Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

Beck – Saw Lightning

Beck - Saw Lightning

Colors ainda não tem dois anos, o single Tarantula, inserido na banda-sonora do filme Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, quatro meses, mas Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, já tem disco novo na forja, um registo initulado Hyperspace, ainda sem data de lançamento anunciada, mas certamente ainda em dois mil e dezanove. Tal frenesim criativo não é inédito neste músico californiano que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos foi habituando, nas últimas três décadas, a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras.

Saw Lightning é o primeiro single divulgado de Hyperspace, pouco mais de quatro minutos de um efervescente festim pop, que sobressai pela luminosidade das cordas de uma viola, por diversos detalhes percurssivos e pelo fuzz intermitente de uma teclado, uma canção que deve muito aquela estética típica do som nova iorquino da década de oitenta, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Confere...


autor stipe07 às 12:08
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Segunda-feira, 18 de Março de 2019

Local Natives – When Am I Gonna Lose You vs Café Amarillo

Cerca de dois anos depois de Sunlit Youth, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso aos discos com Violet Street, um registo produzido por Shawn Everett e que irá ver a luz do dia a vinte e seis de abril, à boleia da Loma Vista Recordings.

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When Am I Gonna Lose You e Café Amarillo são dois singles já divulgados de Violet Street, canções em que a banda de Los Angeles se mantém fiel à sua herança sonora, assente num indie rock que se cruza com a eletrónica, algo muitas vezes feito com texturas monumentais e arranjos deslumbrantes, mas também nunca perdendo de vista melodias suaves e mais intimistas, vectores essenciais do conceito sonoro deste grupo e que se deverão estender pelo alinhamento desse novo registo dos Local Natives. De facto, se o piano e a bateria animada de When Am I Gonna Lose You nos oferecem um ambiente mais deslumbrante, luminoso e efervescente, já em Café Amarillo, nos efeitos de cordas, no registo vocal eminentemente agudo e numa guitarra apenas insinuante, mas muito presente, somos puxados para ambientes mais melancólicos, amenos e nostálgicos.

Ambos os temas já tê direito a vídeo oficial, merecendo especial menção o filme de When Am I Gonna Lose You, que conta com a participação especial da atriz Kate Mara, sendo dirigido por Van Alpert. Confere os dois singles...

Local Natives - When Am I Gonna Lose You - Café Amarillo

01. When Am I Gonna Lose You
02. Café Amarillo


autor stipe07 às 18:35
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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2019

Cass McCombs – Tip Of The Sphere

Natural de Los Angeles, na Califórnia, Cass Mccombs é um dos mais notáveis intérpretes do folk rock norte americano e está de regresso aos discos com Tip Of The Sphere, o novo tomo discográfico da sua já extensa e notável carreira. Refiro-me a um alinhamento de onze canções, que viram a luz a oito de fevereiro último e sucedem ao excelente Mangy Love (2016), sendo o segundo álbum do músico abrigado pela ANTI- Records.

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No antecessor Mangy Love foi-nos novamente oferecido o ambiente algo ambivalente a que McCombs nos tem habituado na sua já extensa discografia, feito de sonho e amargura, dois campos lexicais que parecem não se cruzar em nenhum instante nas nossas vidas, mas que na escrita deste músico californiano se entrelaçam insistentemente. Neste Tip Of The Sphere, McCombs manteve essa permissa estilística e continua focado em aproximar-se de modo acessível dos seus ouvintes, algo bem plasmado na visceralidade das guitarras, no furor do baixo e na voz sussurrante de Sleeping Volcanoes e no imenso oceano nostálgico que se espraia perante nós em Estrella e, de um modo mais animado, na psicadélica The Great Pixley Train Robbery, canções abrigadas por alguns dos elementos essenciais daquela folk tipicamente americana que nos transporta para o tradicional jogo de sons e versos que caracterizam este género musical tão específico. E McCombs, ao invés de ser purista oferece de braços abertos esta sua visão contemporânea da folk ao indie rock e à própria eletrónica, não só como se percebe nos temas citados, mas também em Absentee, composição carregada de amargura, mas também de uma interessante dose de bom humor e ironia, à boleia de uma sonoridade simplista, guiada ao piano, porém inebriante, que pula entre suaves exaltações e um oceano de melancolia ilimitada. Depois, temas como a intimista Real Life, que segue esta linha autoral bem definida com rigidez, mostrando-nos um romântico inveterado, especialista em musicar lamentos e amores que não deram certo e o andamento rugoso e contemplativo da fumarenta Sidewalk Bop After Suicide, deixam-nos convencidos da excelência de um disco que mantém, em todo o alinhamento, uma fluidez agradável e inegavelmente marcante.

Tip Of The Sphere é, em suma, uma formidável sequência de composições onde tudo aquilo que atrai e influencia Cass McCombs é densamente compactado, com enorme mestria e um evidente bom gosto, num artista que longe de se abrigar apenas à sombra de canções melódicas convencionais, procura, disco após disco, reforçar o seu historial sonoro com um brilho raro que entronca, basicamente, na simplicidade com que se aventura na sua própria imaginação e numa indisfarcável devoção aos autores clássicos da América que o viu nascer e onde cabem, numa ténue fronteira, todos os sonhos, mas também diferentes angústias. Espero que aprecies a sugestão...

Cass McCombs - Tip Of The Sphere

01. I Followed The River South To What
02. The Great Pixley Train Robbery
03. Estrella
04. Absentee
05. Real Life
06. Sleeping Volcanoes
07. Sidewalk Bop After Suicide
08. Prayer For Another Day
09. American Canyon Sutra
10. Tying Up Loose Ends
11. Rounder

 


autor stipe07 às 21:36
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Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

Beck – Tarantula

Beck - Tarantula

Quando nos últimos dias foram conhecidas as nomeações para edição deste ano dos Óscares, o filme Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, que também o produziu, co-editou e cinematografou e protagonizado por Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Marco Graf, Daniela Demesa, Enoc Leaño e Daniel Valtierra, tornou-se, desde logo, num nome de peso no quadro final de nomeados, com as suas dez nomeações, entre elas as de Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original e Melhor Atriz, que o colocam na pole position para ser o grande vencedor da edição deste ano dos prémios de cinema de Hollywood. Curiosamente, ou talvez não, Roma não foi nomeado para a estatueta da melhor banda sonoroa original, exatamente porque as canções que escutamos durante o filme não são originais criados propositadamente para o drama.

Seja como for, ultimamente alguns artistas têm criado e revisitado temas inspirados no argumento de Roma, com When I Was Older, de Billie Eilish, a ser um desses casos. E, no seguimento destas recriações sonoras, a Sony prepara-se para  lançar um álbum intitulado Music Inspired By The Film Roma, uma compilação que além de conter essa composição de Eilish, também conta com contributos de, entre outros, Patti Smith, El-P, Wilder Zoby, Laura Marling, DJ Shadow, Ibeyi, UNKLE e Beck que, para este alinhamento, recriou um clássico de synth pop de mil novecentos e oitenta e três, intitulado Tarantula, da autoria dos Colourbox.

