Terça-feira, 10 de Julho de 2018

Linda Martini - É só uma canção vs Quase se fez uma casa

Os Linda Martini de André Henriques (Voz e Guitarra), Cláudia Guerreiro (Baixo e Voz), Hélio Morais (Bateria e Voz) e Pedro Geraldes (Guitarra e Voz), continuam a retirar dividendos do excelente homónimo que editaram recentemente e que os catapultou, definitivamente e com toda a justiça, para o pódio dos melhores projetos de indie rock alternativo nacionais da atualidade.

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Sucessor do aclamado Sirumba, editado em dois mil e dezasseis, Linda Martini foi gravado na Catalunha entre Outubro e Novembro de 2017, com produção da própria banda e Santi Garcia e com todos os detalhes pensados até ao mais ínfimo pormenor. Por exemplo, o retrato a óleo da capa é a rapariga italiana a quem a banda pediu emprestado o nome no início do século, quando o projeto surgiu e o seu conteúdo sonoro não pretende ser uma mera continuidade da sonoridade habitual, mas antes uma fuga da zona de conforto, com um equilíbrio cada vez maior de elementos como o ritmo, a melancolia e o intimismo, relativamente não só ao antecessor, mas também a todo o cardápio do projeto, que conta já com seis tomos.

Em suma, os Linda Martini de hoje podem ser Rock e Fado, Fugazi e Variações, Fela Kuti e Afrobeat, Tim Maia e Funk, sem nunca soarem a outra coisa que não eles e são poucas as bandas que, remexendo e criando desconforto à primeira audição, conseguem depois, da harmonia ao caos, do balanço lânguido às cavalgadas épicas, soarem harmoniosos e profundamente cativantes.

Para espalhar ainda mais a sua doutrina, os Linda Martini acabam de retirar de Linda Martini dois singles e em simultâneo, os temas É só uma canção e Quase se fez uma casa. De acordo com o press release do lançamento, neste duplo videoclip, o grupo abre com É só uma canção, composição que nos fala sobre o peso da maldita folha em branco. São eles a contornar o que já fizeram, a contrariar rotinas para descobrirem outro ângulo e em Quase se fez uma casa, o segundo filme, amachucam o rascunho para que nada fique de pé. Peritos em adocicar a tragédia, a amargar-nos a felicidade, entram num jogo de tensão e libertação; um workshop de gestão de raiva do qual todos saíram ilesos e um pouco mais leves. Confere...


autor stipe07 às 09:40
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2018

Mimicking Birds – Layers Of Us

Quase quatro anos depois do excelente Eons, os Mimicking Birds, de Nate Lacy, Aaron Hanson, Adam Trachsel, uma banda norte americana de Portland, no Oregon, estão de regresso com Layers Of Us, um trabalho editado no início deste ano através da Glacial Pace Records, estando disponivel para audição e aquisição na página bandcamp do projeto.

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O efeito da guitarra e os efeitos rugosos do tema que dá nome ao disco e a melodia cinematográfica que sustenta o tema, são detalhes únicos que, abrindo o disco, preparam-nos para a entrada num universo muito peculiar, que ganha uma vida intensa e fica logo colocado a nu, sem truques, no ritmo frenético e no clima rugoso de Another Time e nos efeitos sintetizados borbulhantes e coloridos que divagam pela canção. Os Mimicking Birds apostam num universo feito por um indie rock que se cruza com detalhes típicos da folk e que só faz sentido se pulsar em torno de uma expressão melancólica acústica que este trio norte americano sabe muito bem interpretar, na senda de alguns nomes que sustentam a melhor herança norte americana deste universo sonoro tão peculiar e com raízes tão profundas no outro lado do atlântico.

