
man on the moon
music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
Peaer - Bad News
Sexta-feira, 19.12.25
O projeto nova iorquino Peaer, liderado por Peter Katz desde dois mil e catorze, acaba de anunciar finalmente o sucessor do disco A Healthy Earth, que o trio norte-americano colocou nos escaparates em dois mil e dezanove. Trata-se de um álbum com nove temas, intitulado Doppelgänger, que irá ver a luz do dia a dezasseis de janeiro com a chancela da Danger Collective.

Depois de terem revelado recentemente o single Button, os Peaer acabam de retirar do alinhamento de Doppelgänger mais um tema em formato single. Trata-se de Bad News, uma composição com uma tonalidade muito íntima e envolvente, em que um baixo discreto mas vigoroso, uma bateria subtilmente arrastada e o timbre metálico de uma guitarra, acomodam uma sonoridade lisérgica, com um perfil eminentemente clássico e onde é constante o desafio entre o rock experimental e a chamada dream pop. Confere Bad News e o alinhamento de Doppelgänger...
![]()
01 End of the World
02 Part of the Problem
03 Just Because
04 No More Today
05 Rose in My Teeth
06 Button
07 I.D.W.B.W.Y.
08 Bad News
09 Future Me
Autoria e outros dados (tags, etc)
Meltt – In Your Arms
Terça-feira, 09.12.25
Oriundos de Vancouver, no Canadá, os Meltt têm já uma assinalável reputação no país natal, como uma das bandas que melhor replica aquele rock majestoso e de forte cariz progressivo, enquanto não renega contactos mais ou menos estreitos com outros espetros sonoros, com particular destaque para a eletrónica ambiental, a música de dança e o próprio R&B. Já com um vasto catálogo em mãos, surpreenderam a nossa redação em dois mil e vinte com Another Quiet Sunday, um EP com cinco canções que valeram bem a pena destrinçar e, no ano seguinte, com uma formada de singles que deixaram marcas profundas e este projeto definitivamente na nossa mira.

No início do passado mês de agosto os Meltt regressaram ao nosso radar à boleia de Hesitate, um novo tema do grupo, que ainda não trazia atrelado o anúncio de um novo disco da banda atualmente formada por Chris Smith, Jaime Turner, James Porter e Ian Winkler. O mesmo também não sucedeu com Goodbye, a composição que a banda disponibilizou um mês depois, assim como com By Your Side, a composição que partilhámos no final de outubro último e também com In Your Arms, a cançã que o projeto acaba de revelar. No entanto, tendo em conta o calendário e a sequência destes quatro lançamentos, parece-nos provável que o anúncio de um novo registo de originais dos Meltt, em formato álbum ou EP, deve estar para breve.
Olhando então para o conteúdo sonoro de In Your Arms, uma composição misturada por Chris Coady e masterizada por Joe LaPorta, são pouco mais de quatro minutos de indie folk experimental, eminentemente etérea e contemplativa, com um travo oitocentista ímpar. Cordas reluzentes, uma bateria sóbria e diversos entalhes sintéticos oferecem-nos uma soberba imagem de paz e tranquilidade, enquanto a canção versa sobre a importância dos momentos que passamos com aqueles que são mais importantes para nós e aceitam envelhecer ao nosso lado. Confere...

Autoria e outros dados (tags, etc)
Jaguar Sun e Jesse Maranger – Blossom EP
Quarta-feira, 03.12.25
Tem sido presença assídua recente neste espaço de crítica e divulgação sonora, um projeto a solo chamado Jaguar Sun, com origens em Ontário, no Canadá e encabeçado pelo multi-instrumentista Chris Minielly. É um músico que navega nas águas serenas de uma indie pop apimentada por paisagens ilidíacas e que começou por impressionar esta redação no verão de dois mil e vinte com This Empty Town, o disco de estreia, um trabalho que teve sucessor no ano seguinte, um álbum com onze canções intitulado All We've Ever Known e que tinha a chancela da Born Losers Records.

