Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

The Drums - Brutalism

Os norte-americanos The Drums lançaram há dois anos Abysmal Thoughts, o primeiro registo desde que este projeto se tornou, assumidamente, no trabalho a solo de Jonny Pierce. O ano passado este músico nova iorquino voltou a dar sinais de vida com o tema Meet Me In Mexico e agora, na primavera de dois mil e dezanove, regressa finalmente com um novo álbum, um registo intitulado Brutalism, que viu a luz do dia recentemente, à boleia da ANTI.

Resultado de imagem para The Drums - Brutalism

Os The Drums são um dos grandes nomes do movimento saudosista de revitalização do lo-fi, que tem feito escola no século XXI. Na verdade, continuam a ser uma daquelas bandas que pura e simplesmente não custa nada gostar, apesar dos momentos menos felizes que viveram e que ditaram praticamente o ocaso do projeto quando, em 2010, o guitarrista Adam Kessler abandonou o projeto e alguns anos depois Jacob Graham também acabou por o fazer. Pierce é quem mantém o projeto vivo, tentando com este Brutalism estabilizar os The Drums numa posição de relevo dentro do espetro sonoro que calcorreia, procurando, desta vez, uma sonoridade com maior ênfase naquela pop sintetizada que dialoga promiscuamente com o rock oitocentista. Tal infere-se, logo a abrir o registo, no minimalismo algo maquinal de Pretty Cloud e depois no single Body Chemistry, uma canção muito pessoal em que Pierce aborda o modo como lidou com um diagnóstico recente de depressão (Maybe I’m depressed, Maybe I know too much about the world, about myself) e que sonoramente assenta numa curiosa simbiose entre o indie surf rock e a eletrónica chillwave, audível num curioso e bem sucedido jogo de interseções melódicas entre baixo e sintetizadores. 

As guitarras de Encyclopedia, um disco que se afirmou, à época, como um portento de post punk, que parecia ter vindo diretamente do período aúreo e mais sombrio do indie rock, acabam por ter uma posição de menor relevo neste registo, que nos oferece, no seu todo, uma verdadeira montanha mágica, mas mais sintetizada, acompanhada por guitarras menos agressivas mas, de certo modo, melodicamente mais ousadas. Os sintetizadores posicionam-se, portanto, na linha da frente do processo de construção melódica das canções. Conferimos tal permissa em 626 Bedford Avenue, uma daquelas composições que atesta na simbiose, entre flashes sintetizados borbulhantes e cordas luminosas, a rugosa vitalidade experimental que os The Drums sempre demonstraram e os sintetizadores flutuantes do tema homónimo, assim como nos sons poderosos e tortuosos que abastecem Loner, tema conduzido por um baixo exemplar, mas também na tonalidade mais épica e efervescente do efeito da guitarra que tempera o tapete percurssivo sempre agreste de Kiss It Away. Estes são temas que nos oferecem aquela faceta mais marcante, elétrica e explosiva dos The Drums, num alinhamento em que, canção após canção, se sente a vibração a aumentar e a diminuir de forma ritmada e empolgante, com composições com o selo caraterístico daquele rock misterioso e cheio de fechaduras enigmáticas e chaves mestras, mas que, se forem experimentadas com dedicação, acabam por abrir portas para um refúgio perfeito. Depois, ainda há o bónus de podermos conferir a postura vocal de Pierce, mais madura e suculenta do que nunca e particularmente tocante e emocionada em alguns momentos. I Wanna Go Back e Nervous são aquelas em que melhor se pode apreciar esta sua formatação vocal algo nostálgica e amiúde feita com uma quase pueril simplicidade.

Registo bem balizado em termos de referências, Brutalism merece dedicação e nota positiva não só por este encosto a tão importantes referências, particularmente as oitocentistas, mas também por, na minha opinião, mostrar que Pierce é cada vez mais capaz de agarrar em fórmulas bem sucedidas e, procurando nunca se colar demasiado a essa zona de conforto, conseguir criar algo único e genuíno e que, no seu todo, represente a relevância deste projeto nova iorquino no universo indie atual. De facto, Brutalism é uma prova evidente que o grupo não desiste de ser uma referência e que procura fazê-lo com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

The Drums - Brutalism

01. Pretty Cloud
02. Body Chemistry
03. 626 Bedford Avenue
04. Brutalism
05. Loner
06. I Wanna Go Back
07. Kiss It Away
08. My Jasp
09. Blip Of Joy


autor stipe07 às 20:49
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Segunda-feira, 25 de Março de 2019

Alen Tagus - Holiday

É entre Sines e Paris que se divide o projeto Alen Tagus, da autoria do músico português Charlie Mancini, pianista e compositor para cinema e da artista francesa Pamela Hute, melodista e roqueira de coração. Esta dupla que assume preferir movimentar-se nas águas revoltas da indie pop introspectiva com fortes raízes na década de setenta do século passado, compôe de modo a proporcionar ao ouvinte uma viagem onírica com um elevado grau de impressionismo e de realismo, ou seja, com uma forte aposta em letras e melodias que proporcionem a quem os escuta uma experiência sensorial não só auditiva mas também visual.

Resultado de imagem para Alen Tagus Holiday

Alen Tagus vai estrear-se brevemente nos lançamentos com Paris, Sines, um EP misturado no estúdio de Mancini em Pamela, masterizado por Jean-Nicholas Casalis nos RTM Studios em Paris, com capa da autoria de Ricardo Pereira, fotógrafo artístico residente em São Miguel, Açores e que será editado a dezassete de Maio em todas as plataformas digitais. Esse lançamento terá a chancela da My Dear Recordings, etiqueta da própria Pamela Hute, fundada em dois mil e dezasseis e que conta já no seu catálogo com artistas e bandas francesas que se movimentam dentro do indie pop rock, além do compositor inglês Robin Foster, também exímio neste universo sonoro.

Holiday é um dos três avanços já divulgados de Paris, Sines, um tema com direito a um vídeo realizado por Miguel Pité do Amaral, produzido por Miguel Campos, gravado entre Sintra, o Guincho, a Peninha e o Teatro da Comuna, protagonizado pela atriz Helena Caldeira e que transparece muito da narrativa que está contida na sua letra. A personagem principal vive um relacionamento à distância que sobrevive sobretudo pelo uso do telefone enquanto deambula em diversos lugares desertos, à semelhança do clássico cinematográfico Paris, Texas. Sonoramente, a canção foi pensada para nos oferecer um passeio meditativo. Inspirada pela estética lo-fi dos Velvet Undergound, assenta num batimento simples e repetitivo, transportando-nos para um promenade poético numa zona rural e balnear composta por guitarras com camadas de delays e outros efeitos sonoros distintos. Confere...


autor stipe07 às 10:18
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 15 de Março de 2019

Helado Negro – This Is How You Smile

Pouco mais de dois anos após o excelente Private Energy, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, um filho de emigrantes equatorianos, radicado nos Estados Unidos, está de regresso com This Is How You Smile, o seu sexto longa duração. Falo de doze belíssimas canções que plasmam mais um momento marcante deste músico sedeado em Brooklyn, um disco onde Lange amplia as suas experimentações com samples e sons sintetizados de modo a replicar uma multiplicidade de referências sonoras, desta vez em busca de ambientes mais intimstas e acolhedores, que encarnam na perfeição o espírito muito particular e simbólico da música de Helado Negro.

Resultado de imagem para Helado Negro – This Is How You Smile

Projeto que me é muito querido, Helado Negro tem conduzido o seu percurso musical sempre em busca da mescla entre aa especificidade sonora centro-americana, muito marcada por percurssões vibrantes e cordas de forte pendor orgânico, com a melhor eletrónica ambiental contemporânea. E de facto, se logo em Please Won't Please, uma sublime sapiência sintética e uma incontida sensação de relaxamento e conforto apoderam-se imediatamente do ouvinte, nos acordes de Imagining What To Do, é fácil viajarmos para as areias calientes do caribe. Depois planamos com os samples dos sons tipicamente sul americanos que adornam os teclados e os sopros ariscos de Fantas, e ficamos prontos para ao som da viola que conduz Pais Nublado, para levantar o nosso olhar para o horizonte sem deixar de querer alargar o diâmetro da nossa anca, possuída, sem dono e com vontade própria, porque ela não resiste a acompanhar, subtilmente, uma canção que fala que vai subindo de intensidade e emoção enquanto provoca igual efeito na temperatura do nosso corpo, que volta a estabilizar ao som do delicado piano que sustenta Running, um tema com forte pendor temperamental e com um ambiente único, feito de nostalgia, mas também de cor, de sonho e de sensualidade. Sabana de Luz é outra composição com um efeito soporífero que convida aquela intimidade que força o pensamento à divagar, mas sem deixar que o mesmo resvale para memórias menos felizes.

