Já considerados, com toda a justiça, míticos mestres do indie rock psicadélico, os britânicos Clinic de Ade Blackburn, Hartley, Brian Campbell e Carl Turney, têm uma inquestionável carreira de mais de duas décadas aos ombros, alicerçada num modo muito peculiar e sui generis e até quase marginal de criar música e de a expôr ao grande público, fazendo-o sempre com uma elevada dose de sarcasmo e de fina ironia.

Wheeltappers and Shunters, o novo disco deste projeto oriundo de Liverpool, editado a dez de maio pela Domino Records, gravado na cidade natal da banda e misturado por Dilip Harris, chega sete anos depois do escelente registo Free Reign e, ao contrário do antecessor, que contou com a colaboração do músico e produtor norte-americano Daniel Lopatin, mentor do projeto Oneohtrix Point Never e que estava recehado com algumas canções de longa duração e particularmente intrincadas, é um trabalho de curta duração, com doze temas sempre abaixo dos três minutos mas, nem por isso, menos majestoso, cósmico e experimentalista que esse Free Reign.
Oitavo álbum do grupo, Wheeltappers and Shunters tem o seu nome inspirado num programa de variedades dos anos setenta e que satirizava de modo contundente a sociedade britânica desse tempo. Movendo-se nas areias movediças de uma psicadelia lisérgica particularmente narcótica, estes Clinic são ricos no modo como utilizam uma hipnótica subtileza, assente, essencialmente, na dicotómica e simbiótica relação entre o fuzz da guitarra e vários efeitos sintetizados arrojados, com uma voz peculiar e muitas vezes manipulada a rematar este ménage, que fica logo tão bem expresso no clima corrosivo e incisivo de Laughing Cavalier. É uma musicalidade prática, concisa e ao mesmo tempo muito abrangente, num disco marcado pela proximidade entre as canções, fazendo com que o uso de letras cativantes e bem humoradas e de uma instrumentação focada em estruturas técnicas simples, amplie e renove com indiscutível contemporaneidade o já rico catálogo destes verdadeiros mestres do punk rock experimental, que começou a ser listado em dois mil com o extraordinário Internal Wrangler, já depois de três promissores eps terem deixado a crítica em sobressalto no ano anterior.
Já perfeitamente identificados com o modus operandi dos Clinic que vai trespassar o resto do alinhamento do disco, em Complex, com a passagem de uma batida seca e um efeito no teclado algo cínico e acompanhado por um flash e um rugoso e cru riff de guitarra, percebe-se uma saudável insolência, insinuando-se um clima punk que pisa um terreno bastante experimental e que, algures entre os Liars e os The Flaming Lips, é banhado por uma psicadelia ampla e elaborada, sem descurar um lado íntimo e resguardado, que dá, não só a esta canção, mas a todo um disco, um inegável charme, firme, definido e bastante apelativo.
A tal insolência não é, em momento algum do disco, sinónimo de amálgama ou ruído intencional; Se a rebeldia que exala da crueza percurssiva e dos efeitos e samples que adornam a ríspida Rubber Bullets, se as nuances mais translúcidas do clima western spaghetti de Ferryboat Of The Mind, se o travo grunge de Rejoice! e o frio e contemplativo efeito planante que abraça a batida de Mirage mostram-nos que este é um registo onde cada instrumento parece assumir uma função de controle, nunca se sobrepondo demasiado aos restantes, evitando a todo momento que o alinhamento desande, apesar das batidas e das teclas mostrarem uma constante omnipresença, já a aparente toada jazzística que define o baixo e a bateria de Flying Fish e o travo sensual ecoante e esvoaçante de Congratulations, uma ode majestosa ao rock experimental setentista, fazem o contraponto num disco que sem nunca descurar a faceta algo obscura e misteriosa que estes Clinic apreciam radiar, também contém momentos de inegável destreza melódica, esculpida com superior criatividade e bom gosto.
