Segunda-feira, 5 de Novembro de 2018

Naevus – Curses

Foi à boleia da GH-Records que viu a luz do dia Curses, o oitavo e mais recente registo de originais dos Naevus, um coletivo londrino formado atualmente por Lloyd James, Ben McLees, Hunter Barr e Sam Astley. Formados há já duas décadas por Lloyd e Joanne Owen, que já não faz parte do projeto, os Naevus eram frequentemente categorizados como mestres do neo-folk, tendo entretanto virado agulhas para territórios mais experimentais e lisérgicos, sendo sistematicamente comparados com nomes tão influentes como os Swans e Wire, expoentes máximos de um dos subgéneros mais subestimados do indie rock de cariz mais experimental.

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É na exuberância das cordas, majestosas no single Odour, e num forte travo melancólico que subsiste a sonoridade destes Naevus, mestres em replicar um som com um travo de religiosidade vincado, que consegue ser contundente e vibrante, mas também contido e convidativo, quer ao recolhimento, quer à introspeção. Os arranjos que flutuam em redor de melodias geralmente conduzidas pela guitarra e pela viola, têm, geralmente, aquele travo místico e tipicamente celta, como se percebe logo em The Wall In The Sun, umas das canções mais marcantes deste Curses, um registo que quebra um hiato de seis anos do grupo, sucedendo ao excelente The Division of Labour que, em dois mil e doze, juntou mais um enorme punhado de seguidores há já enorme legião de ouvintes que seguem este grupo com particular devoção.

De facto, Curses é o disco mais introspetivo e pessoal dos Naevus, que têm em Lloyd James a grande força motriz, que leva-nos numa alucinante viagem pela sua mente, um autor que consegue ser particularmente impressivo a debruçar-se sobre algumas das questões essenciais que toda e qualquer individualidade tem forçosamente de enfrentar num mundo cada vez mais competitivo e sempre em constante mutação. A acidez da guitarra de Abacus, o modo sinistro como disserta aobre algumas das suas agruras no claustrofóbico tema homónimo ou a a história de terror que narra em Dead Man Circling são outros notáveis exemplos do elevado cariz pessoal de um disco complexo, não só pela atmosfera muito própria que replica, mas também pelo modo como estes Naevus conseguem servir em bandeja de ouro um mundo sonoro onde pessoas estranhas e com vidas depressivas encontram alegria e utilidade na vida ao som das suas canções. Espero que aprecies a sugestão...

Naevus - Curses

01. The Wall In The Sun
02. Dead Man Circling
03. Abacus
04. Heart Fell Foul
05. Aria/Acqua
06. Curses
07. The Pit
08. Odour
09. Surface


autor stipe07 às 21:46
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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

The KVB – Only Now Forever

Foi no passado dia doze de outubro à boleia da Invada Records que chegou aos escaparates Only Now Forever, o sexto registo de originais da carreira dos londrinos The KVB, mais uma banda a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta. Liderados pela dupla Nicholas Wood e Kat Day, o núcleo duro do projeto, os The KVB gravaram este Only Now Forever em Berlim, no apartamento que a banda tem nessa cidade alemã, depois de um ano de dois mil e dezasseis particularmente intenso e repleto de concertos.

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Only Now Forever é um extraordinário registo sonoro em cuja concepção a dupla esmerou-se na construção de composições volumosas e conduzidas por um som denso, atmosférico e sujo, que encontra o seu principal sustento nas guitarras, na bateria e nos sintetizadores, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções que espreitam perigosamente uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia.

Com vários instantes sonoros relevantes, nomeadamente o compositório eletrónico que sustenta a voluptuosa epicidade de Above Us, o clima hipnótico do ecos e do som repetitivo das teclas de On My Skin e a melodia enleante de Only Now Forever, o tema homónimo do disco, três dos vários momentos altos deste agregado, Only Now Forever está recheado de canções onde os sintetizadores se posicionam numa posição cimeira, mas onde a primazia melódica foi entregue às guitarras, sempre acompanhadas por um baixo vibrante que nos recorda a importância que este instrumento ainda tem no punk rock mais sombrio que influencia tanto e tão bem esta banda. E há que realçar que os The KVB conseguem aliar às cordas desse instrumento, cuja gravidade exala ânsia, rispidez e crueza, uma produção cuidada, arranjos subtis e uma utilização bastante assertiva da componente maquinal.

