Sexta-feira, 19 de Abril de 2019

Tellavision - Add Land

Já viu a luz do dia Add Land, à boleia da Bureau B, o mais recente tomo discográfico do projeto artístico Tellavision, já com uma década de carreira, assente em três álbuns e dois EPs, sempre em busca de excitantes aventuras sónicas, abstrações musicais que têm a sua raíz na génese do chamado krautrock e onde o ruído não é algo supérfluo ou incómodo, mas usado com um propósito bem definido de servir como mais um veículo de transmissão de emoções e sensações que se pretendem o mais físicas e orgânicas possível, dentro daquilo que a música, enquanto manifestação artística por excelência, consegue provocar no âmago de cada um de nós. E de facto, nestas treze canções que constituem o alinhamento de Add Land, produzidas pela própria Tellavision e por Thies Mynther, uma das metades da dupla Phantom / Ghost, não faltam instantes que arrebatam e concentram a atenção, mesmo no ouvinte mais desatento ou desprevenido.

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Começa-se a ouvir os flashes sintetizados do tema homónimo do disco e somos logo dominados por campos magnéticos que estalam ao longo de uma batida pontiaguda, enquanto um pulso lento e levemente errático agita-se por baixo da voz de Tellavision à medida que ela canta, evocando os medos que nos paralisam, mas também aqueles que nos inspiram. E logo nesse tema percebe-se outro ás de trunfo deste projeto, o registo vocal da protagonista, sempre vibrante e tremendamente empático. Depois, no minimalismo da batida misteriosa de Salty Man, no travo maquinal de Hat Makers e no groove dançante da buliçosa bateria que conduz Purple View, estamos lançados e ficamos ainda mais esclarecidos acerca dos elevados níveis de complexidade e virtuosismo que estiveram na génese da concepção de um registo, em que máquinas e sons eletrónicos coabitam pacificamente e com superior simbiose com aquela instrumentação mais tradicional e orgânica e que costuma balizar as trevas mestras do indie rock.

Disco merecedor de contemplação cuidada e dedicada, aberto, confiante e otimista, apesar de muito balizado pela noção de medo, como de certo modo já referi, mas com o foco deste sentimento muito virado para o amor que nos permite superar os nossos medos, nomeadamente o nosso amor pelo outro e por nós próprios, Add Land oferece um novo grau de firmeza qualitativa a um projeto ímpar no panorama sonoro e artístico alternativo europeu. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 14:48
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019

TOY – Happy In The Hollow

Desde dois mil e dez os TOY têm vindo a ganhar uma reputação de banda íntegra, virtuosa e tremendamente criativa, com Tom Dougall, Maxim Barron, Dominic O'Dair, Charlie Salvidge e Max Oscarnold (desde dois mil e quinze) a oferecerem a uma base já sólida de seguidores um leque alargado de sonoridades que incluem o punk, o psicadelismo, o krautrock ou o post rock, sempre aliadas a um aturado trabalho de exploração experimental de técnicas de gravação feitas em estúdio. Happy in The Holow, registo produzido pela própria banda, é o último grande passo da carreira dos TOY, um trabalho que marca uma nova visão sonora ainda mais distintiva e original, agora à boleia da etiqueta Tough Love, a nova editora do projeto.

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Para quem conhece a discografia dos TOY a fundo, como é o caso desta redação que ainda hoje venera o homónimo de estreia e considera-o um registo essencial da década, Happy In The Hollow é o disco da banda mais incisivo na demonstração de um alargado de sonoridades, referidas acima, sempre aliadas a um trabalho de exploração experimental de técnicas de gravação feitas em estúdio, cada vez mais aprimoradas. O andamento incisivo de Sequence One, acompanhado por uma constante vibração na guitarra e o sample fantasmagórico que paira sobre o swing do baixo do lento krautrock lisérgico de Mistake A Stranger, abrem todo esse leque de uma ponta à outra, logo no início do alinhamento e comprovam esta espécie de refresh do som típico dos TOY, que se torna, clarmamente, mais sofisticado, límpido, radiofónico e abrangente.

Dado esse mote, a partir daí assiste-se, portanto, a uma bem sucedida simbiose entre alguns elementos fundamentais da pop mais harmoniosa com o fuzz lisérgico que costuma caraterizar o ambiente sónico deste quinteto, que em Energy é colocado a nú através de um contagiante frenesim elétrico, conduzido por um feroz riff de guitarra proporcionado por Dominic e um superior desempenho na bateria, a cargo de Charlie, num tema em que Max Dougall escreve sobre alguns rituais noturnos e que nos sete minutos de Willo nos levam numa inebriante viagem psicadélica ambiental, assente na astúcia acústica de Maxim e no orgão inspirado e elegante de Max. Pelo meio, o post rock psicadélico e soturno de Last Warmth Of The Day e o travo eletro particularmente dançante e indisfarçadamente lascivo de Jolt Awake, dão-nos aquela sensação de profundidade e imersão num universo muito próprio e inédito, que os devotos do quinteto sabem melhor que ninguém como caraterizar e que frequentemente exala aquela encantadora fragilidade que emociona qualquer mortal, ainda mais quando é acompanhada por instrumentais épicos e marcantes, uma das principais caraterísticas arquitectónicas da maior parte das composições de Happy In The Hollow.

Disco que não nos deixa aterrar de imediato e que após a audição tem instantes que ficam a ressoar no âmago de quem o escutou com critério e devoção, Happy In The Hollow eleva-nos ainda mais alto e ao encontro do típico universo flutuante e inebriante em que assentam os TOY. Ouvi-lo levanta o queixo e empina o nariz, e prova, mais uma vez e com outro brilho, que os TOY tricotam as agulhas certas num rumo discográfico enleante, que tem trilhado percursos sonoros interessantes, mas sempre pintados por uma psicadelia que escorre, principalmente, nas guitarras, cimentando o cliché que diz que gostar de TOY continua a ser, mais do que nunca, também uma questão de bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

TOY - Happy In The Hollow

01. Sequence One
02. Mistake A Stranger
03. Energy
04. Last Warmth Of The Day
05. The Willo
06. Jolt Awake
07. Mechanism
08. Strangulation Day
09. You Make Me Forget Myself
10. Charlie’s House
11. Move Through The Dark


autor stipe07 às 15:16
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018

The Twilight Sad – Videograms

The Twilight Sad - Videograms

Os The Twilight Sad são uma banda de indie rock de Kilsyth, na Escócia, com onze anos de carreira e já lançaram quatro discos: Fourteen Autumns & Fifteen Winters (2007), Forget the Night Ahead (2009), No One Can Ever Know (2012), e Nobody Wants To Be Here And Nobody Wants To Leave é editado em dois mil e catorze. No início de dois mil e dezanove chegará aos escaparates It Won/t Be Like This All the Time, o quinto registo de originais dos The Twilight Sad, um trabalho que verá a luz do dia a dezoito de janeiro através da Rock Action, a etiqueta dos Mogway.

It Won/t Be Like This All the Time é o primeiro álbum dos The Twilight Sad a contar com Brendan Smith e Johnny Docherty nos créditos, dois músicos que têm tocado ao vivo com o grupo e que se juntam a MacFarlane e ao líder do projeto, James Alexander Graham. Videograms é o primeiro single retirado do novo registo do quarteto, uma canção onde o post rock, com uma elevada toada punk e shoegaze está bastante presente, algumas das principais caraterísticas dos genes identitários dos The Twilight Sad. Confere...


autor stipe07 às 16:07
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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

The KVB – Only Now Forever

Foi no passado dia doze de outubro à boleia da Invada Records que chegou aos escaparates Only Now Forever, o sexto registo de originais da carreira dos londrinos The KVB, mais uma banda a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta. Liderados pela dupla Nicholas Wood e Kat Day, o núcleo duro do projeto, os The KVB gravaram este Only Now Forever em Berlim, no apartamento que a banda tem nessa cidade alemã, depois de um ano de dois mil e dezasseis particularmente intenso e repleto de concertos.