Em suma, a receita que os Clinic assumiram em Wheeltappers And Shunters arrancou do seio do grupo o melhor alinhamento que apresentaram até hoje, expresso em doze canções que exaltaram o superior quilate de cada intérprete. Se as guitarras ganham ênfase em efeitos e distorções hipnóticas e se bases suaves sintetizadas, acompanhadas de batidas, cruzam-se com o baixo, também num piscar de olhos insinuante a um krautrock, já o constante enganador minimalismo eletrónico, prova o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco que contém um acabamento que gozou de uma clara liberdade e indulgência interpretativa, dividida entre redutos intimistas e recortes tradicionais esculpidos de forma cíclica e onde tudo se orientou com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do álbum um corpo único e indivisível e com vida própria, onde couberam todas as ferramentas e fórmulas necessárias para que a criação de algo verdadeiramente imponente e que obriga a crítica a ficar mais uma vez particularmente atenta a esta nova definição sonora que deambula algures pela cidade que acaba de se sagrar com toda a justiça campeã europeia. Espero que aprecies a sugestão...

01. Laughing Cavalier
02. Complex
03. Rubber Bullets
04. Tiger
05. Ferryboat Of The Mind
06. Mirage
07. D.I.S.C.I.P.L.E.
08. Flying Fish
09. Be Yourself / Year Of The Sadist
10. Congratulations
11. Rejoice!
12. New Equations (At The Copacabana)

Os ingleses The Wombats regressaram aos discos no início deste ano com Beautiful People Will Ruin Your Life, registo que sucedeu com distinção ao excelente Glitterbug de dois mil e quinze. Quarto registo da carreira desta banda de Liverpool formada por Matthew Murphy, Daniel Haggis e Tord Øverland-Knudsen, Beautiful People Will Ruin Your Life oferece-nos canções cheias de guitarras aceleradas, inflamadas com letras divertidas, sempre com um audível elevado foco na componente mais new wave do indie rock e com elevada bitola qualitativa.
No início do próximo mês de novembro Beautiful People Will Ruin Your Life vai ser reeditado à boleia da AWAL Recordings, com três novas canções; um single intitulado Bee-Sting, uma versão acústica de Lethal Combination e um outro inédito intitulado Oceans. Bee-Sting é o primeiro desses três temas já conhecido e o foco deste artigo, uma canção melodicamente muito rica e indutora, que impressiona pela luminosidade das cordas, uma composição com uma forte aurea classicista, dentro daquilo que o rock tem de mais genuíno e os The Wombats de melhor no seu adn identitário. Confere...
Os britânicos The Coral de James Skelly, Ian Skelly, Nick Power, Lee Southall e Paul Duffy acabam de regressar aos discos com Move Through The Dawn, onze canções gravados nos Parr Street Studios de Liverpool e produzidas pelos próprios The Coral e por Rich Turvey. Sucessor do aclamado Distance Inbetween de 2016, Move Through The Dawn, o nono álbum da carreira deste mítico grupo da cidade dos Beatles, viu a luz do dia via Ignition Records e não defrauda a herança de uma banda essencial não só para a descrição da típica britpop, mas também para a catalogação de alguns dos projetos que foram sabendo resistir à erosão do tempo sempre com elevado nível qualitativo, disco após disco, mantendo uma linha de coerência que tipifica um adn onde consistência e epicidade são duas caraterísticas essenciais de um catálogo rock efusivo, vibrante e claramente optimista.

Tendo sempre o vigor das guitarras como ponto de partida para as canções de Move Though The Dawn, neste disco os The Coral mostram novamente que a fórmula em que costumam apostar volta a resultar e em pleno. Na luminosidade e no otimismo de Eyes Like Pearls e no registo claramente radiofónico e de elevado sentido pop de Reaching Out For A Friend e, principalmente, no rock anguloso do extraordinário single Sweet Release, um extraordinário tratado rock efusivo e vigoroso, já com direito a um curioso vídeo realizado por James Slater, é dado o pontapé de partida para um majestoso alinhamento indie, onde não faltam alguns tiques psicadélicos, a maioria da rsponsabilidade do excelente teclista Nick Power, baladas arrebatadoras (ouça-se Undercover Of The Night) e refrões bastante orelhudos que nos colocam a cantar ou, pelo menos a sussurrar, no imediato e sem darmos conta.