Layers Of Us é um trabalho que cresce audição após audição; Mesmo não estando na lniha da frente do processo de criação melódica, os sintetizadores conseguem conciliar a efervescência dos efeitos que debitam, com a indispensável dinâmica que constroem com as guitarras, um abraço instrumental que conhece poucos entraves e expande-se com interessante fluídez. A voz também se cruza elegantemente com os instrumentos e elementos como a lua, o sol, animais e cenários campestres apoderam-se da obra com extrema delicadeza. O disco é uma bela exposição sonora de sons e emoções, um trabalho bem expansivo e épico, mas também com uma intimidade muito própria e familiar.

Um dos aspetos mais interessantes de Layers Of Us é a complexidade instrumental que suporta cada uma das canções, com alguns sons a serem quase impercetíveis, mas essenciais para a cadência e a vibração. Se a acusticidade orgânica de Island Shore não é beliscada pela eletrificação da guitarra, o baixo e a percussão também são elementos estruturalmente dominantes em várias canções. Muitas vezes o dedilhar da viola é aquele detalhe que acaba por ser a cereja no topo do bolo de várias composições, cada uma delas com algo distinto.

Do excelente trabalho de guitarra que se escuta em A Part e no rock de One Eyed Jack, à abordagem mais eletrónica de Great Wave, ou da mais ambiental Belongings, Layers Of Us está cheio de exaltações melancólicas, cenários e sensações que se expressam com particular envolvência e que expõem sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema. É impossível ouvir o single Sunlight Daze e não nos sentirmos profundamente tocados pela delicadeza e pela fragilidade que a canção transmite.

No epílogo de Layers Of Us percebemos que escutámos uma ode à América profunda e à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e do rock. A receita é extremamente assertiva e eficaz e o disco reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas delicadas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

Mimicking Birds - Layers Of Us

01. Dust Layers
02. Another Time
03. Sunlight Daze
04. Island Shore
05. Great Wave
06. A Part
07. Belongings
08. Lumens
09. Time To Waste
10. One Eyed Jack


autor stipe07 às 21:21
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Domingo, 3 de Junho de 2018

Imploding Stars - Riverine

Três anos depois do excelente A Mountain And A Tree, da banda sonora Mizar & Alcor (2016) para a versão portuguesa do documentário From Earth to Universe e da participação com Treeless prairie na coletânea T(h)ree – Vol. 5 – Portugal – Cazaquistão – Uzbequistão (2017), os bracarenses Imploding Stars de Élio Mateus, Francisco Carvalho, Jorge Cruz, João Figueiredo e Rafael Lemos, regressaram aos discos com Riverine, disco com oito temas que, de acordo com o press release do lançamento desta banda das Taipas, aborda o princípio da compreensão dos diferentes estágios de desenvolvimento da vida humana, desde o momento que nascemos até o momento que morremos. Durante a nossa vida, experimentamos diferentes sensações que levam à criação de memórias. No entanto, estamos normalmente limitados aos limites da perceção humana e às decisões sobre o que é bom ou mau nas bifurcações que vamos encontrando. Mas afinal o que é bom ou mau? E se não houver limites nessa perceção humana? E se pudéssemos, de alguma forma, viver para sempre ou reviver.

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Sendo assim, no alinhamento de Riverine os Imploding Stars recriaram com notável mestria os diferentes estágios temporais que fazem parte da existência humana e que, no fundo, definem o trajeto de vida de cada um de nós, sendo possível, tendo em conta a abordagem da banda a esse ideário, cada ouvinte, à medida que se embrenha no álbum, adaptar os temas à sua experiência pessoal e aos seus pensamentos, experiências, sonhos, conquistas e desejos.

A partir desta permissa e tendo-a bem presente, as oito canções avançam na sequência lógica desses tais estágios de desenvolvimento (nascimento, infância, adolescência, idade-adulta meia-idade, velhice, morte e renascimento), com cada composição a retratar de modo sui generis um clima sonoro que encontra paralelismo na essência de cada um desses estágios e aquelas que são as nossas formas mais comuns de pensar, de ser, de agir e de comunicar nessa fase da nossa vida. Por exemplo, se Birth é um tema mais contemplativo, já Adulthood são nove minutos de altos e baixos, mudanças ritmícas e melódicas e Senescence tem um travo mais nostálgico e, no final, algo inquietante, retratando fielmente o ocaso.

