Quinta-feira, 15 de Agosto de 2019

Sigur Rós – Sigur Rós Presents Liminal Sleep

O sono é talvez a atividade humana que ainda carece de maior profundo conhecimento, acerca não só da sua função e dos benefícios que traz para o funcionamento do nosso organismo, mas também do modo como se processa e as caraterísticas essenciais dos diferentes ciclos que contém. Isso não impediu que os islandeses  Sigur Rós, provavelmente os maiores responsáveis por toda uma geração de ouvintes se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical, procurassem criar uma espécie de banda sonora perfeita para uma sessão de sono completa, tendo nascido assim Sigur Rós Presents Liminal Sleep, um alinhamento de nove canções pensadas para as diferentes fases do nosso sono, de modo a tornar essa necessidade fisiológica fundamental ainda mais reconfortante e bem sucedida ( we like the fact that sleep remains defiantly mysterious; something we all do — all need to do — but can’t ever get fully inside. this playlist is a modest attempt to mirror the journey of a sleep cycle, with its curves, steady states and natural transitions. - Jónsi, Alex Somers & Paul Corley).

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Cada uma das nove composições de Sigur Rós Presents Liminal Sleep, representa um momento específico do ciclo do sono e nelas todas as opções instrumentais, predominantemente sintéticas e minimalistas, se orientaram de forma controlada. Assim, todos os detalhes escutados funcionam como um todo, agregados em nove composições que não deixam de ser um bloco único de som que dá cor, movimento e substância à exuberância natural de um dos pilares essenciais da nossa existencia enquanto organismos vivos e que se querem saudáveis. 

Na verdade, neste Sigur Rós Presents Liminal Sleep, os Sigur Rós acabaram por criar um alinhamento musical com um objetivo eminentemente funcional, mas que não deixa de ter uma vincada veia de sensibilidade e emoção. Se a música, como forma eminente de manifestação artística, teve sempre, ao longo da história do homem, seu criador privilegiado, uma faceta bastante recreativa e se culturalmente essa função este sempre um pouco acima de todas as outras, estas nove canções foram idealizadas como elixir soporífero relaxante e meditativo, ou seja, são, na minha modesta opinião, um bom remédio para quem tenha insónias ou outros distúrbios de sono.

Em suma, Sigur Rós Presents Liminal Sleep é claramente capaz estar presente e de ir ao encontro da necessidade intuitiva que todos nós temos de dormir, utilizando essa atividade como arma capaz não só de fazer o nosso corpo descansar e recarregar baterias mais também de modular o nosso humor, sendo, esse mesmo sono, por excelência, o refúgio onde podemos encontrar, também sonoramente, a pura realização feliz e plena desse preenchimento interior.

O resultado final deste trabalho sui generis é um falso minimalismo ambiental que desafia os nossos sentidos, segundo após segundo, tal é a opulência sonora de detalhes, ruídos e efeitos que cruzam as melodias, uma receita que não soará particularmente estranha a quem já está devidamente identificado com a discografia dos Sigur Rós e percebe que há aqui o apelo da novidade, mas sem abandonar a essência. Espero que aprecies a sugestão...

Sigur Rós - Sigur Rós Presents Liminal Sleep

01. Sleep 1
02. Sleep 2
03. Sleep 3
04. Sleep 4
05. Sleep 5
06. Sleep 6
07. Sleep 7
08. Sleep 8
09. Sleep 9


autor stipe07 às 15:01
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Terça-feira, 13 de Agosto de 2019

Ra Ra Riot – Superbloom

Dez anos depois de uma profícua colaboração que resultou num disco intitulado Discovery (2009) e de Rostam Batmanglij, membro dos Vampire Weekend de Ezra Koenig, ter produzido, cerca de meia década depois, Need Your Light, o último registo de originais dos Ra Ra Riot, alinhamento que continha Water, um tema composto a meias por Rostam e a banda, o músico nova iorquino e o coletivo de Siracusa, nos arredores da mesma cidade, voltam a unir esforços em Superbloom, o novo compêndio discográfico do grupo liderado por Wes Miles e ao qual se juntam atualmente Mathieu Santos, Milo Bonacci, Rebecca Zeller e Kenny Bernard, um album com doze canções que colocam os Ra Ra Riot na senda de uma pop nostálgica, mas que entronca nas tendências mais atuais que misturam cordas e sintetizadores sempre com luminosidade e irrepreensível assertividade melódica.

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Quem conhece a fundo o trabalho de Rostam Batmanglij, quer como músico quer como produtor, percebe facilmente que Superbloom é um daqueles discos em que o produtor tem uma palavra decisiva no seu conteúdo, mesmo no que concerne ao próprio arquétipo fundamental das canções. Se Need Your Light já tinha mostrado uns Ra Ra Riot mais radiofónicos e longe do lo fi, Superbloom coloca-os decisivamente na rota de uma sonoridade que se quer apelativa, otimista e de fácil assimilação, mas sem deixar de exalar um superior quilate criativo.

Assim, se logo na majestosidade e na amplitude de Flowers é percetível a vasta míriade instrumental que sustenta Superbloom, em Bad To Worse, canção inspirada em vagas memórias e longas viagens rodoviárias, o ritmo divagante e melancólico da bateria e o modo como encaixa na perfeição com o registo vocal em falsete de Miles, enquanto as sintetizações e as cordas, à medida que se acomodam progressivamente na melodia, fazem a canção levitar, levando-nos com ela, deixa-nos letargicamente logo à mercê de um alinhamento que faz ressurgir o nosso baú de memórias, mas também nos acomoda dentro das tendências essenciais da pop atual. E esta dupla capacidade que Superbloom tem de nos surpreender é um dos seus maiores trunfos, amplificada na impetuosidade de Belladonna e no neopsicadelismo de Dangerous, mas também na cadência milimétrica da rugosidade progressiva de Endless Pain/Endless Joy, na cosmicidade retro das sintetizações e da batida de Bitter Conversation e, principalmente, no groove festivo de This Time Of Year, uma das composições mais divertidas da carreira dos Ra Ra Riot.

Superbloom eleva o quinteto para um novo patamar instrumental mais arrojado e afina a excelência com que o grupo continua a abordar o lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzindo essa valência em inspirados versos e, principalmente, num cruzamento feliz entre eletrónica e indie pop, sendo exercício nitidamente recompensador escutar o álbum e conferir a vasta heterogeneidade de elementos e nuances que caraterizam cada um dos tema do melhor registo da carreira dos Ra Ra Riot. Espero que aprecies a sugestão...

Ra Ra Riot - Superbloom

01. Flowers
02. Bad To Worse
03. Belladonna
04. Endless Pain/Endless Joy
05. War And Famine
06. Bitter Conversation
07. This Time Of Year
08. Gimme Time
09. Backroads
10. Dangerous
11. An Accident
12. A Check For Daniel


autor stipe07 às 15:24
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Quarta-feira, 24 de Julho de 2019

Message To Bears – Constants

Message To Bears é o nome do projeto a solo do cantor, compositor e multi-instrumentista inglês Jerome Alexander. Esta banda de um homem só estreou-se em 2007 com um EP que chamou a atenção pelo conteúdo um pouco confuso, com algumas distorções tímidas, violinos, ecos e susurros. Message To Bears encontrou um rumo mais definido no álbum seguinte, The Soul's Release, com uma sonoridade que passava pela pop atmosférica, a folk e o post rock, com destaque para as canções Joy LeavesCathing Fireflies e principalmente Where the Trees are Painted White. A esta promissora estreia nos álbuns sucedeu, em 2009, Departures, um disco ainda mais sólido, com melhor definição sonora e bastante hipnótico e, três anos depois, Jerome brindou-nos com Folding Leaves, um álbum surpreendente, rústico e orgânico, lançado pela Dead Pilot Records. Nessa altura Jerome mudou-se de Bristol para Londres, lançou mais dois discos, mas resolveu fazer marcha atrás, voltar à terra natal e criar no seu estúdio caseiro Constants, o seu quinto longa duração, um alinhamento de onze canções emocionalmente poderosas e com tudo para ser um marco discográfico do ano dentro do espetro sonoro em que se situa.