A vibe sessentista com elevado travo surf pop de She's A Runaway, a densidade de Stormbreaker, a acusticidade blues de Eyes Of The Moon, a luminosidade pop de Strangers In The Hollow ou o clima retro das guitarras de Love Or Solution ajudam a cimentar a firme certeza de estarmos perante um registo sólido, incubado por um projeto que tem sabido, ao longo das duas décadas de carreira, manter-se firme num posição cimeira, de relevo e influenciadora no seio do indie rock britânico, uma epopeia que começou logo em grande com uma nomeação para um Mercury Prize em dois mil e dois e que segue, registo após registo, a fornecer aos ouvintes e seguidores bons portos de abrigo para quem pretende deliciar-se com um rock simples e despretensioso, mas onde também não falte aquela riqueza e densidade lírica que tanto apreciam todos aqueles que gostam de se apropriar das canções para refletirem sobre si e sobre a realidade em redor. Espero que aprecies a sugestão...

01. Eyes Like Pearls
02. Reaching Out For A Friend
03. Sweet Release
04. She’s A Runaway
05. Strangers In The Hollow
06. Love Or Solution
07. Eyes Of The Moon
08. Undercover Of The Night
09. Outside My Window
10. Stormbreaker
11. After The Fair

Os britânicos The Coral de James Skelly, Ian Skelly, Nick Power, Lee Southall e Paul Duffy vão regressar a dezassete de agosto aos discos com Move Through The Dawn, onze canções gravados nos Parr Street Studios de Liverpool e produzidas pelos próprios The Coral e por Rich Turvey.
Sucessor do aclamado Distance Inbetween de 2016, Move Through The Dawn, o nono álbum da carreira deste mítico grupo, verá a luz do dia via Ignition Records e Sweet Release é o primeiro single divulgado do registo, um extraordinário tratado de indie rock efusivo e vigoroso, já com direito a um curioso vídeo realizado por James Slater. Confere...
Os ingleses The Wombats estão de regresso aos discos depois do excelente Glitterbug de 2015, um disco que se notabilizou por oferecer canções cheias de guitarras aceleradas, inflamadas com letras divertidas, sempre com um audível elevado foco na componente mais new wave do indie rock. O novo álbum desta banda de Liverpool formada por Matthew Murphy, Daniel Haggis e Tord Øverland-Knudsen chama-se Beautiful People Will Ruin Your Life e viu a luz do dia a nove de fevereiro último, confirmando tais expetativas e com elevada bitola qualitativa.

Liricamente deliciosamente inspirado na relação de Murphy com a sua esposa e sonoramente mais distante daquele rock que pisca o olho à eletrónica através do sintetizador, um instrumento desta vez menos audível, Beautiful People Will Ruin Your Life é um registo com uma forte aurea classicista, dentro daquilo que o rock tem de mais genuíno. Assim, abundam ao longo das onze canções do alinhamento solos de guitarra preenchidos com riffs inspirados e frequentemente escuta-se o baixo e a bateria a conduzirem o ritmo e muitas vezes a melodia de alguns temas, fazendo-o de modo particularmente audacioso e vincado em Out Of My Mind, com a vertente mais sintética neste e noutros temas a servir apenas para florear ou adicionar pequenas nuances ao grosso do arquétipo das canções. Exemplos disso são o refrão de Lemon to a Knife Fight, uma canção sobre aquilo que de mais conturbado pode ter uma relação a dois e que sem renegar a luminosidade das cordas, aprofunda uma relação da banda cada vez mais próxima do trio com a pop mais radiofónica, ou no início inspirado de Lethal Combination, uma das composiçoes mais divertidas e luminosas do disco. Depois, nas oscilações de intensidade que o piano, mas também as cordas e a percurssão mostram em I Only Wear Black, na rugosidade das guitarras de Ice Cream ou na energia contagiante de White Eyes, desfila um álbum surpreendentemente assertivo, bem estruturado e instrumentalmente sonante, repleto de poemas que retratam com acerto situações e sentimentos que podem ser adotados e adaptados ao quotidiano de qualquer um de nós.