Transversal ao alinhamento é a sua beleza utópica. Nele os Imploding Stars reproduziram um bloco único de som feito de belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos que alicerçam esta busca de uma expressão melódica incisiva e inteligente da nossa natureza animal e dos sentimentos inerentes à nossa condição de humanos. De facto, em Riverine tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do projeto tivesse um motivo para se posicionar dessa forma. É, como se percebe, um álbum conceptual, que impressiona por uma beleza utópica que explora ao máximo a relação sensorial humana, através de um som espacial, experimental, psicadélico, barulhento e melódico que atiça todos os nossos sentidos, ,as também um disco que nos fecha dentro de um mundo muito próprio, místico e grandioso, onde tudo flui e se orienta de modo a fazer-nos levitar, enquanto ficamos certos que passa pelos nossos ouvidos algo muito bonito, denso e profundo e que está a deixar marcas muito positivas e sintomas claros de deslumbramento. Espero que aprecies a sugestão... 


autor stipe07 às 18:10
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Terça-feira, 8 de Maio de 2018

Landing – Bells In New Towns

Oriundos de New Heaven, no Connecticut, os Landing de Daron Gardner, Aaron Snow, Adrienne Snow e John Bent, são um dos nomes fundamentais do shoegaze norte-americano e para marcar os vinte anos de carreira, acabam de lançar Bells In New Towns, um novo compêndio de canções, o segundo na conceituada etiqueta El Paraiso Records, casa de nomes tão fundamentais do indie rock norte-americano como Os Monarch, Brian Ellis, Papir, Sun River, Mythic Sunship, Jonas Munk, entre outros. Apesar de uma carreira já tão longa, os Landing parecem não abrandar criativamente nem colocar em causa a elevada bitola qualitativa da sua herança discográfica, oferecendo-nos, talvez, o alinhamento mais consistente de uma já longa e meritória carreira.

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Uma das explicações para o facto de Bells In New Towns ser um disco tremendamente coeso e apelativo será, certamente, o facto de ter a mão de Justin Pizzoferrato (Dinosaur Jr., Elder, Pixies, Sonic Youth), na gravação de grande parte do mesmo. Este nome conceituado da produção acaba por ser fundamental no modo como o habitual som multitextural e abrangente dos Landing, que oscila entre aquele fuzz psicadélico mais contemplativo e luxuosos cenários luminosos e progressivos, consegue incorporar elementos etéreos e melodicamente acessíveis, sem ser necessário renegar a habitual toada lo fi do projeto.
Desse modo, as canções dos Landing estão mais apelativas e acessíveis a outros públicos, mas não renegam a força motriz sonora que está no cerne de um projeto que se foi habituando a apresentar um indie rock contemplativo, melancólico e atmosférico, mas mesmo assim incisivo. E isso acaba por ser uma tremenda mais valia deste Bells In New Towns, não só porque contém uma sonoridade que vai ao encontro daquilo que são hoje importantes premissas de quem acompanha as novidades deste espetro sonoro, mas também porque, num período de algum marasmo, esta tem sido uma estética que tem encontrado bom acolhimento junto do público.
De algum modo mestres da melancolia, instrumentalmente os Landing acabam por emergir-nos num universo muito próprio onde, da criteriosa seleção de efeitos da guitarra à densidade do baixo, passando por uma ímpar subtileza percussiva e um exemplar cariz lo fi na produção, são diversos os elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador.