O original com trinta e seis anos é um tratado de reggae new wave com uma toada eminentemente contemplativa, onde sobressai o baixo de Jason Falkner. Na cover de Beck, onde se escutam nos coros as vozes de Leslie Feist e Alex Lilly, foi mantida a essência do original, sem o artista deixar de lhe dar o seu cunho pessoal, num resultado final que ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop atual, e onde é indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas muito presentes na herança do músico natural de Los Angeles. Confere...


autor stipe07 às 12:33
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2018

The Dodos – Certainty Waves

Os The Dodos de Meric Long e Logan Kroeber já têm sucessor para Individ (2015). O novo álbum da dupla de São Francisco chama-se Certainty Waves, foi produzido pelo próprio Meric Long e viu a luz do dia através da Polyvinyl Records. Nos últimos três anos, os The Dodos apenas deram dois sinais de vida; a participação com o tema Mirror Fake na compilação Philia: Artists Rise Against Islamophobia e quando revelaram uma cover de Never Meant, um original dos American Football, inserida na compilação que marcou o vigésimo aniversário da Polyvinyl. Individ foi um dos discos mais escutados na redação fixa e móvel de Man On The Moon durante estes últimos três anos e impressionou, seduziu e conquistou, nas suas repetidas e sempre dedicadas e aprazíveis audições, razão pela qual este sucessor está a ser aguardado por cá com enorme expetativa.

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Registo fértil num casamento feliz entre as cordas, os teclados e a percussão, elementos que conjuram entre si na exploração de um som amplo, épico e alongado, através do abraço constante entre dois músicos que criam melhor que ninguém atmosferas sonoras verdadeiramente nostálgicas, sedutoras e hipnotizantes, Certainty Waves está coberto, do início ao fim, por um manto de epicidade bastante vincado. As canções sucedem-se em catadupa e, uma após outra, somos bombardeados por luxuriantes paisagens sonoras, impregnadas de notáveis arranjos, que afastam cada vez mais a dupla da toada folk que marcou os seus primeiros trabalhos, em deterimento de uma filosofia interpretativa que dá cada vez maior importância ao sintético e à tecnologia. Apenas Center Of, por sinal um dos melhores momentos do registo, entronca na herança mais genuína dos The Dodos, onde as cordas eram líderes incontestáveis no processo de criação musical, com as guitarras e a percurssão de 3WW a aproximarem-se também, mas de forma menos objetiva, desses aúreos tempos do grupo. Curiosamente, Forum, o primeiro tema divulgado de Certainty Waves, assentando num deambulante efeito strokiano de uma guitarra e no reverb da mesma, mas, principalmente, no cariz épico de uma melodia que não dispensa teclas efusivas, uma bateria incessante e trompetes nos arranjos, terá sido uma escolha acertada para revelar as novas diretrizes do projeto, demonstradas com notável lucidez também na pop oitocentista que exala de Sort Of.

Disco pleno de personalidade, com uma produção cuidada e muito aguardado por cá, como já referi, Certainty Waves tem alma e caráter, força e uma positividade contagiante. Os The Dodos dão neste alinhamento um passo evolutivo importante na carreira, a carecer de aprimoração em próximos lançamentos, sem deixarem de se manter fieis aos seus instintos mais primários, que exigem a constante quebra de estruturas e padrões e a fuga a categorizações que balizem em excesso o adn do projeto. Espero que aprecies a sugestão...

The Dodos - Certainty Waves

01. Forum
02. IF
03. Coughing
04. Center Of
05. SW3
06. Excess
07. Ono Fashion
08. Sort Of
09. Dial Tone


autor stipe07 às 17:20
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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2018

Papercuts - Parallel Universe Blues

Quatro anos depois do excelente Life Among The Savages, os Papercuts estão de regresso às luzes da ribalta com Parallel Universe Blues, dez canções que viram a luz do dia a dezanove de outubro, à boleia da Slumberland Records, a nova etiqueta deste projeto encabeçado por Jason Robert Quever e David Enos e oriundo de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos da América.

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Sexto disco do cardápio dos Papercuts e primeiro na Slumberland, Parallel Universe Blues contém um alinhamento com canções assentes no cruzamento feliz entre melodia e voz, com a escolha assertiva dos arranjos a nunca ofuscar o brilho que as cordas sempre tiveram no catálogo dos Papercuts. Esta é, de facto, uma nuance fundamental deste novo registo do projeto que, tematicamente, reflete a mudança recente de Jason Quever de São Francisco para Los Angeles.

O manto de epicidade que cobre a monumentalidade de Laughing Man e, em Sing To Me Candy, o hipnótico riff de guitarra distorcido e o modo como se faz acompanhar por alguns arranjos sintéticos, onde não falta uma componente lo fi e ruidosa, são boas portas de entrada para a compreensão clara deste universo sonoro dos Papercuts, um território de experimentações sonoras que dá bastante ênfase às cordas, mas que não descura a importância que o sintético tem na construção de melodias tremendamente adocicadas e com um travo lisérgico algo incomum no panorama alternativo atual. Escuta-se também o single How To Quit Smoking, o ritmo frenético de Walk Backwards e, num registo mais contemplativo, a melancolia que exala do dedilhar das cordas de All Along St. Mary's e percebe-se esta clara duplicidade e o modo como a mesma está impregnada de diversos detalhes preciosos que ajudam a conferir uma tonalidade refrescante e inédita a um disco cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproxima do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Papercuts - Parallel Universe Blues

01. Mattress On The Floor
02. Laughing Man
03. How To Quit Smoking
04. Sing To Me Candy
05. Clean Living
06. Kathleen Says
07. Walk Backwards
08. All Along St. Mary’s
09. Waking Up


autor stipe07 às 21:13
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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018

Kurt Vile – Bottle It In

Apesar da curiosa colaboração o ano passado com Courtney Barnett que resultou no excelente registo Lotta Sea Lice, a verdade é que depois de ter lançado Smoke Ring For My Halo, no início de dois mil e onze e Wakin On A Pretty Daze dois anos depois, Kurt Vile não deu mais sinais de vida depois de b’lieve i’m goin down…, álbum que viu a luz do dia a vinte e cinco de setembro de dois mil e quinze por intermédio da Matador Records e o sexto da carreira deste músico que descende da melhor escola indie rock norte americana, quer através da forma como canta, quer nos trilhos sónicos da guitarra elétrica. Finalmente, três anos depois desse excelente disco, Kurt Vile volta a lançar um novo alinhamento intitulado Bottle It In, o sétimo da carreira, treze temas gravados em várias cidades norte-americanas e finalizados com o produtor Shawn Everett nos estúdios Beer Hole em Los Angeles, contando com a participação especial de nomes tão notáveis como Kim Gordon, Cass McCombs, Stella Mozgawa e Mary Lattimore.

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Disco que abre com Loading Zones, uma composição repleta de ironia que se debruça sobre a experiência pessoal de Kurt Vile relativamente às estratégias que costuma usar para estacionar sem pagar em Filadélfia, a sua terra natal, Bottle It In é um registo que, no seu todo, sonoramente, obedece à tal herança do rock mais genuíno, com canções conduzidas por cordas elétricas e acústicas inspiradas, a criarem um disco com um resultado final bastante fluído e intenso. Quanto à vertente temática, conhecer a fundo Bottle It In é entrar em contacto com as profundezas da mente de Vile, já que este é um disco bastante reflexivo e onde o autor revela muito de si.