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Constants funciona como uma espécie de válvula de escape para o autor, já que no registo exorciza alguns demónios que o período londrino colocou no seu equilíbrio psicológico pessoal e serve para o ouvinte como um confortável e sossegado refúgio, num mundo cada vez mais dominado pela pressãoque é exercida pelos media. Esta é a grande ideia temática de quarenta minutos introduzidos, em On Reflection, por um ternurento piano que logo nos abre de par em par um portal de luz, magia e cor, incomparável a algo que faça parte do mundo concreto em que vivemos.

Saborear Constants tem obrigatoriamente essa permissa de suscitar no ouvinte a necessidade de usar a sua imaginação para melhor percepcionar um universo mágico e que causa impacto por ser complexo e detalhado, mas também (e isso é possível) graciosamente simples. Nele, Jerome combinou em várias canções diversas camadas de cordas, com elementos percurssivos eminentemente orgânicos e melodias sintetizadas únicas e criou assim um ambiente aconchegante, difícil de definir, um som que se constrói ao longo de cada canção e em todo o álbum, com especial destaque para a graciosidade de Raining Whilst She Sleeps, a religiosidade de Rescue, o cariz místico dos violinos que gravitam em Away From You e a esplendorosa emotividade que exala em cada nota e arranjo de Small Light.

Em Bristol, Jerome consegue testemunhar com outra clarividência a constância das estações do ano, os diferentes sons que a natureza tem durante essa roda viva, os odores dos cursos de água, este ciclo da vida e da morte que recorda ao músico quer o efémero da sua existência quer a fragilidade e tantas vezes a insginificância que carateriza a presença de tantos de nós neste mundo. A eletrónica ambiental inspirada de Constants é o tal refúgio, mas também um grito de alerta, um apelo ao desassossego onde estão plasmadas emoções e sugestões sempre de modo humilde, carinhoso, sincero e, obviamente, nada pretensioso. Espero que aprecies a sugestão...

Message To Bears - Constants

01. On Reflection
02. Raining Whilst She Sleeps
03. Pull Apart
04. All We Said
05. Rescue
06. New Air
07. Away From You
08. Small Light
09. Convalescence
10. We All Were Swallowed By Sleep
11. Nowhere


autor stipe07 às 16:21
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Terça-feira, 16 de Julho de 2019

Work Drugs – Surface Waves EP

Os Work Drugs de Benjamin Louisiana e Thomas Crystal são uma dupla de Filadélfia já com um assinalável cardápio e que se mantém bastante ativa e profícua, lançando um disco praticamente todos os anos, além de alguns singles e compilações, desde que se estrearam com Summer Blood, há já quase uma década. Enquanto não chega aos escaparates lá para o final deste ano o sucessor do excelente Holding On To Forever de dois mil e dezoito, têm-se mostrado visíveis e audíveis com a edição em formato EP. Belize foi editado em março e agora acaba de ser divulgado Surface Waves. Ambos compilam não só alguns singles que poderão fazer parte desse novo álbum dos Work Drugs, mas também diversos instrumentais e material nunca antes divulgado e que foi sobrando das sessões de gravação de alguns dos antecessores do futuro trabalho discográfico do projeto.

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Surface Waves contém oito composições perfeitas para saborear estes últimos raios de sol mais quentes, enquanto não chega a longa penumbra outunal e o interminável frio e implacável inverno. Se a melhor herança de Michael Jackson conduz Embers Never Fade e uma bateria eletrónica bastante insinuante sustenta Burned, em L.A. Looks dominam paisagens com uma mais acentuada tonalidade surf rock, enquanto a chillwave de Counterclaims contém um encanto vintage, relaxante e atmosférico, intenso e charmoso.

O resultado final de Surface Waves é um compêndio particularmente eclético, que além de proporcionar instantes de relaxamento, também poderá adequar-se a momentos de sedução e recolhimento, um EP que faz adivinhar um disco tremendamente sensorial e emotivo e que será, sem dúvida, mais um episódio significativo e bem sucedido num já riquíssimo compêndio proporcionado por um dos projetos mais excitantes da pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Work Drugs - Surface Waves

01. Embers Never Fade
02. Burned
03. L.A. Looks
04. Counterclaims
05. Reunions
06. Do It Like We Used To Do
07. Counterclaims (Instrumental)
08. Embers Never Fade (Instrumental)


autor stipe07 às 20:55
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Domingo, 14 de Julho de 2019

Bon Iver – Faith

Bon Iver - Faith

22, A Million, o excelente registo que o projeto Bon Iver de Justin Vernon lançou em dois mil e dezasseiss, já tem sucessor. O novo trabalho deste músico norte-americano natural de Eau Claire, no Wisconsin, chama-se i,i, terá novamente a chancela do selo Jagjaguwar e irá conter treze canções que trilham diversos caminhos, expandem horizontes e aprimoram o modo como Vernon se manifesta artisticamente num processo de mutação que reflete ousadia e inquietude, duas permissas indispensáveis em qualquer artista que queira levar cada vez mais adiante a sua carreira.

i,i será o quarto registo do percurso discográfico de Bon Iver, conta com as participações especiais de James Blake, Aaron Dessner, Moses Sumney e Velvet Negroni e tem já vários temas do seu alinhamento divulgados. O mais recente é Faith, uma canção que encontra o seu sustento em guitarras agrestes, sintetizadores incisivos e um registo vocal modificado, mas pleno de alma e sentimento e que nos enche de paixão e luz. Confere Faith e o alinhamento de i,i... 

01 Yi
02 iMi
03 We
04 Holyfields,
05 Hey, Ma
06 U (Man Like)
07 Naeem
08 Jelmore
09 Faith
10 Marion
11 Salem
12 Sh’Diah
13 RABi


autor stipe07 às 22:02
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Quinta-feira, 11 de Julho de 2019

The Soft Cavalry – The Soft Cavalry

Mestres e pioneiros do shoegaze e uma referência ímpar do indie rock alternativo de final do século passado, os britânicos Slowdive voltaram a reunir-se há quase meia década, vinte e dois anos depois de Pygmalion (1995), e fizeram-no com a edição de um disco homónimo que continha oito maravilhosas canções que fizeram as delicias de todos os seguidores deste nome incontornável da cena musical contemporânea. Mas além desse quarto álbum dos Slowdive e de uma aclamada digressão, o novo fôlego desse projeto também fez com que Rachel Goswell, a vocalista e guitarrista, conhecesse Steve Clarke. Daí resultou uma união sentimental já oficializada e o surgimento de um novo projeto encabeçado pela dupla e intitulado The Soft Cavalry, que acaba de se estrear nos discos com um fabuloso homónimo, à sombra da insuspeita Bella Union.

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Explorando, tal como os Slowdive, os mesmos meandros do indie rock mais contemplativo, melancólico e atmosférico, os The Soft Cavalry vão um pouco mais longe, injetando na sua sonoridade uma maior vertente sintética, atributo plasmado num disco homónimo produzido por Michael Clarke, irmão de Steve e que contém uma indesmentível aúrea de dramatismo e espiritualidade, como seria de esperar num registo que é também um ato de amor genuíno partilhado por duas pessoas que, tendo casado o ano passado e vivendo em Devon, encontraram uma na outra e na música um novo e feliz fôlego para as suas vidas pessoais.