Escuta-se os versos quase impercetíveis de Nod e embarcamos numa demanda doutrinal que sabemos, à partida, que não nos vai deixar indiferentes e iguais e depois, impulsionados pela nebulosa pujança do dedilhar das cordas inicial de Secret, uma daquelas canções cujas diversas camadas de som impelem ao cerrar de punhos, pelo encanto etéreo de By Two e pelo doce balanço do baixo que conduz Bright, ficamos certos que a opção tomada foi, como seria de esperar, a mais certeira.

Até ao ocaso de Bells In New Towns, na deliciosa ode ao amor que justifica a filosofia subjacente a Trace, uma canção onde a interação entre a viola e a voz fica muito perto de atingir os píncaros, na crueza orgânica e hipnótica de Wait or Hide e no modo como as distorções impregnadas de shoegaze embelezam toda a subtileza que fica impressa no rasto de Second Sight, fica atestada a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, comunica com a nossa mente e os nossos sentidos de modo particularmente libertador e esotérico. Espero que aprecies a sugestão...

Landing - Bells In New Towns

01. Nod
02. By Two
03. Gravitational VII
04. Bright
05. Secret
06. Fallen Name
07. Wait Or Hide
08. Gravitational VIII
09. Trace
10. Second Sight


autor stipe07 às 17:52
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Terça-feira, 1 de Maio de 2018

Unknown Mortal Orchestra - Sex & Food

Três anos depois do excelente Multi-Love, os neozelandeses Unknown Mortal Orchestra, do músico e compositor Ruban Nielson e de Jake Portrait e Greg Rogove, instalados em Portland, no Oregon há já aguns anos, estão de regresso ao formato longa duração com Sex & Food, uma extraordinária compilação de doze canções que, estreitando os laços entre a psicadelia e o R&B, contêm a impressão firme da sonoridade típica da banda, catupultando-a ainda para uma estética mais abrangente, reforçando de forma ainda mais comercial e ainda assim específica o que havia de mais tradicional e inventivo na trajetória da banda.

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Produzido pelo próprio Ruban Nielson, gravado entre Seoul (Coreia do Sul), Hanoi (Vietname), Reykjavik (Islândia), Cidade do México (México), Auckland (Nova Zelândia) e Portland (Estados Unidos), lançado com a chancela da Jagjaguwar e fortemente influenciado pela internet, Sex & Food além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, tão bem impressas na vibe escandalosamente urbana de Major League Chemicals, também ressuscita de novo uma das imagens de marca dos Unknown Mortal Orchestra e um dos terrenos onde se sentem mais à vontade, aquelas referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica da década anterior, deliciosamente presentes no efeito da guitarra e no reverb vocal de Ministry Of Alienation. Mas não se pense que este é um disco unicamente revivalista; Aliás, um dos seus grandes atributos é o seu cariz futurista e inovador, sendo, claramente, um dos registos mais criativos e indutores de novas nuances dos últimos tempos, tendo em conta o universo sonoro em que se movimenta. O modo como o rugoso e inebriante efeito da guitarra de American Guilt é acompanhado pela bateria e pela distorção vocal, transportam-nos para um rock que entre uma psicadelia progressiva e o classicismo punk oferecem-nos uma abordagem ao género pouco vista e, logo depois, The Internet Of Love (That Way) acaba por nos facultar o mesmo vigor de inedetismo, desta vez olhando para uma improvável simbiose entre blues e R&B, com um resultado final bastante apelativo. E a seguir, na falsa acusticidade orgânica de Doomsday, na batida, no groove e na riqueza dos arranjos da Everyone Acts Crazy Nowadays e no travo lisérgico das variações rítmicas de How Many Zeros a banda volta a guinar constantemente e a pisar universos nostálgicos, mesmo que díspares, mas apresentando sempre um clima geral muito inovador e difícil de comparar com outros projetos atuais.