Na segunda década deste século os The Wombats cresceram e nesse processo de mutação natural continuam a amadurecer e a sair com limpeza daquele estado algo ébrio que mostraram no início da carreira rumo a um novo acordar mais sério e sóbrio que os faz ver a vida de um modo mais decidido e realista, não tendo vindo a dar-se nada mal com essa mudança. Espero que aprecies a sugestão...

01. Cheetah Tongue
02. Lemon To A Knife Fight
03. Turn
04. Black Flamingo
05. White Eyes
06. Lethal Combination
07. Out Of My Head
08. I Only Wear Black
09. Ice Cream
10. Dip You In Honey
11. I Don’t Know Why I Like You But I Do

Os ingleses The Wombats estão de regresso aos discos depois do excelente Glitterbug de 2015, um disco que se notabilizou por oferecer canções cheias de guitarras aceleradas, inflamadas com letras divertidas, sempre com um audível elevado foco na componente mais new wave do indie rock. O novo álbum desta banda de Liverpool formada por Matthew Murphy, Daniel Haggis e Tord Øverland-Knudsen chama-se Beautiful People Will Ruin Your Life e vai ver a luz do dia a nove de fevereiro do próximo ano.
Lemon To A Knife Fight é o primeiro tema divulgado desse que será o quarto registo de originais dos The Wombats. É uma canção que sem renegar a luminosidade das cordas, aprofunda uma relação da banda cada vez mais próxima do trio com a pop mais radiofónica. Confere...
A seis de abril os The Wombats de Matthew Murphy, Daniel Haggis e Tord Øverland-Knudsen, regressaram aos discos com Glitterbug, um trabalho porduzido pela própria banda e por Mark Crew, que recentemente participou na produção de Bad Blood, o disco de estreia dos Bastille. Glitterbug é o terceiro álbum desta banda de Liverpool que se notabilizou por oferecer canções cheias de guitarras aceleradas, inflamadas com letras divertidas, sempre com um audível elevado foco na componente mais new wave do indie rock.

Com uma carreira ainda curta, mas já recheada de grandes momentos sonors, os The Wombats chegam ao terceiro disco a exalar uma indisfarçável vontade de mudança, não só no que diz respeito à sonoridade mas também ao próprio conceito temático das canções. Glitterbug debruça-se sobre a história de um relacionamento amoroso que é mantido apesar da distância que separa os conjuges e, apesar de contiunarem a existir trechos líricos carregados de humor (it’s tough to stay objective, baby, With your tongue abseiling down my neck - Emoticons ou Sometimes I like to go uptown, Where flashy people flash around, It's extortionate and I don't care, You can taste the pretence in the air - Your Body Is A Weapon), o tom geral é declaradamente mais sério, em oposição aos relatos juvenis alegres e festivos que era possivel conferir em A Guide to Love Loss & Desperation (2007) e This Modern Glitch (2011).
Os vícios, o ócio e a ligeireza típicas da adolescência e da juventude parecem, então, ter deixado de ser uma aventura e uma inspiração para os The Wombats; Basta escutar-se e ler-se o poema de This Is Not A Party para se perceber isso. O próprio video de Greek Tragedy, o primeiro single divulgado de Glitterbug, dirigido por Finn Keenan, ao mostrar uma fã que tem uma devoção doentia pela banda, perseguindo os seus membros constantemente e invadindo as suas próprias casas e carros, numa obsessão nada bem aceite pelo grupo e que causa uma reação radical na admiradora, mostra esta maior cautela e menor ingenuidade, como se o trio tivesse saído de um estado ébrio comum, para um novo acordar mais sério e sóbrio e que os faz ver a vida de um modo mais sombrio e realista.