Only Now Forever é mais uma cabal demonstração do modo exemplar como os The KVB são capazes de se insinuar nos nossos ouvidos com uma toada geral de elevado travo orgânico e fazem-no de modo inédito, porque são poucos os projetos contemporâneos que conseguem aliar desta forma a monumentalidade das cordas eletrificadas e da percurssão, com uma abundância de arranjos delicados, quer sintéticos, quer feitos com metais minimalistas. De facto, enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os The KVB já balizaram com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical. Espero que aprecies a sugestão...

The KVB - Only Now Forever

01. Above Us
02. On My Skin
03. Only Now Forever
04. Afterglow
05. Violet Noon
06. Into Life
07. Live In Fiction
08. Tides
09. No Shelter
10. Cerulean


autor stipe07 às 21:42
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Sons Of Kemet - Your Queen Is A Reptile

Your Queen Is a Reptile é o terceiro álbum do grupo britânico de jazz Sons of Kemet, um coletivo incubado em dois mil e onze e atualmente formado Shabaka Hutchings, Tom Skinner, Theon Cross e Eddie Hick. O grupo costuma servir-se do saxofone e do clarinete, instrumentos de sopro tocados por Hutchings, da tuba de Cross e de um exemplar trabalho de percurssão a cargo de Skinner e Hich para oferecer-nos um som que mistura o melhor do jazz, com alguns dos principais arquétipos do rock, da folk caribenha, do dub, da tropicalia e da música africana de cariz mais tradicional.

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Your Queen Is A Reptile é uma referência direta à rainha de Inglaterra e à coroa britânica, assim como as notas da capa do disco. O objetivo do grupo é denunciar um ponto de vista, segundo o qual a atual monarca britânica não representa os imigrantes negros e não os vê como humanos, discriminando-os racialmente. Assim, nas nove canções do registo, o coletivo serve-se de cada uma das composições para homenagear figuras femininas de relevo, todas reais e com histórias de vida conturbadas, que subiram a pulso e que os Sons Of Kemet assumem ser as mulheres que realmente lhes importam e que regem as suas vidas.
Produzido pelo próprio Shabaka Hutchings, Your Queen Is A Reptile tem como grande motor melódico o saxofone deste músico, instrumento que depois vai suscitar nos restantes elementos sonoros a inserção de arranjos e detalhes que vão dar corpo a composições sempre com uma tonalidade grave, bastante encorpada e tremendamente ritmada. 
Assim, só para citar alguns exemplos e deixando de lado a terminologia inicial My Queen Is, se em Angela Davis, canção que homenageia uma filósofa norte americana comunista acusada injustamente de matar um juiz na época de militância pelos Panteras Negras, na década de sessenta, presente-se os perigos e a perseguição que lhe foi movida através da gravidade da tuba, já em Mamie Phips Clark, uma psicóloga ativista que estudou a autoestima de crianças negras também nessa década, assistimos a uma espiral frenética que mistura dub e rock psicadélico, um efeito potenciado por uma superior performance na bateria. Depois, a coragem e a energia ativista da espiã do tempo da Guerra Civil americana, Harriet Tubman, um rosto recente das notas de vinte dólares e que se notabilizou por levar a cabo missões que libertaram centenas de escravos, é personificada pela modo ágil e virtuoso com que a melodia ganha vida com superior homogeneidade, através dos melhores recursos de todo o arsenal instrumental dos Sons Of Kemet.

Your Queen Is A Reptile tira do anonimato contemporâneo personagens que tiveram os seus momentos de dor, mas também de glória e de reconhecimento, mesmo que póstumo e cujos ideais que defenderam acabam por ser ainda muito atuais, num mundo que continua a não saber respeitar a diferença e as minorias. Numa Inglaterra aristocrática, a viver o Brexit em pleno, com uma certa fobia relativamente aos imigrantes e onde a Monarquia sempre mostrou um posicionamento político algo conservador, este disco faz ainda mais sentido, sendo um exercício claramente recompensador pesquisar acerca destas mulheres constestatárias de sistemas vigentes quase sempre impostos à força e depois relacioná-las com a abordagem sonora que os Sons Of Kemet criaram para lhes dar vida, cor, ritmo e voz. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 10:40
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Segunda-feira, 1 de Outubro de 2018

