Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

Tricycles - All The Mornings

João Taborda, Afonso Almeida, Edgar Gomes e Sérgio Dias são os Trycicles, uma espécie de super grupo que se vai estrear nos registos discográficos a vinte e nove de março próximo com um homónimo, gravado e produzido por Nelson Carvalho e editado pela Lux Records.

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Descritos no press release de lançamento de All The Mornings, o primeiro single extraído de Tricycles, como um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, os Tricycles começaram a ganhar vida quando o Sérgio (bateria) e o Edgar (baixo) se juntaram ao Afonso (guitarra, voz) e ao João (guitarra, teclas, voz), para dar corpo a uma coisa vagamente improvável, mas que resulta claramente e que em estúdio funciona porque lá brincam como putos irrequietos no parque infantil e ao vivo também já que nos concertos a ideia é que a energia da lua no alcatrão quente suba pelos pedais até ao volante e exploda de modo a que o público e a banda comunguem raivas e melodias.

Confere All The Morningsum jogo de reflexos e um irónico lamento contra o tic tac do relógio, duas ideias que nos são induzidas através de uma composição vibrante, de pêlo na venta, mas também com um travo melódico particularmente aditivo e fica a contar, lá para o início da primavera, com um disco de estreia com calmas músicas prontas a explodir, lentamente, a mil à hora, com suavidade e rugidos de guitarras zangadas e pianos falsamente corteses, de rudes baixos a conversar com educadas baterias.

 


autor stipe07 às 13:20
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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2019

The Lemonheads – Varshons II

Dez anos depois de Varshons, a compilação de covers que continha composições da autoria de Gram Parsons, Wire, GG Allin, Leonard Cohen e Christina Aguilera, entre outros, os norte-americanos Lemonheads de Evan Dando estão de regresso às covers com o segundo capítulo dessa saga. Varshons II inclui versões de clássicos do calibre de Take It Easy dos Eagles, Straight To You de Nick Cave & The Bad Seeds, Speed of the Sound of Loneliness de John Prine, Abandoned de  Lucinda Williams e Can't Forget dos Yo La Tengo, o tema escolhido para single de apresentação deste registo de treze canções, que também inclui revisitações de originais dos Jayhawks, Florida Georgia Line, NRBQ, Paul Westerberg, The Eyes e Bevis Frond, entre outros.

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Esta banda de Boston tem uma carreira de mais de trinta anos firmada em oito discos que nos levam facilmente e num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, à boleia de uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, particularmente luminoso e que acaba por se tornar até viciante. E a responsabilidade desta tela impressiva que inclui registos do calibre de Hate Your Friends (1987), Lovely (1990) ou Come On Feel The Lemonheads (1993), só para citar alguns dos exemplos mais emblemáticos da discografia dos Lemonheads, é a versatilidade instrumental de Dando, líder incontestável do projeto desde o início, à vontade seja no baixo, na guitarra ou na bateria e a capacidade que sempre teve de se rodear de intérpretes sonoros igulamente exímios, nomeadamente a baixista Juliana Hatfield e o baterista australiano David Ryan, dupla com quem gravou It's A Shame About  Ray (1992), outro álbum fundamental do cardápio do projeto. Ben Deily, com quem teve graves problemas de relacionamento por questões de ego que estiveram perto de ser esgrimidas na justiça, foi outro nome importante para a afirmação dos Lemonheads como banda fundamental da universo indie norte-americano da última década do século passado.

Esta saga intitulada Varshons, que vê agora o segundo capítulo, dez anos depois do primeiro, como já referi, acaba por ser uma opção natural por parte de um músico que sente necessidade de homenagear algumas das suas principais referências, fazendo-o, neste Varshons II, através de um modus operandi baseado na sua companheira mais fiel, a guitarra, que serve de base melódica às composições, acompanhada por um baixo exemplar no modo como se alia a ela para marcar as várias nuances rítmicas de temas que se espraiam pelos nossos ouvidos algo preguiçosamente. Assim, da vibe soalheira e etérea de Can't Forget, que depois também pisca o olho ao reggae, imagine-se, em Unfamiliar, passando por aquele rock genuínuo e tipicamene americano que todos reconhecemos e que é audível em Settled Down Like Rain, Things e Abandoned, até ao festim garage de Old Man Blank e com travo punk em TAQN e à folk intimista de Speed Of The Sound Of Loneliness e mais efusiva de Now And Then, assim como ao swing de Magnet e à crua acusticidade de Round Here, os Lemonheads homenageiam mas também provam a relevância que os originais ainda têm enquanto saciam o nosso desejo de ouvir algo descomplicado mas que deixe uma marca impressiva firme e de simples codificação. Varshons II é, portanto, um daqueles discos que esconde a sua complexidade na simplicidade e estas boas canções mostram como é bonito quando o rock pode ser básico e ao mesmo tempo encantador, divertido e melancólico, sem muito alarde. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Can’t Forget
02. Settled Down Like Rain
03. Old Man Blank
04. Things
05. Speed Of The Sound Of Loneliness
06. Abandoned
07. Now And Then
08. Magnet
09. Round Here
10. TAQN
11. Unfamiliar
12. Straight To You
13. Take It Easy


autor stipe07 às 17:21
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2019

LCD Soundsystem – Electric Lady Sessions

Quase ano e meio depois do excelente álbum American Dream, a primeira etapa do segundo fôlego da carreira dos LCD Soundsystem, o projeto nova- iorquino liderado por James Murphy volta à carga com o seu terceiro álbum ao vivo, um registo intitulado Electric Lady Sessions, que viu a luz do dia recentemente através da DFA Records, etiqueta de Murphy em parceira com a Columbia Records. Electric Lady Sessions foi, como o nome indica, gravado nos estúdios com esse nome, situados em Manhattan e que já foram de Jimmy Hendrix, durante a digressão de promoção a American Dream.

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Depois de London Sessions (2010) e The Long Goodbye (2014), Electric Lady Sessions é o terceiro registo dos LCD Soundsystem ao vivo e nele são captados os mais recentes arranjos que a banda induziu nos seus originais, grande parte deles pertencentes ao alinhamento de American Dream, de modo a criar nos seus concertos um ambiente enérgico, festivo e dançante, mas também que proporcione momentos de algum pendor mais reflexivo, nomeadamente acerca do modo como Murphy vê a América que atualmente tanto o inquieta. De certa forma é como se Murphy pegasse numa espécie de versão 2D de algumas das canções mais emblemáticas do catálogo LCD e lhes desse uma faceta tridimensional e mais encorpada, em suma, com outra substância, espaço e textura.

