music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
Depois de há pouco mais de três anos os britânicos Kaiser Chiefs terem editado Stay Together, à altura o sucessor do excelente Education, Education, Education & War, de dois mil e catorze, a banda liderada pelo carismático Ricky Wilson e que conta atualmente na sua formação também com Andrew White, Simon Rix, Nick Baines e Vijay Mistry, está de regresso com Duck, um novo registo de originais que viu a luz do dia à boleia da Polydor Records e que, sendo uma espécie de continuação do conteúdo do antecessor, foi produzido pela própria banda de Leeds, com a ajuda de Ben H. Allen, que já tinha trabalhado com os Kaiser Chiefs em Education, Education, Education & War.
Disco de difícil incubação, de acordo com o grupo e liricamente profundo, Duck encontra os Kaiser Chiefs numa espécie de natural encruzilhada entre a sustentação de uma herança sonora com mais de uma década e que nunca conteve um indesmentivel apelo radiofónico e o desejo nada disfarçado de explorarem sonoridades menos imediatas, uma vontade que se foi firmando no seio do grupo desde que o baterista Vijay Mistry substituiu Nick Hodgson em dios mil e catorze, até à altura o principal compositor da banda e que deixou, com a sua saída, um buraco difícil de preencher. Assim, se Education, Education, Education & War foi, à época, já um disco de ruptura e se Stay Together, um disco muito centrado na temática do amor, calcorreou territórios sonoros mais próximos da pop, em deterimento do indie rock que popularizou este projeto no início da carreira, Duck acaba por quebrar este processo evolutivo já que pouco acrescenta de inédito ao cardápio dos Kaiser Chiefs além do ambiente sonoro do antecessor. Tal constatação não é propriamente uma crítica negativa ao registo, sendo, principalmente, uma espécie de formulação da teoria que considera que o grupo encontrou uma nova zona de conforto e que quis, desta vez, explorá-la até à exaustão, ficando para discos futuros novos avanços na indução de nuances inéditas ao cardápio sonoro global da banda.
Assim, nesta espécie de limbo criativo em que assenta Duck, em canções como a efusiante People Know How To Love One Another, a melancólica Target Market, a vibrante Electric Heart ou a cósmica Record Collection, um single repleto de groove, conferimos, numa mesca de teclados e guitarras com a peculiar tonalidade grave e imponente da secção ritmíca deste quarteto, composições com o habitual acerto melódico e, por isso, contagiante e radiofónico, dos Kaiser Chiefs. Quem quiser encontrar mais do que isso neste registo poderá sentir-se, na minha opinião, algo defraudado. Confere...
01. People Know How To Love One Another 02. Golden Oldies 03. Wait 04. Target Market 05. Don’t Just Stand There, Do Something 06. Record Collection 07. The Only Ones 08. Lucky Shirt 09. Electric Heart 10. Northern Holiday 11. Kurt Vs Frasier (The Battle For Seattle)
Cinco anos depois do excelente So Long, See You Tomorrow, o quarto álbum de estúdio dos Bombay Bicycle Club, o projeto britânico volta finalmente a dar sinais de vida com Eat, Sleep, Wake (Nothing But You), o primeiro avanço de um novo alinhamento de canções da banda dos arredores de Londres, formada por Jack Steadman, Jamye MacCol, Suren de Saram e Ed Nash.
Tendo em conta o conteúdo de Eat, Sleep, Wake (Nothing But You), uma sumptuosa e efervescente composição assente numa filosofia sonora que dá primazia ao baixo e às guitarras, apesar da omnipresença do sintetizador, nomeadamente nos arranjos melódicos, o próximo trabalho do grupo, ainda sem nome nem data de lançamento, deverá colocar a banda no trilho de um rock mais cru e direto, em vez das sagazes interseções com a eletrónica que os Bombay Bicycle Club efetuaram no disco que lançaram à meia década. Confere...
Message To Bears é o nome do projeto a solo do cantor, compositor e multi-instrumentista inglês Jerome Alexander. Esta banda de um homem só estreou-se em 2007 com um EP que chamou a atenção pelo conteúdo um pouco confuso, com algumas distorções tímidas, violinos, ecos e susurros. Message To Bears encontrou um rumo mais definido no álbum seguinte, The Soul's Release, com uma sonoridade que passava pela pop atmosférica, a folk e o post rock, com destaque para as canções Joy Leaves, Cathing Fireflies e principalmente Where the Trees are Painted White. A esta promissora estreia nos álbuns sucedeu, em 2009, Departures, um disco ainda mais sólido, com melhor definição sonora e bastante hipnótico e, três anos depois, Jerome brindou-nos com Folding Leaves, um álbum surpreendente, rústico e orgânico, lançado pela Dead Pilot Records. Nessa altura Jerome mudou-se de Bristol para Londres, lançou mais dois discos, mas resolveu fazer marcha atrás, voltar à terra natal e criar no seu estúdio caseiro Constants, o seu quinto longa duração, um alinhamento de onze canções emocionalmente poderosas e com tudo para ser um marco discográfico do ano dentro do espetro sonoro em que se situa.
Constants funciona como uma espécie de válvula de escape para o autor, já que no registo exorciza alguns demónios que o período londrino colocou no seu equilíbrio psicológico pessoal e serve para o ouvinte como um confortável e sossegado refúgio, num mundo cada vez mais dominado pela pressãoque é exercida pelos media. Esta é a grande ideia temática de quarenta minutos introduzidos, em On Reflection, por um ternurento piano que logo nos abre de par em par um portal de luz, magia e cor, incomparável a algo que faça parte do mundo concreto em que vivemos.
Saborear Constants tem obrigatoriamente essa permissa de suscitar no ouvinte a necessidade de usar a sua imaginação para melhor percepcionar um universo mágico e que causa impacto por ser complexo e detalhado, mas também (e isso é possível) graciosamente simples. Nele, Jerome combinou em várias canções diversas camadas de cordas, com elementos percurssivos eminentemente orgânicos e melodias sintetizadas únicas e criou assim um ambiente aconchegante, difícil de definir, um som que se constrói ao longo de cada canção e em todo o álbum, com especial destaque para a graciosidade de Raining Whilst She Sleeps, a religiosidade de Rescue, o cariz místico dos violinos que gravitam em Away From You e a esplendorosa emotividade que exala em cada nota e arranjo de Small Light.
Em Bristol, Jerome consegue testemunhar com outra clarividência a constância das estações do ano, os diferentes sons que a natureza tem durante essa roda viva, os odores dos cursos de água, este ciclo da vida e da morte que recorda ao músico quer o efémero da sua existência quer a fragilidade e tantas vezes a insginificância que carateriza a presença de tantos de nós neste mundo. A eletrónica ambiental inspirada de Constants é o tal refúgio, mas também um grito de alerta, um apelo ao desassossego onde estão plasmadas emoções e sugestões sempre de modo humilde, carinhoso, sincero e, obviamente, nada pretensioso. Espero que aprecies a sugestão...