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Only Now Forever é um extraordinário registo sonoro em cuja concepção a dupla esmerou-se na construção de composições volumosas e conduzidas por um som denso, atmosférico e sujo, que encontra o seu principal sustento nas guitarras, na bateria e nos sintetizadores, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções que espreitam perigosamente uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia.

Com vários instantes sonoros relevantes, nomeadamente o compositório eletrónico que sustenta a voluptuosa epicidade de Above Us, o clima hipnótico do ecos e do som repetitivo das teclas de On My Skin e a melodia enleante de Only Now Forever, o tema homónimo do disco, três dos vários momentos altos deste agregado, Only Now Forever está recheado de canções onde os sintetizadores se posicionam numa posição cimeira, mas onde a primazia melódica foi entregue às guitarras, sempre acompanhadas por um baixo vibrante que nos recorda a importância que este instrumento ainda tem no punk rock mais sombrio que influencia tanto e tão bem esta banda. E há que realçar que os The KVB conseguem aliar às cordas desse instrumento, cuja gravidade exala ânsia, rispidez e crueza, uma produção cuidada, arranjos subtis e uma utilização bastante assertiva da componente maquinal.

Only Now Forever é mais uma cabal demonstração do modo exemplar como os The KVB são capazes de se insinuar nos nossos ouvidos com uma toada geral de elevado travo orgânico e fazem-no de modo inédito, porque são poucos os projetos contemporâneos que conseguem aliar desta forma a monumentalidade das cordas eletrificadas e da percurssão, com uma abundância de arranjos delicados, quer sintéticos, quer feitos com metais minimalistas. De facto, enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os The KVB já balizaram com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical. Espero que aprecies a sugestão...

The KVB - Only Now Forever

01. Above Us
02. On My Skin
03. Only Now Forever
04. Afterglow
05. Violet Noon
06. Into Life
07. Live In Fiction
08. Tides
09. No Shelter
10. Cerulean


autor stipe07 às 21:42
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Domingo, 9 de Setembro de 2018

Menace Beach – Black Rainbow Sound

Pouco mais de ano e meio após o excelente Lemon Memory, a dupla Menace Beach de Ryan Needlham e Liza Violet está de regresso aos lançamentos discográficos com Black Rainbow Sound, um compêndio de dez canções que, sendo o terceiro da carreira deste projeto oriundo de Leeds, na Inglaterra, tem tudo para lançar definitivamente o grupo para uma projeção superior que o antecessor e Ratworld, o álbum de estreia, editado no início de dois mil e quinze, têm vindo a prometer e a projetar desde que viram a luz do dia.

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Apesar das origens, os Menace Beach continuam com os ouvidos muito colocados no outro lado do atlântico, continuando a apostar numa sonoridade ser fortemente influenciada pelo rock alternativo americano, mas desta vez também olham com especial atenção para a Europa, com a herança do punk de Manchester e da eletrónica alemã e a própria contemporaneidade de nomes como os Bauhaus, TOY, The Horrors, Spacemen 3 e outros a saltarem ao pensamento do ouvinte mais atento à medida que se escuta este Black Rainbow Sound. E isso sucede porque, desta vez, os Menace Beach oferecem um alinhamento com uma menor crueza lo fi que os registos anteriores, em favor de um som mais elaborado, negro e intrincado, com Black Rainbow Sound, o tema homónimo e que conta com a participação especial de Brix Smith, a mostrar esse lado inédito no grupo, assente numa mistura do sintético com as guitarras, com um nível de psicadelia incomum tendo em conta o historial anterior da banda.

Esta caraterística nova dos Menace Bech, plasmada logo nesse primeiro tema de Black Rainbow Sound e, por sinal o homónimo, serve para o grupo afirmar essa espécie de virar de página, que funciona, neste caso concreto, como um avanço em frente rumo a novos territórios, fruto não só da ânsia de experimentar nvas receitas mas também de provar o amadurecimento e o grau de confiança cada vez maior de uma dupla que percebe que já conseguiu grangear uma bade de fâs sólida e devota e que quer agora alargar o seu espetro sonoro e chegar a outros ouvintes. Os teclados Cósmicos de Satellite e o clima progressivo, negro e rugoso de Crawl In Love, além de abrirem portas para o habitual mundo paralelo feito de guitarras distorcidas governado pela nostalgia do grunge e do punk rock a que os Menace Beach nos habituaram, já não está impregnado por aquela visceral despreocupação juvenil relativamente ao ruído e à crueza melódica e à temática das canções que era apanágio da dupla, plasmando agora um clima mais adulto, ponderado e, acima de tudo, mais elaborado e amplo.

À medida que Black Rainbow avança notamos, em suma, que as canções dos Menace Beach estão menos simples e diretas e, por isso, mais desafiantes. Se em 8000 Molecules as vocalizações de Liza, de cariz aspero e lo fi, com um ligeiro efeito reverberado na voz, encantam pelo modo como ela consegue salvaguardar aquela delicadeza tipicamente feminina, sem ser ofuscada pela distorção das guitarras e pelos efeitos das teclas e se em Hypnotiser Keeps The Ball Rolling há uma demanda por territórios mis viscerais e crus, já em Tongue alguns dos principais ingredientes típicos do grunge e do punk rock direto e preciso também estão presentes, nomeadamente no baixo, mas é mais intrincada e feliz a mistura destes elementos com travos de shoegaze, num resultado final que não é tão pesado e visceral como o habitual grunge, mas que, honrando a herança desse subgénero do rock alternativo, também não é apenas delírio e pura experimentação sónica, até porque, logo a seguir, em Mutator, os Menace Beach até colocam a própria eletrónica setentista em elevado ponto de mira e em Holy Crow o rock psicadélico típico dessa mesma década.

Caldeirão sonoro contundente e mais elaborado que os dois discos anteriores dos projeto, Black Rainbow Sound coloca os Menace Beach na senda de um clima mais pop, com as guitarras em looping e que disparam em todas as direções, acompanhadas por uma bateria que não desarma nem dá descanso, a serem também agora acompanhadas, em termos de protagonismo, por uma vertente sintética, uma nuance nova que dá à banda novos horizontes, sendo o resultado final uma espécie de eletropop rock, neste caso baseado num leque alargado de sonoridades que incluem o punk, o psicadelismo, o krautrock ou o post rock, tudo aliado a um trabalho de exploração experimental pleno de bom gosto, criatividade e consistência. Espero que aprecies a sugestão...

Menace Beach - Black Rainbow Sound

01. Black Rainbow Sound (Featt. Brix Smith)
02. Satellite
03. Crawl In Love
04. Tongue
05. Mutator
06. 8000 Molecules
07. Hypnotiser Keeps The Ball Rolling
08. Holy Crow
09. Watermelon
10. (Like) Rainbow Juice (Feat. Brix Smith)


autor stipe07 às 16:16
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018

El Ten Eleven - Banker's Hill

Kristian Dunn e Tim Fogarty são a dupla que dá vida ao projeto El Ten Eleven, uma banda com origem em Los Angeles e um nome fundamental do chamado post rock. É uma dupla que desde dois mil e dois vem direcionando o seu processo de criação sonora dentro de uma psicadelia rock ampla, progressiva e elaborada, através de um som firme e definido e onde a bateria e a guitarra assumem uma função de controle simbiótico, nunca se sobrepondo demasiado um instrumento ao outro, com Banker's Hill, o mais recente disco do grupo, a encarnar toda esta trama com elevada bitola qualitativa, através de um espírito ecoante e esvoaçante, transversal às nove canções do seu alinhamento e que, sendo devidamente degustado, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

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Começa-se a escutar com a merecida devoção Banker's Hill e percebe-se, no imediato, o superior grau de cumplicidade dos dois músicos que esculpem, com denodo, composições que são verdadeiras telas sonoras que exigem demorada contemplação para serem devidamente saboreadas e entendidas, tendo em conta o espetro sonoro que baliza alguns dos cânones fundamentais da história do rock contemporâneo que guiam o percurso musical destes El Ten Eleven.