É inevitável escutar-se canções como Yeah Bones ou Cold Was The Wind e não se concluir que, mesmo que Vile não o deseje, Bottle It In está cheio de poemas com uma elevada componente biográfica, que nos permitem entender melhor o âmago do autor, com a curiosidade de o fazermos através de tudo aquilo que de mais transcendental e lisérgico tem sempre a composição e a criação musical. Se Kurt Vile despe-se logo em Loading Zones do modo humorístico que já descrevi e se em One Trick Ponies ele parece gozar com alguns dos seus demónios pessoais, em Bassackwards, por exemplo, o tom é bastante mais sério, à boleia de um tratado folk rock psicadélico divagante, que nos apresenta um Vile algo confuso, resignado e até distante, como se deambulasse em busca de algo inexistente (The sun went down, and I couldn’t find another one… for a while).

O grande trunfo de Bottle It In é mesmo esta dicotomia estilística sonora e o modo como ela entronca numa mesma filosofia, a da auto-descoberta. As canções sucedem-se sem pressa e muitas vezes sem se perceber se o autor está mais precoupado em comunicar com o ouvinte ou em efetuar um monólogo algo divagante e nem sempre lúcido e consistente. Independentemente de toda esta trama, parece-me conseunsual que esta sonoridade descomprometida e apimentada com pequenos delírios acústicos e elétricos será bem capaz de oferecer ao autor um lugar de destaque no que concerne aos álbuns mais influentes, inspirados e acolhedores deste ano.

De facto, Bottle It In parece ser, por cá, a banda sonora ideal para aquecer os dias mais tristonhos e sombrios que se aproximam, mas também já serve para contemplarmos como serenidade o ocaso de um verão algo frenético e que para muitos não ficará gravado pelos melhores motivos. Mesmo sendo um registo que oferece ao ouvinte diferentes perspetivas sobre a realidade sociológica e psicológica que abriga o autor, é também um álbum sobre o presente, a velhice, o isolamento, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, em suma, sobre a inquietação sentimental, ou seja, o existencialismo e as perceções humanas comuns a todos nós. Espero que aprecies a sugestão...

Kurt Vile - Bottle It In

01. Loading Zones
02. Hysteria
03. Yeah Bones
04. Bassackwards
05. One Trick Ponies
06. Rollin With The Flow
07. Check Baby
08. Bottle It In
09. Mutinies
10. Come Again
11. Cold Was The Wind
12. Skinny Mini
13. (Bottle Back)


autor stipe07 às 17:20
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Terça-feira, 2 de Outubro de 2018

Milo Greene - Adult Contemporary

Os norte-americanos Milo Greene de Robbie Arnett, Graham Fink e Marlana Sheetz são um dos projetos mais interessantes da indie atual, exímios intérpretes daquela pop retro cheia de charme e com uma filosofia vintage sempre muito vincada, não só na sonoridade mas também na componente visual do projeto. Começaram por ganhar fama devido aos músicos trocarem constantemente de instrumento durante os concertos e estrearam-se nos discos em dois mil e doze com um homónimo que chamou logo a atenção da crítica. Três anos depois, no sempre difícil segundo álbum, o registo intitulado Control marcou uma inflexão sonora no grupo, que deixou para trás, nessa altura, a sonoridade eminentemente folk da estreia e os Milo Greene conseguiram alargar ainda mais a sua base de fãs. Agora, três anos depois de Control, o trio de Los Angeles, na Califórnia, está de regresso com Adult Contemporary, doze canções produzidas por Bill Reynolds (Band Of Horses, Lissie), com a chancela da Nettwerk Records e que mantêm o projeto na senda de uma pop com uma elevada toada ambiental mas também dançante, à imagem do antecessor Control.

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Adult Contemporary é o disco mais eclético, abrangente e arriscado dos Milo Greene. De facto, tendo a pop em ponto de mira, contém um alinhamento que também capta algumas das principais caraterísticas da eletrónica ambiental, exemplarmente replicada em Be Good To Me, mas também da chamada art pop, belíssima em Drive. Mas um bom tema para nos fazer perceber toda esta espécie de amálgama, nem sempre claramente percetível, ou seja, geralmente bem acomodada e assimilada, é Young At Heart, o single de apresentação do registo, um exuberante tema conduzido por um baixo pulsante e sintetizadores planantes que originaram uma composição com uma elevada toada dançante e com fortes raízes no imaginário oitocentista. O próprio vídeo da canção, dirigido por Nicolas Harvard, é uma combinação feliz entre a postura vocal particularmente atraente de Marlana Sheetz e filmagens de arquivo de alguns icones de uma época que foi sonoramente bastante marcante, particularmente para a minha geração, neste caso Sting e Bruce Springsteen e que, pelos vistos, também marcaram profundamente o imaginário deste grupo.

Familiaridade e liberdade acabam por ser duas sensações que saltam ao ouvinte durante a audição deste alinhamento, não só porque abundam os refrões aditivos, mas principalmente porque se percebe que o trio não se deixou amarrar a nenhum género em específico para recriar uma trama sonora com uma componente fortemente cinematográfica, no modo como nos suscita a lembrança nostálgica de alguns momentos que marcaram a nossa juventude. O final épico de Worth The Waith seria a banda sonora perfeita para ilustrar um final de tarde ao portão de um liceu de esquina, Please Don't recorda-nos aquele amor inocente que nunca foi correspondido e Wolves traz-nos à memória toda a força que sentíamos naqueles anos em que nos sentíamos imparáveis e inquebráveis. Espero que aprecies a sugestão...

Milo Greene - Adult Contemporary

01. Easy Listening Pt. 1
02. Be Good To Me
03. Young At Heart
04. Drive
05. Please Don’t
06. Slow
07. Move
08. Runaway Kind
09. Easy Listening Pt. 2
10. Your Eyes
11. Wolves
12. Worth The Wait

 


autor stipe07 às 19:08
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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

Massage – Oh Boy

Sedeados em Los Angeles, na Califórnia e liderados por Alex Naidus, membro dos Pains Of Being Pure At Heart, os Massage foram crescendo e ganhando vida na internet. Alex começou a tocar e a escrever algumas canções paralelamente à sua atividade nos Pains Of Being Pure At Heart com o designer e baixista Michael Felix, amigo de infância de Alex e à dupla juntaram-se, entretanto, o jornalista Andrew Romano, David Rager e Gabi Ferrer, responsável pelas teclas e pela composição melódica. Estrearam-se há dois anos com o EP Lydia e lançaram o primeiro longa duração, à boleia da Tear Jerk Records, no último verão, um disco intitulado Oh Boy, gravado com a ajuda de Jason Quever dos Papercuts.

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Quase meio século após o seu aparecimento, a sonoridade tipicamente indie e universitária continua a soar mais fresca que nunca, especialmente quando bandas como os Massage surgem no radar e, logo na estreia, causam furor devido a discos do calibre deste Oh Boy, doze canções que se esfumam em pouco mais de meia hora, mas que não deixam indiferente o ouvinte devido a um alinhamento que nos leva facilmente e num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, à boleia de uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, particularmente luminoso e que acaba por se tornar até viciante. E a responsabilidade desta tela impressiva é uma guitarra com um timbre metálico muito caraterístico que serve de base melódica às canções, acompanhada por um baixo exemplar no modo como se alia à guitarra para marcar as várias nuances rítmicas de temas geralmente acelerados, mas sem serem frenéticos, não deixando de se espraiar pelos nossos ouvidos algo preguiçosamente, mesmo que estejamos a falar de composições curtas, como já referi, e com um ritmo algo intenso.