01. On Reflection 02. Raining Whilst She Sleeps 03. Pull Apart 04. All We Said 05. Rescue 06. New Air 07. Away From You 08. Small Light 09. Convalescence 10. We All Were Swallowed By Sleep 11. Nowhere
Os Foreign Poetry são Danny Geffin e Moritz Kerschbaumer. Danny é inglês, Moritz é austríaco e ambos tocam vários instrumentos e escrevem canções. Conheceram-se em Londres, durante o verão de dois mil e onze, quando tocavam em projetos diferentes e se cruzaram na mesma noite no The Ritzy, em Brixton. Moritz tocava com Luís Nunes, mais conhecido por (Walter) Benjamin e Danny era uma das duas metades dos Geffin Brothers. Alguns anos depois Moritz enviou a Danny duas ideias para canções nas quais andava a trabalhar e este retribuiu dias depois devolvendo-as cheias de ideias novas. Este encontro tornou-se num hábito, as ideias de ambos começaram a andar para trás e para a frente e ao fim de um ano neste modus operandi, estava praticamente estruturado um alinhamento de canções intitulado Grace and Error on the Edge of Now e que irá ver a luz do dia a vinte de Setembro pela Pataca Discos.
Polido nos estúdios da Pataca Discos, em Lisboa, onde o disco ganhou novas e belas texturas, com a ajuda dos Anna Louisa Etherington (violino), Alice Febles Padron (coros), Luís (W. Benjamin) Nunes (bateria, percussão e coros) e Tony Love (bateria), Grace and Error on the Edge of Now será uma estreia em grande de um projeto que serviu-se de variadas texturas e arranjos, melodias vocais com raízes folclóricas e uma crua vulnerabilidade, para incubar uma espécie de álbum conceptual, que aborda ideias tão mundanas como o universo pessoal, a adolescência e a juventude, o impacto da teconologia na condição humana e as complexidades da vida e das relações humanas, mas de um modo relevante, provocador e rico. Nele, Moritz e Danny criaram paisagens sonoras e orquestrações complexas, mas também apostaramem grooves mais descontraídos e numa narrativa lírica eminentemente simples, com nomes como Arthur Russell, The National, Lambchop e Future Islands, a serem referências óbvias de um compêndio de rock psicadélico, mas sem rock nem psicadelia no seu estado mais puro, já que a folk é também um ingrediente essencial de toda a trama sonora do registo.
Chain Of Events, um dos temas já divulgado deste álbum de estreia dos Foreign Poetry que, já agora, foi misturado por Luís Nunes e o próprio Moritz Kerschbaumer e masterizado por Tiago de Sousa, é um bom exemplo do tal trabalho colaborativo entre a dupla, muitas vezes à distância, acima descrito. Moritz começou por esboçar o tema instrumentalmente, Danny acrescentou as letras e depois, juntos em estúdio, desenvolveram um pouco mais esta música sobre a quantidade de desinformação, preconceito e emoção que alimenta estes tempos e misturaram-na. O resultado final, alicerçado na bitola sonora acima descrita, é um tratado sobre a história do mundo e a psique humana, como eles estão inseparavelmente relacionados um com o outro e como repetimos os erros da história, mesmo quando vemos tudo acontecer no nosso caminho outra vez. Nada nunca permanece o mesmo, tudo é repetido.
O videoclip da canção acaba por obedecer ao propósito dos Foreign Poetry de criar algo que fosse real, visualmente cru e historicamente relevante, algo que encapsulasse a estrutura que permitiu à humanidade chegar a esta vida privilegiada de futurismo e pronunciada inércia. As filmagens foram tiradas de partes de Why We Fight de Frank Capra, uma série de vários filmes de propaganda de início do século passado, usados com o objetivo de persuadir o público americano a apoiar a guerra. São imagens incríveis, de um tempo incrível, onde havia tudo a perder e a segurança das pessoas estava em constante vulnerabilidade. Confere...
Os Swimming Tapes são os norte irlandesesLouis Price, Robbie Reid, Paddy Conn e Jason Hawthorne e o baterista inglês Andrew Evans, cinco amigos sedeados em Londres e que estão a surpreender a crítica com Morningside, o registo de estreia do grupo, que viu a luz do dia recentemente, à boleia da Sub Pop Records.
Com dois EPs em carteira antes do lançamento deste longa duração, os Swimming Tapes gravaram Morningside nos estúdios Haggerston, no leste de Londres, com a ajuda de Paddy Baird (Kowalski, Two Door Cinema Club, Warm Digits) e contaram com Tom Schick (Wilco, Nora Jones, Glen Hansard) para a mistura do mesmo, feita no outro lado do atlântico, em Chicago, nos míticos estúdios Loft de Chicago, propriedade dos Wilco de Jeff Tweedy.
Há uma emotividade em constante latejo e uma forte sensação de nostalgia na indie pop de Morningside, um disco que reluz à medida que escorre nos nossos ouvidos, não só por causa dos sons ritmados que sustentam a inegável mestria melódica que carateriza praticamente todos os seus temas, mas também devido ao charme dos arranjos de guitarra e de uma prestação vocal em que sobriedade e sensibilidade se fundem com particular bom gosto. A serenidade vocal de Robbie e Louis é pouco usual e juntos denotam uma imensa cumplicidade, que adiciona um travo fascinante e ainda mais envolvente a um registo que soa, no seu todo, otimista, alegre e descontraído.
De facto, desde as primeiras notas de Passing Ships que se percebe que há algo de muito especial e de deliciosamente ternurento em Morningside. E depois, canções como Pyrenees, o mais recente single divulgado de Morningside, uma composição que mistura de modo deliciosamente sonhador cordas luminosas e vibrantes com uma bateria viciante, a enigmática See It Out e a dançante Out Of Line, estando cobertas por uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis, potenciam enormemente a elevada bitola qualitativa de uma estreia auspiciosa e extraordinariamente jovial, um disco que seduz pela forma genuína e simples como retrata eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro e fantástico e excelente para ser escutado num dia de sol acolhedor como os que certamente nos aguardam para muito em breve. Espero que aprecies a sugestão...
Cerca de três anos depois do excelente registo Foreverland, os The Divine Comedy de Neil Hannon estão de regresso aos discos com Office Politics, um compêndio de dezasseis canções escritas e produzidas pelo próprio Hannon, gravadas na Irlanda e na capital de Inglaterra e que contaram com as participações especiais de Chris Difford, Cathy Davey e Pete Ruotolo. Disco inspirado nos avanços tecnológicos e que tem como principais personagens sonoras as máquinas e os sintetizadores, nomeadamente um que recebeu recentemente, Office Politics também conta, como é norma nos The Divine Comedy, com canções onde a luminosidade e a ferocidade das guitarras dita a sua lei, como confessou recentemente Neil (It has synthesizers. And songs about synthesizers. But don’t panic. It also has guitars, orchestras, accordions, and songs about love and greed).
Dizem as más línguas que Neil recebeu no último natal um sintetizador novinho em folha e que desde então esse objeto tornou-se no seu brinquedo predileto, tendo sido, pelos vistos, essencial na composição das dezasseis canções do alinhamento deste novo trabalho dos The Divine Comedy. E de facto, começa-se a escutar Queuejumper, uma divertida composição sobre um condutor que acha que as regras de trânsito não se aplicam a si e damos de caras com um tapete percurssivo carregado de groove, mas acompanhado por um teclado pleno de soul e diversos arranjos inspirados, nomeadamente de cordas. Essa canção mostra-se fiel à filosofia adjacente ao processo de composição deste registo e, soando inventiva e intemporal e estando de acordo com o que se exige a um projeto com quase trinta anos de uma bem sucedida carreira, icónica e fundamental no cenário indie britânico, tem como atributo principal mostrar-nos a tal nova face dos The Divine Comedy, menos orgânica que o habitual.