Já na primavera deste ano de dois mil e vinte e cinco, e cerca de quatro anos após o sempre dificil segundo disco, Jaguar Sun regressou ao nosso radar com uma nova canção intitulada Thousand Sun e volta agora a fazê-lo de mãos dadas com o cantor conterrâneo Jesse Merenger. Juntos incubaram um EP com quatro canções intitulado Blossom, perfeito para ouvirmos em looping sempre que quisermos refugiar-nos em algo aconchegante e, simultaneamente, deixar um pouco de lado este estranho mundo em que vivemos.
As quatro canções de Blossom tanto exalam intimidade como expansividade e vigor. Melodicamente felizes, nelas linhas de guitarras acústicas, com um timbre texturalmente rico, intenso e impressivo e algumas subtis sintetizações, simultaneamente cósmicas e delicadas, sustentam quase quinze minutos que entre um indie pop ecoante e psicadélico e um alt-folk intimista e bastante sensorial, ressoam nos nossos ouvidos como uma espécie de celebração da persistência nas nossas convicções e nos nossos sonhos.
A riqueza luminosa e deslumbrante das cordas que iluminam o maravilhoso percurso melódico feito por April Air, o clima nostálgico e clássico da encantadora Different Light, a imersiva e tremendamente textural When I Was Young, o tema do EP em que melhor sobressai o famoso timbre adocicado de Jesse e a astuta Move On, uma canção com elevado travo folk, assente em cordas luminosas, um baixo discreto, mas omnipresente e diversos entalhes rugosos proporcionados por teclas e bateria, são lindíssimas partes de uma soma que, no seu todo, formam um longo, revigorante e relaxante arfar sonoro, incubado por dois mestres na criação de canções sempre íntimas, melancolicamente reluzentes e particularmente gráficas. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)
MIRANDA - Un_Love
Domingo, 23.11.25
Chegou no passado dia dezassete de outubro aos escaparates Un-Love, o disco de estreia do projeto MIRANDA, liderado pelo músico João P. Miranda, natural de Portalegre e que, para incubar este alinhamento de oito canções, contou com as inestimáveis contribuições vocais de Liliana Bernardo, Rita Rice e Cat Falcão.

Este álbum de estreia do projeto MIRANDA desenvolve-se a partir de uma questão essencial: é possível desamar ou apenas perder um amor? Essa ambiguidade percorre todo o disco feito de canções que se movem entre a dor do desencontro e a esperança luminosa do reencontro, mostrando que a melancolia pode conviver com a persistência e a beleza do amor. Mais do que um lamento, Un_Love assume a melancolia como um estado de alma, um fado contemporâneo em que a perda não apaga o sentimento, antes o transforma numa presença diferente: a memória, a saudade, a persistência do amor mesmo nas ruínas. Mas ao mesmo tempo, o álbum abre espaço para a esperança de voltar a amar — seja reencontrando o amor perdido, seja descobrindo um novo caminho onde a dor se converte em renovação. Musicalmente, o álbum veste estas emoções com orquestrações grandiosas, atmosferas cinematográficas e vozes sensíveis que dão corpo a essa contradição. Porque, no fundo, desamar pode ser impossível – podemos deixar alguém, mas raramente deixamos de carregar o rasto desse amor, e é dessa marca que também nasce a coragem de amar novamente.
O disco abre com A New Beginning, uma mensagem de união, esperança e reconstrução. É uma canção sobre a necessidade de recomeçar e fala do poder da empatia, da força que nasce quando duas pessoas escolhem caminhar juntas, mesmo em tempos de incerteza. Depois chega a vez de escutarmos Dreaming, uma canção profundamente pessoal e que reflete sobre uma relação vivida com alguém emocionalmente distante, frio e incapaz de ver a beleza e a profundidade do mundo. É o relato de um amor que existiu à superfície, onde o eu lírico tentava mergulhar enquanto o outro permanecia imóvel, alheio à intensidade do sentimento. A letra traduz esse contraste entre o sonho e a realidade, entre quem sente demais e quem não sente o suficiente. É, no fundo, o lamento de quem quis partilhar o infinito com alguém que só via o chão. É uma canção sobre a solidão que nasce mesmo dentro de um abraço, sobre a dor de perceber que nem todos têm a mesma capacidade de se maravilhar.
O disco prossegue e em Happiness, o autor explora pela primeira vez arranjos orquestrais e percussões sinfónicas que, aliados à emoção melódica e à densidade harmónica, acabam por definir e estética de grande parte do álbum. É uma música que respira em camadas, entre a força épica da orquestra e a intimidade das guitarras e vozes. Liricamente, Happiness é um retrato da contradição humana entre o desejo e a perda. Depois, I Wish oferece-nos o momento mais emocional e intenso do alinhamento; Aqui, o amor surge como tempestade, como força descontrolada que destrói e recria. A linguagem é simbólica e cheia de metáforas, debruçando-se sobre o desejo e a vulnerabilidade, sobre o impulso de querermos ser tocados por algo maior do que nós. Ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre o tempo, o esquecimento e a solidão.
Até ao ocaso do disco, Often a Bird é um hino à esperança que renasce das cinzas, falando de de resistência e de transformação. Save Your Soul, tema com uma cadência lenta, quase de marcha fúnebre, cria uma atmosfera densa e ritualística, fala da possibilidade de renascer, de libertar o espírito, de salvar a alma mesmo quando tudo parece perdido. Tear Us Apart mergulha nas ruínas do amor. É uma canção dura, visceral e honesta, que fala sobre o fim e sobre a dor que fica quando as palavras deixam de fazer sentido. Finalmente, When the Night Comes é um lamento e uma oração, um diálogo entre a dor e a memória. Fala de perda, de amor distante, de uma procura espiritual que se estende pela noite. O narrador vagueia por florestas e colinas, entre ecos e sombras, tentando reencontrar a figura amada, que se tornou símbolo de tudo o que se perde mas continua a viver dentro de nós. Espero que aprecies a sugestão...
Autoria e outros dados (tags, etc)
José González – Pajarito
Terça-feira, 18.11.25
Um dos grandes momentos discográficos de dois mil e vinte e um foi Local Valley, o quarto disco do sueco José González, um cardápio de treze audazes composições, cantadas com poemas escritos em inglês, sueco e espanhol e que marcou o regresso do autor e compositor de ascedência argentina à City Slang, etiqueta com quem já tinha trabalhado no seu projeto Junip, que partilha com Tobias Winterkorn. Agora, pouco mais de quatro anos depois, José González regressa ao nosso radar à boleia de Pajarito, um novo single que ainda não traz atrelado o anúncio de um novo disco do músico.