Catapultado pela ligeireza subtil de Lydia, pelo cariz intimista do single homónimo, pelo clima lisérgico de Couldn't Care Less, pelo piscar de olhos a ambientes mais roqueiros em Under, ou pelo bom gosto dos acordes de Crying Out Loud, Oh Boy é, em suma, um embrulho sonoro com um têmpero lo fi muito próprio, um salutar indie rock com leves pitadas de surf pop, agregado com um espírito vintage marcadamente oitocentista e que se escuta de um só trago, enquanto sacia o nosso desejo de ouvir algo descomplicado mas que deixe uma marca impressiva firme e de simples codificação. É um daqueles discos que esconde a sua complexidade na simplicidade e estas boas canções mostram como é bonito quando o rock pode ser básico e ao mesmo tempo encantador, divertido e melancólico, sem muito alarde. Espero que aprecies a sugestão...

Massage - Oh Boy

01. Lydia
02. Oh Boy
03. Gee
04. Kevin’s Coming Over
05. Couldn’t Care Less
06. Under
07. Breaking Up
08. Crying Out Loud
09. Cleaners
10. Liar
11. I’m Trying
12. At Your Door


autor stipe07 às 16:14
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Sábado, 8 de Setembro de 2018

Milo Greene – Young At Heart

Milo Greene - Young At Heart

Os norte-americanos Milo Greene de Robbie Arnett, Graham Fink r Marlana Sheetz são um dos projetos mais interessantes da indie atual, exímios intérpretes daquela pop retro cheia de charme e com uma filosofia vintage sempre muito vincada, não só na sonoridade mas também na componente visual do projeto. Estrearam-se nos discos em dois mil e doze com um homónimo que chamou logo a atenção da crítica e três anos depois, no sempre difícil segundo disco, um registo intitulado Control, confirmaram todas as credenciais do registo inicial e conseguiram alargar ainda mais a base de fãs do trio.

Agora, três anos depois de Control, o trio de Los Angeles, na Califórnia, está de regresso com Adult Contemporary, doze canções produzidas por Bill Reynolds (Band Of Horses, Lissie), com a chancela da Nettwerk Records e que serão alvo de revisão cuidada neste espaço dentro de dias. Para já, e como aperitivo, sugiro Young At Heart, o single de apresentação do registo, um exuberante tema conduzido por um baixo pulsante e sintetizadores planantes que originaram uma composição que sabe a uma espécie de punk pop com uma elevada toada dançante e com fortes raízes no imaginário oitocentista. O próprio vídeo da canção, dirigido por Nicolas Harvard, é uma combinação feliz entre a postura vocal particularmente atraente de Marlana Sheetz e filmagens de arquivo de alguns icones de uma época que foi sonoramente bastante marcante, particularmente para a minha geração, neste caso Sting e Bruce Springsteen. Confere...


autor stipe07 às 18:11
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

El Ten Eleven - Banker's Hill

Kristian Dunn e Tim Fogarty são a dupla que dá vida ao projeto El Ten Eleven, uma banda com origem em Los Angeles e um nome fundamental do chamado post rock. É uma dupla que desde dois mil e dois vem direcionando o seu processo de criação sonora dentro de uma psicadelia rock ampla, progressiva e elaborada, através de um som firme e definido e onde a bateria e a guitarra assumem uma função de controle simbiótico, nunca se sobrepondo demasiado um instrumento ao outro, com Banker's Hill, o mais recente disco do grupo, a encarnar toda esta trama com elevada bitola qualitativa, através de um espírito ecoante e esvoaçante, transversal às nove canções do seu alinhamento e que, sendo devidamente degustado, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

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Começa-se a escutar com a merecida devoção Banker's Hill e percebe-se, no imediato, o superior grau de cumplicidade dos dois músicos que esculpem, com denodo, composições que são verdadeiras telas sonoras que exigem demorada contemplação para serem devidamente saboreadas e entendidas, tendo em conta o espetro sonoro que baliza alguns dos cânones fundamentais da história do rock contemporâneo que guiam o percurso musical destes El Ten Eleven.

Assim, logo no ambiente etéreo e imersivo criado pelos riffs planantes da guitarra de Three And A Half High And Rising ficamos esclarecidos acerca da constante omnipresença daquele experimentalismo rock que ditou a sua lei nos grandiosos anos setenta e da salutar psicadelia instrumental e melódica que tem vindo a definir alguns dos nomes fundamentais desse género e que hoje está a ser replicado com enorme sucesso, principalmente do lado de lá do atlântico. Depois, o baixo vincado, a bateria elaborada e a distorção agreste de Phenomenal Problems, assim como a majestosidade das guitarras que conduzem We Don't Have A Sail But We Have A Rudder e a direção delicada e ao mesmo tempo mais esculpida e etérea, que a banda assume em You Are Enough e o acabamento límpido e minimalista, mas fortemente sentimental e profundo de Gyroscopic Precession, além de arrancarem o máximo daquilo que as guitarras conseguem enfatizar ao nível dos efeitos e das distorções hipnóticas, acabam também por ser, cada tema à sua maneira, um piscar de olhos insinuante a um krautrock que, cruzado com um subtil minimalismo eletrónico, provam o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco que parece estar sempre em ritmo ascendente e que acaba por ter o seu momento maior, na minha opinião, no tema homónimo, pouco mais de seis minutos de altos e baixos, mudanças ritmicas e melódicas com um travo sempre nostálgico e até, em alguns instantes, algo inquietante, que parece querer retratar fielmente nada mais do que o simples ocaso.

Disco assertivo e onde os El Ten Eleven utilizaram todas as ferramentas e fórmulas necessárias para a criação de algo verdadeiramente único e imponente, Banker's Hill é marcado pela proximidade entre as canções que faz-se de uma instrumentação focada em estruturas técnicas particularmente elaboradas, que ampliam claramente os horizontes e os limites que vão sendo traçados por uma dupla que criou neste alinhamento mais uma fornada de instrumentais que têm tudo para tornarem-se em verdadeiros clássicos do chamado rock experimental. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:08
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2018

Jon Hopkins - Singularity

Singularity é o quinto álbum de estúdio do músico, produtor, DJ e pianista inglês Jon Hopkins, um alinhamento lançado na passada primavera pela Domino Records e que sucedendo ao aclamado registo Immunity, consolida a mestria deste músico como escultor exímio de composições sonoras com elevado travo tridimensional, uma eletronica de cariz eminentemente ambiental, onde reina a complexidade do sintético.

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Seguidor confesso de Brian Eno, mas também a seguir o rasto de nomes tão importantes como Four Tet ou os Boards of Canada, Jon Hopkins oferece-nos em Singularity um verdadeiro banquete de revisitação de um período da eletrónica que foi praticamente marcante, as décadas de setenta e de oitenta do século passado, com o clima progressivo da primeira e uma faceta mais pop da segunda a serem aqui fundidas, muitas vezes e modo quase impercetivel, como se percebe logo na espiral crescente do volumoso tema homónimo que abre o disco, uma canção onde a um trecho melódico constante, vão sendo adicionados efeitos cada vez mais rugosos e distorcidos. Depois, no psicadelismo abrasivo de Emerald Rush, uma canção construída através de uma sóbria sobreposição de diferentes camadas de batidas e efeitos, com um resultado final praticularmente cósmico e etéreo, somos transportados para um território insinuante no modo como nos convida à dança e à inquietude física e mental.