Esta visão mais turva e rezingona do mundo que rodeia os The Wombats acaba por ter consequências óbvias na sonoridade do grupo, que se torna mais cautelosa e distante do estilo a que nos habituaram. Assim, apesar de não renunciarem ao indie rock e ao post punk dançável baseado em guitarras rápidas e distorcidas, que fazem parte do seu adn, aprofundam agora uma relação próxima com a pop, servindo-se de modo mais pronunciado dos sintetizadores, como se percebe logo em Emoticons, uma canção que alterna entre momentos calmos e um refrão intenso, com a voz de Matthew Murphy a exaltar uma comoção séria, que deve pouco a conceitos como prazer ou diversão. Esses sintetizadores colocam-nos de novo a dançar em Give Me A Try e Headspace e em Your Body Is A Weapon, uma típica música sobre um amor quase obsessivo, capaz de magoar o outro por não ser recíproco e fazem-no à boleia de um excelente riff de guitarras e um coro de vozes surpreendentemente assertivo, que um belíssimo piano ajuda a realçar. Mesmo nos temas que sustentam de modo mais eficaz a herança do grupo e onde o rock domina, como The English Summer ou Pink Lemonade, também se fazem ouvir com elevado relevo, apesar da omnipresença das guitarras, do baixo e da bateria.
Em suma, Glitterbug é uma fuga em frente por parte de uns The Wombats que querem mostrar-se mais adultos e abrangentes em todas as suas dimensões, lírica e sonora, através de treze canções bem estruturadas e instrumentalmente sonantes e com poemas que retratam com acerto situações e sentimentos que podem ser adotados e adaptadaos ao quotidiano de uma vida adulta. Os The Wombats cresceram e amadureceram e não se deram nada mal com essa mudança. Espero que aprecies a sugestão...
01. Emoticons
02. Give Me A Try
03. Greek Tragedy
04. Be Your Shadow
05. Headspace
06. This Is Not A Party
07. Isabel
08. Your Body Is A Weapon
09. The English Summer
10. Pink Lemonade
11. Curveballs
12. Sex And Question Marks
13. Flowerball
Lançado a dezasseis de junho pela Memphis Industries e composto enquanto a banda se encontrava disseminada por dois paises e três cidades, Slowness é o segundo álbum dos Outfit, um quinteto britânico oriundo de Liverpool e formado por Thomas Gorton, Nicholas Hunt, Christopher Hutchinson, David Berger e Andrew Hunt. Slowness sucede a Performance, o disco de estreia dos Outfit, editado em 2013 e, com um olhar angular mas bastante contemporâneo sobre a pop dos anos oitenta, oferece-nos uns Outfit revigorados e iluminados por um som amplo, adulto e bastante atmosférico, algo que se pode conferir logo no piano e nos efeitos de New Air. Esta é uma fórmula criativa, onde as teclas têm evidente destaque, mas assente, substancialmente, na primazia das guitarras e onde algumas texturas downtempo misturam-se com vozes inebriantes, cheias de alma e da típica e envolvente soul britânica.

A música dos Outfit tem corpo, alma e substância. É para ser encarada e apreciada sem reservas e exige uma análise detalhística, à boleia de todos os nossos sentidos, para que se torne compensadora a sua audição. Não é possível assimilar convenientemente a beleza poética e angelical de Happy Birthday ou o ritmo frenético e a conjugação feliz entre distorções e piano em Smart Thing se Slowness servir, apenas e só, como banda sonora casual de um instante normal e rotineiro da nossa existência. E o que se percepciona, procurando uma análise mais alargada deste cardápio, é que o conteúdo profundo destes dois temas e, por exemplo, os efeitos sintetizados de Boy, não são nada mais nada menos do que duas faces praticamente opostas de uma mesma moeda cunhada com sofisticação e que tem tudo para às vezes poder sensibilizar particularmente os mais incautos.