Ecletismo é também, por tudo isto, uma palavra de ordem em Sex & Food, que podia ser descrito de modo simplista e tremendamente redutor por uma abrangente mistura entre rock e eletrónica, mas o modo como esse ecletismo se define ao longo do registo contém uma multiplicidade quase infinita de detalhes e aspetos que o que importa realmente exaltar é, dentro de toda a salutar amálgama do alinhamento, o modo como Ruben idealizou o volume e a densidade instrumental das canções, todas assentes em ambientes díspares, tornando indisfarçável mais uma busca dos Unknown Mortal Orchestra de melodias agradáveis, marcantes e ricas em detalhes e assentes em texturas com uma grandiosidade controlada, que possam conter um forte apelo às pistas de dança, mas também servir de banda sonora para instantes de maior intimidade, sozinho ou a dois.

A conquistarem um número cada vez maior de adeptos devido a uma especificidade sonora cada vez mais aprimorada e criativa mas sem deixar de ser acessível, os Unknown Mortal Orchestra chegam ao quarto tomo da sua discografia certeiros, relativamente ao estereótipo vincado com que pretendem impregnar o seu cardápio sonoro e que procura reviver os sons outrora desgastados de outra décadas , mas oferecendo aos ouvintes essa viagem ao passado sem se desligarem das novidades e marcas do presente. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 11:12
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Domingo, 22 de Abril de 2018

Imploding Stars - Demise

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Três anos depois do excelente A Mountain And A Tree, os vimaranenses Imploding Stars de Jorge Cruz, Diogo, Élio, Filipe e Francisco regressam em 2018 aos discos com Riverine, disco com oito temas que, de acordo com o press release do lançamento desta banda das Taipas, aborda o princípio da compreensão dos diferentes estágios de desenvolvimento da vida humana, desde o momento que nascemos até o momento que morremos. Durante a nossa vida, experimentamos diferentes sensações que levam à criação de memórias. No entanto, estamos normalmente limitados aos limites da perceção humana e às decisões sobre o que é bom ou mau nas bifurcações que vamos encontrando. Mas afinal o que é bom ou mau? E se não houver limites nessa perceção humana? E se pudéssemos, de alguma forma, viver para sempre ou reviver.

Sendo assim, no alinhamento de Riverine, os Imploding Stars tentaram recriar os diferentes estágios temporais que fazem parte da existência humana e que, no fundo, definem o trajeto de vida de cada um de nós, sendo possível, tendo em conta a abordagem da banda a esse ideário, cada ouvinte, à medida que se embrenha no álbum, adaptar os temas à sua experiência pessoal e aos seus pensamentos, experiências, sonhos, conquistas e desejos.

Demise é o primeiro single divulgado deste Riverine, um tema que impressiona pela sua beleza utópica, feita de belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos que aliceracam uma melodia particularmente hipnótica. Confere... 


autor stipe07 às 21:47
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Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

EELS – The Deconstruction

Depois de uma espera de quatro anos, os Eels de E (Mark Oliver Everett), Kool G Murder e P-Boo estão de regresso com um novo álbum gravado na sua maioria em Pasadena, na Califórnia. O novo trabalho deste grupo norte-americano chama-se The Deconstruction, é o décimo segundo da carreira deste projeto liderado pelo carismático Mark Everett e, sucedendo ao já longínquo The Cautionary Tales Of Mark Oliver Everett, foi produzido pelo próprio Everett e por Mickey Petralia, um nome que já trabalha com os Eels desde o fabuloso Electro-Schock Blues (1998), o melhor disco da banda, prestes a comemorar vinte anos de existência.