Tema cru, minimalista, mas extremamente luminoso e com um delicioso toque de infantilidade e simplicidade, Pajarito é um belíssimo tratado de indie folk acústica, de elevado cariz intimista e comunicacional, onde não faltam também sons da natureza, que conferem à canção aquela faceta algo bucólica e ecológica, que é já imagem de marca de González. Aliás, Pajarito é um tema perfeito para simbolizar muito do ideário conceptual do catálogo de um artista que já nos deliciou, ao longo da sua carreira, com pérolas como Down the Line, Valle Local, Killing for Love, el Invento e Hand on Your Heart. Confere...

Autoria e outros dados (tags, etc)
Helado Negro – The Last Sound On Earth EP
Quinta-feira, 13.11.25
Pouco mais de ano e meio depois de PHASOR, um disco que esteve em alta rotação na nossa redação no ocaso do inverno de dois mil e vinte e quatro, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, está de regresso com o anúncio do lançamento de Last Sound on Earth, um novo EP deste artista filho de emigrantes equatorianos e radicado há vários anos nos Estados Unidos. É um registo com cinco canções que viu recentemente a luz do dia com a chancela da Big Dada, a nova etiqueta de Lange.

Os cinco temas de Last Sound On Earth, têm como mote resultarem de um exercício reflexivo levado a cabo pelo artista, no qual imaginou quais seriam os últimos sons que escutaria antes de falecer. O filme Wavelength, assinado por Michael Snow, foi também, de acordo com Lange, um interruptor que acionou no âmago do músico sentimentos e emoções tão díspares como a esperança e o desespero, que acabaram por inspirar o conteúdo deste EP.
More, a composição que abre Last Sound on Earth, uma canção eminentemente sintética, que escorre com desmesurada rugosidade e vibração pelos nossos ouvidos, plena de distorções e de diversos efeitos e sons, alguns cavernosos, acamadas por uma batida plena de groove, dá o mote para o conteúdo filosófico e sonoro do registo, debruçando-se sobre o modo como todos nós, que vivemos numa sociedade tremendamente conetada nas redes sociais e no digital e no virtual, acabamos por nos afundar em instantes prolongados de angústia e de isolamento. Depois, Protector, outro tema eminentemente sintético e um verdadeiro festim de pop eletrónica, acentua o perfil. Por cima de uma batida abrasiva, acomodam-se diversos efeitos, nuances e detalhes, que criam um clima sonoro pleno de distorções, efeitos e sons, um estilo interpretativo que recria uma fronteira muito ténue entre o retro e o futurista, devido também ao elevado espírito lo-fi que exala e que se mantém na cosmicidade ecoante e frenética de Send Receiver, no fugaz sussurro de Zenith e no estilo ambiental e contemplativo de Don't Give It Up Now.
The Last Sound n Earth escorre com desmesurada rugosidade e vibração pelos nossos ouvidos, num resultado final eminentemente experimentalista, que recria um clima que encarna na perfeição o espírito muito particular e simbólico que Helado Negro pretenderá para esta nova etapa da sua carreira e da sua música, que parece ter a bússola definitivamente apontada para as máquinas. Espero que aprecies a sugestão...

