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Badly Drawn Boy – Banana Skin Shoes

Sexta-feira, 11.12.20

O inglês Damon Gough, aka Badly Drawn Boy, passou grande parte da última fase da sua carreira a assinar ou a fazer parte dos créditos de algumas bandas-sonoras, com especial destaque para o alinhamento que criou para os filmes About a Boy, uma comédia adaptada de um romance de Nick Hornby Being Flynn, ambos do realizador Paul Weitz. De facto, desde que em dois mil e dez editou a triologia It’s What I’m Thinking, Badly Drawn Boy não editou qualquer registo de originais fora dessa bitola cinéfila, um hiato que teve, finalmente, os dias contados em dois mil e vinte, com a edição do álbum Banana Skin Shoes, o nono trabalho da carreira do artista.

Badly Drawn Boy Announces New Album, Shares "Banana Skin Shoes" |  Consequence of Sound

Produzido e misturado por Gethin Pearson (Kele Okereke, JAWS), Banana Skin Shoes é um registo animado e bem humorado, um alinhamento em que versatilidade e heterogeneidade combinam entre si, plasmando o vasto leque de influências que Badly Drawn Boy abarcou quando entrou e estúdio para dar vida às suas catorze canções. logo na vasta amálgama de efeitos, flashes e devaneios rítmicos do tema homónimo o ouvinte fica com uma ideia bastante clara do que o espera daí para a frente, uma orgia de sons díspares perfeitamente enleados e onde pop, indie rock, funk, rap, bossanova e jazz vão espreitando e atiçando todos os nossos sentidos. Logo a seguir, em Is This A Dream?, um tema vibrante e épico, onde se torna quase impercetível o jogo de sedução incrivelmente libdinoso que se estabelece entre teclas e cordas, enquanto uma enleante melodia, repleta de cor e otimismo, faz tudo para colocar no nosso rosto o melhor sorriso que conseguirmos armar, se dúvidas ainda exsitiam acerca da enorme beleza deste álbum, certamente que elas ficam dissipadas com este tema extraordinário.

A partir daí e depois de as hostilidades terem sido abertas de modo tão convincente, no festim percurssivo enleante de Tony Wilson Said, no melancólico piscar de olhos à bossa nova em You And Me Against The World, uma harmoniosa composição que impressiona pela solidez das flautas, na cadência lo fi setentista de Never Change e no orquestral dramatismo que exala de Apple Tree Boulevard, fica carimbada não só a tal diversidade de estilos já referida, mas também o poder que estas canções têm de fazer sorrir, mesmo o ouvinte mais céptico. Num ano tão estranho e bizarro, é mesmo um disco tão multifacetado, divertido e dançante como este que estamos a precisar de ouvir na sua reta final, para termos um pouco mais de fé relativamente ao futuro próximo. Espero que aprecies a sugestão...

Badly Drawn Boy - Banana Skin Shoes

01. Banana Skin Shoes
02. Is This A Dream?
03. I Just Wanna Wish You Happiness
04. I’m Not Sure What It Is
05. Tony Wilson Said
06. You And Me Against The World
07. I Need Someone To Trust
08. Note To Self
09. Colours
10. Funny Time Of Year
11. Fly On The Wall
12. Never Change
13. Appletree Boulevard
14. I’ll Do My Best

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publicado por stipe07 às 18:09

The Antlers – It Is What It Is

Quinta-feira, 12.11.20

Projeto fundamental do indie rock experimental norte-americano da última década, os The Antlers de Peter Silberman e Michael Lerner, habituaram-nos desde o fabuloso Hospice (2009) a um faustoso banquete de composições encharcadas em sensibilidade, angústia e conflito, canções cheias de sons aquáticos e claustrofóbicos, mas que nos mantinham sempre à tona porque também sabiam salvaguardar um soporífero cariz relaxante. Após o monumental registo Familiars, editado em dois mil e catorze e colocado em primeiro lugar nos melhores álbuns desse ano para a nossa redação, esse desfile de discos assertivos e metaforicamente intensos foi interrompido por opção da própria dupla e os The Antlers entraram num hiato que parece ter sido finalmente interrompido, para gaúdio de todos aqueles que se têm deliciado com a sua notável discografia.

The Antlers Share "It Is What It is": Listen - Stereogum

Assim, e ainda sem trazer consigo o anúncio de um sucessor de Familiars, conferimos há algumas semanas a composição Wheels Roll Home e agora It Is What It Is,  dois novos temas que parecem ter uma lógica sequencial e que marcam o arranque de uma nova fase da carreira dos The Antlers que, tendo em conta estas amostras, será certamente ainda mais promissora, luminosa e empolgante do que a anterior.

A terna acusticidade das cordas que conduzem What Is What It Is e o travo jazzístico das mesmas, um sabor impregnado ardentemente no efeito da guitarra e no modo como tais cordas se entrelaçam com a cândura da bateria,  e com um insinuante teclado, um trompete esguio e o sedutor e impressivo registo vocal de Silberman, sustentam uma canção que nos proporciona aquele limbo matinal e intimista que todos nós tanto desejamos.