O futuro será inegavelmente dominado pela tecnologia. Para as novas gerações é na inovação e no avanço da ciência que reside a esperança num futuro melhor e, pelos vistos, nas redes sociais e nas aplicações a possibilidade maior de se encontrar a companhia ideal nessa caminhada. Não vale a pena negar que o modo como nos relacionamos socialmente é hoje muito diferente e este Office Politics pretende de algum modo refletir e satirizar sobre essa realidade e sobre como muitos conseguem ter virtualmente uma relação próxima com pessoas com quem tantas vezes se cruzam na rua sem se atreverem a verbalizar duas palavras entre si.
Se faz obviamente sentido que a música reflita estas novas realidades relacionais, Neil serve-se do paradoxo da sintetização para introduzir essa tal nova nuance no arquétipo sonoro essencial dos The Divine Comedy, com esse brinquedo a servir para materializar e personificar o tal novo elemento tecnológico que parece ditar as regras sobre o modo como nos aproximamos do outro, mesmo em termos profissionais. A capa do disco, mostrando-nos o saudosismo e a beleza do ambiente típico de um escritório há três ou quatro décadas atrás, satiriza, no fundo, o ambiente atual de um local de trabalho onde várias pessoas interagem entre si, geralmente em silêncio e com rigidez, sendo no silêncio e na obscuridade do facebook, do messenger ou do instagram, que trocam palavras entre si e que é posta em prática toda a salutar loucura e alegria que deveria ser visível e audível, sem a presença dessas ferramentas virtuais.
Mas voltando ao alinhamento do disco, depois da já descrita Queuejumper, o tema homónimo do registo amplia o cariz conceptual de Office Politics, já que, sendo uma composição charmosa e dançante, acaba por funcionar como uma espécie de profecia, não só relativamente ao que resta deste cardápio de canções em que guitarras e bateria são constantemente trespassadas por linhas melódicas sintetizadas ou efeitos repletos de flashes cósmicos e borbulhantes, mas também ao que podemos esperar do amanhã lá fora, cabendo-nos a nós dar o têmpero, se conseguirmos, que a convivência social inegavelmente exige. Depois, as cordas coloridas e o piano de Norman and Norma, uma composição com um tempêro auglosamente british, recordam-nos que a esperança nunca morre, apesar do modo como o teclado se entrelaça com a guitarra e alguns metais. Mas a seguir, na ironia que exala de Absolutely Obsolete ou no modo como a rugosidade da guitarra, depois amansada por uma linha sintetizada aguda consegue recriar na perfeição o clima ameaçador e ao mesmo tempo convidativo que é pretendido no glam rock de Infernal Machines, caímos de novo na realidade e percebemos que aqui dificilmente haverá marcha atrás, memo que o contraste da inegável mestria exalada pelo eletro pop de You’ll Never Work In This Town Again, faça nova tentativa de retrocesso numa canção que nos transporta para aquele sensual ambiente fumarento de um bar caribenho cheio de mafiosos russos.
Ficamos definitivamente presos ao amanhã e a ter de pensar no melhor modo de sobreviver numa realidade mais forte do que os nossos desejos de primazia do sensivel e do humano relativamente ao sintético e ao maquinal no modo como na kraftwerkiana Psychological Evaluation, Hannon modifica a sua voz para dissertar com crueza sobre os seus maiores hábitos, medos e anseios, e no modo irónico como em The Synthesiser Service Centre Super Summer Sale, ele imagina o local onde o tal brinquedo que recebeu e que sustenta instrumentalmente Office Politics ganhou vida.
Depois de uma segunda metade do disco particularmente intrincada e tumultuosa, a aprofundar os tais ambientes sempre recriados com ironia, recordo, a suprema rendição está, como seria de esperar, no ocaso do álbum, em When The Working Day Is Done, uma composição que homenageia todos aqueles que trabalham das nove às dezassete diariamente, sempre sufocados pelas mesmas rotinas e sem terem um sorriso maroto animador de vez em quando, fechando assim, no tal rumo coerente mas, como já referi, ironicamente algo incerto, preocupante e assustador, um disco que tem a sua maior beleza no facto de ter sido pensado com uma considerável dose de loucura, divertimento e, conforme confessou Hannon recentemente, inegável boa disposição e anormalidade (I’m sorry it’s all so crazy. I do try and make normal pop records. But it always seems to wander off into odd territories when I’m not concentrating.). Espero que aprecies a sugestão...
01. Queuejumper 02. Office Politics 03. Norman And Norma 04. Absolutely Obsolete 05. Infernal Machines 06. You’ll Never Work In This Town Again 07. Psychological Evaluation 08. The Synthesiser Service Centre Super Summer Sale 09. The Life And Soul Of The Party 10. A Feather In Your Cap 11. I’m A Stanger Here 12. Dark Days Are Here Again 13. Philip And Steve’s Furniture Removal Company 14. Opportunity’ Knox 15. After The Lord Mayor’s Show 16. When The Working Day Is Done
Cerca de três anos depois do excelente registo Foreverland, os The Divine Comedy de Neil Hannon regressam em dois mil e dezanove aos discos com Office Politics, um compêndio de dezasseis canções escritas e produzidas pelo próprio Hannon, gravadas na Irlanda e na capital de Inglaterra e que contaram com a participações especial vocal de Chris Difford, Cathy Davey e Pete Ruotolo.
Disco inspirado nos avanços tecnológicos e que tem como principais personagens sonoras as máquinas e os sintetizadores, Office Politics também contará, como é norma nos The Divine Comedy, com canções onde a luminosidade e a ferocidade das guitarras dita a sua lei, como confessou recentemente Neil (It has synthesizers. And songs about synthesizers. But don’t panic. It also has guitars, orchestras, accordions, and songs about love and greed).
Queuejumper é o primeiro single desse disco que verá a luz do dia a sete de junho, uma divertida composição, assente num tapete percurssivo carregado de groove, acompanhado por um teclado pleno de soul e diversos arranjos inspirados, nomeadamente de cordas, uma canção que se mostra fiel à filosofia adjacente ao processo de composição do registo e que, soando inventiva e intemporal, está de acordo com o que se exige a um projeto com quase trinta anos de uma bem sucedida carreira, icónica e fundamental no cenário indie britânico. Confere Queuejumper e a tracklisting de Office Politics...
1. Queuejumper
2. Office Politics
3. Norman And Norma
4. Absolutely Obsolete
5. Infernal Machines
6. You'll Never Work In This Town Again
7. Psychological Evaluation
8. The Synthesiser Service Centre Super Summer Sale
Já viu a luz do dia Six Lenins, o terceiro registo de originais de um dos segredos mais bem guardados da indie britânica contemporânea. Refiro-me aos londrinos The Proper Ornaments de James Hoare, uma das caras metade dos Ultimate Painting e de Max Claps, membro recente dos Toy, que conseguiram ultrapassar um período bastante complicado, ainda antes da edição de Foxhole, o registo que lançaram há pouco mais de dois anos. Foram tempos conturbados, após uma estreia auspiciosa com Wooden Head, em dois mil e catorze, peripécias infelizes que incluiram episódios de doença, divórcio e abuso de drogas, mas que não impediram que três anos depois chegasse aos escaparates esse tal Foxhole, o segundo tomo do grupo.