Após este início promissor, Singularity entra num período mais climático e experimental, com Hopkins a olhar sempre para o tal passado de modo a criar na nossa mente uma sensação de constante incerteza, já que nunca sabemos muito bem como o registo vai continuar a progredir. Temas como Neon Pattern Drum, um banquete percussivo muito heterógeneo e repleto de efeitos curiosos, Everything Connected, uma fusão de techno com post rock repleta de colagens e variações rítmicas, o minimalismo hipnótico de Feel First Life e de COSM e o piano intrigante que sustenta Echo Dissolve, são composições que, fazendo-nos muitas vezes flutuar e divagar por um universo que será sempre oculto para quem não crê no poder da música como indutor de estados de alma e terapeuta emocional, contêm uma leveza rara e mágica só possível de ser entendida por quem se deixar enlear por esta espécie de filosofia meditativa.

Complexo, às vezes contemplativo e vagaroso, mas também muitas vezes extasiante, tridimensional e frenético, Singularity é um disco onde a clareza de ideias e o torpor, o desânimo e a euforia também se misturam, através de um alinhamento ondulante que, no seu todo, constitui uma viagem impressiva pela mente de um músico que quer que este disco seja olhado como uma experiencia transcendental, ou seja, é um álbum que deve ser aborvido como um todo e escutado do início ao fim, sem quebras, porque esse é o único modo que, na sua óptica, nos permite retirar dele toda a sua energia e decifrar todo o seu potencial comunicativo. Espero que aprecies a sugestão....


autor stipe07 às 19:07
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

Andrew Belle – Fade Into You

Andrew Belle - Fade Into You

Nascido em Chicago, no Illinois, Andrew Belle lançou o ano passado Dive Deep, um disco com canções escritas e compostas por um dos intérpretes mais importantes da indie pop atual no lado de lá do atlântico, um artista que conhece, com minúcia e destreza, como replicar um ambiente sonoro multicolorido e espetral, sendo claramente influenciado pela paisagem multicultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente. Agora, quase um ano depois do lançamento desse excelente registo, Andrew Belle acaba de revelar uma versão do clássico Fade Into You dos Mazzy Star.

Com um clima eminentemente etéreo e fortemente climático, a cover preserva a filosofia de um tema que fala sobre a necessidade que todos aqueles que vivem uma relação têm de se conectar do modo o mais empático possível com o outro, numa letra carregada de nostalgia e melancolia e à qual Belle, sem colocar em causa a estrutura meldódica do original, adicionou detalhes sonoros delicados e introspetivos que nos levam numa viagem bastante impressiva por um mundo muito peculiar e intimista. Confere...


autor stipe07 às 12:16
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2018

Albert Hammond Jr. – Francis Trouble

Constantemente a biografia de inúmeros músicos está recheada de experiências e eventos inéditos e até algo surreais que acabam por justificar, em certa medida, uma opção, que pode ser precoce ou tardia, consciente ou instintiva, por um percurso profissional e de vida nas artes e mais concretamente pela carreira musical, até como modo de exorcizar e refletir sobre tais factos de vida incomuns e que fogem amiúde da dita normalidade. Muitas dessas experiências são mesmo transcendentais ou, no mínimo, causadoras de estigmas, recalcamentos, depressões, traumas, fobias e desgostos, que a música tratará de revelar ao grande público e de servir, em simultâneo, de veículo de cura dos mesmos. Albert Hammond Jr., músico norte americano e uma das faces mais visíveis dos The Strokes, acaba de editar um novo registo de originais, o quarto da sua carreira a solo, que cataliza no seu seio um evento que é, certamente, dos mais surreais que se pode imaginar. Em 1979, a sua mãe abortou o seu irmão gémeo Francis mas Albert sobreviveu. Quando nasceu, alguns meses depois, trouxe consigo um lembrete solitário do seu irmão com quem compartilhava o útero, uma unha. Albert sempre soube do irmão, mas só ficou a conhecer este último detalhe há pouco tempo, tendo o mesmo servido de inspiração para a composição das dez canções deste Francis Trouble, um trabalho onde Albert procura encontrar a sua persona perdida em Francis e, ao mesmo tempo que homenageia o irmão, tornar-se um pouco mais ele, como se fosse uma espécie de alter-ego.

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Do som crú e incisivo de Francis Trouble, mas ao mesmo tempo carregado de imagens sugestivas e com forte cariz impressivo, depreende-se que há um enorme apego do autor ao evento descrito, transbordando em temas como Screamer, por exemplo, um sentimento de esperança algo romântico de que ele possa, à sua maneira, trazer de volta, nem que seja espiritualmente, a sua outra metade (I saw you as someone I wanted to trust, I saw you as everyone I wanted to f**k), mas também uma ideia de contemplação e admiração, audível em Strangers, por aquilo que é a relação entre ambos que não deixa de existir mesmo na ausência física de uma das partes (How strange the feeling to be strangers, Who strain for feeling), 

Mesmo inspirado por uma situação que muitos de nós poderiamos considerar trágica e triste, Albert consegue criar composições banhadas por um indie rock em muitos aspectos luminoso e radiante, podendo este ser até, imagine-se,  o disco mais divertido da carreira do autor. A energia contagiante das guitarras de Muted Beatings e o travo vintage da já referida Strangers e de Far Away Truths, são bons exemplos de um enredo que teria à partida todos os ingredientes para incubar uma toada sonora algo negra e depressiva, mas aquilo que se escuta são melodias alegres, adornadas por arranjos que oscilando entre o delicado, o luminoso e o contagiante nos deixam facilmente com um sorriso no rosto e com vontade de abanar um pouco a anca.

Ao longo da sua carreira, Albert serviu-de da guitarra para vestir diferentes personalidades, nomeadamente a declaradamente cool que interpreta nos The Strokes, a que deu vida à sensibilidade indie de Yours To Keep (2006), o seu disco de estreia e agora a simultaneamente sincera e complexa de Francis Trouble, um álbum que, como referi acima, é crú e incisivo, mas também consciente e profundo, materializando na perfeições os intentos do autor quando o idealizou e toda a filosofica subjacente ao mesmo. Escutá-lo atentamente é submeter-se a um exercício de descoberta particularmente emotivo e esclarecedor dos principais alicerces da personalidadce deste músico ímpar. Espero que aprecies a sugestão...

Albert Hammond Jr. - Francis Trouble

01. DVSL
02. Far Away Truths
03. Muted Beatings
04. Set To Attack
05. Tea For Two
06. Stop And Go
07. Screamer
08. Rocky’s Late Night
09. Strangers
10. Harder, Harder, Harder


autor stipe07 às 13:43
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018

First Aid Kit – Ruins

A Suécia foi sempre berço de projetos graciosos e embalados por doces linhas instrumentais, letras mágicas e vocalistas dotados de vozes hipnoticamente suaves. Hoje regresso à dupla feminina First Aid Kit, formada pelas manas Johanna e Klara Söderberg e talvez uma das melhores personificações de toda esta subtileza e amenas sensações que percorrem a produção musical da fervilhante Estocolmo. Seis anos depois do excelente The Lion’s Roar, o sempre difícil segundo disco, e quase quatro do também apetecível Stay Gold, elas estão de regresso com Ruins, dez temas que mantêm a força de uma pop distinta, quase sempre acondicionada em cenários melódicos eminentemente acústicos e onde algumas das principais linhas orientadoras da country e da folk norte-americana têm papel determinante. O facto de o disco ter sido gravado durante um período de clausura na cidade dos anjos em plena costa oeste dos Estados Unidos da América, além de potenciar esse cunho sonoro fortemente identitário relativamente a uma área geográfica bastante específica, também explica o conteúdo lírico de um alinhamento criado por duas artistas nórdicas mas que encontram no outro lado do atlântico o seu oásis inspirador.