No travo oitocentista impressivo e tremendamente nostálgico, quer do baixo quer das teclas de Seconds, no modo como carregou o fuzz das sintetizações em American Dream, no clima saturado e rugoso da efusiva e lasciva Tonite, nas camadas sonoras sintéticas que são acrescentadas ao arquétipo de Home e que ampliam a emotividade da canção e na liberdade que é dada ao baixo de Tyler Pope para recriar em I Used To um clima ainda mais ritmado e visceral do que o original, fica patente esta ideia de amplificação do festim, numa banda sempre disposta a levar o garage rock numa direção eminentemente dançável e psicadélica. Já agora, Tyler volta a mostrar toda a sua versatilidade e superior capacidade interpretativa aos comandos do baixo na versão de I Want Your Love, um original com quarenta anos da autoria dos norte-americanos Chic de Nile Rodgers e Bernard Edwards e que também impressiona pela participação vocal da teclista Nancy Whang. Outra cover audível neste Electric Lady Sessions é uma reinterpretação de (we don’t need this) fascist groove thang, um original de mil novecentos e oitenta e um dos britânicos Heaven 17, de Martyn Ware, Ian Craig Marsh e Glenn Gregory e escolhida por Murphy para fazer parte da digressão de American Dream com o intuíto de reforçar a sua opinião relativamente ao atual presidente do seu país, numa espécie de gloriosa celebração do que é viver num país que nunca se cansa de apregoar que lidera os destinos do mundo. 

O âmago de Electric Lady Sessions acaba por estar no espetacular baixo (Tyler novamente) e no pendor exaltante dos sintetizadores e da batida crescente de Call The Police, nuances que acabam por fazer desta canção uma espécie de tema aglutinador perfeito de todo este receituário live, um tema onde é possível descobrir razões para dançar de olhos fechados e a sorrir enquanto se pensa na vida e naquilo que mais nos consome e inquieta.

Disco que exige várias audições para ser devidamente compreendido, até porque vive muito deste apelo constante, mas nem sempre explícito, à festa, Electric Lady Sessions acaba por ser o documento ao vivo mais essencial no catálogo do LCD Soundsystem. Ao longo das suas doze composições, a gravação consegue dar uma ideia clara do que é estar presente num concerto do grupo e resgatar os momentos marcantes do disco que marcou o regresso da banda ao ativo, mas também lembrar os ouvintes da imponência e vitalidade dos sucessos anteriores. Para quem acompanha a carreira desta banda nova iorquina há qwuase duas décadas, escutar Electric Lady Sessions ensina-nos que nunca é tarde para recomeçar e que os anos podem passar por nós, mas o nosso espírito pode manter-se amplamente jovial e criativo, mesmo que isso suceda de modo menos intuitivo, mas mais refletido, maduro e consciente. É assim, de certo modo, a melhor descrição que se pode fazer destes renovados LCD Soundsystem como entidade e como entertainers de serviço. Espero que aprecies a sugestão...

LCD Soundsystem - Electric Lady Sessions

01. Seconds
02. American Dream
03. You Wanted A Hit
04. Get Innocuous
05. Call The Police
06. I Used To
07. Tonite
08. Home
09. I Want Your Love
10. Emotional Haircut
11. Oh Baby
12. (We Don’t Need This) Fascist Groove Thang


autor stipe07 às 17:33
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2019

Flak - Verão

Com uma carreira de mais de três décadas durante a qual incubou e encabeçou bandas tão importantes do universo indie nacional como os Radio Macau ou os Micro Audio Waves, Flak tem também um projeto a solo que começou há exatamente vinte anos com um homónimo que tem finalmente sucessor. Cidade Fantástica é o seu novo registo de originais em nome próprio, um alinhamento de dez canções que viu a luz do dia no final do passado mês de outubro e que foi gravado no mítico Estúdio do Olival, local onde o músico gravou e produziu vários discos, não só das suas bandas, mas também de Jorge Palma, Entre Aspas e GNR, entre muitos outros.

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O mais recente single divulgado de Cidade Fantástica é Verão, uma música que conta com a participação especial vocal de Mariana Norton e que em si é um delicioso tratado de indie pop, assente numa bateria grave e compassada, uma guitarra em contínuo e inquieto frenesim e teclas com efeitos cósmicos, em suma, uma soul contemplativa que sobrevive num terreno experimental e até psicadélico e onde a fronteira entre a sua heterogeneidade instrumental e melódica e um apenas aparente minimalismo estilístico é muitas vezes indecifrável. Sobre Verão o autor refere no seu press release de lançamento:

O Verão é uma canção sobre o mundo fantástico em que vivemos. Não há nenhum que se assemelhe no sistema solar. Temos montanhas mares cores pássaros que cantam nas árvores, um céu estrelado. Provavelmente não existirá nenhum igual no Universo a não ser que existam Universos paralelos. A realidade não existe. A realidade é aquilo que nós queremos ver. Nós é que fazemos a nossa realidade. Quem reflectir um pouco sobre a beleza das coisas e a nossa pequenez, há de lhe sobrar menos tempo e vontade de odiar o vizinho ou aqueles que não são como ele.

No próximo dia 23 de Fevereiro, Flak actuará, com a sua banda, no Teatro de Vila Real, no âmbito do Festival Boreal, com várias datas na primavera e no verão a serem divulgadas em breve. Confere...

https://www.facebook.com/flakoficial/

https://www.instagram.com/surreal_flak/

https://www.youtube.com/channel/UCgcj_xLwGtOj5l0PuVoFnjg 


autor stipe07 às 10:17
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2019

Cage The Elephant – Ready To Let Go

Cage The Elephant - Ready To Let Go

Já tem sucessor Tell Me I'm Pretty, o álbum que os norte americanos Cage The Elephant, de Matt Schultz (voz), Brad Schultz (guitarra), Jared Champion (bateria), Daniel Tichenor (baixo) e Lincoln Parish (guitarra), lançaram no final de dois mil e quinze e que na altura nos conduziu por uma verdadeira road trip, à boleia das cordas, da bateria e do sintetizador, uma viagem lisérgica que contou com um complemento de versões acústicas dois anos depois, intitulado Unpeeled. Social Cues é o nome do quinto e novo registo discográfico desta banda oriunda de Bowling Green, no Kentucky, vai ver a luz a dezanove de abril próximo, foi produzido por John Hill e Ready To Let Go é o primeiro single divulgado de um alinhamento de treze temas que conta com a participação especial de Beck na canção Night Running.