01. More
02. Protector
03. Sender Receiver
04. Zenith
05. Don’t Give It Up Now
Autoria e outros dados (tags, etc)
Tunng – Anoraks
Domingo, 09.11.25
Quase sete anos depois do excelente Songs You Make At Night, disco que chegou aos escaparates em dois mil e dezoito, à boleia da insuspeita Full Time Hobby, o coletivo britânico Tunng, que está a comemorar em dois mil e vinte e cinco duas décadas de uma respeitável carreira, onde tem misturado, com uma ímpar contemporaneidade e bom gosto, eletrónica e folk, editou, no início do ano, Love You All Over Again, um novo catálogo de canções deste coletivo formado por Mike Lindsay, Sam Genders, Ashley Bates, Phil Winter, Becky Jacobs e Martin Smith.

Agora,quase no ocaso de dois mil e vinte e cinco, os Tunng lançam um novo tema em formato single intitulado Anoraks, que pretende encerrar em grande um ano intenso para o projeto.
Cordas dedilhadas com astúcia, um clima de fundo cândido assente em subtis texturas eletrónicas e um registo vocal declamativo intenso, são as grandes traves mestras de Anoraks, uma canção que acaba por conter uma curiosa luminosidade e encantamento, tendo origem numa filosofia intepretativa com um adn sem paralelo no panorama alternativo atual. . Confere...

Autoria e outros dados (tags, etc)
Westerman – Nevermind
Terça-feira, 28.10.25
O cantor e compositor britânico Will Westerman esteve am grande destaque na nossa redação em dois mil e vinte e três com um alinhamento de nove canções intitulado An Inbuilt Fault, o sucessor de outro extraordinário registo chamadoYour Hero Is Not Dead, lançado três anos antes, em dois mil e vinte.

An Inbuilt Fault estava recheado de momentos altos, nomeadamente CSI: Petralona, ou Idol; RE-run, um tema que contava com a participação especial de James Krivchenia dos Big Thief, que assinou, também, a produção de An Inbuilt Fault. Eram dois temas belos, retirados de um disco que impressionou pelo modo como Westerman alternou, com indisfarçável arrojo, entre uma espécie de rugosidade experimental sintética e uma delicadeza intensamente charmosa, predicados bem evidentes também na planante Give, uma belíssima canção de amor.
Agora, no outono de dois mil e vinte e cinco, Westerman regressa ao nosso radar à boleia de Nevermind, o mais recente single retirado do alinhamento de A Jackal’s Wedding, um disco que será lançado já a sete de novembro, com a chancela da Partisan Records.
Nevermind é mais um exemplo feliz do modo enigmático como o autor escreve e se debruça sobre a intimidade humana, um aspeto fundamental de uma escrita muitas vezes densa e críptica, que, neste caso, se debruça sobre o modo como tantas vezes nos esquecemos de certas coisas que dizemos e que, no momento da verbalização, foram pronunciadas com certeza e sobriedade. Esta imagem temática é personificada, neste caso, pela riqueza detalhística de um baixo encorpado e algumas teclas plenas de subtileza, que sustentam um registo melódico algo minimal, mas bastante inspirado e acolhedor. Confere...

Autoria e outros dados (tags, etc)
Vancouver Sleep Clinic – Beyond All Reason
Domingo, 26.10.25
É sempre com agrado que recordamos na nossa redação um dos discos que mais nos marcou no já longínquo ano de dois mil e dezanove. O trabalho chamava-se Onwards To Zion e era assinado, quase na íntegra, por Tim Bettinson, o músico e compositor australiano que encabeça o projeto Vancouver Sleep Clinic. Era, à altura, o segundo registo de originais de um projeto que ficou logo debaixo de merecidos holofotes, não só da crítica dos antípodas, mas também de diversas outras latitudes do nosso globo e que tinha como grande força motriz a perca de um amigo muito chegado do músico, sendo um exercício de catarse dessa inevitável dor.

Vancouver Sleep Clinic tinha estado pela última vez no nosso radar devido a Fallen Paradise, o álbum que o projeto lançou em dois mil e vinte e dois, o terceiro do grupo, um alinhamento de dez canções que tinha a chancela da Believe e que nos ofereceu pouco mais de trinta e seis minutos de música bastante envolvente, intimista e charmosa. Era um disco intenso, riquíssimo em detalhes e nuances, orquestralmente chegava a ser extravagante em alguns momentos e era tocante, já que exalava, em praticamente todo o seu alinhamento, sentimentos que, à partida, mexem sempre com o nosso âmago e o nosso lado mais irracional.
Agora, no outono de dois mil e vinte e cinco, Vancouver Sleep Clinic impressiona-nos novamente devido a um novo tema Beyond All Season. Trata-se de uma canção sentimentalmente intensa e hipnotizante, com uma elevada luminosidade intimista, que desagua numa feliz interseção entre música clássica eletrónica e pop ambiental, abraçada à voz sempre tocante de Tim, que não deixa ninguém passar incólume e que pode servir como ponte vigorosa, estável e firme para uma travessia segura rumo a um território de aconchego inimitável. Confere...