Alt-J (∆) – Reduxer

Quase um ano depois do excelente Relaxer, os Alt-J (∆) de Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green, estão de regresso com Reduxer, uma revisitação incrível de onze temas desse disco que viu a luz do dia no ocaso de dois mil e dezassete e que sendo tematicamente corajoso e sonoramente muito complexo e encantador, foi desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasmando, à época, mais uma completa reestruturação no que parecia ser o som já firmado na premissa original da banda. Reduxer acaba por ampliar ainda mais esta permissa, ao oferecer o flanco de Relaxer ao hip hop, num alinhamento que conta com colaborações de GoldLink, o rapper parisiense Lomepal, Kontra K de Berlim, o rapper Rejjie Snow nascido em Dublin, Tuka da Austrália, o rapper porto-riquenho PJ Sin Suela e o aclamado Little Simz de Londres, entre outros, claramente alguns dos mais influentes e prolíficos artistas e produtores de hip hop da atualidade.

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Os Alt-J (∆) têm pautado a sua carreira por bem sucedidas abordagens à pop ambiental contemporânea e ao art-rock clássico e esta abertura às especificidades de um hip hop que, atualmente, está cada vez mais disponível para se cruzar com a eletrónica, acaba por ser uma opção feliz quando a banda achou que deveria dar uma nova roupagem a alguns dos temas do seu último disco , alguns deles já autênticos clássicos do grupo. Portanto, Reduxer assume-se como uma epopeia onde em pouco mais de quarenta minutos se acumula um amplo referencial de elementos típicos de diversos universos sonoros, que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual, também muito por causa da performance vocal de alguns dos convidados, com especial destaque para Little Simz e Pusha T, que souberam como se aliar à subtileza vocal ímpar de Joe Newman. Assim, no desempenho emotivo de Pusha T em In Cold Blood, um trecho movido a sintetizador, rasgado por uma melodia profundamente sintética e digital, no modo como Jimmy Charles se adaptou ao virtuosismo da guitarra que trespassa o funk de Hit Me Like That Snare, no modo como em Pleader PJ Sin Suela deu um toque de exotismo curioso aos riquíssimos arranjos do diverso arsenal instrumental monumental cuidadosamente executado pela Orquestra Metropolitana de Londres no original, na sensualidade ímpar que Paigey Cakey e Hex ofereceram ao trip-hop acústico de Adeline e na leveza tocante e singela de Terrace Martin em Last Year, rematada pelo modo como o tom grave deste rapper consegue fazer sobressair ainda mais o travo melancólico da voz de Marika Hackman, fica expresso um arregaçar de mangas com uma linguagem criativa bem balizada, com o trio a mostrar uma visão democrática sobre como conseguir expandir o grau de ecletismo do seu cardápio sonoro, neste caso com uma dose algo arriscada de experimentalismo, mas que foi bem sucedida até porque souberam rodear-se das pessoas certas tendo em conta o território sonoro selecionado.

Em suma, mais do que um complemento de um disco anterior, como se fosse uma espécie de seleção de lados b ou novas versões, Reduxer é um álbum com uma identidade muito própria, um registo pleno de especificidades e indutor de novas nuances no seio do universo Alt-J (∆), um registo que além de não renegar a identidade sonora distinta da banda, ainda a elevou para um novo patamar de novos cenários e experiências instrumentais. Espero que aprecies a sugestão...

Alt-J (∆) - Reduxer

01. 3WW (Feat. Little Simz) [OTG Version]
02. In Cold Blood (Feat. Pusha T) [Twin Shadow Version]
03. House Of The Rising Sun (Feat. Tuka) [Tuka Version]
04. Hit Me Like That Snare (Jimi Charles Moody Version)
05. Deadcrush (Feat. Danny Brown) [Alchemist x Trooko Version]
06. Adeline (Feat. Paigey Cakey And Hex) [ADP Version]
07. Last Year (Feat. GoldLink) [Terrace Martin Version]
08. Pleader (Feat. PJ Sin Suela) [Trooko Version]
09. 3WW (Feat. Lomepal) [Lomepal Version]
10. In Cold Blood (Feat. Kontra K) [Kontra K Version]
11. Hit Me Like That Snare (Feat. Rejjie Snow) [Rejjie Snow Version]


autor stipe07 às 14:31
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Quinta-feira, 13 de Setembro de 2018

Teleman – Family Of Aliens

Nascidos das cinzas dos Pete & The Pirates, um quinteto de Reading que editou dois excelentes discos no final da década passada, os britânicos Teleman são o vocalista Tommy Sanders, o seu irmão Johnny (teclados), o baixista Peter Cattermoul e o baterista Hiro Amamiya. Depois de Breakfast (2014) o fantástico disco de estreia desta banda que é já um dos grandes destaques do catálogo da insuspeita Moshi Moshi Records e do segundo registo intitulado Brilliant Sanity (2016), o quarteto está de regresso com Family Of Aliens, onze excelentes canções, gravadas com método e enorme profissionalismo, segundo rezam as crónicas e produzidas mais uma vez por Dan Carey.