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Ao quarto disco as First Aid Kit comprovam que estão no auge da sua maturidade e do crescimento musical, na forma como exploram uma sonoridade sempre sóbria e adulta, que enriquece tremendamente um catálogo sonoro cada vez mais envolvente, climático e tocado pela melancolia. Logo em Rebel Heart, na nuance do efeito da guitarra e no timbre vocal da dupla, percebe-se qual será a trama instrumental do álbum e o elevado nível qualitativo da mesma. E, ao longo do alinhamento, os instantes que provam o referido elevado índice de maturidade são díspares, com o travo emotivo e intimista das teclas de It's A Shame, o charme oculto no odor psicadélico de Distant Star, a cândura da letra do imponente single Fireworks, o travo algo setentista e lisérgico que exala do sereno dedilhar da viola de To Live A Life, canção que seduz e afaga com doçura, a comprovarem toda uma complexidade de abordagens felizes à folk que, numa mistura de força e fragilidade, nas vozes, na letra e no instrumentação, se equilibram sempre de forma vincada e segura.

E já que falámos no registo vocal que tanto impressinou logo na primeira composição, ao longo de Ruins o jogo de vozes entre ambas as protagonistas é, claramente, um dos aspetos que mais sobressai. A produção está melhor do que nunca, com a banda a aperfeiçoar tudo o que já havia mostrado anteriormente, também na componente lírica e sem violar a essência das First Aid Kit, que adoram afogar-se em metáforas sobre o amor, a saudade, a dor e a mudança, no fundo tudo aquilo que tantas vezes nos provoca angústia e que precisa de ser musicalmente desabafado através de uma sonoridade simultaneamente frágil e sensível, mas também segura e equilibrada.

Produzido por Tucker Martine, Ruins é mais um marco fortemente impressivo na carreira deste projeto sueco e acabará por ser um dos melhores álbuns da dupla independentemente da composição do seu catálogo sonoro definitivo, não só pela forma como as duas irmãs apresentam de forma mais sombria e introspetiva a sua visão sobre os temas que as tocam e, principalmente, pelo modo maduro e sincero como tentam conquistar o coração de quem as escuta, usando melodias doces que despertam sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

First Aid Kit - Ruins

01. Rebel Heart
02. It’s A Shame
03. Fireworks
04. Postcard
05. To Live A Life
06. My Wild Sweet Love
07. Distant Star
08. Ruins
09. Hem Of Her Dress
10. Nothing Has To Be True


autor stipe07 às 18:47
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Beck - Colors

Depois de mais de meia década de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com Morning Phase, o décimo segundo trabalho da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, três anos depois desse belo disco, está de regresso com Colors, onze canções que proporcionam mais um novo fôlego na sua carreira, uma espécie de recomeço, depois de nos últimos dois verões ter igualmente surpreendido com dois singles intitulados Dreams e Wow.

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Colors viu a luz do dia a treze de outubro, novamente com o selo Capitol e engane-se quem achar que vai encontrar aqui alguma espécie de continuidade relativamente a Morning Phase. Neste seu novo registo Beck regressa ao trilho da pop mais efervescente, sintética e luminosa, com canções a apelarem às pistas e à criatividade dos remisturadores, como é o caso de Colors, o tema homónimo de abertura e, quase no ocaso, a agitada Up All Night, composição cujas palmas e pausas na batida estão mesmo a pedir um mash-up com um daqueles hinos oitocentistas que todos nós decorámos na adolescência. Depois, ainda nessa toada, surge-nos Dear Life, um tema que sobressai pela luminosidade de um piano e pelo fuzz intermitente de uma guitarra que deve muito aquela estética que além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Beck apenas abranda um pouco no registo já quase no final do alinhamento com Fix Me, uma lindíssima balada onde sobressai um piano que acompanha com mestria aquele efeito mais doce com que o músico costuma adornar a sua voz quando quer transmitir algo mais profundo.

Uma das grandes marcas deste disco é, nitidamente, a riqueza que contém ao nível quer dos arranjos, quer do arsenal instrumental que o autor utiliza para colocar em prática um alinhamento bastante luminoso, agitado e comprometido com os conceitos de festa e diversão. Quer os metais e os loopings sintetizados que circundam a batida inebriante de Seventh Heaven, quer a distorção da guitarra que dá corpo e substância ao rock impulsivo e direto de I'm So Free, fornecem-nos tal evidência comum a dois campos apenas aparentemente opostos, o rock e a eletrónica. E com estas duas canções Beck estabelece também o vasto leque de influências que sempre moldou uma carreira livre de constrangimentos ou de obediência direta a uma determinada bitola sonora mais específica.

Este músico californiano gosta, portanto, de jogar em vários campos e posições e fá-lo com enorme à vontade e sempre com brilho e competência, nunca deixando para trás a guitarra, um dos seus instrumentos de eleição, agora quase sempre eletrificada. O timbre anguloso da mesma a conduzir No Distraction e o efeito mais metálico na já referida Up All Night são dois dos melhores instantes de Colors em que Beck se serve desse instrumento para dar alma e cor aos temas, mas sem fazer dele a principal referência quer da melodia quer do arquétipo sonoro.

O Beck que antes brincava com o sexo (Sexx Laws) ou que gozava com o diabo (Devil's Haircut) sem deixar de em em determinados instantes do seu percurso de fazer uma espécie de ode à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e da country, regressa em Colors a um território sonoro onde também se sente como peixe na água, oferecendo-nos um som intrincado mas cativante e que contém texturas psicadélicas que, simultanemente, nos alegram e nos conduzem à diversão, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Fica claro em Colors que Beck ainda caminha, sofre, ama, decepciona-se, e chora, mas que vive numa fase favorável e animada. Espero que aprecies a sugestão...

Beck - Colors

01. Colors
02. Seventh Heaven
03. I’m So Free
04. Dear Life
05. No Distraction
06. Dreams (Colors Mix)
07. Wow
08. Up All Night
09. Square One
10. Fix Me
11. Dreams


autor stipe07 às 11:32
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

Liars – TFCF

Poucas bandas se transformaram tanto ao longo da última década como o trio de Nova Iorque chamado Liars e formado originalmente por Angus Andrew, Aaron Hemphill e Julian Gross. Deram início à carreira com uma sonoridade muito perto do noise rock, com experimentações semelhantes ao que fora testado pelos Sonic Youth do início de carreira e até com algumas doses de punk dance e aos poucos foram aproximando-se de uma sonoridade mais amena e introspetiva. O que antes era ruído, distorção e gritos desordenados, passou a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que passou a imperar com evidência desde o disco homónimo lançado em 2007. Este toque experimental acabou por se manter e WIXIW (pronuncia-se wish you), em 2012, foi o culminar de uma tríade que começou no tal Liars de 2007 e prosseguiu em Sisterworld (2010). Dois anos depois, em 2014, os Liars voltam a apostar numa inflexão sonora com Mess, um disco que apresentava uma mistura nada anárquica, mas bastante heterogénea de todos os vetores sonoros que orientaram, até então, a carreira do trio, um álbum carregado de batidas, com uma base sonora bastante peculiar e climática e com propostas ora banhadas por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumidas por um teor ambiental denso e complexo.