A composição deste novo álbum dos Cage The Elephant é bastante inspirada no final de uma relação amorosa de Matt Schultz, que criou nas letras que escreveu para alguns dos temas personagens que recriam eventos e pensamentos da sua história pessoal mais recente. Ready To Let Go insere-se nesse rol de temas autobiográficos e sonoramente balança entre a típica rugosidade do rock feito sem adereços desnecessários, mas que impressiona pela forma como as cordas são manuseadas e produzidas e a calorosa e acústica pop, misturada com um salutar experimentalismo psicadélico. O single tem também já direito a um vídeo que foi pensado pelo próprio Matt, dominado pelo vermelho, preto e branco e onde se pode observar uma espécie de ritual bizarro, onde não faltam lágrimas de sangue, fatos exótics, danças peculiares. Confere...


autor stipe07 às 10:37
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2019

Kakkmaddafakka – Runaway Girl

Kakkmaddafakka - Runaway Girl

Ativos desde dois mil e quatro, sedeados em Bergen, na Noruega, e formados por Axel Vindenes, Pål Vindenes, Stian Sævig, Kristoffer Wie van der Pas, Lars Helmik Raaheim-Olsen e Sebastian Kittelsen, os  Kakkmaddafakka estrearam-se nos discos em dois mil e sete com Down To Earth e contam já com quatro registos no seu cardápio, sendo o último Hus, um trabalho lançado há cerca de dois anos e que irá ter sucessor ainda este ano, um alinhamento a ser lançado pela Bergen Mafia Records e produzido por Matias Tellez. De acordo com a banda, este quinto álbum dos Kakkmaddafakka será o mais intimista e honesto do grupo, porque se inspira bastante em Bergen e porque aborda temáticas relacionadas com problemas de saúde mental, pelos vistos na ordem do dia em muitas bandas e projetos, como tem sido possível verificar nas publicações mais recentes deste blogue. 

Depois do tema Naked Blue, Runaway Girl é o mais recente single conhecido desse novo album dos Kakkmaddafakka, um trabalho sem nome anunciado mas já com data prevista, vinte e dois de março. Runaway Girl é uma luminosa e imponente canção sobre um amor proibido, assente num sintetizador cintilante, numa percussão frenética e numa guitarra plena de reverb, um receituário eminentemente pop com um resultado final que nos remete para a melhor herança de nomes como os The War On Drugs ou os Friendly Fires, só para citar os projetos que saltam logo ao ouvido durante a audição do tema. Confere...


autor stipe07 às 10:37
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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019

The Moth And The Flame – Ruthless

Cerca de três anos depois de Young & Unafraid, disco que preservava a sonoridade pop atmosférica do registo homónimo de estreia, lançado em 2012, porque tinha canções que nos envolviam em ambientes etéreos, mas com uma sonoridade mais direta e rugosa, os The Moth & The Flame de Brandon Robbins, Mark Garbett e Andrew Tolman estão de regresso aos lançamentos discográficos com Ruthless, um alinhamento de onze temas produzido pelos premiados Peter Katis (Interpol, The National, Middle Kids) e Nate Pyfer (Kaskade), e que viu a luz do dia através da Thirty Tigers.

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Ruthless marca o fim de um longo hiato dos The Moth And The Flame, um período muito marcado pela doação por Robbins de um rim a Corey Fox, um dos grandes fâs da banda e dono do Velour, uma sala de espetáculos em Provo, no Utah, terra natal da banda e onde o trio deu os primeiros concertos, que foram muito importantes numa fase inicial da carreira. Este é um disco muito marcado pelo ideário da depressão, com várias canções que abordam diretamente essa temática, logo a começar no single The Great Depression, que abre estrategicamente o registo, uma canção sobre os demónios que todos temos dentro de nós e que temos de enfrentar diariamente, muitas vezes sem que os outros que nos são mais próximos se apercebam. Este tema é uma espécie de apelo por parte dos The Moth And The Flame para que cada m de nós, nos momentos de maior dificuldade interior, nunca se isole e procure ajuda e conforto nos nossos melhores amigos e confidentes, porque todos temos sempre alguém a quem recorrer.

Sonoramente, ao longo de Ruthless a banda pega firmemente no seu som e usa-o como se fosse um pincel para criar obras sonoras carregadas de pequenos mas preciosos detalhes intrigantes, interessantes e exuberantes. Muitas vezes um simples detalhe fornecido por uma corda, como é o caso do dedilhar no single já citado, uma tecla ou uma batida aguda dão logo uma cor imensa às canções e a própria voz, que tanto pode oscilar por um registo grave sussurrante até notas mais agudas e estridentes e na mesma composição, serve, frequentemente, para transmitir essa ideia de exuberância e sentimento.

De facto, além da sapiência melódica e estrutural que conduz The Great Depression, claramente o grande destaque de Ruthless, canções como Only Just Begin, uma ode ao rock oitocentista nostálgico e efusiante e a lindíssima balada Wait Right Here, que impressiona pela beleza planante do piano e da flauta e pela lisura das cordas, sendo composições díspares, atestam a elevada abrangência e maturidade de um trio cada vez mais disponível para descolar da zona de conforto sonora dos dois primeiros trabalhos, para ir partir em busca de ambientes igualmente épicos, mas com uma instrumentalização ainda mais diversificada.

indie rock que plana entre a experimentação, o psicadelismo e ambientes algo progressivos mantém-se, assim, como elemento ativo de um arquétipo de onde também sobressai uma presença ainda mais forte da sintetização do que o registo anterior, uma tendência que Beautiful Couch, uma das canções mais impetuosas e viscerais do registo, imprime de modo bastante impressivo.

Seja como for, este é, claramente, um trabalho liderado pelas guitarras, um registo onde este instrumento acaba por ser o grande eixo orientador do processo de construção sonora, num alinhamento em que se ouve canções melodicamente intuitivas e ao mesmo tempo complexas, no modo como nos oferecem variações, ruídos e efeitos variados. Existiu, sem dúvida, um aturado trabalho de produção, nenhum detalhe foi deixado ao acaso e houve sempre a intenção de dar algum sentido épico e grandioso às canções, arriscando-se o máximo até à fronteira entre o indie mais comercial e o teste de outras sonoridades.

Ruthless é, em suma, um registo que pega nas experiências pessoais mais recentes do grupo e nas típicas agruras e peripécias de quem nem sempre se sente confortável com o mundo em redor, para incubar uma espécie de manual de auto ajuda para quem vive mentalmente deprimido, ao mesmo tempo que dá vida à nova filosofia interpretativa dos Moth And The Flame, mais eclética, abrangente e sofisticada. Além das composições já referidas, basta escutar a toada negra e intrincada de What Do I Do, as guitarras agrestes e o baixo impulsivo de Ozymandias ou o sumptuoso exercício percurssivo que alicerçou a emotividade que transparece de Do What You Love, para se perceber uma busca pela construção de hinos, mas também por encetar uma caminhada firme e triunfante rumo a um território mais negro, sombrio e encorpado, através de um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que seduz este grupo norte-americano. Espero que aprecies a sugestão...