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Em fórmula que ganha não se mexe e quem conhece a fundo a discografias dos Teleman e já ouviu com atenção Family Of Aliens, percebe que a fórmula que rege o adn identitário deste quarteto britânico mantém-se intocável. Na verdade, do piscar de olhos ao chamado discosound em Song for A Seagull à imponência do tema homónimo, passando pela cândura algo boémia do piano de Between The Rain, os Teleman fazem, no terceiro disco do seu cardápio, mais uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com uma pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou neste álbum mais um alinhamento consistente e carregado de referências assertivas.

O baixo de Cactus, o primeiro single divulgado do disco e o modo como se alia a um sintetizador condutor das base melódica e, simultaneamente, responsável por flashes cósmicos inebriantes merecem, por si só, a audição deste álbum, numa composição que pisca o olho com languidez ao melhor cardápio de projetos como os Hot Chip. Mas há em Family Of Aliens outras notáveis canções, além das já descritas, que mostram um notável recorte clássico e uma paleta colorida, leve, fresca e animada de paisagens instrumentais e líricas. Delas destaco também a delicadeza de Always Dreamingo charme único de Submarine Life, uma curiosa ode daftpunkiana, além dos arranjos envolventes e sofisticados e da sensibilidade melódica muito aprazível de Twisted Heart, composição que intercala uma excelente interpretação vocal de Tommy Sanders com um trabalho instrumental habilidoso da restante banda, nomeadamente a bateria e a guitarra.

Ao terceiro registo, os Teleman oferecem-nos mais uma fresca coleção de canções pop que caem muito bem no ocaso de um verão que pecou por tardio mas que teima em manter-se altivo, um pouco à imagem deste projeto que apresenta aqui alguns dos melhores instantes do seu historial sonoro . Espero que aprecies a sugestão...

Teleman - Family Of Aliens

01. Family Of Aliens
02. Cactus
03. Song For A Seagull
04. Between The Rain
05. Always Dreaming
06. Submarine Life
07. Twisted Heart
08. Somebody’s Island
09. Sea Of Wine
10. Fun Destruction
11. Starlight


autor stipe07 às 16:14
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

Shame - Songs Of Praise

É com genuína mágoa que confesso ter sido já tardiamente que descobri Songs Of Praise, o disco de estreia dos britânicos Shame, um quinteto formado por Eddie Green, Charlie Forbes, Josh Finerty, Sean Coyle-Smith e Charlie Steen, oriundo dos arredores de Londres, abrigado pela chancela da Dead Oceans e que em dez canções oferece-nos um punk rock de primeira água, com um espetro identitário abrangente que, dos The Fall aos Stone Roses, passando pelos Buzzcocks, Ride, os Blur, os Primal Scream, os Joy Division e os mais contemporâneos Parquet Courts ou Interpol, encontra as suas origens no rock psicadélico setentista e no punk da década seguinte e que não renegando algumas caraterísticas essenciais do rock alternativo noventista, também não enjeita abraçar a herança nova iorquina que tentou salvar o rock no início deste século.

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Songs Of Praise foi um dos discos mais comentados pela crítica britânica no início deste ano e a publicação New Musical Express chegou mesmo a dar nota máxima (cem valores) ao seu conteúdo quando publicou a crítica do álbum, um valor incomum e que expressa, de certo modo, a ânsia que existe nesse mercado pela descoberta e posterior garantia de sobrevivência de projetos sonoros que fujam ao apelo radiofónico e que consigam também oferecer ao rock novos fôlegos e heróis. E de facto, para os amantes do género, Songs Of Praise é um disco que merece audição cuidada e que irá, certamente, tornar-se objeto de culto e de devoção durante algum tempo.