Intensamente melódico e com uma atmosfera sonora a lembrar interseções eficazes entre nomes tão ímpares como os Pink Floyd, Talk Talk ou R.E.M., The Soft Cavalry reescreve, de certo modo, a narrativa de Steve, um homem que viveu os últimos anos profundamente amargurado com o destino, fruto de um divórcio conturbado em dois mil e onze e que, mesmo a tocar baixo em alguns projetos ou a agenciar digressões de bandas como os já referidos Slowdive, só reencontrou o equilíbrio depois de conhecer Rachel. Assim, homenageando a sua nova companheira e servindo-se dos imensos atributos vocais e interpretativos dela, Steve criou neste álbum um extraordinário exercício de criatividade terapêutica, com canções como a buliçosa e enleante Bulletproof, a nostálgica Never Be Without You, a etérea Passerby, uma canção sobre abraços genuínos ou Spiders, uma balada sobre a fase inicial do encantamento por alguém, a abrigarem-se numa filosofia estilística simples e nebulosa, mas bastante melódica e climática.

Com as participações especiais do teclista Jesse Chandler (Mercury Rev, Midlake), do guitarrista Tom Livermore e do baterista Stuart Wilkinson, este é, pois, um disco que se arrasta com complacência e sem pressas, espraiando-se no tempo certo, alicerçado em melodias envoltas por cordas de forte pendor acústico e orgânico, mas amiúde eletrificadas com uma subtil vibração metálica particularmente charmosa, girando tudo em redor de um sintetizador assertivo e com efeitos recheados de eco, nuances que fazem sobressair a aura melancólica e mágica de um alinhamento que também deve muito do seu cariz impressivo aos tais atributos vocais de Rachel, que reforçam a elevada bitola qualitativa da estreia destes novos mestres da melancolia aconchegante.

Os The Soft Cavalry emergem-nos num universo muito próprio e no qual só penetra verdadeiramente quem se predispuser a se deixar absorver pela sua cartilha. E o arquétipo sonoro de tal ambiente firma-se também num falso impressionismo e num exemplar cariz lo fi na produção, elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador, plasmado num trabalho discográfico que tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, sendo, no seu todo, um disco cuja atmosfera densa e pastosa, é também libertadora e esotérica. Espero que aprecies a sugestão...

The Soft Cavalry - The Soft Cavalry

01. Dive
02. Bulletproof
03. Passerby
04. The Velvet Fog
05. Never Be Without You
06. Only In Dreams
07. Careless Sun
08. Spiders
09. The Light That Shines On Everyone
10. Home
11. Mountains
12. The Ever Turning Wheel


autor stipe07 às 21:45
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Sábado, 6 de Julho de 2019

Tape Junk - General Population

Quase quatro anos depois de um excelente homónimo, os Tape Junk de João Correia regressaram aos lançamentos discográficos no início da última Primavera, em formato digital e em cassete, com Couch Pop, o terceiro disco do projeto, um compêndio de nove canções pensadas e estruturadas pela mente do cérebro da banda. De facto, os Tape Junk assumem-se cada vez mais como um projeto a solo deste músico que também fundou os Julie & The Carjackers e os They’re Heading West, já que neste Couch Pop todos os instrumentos foram registados pelo João, que contou apenas com o apoio de António Vasconcelos Dias nos sintetizadores.

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Álbum escrito e construído sem pressas, entre o início de dois mil e dezasseis e o ocaso do verão passado e com um alinhamento que foi sendo continuamente aperfeiçoado, mutado e aprimorado de acordo com o estado de espírito do autor e ao sabor de um tempo que nunca o pressionou, Couch Pop tem um conjunto notável de composições que, no seu todo, homogéneo e impressivo, nos oferecem um amplo panorama de descobertas sonoras, que acabam por personificar uma espécie de exercício criativo nostálgico, onde cada uma veste a sua própria pele enquanto se dedica, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor lhe designou.

Pavement, Giant Sand, Yo La Tengo, Rolling Stones ou Velvet Underground são influências óbvias e algumas até assumidas e declaradas, mas quem vence é, na soma de todas as partes, aquele rock clássico e intemporal, que General Population, o mais recente single retirado de Couch Pop, tão bem comprova. E fá-lo através de um curioso nonsense e uma vibe soalheira com um charme incomum. General Population é, portanto, um exemplo claro de uma elogiável despreocupação e do desejo pessoal que os Tape Junk sentem, na pessoa do João Correia, de não serem levados demasiado a séria no que concerne não só ao arquétipo, mas também à vertente lírica e poética das canções. Confere...


autor stipe07 às 21:19
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Segunda-feira, 1 de Julho de 2019

Yann Tiersen – All

Produzido por Gareth Jones, All é o décimo registo de originais do músico francês Yann Tiersen, um registo com onze composições, lançado no passado dia quinze de fevereiro através da Mute Records e que foi gravado na ilha de Ushant, na costa oeste de França, onde o músico vive. Nesse local Yann Tiersen converteu uma antiga discoteca num estúdio de música e num centro cultural, batizado de The Eskal e inaugurado em fevereiro com a apresentação deste álbum que conta com as participações especiais dos músicos Ólavur Jákupsson, Anna von Hausswolff, Emilie Tiersen e Denez.

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All está marcado pela temática do ambiente, já presente no antecessor EUSA (2016) e as composições estão impregnadas de sons gravados na natureza, na região da Bretanha e nos Estados Unidos, uma nuance que confere ao registo um intenso dramatismo e uma permanente tensão, num alinhamento que funciona como um bloco único, uma grande banda sonora, um pouco à semelhança das que já idealizou para filmes tão importantes como Alice et Martin de Juliette Binoche ou Amélie, de Jean-Pierre Jeunet. 

Continuando a utlizar o piano como instrumento de eleição na condução do processo de construção do arquétipo sonoro das canções, algo que já sucedeu com EUSA de um modo mais minimal, All leva-nos de modo submersivo e particularmente realista para um universo feito de cândura e beleza, mas também de alguma angústia e temor, idealizado por um músico que tocou também quase todos os outros instrumentos que se escutam e que soube como os relacionar com os tais sons de ambiente que captou. Em Tempelhof, a lindíssima melodia tocada ao piano e o modo como nela encaixam vozes de crianças, captadas num setor do aeroporto de Berlim onde hoje funciona um dos maiores centros de refugiados da Europa, é um excelente exemplo desse modus operandi que se repete, logo depois, em Koad e, no ocaso de All, em Beure Kentañ, com sons de aves, mas também nos sinos de Bloavezhioù ou, em Pell, com frequências de rádio, detalhes que fazem com que estas composições de All tenham calibre para serem apreciadas e devidamente absorvidas, numa óptica eminentemente reflexiva, mas também como veículos promotores da diferença e da ação, ou seja, são canções capazes de nos fazer ganhar coragem para agir um pouco mais relativamente à dor que nos rodeia.

O momento mais belo de All acaba por estar em Heol, uma canção onde as letras sussurradas em bretão contam uma parábola sobre um castelo trancado e indicam a chave dourada que a abre e que todos guardamos dentro de nós. O caminho para ela vai-nos sendo revelado em cada novo som, sejam cordas violentas ou soturnas, mas também fanfarras de metais e diversos elementos percurssivos estonteantes, numa canção em que progressivamente Tiersen constrói a tal tensão e nos faz subir, sem apelo nem agravo, em direção a um pico envolto em luz. Positivamente edificante e com uma conectividade com o ouvinte irrepreensível, Heol é, pois, o âmago de um disco profundamente humano e sensorial, assente numa indulgência que nos transporta para um mundo que também tem muito de solene e de espiritual, nessa conetivdade que estabelece com cada um de nós. Espero que aprecies a sugestão...