Agora, na primavera de dois mil e dezanove e depois de uma digressão pelo outro lado do atlântico e de uma estadia bastante profícua no estúdio caseiro de James em Finsbury Park, Londres, que também serviu para afastar definitivamente todos os fantasmas que foram apoquentando os The Proper Ornaments neste meia década, a banda entrega finalmente aos seus fãs Six Lenins, uma espetacular coleção de dez canções que nos convidam a contemplar o grupo a dominar o seu som aparentemente sem qualquer esforço e com um acabamento exemplar, enquanto as suas proezas de composição, que divagam entre as heranças de uns Beach Boys ou uns Velvet Underground, se mostram cada vez mais surpreendentes.
A impressão imediata que se tem logo após a audição de Six Lenins é que este é um daqueles discos em que se vai, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por intérpretes de um arquétipo sonoro que exala um intenso charme, principalmente porque a sensação de intuição e espontaneidade é tal que, ao ouvi-los, parece que não se importaram nada de poderem, eventualmente, transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, desde que levem à tona a sonoridade com que realmente se identificam e se sentem realizados em replicar. E tal facto representa, desde logo, a manifestação de um elevado bom gosto, que se torna ainda maior pela peça em si que este disco representa, tendo em conta a bitola qualitativa do mesmo.
Six Lenins, o terceiro álbum dos The Proper Ornaments, que contou com as participações especiais de Danny Nellis (Charles Howl) no baixo e Bobby Syme (Wesley Gonzalez) na bateria, está, portanto, repleto de composições refinadas e exemplarmente elaboradas. A sonoridade é sempre controlada de modo a criar um clima homogéneo que se torna transversal ao alinhamento, enganando quem ouvir o disco desinteressadamente, porque irá sentir, erradamente, que as canções soam muito iguais. Mas este é um álbum que merece audição dedicada e que deve ser saboreado com o tempo e a velocidade que exige. A sua crueza plena de ricos detalhes, o charme analógico e o carisma vintage nada pretensioso e que não se desbota na contemporaneidade dos nossos dias em que a ferocidade do sintético e da pop fácil arrastam multidões tantas vezes iludidas e a riqueza melódica que contém e que nos permite encontrar a tal individualidade que cada composição claramente possui, só são devidamente assimilados, compreendidos e saboreados através de um modus operandi auditivo que seja dedicado à descoberta do que cada tema tem para oferecer e para nos enriquecer e desprendido de qualquer preconceito relativamente às influências e ao histórico sombrio, nublado e até algo decadente subjacente à incubação deste alinhamento solarengo, otimista e sorridente.
Assim, do ternurento efeito metálico que divaga por Apologies, até à intuitiva Crepuscular Child, uma canção emotivamente forte, conduzida por um baixo vincado e uma guitarra cheia de soul, passando pela jovialidade dos efeitos do sintetizador que conduz Song For John Lennon, pelo travo psicadélico de Where Are You Now, pela vibe surf sessentista de Please Release Me, ou pelo forte odor nostálgico a que exalam as teclas e as cordas de Bullet From A Gun, Six Lenins é um disco extraordinariamente jovial, uma sedutora demonstração de superior clarividência por parte de um projeto que soube sobreviver ao caos e que, fruto do empenho e da superior capacidade criativa dos seus membros, merece, claramente, uma outra posição de relevo no universo sonoro indie e alternativo. Espero que aprecies a sugestão...
01. Apologies 02. Crepuscular Child 03. Where Are You Now 04. Song For John Lennon 05. Can’t Even Choose Your Name 06. Please Release Me 07. Bullet From A Gun 08. Six Lenins 09. Old Street Station 10. In The Garden
Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, à boleia de um já vasto e riquíssimo catálogo discográfico, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram o ano passado revisitar Transparent Things, o disco que editaram há pouco mais de uma dúzia de anos, que continha clássicos do calibre de Ankle Injuries, Collarbone ou Photographer e que os lançou para o estrelato. Agora, um ano depois dessa reedição em vinil do primeiro álbum da banda, os Fujiya And Miyagi lançam-se num novo registo de originais, um trabalho intitulado Flashback, que irá ver a luz do dia no final de maio à boleia da Red Eye Records. Será um disco com sete canções e bastante inspirado na adolescência de David Best e Stephen Lewis, os dois grandes mentores dos Fujiya And Miyagi e das memórias que guardam da Brighton em que cresceram, nos arredores de Londres e do período aúreo do eletro pop e do breakdance em plenos anos oitenta, época em que na Iglaterra trabalhista de Tatcher era cool usar fatos de treino da Nike, sapatilhas da Adidas e saber rodopiar no chão com estilo.
Deste novo álbum dos Fujiya And Miyagi já se conhece o tema homónimo, uma canção que retrata com elevado grau de impressionismo todo o ideário do disco acima referido, através da simbiose entre as batidas graves e palmas, a voz sussurrada de Best e o groove de um teclado retro, ao qual se juntam amiúde efeitos metálicos percurssivos com uma declarada essência vintage. Para já, o single esclarece que David Best, Stephen Lewis, Ed Chivers, Ben Adamo e Ben Farestuedt mergulharão uma vez mais a fundo, dentro da filosofia do trabalho, numa mescla entre electropop, disco e o clássico krautrock alemão setentista. Confere Flashback e o alinhamento e o artwork do disco que terá, como já disse, o mesmo nome...
01. Flashback 02. Personal Space 03. For Promotional Use Only 04. Fear of Missing Out 05. Subliminal 06. Dying Swan Act 07. Gammon
Já viu a luz do dia, à boleia do consórcio Some Kinda Love/PIAS, Future Tense, Present Tense, o novo registo dos londrinos Ten Fé, um alinhamento de onze canções que sucede ao aclamado disco de estreia, Hit The Light, lançado o ano passado.Future Tense, Present Tensefoi produzido por Luke Smith (Foals, Depeche Mode) e misturado por Craig Silvey (Arcade Fire, Florence & The Machine).
Hit the Light foi uma das lufadas de ar fresco que o panorama indie britânico sentiu há cerca de dois anos e colocou logo esta banda sob o olhar clínico de grande parte da crítica especializada e de uma já considerável legião de fãs que aguardavam com expetativa o sucessor. E o primeiro elogio que se deve desde já fazer a Future Tense, Present Tense é o modo como abarca composições grandiosas e crescentes, mas também instantes sonoros intimistas e melancólicos, com a grande novidade desta vez a ser um mais efusivo piscar de olhos à pop de cariz mais sintético e retro que fez escola na década de oitenta do século passado, como se confere logo no soft rock do single Won’t Happen, uma nuance que não é nova no grupo, mas que se mostra mais apurada e capaz de agradar a um espetro ainda mais alargado de ouvintes.