Realmente Songs Of Praise está repleto de instantes que impressionam e deliciam. No clima intuitivo e ao mesmo tempo imponente de Dust On Trial, no modo como a bateria e as guitarras se entrelaçam com o baixo em Concrete, no punk direto de Donk, na energia intiuitiva de Lampoon, na riqueza instrumental de Tasteless, canção que cita o lendário Bigby de Trainspotting ou na simplicidade melódica assustadoramente feliz de Friction, talvez os dois temas que melhor homenageiam a britpop no disco e, principalmente, no clima contemplativo e denso de Angie, uma canção que fala de um amor não correspondido que um adolescente sente por alguém que está prestes a suicidar-se, aborve-se até ao tutano uma obra repleta de méritos e de acertadas conexões criativas entre diferentes espetros de um mesmo universo sonoro, que abraça o lado mais negro do amor e as suas habituais agonias, mas também as dores e os medos de quem procura sobreviver nesta típica urbanidade ocidental cada vez mais decadente de valores e referências, a viver o brexit e social e politicamente cada vez mais crispada e bipolarizada.

Songs Of Praise é o reflexo contundente, seco e profuso de um rock de guitarras que emergiu para dias de infinita glória de um canto escuro dos subúrbios de uma problemática Londres e da sua zona sul em parte decadente, um rock que mostra sem medo as suas garras, um rock feito intuitivamente e que não quer dar concessões ao mainstream. Os seus autores são cinco jovens britânicos de gema, rudes e efervescentes, que parecem já ter o seu modus operandi presente e, devido a esta extraordinária estreia, brilhante, madura e refrescante, um futuro devidamente consolidado na primeira linha do indie rock alternativo. Espero que aprecies a sugestão...

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autor stipe07 às 14:54
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2018

Jon Hopkins - Singularity

Singularity é o quinto álbum de estúdio do músico, produtor, DJ e pianista inglês Jon Hopkins, um alinhamento lançado na passada primavera pela Domino Records e que sucedendo ao aclamado registo Immunity, consolida a mestria deste músico como escultor exímio de composições sonoras com elevado travo tridimensional, uma eletronica de cariz eminentemente ambiental, onde reina a complexidade do sintético.

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Seguidor confesso de Brian Eno, mas também a seguir o rasto de nomes tão importantes como Four Tet ou os Boards of Canada, Jon Hopkins oferece-nos em Singularity um verdadeiro banquete de revisitação de um período da eletrónica que foi praticamente marcante, as décadas de setenta e de oitenta do século passado, com o clima progressivo da primeira e uma faceta mais pop da segunda a serem aqui fundidas, muitas vezes e modo quase impercetivel, como se percebe logo na espiral crescente do volumoso tema homónimo que abre o disco, uma canção onde a um trecho melódico constante, vão sendo adicionados efeitos cada vez mais rugosos e distorcidos. Depois, no psicadelismo abrasivo de Emerald Rush, uma canção construída através de uma sóbria sobreposição de diferentes camadas de batidas e efeitos, com um resultado final praticularmente cósmico e etéreo, somos transportados para um território insinuante no modo como nos convida à dança e à inquietude física e mental.

Após este início promissor, Singularity entra num período mais climático e experimental, com Hopkins a olhar sempre para o tal passado de modo a criar na nossa mente uma sensação de constante incerteza, já que nunca sabemos muito bem como o registo vai continuar a progredir. Temas como Neon Pattern Drum, um banquete percussivo muito heterógeneo e repleto de efeitos curiosos, Everything Connected, uma fusão de techno com post rock repleta de colagens e variações rítmicas, o minimalismo hipnótico de Feel First Life e de COSM e o piano intrigante que sustenta Echo Dissolve, são composições que, fazendo-nos muitas vezes flutuar e divagar por um universo que será sempre oculto para quem não crê no poder da música como indutor de estados de alma e terapeuta emocional, contêm uma leveza rara e mágica só possível de ser entendida por quem se deixar enlear por esta espécie de filosofia meditativa.