The Moth And The Flame - Ruthless

01. The New Great Depression
02. Only Just Begun
03. Wait Right Here
04. Beautiful Couch
05. What Do I Do
06. Do What You Love
07. Ozymandias
08. Red Rising
09. What Do I Do (Continued)
10. Eliza Eden
11. Lullaby IV


autor stipe07 às 08:33
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Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2019

Jaws – Do You Remember?

Jaws - Do You Remember

Será a cinco de abril quie irá chegar aos escaparates The Ceiling, o novo registo de originais dos Jaws de Connor Schofield. Este novo registo do trio de Birmingham foi produzido por Gethin Pearson e Do You Remember? é o mais recente single extraído do registo.

Do You Remember? é uma canção onde o trio põe prego a fundo no pedal da distorção de modo a criar uma composição que encontra as suas raízes sonoras no típico rock alternativo de final do século passado, mas com um travo shoegaze muito apetecível. De facto, a canção é fruto de uma produção cuidada que, nunca disfarçando a intensidade e o vigor elétrico, também demonstra uma atitude corajosa por parte dos Jaws de quererem conciliar limpidez e capacidade de airplay radiofónico, sem que isso castre a extraordinária capacidade criativa que o grupo demonstra possuir, sempre com a objetiva direcionada para o universo sonoro já referido e que tem muitas vezes na sujidade de guitarras efusiantes, numa percurssão trememendamente intuitiva e ritmada e num baixo imponente, fortes aliados e mais valias. Confere palavras recentes de Connor Schofield acerca deste novo single dos Jaws e o áudio do mesmo...

This song is a self observation of my social anxiety, and how i always compare ourselves to others when i should be working out how to be more comfortable in my own skin. Musically i think I’ve managed to merge my love for bands like The Cure and bands like Title Fight quite well on this one and its definitely one of my favourites on the record that i’m very much looking forward to playing live.


autor stipe07 às 16:18
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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019

Steve Mason - About The Light 

O escocês Steve Mason esteve recentemente ocupado com a reedição em vinil do catálogo dos seus Beta Band, mas está novamente focado na sua carreira a solo, à boleia de About The Light, o quarto registo de originais do seu cardápio. Gravado em vários estúdios de Londres e Brighton, com a ajuda do mítico Stephen Street, que trabalhou com os Blur e os The Smiths, About The Light viu a luz do dia a dezoito de janeiro último e sucede aos aclamados trabalhos Boys Outside (2010), Monkey Minds In The Devil’s Time (2013) e o antecessor Meet The Humans (2016).

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Steve Mason parece estar destinado a tornar-se numa figura de culto do cenário indie britânico. Tal como muitos parceiros de luta muitas vezes catalogados de egocêntricos, foi-lhe diagnosticado em tempos um síndrome de distúrbio mental, que tem tentado contrariar desde o surpreendente registo Boys Outside, de dois mil e dez. Nesse álbum Mason fez uma espécie de mea culpa acerca da necessidade que foi sentido, ao longo da sua vida, de vestir uma determinada capa perante o grande público e nele, além de debruçar-se, com particular clarividência, sobre essa questão em concreto, também o faz, imagine-se, sobre a realidade política dessa época, no fundo uma estratégia igual a tantas outras, mas eficaz, de aproximação ao público e de quebrar barreiras. O passo seguinte deste exercício de exorcização e de busca de uma normalidade quotidiana deu-se há dois anos, durante o processo de gravação de Meet the Humans. Durante a escrita desse álbum Mason deixou de vez o seu refúgio escocês em Fife, numa zona florestal e mudou-se para a urbanidade de Brighton, em Inglaterra, onde encontrou parceira e enfrentou, inesperadamente, a dura mas feliz batalha da paternidade.

A nova realidade pessoal, mais feliz, estável e adulta de Mason, acaba por se refletir no conteúdo de About The Light, o seu Brighton Album, como o músico também gosta de o intitular, um disco que sonoramente coloca as fichas na melhor herança da britpop noventista e que mostra um som eminentemente experimental, como é suposto tendo em conta o adn deste músico, mas claramente mais acessível que o universo sonoro algo intrincado e frequentemente sofisticado dos Beta Band.  De facto, temas como o single Walking Away From Love, canção com uma sonoridade bastante efusiva e radiofónica, cimentada num rock melodicamente aditivo e assente em cordas exuberantes e a acusticidade charmosa das cordas e dos metais de America Is Your Boyfriend, dão este cunho muito british ao conteúdo de About The Light. Mas depois,a toada melódica de Rocket, canção sobre o tal problema mental do músico, mas que mostra um Mason confiante sobre o seu eu e a toada blues do piano que conduz o tema homónimo, oferecem-nos um artista sem medo do óbvio, ou seja, além de serem canções que plasmam a filosofia interpretativa de um músico que mostra a sua maturidade sem tentar inventar de novo a roda, são o espelho fiel de alguém que dá um passo seguro em frente na sua já longa e respeitável carreira porque renova, potencia e embeleza o seu modus operandi, canalizando o momento positivo pessoal que vive para a felicidade que sente em compôr de modo simples e direto, mas também, bonito, confidente e gentil. Espero que aprecies a sugestão...

Steve Mason - About The Light

01. America Is Your Boyfriend
02. Rocket
03. No Clue
04. About The Light
05. Fox On The Rooftop
06. Stars Around My Heart
07. Spanish Brigade
08. Don’t Know Where
09. Walking Away From Love
10. The End


autor stipe07 às 13:21
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2019

Dan Mangan – Losing My Religion

Dan Mangan - Losing My Religion

Depois de ter lançado o ano passado o excelente More or Less, o seu último registo de originais, o canadiano Dan Mangam acaba de disponibilizar uma cover do clássico Losing My Religion, um original dos norte-americanos R.E.M. Esta revisitação do original da banda de Michael Stipe também pode ser escutada no trailer da série da  CBC/AMC TV Unspeakable, de cujos créditos Dan Mangan faz parte.