Assim, logo no ambiente etéreo e imersivo criado pelos riffs planantes da guitarra de Three And A Half High And Rising ficamos esclarecidos acerca da constante omnipresença daquele experimentalismo rock que ditou a sua lei nos grandiosos anos setenta e da salutar psicadelia instrumental e melódica que tem vindo a definir alguns dos nomes fundamentais desse género e que hoje está a ser replicado com enorme sucesso, principalmente do lado de lá do atlântico. Depois, o baixo vincado, a bateria elaborada e a distorção agreste de Phenomenal Problems, assim como a majestosidade das guitarras que conduzem We Don't Have A Sail But We Have A Rudder e a direção delicada e ao mesmo tempo mais esculpida e etérea, que a banda assume em You Are Enough e o acabamento límpido e minimalista, mas fortemente sentimental e profundo de Gyroscopic Precession, além de arrancarem o máximo daquilo que as guitarras conseguem enfatizar ao nível dos efeitos e das distorções hipnóticas, acabam também por ser, cada tema à sua maneira, um piscar de olhos insinuante a um krautrock que, cruzado com um subtil minimalismo eletrónico, provam o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco que parece estar sempre em ritmo ascendente e que acaba por ter o seu momento maior, na minha opinião, no tema homónimo, pouco mais de seis minutos de altos e baixos, mudanças ritmicas e melódicas com um travo sempre nostálgico e até, em alguns instantes, algo inquietante, que parece querer retratar fielmente nada mais do que o simples ocaso.

Disco assertivo e onde os El Ten Eleven utilizaram todas as ferramentas e fórmulas necessárias para a criação de algo verdadeiramente único e imponente, Banker's Hill é marcado pela proximidade entre as canções que faz-se de uma instrumentação focada em estruturas técnicas particularmente elaboradas, que ampliam claramente os horizontes e os limites que vão sendo traçados por uma dupla que criou neste alinhamento mais uma fornada de instrumentais que têm tudo para tornarem-se em verdadeiros clássicos do chamado rock experimental. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:08
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Terça-feira, 28 de Agosto de 2018

Jon Hopkins - Singularity

Singularity é o quinto álbum de estúdio do músico, produtor, DJ e pianista inglês Jon Hopkins, um alinhamento lançado na passada primavera pela Domino Records e que sucedendo ao aclamado registo Immunity, consolida a mestria deste músico como escultor exímio de composições sonoras com elevado travo tridimensional, uma eletronica de cariz eminentemente ambiental, onde reina a complexidade do sintético.

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Seguidor confesso de Brian Eno, mas também a seguir o rasto de nomes tão importantes como Four Tet ou os Boards of Canada, Jon Hopkins oferece-nos em Singularity um verdadeiro banquete de revisitação de um período da eletrónica que foi praticamente marcante, as décadas de setenta e de oitenta do século passado, com o clima progressivo da primeira e uma faceta mais pop da segunda a serem aqui fundidas, muitas vezes e modo quase impercetivel, como se percebe logo na espiral crescente do volumoso tema homónimo que abre o disco, uma canção onde a um trecho melódico constante, vão sendo adicionados efeitos cada vez mais rugosos e distorcidos. Depois, no psicadelismo abrasivo de Emerald Rush, uma canção construída através de uma sóbria sobreposição de diferentes camadas de batidas e efeitos, com um resultado final praticularmente cósmico e etéreo, somos transportados para um território insinuante no modo como nos convida à dança e à inquietude física e mental.

Após este início promissor, Singularity entra num período mais climático e experimental, com Hopkins a olhar sempre para o tal passado de modo a criar na nossa mente uma sensação de constante incerteza, já que nunca sabemos muito bem como o registo vai continuar a progredir. Temas como Neon Pattern Drum, um banquete percussivo muito heterógeneo e repleto de efeitos curiosos, Everything Connected, uma fusão de techno com post rock repleta de colagens e variações rítmicas, o minimalismo hipnótico de Feel First Life e de COSM e o piano intrigante que sustenta Echo Dissolve, são composições que, fazendo-nos muitas vezes flutuar e divagar por um universo que será sempre oculto para quem não crê no poder da música como indutor de estados de alma e terapeuta emocional, contêm uma leveza rara e mágica só possível de ser entendida por quem se deixar enlear por esta espécie de filosofia meditativa.

Complexo, às vezes contemplativo e vagaroso, mas também muitas vezes extasiante, tridimensional e frenético, Singularity é um disco onde a clareza de ideias e o torpor, o desânimo e a euforia também se misturam, através de um alinhamento ondulante que, no seu todo, constitui uma viagem impressiva pela mente de um músico que quer que este disco seja olhado como uma experiencia transcendental, ou seja, é um álbum que deve ser aborvido como um todo e escutado do início ao fim, sem quebras, porque esse é o único modo que, na sua óptica, nos permite retirar dele toda a sua energia e decifrar todo o seu potencial comunicativo. Espero que aprecies a sugestão....


autor stipe07 às 19:07
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Domingo, 1 de Abril de 2018

Fujiya And Miyagi – Subliminal Cuts

Fujiya And Miyagi - Subliminal Cuts

Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, meia dúzia de discos depois, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram em 2018 revisitar Transparent Things, o disco que editaram há uma dúzia de anos e que os lançou para o estrelato. E para comemorar essa efeméride lançaram também um novo single intitulado Subliminal Cuts, inspirado na série televisiva policial Columbo, uma canção que cresce apoiada em batidas sincopadas e que também impressiona pelo jogo que se estabelece entre o baixo e as guitarras no meio das batidas.

Em 2006, com rock britânico em crise acentuada devido ao resurgimento do outro lado atlântico do punk rock (Interpol, The Strokes, Liars) e da underground dance nova iorquina (LCS Soundsystem, Yeah, Yeah, Yeahs, Radio 4), Transparent Things era um trabalho que apostava numa relação estreita entre o krautrock inaugurado nos anos setenta e as tendências mais contemporâneas da pop movida a sintetizadores, sem nunca descurar a presença do baixo e da guitarra no processo de criação. O disco continha clássicos do calibre de Ankle Injuries, Collarbone ou Photographer e foi um sucesso imediato que é possível agora revisitar, numa reedição em vinil. A mesma contém como bónus um tema intitulado Different Blades From The Same Pair Of Scissors, uma canção cuja versão original viu a luz do dia em 2008 para a iniciativa Nike Running Series, sendo a versão integral das seis canções que juntas compôem o tema. São quarenta e três minutos que acabam por ser uma junção de várias composições, todas elas assentes num espaço de delicioso diálogo com heranças e referências de outros tempos e que remetem-nos, essencialmente, para a sintetização oitocentista, mas também para a melhor herança da eletrónica alemã. Confere...


autor stipe07 às 18:19
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Sábado, 13 de Janeiro de 2018

Panda Bear – A Day With The Homies EP

Quem acompanha cuidadosamente e com particular devoção a carreira a solo de Noah Lennox, aka Panda Bear, um músico natural de Baltimore, no Maryland e com residência em Lisboa, compreende a necessidade que ele sente de propôr em cada novo disco algo que supere os limites da edição anterior. É como se, independente da pluralidade de acertos que caracterizavam o antecessor, o novo compêndio de canções que oferece tenha que transpôr barreiras e como se tudo o que fora antes construído se encaminhasse de alguma forma para o que ainda há-de vir, já que é frequente perceber que, entre tantas mudanças bruscas e nuances, é normal perceber que, para Bear, o que em outras épocas fora acústico, transformou-se depois em eletrónico, o ruidoso tornou-se melodioso e o que antes era experimental, estranhamente aproximou-se da pop. Agora, quase três anos depois do aclamado Panda Bear Meets The Grim Reaper, Lennox dá um novo significado a essa necessidade de superação e de evolução a cada disco no conteúdo de A Day With The Homes, um EP de cinco canções onde encontramos uma sequência de primorosas e ainda atrativas experimentações, com o nível de desordem sonora a mostrar-se sempre acessível ao ouvinte e o disco a fluir dentro de limites bem definidos.