Complexo, às vezes contemplativo e vagaroso, mas também muitas vezes extasiante, tridimensional e frenético, Singularity é um disco onde a clareza de ideias e o torpor, o desânimo e a euforia também se misturam, através de um alinhamento ondulante que, no seu todo, constitui uma viagem impressiva pela mente de um músico que quer que este disco seja olhado como uma experiencia transcendental, ou seja, é um álbum que deve ser aborvido como um todo e escutado do início ao fim, sem quebras, porque esse é o único modo que, na sua óptica, nos permite retirar dele toda a sua energia e decifrar todo o seu potencial comunicativo. Espero que aprecies a sugestão....


autor stipe07 às 19:07
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Sábado, 18 de Agosto de 2018

Still Corners – Slow Air

Dois anos depois do belíssimo registo Dead Blue, a dupla britânica Still Corners está de regresso, novamente à boleia da Wrecking Light, com Slow Air, o quarto álbum da carreira deste projeto formado por Greg Hughes e Tessa Murray e que agora sedeado nos Estados Unidos tem pautado a sua carreira por calcorrear um percurso sonoro balizado por uma pop leve e sonhadora, íntima da natureza etérea e onde os sintetizadores são reis, mas também uma pop que pisca muitas vezes o olho aquele rock alternativo em que as guitarras eléctricas e acústicas marcam indubitavelmente uma forte presença.

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Iniciamos a audição de Slow Air e, na cadência embaladora de In The Middle Of The Night e, logo depois, no tremendo charme dos acordes da guitarra que plana sobre a melodia de The Message, percebe-se que os Still Corners continuam exímios no modo como se servem de alguns dos mais relevantes aspetos herdados da eletrónica dos anos oitenta, para os cruzar com forte sentido melódico e um indesmentível bom gosto, principalmente ao nível dos arranjos. E fazem-no com aquela saudável rugosidade orgânica que o baixo e a guitarra eletrificada contêm, tendo sempre em ponto de mira a criação de canções feitas de romantismo e sensualidade, sensações muito latentes nas propostas acolhedoras que controlam o timbre vocal de Tessa Murray, enleante e até algo hipnótico em Sad Movies, talvez o tema do registo onde a cantora melhor plasma os seus enormes atributos e onde a sua performance mais impressiona no modo como simbioticamente se cruza com a heterogeneidade instrumental, neste caso essencialmente sintética, que alicerça a canção.

O disco avança sem deixar de manter um elevado nível qualitativo e nos curiosos agregados percurssivos que fazem flutuar Welcome to Slow Air, tema com uma estética global algo etérea e intemporal, no modo como os efeitos dos teclados de Black Lagoon servem para acentuar o clima dançante da composição, na toada contemplativa e reflexiva de Dreamlands, na mais sombria e enigmática de Whisper e no nostálgico lo fi psicadélico de Fade Out torna-se claro que a sua audição cuidada é um exercício algo complexo mas claramente recompensador para o ouvinte.

Registo que conscientemente serve para fazer uma ponte entre o passado que inspira os Still Corners e o presente onde se querem inserir, Slow Air é uma espécie de travessia temporal à boleia de uma obra alimentada por temáticas recentes do universo pop e por uma indisfarçável nostalgia sonora, essencialmente a que contém aquele teor mais intimista que busca sempre o ideal de grandiosidade, mas sempre controlada. Dessa forma, acaba por ser um registo que nos leva ao encontro de emoções fortes e explosivas, algumas outrora adormecidas, mas que também não descura instantes que nos possibilitem depois serenar. Sem dúvida, um trabalho fantástico para ser escutado num dia de sol acolhedor, como os mais recentes. Espero que aprecies a sugestão...

Still Corners - Slow Air

01. In the Middle Of The Night
02. The Message
03. Sad Movies
04. Welcome To Slow Air
05. Black Lagoon
06. Dreamlands
07. Whisper
08. Fade Out
09. The Photograph
10. Long Goodbyes


autor stipe07 às 14:46
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2018

Simon Love - Not If I See You First

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Três anos depois de se estreado nos discos com o muito apetecível registo pop It Seemed Like A Good Idea At The Time, o britânico Simon Love regressa em setembro aos lançamentos discográficos com Sincerely, S. Love X, dez canções abrigadas à sombra da Tapete Records e das quais acaba de ser retirado o single Not If I See You First, tema conduzido por um efusivo piano, adornado por cordas e sopros, nomeadamente trompetes e com muitos outros dos melhores ingredientes da mais genuina herança da brit pop. A canção encerra o alinhamento do álbum e também já teve direito a um vídeo de promoção.