Para que a audição deste disco seja usufruida em pleno é preciso que o ouvinte tenha a noção que a ideia de tempo é transversal a praticamente todo o registo. A canção que melhor plasma essas noções temporais é o singleNo Night Lasts Forever, canção que se debruça sobre o tempo que demora para chegar a algo, o tempo que nunca voltará e o tempo que ainda está para vir. Esta composição com uma sonoridade assente numa onda sintética particularmente expansiva e luminosa, é um tratado pop inspirado e rico que, quer na luminosidade da acusticidade inicial das cordas, quer na emotividade da sua escrita, reforça a tal presença na filosofia interpretativa atual dos Ten Fé e a predisposição para oferecerem ao ouvinte uma paleta de sons o mais inédita, urbana e contemporânea possível, fazendo-o com o tal espectro mais virado para a electrónica e para o synthpop, os estilos que atualmente mais seduzem e melhor conseguem captar a alma deste grupo londrino. O impressionismo percurssivo de Coasting, o travo setentista de Echo Park e o piano que conduz To Lie Here Is Enough, são outros focos de vitalidade, astúcia e de uma declarada intencionalidade pop de um álbum que passa com distinção no sempre difícil teste do segundo disco. Espero que aprecies a sugestão...
01. Won’t Happen 02. Isn’t Ever A Day 03. No Night Lasts Forever 04. Coasting 05. Echo Park 06. Caught On The Inside 07. To Lie Here Is Enough 08. Here Again 09. Not Tonight 10. Can’t Take You With Me 11. Superrich
O coletivo de músicos ingleses e espanhóis Crystal Fighters, que se divide entre Londres e Navarra e é atualmente formado por Sebastian Pringle, Gilbert Vierich e Graham Dickson, trio ao qual se juntam em digressão Eleanor Fletcher, Louise Bagan e Daniel Bingham, estreou-se há quase uma década com o excelente registo Star Of Love e vai regressar este ano aos discos. Essa nova adição ao catálogo dos Crystal Fighters chama-se Gaya & Friends, verá a luz do dia a um de março através da Warner Bros. e sucede a Everything Is My Family (2016) e ao EP Hypnotic Sun, lançado no passado mês de novembro e que continha as composições Another Level, que faz parte da banda sonora do Fifa 19, Going Harder (feat. Bomba Estereo) e All My Love.
Do alinhamento de Gaya & Friends já foi retirado o single Wild Ones, uma canção que dentro de um registo muito peculiar que cruza pop com eletrónica, contém uma vincada contemporaneidade. Quer a percurssão, quer as cordas e os teclados exalam uma enorme energia, bastante dançável e muito agradável de ouvir, com um resultado final que aguça a curiosidade relativamente ao restante conteúdo de Gaya & Friends. Confere...
Os londrinos Ten Fé vão lançar a oito de março do próximo ano, à boleia do consórcio Some Kinda Love/PIAS, Future Tense, Present Tense, o novo registo do grupo e que sucede ao aclamado disco de estreia, Hit The Light, lançado o ano passado. Future Tense, Present Tense foi produzido por Luke Smith (Foals, Depeche Mode) e misturado por Craig Silvey (Arcade Fire, Florence & The Machine) e do seu alinhamento já se conheciam os singlesWon’t Happene Not Tonight, sendo o mais recente um tema intitulado No Night Lasts Forever e que, à semelhança dos temas anteriores, aborda noções temporais, nomeadamente o tempo que demora para chegar a algo, o tempo que nunca voltará e o tempo que ainda está para vir.
Com uma sonoridade assente numa onda sintética particularmente expansiva e luminosa, No Night Lasts Forever é um tratado pop inspirado e rico que, juntamente com as outras canções já conhecidas, faz antecipar um excelente sempre difícil segundo disco deste projeto. Já agora, acerca desta composição a banda referiu recentemente: there was a debate when we were writing the song as to whether that’s an optimistic or a pessimistic statement. But we decided we liked the ambiguity – that it didn’t have to be one or the other. Confere...
Doze anos depois do excelente disco de estreia homónimo, os The God, The Bad And The Queen de Damon Albarn, Paul Simonon, Simon Tong e Tony Allen estão de regresso com Merrie Land, um registo que chegou aos escaparates há alguns dias. É um estrondoso trabalho discográfico, produzido por Tony Visconti e que poderá muito bem vir a figurar em várias listas dos melhores álbuns de dois mil e dezoito.
O melancólico, mas sempre genial, brilhante, inventivo e criativo Damon Albarn é, obviamente, a personagem central deste projeto que junta quatro músicos de insuspeita qualidade e com provas dadas no panorama indie britânico há várias décadas. Assim, falar da filosofia que Damon Albarn pretende como artista para este projeto The Good, The Bad And The Queen, que esperou quase uma dúzia de anos para ter um novo registo depois da espetacular estreia, e não abordar as experiências musicais do artista em projetos tão significativos como os Blur, os Gorillaz ou a solo, é algo impossível, já que em todos eles há um ponto em comum bem vincado, o modo como o homem Damon Albarn vê a contemporaneidade e em especial a Inglaterra e como, na pele do artista Damon Albarn, transporta as suas ideias e essa sua visão crítica bastante clínica, lúcida e clarividente para as canções que compôe e que, independentemente do género e estilo que abarcam (e os seus vários projetos permitem-lhe uma abrangência e um ecletismo ímpares), têm sempre um marco de excelência, de brilho e de bom gosto.
Assim, se o homónimo The Good, The Bad & The Queen narrava, de certo modo, uma jornada imaginária por algumas ruas mais obscuras de uma Londres cosmopolita mas ainda com fortes marcas ancestrais e com tradições que remontam à revolução industrial, Merrie Land deve imenso a algumas viagens que Albarn fez pelo norte de Inglaterra, nomeadamente pela zona costeira de Blackpool, de certo modo descritas quer no tema homónimo quer em Lady Boston, oferecendo-nos, assim, uma visão mais abrangente sobre o reino de sua majestade, com as suas onze canções a ganharem vida através de poemas comuns sobre o quotidiano ordinário de um típico bife, na busca de explicarem aquilo que é hoje o ser inglês, com a realidade civilizacional, social, económica e cultural do mesmo muito marcada pela crise financeira de início desta década em Inglaterra, as consequentes medidas de austeridade que potenciaram o brexit e, mais recentemente, a comemoração dos cem anos do fim da primeira grande guerra e as memórias familiares que este evento despoletou em muitas famílias inglesas que têm aproveitado o momento para homenagearem e recodarem alguns dos seus heróis esquecidos e as suas façanhas.
É pois, nas asas de uma espécie de folk rock baseado em cordas exuberantes e com um brilho muito inédito e sui generis, amiúde adornadas por detalhes percursivos curiosos, dos quais sobressaiem diversos tipos de metais, um baixo discreto mas essencial no sustento do edifício melódico da maioria dos temas e um piano algo descontraído mas que aparece sempre no momento certo para conferir uma elevada dose de charme, que brilham canções como a descontraída e animada Gun To The Head ou a intrincada homónima. Esta última, por exemplo, é uma lindíssima peça sonora que nos coloca no meio de um teclado cósmico, de leves batidas e de uma guitarra que nos faz emergir da solidão, com a voz calma e humana de Albarn a mostrar-nos, uma vez mais, que por trás de um músico que tinha tudo para viver uma existência ímpar e plena de excessos, existe antes um homem comum, às vezes também solitário e moderno. Mas também nos detalhes doces da contemplativa Ribbons, no clima mais soturno de Nineteen Seventeen ou na sedutora Drifters & Trawlers se consegue sentir aquela névoa húmida tipicamente britânica e visualizar multidões em chapéu de coco a beber um chá ou um gin e a ter conversas humoradas com o típico sotaque que todos conhecemos, enquanto ao fundo, chaminés de tijolo fumarentas e barcos a vapor fazem respirar a alma de um povo sedento de normalidade, num mundo atual tão mecanizado e rotineiro e que, tantas vezes, atrofia, de algum modo, a predominância das vontades e necessidades de cada um, em detrimento daquilo que é descrito como o bem e a vontade comuns. Espero que aprecies a sugestão...