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Neste A Day With The Homies as canções sucedem-se articuladas entre si e de forma homogénea, com cada uma, sem exceção, a contribuir para a criação de um bloco denso e criativo, cheio de marcas sonoras relacionadas com vozes convertidas em sons e letras que praticamente atuam de forma instrumental e onde tudo é dissolvido de forma homogénea. É a materialização de um universo muito próprio e algo peculiar e até colorido, uma impressão obtida logo noinício com a batida animada de Flight a surpreender pelo seu nível de humor e de acessibilidade.

O EP avança e quer no clima kraut algo subversivo de Parth Of The Math ou nos flashes e ruídos que correm impecavelmente atrás de uma percussão orgânica e bem vincada que, em Shepard Tone, nos faz transpor quase instantaneamente uma espécie de portal, para um universo de pendor mais psicadélico, escutamos dois temas com uma filosofia diferente e menos imediata do que a da canção incial e que nos deixam a impressão que Lennox quis, desta vez, trazer à tona sons, efeitos e melodias que estavam guardadas e à espera do momento certo para ganharem vida, porque o autor considerava que antes não se encaixavam no perfil sonoro dos seus alinhamentos, ou porque ainda não tinham sido objeto do trabalho de produção merecido. 

O ocaso do EP chega mais depressa do que gostaríamos com o clima etéreo de Noad To The Folks, canção onde as batidas sintéticas e repletas de efeitos maquinais, nunca se sobrepôem em demasiado ao restante conteúdo sonoro, assente em elementos minimalistas que vão sendo adicionados a um efeito aquático com um volume crescente e com um piscar de olhos sintético a sonoridades mais negras em Sunset, mais duas canções que justificam o modo como A Day With The Homies pode ser descrito como extraordinário. Naturalmente corajoso, complexo e encantador, além de não renegar a identidade sonora distinta de Panda Bear, ainda a eleva para um novo patamar de diferentes cenários e experiências instrumentais, onde exatidão e previsibilidade não são palavras que constem do dicionário sonoro desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, mas repleta de sensações únicas e que só ele consegue transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

Panda Bear - A Day With The Homies

01. Flight
02. Part Of The Math
03. Shepard Tone
04. Nod To The Folks
05. Sunset


autor stipe07 às 16:44
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Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017

Fujiya And Miyagi – Different Blades From The Same Pair Of Scissors

Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, meia dúzia de discos depois, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram em 2016 deixar um pouco de lado o habitual formato álbum para se dedicarem à edição de dois EPs, mas depressa regressaram à primeira forma com um homónimo editado no início deste ano e que, diga-se de passagem, acaba por ser uma espécie de súmula desses anteriores lançamentos, que mostraram que este quarteto está cada vez mais apostado numa relação estreita entre o krautrock inaugurado nos anos setenta e as tendências atuais da pop movida a sintetizadores, sem nunca descurar a presença do baixo e da guitarra no processo de criação.

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Agora, alguns meses depois de Fujiya And Miyagi a dupla regressa com a edição de um tema intitulado Different Blades From The Same Pair Of Scissors, uma canção cuja versão original viu a luz do dia em 2008 para a iniciativa Nike Running Series e que chega até nós pela Strange Tongues, a própria etiqueta da banda. Com ela, os Fujiya And Miyagi divulgam também a versão integral das seis canções que juntas compôem o tema que dá nome ao lançamento. São, portanto, quarenta e três minutos que acabam por ser uma junção de várias composições, todas elas assentes num espaço de delicioso diálogo com heranças e referências de outros tempos e que remetem-nos, essencialmente, para a sintetização oitocentista, mas também para a melhor herança da eletrónica alemã.

É obrigatório ouvir a canção Different Blades From The Same Pair Of Scissors no seu todo, até para se perceber a homogeneidade que foi conseguida no agregado que contém. E depois é fulcral escutar as suas diferentes partes, não só para se clarificar o processo de recorte e colagem, mas também a identidade de cada trecho. Assim, se Chichikov e Sick & Tired sobrevivem através da simbiose entre as batidas, a voz sussurrada de Best, uma guitarra impregnada com diversos efeitos planantes e o groove de um teclado enganadoramente minimal, em temas como In ou Tic Tac Toe o baixo e as guitarras não esbatem uma declarada essência vintage, mas também acabam por encontrar eco em muitas propostas indie atuais já que se movem, com mestria, pelo meio da elegância do groove e do ritmo dos teclados que nos balançam entre a pista de dança e paisagens mais contemplativas. Depois, Paper Airplanes, uma canção que cresce apoiada em batidas sincopadas e que clama por um momento de êxtase que nunca chega, oferece-nos uma toada mais rock e orgânica que este projeto nunca descurou apesar da sua raíz eminentemente sintética.

Pensado para nos acompanhar numa corrida ou num treino físico, Different Blades From The Same Pair Of Scissors acaba por ser também uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de trechos bem estruturados, devidamente adocicados com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com a habitual pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste projeto, que nos deixa a pensar porque é que nos dias de hoje os Fujiya And Miyagi não são, por exemplo, mais assiduamente banda sonora de ginásios e de outros espaços de exercitação física e desportiva. Espero que aprecies a sugestão...

Fujiya And Miyagi - Different Blades From The Same Pair Of Scissors

01. Different Blades From The Same Pair Of Scissors
02. In
03. Chichikov
04. Paper Airplanes
05. Sick And Tired
06. Tic Tac Toe
07. Out


autor stipe07 às 18:12
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Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

Gorilla Cult - Mothership

Band Photo #3.jpg

Nick Vincent, Tobias Cramér, Leo Hansson Nilson, Jakob Samani  e Edvin Arleskär são os Gorilla Cut, um quinteto sueco oriundo de Estocolmo e que acaba de divulgar um tema intitulado Mothership. Este é um de vários singles que o projeto pretende lançar durante este ano e que já tem direito a um curioso vídeo realizado pelo coletivo visual Vector3. Para a conceção do registo visual foram usadas impressões 3D e imagens captadas pela câmara de uma Xbox Kinect. 

No que diz concerne ao conteúdo sonoro do tema, o mesmo surpreende pela sonoridade inicial atmosférica, que vai-se desenvolvendo e nos envolvendo, com vários elementos típicos do krautrock e do post punk a darem ao tema uma dinâmica e um brilho psicadélico incomum. Confere...


autor stipe07 às 22:03
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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

Fujiya And Miyagi – Fujiya And Miyagi

Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, meia dúzia de discos depois, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram em 2016 deixar um pouco de lado o habitual formato álbum para se dedicarem à edição de dois EPs, mas depressa regressaram à primeira forma com um homónimo que, diga-se de passagem, acaba por ser uma espécie de súmula desses anteriores lançamentos, que mostraram que este quarteto está cada vez mais apostado numa relação estreita entre o krautrock inaugurado nos anos setenta e as tendências atuais da pop movida a sintetizadores, sem nunca descurar a presença do baixo e da guitarra no processo de criação.

Resultado de imagem para Fujiya And Miyagi 2017

Esta estética sonora muito peculiar e genuína foi abraçada logo em 2003, quando Steve Lewis e David Best, os membros iniciais do projeto que integrava o conceito de Fujiya (uma marca de equipamentos de som) e Miyagi (o mentor de Daniel-San em Karate Kid), se estrearam. E registo após registo, ela contém uma cada vez maior bitola qualitativa, assente num espaço de delicioso diálogo com heranças e referências de outros tempos, algo que Outstripping (The Speed Of Light), um dos grandes destaques deste Fujiya And Miyagi e que foi single de abertura de EP2, plasma claramente, ao remeter-nos para a sintetização da década de oitenta, no período aúreo de uns Pet Shop Boys ou dos New Order e Swoon eleva, através da simbiose entre as batidas, a voz sussurrada de Best e o groove de um teclado.