É assim a música de Helado Negro, intensa, palpável, urbana e dominada por um pendor acústico e tipicamente latino, mas com a eletrónica em forma de dream pop de cariz lo fi e etéreo e que incluí também travos deR&B, a ser cada vez mais um veículo privilegiado no processo de composição. Nela sente-se facilmente aquele aspeto geográfico e ambiental tão sul americano em que cidade, praia e floresta tropical amiúde se fundem, neste caso num registo com uma elevada vertente autobiográfica, já que nele Lange desabafa sobre experiências individuais da sua infância e juventude. O músico apresenta muito esta filosofia interpretativa, no que concerne à escrita das suas canções, mostrando, sem receios, ser alguém positivamente obcecado pela evocação de memórias passadas e, principalmente, pela concretização sonora de sensações, estímulos, reacções e vivências cujo fato serve a qualquer comum mortal.

Cada vez mais confiante, inspirado e multifacetado, Lange continua a aventurar-se corajosamente na sua própria imaginação, construída entre o caribe que o viu nascer e a América de todos os sonhos. Neste This Is How You Smile contorna, mais uma vez, todas as referências culturais que poderiam limitar o seu processo criativo para, isento de tais formalismos, compilar com música, história, cultura, saberes e tradições, num pacote sonoro cheio de groove e de paisagens sonoras que contam histórias que Helado Negro sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

Resultado de imagem para Helado Negro – This Is How You Smile

01. Please Won’t Please
02. Imagining What To Do
03. Echo For Camperdown Curio
04. Fantasma Vaga
05. Pais Nublado
06. Running
07. Seen My Aura
08. Sabana De luz
09. November 7
10. Todo Lo Que Me Falta
11. Two Lucky
12. My Name Is For My Friends


autor stipe07 às 18:17
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 8 de Março de 2019

Swervedriver - Future Ruins

Foi no passado dia vinte e cinco de janeiro, à boleia da Dangerbird, que viu a luz do dia Future Ruins, o novo registo de originais dos Swervedriver de Adam Franklin, uma banda icónica de rock shoegaze, nascida há quase trinta anos das cinzas dos míticos Shake Appeal e que depois de um hiato de cerca de uma década voltou a reunir-se há cerca de três anos, tendo incubado na altura o registo I Wasn't Born To Lose You, que viu finalmente sucessor.

Resultado de imagem para Swervedriver Future Ruins

Álbum com uma forte componente política, já que se centra particularmente na política climática dos países ditos desenvolvidos, Future Ruins pretende mostrar o quanto os Swervedriver se sentem infelizes e preocupados com aquilo que o homem está a fazer à sua própria casa, o planeta onde vive. O tema homónimo do registo é muito claro relativamente a essa intenção, já que oferece-nos uma sombria reflexão sobre o estado atual do mundo, considerando que o mesmo é hoje governado por pessoas insensatas que vão levar a nossa descendência à ruína. A própria sonoridade depressiva da canção casa na perfeição com o seu conteúdo lírico, cimentando, desde logo, um importante aspeto deste registo, que mostra uns Swrvedriver mais pessimistas e conformados do que o habitual. Recordo que ao longo da sua discografia, este projeto britânico sempre nos habituou a mostrar que por muito mau que seja o enredo, há sempre algo de positivo ao virar da esquina.

Assim, a força motriz sonora que está no cerne deste Future Ruins, incubado por um projeto que se foi habituando a apresentar um indie rock contemplativo, melancólico e atmosférico, mas mesmo assim incisivo, é um rock com uma elevada toada shoegazer, ali num meio termo entre o post punk e o rock mais progressivo. Acaba por ser uma sonoridade de forte cariz ambiental, uma espécie de space travel rock, em que guitarras e sintetizadores apostam em distorções rugosas e efeitos inebriantes rumo a uma cosmicidade sonora que, como não podia deixar de ser, conta também com uma elevada componente etérea e contemplativa.

Tendo em conta toda esta filosofia estilística do registo, Mary Winter acabou por ser uma opção óbvia para single de apresentação de Future Ruins, já que se trata de uma melancólica e imponente canção, assente numa guitarra distorcida que contrasta na perfeição com o registo vocal ecoante de Adam, que disserta sobre os pensamentos de um astronauta que passeia no espaço enquanto recorda bons momentos vividos cá em baixo (Been floatin’ out here so long, And you know I’m not coming down, With planet earth long gone, And my feet don’t touch the ground). Depois, na luminosidade melódica da guitarra que conduz Drone Lover e na nebulosa pujança de Golden Remedy conferimos outros dois momentos altos de um alinhamento com um universo muito próprio e que, no seu todo, comunica com a nossa mente e os nossos sentidos de modo particularmente perturbador, naquilo que essa sensação pode ter de positivo e esotérico. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:42
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

Sea Pinks – Rockpool Blue

Belfast, na República da Irlanda, é o poiso dos Sea Pinks, de Neil Brogan e Davey Agnew, que estão de regresso aos discos com Rockpool Blues, oito canções fundidas por uma pop particularmente luminosa e incisiva, apimentada por um saboroso pendor lo fi e que viram a luz do dia há algumas semanas à boleia da CF Records. Gravado em Belfast, com o engenheiro de som Ben McAuley, em quatro dias, apos um período de composição que durou praticamente meio ano, entre outubro do ano passado abril deste ano, Rockpool Blues é já o sétimo álbum da carreira dos Sea Pinks, o primeiro sem a presença do baixista Steven Henry e sucede à dose dupla que foi Watercourse (2017) e Soft Days (2016), dois trabalhos que colocaram definitivamente este trio no trilho certo, firmemente posicionado naquela ténue fronteira que separa o chamado post punk daquela indie pop particularmente colorida e sorridente.

Resultado de imagem para sea pinks 2018

Neste Rockpool Blue os Sea Pinks renovam com elevada dose de frescura e luminosidade o seu já rico cardápio, em vinte e oito minutos que se espraiem em composições assentes em guitarras estratosféricas e coloridas, que sustentam melodias intensas e cativantes, misturadas eficazmente com acessibilidade, diversidade e intrincado bom gosto. São canções que se debruçam sobre as pressões inerentes à vida adulta e ao choque que muitos de nós sentimos ao avançarmos na idade e, interiormente, muitas vezes, não acompanharmos, em termos de maturidade e aceitação de responsabilidades, a inevitabilidade cronológica a que ninguém consegue escapar.

Do impressionismo efusiante de Watermelon Sugar (Alcohol), à pop efervescente de Bioluminescence, passando pelo post punk que exala da guitarra do tema homónimo, pelo piscar de olhos ao melhor rock alternativo americano dos anos oitenta em Dumb Angel, ou pela exploração de territórios mais intrincados e acústicos no dedilhar sedutor das cordas em Versions Of You, este é um disco que se escuta devidamente se estiver bem presente a noção de que foi pensado à sombra de um universo muito específico que percorre vias menos óbvias, mas que mesmo dentro da temática algo angustiante sobre a qual se debruça, não deixou de buscar um intenso sentido melódico e uma cândura geral muito própria e aconchegante, capaz de soar sempre com enorme prazer nos nossos ouvidos, independentemente do nosso momento e do nosso estado de espírito.

Disco com felizes ambições sonoras, quer estruturais, quer estilísticas e com um elevado sentido pop, Rockpool Blue entra pelos nossos ouvidos com propósitos firmes e sacode-nos com composições contemplativas que nos permitem refletir e, ao mesmo tempo, obter um completo alheamento de tudo aquilo que nos preocupa ou pode afetar. Espero que aprecies a sugestão...