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Para quem, como eu, acompanha com atenção a carreira dos Eels praticamente desde o seu início, The Deconstruction, o primeiro tema do alinhamento deste disco com o mesmo nome surpreende pelo modo como nos remete para o início da carreira do projeto. Esta seria uma canção que encaixaria claramente no meio de Beautiful Freak, com a sua sonoridade algo rugosa e assente num rock orquestral bastante experimental, onde as cordas dominam, mas onde é também possível escutar arranjos de sopros e percussivos bastante peculiares e distintivos e o timbre vocal inédito de Everett. Essas mesmas cordas que não deixam de encontrar as suas raízes no banjo foram uma imagem de marca dos Eels em tempos, assim como a vasta miríade de efeitos metálicos presentes na percurssão e que cruzam Bone Dry, o segundo tema e single do disco, sem complacência. Nesse tema a guitarra distorce-se, as variações rítmicas também habituais nos Eels fazem a sua aparição e a partir daí somos sugados, sem mercê, para um disco que acaba por fazer uma espécie de súmula de uma vasta e gloriosa carreira de mais de duas décadas de um dos melhores e mais peculiares grupos de rock alternativo da nossa contemporaneidade.

Oliver Everett gosta de surpreender e sobrevive no universo indie rock devido à forma como tem sabido adaptar os Eels às transformações musicais que vão surgindo no universo alternativo sem que haja uma perca de identidade na conduta sonora do grupo. E, pelos vistos, por muito que se atreva a prescutar teritórios mais agressivos ou, em oposição, mais introspetivos e cândidos, algo que fez aqui, com superior delicadeza, na lindíssima canção Premonition, é mesmo no campo daquele pop rock lo fi que pisca o olho à indie folk que o autor se sente mais confortável e onde consegue, com particular mestria, criar momentos de sincera e sentida emoção sonora. Assim, se essa Premonition e se o dedilhar e os violinos de Sweet Scorched Earth são, sem dúvida, temas que comprovam o feliz regresso dos Eels à folk eminentemente acustica, melancólica e introspetiva e se a ternurenta balada nostálgica Rusty Pipes, com notáveis arranjos de cordas e uma percussão bastante aditiva, tem o mesmo efeito, espelhando com notável acerto aquelas saudosistas caraterísticas sonoras que impressionarem todos aqueles que há vinte anos olharam com admiração para este grupo norte americano, já a luminosidade sorridente e feliz de Today Is The Day e, de um modo com mais elétrico, o fuzz de You Are The Shining Light, são canções capazes de nos fazer encher o peito e de abrir o nosso sorriso de orelha a orelha, espelhando aquele universo mais divertido e optimista que os Eels também gostam de expressar sonoramente.

Tematicamente, E mantém-se lúcido no modo como aborda o amor, um campo lexical e uma área vocabular onde sempre se sentiu inspirado, principalmente quando confessa o desconforto e a desilusão que esse sentimento tantas vezes causou na sua vida, estando numa fase em que sente necessidade de olhar para o seu percurso pessoal e perceber as falhas e os instantes em que algo correu mal e as pontas que ainda estão por fixar. É explícita uma espécie de narrativa que em The Epiphany, vai servindo para E confessar dores e arrependimentos e desejar que ainda haja um futuro risonho à sua espera, fazendo-o em Be Hurt, canção onde o músico admite falhas e o desejo de poder ainda vir a ser recompensado pela boa pessoa que é, ou, pelo menos, julga ser.

Cheio de melodias orelhudas e que nos embalam e fazem partilhar algumas das angústias e desejos plasmados, The Deconstruction é um disco que transborda uma profunda sinceridade confessional por todos os acordes e torna-se fácil simpatizar automaticamente com a história de vida desta personalidade fundamental para a descrição de alguns dos mais bonitos momentos sonoros do universo indie das duas últimas décadas, que estará por cá, nos Nos Alive, no dia treze de julho. e que ainda procura, com uma ansiedade controlada e natural, a verdadeira felicidade. Espero que aprecies a sugestão...