Olhando para o restante conteúdo deste registo e continuando a fazê-lo numa óptica de homogeneidade e de junção dos eps acima referidos, importa conferir ainda que se Serotonin Rushes nos remete para a eletrónica alemã, com o baixo e as guitarras a não esbaterem uma declarada essência vintage, mas a acabarem por encontrar eco em muitas propostas indie atuais que também se movem, com mestria, na mesma miríade de influências, também há que destacar a elegância do groove e do ritmo dos teclados que balançam entre a pista de dança e paisagens cotemplativas em Extended Dance Mix. Este tema é um excelente mote para percebermos o atual estado criativo do grupo e o porquê de serem já uma referência devido ao jogo que estabelecem entre o baixo e as guitarras no meio das batidas, com o charme de Freudian Slips, uma canção que cresce apoiada em batidas sincopadas e que clama por um momento de êxtase que nunca chega, a desfazer ainda mais todas as dúvidas em relação a essa constatação.

Neste novo registo homónimo dos Fujiya And Miyagi estamos perante uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com a habitual pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou mais um conjunto de alinhamentos consistente, carregados de referências assertivas e que constituem um novo marco no percurso deste projeto essencial do panorama da eletrónica do séxculo XXI. Espero que aprecies a sugestão...

Fujiya And Miyagi - Fujiya And Miyagi

01. Magnesium Flares
02. Serotonin Rushes (Single Version)
03. Solitaire
04. To The Last Beat Of My Heart
05. Extended Dance Mix
06. Outstripping (The Speed Of Light)
07. Swoon
08. Freudian Slips
09. Impossible Objects Of Desire
10. Synthetic Symphonies
11. R.S.I.
12. Impossible Objects Of Desire (Radio Edit)


autor stipe07 às 22:29
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

The Notwist – Superheroes, Ghostvillains And Stuff

Considerados por muitos como verdadeiros pais do indie rock, os The Notwist, liderados pelos irmãos Archer, estão de regresso aos lançamentos discográficos com Superheroes, Ghostvillains And Stuff, um trabalho editado no final de outubro à boleia da Sub Pop Records e que ao longo de mais de hora e meia nos oferece uma viagem ao vivo muito calculada e de algum modo hipnótica pelo universo sonoro que os carateriza enquanto banda de rock, mas cada vez mais dominados pela eletrónica.

Resultado de imagem para the notwist band 2016

Registo gravado na segunda de três noites consecutivas, sempre esgotadas, em dezasseis de dezembro de 2015, no espaço Connewitz, em Leipzig, na Alemanha, país natal dos The Notwist, Superheroes, Ghostvillains And Stuff revisita o extenso e rico catálogo de um projeto que logo no balanço dos metais de They Follow Me, uma canção que ameaça continuamente uma incomensurável explosão sónica, no krautrock de Close To the Glass e no luminoso andamento progressivo de Kong nos mostra as suas variadas facetas. Aliás, quando no início do espetáculo parecemos positivamente condenados a usufruir de um banquete com um cardápio sintético, surgem as cordas e a guitarra luminosa cheia de distorção desta Kong para provar essa génese de uns The Notwist exímios a piscar o olho ao indie rock psicadélico e a sonoridades mais orgânicas, mesmo em concerto.

Daí em diante, seja através desses ambientes mais crus e orgânicos ou outros mais sintéticos e intrincados, os The Notwist conseguem ser eficazes e bastante criativos no modo como separam bem os diferentes sons e os mantêm isolados e em posição de destaque, durante o processo de construção dos diferentes puzzles que dão substância às suas canções. E ao vivo essa sensação amplia-se, num registo onde, ao contrário da maioria dos trabalhos do género, a produção é mesmo uma das mais valias já que, seja entre o processo dos arranjos selecionados para cada tema, até à manipulação geral do álbum, tudo soa muito polido e nota-se a preocupação por cada mínimo detalhe, o que acaba por gerar num concerto muito homogéneo e conseguido.

Trabalho tremendamente catártico, até pelo modo como em Pick Up The Phone não destoa da fórmula cúmplice, madura e melodicamente acessível que esta canção exige, sem que isso coloque em causa o seu encaixe no restante alinhamento, Superheroes, Ghostvillains And Stuff é a demonstração clara de uma banda versátil, que tem sabido ao longo do tempo adaptar-se e encontrar um sopro de renovação e que servindo-se de elementos do krautrock, passando pelo hip hop mais negro, o indie rock e o jazz progressivo, mostra-se, ao vivo, como um verdadeiro caldeirão cuidadosamente tratado e minuciosamente carregado de vida. Espero que aprecies a sugestão...

The Notwist - Superheroes, Ghostvillains And Stuff

01. They Follow Me
02. Close To The Glass
03. Kong
04. Into Another Tune
05. Pick Up The Phone
06. One With The Freaks
07. This Room
08. One Dark Love Poem
09. Trashing Days
10. Gloomy Planets
11. Run Run Run
12. Gravity
13. Neon Golden
14. Pilot
15. Consequence
16. Gone Gone Gone


autor stipe07 às 17:37
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2016

Fujiya And Miyagi – EP1 & EP2

Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, cinco discos depois, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram deixar um pouco de lado o habitual formato álbum para se dedicarem à edição de três EPs, espaçados quase por um ano, com o conteúdo dos dois primeiros já conhecido e a merecerem, desde já, cuidada análise.

Resultado de imagem para Fujiya And Miyagi 2016

Assim, se EP1 viu a luz do dia em finais de maio último e o EP2 ontem mesmo, já o EP3 chegará aos escaparates no início de 2017. E pelo conteúdo dos dois primeiros alinhamentos, fica claro que este quarteto está cada vez mais apostado numa relação estreita entre o krautrock inaugurado nos anos setenta e as tendências atuais da pop movida a sintetizadores, sem nunca descurar a presença do baixo e da guitarra no processo de criação. É uma estética sonora abraçada logo em 2003, quando Steve Lewis e David Best, os membros iniciais do projeto que integrava o conceito de Fujiya (uma marca de equipamentos de som) e Miyagi (o mentor de Daniel-San em Karate Kid), se estrearam e que contém cada vez maior bitola qualitativa, assente num espaço de delicioso diálogo com heranças e referências de outros tempos, algo que Outstripping (The Speed Of Light), o single de abertura de EP2, plasma claramente ao remeter-nos para a sintetização da década de oitenta, no período aúreo de uns Pet Shop Boys ou dos New Order e Swoon eleva, através da simbiose entre as batidas, a voz sussurrada de Best e o groove de um teclado.

Olhando para o restante conteúdo dos dois Eps e continuando a fazê-lo num todo, sem os separar, importa referir ainda que se Serotonin Rushes nos remete para a eletrónica alemã, com o baixo e as guitarras a não esbaterem uma declarada essência vintage, mas a acabarem por encontrar eco em muitas propostas indie atuais que também se movem, com mestria, na mesma miríade de influências, também há que destacar a elegância do groove e do ritmo dos teclados que balançam entre a pista de dança e paisagens cotemplativas em Extended Dance Mix. Este tema é um excelente mote para percebermos o atual estado criativo do grupo e o porquê de serem já uma referência devido ao jogo que estabelecem entre o baixo e as guitarras no meio das batidas, com o charme de Freudian Slips, uma canção que cresce apoiada em batidas sincopadas e que clama por um momento de êxtase que nunca chega, a desfazer ainda mais todas as dúvidas em relação a essa constatação.

Estamos perante uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com a habitual pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou mais um conjunto de alinhamentos consistente, carregados de referências assertivas e que constituem um novo marco no percurso deste projeto essencial do panorama da eletrónica do séxculo XXI. Espero que aprecies a sugestão...

