experimental que habitualmente é incubada em terras de Sua Majestade. Confere...
I Love You. It’s A Fever Dream. é o quinto e novo registo de originais do sueco Kristian Matsson, que assina a sua música como The Tallest Man On Earth, um álbum de difícil gestação e muito querido pelo próprio autor que confessou no verão passado que estava a ser complicado conseguir aprimorar o seu conteúdo devido à digressão de Dark Bird Is Home, o álbum que o músico lançou há quatro anos. Aliás, esta digressão acaba por ser o grande mote de dez canções que reforçam o estatuto de excelência de um autor que tem, com toda a justiça, cada vez maior aceitação e reconhecimento público e que possui o dom raro de transformar histórias particulares e melancolias próprias em música acessível a todos.

De facto, I Love You. It’s A Fever Dream., sendo, de acordo com o autor, um relato de diferentes banalidades, rotinas e curiosidades que estão sempre subjacentes à vida de um músico, geralmente intercalada entre a estrada e o estúdio, procura ter o atributo maior de responder a algumas das questões filosóficas mais prementes da nossa existência, nomeadamente quais os melhores caminhos que devemos percorrer, nos obstáculos que todos temos de contornar ou ultrapassar durante a vida.
Assim, este disco é, essencialmente, um feliz exercício biográfico, onde The Tallest Man On Earth estabelece uma forte vontade de aproximação, como se cantasse diretamente para nós, de forma verdadeiramente confessional, enquanto tem o duplo objetivo de se abrir e desabafar, mas também aconselhar e inspirar. Por exemplo, em Hotel Bar Matsson relata alguns dos constrangimentos da digressão, nomeadamente a solidão, mas também a beleza de um concerto, que reside na arte comunicar com uma audiência de estranhos, utilizando uma forma de manifestação artística sublime, a criação musical. E fá-lo comparando-se a um leopardo que vive uma epopeia que, quer passe por Brooklyn ou por uma savana africana, tem sempre necessidade de escalar a uma árvore ou a um arranha-céus para ver se encontra alguém familiar e da sua espécie. Pouco depois, em I’m A Stranger Now, Matsson regressa à temática da solidão, ampliando porque confessa cruzar-se e conhecer imensas pessoas mas percebe que são poucas aquelas que realmente marcam e que na sua profissão é sempre escasso o tempo e a dispopnibilidade para cultivar a amizade. Já em Waiting For My Ghost explora a estranha sensação de anonimato que a presença constante na estrada provoca, por serem imensos os dias em que se sente rodeado apenas por estranhos e em There's A Girl ele clama por um novo amor que o faça libertar-se de toda esta realidade sombria, rotineira e pouco recompensadora em que vive.
Em suma, I Love You. It’s A Fever Dream. é um daqueles discos que encanta pelo modo como as melancolias afloram, canção após canção, de uma forma muito honesta e ao mesmo tempo comercial. Quer seja através da country ou da folk, nestas dez canções o cantor apodera-se de sentimentos universais, para criar um clima intenso e uma verdadeira espiral sentimental, que atinge com precisão o lado mais sensível de cada um de nós, sem apelo nem agravo. O modo como Matsson cria neste registo metáforas sobre si próprio é feito com um grau de realismo e de criatividade tal que quase nem nos apercebemos da própria instrumentalidade, que conduz o disco. Mas convém referir que nesta tal instrumentalidade, The Tallest Man On Earth é exemplar no modo como usa as cordas, as teclas e diversos efeitos percussivos para ampliar o toque intimista de um álbum inteligente e particularmente belo. Espero que aprecies a sugestão...

01. Hotel Bar
02. The Running Styles Of New York
03. There’s A Girl
04. My Dear
05. What I’ve Been Kicking Around
06. I’m A Stranger Now
07. Waiting For My Ghost
08. I’ll Be A Sky
09. All I Can Keep Is Now
10. I Love You. It’s A Fever Dream.
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