Yann Tiersen - All

01. Tempelhof
02. Koad (Feat. Anna Von Hausswolff)
03. Erc’h (Feat. Olavur Jakupsson)
04. Usal Road
05. Pell
06. Bloavezhioù
07. Heol
08. Gwennilied (Feat. Denez)
09. Aon
10. Prad
11. Beure Kentañ

 


autor stipe07 às 21:06
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Sexta-feira, 28 de Junho de 2019

Thom Yorke – ANIMA

Já viu a luz do dia ANIMA, o terceiro registo de originais da carreira a solo de Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, verdadeiros Fab Five do novo milénio, não só porque estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, mas também porque, disco após disco, acabam por estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto na linha da frente das suas maiores influências. ANIMA  foi lançado pela XL Recordings e produzido por Nigel Godrich, colaborador de longa data do músico de Oxford. Ambos desenvolveram este alinhamento através de performances ao vivo e trabalho de estúdio, que também já deu origem a uma curta-metragem realizada por Paul Thomas Anderson e disponível no canal Netflix.

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Em ANIMA Thom Yorke prossegue a sua demanda experimental pelos sinuosos caminhos de uma eletrónica de cariz eminentemente etéreo, uma opção mais sintética do que a trilhada no seio da sua banda de sempre que mesmo tendo virado agulhas para universos mais eletrónicos nos seus últimos capítulos discográficos, continua a ter no indie rock uma elemento nuclear de formatação da sonoridade global das obras criadas pelos Radiohead.

É recorrente que o sonho seja uma temática bastante abordada por artistas plásticos, cineastas e músicos, que têm neles a principal fonte de inspiração e tentam incessantemente produzir algo que se aproxime do que é sentindo num sonho. O norte-americano Steven Ellison, o músico e produtor que assina o projeto The Flying Lotus, não sendo apenas um artista onírico ou surrealista, mas tendo uma imaginação que transcende o estado lógico e comum, porque é muito fácil sentirmo-nos dentro de um sonho ao ouvirmos a música desse seu projeto, acabou por ser uma das grandes inspirações de Thom Yorke, juntamente com algumas das principais teorias do psicanalista Carl Jung, ainda dentro da temática dos sonhos, mas também o modo como nos deixamos influenciar atualmente pelas novas teconlogias e a sensação de anonimato que elas nos dão. Nós enviamos os nossos avatares para abusar e lançar veneno e depois regressamos para o anonimato, referiu Yorke numa entrevista recente acerca desta particularidade influenciadora do conteúdo de ANIMA.

Portanto, e como não podia deixar de ser, escutar ANIMA faz-nos estarmos perante uma experiência não só auditiva, mas também tremendamente visual. No pulsar analógico das batidas de Last I Heard (…He Was Circling The Drain), no apelo tribal do dubstep de Traffic, nas teclas soturnas de Dawn Chorus, no clima borbulhante e positivamente visceral de I Am A Very Rude Person, na intrigante Not The News e na intensidade crescente de Twist, uma composição onde um teclado se deixa rodear graciosamente pelo típico registo vocal em falsete de Yorke, fazendo-o de modo particularmente sensível e com um toque de lustro de forte pendor introspetivo, fica recriado não só o típico ambiente soturno com que este autor tem pautado o seu projeto a solo há já mais de uma década, mas também a densidade e a névoa sombria de um modo de ver a humanidade de hoje como se estivesse globalmente adormecida, num sonho coletivo de felicidade e realização material que nunca se concretizará e, em consequência disso, numa inconsciente caminhada em fila indiana rumo ao abismo.

A sociedade contemporânea e, principalmente, a evolução tecnológica que nem sempre respeita o ritmo biológico de um planeta que tem dificuldade em assimilar e adaptar-se ao modo como apenas uma espécie, possuindo o dom único da inteligência, coloca em causa todo um equilíbrio natural, é um manancial para a escrita de Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nú algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia. ANIMA de certo modo satiriza esse lado menos racional e destrutivo que parece dominar a nossa espécie no seu todo e sem aparente retorno. Espero que aprecies a sugestão...

Thom Yorke - ANIMA

01. Traffic
02. Last I Heard (…He Was Circling The Drain)
03. Twist
04. Dawn Chorus
05. I Am A Very Rude Person
06. Not The News
07. The Axe
08. Impossible Knots
09. Runwayaway


autor stipe07 às 22:11
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Quarta-feira, 19 de Junho de 2019

Maps – Colours. Reflect. Time. Loss.

Já tem sucessor, Vicissitude, o disco que o projeto britânico Maps de James Chapman, nome grande do catálogo da Mute Records, editou em dois mil e catorze. O novo e quarto álbum a solo deste artista de Northampton intitula-se  Colours. Reflect. Time. Loss. e as suas dez composições proporcionam-nos o contacto com um feliz exercício de fusão do rock com diversos cânones da eletrónica, uma labuta de corte e recorte feita com um charme e uma elegância inegáveis, uma experiência não só auditiva, mas também tremendamente visual.

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Colours. Reflect. Time. Loss. demorou três anos a ser incubado e gravado e muitos dos arranjos orquestrais das canções foram, de acordo com James, inspirados na ruralidade de Northampton. É um registo que reflete, portanto, muitos eventos da vida pessoal do autor, que fez questão de ser também peça fundamental no processo de produção de um trabalho que contou com as participações especiais do grupo clássico de ensemble belga The Echo Collective (famoso por ter interpretado, no início do ano passado, na íntegra, Amnesiac, o clássico da discografia dos Radiohead, lançado em dois mil e um) e com percussionistas e vocalistas de diversas latitudes (I wanted to push everything to the limit with this record and explore new territory for Maps,(...) The orchestral instrumentation and addition of other musicians and singers played a huge part in finding the purer and more human emotion I was searching for. I learnt the violin as I was growing up, so I’m glad it finally came in useful!). 

O primeiro single que o compositor e produtor retirou do álbum foi Just Reflecting, a quinta composição do seu alinhamento, um tema que impressiona pela sua beleza utópica, feita de belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos que alicerçaram uma melodia particularmente hipnótica. Tal escolha não foi obviamente feita ao acaso já que é uma bela amostra de um disco idelizado por um verdadeiro escultor sonoro que olha de frente para as guitarras e depois não receia envolvê-las com sintetizadores imbuídos de uma superior inteligência e epicidade, apenas temperados por uma filosofia melódica que procura intuir no ouvinte um desejo de reflexão e introspeção ao som de um universo sonoro fortemente cinematográfico e imersivo.

Depois, na encantadora alegoria pop sessentista de The Plans We Made, na luminosidade do piano e dos sopros de Howl Around, uma canção feita para nos retirar do fundo do poço, ou no clima oitocentista de Wildfire, James dá-nos asas e leva-nos de modo certeiro ao refúgio bucólico e denso onde se embrenharam aquelas nossas emoções que melhor e mais alto nos levantam, num disco que impressiona por este provocador belicismo e pelo seu forte cariz sensorial. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:23
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Sexta-feira, 14 de Junho de 2019

Slowness – Berths

Formados em 2008 em São Francisco, os norte americanos Slowness são uma dupla formada por Julie Lynn e Geoffrey Scott, à qual se juntou recentemente Christy Davis. Deram início às hostilidades com Hopeless but Otherwise, um EP produzido por Monte Vallier (Weekend, The Soft Moon, Wax Idols) e em dois mil e treze surpreenderam com o longa duração For Those Who Wish to See the Glass Half Full, produzido pelo mesmo Vallier e que teve uma edição física em vinil, via Blue Aurora Audio Records. Depois, em junho do ano seguinte, passaram com distinção o teste do sempre difícil segundo disco, à boleia de How to Keep From Falling Off a Mountain, um registo que tem finalmente sucessor, um trabalho intitulado Berths e com seis canções que mantêm o trio na senda de um shoegaze de forte pendor ambiental e particularmente contemplativo.