Fujiya And Miyagi - EP1

01. Serotonin Rushes
02. To The Last Beat Of My Heart
03. Freudian Slips
04. Magnesium Flares

Fujiya And Miyagi - EP2

01. Outstripping (The Speed Of Light)
02. R.S.I.
03. Swoon
04. Extended Dance Mix


autor stipe07 às 17:44
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Sexta-feira, 12 de Agosto de 2016

Pfarmers – Our Puram

Depois de Gunnera, uma planta gigante que abunda, por exemplo, nas margens do biblíco Rio Jordão e que se tornou personagem principal de um sonho que invadiu em tempos o descanso sagrado de Danny Seim (Menomena e Lackthereof), ter sido a grande referência conceptual do trabalho de estreia do super projeto Pfarmers, que além desse músico conta também com Bryan Devendorf (The National) e Dave Nelson (David Byrne, St. Vincent, Sufjan Stevens), agora é a comunidade Rajneeshpuram, fundada na década de oitenta pelo mistíco sacerdote e filósofo Bhagwan Shri Rajneesh (também conhecido como Rajneesh, ou Osho), a servir de inspiração para Our Puram, o segundo disco de um coletivo com um universo sonoro fortemente cinematográfico e imersivo e que conta com a chancela da insuspeita Joyful Noise Recordings.

Our Puram foi escrito enquanto Danny Seim se mudava de Portland, no Oregon, para Louisville, no Kentucky, com a ideia fixa de criar um álbum conceptual sobre o Oregon onde viveu grande parte da sua vida, tendo escolhido debruçar-se particularmente sobre a comunidade Rajneeshpuram, de que ouvia falar na infância e cuja natureza real e trágica, devido às tensas e dificéis relações com as localidades vizinhas, se foi apercebendo já na vida adulta. A ideia inicial era colocar-se no papel de um membro dessa comunidade que procura inserir-se na sociedade exterior, mas acaba por, inconscientemente, debruçar-se no seu próprio êxodo. Já agora, e completando informação anterior, esta comunidade chegou a ter cerca de sete mil membros, ocupando uma área com milhares de hectares completamente autónoma, onde não faltavam escolas, supermercados, hospitais , restaurantes e outros serviços públicos, que podes conhecer melhor aqui.

Em Our Puram, tal como tinha sucedido em Gunnera, são poucos os resquícios da sonoridade habitual dos projetos de onde os músicos que compôem este coletivo são originários. Talvez os sopros de Here With Us sejam uma daquelas marcas sonoras que tanto nos The National como nos Menomena ainda se consigam ouvir, mas a filosofia Pfarmers defende a criação de composições de cariz fortemente ambiental, com um elevado ênfase numa percurssão vincada e com forte cariz étnico, variações ritmícas constantes, a inserção de uma vasta miríade de efeitos e sons sintetizados, quase de modo anárquico e sustentados por várias camadas de sopros, também de origem sintética, lançando o grupo e este Our Puram numa espiral pop, majestosa, por exemplo, no clima jazzístico de Sheela e onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. A voz grave de Seim é outro atributo fundamental para a criação de um som profundo, assim como o seu baixo pleno de groove.

Com momentos de elevada intensidade, algumas vezes passíveis de entroncar entre as últimas propostas dos Battles e algumas criações dos The Books, Our Puram é um álbum esculpido e complexo, onde é forte a dinâmica entre os sopros e o baixo, num encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador, tudo ampliado por um claro misticismo, que trespassa continuamente o cenário audível. The Commune será, talvez, o exemplo mais bem conseguido do modo eficaz como Seim conseguiu plasmar o controverso ideário Rajneeshpuram em formato canção, mas os trombones de Tour Guide, a  insanidade desconstrutiva em que alicerçam as camadas de sons das guitarras e do baixo que dão vida a 97741 e a incontestável beleza e coerência dos detalhes orgânicos dos sopros e dos flashes sintetizados que nos fazem levitar no single Red Vermin, justificam, sem qualquer sombra de dúvida, a atribuição de um claro nível de excelência aos diferentes fragmentos que os Pfarmers convocaram nos vários universos sonoros que os rodeiam e que da eletrónica, à folk, passando pela pop e o rock progressivo, criam uma relação simbiótica bastante sedutora, enquanto partem à descoberta de texturas sonoras que podem muito bem servir de referência para projetos futuros.

Our Puram é um ribeiro sonoro por onde confluem vários sons da mais diversa estirpe e de diferentes proveniências, mas todos cheios de vida e prestes a desaguar na Terra Prometida idealizada pelos Pfarmers. Aí são arremessadas para longe todas as tensões e desajustes de um passado de Seim, que está, pelos vistos, na sua vida pessoal, a salivar por uma banda sonora tremendamente sensorial, feita aqui com uma arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande melodia linda e inquietante. Para chegar a este resultado único, Seim e os seus parceiros, não recearam entregar-se de corpo e alma ao instrumentos que mais apreciam mas também ao mundo das máquinas, numa simbiose corajosa e sem entraves ou inibições, em oito canções que transportam um infinito catálogo de sons e díspares referências que parecem alinhar-se apenas na cabeça e nos inventos nada óbvios destes Pfarmers. Espero que aprecies a sugestão...

Pfarmers - Our Puram

01. 97741
02. Tour Guide
03. Red Vermin
04. You’re with Us
05. Sheela
06. The Commune
07. Osho Rising
08. Our Puram


autor stipe07 às 16:30
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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2016

LNZNDRF - Green Roses

Coletivo fundamental do indie rock deste século, os norte americanos The National têm sabido potenciar e expressar a enorme veia criativa dos seus membros noutros projetos paralelos, que devem o sucesso obtido não só ao símbolo de qualidade intrínseco à presença de um membro dessa banda nos créditos, mas também, e principalmente por isso, por causa da superior qualidade do conteúdo sonoro que é criado. Assim, se em 2015 Matt Berninger e Bryce Dessner uniram-se a Brent Knopf dos Menomena para formar os EL VY e se Bryan Devendorf deu as mãos a Danny Seim, dos mesmos Menomena e a Dave Nelson (David Byrne, St. Vincent, Sufjan Stevens), para incubar os Pfarmers, os irmãos Scott e o mesmo Bryan Devendorf unirem-se a Ben Laz dos Beirut, para criar os LNZNDRF, um projeto que se estreou no início deste ano com um discos homónimo, à boleia da conceituada 4AD, e que parece ter já um sucessor na calha.

Enquanto o segundo registo dos originais dos LNZNDRF não chega, a banda acaba de editar dois temas em formato EP; Refiro-me a Green Roses e Salida, dois monumentos sonoros majestosos e de qualidade ímpar, instrumentais com um cariz fortemente ambiental, sustentados por várias camadas de sopros sintetizados, guitarras plenas de frenesim e efeitos que piscam o olho a uma orgânica particularmente minimal, mas profunda e crua, num universo fortemente cinematográfico e imersivo.

Nestes vinte e cinco minutos escuta-se uma espiral pop onde não falta o marcante estilo percurssivo de Devendorf, ou algum do cardápio de efeitos que Danny apresentou nos Menomena, mas onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. O lançamento acaba por seguir um pouco a linha experimental das oito canções que faziam parte do alinhamento de LNZNDRF, mas quer os sopros de Green Roses e principalmente o krautrock do baixo de Salida dão asas a emoções mais etéreas e luminosas, exaladas desde as profundezas do refúgio bucólico e denso onde certamente estes músicos se embrenham para criar composições que impressionam pelo forte cariz sensorial. Confere...