Sea Pinks - Rockpool Blue

01. Watermelon Sugar (Alcohol)
02. Rockpool Blue
03. Bioluminescence
04. Dumb Angel
05. Grown Up Kids
06. A Man In My Condition
07. Versions of You
08. The Apple


autor stipe07 às 17:40
link do post | comenta / bad talk | See the bad talk... (2) | The Best Of... Man On The Moon...
Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

Massage – Oh Boy

Sedeados em Los Angeles, na Califórnia e liderados por Alex Naidus, membro dos Pains Of Being Pure At Heart, os Massage foram crescendo e ganhando vida na internet. Alex começou a tocar e a escrever algumas canções paralelamente à sua atividade nos Pains Of Being Pure At Heart com o designer e baixista Michael Felix, amigo de infância de Alex e à dupla juntaram-se, entretanto, o jornalista Andrew Romano, David Rager e Gabi Ferrer, responsável pelas teclas e pela composição melódica. Estrearam-se há dois anos com o EP Lydia e lançaram o primeiro longa duração, à boleia da Tear Jerk Records, no último verão, um disco intitulado Oh Boy, gravado com a ajuda de Jason Quever dos Papercuts.

Resultado de imagem para massage band 2018

Quase meio século após o seu aparecimento, a sonoridade tipicamente indie e universitária continua a soar mais fresca que nunca, especialmente quando bandas como os Massage surgem no radar e, logo na estreia, causam furor devido a discos do calibre deste Oh Boy, doze canções que se esfumam em pouco mais de meia hora, mas que não deixam indiferente o ouvinte devido a um alinhamento que nos leva facilmente e num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, à boleia de uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, particularmente luminoso e que acaba por se tornar até viciante. E a responsabilidade desta tela impressiva é uma guitarra com um timbre metálico muito caraterístico que serve de base melódica às canções, acompanhada por um baixo exemplar no modo como se alia à guitarra para marcar as várias nuances rítmicas de temas geralmente acelerados, mas sem serem frenéticos, não deixando de se espraiar pelos nossos ouvidos algo preguiçosamente, mesmo que estejamos a falar de composições curtas, como já referi, e com um ritmo algo intenso.

Catapultado pela ligeireza subtil de Lydia, pelo cariz intimista do single homónimo, pelo clima lisérgico de Couldn't Care Less, pelo piscar de olhos a ambientes mais roqueiros em Under, ou pelo bom gosto dos acordes de Crying Out Loud, Oh Boy é, em suma, um embrulho sonoro com um têmpero lo fi muito próprio, um salutar indie rock com leves pitadas de surf pop, agregado com um espírito vintage marcadamente oitocentista e que se escuta de um só trago, enquanto sacia o nosso desejo de ouvir algo descomplicado mas que deixe uma marca impressiva firme e de simples codificação. É um daqueles discos que esconde a sua complexidade na simplicidade e estas boas canções mostram como é bonito quando o rock pode ser básico e ao mesmo tempo encantador, divertido e melancólico, sem muito alarde. Espero que aprecies a sugestão...

Massage - Oh Boy

01. Lydia
02. Oh Boy
03. Gee
04. Kevin’s Coming Over
05. Couldn’t Care Less
06. Under
07. Breaking Up
08. Crying Out Loud
09. Cleaners
10. Liar
11. I’m Trying
12. At Your Door


autor stipe07 às 16:14
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quarta-feira, 18 de Julho de 2018

Snail Mail - Lush

Lindsey Jordan é a mente por detrás dos Snail Mail, um projeto de indie pop vintage que acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com Lush, dez canções abrigadas pela Matador Records e que nos oferecem uma viagem no tempo bastante impressiva até aquele rock de cariz eminentemente lo fi, que agitou multidões e fez escola no final do século passado. Para gravar Lush, Lindsey pegou na sua voz e na guitarra, mas também contou com a preciosa contribuição de Ray Brown na bateria e Alex Bass no baixo.

Resultado de imagem para lindsey jordan snail mail

Emocionalmente inteligente, com uma evidente força interior, já que a sinceridade parece ser uma das maiores virtudes de Lindsey, musicalmente clarividente e, curiosamente, cheio de pistas acerca de quais poderão ser as próximas coordenadas sonoras de quem se dedicar à exploração do espetro sonoro já descrito, Lush é um registo com uma linguagem muito própria, eminentemente urbana e que espalha as agruras de uma jovem de dezoito anos que, com uma fender numa mão e um microfone na outra, parece ser a única pessoa sensata e racional no mundo que a rodeia. E Lindsey transcende-se no modo como relata toda a confusão e desapontamento que testemunha, fazendo-o com uma vibração tal que, muitas vezes parece que toda esta sinceridade expôe uma vulnerabilidade infinita, quando a realidade é oposta, já que estamos na presença de alguém que, nos seus precoces dezoito anos, sabe perfeitamente que rumos quer seguir. Essa firme impressão é captada inconscientemente pelo ouvinte por causa do modo como a voz e a guitarra estão sempre na linha da frente da maioria das canções, um detalhe com a assinatura do experiente produtor Jake Aron.

A tocar guitarra desde os cinco anos de idade, tendo-se estreado com o EP Habit em dois mil e dezasseis e com fortes pretensões a tornar-se numa figura suprema da próxima geração que vai dar cartas no indie rock, Jordan demonstra, neste seu registo de estreia, ser uma artista eclética e abrangente, com um gosto bastante refinado e detentora das coordenadas certas para entrar no âmago de quem quiser encontrar na sua música esperança para novos recomeços. O intimismo nada subtil de Anytime, a melancolia subtil de Stick, as guitarras abrasivas de Full Time, o pendor épico da melodia que conduz Speaking Terms e o modo como o timbre metálico da guitarra a trespassa, ou o cariz pulsante e agreste das distorções que abastecem as diversas variações ritmícas que fazem reluzir o single Heat Wave, são momentos maiores de um álbum que não procura esconder as suas ideias e desabafos por trás de um caudal subversivo de guitarras distorcidas, mas antes usá-las de modo a que todos esses sentimentos genuínos e típicos de uma adolescente que quer utilizar a música para exorcizar algumas agruras, contenham o grau de dramaticidade que um registo do género, profundamente poético e catártico, naturalmente exige. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:45
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Terça-feira, 10 de Julho de 2018

Linda Martini - É só uma canção vs Quase se fez uma casa

Os Linda Martini de André Henriques (Voz e Guitarra), Cláudia Guerreiro (Baixo e Voz), Hélio Morais (Bateria e Voz) e Pedro Geraldes (Guitarra e Voz), continuam a retirar dividendos do excelente homónimo que editaram recentemente e que os catapultou, definitivamente e com toda a justiça, para o pódio dos melhores projetos de indie rock alternativo nacionais da atualidade.

Resultado de imagem para linda martini 2018

Sucessor do aclamado Sirumba, editado em dois mil e dezasseis, Linda Martini foi gravado na Catalunha entre Outubro e Novembro de 2017, com produção da própria banda e Santi Garcia e com todos os detalhes pensados até ao mais ínfimo pormenor. Por exemplo, o retrato a óleo da capa é a rapariga italiana a quem a banda pediu emprestado o nome no início do século, quando o projeto surgiu e o seu conteúdo sonoro não pretende ser uma mera continuidade da sonoridade habitual, mas antes uma fuga da zona de conforto, com um equilíbrio cada vez maior de elementos como o ritmo, a melancolia e o intimismo, relativamente não só ao antecessor, mas também a todo o cardápio do projeto, que conta já com seis tomos.

Em suma, os Linda Martini de hoje podem ser Rock e Fado, Fugazi e Variações, Fela Kuti e Afrobeat, Tim Maia e Funk, sem nunca soarem a outra coisa que não eles e são poucas as bandas que, remexendo e criando desconforto à primeira audição, conseguem depois, da harmonia ao caos, do balanço lânguido às cavalgadas épicas, soarem harmoniosos e profundamente cativantes.