EELS - The Deconstruction

01. The Deconstruction
02. Bone Dry
03. The Quandary
04. Premonition
05. Rusty Pipes
06. The Epiphany
07. Today Is the Day
08. Sweet Scorched Earth
09. Coming Back
10. Be Hurt
11. You Are the Shining Light
12. There I Said It
13. Archie Goodnight
14. The Unanswerable
15. In Our Cathedral


autor stipe07 às 17:34
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Quinta-feira, 29 de Março de 2018

Preoccupations - New Material

Matt Flegel e Mike Wallace são dois músicos já habituados a recomeços no que concerne a projetos musicais. Depois de terem feito parte dos extintos Women, um grupo norte americano de Calgary, que terminou a carreira há alguns anos, mas que deixou saudades no universo sonoro alternativo, incubaram os extraordinários Viet Cong, um coletivo que fez furor há três anos com um disco homónimo que foi considerado por esta redação como o melhor do ano, em 2015. Este nome tão sugestivo da banda acabou por não sobreviver à crítica, muita dela oriunda do importante mercado discográfico local e, por isso, a dupla viu-se na necessidade de se reinventar de novo, surgindo agora sobre a capa dos Preoccupations, um coletivo onde à dupla se juntam os guitarristas Scott Munro e Daniel Christiansen, que já os acompanhavam nos Viet Cong. New Material é o registo discográfico que dá o pontapé de saída a esta nova vida do projeto, dez canções alicerçadas num post punk labiríntico de elevado calibre e abençoado pela chancela da insuspeita Jagjaguwar, uma das principais editoras independentes norte-americanas.

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Disco cheio de canções que assentam quase sempre numa guitarra com um rugoso efeito metálico particularmente aditivo e um baixo imponente, acompanhados por uma bateria falsamente rápida, como é o caso de Espionage, o tema que abre o disco, New Material remete-nos, no imediato, para aquele rock que impressiona pela rebeldia com forte travo nostálgico e por aquela sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem o âmago. A psicadelia oitocentista que dá as mãos ao punk é outra nuance importante deste alinhamento com uma originalidade muito própria e um acentuado cariz identitário, por procurar, em simultâneo, texturas melódicas e expansivas, mas também aquele pendor lo fi com uma forte veia experimentalista. É uma matriz sonora percetivel na distorção das guitarras, no vigor do baixo de Matt Flengel e, principalmente, na bateria de Wallace, muitas vezes algo esquizofrénica e fortemente combativa. Aliás, este instrumento é frequentemente chamado para a linha da frente na arquitetura sonora de New Material, ficando com as luzes da ribalta e um elevado protagonismo na percussão tribal de Decompose e no modo como as suas variações rítmicas introduzem o efeito da guitarra em Solace. Já que falamos em efeitos da guitarra, um dos grandes tiques identitários que trespassa toda a discografia destes músicos é, claramente, a sensibilidade do efeito metálico abrasivo da guitarra que corta fino e rebarba eque é audível em Decompose, um som que se ouvia frequentemente em Viet Cong, geralmente em contraste com a pujança do baixo. O resultado era uma elevada amplitude épica, presente em melodias que nos levavam rumo ao rock alternativo de final do século passado, mas que agora ganha contornos um pouco mais futuristas. E isso sucede porque nos Preoccupations Floegel e Wallace colocam os sintetizadores também em posição de elevado destaque, sendo Disarray uma boa canção para se perceber esta alteração estilística que combina post punk com shoegaze, uma fórmula pessoal e muito deles e onde o ruído não funciona com um entrave à expansão das canções, mas como mais um veículo privilegiado para lhes dar um relevo muito próprio que, sem esse mesmo ruído, os temas certamente não teriam. Aliás, na já referida Solace e em Compliance os solos e riffs da guitarra de Scott e Daniel, exibem linhas e timbres com um clima marcadamente progressivo e rugoso, com os teclados a tornarem-se numa mais valia no modo como adornam este garage rock, ruidoso e monumental e o harmonizam, tornando-o agradável aos nossos ouvidos, ou seja, fazem da rispidez visceral algo de extremamente sedutor e apelativo.