Sincerely, S. Love x apresenta dez excelentes temas gravado nos últimos dois anos em Londres e o disco, de acordo com o press release do lançamento, evoca imagens do vídeo de Run DMC/ Aerosmith "Walk This Way". A Fruitgum Company de 1910 estaria a ensaiar num dos lados da parede e The Left Banke no outro. Quando a parede entre as duas bandas se desmoronar, o Elton John pode aparecer para ver de que se trata todo o alarido. Ele vê um piano de cauda branco e junta-se. Depois abrem algumas garrafas de Cola e ouvem The Rutles ou 7 polegadas da Stiff Records. E já que estão todos no mesmo lugar, gravam algumas músicas juntos. A última palavra vai para o próprio Simon: Please, buy the álbum, my son eats like a horse and he need new shoes. Sincerely, Simon Love. Confere...


autor stipe07 às 10:05
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

The Wave Pictures – Brushes With Happiness

Uma das bandas mais profícuas e queridas do cenário indie britânico são os The Wave Pictures de David Tattersall, Franic Rozycki e Johnny 'Huddersfield' Helm, nestas andanças há uns doze anos, mas que estrearam uma segunda vida discográfica em 2011 com Beer In The Breakers e que têm habituado os seus seguidores a pelo menos um lançamento discográfico de relevo por ano. Em 2018 elevam a fasquia e editam dois compêndios, sendo o primeiro Brushes With Happiness, nove canções gravadas espontaneamente pelo trio em apenas um dia de janeiro, num pequeno estúdio caseiro, abrigadas à sombra da Moshi Moshi Records e que, conforme explica Dave Tattersall, o líder da banda, têm um lado muito espiritual e sentimental; We recorded this album live in a small room to tape on one night in January, playing music into the wee hours. Listening to the album feels like being in a ceremony. It takes you to that place. This is music that emanates from one group of people in one place in space and time. Listening to it is like being let in on a secret. Depois deste Brushes With Happiness, chegará em outubro aos escaparates Look Inside Your Heart, um disco menos intuitivo e mais elaborado e refletido, o que não significa automaticamente que venha a ser qualitativamente superior. Veremos.

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Brushes With Happiness mostra o lado mais contemplativo e cru dos The Wave Pictures. É um registo eminentemente acústico onde canções como The Little Window, que mistura blues e folk com uma certa psicadelia, ou a mais orgânica Jim, assim como as nuances classicistas do rock que abastece o tema homónimo, são excelentes instantes sonoros para se perceber o modo como o processo de composição do trio assenta, acima de tudo, na mente criativa de Dave Tatterstall e na sua guitarra. Esse instrumento é o eixo orientador do processo melódico e rítmico das canções, que segue muitas vezes pelo caminho mais simples e minimal no processo de criação, uma aparente ligeireza que acaba por dar um ar mais familiar e ligeiro às canções, o que faz com que o disco flua com enorme prazer.

Os The Wave Pictures não gostam muito de obedecer a convenções e acima da perfeição colocam o seu talento tipicamente indie ao serviço do gozo que lhes dá criarem composições que toquem no âmago pela tal familiariedade que exalam, mas que também tenham uma tonalidade acessível e otimista. A longa Laces é um excelente exemplo da facilidade com que os The Wave Pictures modelam canções que, pela sua duração poderiam ser aborrecidas, mas que, devido neste caso à toada blues que a sustenta, tornam-se em instantes de elevado prazer.

O disco terá nascido, naturalmente, com processos eminentemente analógicos, normais num ambiente bastante intimista; Este toque algo vintage acaba por conferir ao trabalho um certo charme algo indisfarçável. E ao longo das nove canções Tattersall revela-se, mais uma vez, um brilhante escritor de canções, nas quais escreve imensas vezes na primeira pessoa e referindo-se certamente a ele próprio. Mas o que mais impressiona na sua escrita é a combinação recorrente entre a sinceridade e o sarcasmo e o detalhe com que pinta determinados cenários que quase conseguimos visualizar.

Brushes With Happiness é uma aparente repetição mais intimista de uma fórmula que tem sido muito bem sucedida num projeto já com uma extensa discografica, mas que não completou ainda uma década de carreira no regresso à ribalta, mas é mais uma acha certeira para a fogueira do culto que esta banda já usufrui, principalmente em terras de Sua Majestade, alimentada em grande parte por uma fórmula sonora que nos mostra que na música são os prazeres mais simples, aqueles que melhor recompensam o ouvinte. Espero que aprecies a sugestão...

The Wave Pictures - Brushes With Happiness

01. The Red Suitcase
02. Rise Up
03. Jim
04. Laces
05. The Little Window
06. Crow Jane
07. The Burnt Match
08. Brushes With Happiness
09. Volcano


autor stipe07 às 23:22
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