De acordo com o músico de Vancouver, Losing My Religion, um enorme e inesperado éxito da banda de Athens, na Georgia, incluído no alinhamento de Out Of Time (1991), faz parte do seu imaginário infantil e foi sempre uma canção à qual Dan quis dar um cunho pessoal. Acabou por fazê-lo explorando-a através de um ângulo mais etéreo e homenagendo dessa forma o original, sem o querer replicar (When I was a kid, R.E.M. was a staple in my household. I remember air guitaring to this song with my brother and sister. It was such a massive hit but also so unlikely a candidate to be so. The chorus isn't really a chorus. It's long. It's repetitive. It's like a hypnotic cyclical trance of words that stick with you even if you have no idea what they're about. I really wanted to try and approach it from a new angle. There's no point in attempting to sing like Michael Stipe — there is only one Michael Stipe. So I tried my best to let it live in a new light while paying homage to the original.).

O canadiano acabou por dar asas a essa vontade antiga de reinterpretar Losing My Religion de um modo bastante curioso, sem descurar a veia acústica e a folk que escorre do seu cardápio sonoro habitual, mas conjugadas com uma faceta pop assente em arranjos e orquestrações de cariz classicista que deram à versão uma imponência e um nível de refinamento superiores. Confere...


autor stipe07 às 10:42
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2019

Lambchop – Everything For You

Lambchop - Everything For You

Depois de FLOTUS, o disco que os Lambchop editaram em dois mil e dezasseis, Kurt Wagner, o grande mentor deste projeto norte-americano sedeado em Nashville e ao qual se juntam atualmente o baixista Matt Swanson e o pianista Tony Crow, fez uma cover para o clássico When You Were Mine de Prince e realizou um mini-documentário em Colónia, onde juntamente com seis músicos alemães reinterpretou temas de FLOTUS.

Quase no ocaso de dois mil e dezoito, os Lambchop começaram a revelar detalhes de This (is what I wanted to tell you), um trabalho que irá ver a luz do dia a vinte e dois de março próximo à boleia da City Slang, em parceria com a Merge Records e que, além do trio, também conta nos créditos com Matt McCaughan, reconhecido pelo seu excelente trabalho percurssivo em projetos como os Hiss Golden Messenger e Bon Iver.

Depois de os Lambchop terem revelado a amostra The December-ish You, canção com uma tonalidade particularmente íntima e a exalar uma desarmante sensibilidade, agora chegou a vez de ficarmos a conhecer Everything For You, o terceiro tema do alinhamento de This (is what I wanted to tell you), uma composição que segue a linha melódica e estilística que tem marcado os últimos registos dos Lambchop, cada vez mais enredados em paisagens onde jazz e eletrónica se misturam com superior elegância.

This (is what I wanted to tell you) é, tecnicamente, o décimo terceiro registo dos Lambchop desde o álbum de estreia em mil novecentos e noventa e quatro, mas está a ser anunciado por Wagner, pelos vistos por uma questão de superstição, como o décimo quarto da carreira do grupo (Like all the other tallest buildings in the world, Lambchop skips No. 13), This (is what I wanted to tell you). Confere Everything For You, canção descrita por Wagner desta forma - a collection of imperfections on the road to a better day - e o espetacular vídeo realizado para o tema da autoria de Jonny Sanders....


autor stipe07 às 13:36
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Sábado, 26 de Janeiro de 2019

Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow

Quase meia década depois do excelente e melancólico Are We There, e com o nascimento de uma filha pelo meio e a participação nas séries The OA e Twin Peaks como atriz, Sharon Van Etten está de regresso aos discos com um trabalho intitulado Remind Me Tomorrow. Este disco com dez temas é o quinto alinhamento da carreira da autora e compositora norte americana, natural do Tennessee e foi lançado à boleia da Jagjaguwar, tendo sido produzido pela própria e pelo reputado John Congleton.

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Sempre resistente, inventiva e apaixonada, em Remind Me Tomorrow Sharon Van Etten volta a surpreender-nos com a sua voz inconfundível e a sua capacidade única de conseguir fazer-nos crer na nossa capacidade de perseguirmos os nossos sonhos mais verdadeiros, neste caso através de um disco repleto de energia e emotividade e onde a autora encara novamente o ouvinte como uma espécie de amigo e confindente. Fá-lo de modo genuíno e até, em alguns temas, desarmante, ou seja, de modo a não deixar quem a escuta indiferente à sua mensagem e aos seus apelos, quase sempre relacionados com a temática daquele amor que não resultou e do modo como a autora se sente frequentemente infeliz ou desiludida com o mundo que a rodeia.

De facto, Remind Me Tomorrow soa a mais um capítulo desta sua saga pessoal, o quinto álbum da carreira de uma cantora e compositora que com uma mão na indie folk e a outra no rock alternativo e também na eletrónica, letra após letra, verso após verso, abre-se connosco enquanto discute consigo mesma e coloca-nos na primeira fila de uma vida, a sua, que acontece mesmo ali, diante de nós.

Ao longo destas dez canções, Sharon construiu belíssimas melodias pop que se entrelaçaram com as letras e com a sua voz marcante com enorme mestria, num disco que palpita uma notória sensação instintiva, como se ela tivesse deixado fluir livremente tudo aquilo que sente e já descrevi e assim potenciado a possibilidade de nos emocionarmos genuinamente com estas canções. Temas como Seventeen, sobre a sempre difícil transição da juventude para a vida adulta numa cidade como Nova Iorque, I Told You Everything, uma canção que descreve uma amargurada conversa de balcão, ou Stay, dedicado à filha, são excelentes exemplos deste exercício algo dramático de partilha, assim como a ode ao romantismo feita em No One’s Easy To Love e os factos descritos em Comeback Kid,  uma canção que instrumentalmente impressiona pela inserção de uma vertente sintética algo inédita na carreira da Etten, que se repete impressivamente em Jupiter 4, e que relata memórias da sua infância despertadas durante uma visita a casa dos pais.

Em suma, Remind Me Tomorrow marca uma nova etapa na carreira discográfica de Sharon Van Etten, principalmente no modo como olha com maior gula para o sintético e aprimora o uso dessa vertente estilística na sua habitual folk tipicamente americana e sulista. Tematicamente, a poetisa mantém o tom intimista e comunicativo, mas fá-lo com uma ainda maior profundidade, fruto certamente das mudanças vividas na sua vida na última meia década e que a tornaram ainda mais sapiente, instruída e rica no modo como disserta e reflete sobre a sua existência. Espero que aprecies a sugestão...

Sharon Van Etten - Remind Me Tomorrow

01. I Told You Everything
02. No One’s Easy To Love
03. Memorial Day
04. Comeback Kid
05. Jupiter 4
06. Seventeen
07. Malibu
08. You Shadow
09. Hands
10. Stay


autor stipe07 às 10:37
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

Vampire Weekend – Harmony Hall vs 2021

Mais de meia década depois do excelente Modern Vampires of the City, disco lançado em dois mil e treze, os Vampire Weekend de Ezra Koenig, Rostam Batmanglij, Chris Baio, Chris Tomson, Greta Salpeter, estão finalmente de regresso aos lançamentos discográficos com Father Of The Bride, o quarto disco da carreira do grupo de Nova Iorque, ainda sem data de lançamento definida mas certamente neste ano de dois mil e dezanove.