Para espalhar ainda mais a sua doutrina, os Linda Martini acabam de retirar de Linda Martini dois singles e em simultâneo, os temas É só uma canção e Quase se fez uma casa. De acordo com o press release do lançamento, neste duplo videoclip, o grupo abre com É só uma canção, composição que nos fala sobre o peso da maldita folha em branco. São eles a contornar o que já fizeram, a contrariar rotinas para descobrirem outro ângulo e em Quase se fez uma casa, o segundo filme, amachucam o rascunho para que nada fique de pé. Peritos em adocicar a tragédia, a amargar-nos a felicidade, entram num jogo de tensão e libertação; um workshop de gestão de raiva do qual todos saíram ilesos e um pouco mais leves. Confere...


autor stipe07 às 09:40
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 28 de Junho de 2018

Mimicking Birds – Layers Of Us

Quase quatro anos depois do excelente Eons, os Mimicking Birds, de Nate Lacy, Aaron Hanson, Adam Trachsel, uma banda norte americana de Portland, no Oregon, estão de regresso com Layers Of Us, um trabalho editado no início deste ano através da Glacial Pace Records, estando disponivel para audição e aquisição na página bandcamp do projeto.

Resultado de imagem para mimicking birds 2018

O efeito da guitarra e os efeitos rugosos do tema que dá nome ao disco e a melodia cinematográfica que sustenta o tema, são detalhes únicos que, abrindo o disco, preparam-nos para a entrada num universo muito peculiar, que ganha uma vida intensa e fica logo colocado a nu, sem truques, no ritmo frenético e no clima rugoso de Another Time e nos efeitos sintetizados borbulhantes e coloridos que divagam pela canção. Os Mimicking Birds apostam num universo feito por um indie rock que se cruza com detalhes típicos da folk e que só faz sentido se pulsar em torno de uma expressão melancólica acústica que este trio norte americano sabe muito bem interpretar, na senda de alguns nomes que sustentam a melhor herança norte americana deste universo sonoro tão peculiar e com raízes tão profundas no outro lado do atlântico.

Layers Of Us é um trabalho que cresce audição após audição; Mesmo não estando na lniha da frente do processo de criação melódica, os sintetizadores conseguem conciliar a efervescência dos efeitos que debitam, com a indispensável dinâmica que constroem com as guitarras, um abraço instrumental que conhece poucos entraves e expande-se com interessante fluídez. A voz também se cruza elegantemente com os instrumentos e elementos como a lua, o sol, animais e cenários campestres apoderam-se da obra com extrema delicadeza. O disco é uma bela exposição sonora de sons e emoções, um trabalho bem expansivo e épico, mas também com uma intimidade muito própria e familiar.

Um dos aspetos mais interessantes de Layers Of Us é a complexidade instrumental que suporta cada uma das canções, com alguns sons a serem quase impercetíveis, mas essenciais para a cadência e a vibração. Se a acusticidade orgânica de Island Shore não é beliscada pela eletrificação da guitarra, o baixo e a percussão também são elementos estruturalmente dominantes em várias canções. Muitas vezes o dedilhar da viola é aquele detalhe que acaba por ser a cereja no topo do bolo de várias composições, cada uma delas com algo distinto.

Do excelente trabalho de guitarra que se escuta em A Part e no rock de One Eyed Jack, à abordagem mais eletrónica de Great Wave, ou da mais ambiental Belongings, Layers Of Us está cheio de exaltações melancólicas, cenários e sensações que se expressam com particular envolvência e que expõem sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema. É impossível ouvir o single Sunlight Daze e não nos sentirmos profundamente tocados pela delicadeza e pela fragilidade que a canção transmite.

No epílogo de Layers Of Us percebemos que escutámos uma ode à América profunda e à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e do rock. A receita é extremamente assertiva e eficaz e o disco reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas delicadas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

Mimicking Birds - Layers Of Us

01. Dust Layers
02. Another Time
03. Sunlight Daze
04. Island Shore
05. Great Wave
06. A Part
07. Belongings
08. Lumens
09. Time To Waste
10. One Eyed Jack


autor stipe07 às 21:21
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Domingo, 3 de Junho de 2018

Imploding Stars - Riverine

Três anos depois do excelente A Mountain And A Tree, da banda sonora Mizar & Alcor (2016) para a versão portuguesa do documentário From Earth to Universe e da participação com Treeless prairie na coletânea T(h)ree – Vol. 5 – Portugal – Cazaquistão – Uzbequistão (2017), os bracarenses Imploding Stars de Élio Mateus, Francisco Carvalho, Jorge Cruz, João Figueiredo e Rafael Lemos, regressaram aos discos com Riverine, disco com oito temas que, de acordo com o press release do lançamento desta banda das Taipas, aborda o princípio da compreensão dos diferentes estágios de desenvolvimento da vida humana, desde o momento que nascemos até o momento que morremos. Durante a nossa vida, experimentamos diferentes sensações que levam à criação de memórias. No entanto, estamos normalmente limitados aos limites da perceção humana e às decisões sobre o que é bom ou mau nas bifurcações que vamos encontrando. Mas afinal o que é bom ou mau? E se não houver limites nessa perceção humana? E se pudéssemos, de alguma forma, viver para sempre ou reviver.

Resultado de imagem para Imploding Stars Riverine

Sendo assim, no alinhamento de Riverine os Imploding Stars recriaram com notável mestria os diferentes estágios temporais que fazem parte da existência humana e que, no fundo, definem o trajeto de vida de cada um de nós, sendo possível, tendo em conta a abordagem da banda a esse ideário, cada ouvinte, à medida que se embrenha no álbum, adaptar os temas à sua experiência pessoal e aos seus pensamentos, experiências, sonhos, conquistas e desejos.

A partir desta permissa e tendo-a bem presente, as oito canções avançam na sequência lógica desses tais estágios de desenvolvimento (nascimento, infância, adolescência, idade-adulta meia-idade, velhice, morte e renascimento), com cada composição a retratar de modo sui generis um clima sonoro que encontra paralelismo na essência de cada um desses estágios e aquelas que são as nossas formas mais comuns de pensar, de ser, de agir e de comunicar nessa fase da nossa vida. Por exemplo, se Birth é um tema mais contemplativo, já Adulthood são nove minutos de altos e baixos, mudanças ritmícas e melódicas e Senescence tem um travo mais nostálgico e, no final, algo inquietante, retratando fielmente o ocaso.

Transversal ao alinhamento é a sua beleza utópica. Nele os Imploding Stars reproduziram um bloco único de som feito de belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos que alicerçam esta busca de uma expressão melódica incisiva e inteligente da nossa natureza animal e dos sentimentos inerentes à nossa condição de humanos. De facto, em Riverine tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do projeto tivesse um motivo para se posicionar dessa forma. É, como se percebe, um álbum conceptual, que impressiona por uma beleza utópica que explora ao máximo a relação sensorial humana, através de um som espacial, experimental, psicadélico, barulhento e melódico que atiça todos os nossos sentidos, ,as também um disco que nos fecha dentro de um mundo muito próprio, místico e grandioso, onde tudo flui e se orienta de modo a fazer-nos levitar, enquanto ficamos certos que passa pelos nossos ouvidos algo muito bonito, denso e profundo e que está a deixar marcas muito positivas e sintomas claros de deslumbramento. Espero que aprecies a sugestão... 


autor stipe07 às 18:10
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Terça-feira, 8 de Maio de 2018

Landing – Bells In New Towns

Oriundos de New Heaven, no Connecticut, os Landing de Daron Gardner, Aaron Snow, Adrienne Snow e John Bent, são um dos nomes fundamentais do shoegaze norte-americano e para marcar os vinte anos de carreira, acabam de lançar Bells In New Towns, um novo compêndio de canções, o segundo na conceituada etiqueta El Paraiso Records, casa de nomes tão fundamentais do indie rock norte-americano como Os Monarch, Brian Ellis, Papir, Sun River, Mythic Sunship, Jonas Munk, entre outros. Apesar de uma carreira já tão longa, os Landing parecem não abrandar criativamente nem colocar em causa a elevada bitola qualitativa da sua herança discográfica, oferecendo-nos, talvez, o alinhamento mais consistente de uma já longa e meritória carreira.