Autoria e outros dados (tags, etc)
Noiserv – 20 . 16 . A Casa Das Rodas Quadradas (feat. Milhanas)
Quinta-feira, 16.10.25
Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional e um dos artistas queridos da nossa redação chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na sua bagagem um já volumoso compêndio de canções, que começaram a ser inscritas nos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless e Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's There. No outono de dois mil e dezasseis a carreira do músico ganhou um novo impulso com um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas que se tornou, justificadamente, mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional.

Quatro anos depois dessa pérola debitada quase integralmente nas teclas de um piano, Noiserv regressou com Uma Palavra Começada Por N, onze lindíssimas composições que, em pouco mais de meia hora, nos ofereceram um David Santos de regresso a territórios sonoros mais intrincados, subtis e diversificados, com o registo, no seu todo, a proporcionar-nos um banquete intenso e criativo e a impressionar pelo modo como diferentes nuances, detalhes e samples se entrelaçam quase sempre com uma base melódica algo hipnótica, mas extremamente doce e colorida.
Agora, cinco anos depois de Uma Palavra Começada Por N, Noiserv tem um disco novo na forja, intitulado 7305, que deverá ver a luz do dia ainda em dois mil e vinte e cinco e já com alguns temas divulgados. Em abril demos aqui conta do single 20 . 13 . A lonely garden in the middle of a small house, uma composição cantada em inglês e que versava sobre a solidão e o desejo de encontrar explicações racionais nos momentos em que interiormente nos sentimos mais perdidos. Sonoramente, era uma canção muito complexa, porque se desenvolvia dentro de uma ambientação essencialmente experimental, em que o sintético se entrelaçava com o orgânico abrasivo das cordas, com elevada mestria.
No final de julho escutámos 20 . 25 . Resumidamente, uma canção cantada em português e que, de acordo com Noiserv, faz um retrato do homem atual com ironia, poesia e alguma crítica, através de uma letra em que praticamente todas as palavras terminam em mente tende a reforçar o lugar de engano a que a nossa sociedade nos está a conduzir, uma completa troca de valores sobre o que é ou não importante na relação com o outro.
Algumas semanas depois, quase no final de agosto, chegou a vez de ouvirmos 20 . 08 . A Fearless Party Between A Kid And His Own Thoughts, a canção mais intimista e orgânica de todas as composições que já foram divulgadas do alinhamento de 7305. De facto, 20 . 08 . A Fearless Party Between A Kid And His Own Thoughts levou-nos, de certa forma, às origens da carreira de Noiserv, com uma melodia simples, mas sentida, a assentar num rendilhado sublime entre detalhes sintéticos e cordas dedilhadas com astúcia, sopros pueris e diversos entalhes percussivos eminentemente metálicos, num resultado final intenso e sentimentalmente exuberante.
No início deste outubro tivemos para escuta o tema 20 . 27 . A Long Journey In A Little Train To Poland, uma canção vigorosa e, a espaços, até algo abrasiva e com uma imponência muito subtil, mas óbvia, nuance que também transparecia no perfil interpretativo vocal do artista, mais intenso e processado do que o habitual.
Agora, a dias do lançamento de 7305 temos mais um single do disco disponível para audição, o sexto disponibilizado nesse formato. Tratas-se de 20 . 16 . A Casa Das Rodas Quadradas, canção que se debruça sobre a dor subjacente aos momentos de mudança e que conta com a participação especial de Milhanas. O tema impressiona pela sua delicadeza e intimidade, imagens de marca de grande parte da carreira de Noiserv, que apostou com bastante frequência nas teclas de um piano para criar as suas melodias, fazendo-o aqui novamente, com um bom gosto indesmentível. O resultado final é bastante impressivo e comunicativo, envolvente e tocante, ampliado pela extraordinária dança protagonizada pelas vozes de Milhanas e Noiserv.
Confere 20 . 16 . A Casa Das Rodas Quadradas e o vídeo do tema, protagonizado pelo projeto sedeado em Leiria, Casota Collective, em particular a bailarina Ana de Oliveira e Silva, mais uma peça de um puzzle narrativo que integra um projecto visual maior, composto por um total de nove filmes que ilustrarão todas as músicas de 7305...