Resultado de imagem para Vampire Weekend Harmony Hall 2021

De acordo com Ezra Koenig, Father Of The Bride será um disco duplo com dezoito composições e um terço do alinhamento deste lançamento será divulgado ao grande público no primeiro semestre deste ano, tendo esse processo já dado o pontapé de saída com Harmony Hall e 2021, os dois primeiros temas disponibilizados do novo álbum dos Vampire Weekend.

Das duas canções, o grande destaque vai, claramente, para Harmony Hall, uma lindíssima composição conduzida por um inspirado piano pleno de charme e de contemporaneidade, acompanhado por cordas radiantes, num exercício de simbiose que de forma experimental e criativa sustenta uma melodia pop com um certo cariz épico e melancólico e que nas suas nuances rítmicas se divide constantemente entre a simplicidade e a grandeza dos detalhes, um exercício de composição assertivo e particularmente radiante. Já 2021 é uma pequena peça sonora intimista, sustentada num curioso sintetizador minimalista e numa guitarra com um efeito metálico muito peculiar. Confere...

Vampire Weekend - Harmony Hall - 2021

01. Harmony Hall
02. 2021


autor stipe07 às 10:39
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

Beck – Tarantula

Beck - Tarantula

Quando nos últimos dias foram conhecidas as nomeações para edição deste ano dos Óscares, o filme Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, que também o produziu, co-editou e cinematografou e protagonizado por Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Marco Graf, Daniela Demesa, Enoc Leaño e Daniel Valtierra, tornou-se, desde logo, num nome de peso no quadro final de nomeados, com as suas dez nomeações, entre elas as de Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Atriz, que o colocam na pole position para ser o grande vencedor da edição deste ano dos prémios de cinema de Hollywood. Curiosamente, ou talvez não, Roma não foi nomeado para a estatueta da melhor banda sonoroa original, exatamente porque as canções que escutamos durante o filme não são originais criados propositadamente para o drama.

Seja como for, ultimamente alguns artistas têm criado e revisitado temas inspirados no argumento de Roma, com When I Was Older, de Billie Eilish, a ser um desses casos. E, no seguimento destas recriações sonoras, a Sony prepara-se para  lançar um álbum intitulado Music Inspired By The Film Roma, uma compilação que além de conter essa composição de Eilish, também conta com contributos de, entre outros, Patti Smith, El-P, Wilder Zoby, Laura Marling, DJ Shadow, Ibeyi, UNKLE e Beck que, para este alinhamento, recriou um clássico de synth pop de mil novecentos e oitenta e três, intitulado Tarantula, da autoria dos Colourbox.

O original com trinta e seis anos é um tratado de reggae new wave com uma toada eminentemente contemplativa, onde sobressai o baixo de Jason Falkner. Na cover de Beck, onde se escutam nos coros as vozes de Leslie Feist e Alex Lilly, foi mantida a essência do original, sem o artista deixar de lhe dar o seu cunho pessoal, num resultado final que ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop atual, e onde é indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas muito presentes na herança do músico natural de Los Angeles. Confere...


autor stipe07 às 12:33
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2019

Foals – Exits

Foals - Exits

Quase quatro anos depois de What Went Down, os Foals anunciam dose dupla para dois mil e dezanove com o lançamento de Everything Not Saved Will Be Lost Part 1, já a oito de março e Everything Not Saved Will Be Lost Part 2, lá mais para o outono. Exits é o single já retirado do primeiro capítulo desta saga discográfica da banda de Oxford em dois mil e dezanove, uma canção com direito a um vídeo realizado por Albert Moya.

Os dois últimos registos dos Foals, Holy Fire (2013) e What Went Down (2015), mostraram um lado intrincado do grupo e um rumo sonoro que buscou territórios mais negros, sombrios e encorpados do que os registos iniciais da banda, mas Exits indica, claramente, que as guitarras experimentais de Antidotes parecem ter sido recuperadas durante o processo de gravação de Everything Not Saved Will Be Lost Part 1. Com uma atmosfera pop oitocentista bastante vincada e plena de groove, este tema, cheio de efeitos borbulhantes e coloridos nas cordas, sabe a uma espécie de bálsamo retemperador, um travo ampliado pelo habitual tribalismo percussivo dos Foals, que adoram convidar-nos a um abanar de ancas intuitivo e capaz de nos libertar de qualquer amarra ou constrangimento. Confere...


autor stipe07 às 15:55
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Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2019

Wild Nothing – Blue Wings

Wild Nothing - Blue Wings

Depois de Gemini (2010), Nocturnal (2012) e Life Of Pause (2016), Jack Tantum, um músico, artista e compositor norte americano, oriundo da Virgínia, que assina a sua música como Wild Nothing, lançou o ano passado Indigo, o seu quarto registo de originais, mais um alinhamento de canções cheio de exuberância, cor e texturas e possibilidades ilimitadas que distingue-se das demais do género, porque proporciona-nos um manancial de interpretações físicas, psíquicas e sensoriais incomum. Eram, em suma, onze canções abrigadas numa indie pop que sustenta versos confessionais que crescem em cima de massas acolhedoras de ruídos e agregados sonoros alegres e cheios de luz, que vêm agora um novo acrescento com o tema Blue Wings, disponibilizado pelo autor estes dias com a ajuda de Ben Talmi e que tendo sido arquitetado durante o período de gravação dos temas de Indigo, acabou por não constar do seu alinhamento.

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Assente numa melodia que se cola aos nossos ouvidos sem qualquer pudor, Blue Wings aposta todas as fichas naquela indie pop eminentemente clássica, como se percebe não só na sua riqueza instrumental, mas também nos efeitos robustos da guitarra, na pujança do sintetizador e na sobriedade da percussão, variáveis imprescidindíveis na adição à composição de uma indisfarçavel grandeza e epicidade.