Resultado de imagem para landing connecticut band

Uma das explicações para o facto de Bells In New Towns ser um disco tremendamente coeso e apelativo será, certamente, o facto de ter a mão de Justin Pizzoferrato (Dinosaur Jr., Elder, Pixies, Sonic Youth), na gravação de grande parte do mesmo. Este nome conceituado da produção acaba por ser fundamental no modo como o habitual som multitextural e abrangente dos Landing, que oscila entre aquele fuzz psicadélico mais contemplativo e luxuosos cenários luminosos e progressivos, consegue incorporar elementos etéreos e melodicamente acessíveis, sem ser necessário renegar a habitual toada lo fi do projeto.
Desse modo, as canções dos Landing estão mais apelativas e acessíveis a outros públicos, mas não renegam a força motriz sonora que está no cerne de um projeto que se foi habituando a apresentar um indie rock contemplativo, melancólico e atmosférico, mas mesmo assim incisivo. E isso acaba por ser uma tremenda mais valia deste Bells In New Towns, não só porque contém uma sonoridade que vai ao encontro daquilo que são hoje importantes premissas de quem acompanha as novidades deste espetro sonoro, mas também porque, num período de algum marasmo, esta tem sido uma estética que tem encontrado bom acolhimento junto do público.
De algum modo mestres da melancolia, instrumentalmente os Landing acabam por emergir-nos num universo muito próprio onde, da criteriosa seleção de efeitos da guitarra à densidade do baixo, passando por uma ímpar subtileza percussiva e um exemplar cariz lo fi na produção, são diversos os elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador.

Escuta-se os versos quase impercetíveis de Nod e embarcamos numa demanda doutrinal que sabemos, à partida, que não nos vai deixar indiferentes e iguais e depois, impulsionados pela nebulosa pujança do dedilhar das cordas inicial de Secret, uma daquelas canções cujas diversas camadas de som impelem ao cerrar de punhos, pelo encanto etéreo de By Two e pelo doce balanço do baixo que conduz Bright, ficamos certos que a opção tomada foi, como seria de esperar, a mais certeira.

Até ao ocaso de Bells In New Towns, na deliciosa ode ao amor que justifica a filosofia subjacente a Trace, uma canção onde a interação entre a viola e a voz fica muito perto de atingir os píncaros, na crueza orgânica e hipnótica de Wait or Hide e no modo como as distorções impregnadas de shoegaze embelezam toda a subtileza que fica impressa no rasto de Second Sight, fica atestada a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, comunica com a nossa mente e os nossos sentidos de modo particularmente libertador e esotérico. Espero que aprecies a sugestão...

Landing - Bells In New Towns

01. Nod
02. By Two
03. Gravitational VII
04. Bright
05. Secret
06. Fallen Name
07. Wait Or Hide
08. Gravitational VIII
09. Trace
10. Second Sight


autor stipe07 às 17:52
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Terça-feira, 1 de Maio de 2018

Unknown Mortal Orchestra - Sex & Food

Três anos depois do excelente Multi-Love, os neozelandeses Unknown Mortal Orchestra, do músico e compositor Ruban Nielson e de Jake Portrait e Greg Rogove, instalados em Portland, no Oregon há já aguns anos, estão de regresso ao formato longa duração com Sex & Food, uma extraordinária compilação de doze canções que, estreitando os laços entre a psicadelia e o R&B, contêm a impressão firme da sonoridade típica da banda, catupultando-a ainda para uma estética mais abrangente, reforçando de forma ainda mais comercial e ainda assim específica o que havia de mais tradicional e inventivo na trajetória da banda.

Resultado de imagem para Unknown Mortal Orchestra 2018

Produzido pelo próprio Ruban Nielson, gravado entre Seoul (Coreia do Sul), Hanoi (Vietname), Reykjavik (Islândia), Cidade do México (México), Auckland (Nova Zelândia) e Portland (Estados Unidos), lançado com a chancela da Jagjaguwar e fortemente influenciado pela internet, Sex & Food além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, tão bem impressas na vibe escandalosamente urbana de Major League Chemicals, também ressuscita de novo uma das imagens de marca dos Unknown Mortal Orchestra e um dos terrenos onde se sentem mais à vontade, aquelas referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica da década anterior, deliciosamente presentes no efeito da guitarra e no reverb vocal de Ministry Of Alienation. Mas não se pense que este é um disco unicamente revivalista; Aliás, um dos seus grandes atributos é o seu cariz futurista e inovador, sendo, claramente, um dos registos mais criativos e indutores de novas nuances dos últimos tempos, tendo em conta o universo sonoro em que se movimenta. O modo como o rugoso e inebriante efeito da guitarra de American Guilt é acompanhado pela bateria e pela distorção vocal, transportam-nos para um rock que entre uma psicadelia progressiva e o classicismo punk oferecem-nos uma abordagem ao género pouco vista e, logo depois, The Internet Of Love (That Way) acaba por nos facultar o mesmo vigor de inedetismo, desta vez olhando para uma improvável simbiose entre blues e R&B, com um resultado final bastante apelativo. E a seguir, na falsa acusticidade orgânica de Doomsday, na batida, no groove e na riqueza dos arranjos da Everyone Acts Crazy Nowadays e no travo lisérgico das variações rítmicas de How Many Zeros a banda volta a guinar constantemente e a pisar universos nostálgicos, mesmo que díspares, mas apresentando sempre um clima geral muito inovador e difícil de comparar com outros projetos atuais.

Ecletismo é também, por tudo isto, uma palavra de ordem em Sex & Food, que podia ser descrito de modo simplista e tremendamente redutor por uma abrangente mistura entre rock e eletrónica, mas o modo como esse ecletismo se define ao longo do registo contém uma multiplicidade quase infinita de detalhes e aspetos que o que importa realmente exaltar é, dentro de toda a salutar amálgama do alinhamento, o modo como Ruben idealizou o volume e a densidade instrumental das canções, todas assentes em ambientes díspares, tornando indisfarçável mais uma busca dos Unknown Mortal Orchestra de melodias agradáveis, marcantes e ricas em detalhes e assentes em texturas com uma grandiosidade controlada, que possam conter um forte apelo às pistas de dança, mas também servir de banda sonora para instantes de maior intimidade, sozinho ou a dois.

A conquistarem um número cada vez maior de adeptos devido a uma especificidade sonora cada vez mais aprimorada e criativa mas sem deixar de ser acessível, os Unknown Mortal Orchestra chegam ao quarto tomo da sua discografia certeiros, relativamente ao estereótipo vincado com que pretendem impregnar o seu cardápio sonoro e que procura reviver os sons outrora desgastados de outra décadas , mas oferecendo aos ouvintes essa viagem ao passado sem se desligarem das novidades e marcas do presente. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 11:12
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Domingo, 22 de Abril de 2018

Imploding Stars - Demise

Resultado de imagem para Imploding Stars Demise

Três anos depois do excelente A Mountain And A Tree, os vimaranenses Imploding Stars de Jorge Cruz, Diogo, Élio, Filipe e Francisco regressam em 2018 aos discos com Riverine, disco com oito temas que, de acordo com o press release do lançamento desta banda das Taipas, aborda o princípio da compreensão dos diferentes estágios de desenvolvimento da vida humana, desde o momento que nascemos até o momento que morremos. Durante a nossa vida, experimentamos diferentes sensações que levam à criação de memórias. No entanto, estamos normalmente limitados aos limites da perceção humana e às decisões sobre o que é bom ou mau nas bifurcações que vamos encontrando. Mas afinal o que é bom ou mau? E se não houver limites nessa perceção humana? E se pudéssemos, de alguma forma, viver para sempre ou reviver.

Sendo assim, no alinhamento de Riverine, os Imploding Stars tentaram recriar os diferentes estágios temporais que fazem parte da existência humana e que, no fundo, definem o trajeto de vida de cada um de nós, sendo possível, tendo em conta a abordagem da banda a esse ideário, cada ouvinte, à medida que se embrenha no álbum, adaptar os temas à sua experiência pessoal e aos seus pensamentos, experiências, sonhos, conquistas e desejos.