01. Introduction 02. Merrie Land 03. Gun To The Head 04. Nineteen Seventeen 05. The Great Fire 06. Lady Boston 07. Drifters And Trawlers 08. The Truce Of Twilight 09. Ribbons 10. The Last Man To Leave 11. The Poison Tree
Foi à boleia da GH-Records que viu a luz do dia Curses, o oitavo e mais recente registo de originais dos Naevus, um coletivo londrino formado atualmente por Lloyd James, Ben McLees, Hunter Barr e Sam Astley. Formados há já duas décadas por Lloyd e Joanne Owen, que já não faz parte do projeto, os Naevus eram frequentemente categorizados como mestres do neo-folk, tendo entretanto virado agulhas para territórios mais experimentais e lisérgicos, sendo sistematicamente comparados com nomes tão influentes como os Swans e Wire, expoentes máximos de um dos subgéneros mais subestimados do indie rock de cariz mais experimental.
É na exuberância das cordas, majestosas no singleOdour, e num forte travo melancólico que subsiste a sonoridade destes Naevus, mestres em replicar um som com um travo de religiosidade vincado, que consegue ser contundente e vibrante, mas também contido e convidativo, quer ao recolhimento, quer à introspeção. Os arranjos que flutuam em redor de melodias geralmente conduzidas pela guitarra e pela viola, têm, geralmente, aquele travo místico e tipicamente celta, como se percebe logo em The Wall In The Sun, umas das canções mais marcantes deste Curses, um registo que quebra um hiato de seis anos do grupo, sucedendo ao excelente The Division of Labour que, em dois mil e doze, juntou mais um enorme punhado de seguidores há já enorme legião de ouvintes que seguem este grupo com particular devoção.
De facto, Curses é o disco mais introspetivo e pessoal dos Naevus, que têm em Lloyd James a grande força motriz, que leva-nos numa alucinante viagem pela sua mente, um autor que consegue ser particularmente impressivo a debruçar-se sobre algumas das questões essenciais que toda e qualquer individualidade tem forçosamente de enfrentar num mundo cada vez mais competitivo e sempre em constante mutação. A acidez da guitarra de Abacus, o modo sinistro como disserta aobre algumas das suas agruras no claustrofóbico tema homónimo ou a a história de terror que narra em Dead Man Circling são outros notáveis exemplos do elevado cariz pessoal de um disco complexo, não só pela atmosfera muito própria que replica, mas também pelo modo como estes Naevus conseguem servir em bandeja de ouro um mundo sonoro onde pessoas estranhas e com vidas depressivas encontram alegria e utilidade na vida ao som das suas canções. Espero que aprecies a sugestão...
01. The Wall In The Sun 02. Dead Man Circling 03. Abacus 04. Heart Fell Foul 05. Aria/Acqua 06. Curses 07. The Pit 08. Odour 09. Surface
Foi no passado dia doze de outubro à boleia da Invada Records que chegou aos escaparates Only Now Forever, o sexto registo de originais da carreira dos londrinos The KVB, mais uma banda a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta. Liderados pela dupla Nicholas Wood e Kat Day, o núcleo duro do projeto, os The KVB gravaram este Only Now Forever em Berlim, no apartamentoque a banda tem nessa cidade alemã, depois de um ano de dois mil e dezasseis particularmente intenso e repleto de concertos.
Only Now Forever é um extraordinário registo sonoro em cuja concepção a dupla esmerou-se na construção de composições volumosas e conduzidas por um som denso, atmosférico e sujo, que encontra o seu principal sustento nas guitarras, na bateria e nos sintetizadores, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções que espreitam perigosamente uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia.
Com vários instantes sonoros relevantes, nomeadamente o compositório eletrónico que sustenta a voluptuosa epicidade de Above Us, o clima hipnótico do ecos e do som repetitivo das teclas de On My Skin e a melodia enleante de Only Now Forever, o tema homónimo do disco, três dos vários momentos altos deste agregado, Only Now Forever está recheado de canções onde os sintetizadores se posicionam numa posição cimeira, mas onde a primazia melódica foi entregue às guitarras, sempre acompanhadas por um baixo vibrante que nos recorda a importância que este instrumento ainda tem no punk rock mais sombrio que influencia tanto e tão bem esta banda. E há que realçar que os The KVB conseguem aliar às cordas desse instrumento, cuja gravidade exala ânsia, rispidez e crueza, uma produção cuidada, arranjos subtis e uma utilização bastante assertiva da componente maquinal.
Only Now Forever é mais uma cabal demonstração do modo exemplar como os The KVB são capazes de se insinuar nos nossos ouvidos com uma toada geral de elevado travo orgânico e fazem-no de modo inédito, porque são poucos os projetos contemporâneos que conseguem aliar desta forma a monumentalidade das cordas eletrificadas e da percurssão, com uma abundância de arranjos delicados, quer sintéticos, quer feitos com metais minimalistas. De facto, enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os The KVB já balizaram com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical. Espero que aprecies a sugestão...
01. Above Us 02. On My Skin 03. Only Now Forever 04. Afterglow 05. Violet Noon 06. Into Life 07. Live In Fiction 08. Tides 09. No Shelter 10. Cerulean
Your Queen Is a Reptile é o terceiro álbum do grupo britânico de jazz Sons of Kemet, um coletivo incubado em dois mil e onze e atualmente formado Shabaka Hutchings, Tom Skinner, Theon Cross e Eddie Hick. O grupo costuma servir-se do saxofone e do clarinete, instrumentos de sopro tocados por Hutchings, da tuba de Cross e de um exemplar trabalho de percurssão a cargo de Skinner e Hich para oferecer-nos um som que mistura o melhor do jazz, com alguns dos principais arquétipos do rock, da folk caribenha, do dub, da tropicalia e da música africana de cariz mais tradicional.
Your Queen Is A Reptile é uma referência direta à rainha de Inglaterra e à coroa britânica, assim como as notas da capa do disco. O objetivo do grupo é denunciar um ponto de vista, segundo o qual a atual monarca britânica não representa os imigrantes negros e não os vê como humanos, discriminando-os racialmente. Assim, nas nove canções do registo, o coletivo serve-se de cada uma das composições para homenagear figuras femininas de relevo, todas reais e com histórias de vida conturbadas, que subiram a pulso e que os Sons Of Kemet assumem ser as mulheres que realmente lhes importam e que regem as suas vidas.
Produzido pelo próprio Shabaka Hutchings, Your Queen Is A Reptile tem como grande motor melódico o saxofone deste músico, instrumento que depois vai suscitar nos restantes elementos sonoros a inserção de arranjos e detalhes que vão dar corpo a composições sempre com uma tonalidade grave, bastante encorpada e tremendamente ritmada.