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Algures entre Stereolab, Spacemen 3 os seus conterrâneos The Soft Moon e Slowdive, os Slowness são uma excelente banda para se perceber como os anos oitenta devem soar quase no final da segunda década do século vinte e um. Em Berths e à boleia da Schoolkids Records, expôem tal constatação através de composições com uma tonalidade cinza intensa e charmosa e um polimento muito próprio, lo fi q.b., um fórmula de composição enganadoramente simples, feita de guitarras carregadas de efeitos planantes, acompanhadas por uma percurssão de baixa intensidade, tudo embrulhado por um travo experimental intenso, logo explicíto no jogo de sobreposição de distorções que sustenta a majestosidade de The Fall, o primeiro tema do alinhamento de Berths. A seguir, no brilho pop da tonalidade de Rose, proporcionado por um timbre metálico bem vincado, somos conforntados com uma faceta menos obscura e mais luminosa dos Slowness, um barco onde o trio também navega com segurança e bom gosto, nessa toada mais climática e, no fundo, mais abrangente. Depois, no travo mais progressivo de Berlin, canção que parece ter sido incubada de uma bem sucedida jam session e respeitada a sua integridade inicial e, principalmente, no nervo de Breathe, dois dos grandes momentos do disco, percebe-se com ainda maior nitidez a filosofia de criação sonora destes Slowness, certamente muito assente em instantes bem sucedidos de improviso, mas também em acomodações felizes de uma vasta miríade de detalhes e nuances instrumentais, rematadas por uma voz colocada em camadas, com um resultado final que parece debitar, no seu todo, uma constante carga de ruídos pensados de forma cuidada, como um imenso curto circuito que passeia por Berths.
Firmado num estilo sonoro que tanto tem um sabor algo amargo e gótico, como uma veia mais etérea e até melancólica, Berths atesta, mais uma vez, a vitalidade de um género que nasceu há quatro décadas, com os Slowness a provarem que ainda é possível encontrar novidade dentro de um som já dissecado de inúmeras formas. Espero que aprecies a sugestão..

Slowness - Berths

01. The Fall
02. Rose
03. Berlin
04. Breathe
05. Sand And Stone
06. Asunder


autor stipe07 às 16:35
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Quarta-feira, 12 de Junho de 2019

Sigur Rós - Ágætis byrjun (A Good Beginning); 20th Anniversary Deluxe Edition

Os islandeses Sigur Rós são provavelmente os maiores responsáveis pela geração a que pertenço se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e de estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical. Ao lado da conterrânea Björk, este quarteto, entretanto reduzido a trio, não apenas colocou a Islândia no mapa dos grandes expoentes musicais, como definiu de vez o famigerado pós rock, género que mesmo não sendo de autoria da banda, só alcançou o estatuto e a celebração de hoje graças, em grande parte, ao rico cardápio instrumental que este grupo conseguiu alicerçar nas mais de duas décadas que já leva de existência.

Resultado de imagem para Sigur Rós Ágætis Byrjun 20th anniversary

Adeptos da constante transformação de suas obras, desde Von, o primeiro álbum, que os Sigur Rós se concentram na produção de discos que, mesmo próximos, organizam-se e funcionam de maneiras diferentes. Têm sido álbuns que acabam sempre por partilhar um novo sentimento ou proposta, utilizando uma fórmula básica que serve de combustível a cada nova estreia.

Apesar dessa brilhante estreia chamada Von, acabou por ser Ágætis Byrjun, o sucessor, que colocou o grupo islandês definitivamente nos holofotes, uma obra introspectiva, misteriosa, cinematográfica e conceptual, que muitas vezes parece ecoar de forma suja, mas que contém uma inolvidável subtileza angelical, um disco repleto de propostas estilísticas únicas, nuances variadas e firmado em harmonias magistrais que fazem do seu alinhamento de dez canções um dos mais belos da história da música.

Hoje faz vinte anos que Ágætis Byrjun viu a luz do dia, uma data que não passará em claro para todos os amantes e seguidores do indie alternativo e que a banda também quis assinalar com toda a pompa e circunstância a efeméride. Para isso, surgirá brevemente nos escaparates uma edição de luxo do disco que, além do alinhamento original, irá conter mais três horas de demos, gravações ao vivo e versões alternativas de todas as dez composições de  Ágætis Byrjun, distribuidas por três discos de vinil e que foram subtraídas dos arquivos particulares dos músicos. De realçar que alguns temas já nem faziam memória da própria banda, que só voltou a recordar-se das mesmas depois que começou a preparar esta reedição.

Este lançamento comemorativo de Ágætis Byrjun também inclui o concerto que os Sigur Rós deram neste mesmo dia, há vinte anos atrás, na sala Íslenska Óperan (the Icelandic Opera House), um espetáculo de noventa e cinco minutos que nunca foi reproduzido nem visionado antes e que será hoje mostrado na íntegra, através do canal de youtube da banda, a partir das 22 horas. Nesse concerto ainda tocou Águst Gunnarsson, o primeiro baterista da banda, juntamente com Jón Thor Birgisson, Georg Holm e Kjartan Sveinsson, que oficialmente só se juntou à banda no ano seguinte, em dois mil.

Quando o coração é paciente e sabe que na vida há momentos únicos pelos quais vale a pena esperar, mais claras são as boas sensações que nos preenchem quando os instantes pelos quais tanto esperámos estão ali, ao nosso lado e à nossa frente, ao mesmo tempo, no mesmo espaço físico e temporal. E às vezes estão num simples disco. Há quem vibre com um bom filme quando determinadas imagens projectadas numa tela negra, reais ou cheias de ficção, mexem com todos os nossos sentidos, nos arrepiam e nos dão momentos momentâneos de pura felicidade! Isso acontece-me com frequência em canções como Svefn-g-englarOlsen Olsen ou Viðrar vel til loftárása, no fundo durante a audição de um álbum que é um refúgio onde consigo encontrar sonoramente a pura realização feliz e plena desse preenchimento interior.

Confere o conteúdo desta edição especial de Ágætis Byrjun já, disponível no bandcamp dos Sigur Rós e que, como já disse, terá também edição física muito em breve.

live at íslenska óperan 1999

Intro

Von
Syndir Guðs
Flugufresarinn
Olsen Olsen
Ágætis byrjun
Viðrar vel til loftárása
Svefn-g-englar
Ny batterí
Nýja lagið
Hafssól

demos, rarities and early live recordings

Svefn-g-englar   (Live at Popp í Reykjavík, 1998)
Starálfur   (Original speed version)
Flugufrelsarinn   (1998 Demo)
Ný batterí   (Instrumental)
Hjartað hamast (bamm bamm bamm)   (1995 Demo)
Viðrar vel til loftárása   (Alternative ending)
Olsen Olsen   (1998 Demo)
Ágætis byrjun   (1998 Demo)
Hugmynd 1   (1998 Demo)
Hugmynd 2   (1998 Demo)
Hugmynd 3   (1998 Demo)
Debata mandire   (Live at Laugardashöll, 1999)
Rafmagnið búið   (From Ný batterí EP, 2000)

 

autor stipe07 às 16:15
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Sábado, 1 de Junho de 2019

Horsebeach – Dreaming

Horsebeach - Dreaming

The Unforgiving Current é o título do quarto registo de originais dos britânicos Horsebeach , um quarteto natural de Manchester e formado por Ryan Kennedy (voz) Matt Booth (bateria), Tom Featherstone (guitarra) e Tom Critchley (baixo). Os Horsebeach estrearam-se nos discos há cerca de meia década com um homónimo e este The Unforgiving Current sucede a Beauty & Sadness, um álbum com dois anos e que reforçou a aposta da banda em sonoridades eminentemente etéreas e melancólicas, dentro de um catálogo indie virtuoso, com uma atmosfera particularmente íntima e envolvente.