Tematicamente, Blue Wings reforça a permissa de que Tantum é um verdadeiro prodígio na criação de canções que, estando envolvidas por um embrulho melódico animado, debruçam-se sobre sentimentos plasmados em letras às vezes amarguradas, como sucede nesta canção sobre o modo como o outro, que nos ama, nos pode ajudar a percebermos melhor aquele lado mais oculto e inseguro que todos temos e que não sendo devidamente destrinçado pode levar a instantes de dúvida e desassossego. Confere Blue Wings e Indigo...


autor stipe07 às 14:45
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Domingo, 20 de Janeiro de 2019

The Drums – Body Chemistry

The Drums - Body Chemistry

Os norte-americanos The Drums lançaram há dois anos Abysmal Thoughts , o último registo deste projeto que se tornou, assumidamente, no trabalho a solo de Jonny Pierce. O ano passado este músico nova iorquino voltou a dar sinais de vida com o tema Meet Me In Mexico e agora, no início de dois mil e dezanove, anuncia finalmente um novo álbum. O próximo longa duração dos The Drums chama-se Brutalism, e vê a luz do dia na próxima primavera, à boleia da ANTI.

Body Chemistry é o primeiro single divulgado de Brutalism, uma canção muito pessoal em que Pierce aborda o modo como lidou com um diagnóstico recente de depressão (Maybe I’m depressed, Maybe I know too much about the world, about myself) e que sonoramente assenta numa curiosa simbiose entre o indie surf rock e a eletrónica chillwave, audível num curioso e bem sucedido jogo de interseções melódicas entre baixo e sintetizadores. Confere Body Chemistry e o alinhamento de Brutalism...

Pretty Cloud
Body Chemistry
626 Bedford Avenue
Brutalism
Loner
I Wanna Go Back
Kiss It Away
My Jasp
Blip Of Joy


autor stipe07 às 15:33
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Sábado, 19 de Janeiro de 2019

Galo Cant’Às Duas - Cabo da Boa Esperança

Moita, no concelho de Castro Daire, é um ponto geográfico nevrálgico fulcral para o projeto Galo Cant’às Duas, uma dupla natural de Viseu, formada por Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre e que tocou pela primeira vez nesse local, de modo espontâneo, durante um encontro de artistas. Nesse primeiro concerto, o improviso foi uma constante, com a bateria, percussões e o contrabaixo a serem os instrumentos escolhidos para uma exploração de sonoridades que, desde logo, firmaram uma enorme química entre os dois músicos.

Resultado de imagem para Galo Cant’Às Duas Cabo da Boa Esperança

Inspirados por esse momento único, Hugo e Gonçalo arregaçaram as mangas e há cerca de dois anos começaram a compor, ao mesmo tempo que procuravam dar concertos, sempre com a percussão e o contrabaixo na linha da frente do processo de construção sonora. A guitarra e o baixo elétrico acabam por ser dois ingredientes adicionados a uma receita que tem visado, desde Os Anjos Também Cantam, o disco de estreia do projeto editado na primavera do ano passado, a criação de um elo de ligação firme entre duas mentes disponíveis a utilizar a música como um veículo privilegiado para a construção de histórias, mais do que a impressão de um rótulo objetivo relativamente a um género musical específico.

Agora, cerca de ano e meio depois dessa estreia auspiciosa, os Galo Cant’Às Duas deixaram a guitarra em casa, olharam com maior gula para os sintetizadores e já colocaram nos escaparates o sempre difícil segundo disco, um trabalho chamado Cabo da Boa Esperança, que marca, claramente, um rumo mais abrangente, ousado e criativo para a dupla, algo que se percebe de imediato e com clareza no cortejo alegórico de distorções e diferentes nuances rítmicas que abastecem a jam session A Dança do Tempo, o tema de abertura do registo.

Cabo da Boa Esperança não mais levanta o pé do acelerador impressivo. O clima caleidoscópico que trespassa o sintetizador melódico de Coro a Cara, o indisfarçavel travo punk inicial de Guia do Fazer que depois se amansa para territórios mais etéreos, para voltar a carregar num ruído progressivo, ou o salutar experimentalismo psicadélico que brota do single Sobre Um Tanto Medo, uma canção sobre a ténue fronteira entre a ânsia de descobrir, ao medo de ser descoberto e que plasma a inegável ousadia e mestria instrumental da dupla, nomeadamente na percussão, deixam-nos de olhos e ouvidos em bico e à bica. E o festim prolonga-se nménage a trois desavergonhado e feito cópula, à vez, entre bateria, guitarra e sintetizador em Foto Grama e na espiral rugosa feita de flashes de samples, de alguns sopros que gostam de jogar ao esconde esconde, de uma guitarra em contínuo e inquieto frenesim e loops percussivos inquietos em Mudo, mais duas composições feitas para nos levar numa viagem de descoberta de um leque variado de extruturas e emoções que se vão sobrepondo e antecipando diversas quebras e mudanças de ritmo e fulgor.

Ao longo das oito canções de Cabo da Boa Esperança, mais do que ser-nos dada a possibilidade de descobrirmos o rumo certo da nossa jornada pessoal ou a fórmula infalível que nos vai levar para o lado certo da razão, é-nos facultada uma sequência muito física de sensações, através de um delicioso caldeirão sonoro onde as composições vestem a sua própria pele enquanto se dedicam, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que os autores designaram para cada uma, individualmente. E os Galo Cant’Às Duas fazem-no fervilhando de emoção, arrojo e astúcia, enquanto vêm potenciadas todas as suas qualidades, à medida que polvilham os trinta e cinco minutos de Cabo da Boa Esperança com alguns dos melhores tiques de variadíssimos géneros e subgéneros sonoros, cabendo, no desfile dos mesmos, liderados pelo chamado rock progressivo, indie rock, popfolk, eletrónica e psicadelia. Espero que aprecies a sugestão…


autor stipe07 às 11:33
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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2019

Deerhunter – Why Hasn’t Everything Already Disappeared?

Após quase década e meia de excelentes registos discográficos que têm vindo a consolidar uma das carreiras mais bem sucedidas e profícuas do indie rock experimental contemporâneo, os Deerhunter de Bradford Cox, Lockett Pundt, Moses Archuleta e Josh McKay, já têm finalmente o pronto seu tão aguardado oitavo registo de originais, um fabuloso álbum intitulado Why Hasn’t Everything Disappeared?, gravado em Marfa, no Texas, mítica localidade norte-americana que serviu de cenário a Giant (1956), o último filme protagonizado por James Dean. Este registo sucede a Fading Frontier (2015), vê a luz do dia à boleia da 4AD Records e foi produzido pela cantora e compositora galesa Cate Le Bon, com a ajuda da própria banda e dos produtores e engenheiros de som Ben H. Allen III e Ben Etter, que já tinham trabalhado com o grupo em discos anteriores.