Assim, só para citar alguns exemplos e deixando de lado a terminologia inicial My Queen Is, se em Angela Davis, canção que homenageia uma filósofa norte americana comunista acusada injustamente de matar um juiz na época de militância pelos Panteras Negras, na década de sessenta, presente-se os perigos e a perseguição que lhe foi movida através da gravidade da tuba, já em Mamie Phips Clark, uma psicóloga ativista que estudou a autoestima de crianças negras também nessa década, assistimos a uma espiral frenética que mistura dub e rock psicadélico, um efeito potenciado por uma superior performance na bateria. Depois, a coragem e a energia ativista da espiã do tempo da Guerra Civil americana, Harriet Tubman, um rosto recente das notas de vinte dólares e que se notabilizou por levar a cabo missões que libertaram centenas de escravos, é personificada pela modo ágil e virtuoso com que a melodia ganha vida com superior homogeneidade, através dos melhores recursos de todo o arsenal instrumental dos Sons Of Kemet.
Your Queen Is A Reptile tira do anonimato contemporâneo personagens que tiveram os seus momentos de dor, mas também de glória e de reconhecimento, mesmo que póstumo e cujos ideais que defenderam acabam por ser ainda muito atuais, num mundo que continua a não saber respeitar a diferença e as minorias. Numa Inglaterra aristocrática, a viver o Brexit em pleno, com uma certa fobia relativamente aos imigrantes e onde a Monarquia sempre mostrou um posicionamento político algo conservador, este disco faz ainda mais sentido, sendo um exercício claramente recompensador pesquisar acerca destas mulheres constestatárias de sistemas vigentes quase sempre impostos à força e depois relacioná-las com a abordagem sonora que os Sons Of Kemet criaram para lhes dar vida, cor, ritmo e voz. Espero que aprecies a sugestão...
Quase um ano depois do excelente Relaxer, os Alt-J (∆) de Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green, estão de regresso com Reduxer, uma revisitação incrível de onze temas desse disco que viu a luz do dia no ocaso de dois mil e dezassete e que sendo tematicamente corajoso e sonoramente muito complexo e encantador, foi desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasmando, à época, mais uma completa reestruturação no que parecia ser o som já firmado na premissa original da banda. Reduxer acaba por ampliar ainda mais esta permissa, ao oferecer o flanco de Relaxer ao hip hop, num alinhamento que conta com colaborações de GoldLink, o rapper parisiense Lomepal, Kontra K de Berlim, o rapper Rejjie Snow nascido em Dublin, Tuka da Austrália, o rapper porto-riquenho PJ Sin Suela e o aclamado Little Simz de Londres, entre outros, claramente alguns dos mais influentes e prolíficos artistas e produtores de hip hop da atualidade.
Os Alt-J (∆) têm pautado a sua carreira por bem sucedidas abordagens à pop ambiental contemporânea e ao art-rock clássico e esta abertura às especificidades de um hip hop que, atualmente, está cada vez mais disponível para se cruzar com a eletrónica, acaba por ser uma opção feliz quando a banda achou que deveria dar uma nova roupagem a alguns dos temas do seu último disco , alguns deles já autênticos clássicos do grupo. Portanto, Reduxer assume-se como uma epopeia onde em pouco mais de quarenta minutos se acumula um amplo referencial de elementos típicos de diversos universos sonoros, que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual, também muito por causa da performance vocal de alguns dos convidados, com especial destaque para Little Simz e Pusha T, que souberam como se aliar à subtileza vocal ímpar de Joe Newman. Assim, no desempenho emotivo de Pusha T em In Cold Blood, um trecho movido a sintetizador, rasgado por uma melodia profundamente sintética e digital, no modo como Jimmy Charles se adaptou ao virtuosismo da guitarra que trespassa o funk de Hit Me Like That Snare, no modo como em PleaderPJ Sin Suela deu um toque de exotismo curioso aos riquíssimos arranjos do diverso arsenal instrumental monumental cuidadosamente executado pela Orquestra Metropolitana de Londres no original, na sensualidade ímpar que Paigey Cakey e Hex ofereceram ao trip-hop acústico de Adeline e na leveza tocante e singela de Terrace Martin em Last Year, rematada pelo modo como o tom grave deste rapper consegue fazer sobressair ainda mais o travo melancólico da voz de Marika Hackman, fica expresso um arregaçar de mangas com uma linguagem criativa bem balizada, com o trio a mostrar uma visão democrática sobre como conseguir expandir o grau de ecletismo do seu cardápio sonoro, neste caso com uma dose algo arriscada de experimentalismo, mas que foi bem sucedida até porque souberam rodear-se das pessoas certas tendo em conta o território sonoro selecionado.
Em suma, mais do que um complemento de um disco anterior, como se fosse uma espécie de seleção de lados b ou novas versões, Reduxer é um álbum com uma identidade muito própria, um registo pleno de especificidades e indutor de novas nuances no seio do universo Alt-J (∆), um registo que além de não renegar a identidade sonora distinta da banda, ainda a elevou para um novo patamar de novos cenários e experiências instrumentais. Espero que aprecies a sugestão...
01. 3WW (Feat. Little Simz) [OTG Version] 02. In Cold Blood (Feat. Pusha T) [Twin Shadow Version] 03. House Of The Rising Sun (Feat. Tuka) [Tuka Version] 04. Hit Me Like That Snare (Jimi Charles Moody Version) 05. Deadcrush (Feat. Danny Brown) [Alchemist x Trooko Version] 06. Adeline (Feat. Paigey Cakey And Hex) [ADP Version] 07. Last Year (Feat. GoldLink) [Terrace Martin Version] 08. Pleader (Feat. PJ Sin Suela) [Trooko Version] 09. 3WW (Feat. Lomepal) [Lomepal Version] 10. In Cold Blood (Feat. Kontra K) [Kontra K Version] 11. Hit Me Like That Snare (Feat. Rejjie Snow) [Rejjie Snow Version]
Nascidos das cinzas dos Pete & The Pirates, um quinteto de Reading que editou dois excelentes discos no final da década passada, os britânicos Teleman são o vocalista Tommy Sanders, o seu irmão Johnny (teclados), o baixista Peter Cattermoul e o baterista Hiro Amamiya. Depois de Breakfast (2014) o fantástico disco de estreia desta banda que é já um dos grandes destaques do catálogo da insuspeita Moshi Moshi Records e do segundo registo intitulado Brilliant Sanity (2016), o quarteto está de regresso com Family Of Aliens, onze excelentes canções, gravadas com método e enorme profissionalismo, segundo rezam as crónicas e produzidas mais uma vez por Dan Carey.
Em fórmula que ganha não se mexe e quem conhece a fundo a discografias dos Teleman e já ouviu com atenção Family Of Aliens, percebe que a fórmula que rege o adn identitário deste quarteto britânico mantém-se intocável. Na verdade, do piscar de olhos ao chamado discosound em Song for A Seagull à imponência do tema homónimo, passando pela cândura algo boémia do piano de Between The Rain, os Teleman fazem, no terceiro disco do seu cardápio, mais uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com uma pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou neste álbum mais um alinhamento consistente e carregado de referências assertivas.