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Mess acabou por ser o disco da ruptura e da implosão de um trio que se desmoronou no meio da inquietude e do tal caos, feito de três visões bastantes diferentes daquele que deveria ser o rumo sonoro mais consistente dos Liars, um trajeto que após dezassete anos de busca incessante de consensos, acabou por atingir o limite do tolerável. Assim, Angus Andrew vê-se isolado, mas não dá baixa da marca registada Liars, preferindo, com o acordo dos ex colegas, continuar a dar sequência ao universo com esse nome, agora a solo, sendo TFCF, o primeiro lançamento discográfico nesta nova realidade do projeto. 

Os Liars sempre criaram um som muito difícil de definir porque misturam eletrónica com rock alternativo, noise rock, avant garde, post punk e outras sonoridades e a verdade é que não se pode afirmar que tenham produzido dois trabalhos semelhantes em termos de sonoridade. Este conceito de ruptura mantém-se em TFCF, o que talvez prove que Angus acabou por conseguir fazer prevalecer sempre, acima de todos, a sua filosofia, apesar da aparente democraticidade e busca de pontos de equilíbrio, como descrevi.

Composto integralmente por Angus, no seu país de origem, a Austrália, numa ilha ao largo de Sidney, acessível apenas por barco, num clima de auto isolamento claramente imposto, TFCF materializa esta oportunidade de ouro que o músico finalmente teve para explanar livremente  os conceitos artísticos com que mais se identifica, procurando, ao mesmo tempo, revitalizar o som Liars, elevando-o para uma nova escala e paradigma de inedetismo até porque, a primeira impressão que se tem logo após a audição deste álbum é que não há nenhum projeto contemporâneo conhecido que possa ser equiparado estilisticamente ao que é apresentado nestas onze canções. Já agora, é curiosa a explicação de Angus para o artwork do disco. Justifica-o afirmando que durante dezassete anos sentiu-se de certo modo casado com Aaron Hemphill, o seu principal parceiro nesta aventura e o último a abandoná-lo (Depois de Mess os Liars chegaram a ser uma dupla durante algum tempo) e agora que ele o deixou, ficou sozinho, apenas com um vestido de noiva (I felt like I was married to Aaron [Hemphill] creatively, and now that he is gone I am alone in my wedding dress).

TFCF acaba por refletir bastante esta nova conjuntura, até porque Angus não se fez rogado na hora de aproveitar algum material sonoro que estava guardado em bruto para o próximo disco do projeto no formato trio e em que Angus e Aaron tinham chegado a trabalhar em conjunto, apesar de, durante esse brainstorming virtual, um estar em los Angeles e o outro em Berlim. No Help Pamphlet, um dos poucos momentos acústicos do álbum e onde a guitarra é protagonista, é clara nesta realidade, com a letra a referir-se diretamente a Aaron (OK, that’s it. Those are all the songs I really like… I hope that you have a really great break. And I’m thinking of you all the time.)

Olhando um pouco para o restante conteúdo do disco, independentemente da abordagem que é feita em cada canção e que varia imenso, a eletrónica é o fio condutor, quase sempre envolvida numa embalagem minimal, embrulhada com vozes e sintetizadores num registo predominantemente grave e ligeiramente distorcido, que cria uma atmosfera sombria, hipnótica e visceral. O clima algo caótico e lo fi de The Grand Delusional personifica, claramente, uma forma de procurar exorcizar o modo angustiante como Angus olha para a nova realidade com que convive, mas depois, quer nas cordas medievas de Cliché Suite, acompanhadas por arranjos que dão um tema um clima spaghetti curioso, quer na batida pulsante, grave e sensual de Staring At Zero e nos seus detalhes metálicos, assim como nos samples ambientais da climática Face To Face With My Face e no folk punk caliedoscópico de No Tree No Branch, o músico liberta-se um pouco das amarras identitárias e oferece-nos algumas nuances curiosas que deverão projetar um pouco aquele que será futuro sonoro dos Liars. O vigor percurssivo de Coins In My Caged Fist, acompanhado por um sintetizador algo agreste, talvez seja o momento de TFCF que mais nos remeta para o passado, mas de um modo feliz porque é um tema que vai beber à fonte de Drums Not Dead, a obra-prima do grupo.

Disco que personifica, sem rodeios, um estado de (in)consciência muito próprio de um autor que vive num momento crucial da sua existência, quer pessoal quer artística, TFCF é um corpo sonoro cheio de especificidades, que precisa e merece ser apreciado de acordo com as regras que ele próprio define, sem ideias pré-concebidas ou expetativas balizadas, até porque, na minha opinião, poderá vir a ser um marco imprescindível para a descrição futura testamental da marca Liars, pois estou certo que agora, depois de exorcizados os fantasmas e definidas as novas pistas, Angus não vai ficar por aqui e vai finalmente poder mostrar, sem ter que dar explicações ou fazer concessões, aquilo que artisiticamente realmente vale. E parece ser muito! Espero que aprecies a sugestão...

Liars - TFCF

01. The Grand Delusional
02. Cliche Suite
03. Staring At Zero
04. No Help Pamphlet
05. Face To Face With My Face
06. Emblems Of Another Story
07. No Tree No Branch
08. Cred Woes
09. Coins In My Caged Fist
10. Ripe Ripe Rot
11. Crying Fountain


autor stipe07 às 14:51
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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2017

Beck – Dear Life

Beck - Dear Life

Depois de mais de meia década de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com Morning Phase, o décimo segundo trabalho da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, três anos depois desse belo disco, está de regresso com Colors, dez canções que proporcionarão um novo fôlego na sua carreira, uma espécie de recomeço, depois de nos últimos dois verões ter igualmente surpreendido com dois singles intitulados Dreams e Wow.

Colors verá a luz do dia a treze de outubro, com o selo Capitol Records e Dear Life é um dos avanços, um tema que sobressai pela luminosidade de um piano e pelo fuzz intermitente de uma guitarra que deve muito aquela estética que além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Confere...


autor stipe07 às 21:05
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Tashaki Miyaki – The Dream

A vocalista Lucy Miyaki e o guitarrista Tashaki formam o núcleo duro dos Tashaki Miyaki, uma banda oriunda de Los Angeles que navega nas águas turvas e profundas da dream pop de pendor psicadélico e que acaba de se estrear no formato longa duração com The Dream, um lindíssimo tomo de canções patrocinadas pela Metropolis Records, produzido por Paige Stark, misturado por Dan Horne (Cass McCombs, Allah-Las) e que com as participações especiais de Joel Jerome (Cherry Glazerr, La Sera, Dios) e do multi-instrumentista Jon Brion. São canções que nos embalam e incitam de um modo muito particular e lisérgico, já que comprovam o quanto estes Tashaki Miyaki são incomparáveis e mestres na criação de uma atmosfera densa, mas particularmente sensual e hipnótica.