A viagem lisérgica que o quarteto nos oferece nas reverberações ultra sónicas de New Material, fazem deste compêndio um agregado instrumental clássico, despido de exageros desnecessários e amiúde apoteótico. É uma demonstração clara do modo como este coletivo se disponibiliza corajosamente para um saudável experimentalismo que não os inibe de se manterem concisos e diretos, à medida que constroem os diferentes puzzles que dão substância às canções. No final, tudo resulta de forma coesa e o ruído abrasivo proporcionado por esta catarse onde reina uma certa megalomania e uma saudável monstruosidade agressiva, aliada a um curioso sentido de estética, fascina e seduz. Espero que aprecies a sugestão...

 Preoccupations - Espionage

01. Espionage
02. Decompose
03. Disarray
04. Manipulation
05. Antidote
06. Solace
07. Doubt
08. Compliance


autor stipe07 às 17:31
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Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

Beach House – Lemon Glow

Beach House - Lemon Glow

Quase três anos depois da dose dupla que foi Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars, o quarto e o quinto discos da dupla Beach House, lançados em 2015, parece que este projeto sedeado em Baltimore, no Maryland, formado pela francesa Victoria Legrand e pelo norte americano Alex Scally tem novo disco em carteira.

De facto, os Beach House acabam de divulgar uma nova canção intitulada Lemon Gow. tema que tem aquela toada simples e nebulosa, bastante melódica e etérea, plena de sintetizadores assertivos e ruidosos e guitarras com efeitos recheados de eco, que mantêm intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que vive em redor da voz doce de Victoria e da mestria instrumental de Alex e se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado. Confere...


autor stipe07 às 17:38
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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018

Soft Serve – Trap Door EP

Os canadianos Soft Serve formaram-se em 2013, mas só em 2016 conseguiram alguma projeção quando Kyle Thiessen, líder do projeto, mudou-se para Toronto, mesmo que Thomas James, o seu parceiro, que também assina o projeto Milk, tenha permanecido em Vancouver. Já agora, nesta cidade abriram uma espécie de estúdio de gravação comunitário, os Luna Studios, que hoje é um porto de abrigo de muitos grupos locais que, não tendo um espaço próprio para gravar, socorrem-se dele. Trap Door é o novo EP destes Soft Serve que têm um pé no passado e o outro firmemente plantado no presente, algo comum a um elevado número de grupos que enquanto revivem influências de alguns dos melhores catálogos sonoros das últimas cinco décadas, procuram também dar um cunho algo pessoal, genuíno e identitário a essa permissa revivalista, de forte cariz sentimental.

Foto de Soft Serve.

Do post punk oitocentista, ao indie rock da década seguinte, passando pelo lo-fi setentista, Trap Door é uma excitante viagem temporal por um arquétipo sonoro que soa familiar a quem se habituou a crescer ao som de alguns dos melhores projetos deste universo sonoro. Da vibe melancólica e contemplativa de Whisper In The Wind, ao timbre corrosivo e encorpado que escorre de Phantasm, passando pela luminosidade sedutora e inebriante de Pat's Pun Open Blues Jam, as suas cinco canções foram um alinhamento primoroso e bastante audível. Não faltam nele leves pitadas de shoegaze, com as guitarras plenas de efeitos metálicos e timbres luminosos e uma bateria com a cadência adequada ao sentimentalismo das canções, a serem os grandes trunfos de um compêndio que colocará estes Soft Serve na mira de um número cada vez maior de entusiastas de um rock descomplicado e que se saboreia por nunca deixar de soar de modo refrescante e simultaneamente vintage. Trap Door tem tanto de acessível como de inédito, criativo e agradavelmente refrescante e único. Espero que aprecies a sugestão...

Soft Serve - Trap Door EP

01. Whisper In The Wind
02. Pat’s Pub Open Blues Jam
03. Phantasm
04. Camera Phone
05. Soft Soap


autor stipe07 às 17:46
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