LNZNDRF - Green Roses

01. Green Roses
02. Salida


autor stipe07 às 15:54
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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2016

LNZNDRF – LNZNDRF

Coletivo fundamental do indie rock deste século, os norte americanos The National têm sabido potenciar e expressar a enorme veia criativa dos seus membros noutros projetos paralelos, que devem o sucesso obtido não só ao símbolo de qualidade intrínseco à presença de um membro dessa banda nos créditos, mas também, e principalmente por isso, por causa da superior qualidade do conteúdo sonoro que é criado. Assim, se em 2015 Matt Berninger e Bryce Dessner uniram-se a Brent Knopf dos Menomena para formar os EL VY e se Bryan Devendorf deu as mãos a Danny Seim, dos mesmos Menomena e a Dave Nelson (David Byrne, St. Vincent, Sufjan Stevens), para incubar os Pfarmers, agora foi a vez dos irmãos Scott e o mesmo Bryan Devendorf unirem-se a Ben Laz dos Beirut, para criar os LNZNDRF, um projeto que se estreou hoje mesmos nos discos, com um homónimo editado à boleia da conceituada 4AD.

Se os EL VY apostam as fichas todas na voz grave de Berninger, conjugada com arranjos bastante melódicos, refrões simples e versos acessiveis, componentes que em Return To The Moon, o álbum de estreia, ofereceram-nos uma explícita toada mais pop e luminosa do que o habitualmente escutado nos The National, ampliada também por boas guitarras e alguma sintetização, já Gunnera, o registo inicial dos Pfarmers, é um compêndio de canções de cariz fortemente ambiental, sustentado por várias camadas de sopros sintetizados, uma espiral pop onde não falta o marcante estilo percurssivo de Devendorf, ou algum do cardápio de efeitos que Danny apresentou nos Menomena, mas onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. LNZNDRF acaba por seguir um pouco esta linha mais experimental, em oito canções que se sustentam numa orgânica particularmente minimal, mas profunda e crua, um universo fortemente cinematográfico e imersivo, já que estes LNZNDRF parecem tocar submergidos num mundo subterrâneo de onde debitam música através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco das melodias e dão asas às emoções que exalam desde as profundezas desse refúgio bucólico e denso onde certamente se embrenharam, pelo menos na imaginação, para criar composições que impressionam pelo forte cariz sensorial.

Logo em Future You debatemo-nos com um som esculpido e complexo, onde é forte a dinâmica entre um enorme manancial de efeitos e samples de sons que parecem ser debitados pela própria natureza e a tríade baixo, guitarra e bateria, num encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. A mesma receita, mas de modo ainda mais grandioso e hipnótico, repete-se em Beneath The Black Sea, canção que impressiona pela cândura inicial das teclas, mas que depois se desenvolve e simultaneamente nos envolve, numa espiral de sentimento e grandiosidade, patente também nos efeitos e no frenesim da guitarra e numa bateria inebriante, com a voz a fazer aqui a sua primeira aparição, funcionando e sussurrando também como membro pleno do arsenal instrumental, não havendo, como se percebe, regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos.

De facto, estes LNZNDRF são mais um bom exemplo de uma banda capaz de ser genuína no modo como manipula o sintético, de modo a dar-lhe a vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, convertendo tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos ou linhas de guitarra dispersas em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico. Os feitos que borbulham de MT Storm, uma canção onde os flashes metálicos projetados pelas teclas em várias direções, a percussão robusta, uma distorção de guitarra imponente e um falsete impiedoso e suplicante criam um cenário idílico para os apreciadores do rock progressivo mais enérgico e libertário, a insanidade desconstrutiva em que alicerçam as camadas de sons das guitarras, do baixo e dos detalhes percussivos que dão vida a Kind Things, o tema mais acessível e comercial do disco e com uma deliciosa pitada psicadélica a escorrer por todos os seus poros e a incontestável beleza e coerência dos detalhes orgânicos das cordas e dos flashes sintetizados que nos fazem levitar no instrumental Hypno-Skate rumo a um universo invulgarmente empolgante e sensorial justificam, sem qualquer sombra de dúvida, a atribuição de um claro nível de excelência aos diferentes fragmentos que os LNZNDRF convocaram nos vários universos sonoros que os rodeiam e que da eletrónica, à pop, passando pelo rock progressivo criam uma relação simbiótica bastante sedutora, enquanto partem à descoberta de texturas sonoras que podem muito bem servir de referência para projetos futuros.

A indulgência folk que ressalta da luz emanada pelas cordas de Monument e, numa direção oposta, o krautrock rugoso de Samarra, um ribeiro sonoro por onde confluem vários sons da mais diversa estirpe e de diferentes proveniências, mas todos cheios de vida e prestes a desaguar na Terra Prometida idealizada pelos LNZNDRF, ditam o ocaso de um disco que foi entalhado no ventre da terra mãe e de onde brotou para se tornar na banda sonora perfeita de um território tremendamente sensorial, assente numa arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande obra linda e inquietante. Certamente que tudo isto terá resultado de uma simbiose corajosa e sem entraves ou inibições, entre três músicos que  acabaram por ser aquele detalhe orgânico que dá alma a todas as ligações de fios e transístores que tiveram que estabelecer nestas oito canções e que transportam um infinito catálogo de sons e díspares referências que parecem alinhar-se apenas na cabeça e nos inventos nada óbvios de cada um deles e de todos em conjunto. Espero que aprecies a sugestão...

LNZNDRF - LNZNDRF

01. Future You
02. Beneath The Black Sea
03. Mt Storm
04. Kind Things
05. Hypno-Skate
06. Stars And Time
07. Monument
08. Samarra


autor stipe07 às 18:35
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Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2016

Fine Points – Hover EP

Editado no início do verão do ano passado, Hover é o registo discográfico de estreia dos Fine Points, uma projeto norte americano oriundo da costa oeste e formado por Evan Reiss e Matt Holliman, dois músicos dos míticos Sleepy Sun. Refiro-me a um EP com sete canções, que viu a luz do dia à boleia da Dine Alone Records e que contém uma pop psicadélica invulgar, mas bastante atrativa, gravada numa antiga igreja em New Telos, em Oakland e que captou eficazmente a energia revigorante das ondas do pacífico e a paz cristalina que emana das paisagens de uma porção da imensa América que sempre transmitiu um calor intenso e mágico a quem se foi deixando, desde a década de sessenta do século passado, absorver por este ambiente cristalino único e invulgar.

Hover vale pelo modo como pisa um terreno fortemente experimental, banhado por uma psicadelia pop ampla e elaborada, onde um timbre cristalino debitado por guitarras inebriantes, uma percussão vigorosa e sedutora e uma panóplia de efeitos se cruzam de modo a fazer-nos ranger os dentes e elevar o queixo, guiados por um som luminoso, atrativo e imponente, mas que não descura aquela fragilidade e sensorialidade que, como se percebe logo em Astral Season, encarna um registo ecoante e esvoaçante que coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

Com um som intenso, épico e esculpido à medida exata, Hover arranca o máximo de cada componente do projeto. Se as guitarras ganham ênfase em efeitos e distorções hipnóticas, como sucede em The Painted Fox ou These Day e se um baixo imponente se cruza com cordas e outros elementos típicos da folk em Just Like That, já Future Hands torna sonoramente bem audível um piscar de olhos insinuante a um krautrock que prova o minucioso e matemático planeamento instrumental de um EP que contém um acabamento límpido e minimalista, seguindo em ritmo ascendente, mas sempre controlado.

Hover oferece-nos aquele sol da Califórnia que tantos de nós se habituaram a ver apenas nos filmes, replicado por uns Fine Points divididos entre redutos intimistas e recortes tradicionais esculpidos de forma cíclica, enquanto escrevem versos que parecem dançar de acordo com harmonias magistrais, onde tudo se orienta com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo deste Hover um corpo único e indivisível e com vida própria, com os temas a serem os seus orgãos e membros e a poderem personificar no seu todo, se quisermos, uma sonoridade própria e transparente, onde foram usadas todas as ferramentas e fórmulas necessárias para a criação de algo verdadeiramente único e imponente. Este é um verdadeiro compêndio pop, no sentido mais restrito, que nos acolhe numa ilha mágica, cheia de sonhos e cocktails e onde podemos ser acariciados pela brisa do mar. E quem não acredita que a música pode fazer magia, não vai sentir-se tocado por este EP, que tem nas suas canções visões de cristal, muitos corações e estrelas cintilantes, tornando-se num espetáculo fascinante, capaz de encantar o maior dos cépticos. Espero que aprecies a sugestão...