Mas há outros exemplos do modo hermético e ambicioso como os Outfit se movimentam dentro do espetro sonoro com que se identificam; Os sons abrasivos e os detalhes de alguns samples de Cold Light Home e o modo implícito como o piano os moldam, sem colocar em causa a grandiosidade dessa canção, assim como o luxuoso e luminoso andamento pop de On The Water On The Way evidenciam um notório e aprimorado sentido estético e a junção sónica e algo psicadélica de um verdadeiro caldeirão instrumental e melódico. Já Genderless, um momento de pura experimentação, assente numa colagem de várias mantas de retalhos que nem sempre se preocupam com a coerência melódica e que, por isso, deve ser objeto do maior deleite e admiração, é outro extraordinário exemplo do paraíso de glória e esplendor que os Outfit procuraram recriar no seu segundo disco e que subjuga momentaneamente qualquer atribulação que no instante da sua audição nos apoquente.
Em Slowness houve claramente uma enorme atenção aos detalhes, notando-se um relevante trabalho de produção e a busca por uma cosmética cuidada e precisa na escolha dos melhores arranjos. Também por isso, este é um disco reflexivo e indutor de sensações intrincadas e profundas e nele os Outfit consagram-se como banda relevante no espetro da indie pop de cariz mais eletrónico e, mais importante que isso, dão-nos pistas preciosas sobre como permitir que o nosso íntimo sobreviva e se mantenha íntegro neste mundo tão estranho. Espero que aprecies a sugestão...
01. New Air
02. Slowness
03. Smart Thing
04. Boy
05. Happy Birthday
06. Wind Or Vertigo
07. Genderless
08. Framed
09. On The Water, On The Way
10. Cold Light Home
11. Swam Out
É já a seis de abril que os The Wombats de Matthew Murphy, Daniel Haggis e Tord Øverland-Knudsen, regressam aos discos com Glitterburg, um trabalho porduzido pela própria banda e por Mark Crew, que recentemente participou na produção de Bad Blood, o disco de estreia dos Bastille. Glitterburg é o terceiro álbum desta banda de Liverpool que se notabilizou por ofecer canções cheias de guitarras aceleradas, inflamadas com letras divertidas, sempre com um audível elevado foco na componente mais new wave do indie rock.
Greek Tragedy é o primeiro single divulgado de Glitterburg e o respetivo video, dirigido por Finn Keenan, mostra uma fã que tem uma devoção doentia pela banda, perseguindo os seus membros constantemente e invadindo as suas próprias casas e carros. Esta obsessão não é bem aceite pelo grupo, o que causa uma reação radical na admiradora. Confere...
O Liverpool não ganhou, por uma unha negra e para grande desgosto meu, a última edição da Barclay's Premier League, mas deu-me o prémio de consolação de haver uma das bandas mais importantes do indie rock britânico natural dessa cidade ter regressado aos discos. Falo, naturalmente, dos Echo And The Bunnymen de Ian McCulloch e Will Sergeant, a metade que resta da formação original de um grupo com trinta e seis anos de carreira já que Pete de Freitas morreu em 1989 e, depois de se terem reunido de novo em finais dos anos noventa, Les Pattinson participou apenas no primeiro álbum após essa reunião, saindo de cena em 1998.

Lançado no passado dia vinte e seis de maio, Meteorites cessa um hiato de cinco anos nos discos, sendo já o décimo segundo trabalho do grupo e o sexto neste segundo fôlego e que coincide com os trinta anos de Ocean Rain, a obra-prima dos Echo And The Bunnymen e um dos álbuns fundamentais dos anos oitenta.
Banda de referência do pós punk de Terras de Sua Majestade, os Echo And The Bunnymen mantêm neste novo trabalho a firme aposta no universo indie feito com as guitarras que tanto vão beber às referências pop dos anos sessenta como ao conteúdo mais indie rock dos anos oitenta. À frente das cordas, Will Sergeant não complica, mas mostra-se bastante inventivo, melódico e hipnótico, protagonizando, assim, os melhores momentos instrumentais do disco.