Dreaming é o primeiro single divulgado de The Unforgiving Current, uma composição assente numa dream pop de forte cariz lo fi, conduzida por uma guitarra com um efeito metálico particularmente vibrante, acompanhada por um registo vocal ecoante e uma bateria multifacetada e bastante omnipresente na condução melódica do tema. Confere...


autor stipe07 às 15:01
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Sexta-feira, 24 de Maio de 2019

Gaz Coombes – Salamander

Gaz Coombes - Salamander

Quem esteve atento à luta fraticida pelo domínio da brit pop durante a década de noventa, recorda-se imediatamente da dupla Blur vs Oasis e depois acrescenta-lhe os Suede e os Pulp, os The Charlatans e talvez os Spiritualized e os Supergrass, este, sem dúvida, o grupo britânico mais negligenciado nessa altura. Gaz Coombes, antigo líder desta banda britânica, estreou-se numa carreira a solo em 2012 e em boa hora o fez com o fabuloso Here Come The Bombs. Uns dois anos depois desse início prometedor, Coombes regressou mais uma vez à boleia da Hot Fruit Recordings, com Matador, um disco produzido pelo próprio autor e gravado no seu estúdio caseiro em Oxford. No início do verão passado foi a vez de nos revelar o terceiro disco, um trabalho intitulado World's Strongest Man, com onze canções idealizadas por uma das personalidades mais criativas da indie britânica e inspiradas no concurso anual World's Strongest Man, um enorme sucesso televisivo em Inglaterra, um talkshow passado numa qualquer ilha das Caraíbas e que escolhe, após várias provas, aquele que é supostamente o homem mais forte do mundo.

Agora cerca de um ano depois de World's Strongest Man, Gaz está de regresso com novidades, um single intitulado Salamander, mas que ainda não traz a reboque o anúncio, pelo menos oficial, da edição de um novo longa duração do artista britânico. Canção vibrante, rugosa e visceral, conduzida por um efeito de guitarra metálico rebarbante e por uma bateria imponente e bastante ritmada e depois cortada a direito por um insolente piano, Salamander oferece-nos uma relação pouco vista em Coombes entre eletrónica, punk rock e climas mais progressivos, sem descurar um intenso sentido melódico e a tipica epicidade das melhores propostas da indie experimental que habitualmente é incubada em terras de Sua Majestade. Confere...


autor stipe07 às 17:30
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Quarta-feira, 15 de Maio de 2019

The Tallest Man On Earth – I Love You. It’s A Fever Dream.

I Love You. It’s A Fever Dream. é o quinto e novo registo de originais do sueco Kristian Matsson, que assina a sua música como The Tallest Man On Earth, um álbum de difícil gestação e muito querido pelo próprio autor que confessou no verão passado que estava a ser complicado conseguir aprimorar o seu conteúdo devido à digressão de Dark Bird Is Home, o álbum que o músico lançou há quatro anos. Aliás, esta digressão acaba por ser o grande mote de dez canções que reforçam o estatuto de excelência de um autor que tem, com toda a justiça, cada vez maior aceitação e reconhecimento público e que possui o dom raro de transformar histórias particulares e melancolias próprias em música acessível a todos.

Resultado de imagem para The Tallest Man On Earth I Love You. It’s A Fever Dream.

De facto, I Love You. It’s A Fever Dream., sendo, de acordo com o autor, um relato de diferentes banalidades, rotinas e curiosidades que estão sempre subjacentes à vida de um músico, geralmente intercalada entre a estrada e o estúdio, procura ter o atributo maior de responder a algumas das questões filosóficas mais prementes da nossa existência, nomeadamente quais os melhores caminhos que devemos percorrer, nos obstáculos que todos temos de contornar ou ultrapassar durante a vida.

Assim, este disco é, essencialmente, um feliz exercício biográfico, onde The Tallest Man On Earth estabelece uma forte vontade de aproximação, como se cantasse diretamente para nós, de forma verdadeiramente confessional, enquanto tem o duplo objetivo de se abrir e desabafar, mas também aconselhar e inspirar. Por exemplo, em Hotel Bar Matsson relata alguns dos constrangimentos da digressão, nomeadamente a solidão, mas também a beleza de um concerto, que reside na arte comunicar com uma audiência de estranhos, utilizando uma forma de manifestação artística sublime, a criação musical. E fá-lo comparando-se a um leopardo que vive uma epopeia que, quer passe por Brooklyn ou por uma savana africana, tem sempre necessidade de escalar a uma árvore ou a um arranha-céus para ver se encontra alguém familiar e da sua espécie. Pouco depois, em I’m A Stranger Now, Matsson regressa à temática da solidão, ampliando porque confessa cruzar-se e conhecer imensas pessoas mas percebe que são poucas aquelas que realmente marcam e que na sua profissão é sempre escasso o tempo e a dispopnibilidade para cultivar a amizade. Já em Waiting For My Ghost explora a estranha sensação de anonimato que a presença constante na estrada provoca, por serem imensos os dias em que se sente rodeado apenas por estranhos e em There's A Girl ele clama por um novo amor que o faça libertar-se de toda esta realidade sombria, rotineira e pouco recompensadora em que vive.

Em suma, I Love You. It’s A Fever Dream. é um daqueles discos que encanta pelo modo como as melancolias afloram, canção após canção, de uma forma muito honesta e ao mesmo tempo comercial. Quer seja através da country ou da folk, nestas dez canções o cantor apodera-se de sentimentos universais, para criar um clima intenso e uma verdadeira espiral sentimental, que atinge com precisão o lado mais sensível de cada um de nós, sem apelo nem agravo. O modo como Matsson cria neste registo metáforas sobre si próprio é feito com um grau de realismo e de criatividade tal que quase nem nos apercebemos da própria instrumentalidade, que conduz o disco. Mas convém referir que nesta tal instrumentalidade, The Tallest Man On Earth é exemplar no modo como usa as cordas, as teclas e diversos efeitos percussivos para ampliar o toque intimista de um álbum inteligente e particularmente belo. Espero que aprecies a sugestão...

The Tallest Man On Earth - I Love You. It's A Fever Dream.