Demise é o primeiro single divulgado deste Riverine, um tema que impressiona pela sua beleza utópica, feita de belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos que aliceracam uma melodia particularmente hipnótica. Confere... 


autor stipe07 às 21:47
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

EELS – The Deconstruction

Depois de uma espera de quatro anos, os Eels de E (Mark Oliver Everett), Kool G Murder e P-Boo estão de regresso com um novo álbum gravado na sua maioria em Pasadena, na Califórnia. O novo trabalho deste grupo norte-americano chama-se The Deconstruction, é o décimo segundo da carreira deste projeto liderado pelo carismático Mark Everett e, sucedendo ao já longínquo The Cautionary Tales Of Mark Oliver Everett, foi produzido pelo próprio Everett e por Mickey Petralia, um nome que já trabalha com os Eels desde o fabuloso Electro-Schock Blues (1998), o melhor disco da banda, prestes a comemorar vinte anos de existência.

Resultado de imagem para eels band 2018

Para quem, como eu, acompanha com atenção a carreira dos Eels praticamente desde o seu início, The Deconstruction, o primeiro tema do alinhamento deste disco com o mesmo nome surpreende pelo modo como nos remete para o início da carreira do projeto. Esta seria uma canção que encaixaria claramente no meio de Beautiful Freak, com a sua sonoridade algo rugosa e assente num rock orquestral bastante experimental, onde as cordas dominam, mas onde é também possível escutar arranjos de sopros e percussivos bastante peculiares e distintivos e o timbre vocal inédito de Everett. Essas mesmas cordas que não deixam de encontrar as suas raízes no banjo foram uma imagem de marca dos Eels em tempos, assim como a vasta miríade de efeitos metálicos presentes na percurssão e que cruzam Bone Dry, o segundo tema e single do disco, sem complacência. Nesse tema a guitarra distorce-se, as variações rítmicas também habituais nos Eels fazem a sua aparição e a partir daí somos sugados, sem mercê, para um disco que acaba por fazer uma espécie de súmula de uma vasta e gloriosa carreira de mais de duas décadas de um dos melhores e mais peculiares grupos de rock alternativo da nossa contemporaneidade.

Oliver Everett gosta de surpreender e sobrevive no universo indie rock devido à forma como tem sabido adaptar os Eels às transformações musicais que vão surgindo no universo alternativo sem que haja uma perca de identidade na conduta sonora do grupo. E, pelos vistos, por muito que se atreva a prescutar teritórios mais agressivos ou, em oposição, mais introspetivos e cândidos, algo que fez aqui, com superior delicadeza, na lindíssima canção Premonition, é mesmo no campo daquele pop rock lo fi que pisca o olho à indie folk que o autor se sente mais confortável e onde consegue, com particular mestria, criar momentos de sincera e sentida emoção sonora. Assim, se essa Premonition e se o dedilhar e os violinos de Sweet Scorched Earth são, sem dúvida, temas que comprovam o feliz regresso dos Eels à folk eminentemente acustica, melancólica e introspetiva e se a ternurenta balada nostálgica Rusty Pipes, com notáveis arranjos de cordas e uma percussão bastante aditiva, tem o mesmo efeito, espelhando com notável acerto aquelas saudosistas caraterísticas sonoras que impressionarem todos aqueles que há vinte anos olharam com admiração para este grupo norte americano, já a luminosidade sorridente e feliz de Today Is The Day e, de um modo com mais elétrico, o fuzz de You Are The Shining Light, são canções capazes de nos fazer encher o peito e de abrir o nosso sorriso de orelha a orelha, espelhando aquele universo mais divertido e optimista que os Eels também gostam de expressar sonoramente.

Tematicamente, E mantém-se lúcido no modo como aborda o amor, um campo lexical e uma área vocabular onde sempre se sentiu inspirado, principalmente quando confessa o desconforto e a desilusão que esse sentimento tantas vezes causou na sua vida, estando numa fase em que sente necessidade de olhar para o seu percurso pessoal e perceber as falhas e os instantes em que algo correu mal e as pontas que ainda estão por fixar. É explícita uma espécie de narrativa que em The Epiphany, vai servindo para E confessar dores e arrependimentos e desejar que ainda haja um futuro risonho à sua espera, fazendo-o em Be Hurt, canção onde o músico admite falhas e o desejo de poder ainda vir a ser recompensado pela boa pessoa que é, ou, pelo menos, julga ser.

Cheio de melodias orelhudas e que nos embalam e fazem partilhar algumas das angústias e desejos plasmados, The Deconstruction é um disco que transborda uma profunda sinceridade confessional por todos os acordes e torna-se fácil simpatizar automaticamente com a história de vida desta personalidade fundamental para a descrição de alguns dos mais bonitos momentos sonoros do universo indie das duas últimas décadas, que estará por cá, nos Nos Alive, no dia treze de julho. e que ainda procura, com uma ansiedade controlada e natural, a verdadeira felicidade. Espero que aprecies a sugestão...

EELS - The Deconstruction

01. The Deconstruction
02. Bone Dry
03. The Quandary
04. Premonition
05. Rusty Pipes
06. The Epiphany
07. Today Is the Day
08. Sweet Scorched Earth
09. Coming Back
10. Be Hurt
11. You Are the Shining Light
12. There I Said It
13. Archie Goodnight
14. The Unanswerable
15. In Our Cathedral


autor stipe07 às 17:34
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 29 de Março de 2018

Preoccupations - New Material

Matt Flegel e Mike Wallace são dois músicos já habituados a recomeços no que concerne a projetos musicais. Depois de terem feito parte dos extintos Women, um grupo norte americano de Calgary, que terminou a carreira há alguns anos, mas que deixou saudades no universo sonoro alternativo, incubaram os extraordinários Viet Cong, um coletivo que fez furor há três anos com um disco homónimo que foi considerado por esta redação como o melhor do ano, em 2015. Este nome tão sugestivo da banda acabou por não sobreviver à crítica, muita dela oriunda do importante mercado discográfico local e, por isso, a dupla viu-se na necessidade de se reinventar de novo, surgindo agora sobre a capa dos Preoccupations, um coletivo onde à dupla se juntam os guitarristas Scott Munro e Daniel Christiansen, que já os acompanhavam nos Viet Cong. New Material é o registo discográfico que dá o pontapé de saída a esta nova vida do projeto, dez canções alicerçadas num post punk labiríntico de elevado calibre e abençoado pela chancela da insuspeita Jagjaguwar, uma das principais editoras independentes norte-americanas.

Resultado de imagem para Preoccupations New Material

Disco cheio de canções que assentam quase sempre numa guitarra com um rugoso efeito metálico particularmente aditivo e um baixo imponente, acompanhados por uma bateria falsamente rápida, como é o caso de Espionage, o tema que abre o disco, New Material remete-nos, no imediato, para aquele rock que impressiona pela rebeldia com forte travo nostálgico e por aquela sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem o âmago. A psicadelia oitocentista que dá as mãos ao punk é outra nuance importante deste alinhamento com uma originalidade muito própria e um acentuado cariz identitário, por procurar, em simultâneo, texturas melódicas e expansivas, mas também aquele pendor lo fi com uma forte veia experimentalista. É uma matriz sonora percetivel na distorção das guitarras, no vigor do baixo de Matt Flengel e, principalmente, na bateria de Wallace, muitas vezes algo esquizofrénica e fortemente combativa. Aliás, este instrumento é frequentemente chamado para a linha da frente na arquitetura sonora de New Material, ficando com as luzes da ribalta e um elevado protagonismo na percussão tribal de Decompose e no modo como as suas variações rítmicas introduzem o efeito da guitarra em Solace. Já que falamos em efeitos da guitarra, um dos grandes tiques identitários que trespassa toda a discografia destes músicos é, claramente, a sensibilidade do efeito metálico abrasivo da guitarra que corta fino e rebarba eque é audível em Decompose, um som que se ouvia frequentemente em Viet Cong, geralmente em contraste com a pujança do baixo. O resultado era uma elevada amplitude épica, presente em melodias que nos levavam rumo ao rock alternativo de final do século passado, mas que agora ganha contornos um pouco mais futuristas. E isso sucede porque nos Preoccupations Floegel e Wallace colocam os sintetizadores também em posição de elevado destaque, sendo Disarray uma boa canção para se perceber esta alteração estilística que combina post punk com shoegaze, uma fórmula pessoal e muito deles e onde o ruído não funciona com um entrave à expansão das canções, mas como mais um veículo privilegiado para lhes dar um relevo muito próprio que, sem esse mesmo ruído, os temas certamente não teriam. Aliás, na já referida Solace e em Compliance os solos e riffs da guitarra de Scott e Daniel, exibem linhas e timbres com um clima marcadamente progressivo e rugoso, com os teclados a tornarem-se numa mais valia no modo como adornam este garage rock, ruidoso e monumental e o harmonizam, tornando-o agradável aos nossos ouvidos, ou seja, fazem da rispidez visceral algo de extremamente sedutor e apelativo.