Meteorites encontra a dupla a olhar nostalgicamente para si mesma e a para a carreira do grupo, em busca de uma espécie de súmula dos melhores momentos, sendo perfeitamente audíveis ecos de alguns dos melhores instantes não só do já citado Ocean Rain, mas também do antecessor Porcupine, dois trabalhos lançados logo no início da década de oitenta. Mas não se pense que Meteorites vai apenas beber à herança dos próprios Echo and The Bunnymen; temas como o single Lovers On The Run, Holy Moses ou Grapes Upon The Vine assentam numa contemporaneidade que arrisca em usar as referências vintage e dar-lhe o toque sintético de modernidade, de forma a que tudo brilhe e encaixe.
Apesar da voz de Ian McCulloch acusar nitidamente anos e anos de abuso do álcool e do tabaco, os arranjos que foram escolhidos para a suportar são bastante criativos, algo que compensa uma menor projeção e faz com que o disco tenha uma áurea pop bastante cantarolável.
Liricamente, Meteorites pode ser lido um pouco como a inevitabilidade de um dia o nosso planeta receber a visita de um corpo celeste fora de rota. McCulloch é sincero e escreve muito sobre si próprio e os momentos em que ele próprio se desviou do seu caminho e criou um passado cheio de erros e alguns arrependimentos. Mostrando-se fortemente contemplativo, percebe que há instantes que poderiam ter sido diferentes e que não vê grande esperança no seu futuro, ao mesmo tempo que assume o destino e que o fim está cada vez mais próximo. Se em Holy Moses Ian questiona a sua espiritualidade, em This Is A Breakdown esta abertura aos ouvintes fortemente confessional, que plasma o receio do colapso final. atinge o auge melancólico e auto reflexivo.
Se há quem ainda persista em olhar para os Echo And The Bunnymen como uma dupla de dinossauros que não soube quando parar e que vive do circuito da nostalgia, eles insistem em desmentir esses arautos da desgraça mostrando uma incrível capacidade para ainda criar alguns momentos de puro brilhantismo dentro de toda a adversidade que tem pautado a carreira do grupo. Meteorites é um dos melhores disco da nova vida dos Echo And The Bunnymen e apesar das letras sombrias e cheias de fatalidade negativa e do evidente desgaste dos músicos, há aqui algumas canções e melodias que conquistam e que não envergonham o enorme legado do grupo. Espero que aprecies a sugestão...
01. Meteorites
02. Holy Moses
03. Constantinople
04. Is This A Breakdown?
05. Grapes Upon The Vine
06. Lovers On The Run
07. Burn It Down
08. Explosions
09. Market Town
10. New Horizons
Lançado no passado dia vinte ecinco de outubro pela Bureau B, Tomorrow Is Another Day é um dos mais interessantes discos que chegou à minha redação, até pela sonoridade singular, pouco habitual no blogue. O disco é da autoria do projeto Ulrich Schnauss & Mark Peters que, conforme o nome indica, resulta da colaboração de dois músicos que dessa forma deram origem a uma dupla de pop eletrónica.
Ulrich Schnauss nasceu em Kiel, no litoral norte de Alemanha, em 1977 e começou por destacar-se no cenário drum n'bass da Berlim dos anos noventa, tendo integrado os projetos A Long Way to Fall e A Strangely Isolated Place. Mark Peters é um britânico nascido em 1975 , natural de Liverpool e um dos membros da banda Engineers. Schnauss juntou-se aos Engineers em 2010 como teclista e a partir daí nasceu uma forte amizade entre estes dois músicos, que começaram a explorar juntos algumas vertentes mais instrumentais do cenário indie pop e eletrónico que sempre norteou o processo de criação melódica de ambos.