01. Hotel Bar
02. The Running Styles Of New York
03. There’s A Girl
04. My Dear
05. What I’ve Been Kicking Around
06. I’m A Stranger Now
07. Waiting For My Ghost
08. I’ll Be A Sky
09. All I Can Keep Is Now
10. I Love You. It’s A Fever Dream.


autor stipe07 às 15:44
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Quarta-feira, 8 de Maio de 2019

Elva - Winter Sun

Elva é o novo projecto do casal Elizabeth Morris ((Allo Darlin) e Ola Innset (Making Marks e Sunturns) e em norueguês a palavra significa rio. É, pois, um projeto sonoro encabeçado por uma dupla que rema na mesma direção e em cujas veias escorre uma seiva artística comum, um casal que se inspirou no mundo natural, na beleza do verão escandinavo e na dureza do inverno, para incubar um álbum intitulado Winter Sun, dez canções que também devem muito do seu conteúdo ao nascimento da filha de ambos. Winter Sun foi gravado no último outono numa escola antiga na floresta sueca, durante a época de caça aos alces e tal atmosfera acabou por potenciar o cunho sonoro fortemente identitário do disco relativamente a uma área geográfica bastante específica, um registo criado por dois artistas nórdicos mas que, curiosamente, também encontram no outro lado do atlântico um oásis inspirador.

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Lançado pela Tapete Records, gravado e produzido por Michael Collins, baterista dos Allo Darlin e com as participações especiais de Dan Mayfield no violino, Diego Ivars no baixo e Jørgen Nordby na bateria, Winter Sun tem, como se percebe logo na luminosidade folk de Athens e, adiante, na mais intimista Harbour In The Storm, elevado sustento na exuberância de inspiradas cordas de forte pendor acústico. Mas engana-se quem considerar que será este o único suporte sonoro de Winter Sun, porque, logo a seguir, no ritmo incisivo de Tailwind e, pouco depois, na tonalidade oitocentista vincada de Ghost Writer, percebe-se que, no modo como essas mesmas cordas são eletrificadas, o registo contém também a força de uma pop distinta, acondicionando não só cenários melódicos eminentemente acústicos, mas também algumas das principais linhas orientadoras da country, da folk norte-americana e do melhor rock alternativo das últimas três décadas.

Seja como for, apesar da evidente predominância das cordas, se o ouvinte escutar com a devida e merecida devoção Winter Sun, certamente perceberá que teclados charmosos e de forte cariz vintage e um registo vocal intrincado e até algo complexo, a espaços, são também a alma de um registo lirica e melodicamente profundo e que também convive da combinação de detalhes e nuances opostas, justificados pela opção por elementos acústicos ou elétricos, orgânicos e sintéticos e mais reflexivos ou expansivos, muitas vezes numa mesma canção.

De facto, os Elva sabem muito bem como transmitir e explorar sensações únicas e intensas através de uma sonoridade sempre sóbria e adulta, mas também com um forte cunho envolvente, climático e melancólico. Em Airport Town, na nuance do efeito da guitarra e no modo como os restantes instrumentos se encaixam na mesma enquanto intercalam epicidade com intimismo e no timbre vocal grave de Elizabeth, percebe-se esse elevado índice de maturidade e abrangência, com o odor que afaga e adoça em Everything Is Strange e o travo algo setentista e lisérgico que exala do sereno dedilhar da guitarra de Don't Be Afraid, a reforçarem toda uma complexidade de abordagens felizes a diferentes géneros sonoros e que, numa mistura de força e fragilidade, nas vozes, na letra e na instrumentação, se equilibram sempre de forma vincada e segura.

Disco intenso, mas também bastante relaxante e até, em alguns instantes, algo soporífero, Winter Sun conquista o coração de quem escuta estes Elva, que usam melodias doces para nos fazer despertar no nosso âmago sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

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  1. Athens
  2. Tailwind
  3. Dreaming With Our Feet
  4. Ghost Writer
  5. Harbour In The Storm
  6. Airport Town
  7. Don't Be Afraid
  8. Everything Is Strange
  9. I Need Love
  10. Winter Sun

 


autor stipe07 às 16:31
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Sexta-feira, 3 de Maio de 2019

Lamb - The Secret of Letting Go

A dupla de Manchester Lamb, formada por Lou Rhodes e Andy Barlow, já anda por cá desde meados dos anos noventa, altura em que lançaram um disco homónimo de estreia que é um verdadeiro clássico da pop contemporânea. Depois disso, a dupla tem-se mantido sempre à tona, mesmo durante longos hiatos em que Rhodes se dedicou a uma promissora carreira a solo a Barlow à produção de outros artistas.

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O último sinal de vida dos Lamb tinha sido em dois mil e catorze com o álbum Backspace Unwind, que tem finalmente sucessor. O sétimo e novo trabalho da dupla chama-se The Secret of Letting Go, viu a luz do dia através da Cooking Vynil e contém um alinhamento que tem no espaço a sua ideia central e que foi gravado entre o estúdio dos Lamb e Ibiza e Goa, na Índia.

The Secret Of Letting Go vive, no seu todo, de uma simbiose feliz entre a pop soturna e clássica, a eletrónica mais sofisticada e um rock eminentemente experimental. Contém um alinhamento suave e bastante adocicado, recheado de composições sustentadas por uma elevada consistência instrumental e melódica, dominado, especialmente, nas últimas canções, por belíssimos acordes de piano, cordas certeiras e sintetizadores cósmicos, detalhes que se acamam com elevada mestria ao registo vocal de Rhodes. Por exemplo, se quase no ocaso do disco, em Silence Inbetween, quase se consegue sentir a ténue vibração das cordas dentro da caixa de um piano tocado com enorme pureza e que se entrelaça com o violino com uma química de uma paixão avassaladoras, já Armageddon Waits, uma composição vibrante, rugosa e evocativa, oferece-nos um feliz exercício de fusão de diversos cânones da eletrónica com um rock de cariz eminentemente progressivo, assente numa percussão bastante ritmada, guitarras planantes e diversos arranjos de sopros.

É, pois, através deste jogo fluído e simbiótico entre dois grandes universos e os diversos mundos de cada um, que The Secret Of Letting Go vai deixando cada vez mais para trás aquela sedutora ingenuidade dos primórdios dos Lamb. Continuam a escutar-se temas mais dançantes, como é o caso de Moonshine e o travo trip-hop de Bulletproof e outros essencialmente introspetivos, nomeadamente One Hand Clapping, uma bonita fusão entre metais, teclas e cordas que nos mostram aquele lado mais romântico e delicado do trio, num resultado final charmoso e sofisticado, como não podia deixar de ser nos Lamb e que deverá ajudar a revitalizar a carreira de um grupo que já estava algo esquecido mas que, pelos vistos, ainda tem muito para oferecer aos apreciadores de um género sonoro pleno de especificidades. Espero que aprecies a sugestão...

Lamb - The Secret Of Letting Go

01. Phosphorous
02. Moonshine
03. Armageddon Waits
04. Bulletproof
05. The Secret Of Letting Go
06. Imperial Measures
07. The Other Shore
08. Deep Delirium
09. Illumina
10. The Silence in Between
11. One Hand Clapping


autor stipe07 às 16:35
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Quinta-feira, 2 de Maio de 2019

Mano A Mano Vol. 3

Cerca de ano e meio após Vol. 2, já viu a luz do dia Vol. 3, o novo trabalho dos  Mano a Mano dos irmãos André e Bruno Santos, dois guitarristas com um vasto percurso musical, eminentemente jazzístico e dos melhores intérpretes nacionais desse espetro sonoro, na atualidade.  Recordo que o projeto Mano a Mano estreou-se há meia década nos discos através de uma edição cujo financiamento foi obtido através de uma campanha bem sucedida de crowdfunding e que o sucessor, Mano a Mano Vol. 2,continha onze canções que, de acordo com o press release desse lançamento, centravam-se num duelo dinâmico de guitarras, um disco cheio de momentos de virtuosismo, elegância e humor, explorando as inúmeras possibilidades deste formato.