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Mestres de um estilo sonoro bastante sui generis e que mistura alguns dos arquétipos fundamentais do indie rock, sempre com uma componente pop e que possa entroncar numa acessibilidade melódica que nem sempre está na linha da frente das bandas que se movimentam neste espetro sonoro mais underground, os Deerhunter oferecem-nos em Why Hasn't Everything Already Disappeared? mais um conjunto de experimentações sónicas que, não renegando, em alguns instantes, aquela toada lo fi, crua e pujante, feita também de quebras e mudanças de ritmos e momentos de pura distorção, também tentam, dentro de um salutar experimentalismo, adocicar os nossos ouvidos com melodias que misturem acessibilidade, diversidade e intrincado bom gosto, sempre com enorme eficácia.

Disco com dez canções com uma identidade muito própria, Why Hasn't Everything Already Disappeared? mostra logo os dentes na luminosidade do cravo que introduz os acordes de Death In Midsummer e no modo como o mesmo é dedilhado e flui de modo a receber de braços abertos a bateria e as guitarras. Nesta canção esbarramos com uma típica sonoridade rock setentista, um funk psicadélico particularmente alegre e bastante dançável, pensado por um Cox que curiosamente diz detestar a música psicadélica, com as distorções e os ruídos de fundo constantes, que já são uma imagem de marca dos Deerhunter, testada desde o versátil Microcastle (2008), a conduzirem o tema para um ambiente claramente festivo. Depois, No One's Sleeping, uma composição inspirada pela trágica morte de Jo Cox, uma política britânica assassinada em dois mil e dezasseis por Thomas Mair, um indivíduo com um histórico de doenças mentais, vai recebendo cordas, teclas e efeitos de sopros de um modo aparentemente anárquico, mas tremendamente calculado, uma fórmula que resulta, no seu todo, numa composição que, mais do que agregar diversos fragmentos, afirma-se como uma alegoria pop de indisfarçável leveza e beleza sonora.

A partir desse mote inicial,  Why Hasn't Everything Already Disappeared? prossegue a sua senda encantatória, frequentemente com uma toada até algo progressiva. Além da base instrumental típica dos Deerhunter, temos composições em que o sintetizador é o elemento chave, como é o caso do instrumental Greenpoint Gothic e da experimental Détournement, outras em que é o piano, de mãos dadas com uma guitarra que às vezes parece planar, quem assume as rédeas, nomeadamente na nostalgia de What Happens To People e outras em que o colorido do cravo, um dos instrumentos predilectos de Cox, é, claramente, a grande força motriz, como é o caso de Element, uma ode dos Deerhunter ao meio ambiente e à natureza.

Até ao ocaso de Why Hasn't Everything Already Disappeared?, no clima buliçoso e descomprometido de Futurism, na mágica melancolia que trespassa o xilofone que sustenta Tarnung, no requinte do funk alegre e divertido que conduz Plains e, a encerrar as hostilidades, no devaneio algo caótico que, em Nocturne, dá vida a um minimalismo sintético que depois se transforma num tratado pop, somos convidados a deliciar-nos com um álbum onde a personalidade de cada uma das canções demora um pouco a revelar-se nos nossos ouvidos, já que imensos e variados são os detalhes precisos que as adornam.

Os Deerhunter vivem, de facto, no pico da sua capacidade criativa e mostram-se ao oitavo disco mais arrojados do que nunca, mostrando neste Why Hasn't Everything Already Disappeared? que conseguem navegar sem parcimónia em diferentes campos de exploração. Este projeto de Atlanta, na Georgia, prova-nos que a imprevisibilidade continua a ser, felizmente, algo valioso e ímpar no mundo artístico e Bradford Cox, uma das personagens mais excêntricas no mundo da música contemporânea, continua a jogar com essa evidência a seu favor, à medida que apresenta diferentes ideias e conceitos, de disco para disco, tendo, neste caso, excedido favoravelmente todas as expetativas e criado aquele que é já, na minha opinião, um dos álbuns essenciais de dois mil e dezanove. Espero que aprecies a sugestão...

Deerhunter - Why Hasn't Everything Already Disappeared

01. Death In Midsummer
02. No One’s Sleeping
03. Greenpoint Gothic
04. Element
05. What Happens To People?
06. Détournement
07. Futurism
08. Tarnung
09. Plains
10. Nocturne


autor stipe07 às 08:26
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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2019

Daniel Land – The Dream Of The Red Sails

Há sempre algo de especial e único na música do britânico Daniel Land,  que anda por cá há mais de duas décadas a oferecer-nos belíssimas composições, não só em nome próprio, mas também através da banda Daniel Land & The Modern Painters e do seu alter ego riverrun, além de colaborar assiduamente com os míticos Engineers. De facto, do seu registo vocal angelical à permanente sensação de vulnerabilidade comovente que exala das suas canções, são vários os atributos que sustentam os discos deste autor e que encarnam alguma da melhor indie pop contemporânea.

Resultado de imagem para Daniel Land The Dream Of The Red Sails

Cada canção de Daniel Land parece querer dar vida a sonhos lúcidos e a visões etéreas e cada acorde que nos oferece tem sempre uma luminosidade melancólica particularmente incomum. É como se cada tema fosse pensado para ser contemplado por causa da sua beleza e cor, assim como é um dia típico de primavera, depois de um inverno cinzento, frio e monocromático.

Escrito durante o ano de dois mil e dezasseis durante o início dos tufões brexit e Trump, The Dream of the Red Sails, o novo álbum de Daniel Land, não foge a estas permissas e pretende ser um porto de abrigo optimista para todos aqueles que se sentem algo perdidos com um mundo cada vez mais engolido pelo racismo e pela ignorância e pelo desrespeito, temáticas muito presentes na escrita do registo. Logo no instrumental Capistrano Beach, sentimos uma suave e encantadora brisa de luz, que se amplia, mas sem nunca ofuscar, no reverb metálico estridente e envolvente de Summer Song. Depois, no clima nostálgico que transparece das cordas de Long Before the Weather, na soul de Still Closed e no modo quase mágico como a guitarra e a bateria conjuram entre si em Under a Red Sky, assim como na delicada acusticidade de Self-Portrait in Autumn Colours, ficamos defintivamente impressionados com um alinhamento acessível e bastante melódico, pensado com uma filosofica sonora que acaba por entroncar em alguns dos principais detalhes da angulosa pop oitocentita que bandas como os Talk Talk ajudaram a cimentar há cerca de três décadas, mas onde também não falta uma assertiva contemporaneidade, em especial na guitarra, num resultado final particularmente luminoso e apelativo. Espero que aprecies a sugestão...

Daniel Land - The Dream Of The Red Sails

01. Capistrano Beach
02. Summer Song
03. Long Before The Weather
04. Still Closed
05. Under A Red Sky
06. Self-Portrait In Autumn Colours
07. Starless
08. Alone With America
09. Fleur Du Mâle
10. Skindivers
11. Cobalt Blue


autor stipe07 às 10:33
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