O baixo de Cactus, o primeiro single divulgado do disco e o modo como se alia a um sintetizador condutor das base melódica e, simultaneamente, responsável por flashes cósmicos inebriantes merecem, por si só, a audição deste álbum, numa composição que pisca o olho com languidez ao melhor cardápio de projetos como os Hot Chip. Mas há em Family Of Aliens outras notáveis canções, além das já descritas, que mostram um notável recorte clássico e uma paleta colorida, leve, fresca e animada de paisagens instrumentais e líricas. Delas destaco também a delicadeza de Always Dreaming, o charme único de Submarine Life, uma curiosa ode daftpunkiana, além dos arranjos envolventes e sofisticados e da sensibilidade melódica muito aprazível de Twisted Heart, composição que intercala uma excelente interpretação vocal de Tommy Sanders com um trabalho instrumental habilidoso da restante banda, nomeadamente a bateria e a guitarra.
Ao terceiro registo, os Teleman oferecem-nos mais uma fresca coleção de canções pop que caem muito bem no ocaso de um verão que pecou por tardio mas que teima em manter-se altivo, um pouco à imagem deste projeto que apresenta aqui alguns dos melhores instantes do seu historial sonoro . Espero que aprecies a sugestão...
01. Family Of Aliens 02. Cactus 03. Song For A Seagull 04. Between The Rain 05. Always Dreaming 06. Submarine Life 07. Twisted Heart 08. Somebody’s Island 09. Sea Of Wine 10. Fun Destruction 11. Starlight
É com genuína mágoa que confesso ter sido já tardiamente que descobri Songs Of Praise, o disco de estreia dos britânicos Shame, um quinteto formado por Eddie Green, Charlie Forbes, Josh Finerty, Sean Coyle-Smith e Charlie Steen, oriundo dos arredores de Londres, abrigado pela chancela da Dead Oceans e que em dez canções oferece-nos um punk rock de primeira água, com um espetro identitário abrangente que, dos The Fall aos Stone Roses, passando pelos Buzzcocks, Ride, os Blur, os Primal Scream, os Joy Division e os mais contemporâneos Parquet Courts ou Interpol, encontra as suas origens no rock psicadélico setentista e no punk da década seguinte e que não renegando algumas caraterísticas essenciais do rock alternativo noventista, também não enjeita abraçar a herança nova iorquina que tentou salvar o rock no início deste século.
Songs Of Praise foi um dos discos mais comentados pela crítica britânica no início deste ano e a publicação New Musical Express chegou mesmo a dar nota máxima (cem valores) ao seu conteúdo quando publicou a crítica do álbum, um valor incomum e que expressa, de certo modo, a ânsia que existe nesse mercado pela descoberta e posterior garantia de sobrevivência de projetos sonoros que fujam ao apelo radiofónico e que consigam também oferecer ao rock novos fôlegos e heróis. E de facto, para os amantes do género, Songs Of Praise é um disco que merece audição cuidada e que irá, certamente, tornar-se objeto de culto e de devoção durante algum tempo.
Realmente Songs Of Praise está repleto de instantes que impressionam e deliciam. No clima intuitivo e ao mesmo tempo imponente de Dust On Trial, no modo como a bateria e as guitarras se entrelaçam com o baixo em Concrete, no punk direto de Donk, na energia intiuitiva de Lampoon, na riqueza instrumental de Tasteless, canção que cita o lendário Bigby de Trainspotting ou na simplicidade melódica assustadoramente feliz de Friction, talvez os dois temas que melhor homenageiam a britpop no disco e, principalmente, no clima contemplativo e denso de Angie, uma canção que fala de um amor não correspondido que um adolescente sente por alguém que está prestes a suicidar-se, aborve-se até ao tutano uma obra repleta de méritos e de acertadas conexões criativas entre diferentes espetros de um mesmo universo sonoro, que abraça o lado mais negro do amor e as suas habituais agonias, mas também as dores e os medos de quem procura sobreviver nesta típica urbanidade ocidental cada vez mais decadente de valores e referências, a viver o brexit e social e politicamente cada vez mais crispada e bipolarizada.
Songs Of Praise é o reflexo contundente, seco e profuso de um rock de guitarras que emergiu para dias de infinita glória de um canto escuro dos subúrbios de uma problemática Londres e da sua zona sul em parte decadente, um rock que mostra sem medo as suas garras, um rock feito intuitivamente e que não quer dar concessões ao mainstream. Os seus autores são cinco jovens britânicos de gema, rudes e efervescentes, que parecem já ter o seu modus operandi presente e, devido a esta extraordinária estreia, brilhante, madura e refrescante, um futuro devidamente consolidado na primeira linha do indie rock alternativo. Espero que aprecies a sugestão...
Singularity é o quinto álbum de estúdio do músico, produtor, DJ e pianista inglês Jon Hopkins, um alinhamento lançado na passada primavera pela Domino Records e que sucedendo ao aclamado registo Immunity, consolida a mestria deste músico como escultor exímio de composições sonoras com elevado travo tridimensional, uma eletronica de cariz eminentemente ambiental, onde reina a complexidade do sintético.
Seguidor confesso de Brian Eno, mas também a seguir o rasto de nomes tão importantes como Four Tet ou os Boards of Canada, Jon Hopkins oferece-nos em Singularityum verdadeiro banquete de revisitação de um período da eletrónica que foi praticamente marcante, as décadas de setenta e de oitenta do século passado, com o clima progressivo da primeira e uma faceta mais pop da segunda a serem aqui fundidas, muitas vezes e modo quase impercetivel, como se percebe logo na espiral crescente do volumoso tema homónimo que abre o disco, uma canção onde a um trecho melódico constante, vão sendo adicionados efeitos cada vez mais rugosos e distorcidos. Depois, no psicadelismo abrasivo de Emerald Rush, uma canção construída através de uma sóbria sobreposição de diferentes camadas de batidas e efeitos, com um resultado final praticularmente cósmico e etéreo, somos transportados para um território insinuante no modo como nos convida à dança e à inquietude física e mental.
Após este início promissor, Singularity entra num período mais climático e experimental, com Hopkins a olhar sempre para o tal passado de modo a criar na nossa mente uma sensação de constante incerteza, já que nunca sabemos muito bem como o registo vai continuar a progredir. Temas como Neon Pattern Drum, um banquete percussivo muito heterógeneo e repleto de efeitos curiosos, Everything Connected, uma fusão de techno com post rock repleta de colagens e variações rítmicas, o minimalismo hipnótico de Feel First Life e de COSM e o piano intrigante que sustenta Echo Dissolve, são composições que, fazendo-nos muitas vezes flutuar e divagar por um universo que será sempre oculto para quem não crê no poder da música como indutor de estados de alma e terapeuta emocional, contêm uma leveza rara e mágica só possível de ser entendida por quem se deixar enlear por esta espécie de filosofia meditativa.
Complexo, às vezes contemplativo e vagaroso, mas também muitas vezes extasiante, tridimensional e frenético, Singularity é um disco onde a clareza de ideias e o torpor, o desânimo e a euforia também se misturam, através de um alinhamento ondulante que, no seu todo, constitui uma viagem impressiva pela mente de um músico que quer que este disco seja olhado como uma experiencia transcendental, ou seja, é um álbum que deve ser aborvido como um todo e escutado do início ao fim, sem quebras, porque esse é o único modo que, na sua óptica, nos permite retirar dele toda a sua energia e decifrar todo o seu potencial comunicativo. Espero que aprecies a sugestão....