A viagem lisérgica que o quarteto nos oferece nas reverberações ultra sónicas de New Material, fazem deste compêndio um agregado instrumental clássico, despido de exageros desnecessários e amiúde apoteótico. É uma demonstração clara do modo como este coletivo se disponibiliza corajosamente para um saudável experimentalismo que não os inibe de se manterem concisos e diretos, à medida que constroem os diferentes puzzles que dão substância às canções. No final, tudo resulta de forma coesa e o ruído abrasivo proporcionado por esta catarse onde reina uma certa megalomania e uma saudável monstruosidade agressiva, aliada a um curioso sentido de estética, fascina e seduz. Espero que aprecies a sugestão...

 Preoccupations - Espionage

01. Espionage
02. Decompose
03. Disarray
04. Manipulation
05. Antidote
06. Solace
07. Doubt
08. Compliance


autor stipe07 às 17:31
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2018

Beach House – Lemon Glow

Beach House - Lemon Glow

Quase três anos depois da dose dupla que foi Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars, o quarto e o quinto discos da dupla Beach House, lançados em 2015, parece que este projeto sedeado em Baltimore, no Maryland, formado pela francesa Victoria Legrand e pelo norte americano Alex Scally tem novo disco em carteira.

De facto, os Beach House acabam de divulgar uma nova canção intitulada Lemon Gow. tema que tem aquela toada simples e nebulosa, bastante melódica e etérea, plena de sintetizadores assertivos e ruidosos e guitarras com efeitos recheados de eco, que mantêm intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que vive em redor da voz doce de Victoria e da mestria instrumental de Alex e se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado. Confere...


autor stipe07 às 17:38
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018

Soft Serve – Trap Door EP

Os canadianos Soft Serve formaram-se em 2013, mas só em 2016 conseguiram alguma projeção quando Kyle Thiessen, líder do projeto, mudou-se para Toronto, mesmo que Thomas James, o seu parceiro, que também assina o projeto Milk, tenha permanecido em Vancouver. Já agora, nesta cidade abriram uma espécie de estúdio de gravação comunitário, os Luna Studios, que hoje é um porto de abrigo de muitos grupos locais que, não tendo um espaço próprio para gravar, socorrem-se dele. Trap Door é o novo EP destes Soft Serve que têm um pé no passado e o outro firmemente plantado no presente, algo comum a um elevado número de grupos que enquanto revivem influências de alguns dos melhores catálogos sonoros das últimas cinco décadas, procuram também dar um cunho algo pessoal, genuíno e identitário a essa permissa revivalista, de forte cariz sentimental.

Foto de Soft Serve.

Do post punk oitocentista, ao indie rock da década seguinte, passando pelo lo-fi setentista, Trap Door é uma excitante viagem temporal por um arquétipo sonoro que soa familiar a quem se habituou a crescer ao som de alguns dos melhores projetos deste universo sonoro. Da vibe melancólica e contemplativa de Whisper In The Wind, ao timbre corrosivo e encorpado que escorre de Phantasm, passando pela luminosidade sedutora e inebriante de Pat's Pun Open Blues Jam, as suas cinco canções foram um alinhamento primoroso e bastante audível. Não faltam nele leves pitadas de shoegaze, com as guitarras plenas de efeitos metálicos e timbres luminosos e uma bateria com a cadência adequada ao sentimentalismo das canções, a serem os grandes trunfos de um compêndio que colocará estes Soft Serve na mira de um número cada vez maior de entusiastas de um rock descomplicado e que se saboreia por nunca deixar de soar de modo refrescante e simultaneamente vintage. Trap Door tem tanto de acessível como de inédito, criativo e agradavelmente refrescante e único. Espero que aprecies a sugestão...

Soft Serve - Trap Door EP

01. Whisper In The Wind
02. Pat’s Pub Open Blues Jam
03. Phantasm
04. Camera Phone
05. Soft Soap


autor stipe07 às 17:46
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sábado, 4 de Novembro de 2017

Grooms – Exit Index

Quase três anos depois do extraordinário Comb The Feelings Through You Hair, os Grooms de Emily Ambruso, Jim Sykes e o texano Travis Johnson, o grande mentor do projeto, estão de regresso com mais dez canções incluídas em Exit Index, o quinto registo de originais deste coletivo sedeado em Brooklyn, Nova Iorque e que encontra as suas origens nos míticos Muggabears. Esta é uma banda que combina com tremenda lucidez criativa os cânones mais elementares daquele indie rock assente na tríade guitarra, baixo e bateria, à qual adicionam alguns elementos e efeitos sintetizados, com um resultado final que é uma verdadeira parada de cor, festa e alegria, onde existe um forte sentimento de comunhão entre os músicos, pelo privilégio de estarem juntos e comporem a música que gostam.

Resultado de imagem para grooms brooklyn band 2017

A indie pop e o rock luxuriante, com o ritmo e a cadência certas e uma certa toada melancólica, alicerçada num salutar experimentalismo que abraça um interessante e algo inédito leque de influências, sempre com uma filosofia vintage, é a pedra de toque destas dez canções feitas com guitarras levemente distorcidas e harmoniosas, banhadas pelo sol dos subúrbios e misturadas com arranjos luminosos e com um certo toque psicadélico.

Genuínos, ecléticos e criativos, estes Grooms compõem temas capazes de nos enredar numa teia de emoções que prendem e desarmam, sem apelo nem agravo, como é o caso do tremendamente inquietante pulsar de The Directory ou o exacerbado romantismo que expira de Turn Your Body, mas também conseguem ser mais imediatos no modo como entretêm o ouvinte com canções que se escutam sem ser necessário estabelecer uma intrincada teoria para as perceber e saborear. Quer a rugosidade progressiva de Magistrate Seeks Romance, quer a sobriedade melancólica que é sustentada pelo magistral baixo que conduz Dietrich possibilitam-nos esta sensação feliz que é conseguirmos, com clareza, perceber os diferentes elementos sonoros adicionados e que esculpiram as canções e, em simultâneo, absorvermos, sem truques ou códigos, a mensagem que transmitem.

Um dos principais atributos de Exit Index é o modo como as guitarras se situam melodicamente sempre próximas da postura vocal e depois, quando alguns arranjos sintéticos sobressaiem, como é o caso do efeito agudo que sai do teclado no rock angular e rugoso de Some Fantasy, tal sucede não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite. Outro bom exemplo desta altivez orquestral é They Can Tell, um daqueles instantes retro, relaxante e atmosférico que nos desarma, sem dúvida um dos pontos altos e imperdiveis de Exit Index, até porque é uma canção que nos agracia com aquela estirpe de cordas que esbarram numa percurssão que nunca desiste de tentar engatar o ritmo, quer na questão das batidas por minuto, quer no entusiasmo lírico. Num final em grande estilo, os Grooms oferecem-nos em Thimble uns loopings que introduzem eficazmente uma linha de guitarra inebriantel num memorável instante épico, impregnado de cor e luz, sem dúvida o melhor modo de encerrar um conjunto sonoro épico, bastante ousado e inebriante.