Fine Points - Hover

01. Astral Season
02. Just Like That
03. The Painted Fox
04. Amalia
05. Future Hands
06. These Days
07. In Lavender


autor stipe07 às 21:04
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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2015

Here We Go Magic – Be Small

Vêm de Nova Iorque, são uma das grandes apostas da Secretly Canadian e tocam um indie rock experimental bastante apelativo e rico em detalhes e texturas capazes de nos surpreender em cada audição. Chamam-se Here We Go Magic e estão de regresso aos discos com Be Small, onze canções que viram a luz do dia a quinze de outubro e que caracterizam-se pela subtileza com que este grupo incorpora uma musicalidade prática, concisa e ao mesmo tempo muito mais abrangente, num disco marcado pela proximidade entre as canções, fazendo com que o uso de letras cativantes e de uma instrumentação focada em estruturas técnicas simples, amplie os horizontes e os limites que foram sendo traçados numa carreira com quase uma década e marcada por discos como A Different Ship ou Pigeons, já verdadeiros clássicos da pop experimental.

Se os Here We Go Magic fizeram sempre questão e não se preocupar demasiado em manter o controle quando pisavam um terreno mais experimental e banhado pela psicadelia pop mais ampla e elaborada, principalmente no antecessor A Different Ship, produzido por Nigel Godrich, habitual colaborador dos Radiohead, agora, em Be Small, apresentam um som mais íntimo e resguardado, mas também mais firme e definido e onde cada instrumento parece assumir uma função de controle, nunca se sobrepondo demsiado aos restantes, evitando a todo momento que o disco desande, apesar das cordas e das teclas mostrarem uma constante omnipresença, como é apanágio de um som que se pretende luminoso, atrativo e imponente, sem descurar aquela fragilidade e sensorialidade que no tema homónimo, por exemplo, encanrna um registo ecoante e esvoaçante que coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

A nova direção, delicada e ao mesmo tempo mais esculpida e etérea, que a banda assume em Be Small, arranca o máximo de cada componente do projeto. Se as guitarras ganham ênfase em efeitos e distorções hipnóticas, como sucede em Candy Apple ou Stella e se bases suaves sintetizadas, acompanhadas de batidas, cruzam-se com cordas e outros elementos típicos da folk em Girls In The Early Morning ou Ordinary Feeling, já Tokyo London US Korea torna sonoramente bem audível um piscar de olhos insinuante a um krautrock que, cruzando com um certo minmalismo eletrónico, prova o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco que contém um acabamento límpido e minimalista, seguindo em ritmo ascendente, mas sempre controlado, até à última canção.

Quanto às letras, parecem ser aquele aspeto do alinhamento, que gozou de uma maior liberdade e indulgência interpretativa. Divididos entre redutos intimistas e recortes tradicionais esculpidos de forma cíclica, os versos parecem dançar de acordo com a música. É como se para cada acorde, uma estrofe específica fosse montada e reaproveitada posteriormente. Tanto a melancólica e já citada Girls In The Morning, como News assumem isso, evitando que o álbum atinja uma proposta excessivamente calculada e linear.

Com nuances variadas e harmonias magistrais, em Be Small tudo se orienta com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do disco um corpo único e indivisível e com vida própria, com os temas a serem os seus orgãos e membros e a poderem personificar no seu todo, se quisermos, uma sonoridade própria e transparente, através de um disco assertivo, onde os Here We Go Magic utilizaram todas as ferramentas e fórmulas necessárias para que a criação de algo verdadeiramente único e imponente e que obriga a crítica a ficar mais uma vez particularmente atenta a esta nova definição sonora que deambula algures pela big apple. Espero que aprecies a sugestão.

Here We Go Magic - Be Small

01. Intro
02. Stella
03. Be Small
04. Falling
05. Candy Apple
06. Girls In The Early Morning
07. Tokyo London US Korea
08. Wishing Well
09. Ordinary Feeling
10. News
11. Dancing World


autor stipe07 às 21:28
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Sábado, 26 de Setembro de 2015

Say Hi – Bleeders Digest

Say Hi é Eric Elbogen, um músico norte americano natural de Seattle e que faz música desde 2002. O seu disco mais recente tem o sugestivo nome de Bleeders Digest, um trabalho que chegou aos escaparates pela mão da Barsuk Records e o nono na carreira de um artista que é capaz de, em poucos segundos, viajar do rock mais selvagem até à indie pop de cariz experimental e sempre com um ambiente sonoro certamente movido a muita testosterona.

Bleeders Digest sucede a Endless Wonder, um álbum editado o ano passado e marca mais um capítulo numa saga fictional onde cada tomo se debruça sobre uma temática precisa, com os vampiros a serem, desta vez, o mote de onze canções onde não falta uma mescla de eletropop com sonoridades hard rock, o rock setentista, o rock de garagem e o blues. Se temas como The Grass Is Always Greener e Creatures Of The Night, o single já retirado do disco, assentam num sintetizador melodicamente assertivo e numa percussão convincente, além de guitarras plenas de groove e distorção, já Teeth Only For You abranda um pouco o clima, mas não o ritmo, já que a receita mantém-se, mas numa toada mais nostálgica e épica.

Se o disco merece audição atenta pelo seu todo, a diversidade plasmada nesses três exemplos acentua a justeza da necessidade de este músico obter, finalmente, um reconhecimento verdadeiro e um estatuto forte no universo sonoro alternativo. Aliás, o modo convincente como em Transylvania (Torrents Of Rain, Yeah) e Pirates Of The Cities, Pirates Of The Suburbs, Say Hi serve-se da grandiosidade das guitarras e de variações ritmícas e melódicas constantes, enquanto se debruça a fundo no universo sobrenatural e menos empírico dos vampiros, além de carimbar a enorme dose de criatividade que nele habita, sugere que este autor busca sempre novas nuances para o seu cardápio, curiosamente dentro de um som mais experimental e que não parece ter sido planeado para as rádios e os estádios, mas que tem, quanto a mim, potencial para um elevado airplay.

Até ao ocaso de Bleeders Digest, a imensa soul que desliza pelo piano arrebatador e pelos detalhes sintéticos de Galaxies Will Be Born e a monumentalidade instrumental de Volcanoes Erupt, que desliza até ao krautrock, são outros pontos de paragem obrigatória numa viagem única de fusão entre elementos particulares intrínsecos ao que de melhor ficou dos primórdios da pop, nos anos cinquenta, com o rock mais épico da década de oitenta e algumas das caraterísticas que definem o adn da eletropop atual.

Indubitavelmente, Say Hi domina a fórmula correta, feita com guitarras energéticas, uma sintetizador indomável, efeitos subtis e melodias cativantes, para presentear quem o quiser ouvir com canções alegres, aditivas, profundas e luminosas. O disco também se torna viciante devido a uma voz que, ao longo do trabalho, preenche verdadeiras pinturas sonoras que se colam facilmente aos nossos ouvidos e que nos obrigam a mover certas partes do nosso corpo. Espero que aprecies a sugestão...

Say Hi - Bleeders Digest

01. The Grass Is Always Greener
02. It’s A Hunger
03. Creatures Of The Night
04. Transylvania (Torrents Of Rain, Yeah)
05. Lover’s Lane (Smitten With Doom)
06. Teeth Only For You
07. Time Travel Part Two
08. Pirates Of The Cities, Pirates Of The Suburbs
09. Galaxies Will Be Born
10. Volcanoes Erupt
11. Cobblestones

 


autor stipe07 às 21:36
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