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Com uma sonoridade cada vez mais sóbria e adulta, Lucy e Tashaki criaram em The Dream um catálogo sonoro envolvente, climático e tocado pela melancolia, que atinge o seu auge, na minha opinião, na pop luminosa e pueril de Cool Runnings, uma daquelas canções que se não se embranha no imediato é porque existe algo de errado no nosso âmago no que concerne à capacidade de absorver emoção e fervor. Mas logo em City e, de modo mais vincado, em Girls On T.V., a dupla apresenta uma instrumentação que tem como pano de fundo essencial o clássico rock abarcado pela típica herança da América do Norte, que serve-se de guitarras sobriamente eletrificadas e distorcidas para obter uma mistura sem fronteiras definidas, entre esse grande universo sonoro e o blues, a folk, e, implicitamente, alguns pilares fundamentais da eletrónica ambiental, com o bónus de ser audível, neles a procura de uma sonoridade ainda mais intimista e reservada, como se quisesse replicar-se, no seu todo, com um suspiro algo abafado e o menos expansivo possível.

No inconfundível dedilhar das notas de Anyone But You e na sobriedade dos arranjos de Facts Of Life, conferimos mais dois notáveis exemplos de como se sente neste álbum uma superior carga emotiva. Além disso, a voz adocicada de Lucy, que parece pairar, em praticamente todo o disco, numa frágil nuvem de algodão, faz juz à cândura de uma odisseia poética que transborda fragilidade em todas as sílabas e versos que sustentam as canções. Esta voz, quando em Get It Right replica um registo mais grave sem colocar em causa o elevado pendor lisérgico da cantora, é mais uma manifestação audível e concreta do jogo dual que os Tashaki Miyaki conseguem oferecer ao ouvinte, entre força e fragilidade, dois aspetos que nas vozes, na letra e na instrumentação, se equilibram de forma vincada e segura.

The Dream é, em suma, um compêndio sonoro que surpreende pelo bom gosto como apresenta de forma sombria e introspetiva, mas superiormente frágil e sedutora, a visão dos Tashaki Miyaki sobre alguns temas que sempre tocaram a dupla, mas, principalmente, pela forma madura e sincera como tentam conquistar o coração de quem os escuta com melodias doces e que despertam sentimentos que muitas vezes são apenas visíveis numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

Tashaki Miyaki - The Dream

01. L.A.P.D. Prelude
02. City
03. Girls On T.V.
04. Out Of My Head
05. Anyone But You
06. Cool Runnings
07. Tell Me
08. Facts Of Life
09. Keep Me In Mind
10. Get It Right
11. Somethin Is Better Than Nothin
12. L.A.P.D. Finale
13. L.A.P.D.


autor stipe07 às 14:56
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

Foxygen - Hang

Com uma salutar obsessão pelos Brian Jonestown Massacre, os Foxygen são hoje estrelas maiores do firmamento indie e estão de regresso aos lançamentos discográficos com Hang, oito canções que são um impressionante passo em frente na carreira de uma dupla natural de Weslake Village, nos arredores de Los Angeles e apaixonada pela sonoridade pop e psicadélica de segunda metade do século passado, um período localizado no tempo e que semeou grandes ideias e nos deu canções inesquecíveis, lançou carreiras e ainda hoje é matéria prima de reflexão para inúmeros projetos.

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Se na estreia, com Take the Kids Off Broadway (disco criado em 2011, mas apenas editado no ano seguinte), os Foxygen procuraram a simbiose de sonoridades que devem muito a nomes tão fundamentais como David Bowie, The Kinks, Velvet Underground, The Beatles e Rolling Stones e se dois anos depois, com uma melhor produção, a cargo de Richard Swift e maior coesão, o sucessor, We Are The 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, trazia o mesmo horizonte vasto de referências e as inspirações da estreia, mas trabalhadas de forma ainda mais abrangente e eficaz e se em 2014 as mais de vinte canções de ...And Star Power alargaram ainda mais os horizontes do projeto, libertando-o definitivamente de qualquer amarra que ainda o pudesse limitar, agora, ao quarto disco, os Foxygen atingem o auge de maturação e refinamento, num alinhamento onde a criatividade se evidencia nas mais diversas formas, fruto de um psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e um sentido de liberdade e prazer juvenil que é suficientemente atual nesta dupla, exatamente por experimentar tantas referências do passado.

Editado pela Jagjaguwar que desde sempre abriga os Foxygen, Hang está cheio de instantes obrigatórios e surpreendentes. Se Follow The Leader é conduzido por aquele charme negro com fortes ligações ao melhor da motown setentista e se a descarada homenagem de Avalon ao rock progressivo e ao clássico Waterloo dos suecos Abba, ajuda a plasmar o modo como Sam France e Jonathan Rado não se envergonham de elevar ao panteão nomes e figuras de outros tempos que sempre os encantaram, principlamente quando houve um aumento no volume de acidez que sempre abasteceu a dupla, já o sintetizador glam e o piano insinuante de Mrs. Adams são um bom exemplo do modo como os Foxygen são geniais a colar e sobrepôr melodias e instrumentos sem perderem o norte e, naturalmente, quase sempre com um tom sexy e algo subtil. Depois, quando a guitarra pulsante entra, a canção começa a tomar um rumo mais rock e sensual, atingindo o auge numa aceleração que é novamente interrompida pela toada anterior, uma espécie de coito interrompido mas que não impede o regresso aos preliminares.

Até ao final, num disco que de Eddie Holland a Smoking Robinson e Martha Reeves, passando pelos britânicos Electric Light Orchestra de Jeff Lynne tem em si impresso aquele espírito nativo único e genuíno, uma típica canção de natal chamada America, que bem precisa de um Pai Natal generoso que a salve dos tempos tenebrosos que vive, um intenso e melancólico tema com forte travo country chamado On Lankershim e Rise Up, talvez a canção que melhor exemplifica a filosofia experimentalista, ao nível instrumental deste projeto, que se aproxima muitas do blues marcado pelo piano e pelas guitarras, além dos metais e de alguns ruídos, são outros instantes que reúnem, também através das letras, todo um manancial de imagens e referências que evocam a era de ouro de Hollywood e, tendo em conta o período temporal acima descrito, principalmente os mágicos anos setenta.

Hang conta com várias participações especiais, entre elas Trey Pollard, Matthew E. White, os The Lemon Twigs e Steven Drozd dos Flaming Lips, músicos experientes e conceituados, que adicionaram há já habitual receita cósmica da dupla, vários ingredientes assertivos, conseguindo-se sintonizar sempre no ambiente certo, sem ferir as naturais susceptibilidades dos gostos musicais que cada um deles trouxe consigo. O resultado é um verdadeiro tratado sonoro carregado de emoção, cor e alegria, uma verdadeira viagem no tempo, mas também um disco intemporal na forma como plasma com elevada dose de criatividade o que de melhor recria atualmente o vintage. Mas Hang também aponta caminhos para o futuro não só da dupla, como de todo um género musical que não se deve esgotar apenas na recriação de algumas das referências fundamentais do passado, mas também subsistir numa demanda constante por algo genuíno e que depois sirva de modelo e de referencial sonoro. O modo como o misticismo exótico dos Foxygen recria a música de outrora, faz já deles um modelo a seguir para outros projetos que queiram trilhar este caminho sinuoso e claramente aditivo, principalmente pelo modo como, não só neste disco, mas mesmo em cada música, conseguem ser transversais e estabelecer pontes entre o passado e o futuro. Espero que aprecies a sugestão...

Foxygen - Hang (2017)

01. Follow the Leader
02. Avalon
03. Mrs. Adams
04. America
05. On Lankershim
06. Upon a Hill
07. Trauma
08. Rise Up


autor stipe07 às 09:19
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