Tomorrow Is Another Day é já o segundo disco desta parceria que começou com Underrated Silence e o trabalho onde os dois integrantes aprimoram a forma como exploram paisagens sonoras expressionistas, através das teclas de Schnauss e a guitarra de Peters, as grandes referências instrumentais neste processo de justaposição de vários elementos sonoros.
Das Volk Hat Keine Seele é o grande destaque de Tomorrow Is Another Day, um trabalho produzido pelo próprio Schnauss e onde quase todos os temas sáo apenas instrumentais. É o disco que consolida a parceria da maturidade que a mesma já demonstra, um trabalho onde o diálogo feliz e profícuo entre o contraste das preferências sonoras da dupla melhor se sublima e onde se destaca a emoção com que a música criada por ambos consegue transportar bonitos sentimentos.
Há uma forte dinâmica criativa no seio deste projeto e apesar das diferentes origens musicais, nenhum estilo musical domina o outro e o efeito é o de duas vozes igualmente magistrais numa conversa coerente celebrando a natureza dinâmica da combinação instrumental e explorando um novo método de abordagem criativa, que permite a concordância e a discordância, por sua vez. Espero que aprecies a sugestão...
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1. Slow Southern Skies
2. Tomorrow Is Another Day
3. Das Volk Hat Keine Seele
4. Inconvenient Truths
5. One Finger And Someone Else's Chords
6. Additional Ghosts
7. Walking With My Eyes Closed
8. Rosmarine
9. Bound By Lies
10. There's Always Tomorrow
Bill Ryder-Jones, antigo guitarrista dos britânicos The Coral, lançou ainda em 2011 um disco temático e bastante afastado da sonoridade típica da banda de pop folk natural de Liverpool. Já em 2009 Ryder-Jones tinha composto quatro canções para Leave Taking, um filme realizado por Laurence Easeman e que foram editadas no EP A Leave Taking Soundtrack, lançado pela Double Six Records, subsidiária da Domino. Bill já tinha também participado no EP Submarine, da autoria de Alex Turner, vocalista dos Arctic Monkeys e que partilhei em maio do ano passado.

If..., lançado pela mesma, é inspirado na obra do italiano Calvino If On a Winter's Night a Traveller e a única coisa que tem relacionada com Liverpool é a participação especial da Liverpool Philarmonic Orchestra, responsável pelos pianos, percussão, algumas cordas, metais e arranjos orquestrais. A maior parte do álbum é instrumental, apesar de algumas vocalizações ocasionais, com uma fragilidade que recorda os Durutti Column de Vini Reilly.
Nesta banda sonora algumas canções merecem um particular destaque e uma atenta audição. A faixa título que abre o disco é um belo momento romântico a meio caminho entre Ennio Morricone e Lai Francis, que mais tarde se repete em By The Church Of Appolonia, onde a percussão e uma voz solitária feminina evocam imagens de soldados que vagueiam por um campo de batalha. A belíssima Leaning (Star Of Sweden) é uma meditação em movimento, um solo de piano acompanhado por cordas constantes, onde Ryder-Jones canta, no tal tom suave, uma letra bastante enigmática. Le Grand Desordre é um lamento acústico, mas com arranjos grandiosos e carregados de textura e cor. O disco termina com Some Absolute End, canção onde finalmente existe algum travo a rock, com as violas ao lado do piano a darem corpo à instrumentação épica que a sustenta.
Não é essencial conhecer a obra de Calvino para ouvir, entender e deixar-se envolver por este If... carregado de emoções. Ryder-Jones conseguiu nesta estreia a proeza invulgar de escrever uma banda sonora para um romance complexo com sentimento e criatividade, provando que com apenas vinte e oito anos é um autor e compositor que vale a pena levar a sério. Espero que aprecies a sugestão...
01. If…
02. The Reader (Malbork)
03. Leaning (Star Of Sweden)
04. By The Church Of Appolonia
05. Le Grand Desordre
06. Enlace
07. Intersect
08. The Flowers #3 (Lotus)
09. Give Me A Name
10. Some Absolute End
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