Com um forte cariz urbano e atual, Exit Index é um daqueles trabalhos em que há uma interligação latente entre os temas e não faz grande sentido escutá-los de forma isolada. É um disco que procura gravitar em torno de diferentes conceitos sonoros e esferas musicais, que transmitem, geralmente, sensações onde a nostalgia do nosso quotidiano facilmente se revê. Todos os temas são arrebatadores banquetes de sedução, languidez e luxúria, feitos com um indie rock sem fronteiras, desapegos ou concessões e que se servem também, em bandeja de ouro, com um forte entusiasmo lírico, certamente com o propósito de contornar todas as amarras que prendem a nossa alma e apresentar, desse modo, a notável disponibilidade dos Grooms para nos fazerem pensar, mexendo com os nossos sentimentos e tentando dar-nos pistas para uma vida mais feliz. Há neste alinhamento quase uma pueril simplicidade, que plasma uma notável capacidade de reinventar, reformular ou simplesmente replicar o que de melhor tem o indie rock psicadélico nos dias de hoje, oferecendo-nos, enquanto se vai num abrir e fechar de olhos do nostálgico ao glorioso, uma caldeirada de estilos e emoções cozinhada por mestres de um estilo sonoro carregado de um intenso charme. Espero que aprecies a sugestão...

Grooms - Exit Index

01. The Directory
02. Horoscopes
03. Turn Your Body
04. Magistrate Seeks Romance
05. End
06. Dietrich
07. Softer Now
08. Some Fantasy
09. They Can Tell
10. Thimble


autor stipe07 às 21:06
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Deerhoof - Mountain Moves

Os Deerhoof de São Francisco, formados por John Dieterich, Satomi Matsuzaki, Ed Rodriguez e Greg Saunier, estão de regresso aos discos com mais quinze canções, certamente impregandas com um indie rock carregado de distorções e pesadas batidas que chocam com o punk e o hip hopriffs carregados de groove e toda a amálgama desorientada de texturas sonoras que possas imaginar. A rodela é já a décima quarta do grupo, chama-se Mountain Moves e viu  luz do dia através da Joyful Noise Recordings.

Resultado de imagem para Deerhoof Mountain Moves

Sempre inventivos e com uma intocável capacidade em proporcionar, disco após disco, canções e alinhamentos que tanto contêm um travo experimentalista indisfarçável como parecem ir ao encontro das regras mais convencionais da pop contemporânea, os Deerhoof mantêm-se convictamente decididos não só a rasgar toda a sua herança e ir apontando novos direções e rumos, mas também a reforçarem o arsenal de canções que têm à disposição para agradar ao mainstream e assim manterem-se na linha da frente dos projetos mais consensuais e escutados dentro do universo sonoro em que se inserem.

É um facto que nos Deerhoof quanto maior for a sensação de caos e confusão nos nossos ouvidos, maior é a vontade que se tem de elogiar a sua música e neste Mountain Moves aquele lixo sonoro, completamente metafórico e sublime que eles apresentaram em discos tão emblemáticos como Breakup Song, ou o antecessor La Isla Bonita, mantém os seus altíssimos padrões qualitativos, com a voz da japonesa Satomi Matsuzaki, uma miúda cheia de energia, com quem dá vontade de rebolar num jardim e acabar com a boca cheia de húmus e pétalas de jasmins e malmequeres, a ser, ainda por cima, aquele detalhe que não nos faz hesitar em qualquer instante relativamente ao desejo de escutar este trabalho com frequência e de o balizar com natural louvor.

Disco que também impressiona pela presença de algumas versões, com destaque para o tema Gracias a La Vida, um original da chilena Violeta Parra, assim como Freedoom Highway, tema do cardápio setentista dos The Staple Singers e ainda, no final do alinhamento, Small Axe, de Bob Marley, Mountain Moves conta também com as participações especiais do rapper Awkwafina em Your Dystopic Creation Doesn't Fear You, uma luminosa e divertida canção conduzida por cordas inebriantes e das cantoras Laetitia Sadier no funk assertivo de Come Down Here & Say That, Juana Molina, na estrutura caótica, barulhenta e tematicamente reinvindicativa de Slow Motion Detonation e Jenn Wasner no rock enérgico de I Will Spite Survive. São artistas que conferem ao disco um clima ainda mais abrangente e onde abundam guitarras, sintetizadores, sinos, tambores, violas, xilofones e uma praga de instrumentos que nos consomem, numa filosofia de montagem de canções em torre, com loopings e riffs até que a tal torre pareça uma canção e dela se liberte uma energia que nos impele ao movimento indiscriminado.

Mountain Moves é um excelente exemplo do poder de diversão que a música pode ter e, numa banda que, imagine-se, vai já no décimo quarto trabalho da carreira e consegue sempre ser, ainda, familiar e surpreendeente, esta vitalidade no modo como constantemente se reinventa, é um dos maiores elogios que se pode fazer a um alinhamento que comprova que dificilmente os Deerhoof têm concorrência á altura, mantendo intacta a sua ideologia e abraçando, simultaneamente, o inedetismo com grande relevância. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:57
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Alvvays - Antisocialites

Os canadianos Alvvays de estão de regresso aos discos com Antisocialites e a tornarem-se num caso sério de popularidade, essencialmente devido ao modo particularmente genuíno e até algo ingénuo com que replicam aquele indie rock de cariz lo-fi, que parece andar um pouco arredado da linha da frente dos lançamentos discográficos, muitas vezes em detrimento de sonoridades mais sintéticas e supostamente intrincadas, que fazem tantos projetos perderem-se um pouco numa espécie de descontrole sonoro, em que não se sabe muitas vezes quais os pontos de partida e de chegada em termos conceptuais. É uma ânsia desemesurada de abarcar, em simultâneo, vários estilos e géneros, como se a capacidade de agregar o mais possível fosse permissa essencial na hora de avaliar a bitola qualitativa de um disco. Estes Alvvays merecem crédito por fazerem exatamente o contrário; fidelizaram-se num espetro sonoro específico e fazem-no sem despudor e com enorme criatividade.

Resultado de imagem para alvvays band 2017

Em quase quarenta minutos Antisocialites personifica esta fuga feliz ao mainstream sonoro que descrevi. Mais maduros do que numa estreia que há três anos revelou a quem os quis ouvir um indie rock anguloso e com um certo travo punk salutar, agora oferecem-nos canções com uma luminosidade muito peculiar, um sabor a optimismo que as guitarras frenéticas e o falsete de Plimsoll Punks e a epicidade melódica e nostálgica de In Undertow ilustram na perfeição, mas que também não deixa de estar presente no modo como vários efeitos cósmicos trespassam a bateria sincopada e a guitarra plena de reverb de Hey, no clima surf punk de Your Type e, num outro prisma, na doce ternura complacente do travo acústico de Already Gone e no hipnotismo ique incendeia Forget About Your Life.

Sabendo como não cair na repetição monótoma tendo em conta a especificidade do som que tocam, os Alvvays explicam e mostram neste Antisocialites como ainda é possível olhar para o rock alternativo de outros tempos e trazê-lo novamente à tona de modo brilhante, charmoso e convicto, sem parecer que copiaram uma fórmula já algo desgastada pelo tempo e por uma imensidão de bandas que muitas vezes não conhecem a melhor forma de abordar esta sonoridade carregada de especificidades e ao mesmo tempo tão simples e rica. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:27
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...

eu...


more about...

Follow me...

. 52 seguidores

Powered by...

stipe07

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Parceria - Portal FB Headliner

Facebook

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Em escuta...

Twitter

Twitter

Blogs Portugal

Disco da semana

Maio 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9

18

21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


posts recentes

The Drums - Brutalism

Alen Tagus - Holiday

Helado Negro – This Is Ho...

Swervedriver - Future Rui...

Sea Pinks – Rockpool Blue

Massage – Oh Boy

Snail Mail - Lush

Linda Martini - É só uma ...

Mimicking Birds – Layers ...

Imploding Stars - Riverin...

Landing – Bells In New To...

Unknown Mortal Orchestra ...

Imploding Stars - Demise

EELS – The Deconstruction

Preoccupations - New Mate...

Beach House – Lemon Glow

Soft Serve – Trap Door EP

Grooms – Exit Index

Deerhoof - Mountain Moves

Alvvays - Antisocialites

Swine Tax - Brittle

The Jungle Giants – Quiet...

Sun Airway – Heraldic Bla...

Oh Sees - The Static God

Beach Fossils – Somersaul...

X-Files

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

take a look...

I Love...

Os melhores discos de 201...

Astronauts - Civil Engine...

SAPO Blogs

subscrever feeds