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Gravado no Estúdio Paulo Ferraz, com os manos rodeados de discos de Bill Evans, Ella Fitzgerald & Louis Armstrong, António Carlos Jobim, Boney M. e do projeto Planetarium, de Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlister, conforme se confere na capa do lançamento, Vol. 3 amplia o arrojo instrumental do catálogo da dupla, já que nas suas doze canções, além das presenças habituais da guitarra, da braguinha e do rajão, os sintetizadores e variados instrumentos percurssivos também têm um protagonismo que ainda não tinha sido visto nos Mano A Mano, no que concerne à definição do arquétipo fundamental de algumas das suas composições.

Irmãos com uma química evidente e que tem como um dos factos mais curiosos o André ser destro mas tocar com a guitarra virada para o lado esquerdo devido a uma espécie de efeito de espelho por ver o Bruno a tocar à sua frente anos a fio, os Mano A Mano assentam as suas propostas sonoras numa filosofia estilística com uma especificidade muito própria e estreitamente balizada, mas não deixam, por isso, de nos oferecer alinhamentos cada vez mais sinuosos e cativantes. A luminosidade madrugadora das cordas que vibram na introdutória Parque Aventura é apenas uma pequena amostra de um superior quilate interpretativo, porque Guimarães, logo a seguir, já é sinónimo da maior abrangência deste terceiro volume, numa melodia com forte apelo caliente, clima ampliado pela inserção de vários samples e efeitos percurssivos, alguns apenas insinuantes mas vincados, num resultado final pleno de virtuosismo e sentimento.

Dado em grande estilo o mote e com o ouvinte já preso, rendido e, em simultâneo, a deixar-se espraiar nestes dois temas, mas também a dar por si a sentir uma imensa curiosidade relativamente ao restante alinhamento, Vol. 3 prossegue, em grande estilo, à sombra do travo folk nostálgico de Rosa, da sumptuosa delicadeza que exala das constantes variações de tom em Flor do Amor, do travo afro que não pode deixar de ser ouvido sem ser acompanhado por um sorridente bater de pés ou um efusivo abanar de ancas em Cabo Verde, amplificado pelo kashaka, um instrumento de percurssão típico do arquipélago africano que dá nome ao tema e do fumarento espreguiçar a que nos convida Rocky, canções que vingam na onda dos vários dedilhares que se cruzam entre si e as tricotam de modo a materializar os melhores atributos que os Mano A Mano guardam na sua bagagem sonora. 

Até ao fim de Vol. 3 e ainda antes de uma reintrepretação feliz de Stardust, um original dos anos vinte do século passado de Hoagy Carmichael, revisto aqui com enorme protagonismo do rajão, a Madeira marca a sua presença, através do modo como a braguinha e o mesmo rajão dialogam entre si, com uma ímpar serenidade, na Valsa para Cândido Drumond de Vasconcelos, um tributo a este intérprete do machete e compositor que viveu na Madeira no século dezanove e também à boleia de uma magnífica e nostálgica versão de Noites da Madeira, um original de Tony Amaral, nome importante do jazz funchalense da primeira metade do século passado.

Em suma, é da constante inquietação que lateja do diálogo que estes dois músicos estabelecem entre si, que se sustenta muita da essência de um disco que, mesmo sem letras, não deixa de ser, no seu todo, um exímio e lúcido contador de histórias, deixemo-nos nós absorver por tudo aquilo que as cordas (e não só) nos sussurram ao ouvido com indesmentível clareza. Isso apenas é possível porque Vol. 3 está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que mesmo este género de música tão específico e sui generis pode ser também um veículo para o encontro do bem e da felicidade, quer individual quer coletiva. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 10:54
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Quarta-feira, 1 de Maio de 2019

Scott Orr – Stay Awake On The Phone

Scott Orr - Stay Awake On The Phone

Pouco mais de meio ano depois do lançamento de Worried Mind, um disco que já teve sequência há algumas semans com um outro registo inteiramente instrumental com o mesmo nome, Scott Orr surpreende-nos no final de abril com Stay Awake On The Phone, uma nova composição do artista canadiano e que é apresentada como b side desse álbum.

Stay Awake On The Phone é uma lindíssima canção, com um inconfundível travo pop, conduzida por um sintetizador bastente pueril e melancólico e com uma subtileza muito própria e contagiante. São pouco mais de quatro minutos onde a toada instrumental se entrelaça com o charme inconfundível da voz do autor, um lançamento disponível gratuitamente ou com a possibilidade de doares um valor e que tem a chancela da editora independente canadiana Other Songs Music Co., uma etiqueta indie independente de Hamilton no Ontário, terra natal deste extraordinário músico e compositor. Confere...


autor stipe07 às 16:25
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Sábado, 27 de Abril de 2019

Jay-Jay Johanson – Kings Cross

Já está nos escaparates Kings Cross, o décimo segundo álbum do sueco Jay-Jay Johanson, mais um riquíssimo reportório de experimentações sónicas que cimentam o percurso sonoro tremendamente impressivo e cinmetográfico de um dos nomes mais relevantes da pop europeia das últimas três décadas. Com a participação especial de Robin Guthrie dos míticos Cocteau Twins em Lost Forever e com um dueto com Jeanne Added em Fever, Kings Cross consiste num inspirado compêndio de eletropop idealizado por um Jay-Jay Johanson que teve o firme intuíto de nos captar com a sua voz melancólica, ao som de arrebatadoras melodias, revestidas de sons intrincados e algo misteriosos, geralmente de origem sintética e batidas e efeitos percurssivos de cariz emimentemente experimental.

Resultado de imagem para Jay-Jay Johanson Kings Cross

Not Time Yet, a canção que abre o alinhamento de Kings Cross, torna logo explícita toda a trama esplanada num alinhamento de canções que têm a pop eletrónica, de cariz eminentemente reflexivo e ambiental, como grande suporte sonoro, conforme já referi, mas é demasiado redutor, aviso desde já, parcelar de modo tão concreto todo o emaranhado de referências estilísticas que o artista sueco absorveu, degustou e depois esplanou neste seu novo álbum.

Assim, se no caso dessa primeira composição do álbum, temos um som polido, mas desafiante por se mostrar um pouco escuro, mesmo assumindo-se como particularmente charmoso e intenso, na tonalidade mais descontraída e cativante do jazz que alinha Heard Somebody Whistle, na soul da percurssão, do baixo e do insinuante piano de Smoke, na romântica fragilidade que flutua à tona do manto sonoro ondulado que nos embala em Hallucination, na guitarra que ressoa com vigor em Niagara Falls e no clima íntimo e de forte pendor clássico de Old Dog ficamos devidamente esclarecidos acerca de toda a diversidade instrumental que suportou a gravação de um disco que, contendo diferentes texturas e travos conceptuais, entronca sempre numa filosofia interpretativa típica de um músico que já se movimentou por espetros sonoros tão vastos e díspares como a folk, o rock progressivo, a música clássica contemporânea ou a eletrónica, e que, quer por isso, quer devido à sua enorme sensibilidade poética e artística, consegue sempre proporcionar ao ouvinte instantes de arrebatadora sedução, mesmo quando uma espécie de ideia de simplicidade paira sempre como uma nuvem melancólica e mágica em seu redor. Espero que aprecies a sugestão...

Jay-Jay Johanson - Kings Cross

01. Not Time Yet
02. Heard Somebody Whistle
03. Smoke
04. Lost forever (Feat. Robin Guthrie)
05. Hallucination
06. Old Dog
07. Niagara Falls
08. Fever (Feat. Jeanne Added)
09. Swift Kick In The Butt
10. We Used To Be So Close
11. Everything I Own
12. Dead End Playing


autor stipe07 às 14:04
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