It Is What It Is já tem também direito a um extraordinário vídeo, protagonizado pelos dançarinos Bobbi-Jene Smith e Or Schraiber e realizado por Derrick Belchman e Emily Terndrup. A trama do mesmo inicia onde terminou o filme de Wheels Roll Home. Confere...

The Antlers - It Is What It Is

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publicado por stipe07 às 18:13

Local Natives – Sour Lemon EP

Sexta-feira, 23.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que tem a chancela do selo Loma Vista.

Local Natives share “Lemon” featuring Sharon Van Etten | lab.fm

Novidades dos Local Natives são sempre de saudar efusivamente. E quando trazem na bagagem participações especiais de nomes como Sharon Van Etten, então o regozijo torna-se ainda mais audível e justificado. De facto, as quatro canções de Sour Lemon aprimoram ainda mais o habitual patamar instrumental arrojado deste quinteto californiano, mantendo-se a excelência nas abordagens ao lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzida em inspirados versos e a formatação primorosa de diferentes nuances melódicas numa mesma composição, duas imagens de marca do projeto.

Sour Lemon EP convida-nos a penetrar no seu âmago à boleia de Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, Rice e Van Etten, que encaixam na perfeição. Depois, os seguidores mais puristas do grupo ficarão certamente deliciados com o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico, uma canção que nos mostra os Local Natives soterrados em variadas emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, como é apanágio do seu adn. Para o ocaso, se Lost não engana no modo como, etereamente, pisca o olho a ambientes mais nebulosos e jazzísticos, sem descurar uma leve pitada de R&B, já Future Lover tem o condão de nos fazer levitar e nos dar aconchego, através de um espírito interpretativo intenso e charmoso, onde se destaca o timbre metálico de uma divagante guitarra que contradiz na perfeição um registo percurssivo hipnótico, num resultado final de forte cariz pop.

Uma das grandes virtudes destas quatro novas canções dos Local Natives tem a ver com o facto de se sustentarem numa calculada complexidade, aliada a uma inspirada riqueza estilística, aspectos que fazem muitas vezes parecer que uma mesma composição dos Local Natives resulta de uma colagem simbiótica de diferentes puzzles com tonalidades e características diferentes. E estes dois aspetos peculiares marcam, claramente, um EP de enorme beleza e que merece ser apreciado com cuidado e real atenção, deixando bastante água na boca relativamente a um próximo longa duração deste grupo ímpar no panorama indie atual. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sour Lemon

01. Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02. Statues In The Garden (Arras)
03. Lost
04. Future Lover

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publicado por stipe07 às 16:35

Yellow Days – A Day In A Yellow Beat

Segunda-feira, 21.09.20

Três anos após o EP de estreia Harmless Melodies e o seu primeiro longa duração, Is Everything OK In Your World?, o cantor e multi-instrumentista britânico George van den Broek, de vinte e um anos, natural de Manchester e que assina a sua música como Yellow Days, está de regresso com A Day In A Yellow Beat, um tratado de indie pop de forte toada jazzística, gravado em Los Angeles, com forte influência da soul e do blues e sonoramente bastante eclético, também por causa de uma ilustre lista de convidados especiais, nomeadamente Shirley Jones, Nick Walters, Mac DeMarco e Bishop Nehru.

Yellow Days: A Day In A Yellow Beat — sprawling, ambitious and irritating |  Financial Times

Se nos seus dois primeiros registos, o EP e o álbum, Yellow Days focou-se nas temáticas da ansiedade e da depressão, com uma forte componente auto-biográfica, neste A Day In A Yellow Beat o compositor não deixa de versar sobre os dilemas típicos da entrada na vida adulta, mas logo no orgão buliçoso e na farta seleção de samples que constroem o diálogo que se estabelece na Intro, o autor mostra um lado mais irrequieto, luminoso e optimista, parecendo que deixou de vez a escuridão e o odor bafiento que marcava os seus dias para se encontrar com a luz e passar a viver tempos mais felizes e esperançosos. Não é claro se houve algum evento específico na sua vida que tenha originado tal transformação, mas é um facto que, logo após o rock experimental repleto de groove de Be Free, tema em que a voz de George atinge um registo que não fica a dever nada aos melhores intérpretes da soul americana do último meio século, canções como Getting Closer, uma composição com um clima retro setentista inconfundível, ou Let You Know, tema que também nos remete para a mesma época, mas de um modo mais charmoso, principalmente devido ao modo como o piano se intercepta com vários efeitos percurssivos, mostram um disco de janelas abertas para brisas suaves e aconchegantes e para um sol radioso e retemperador. Quer estas composições, quer, por exemplo, Who´s There?, uma obra-prima de pop funk, ou a sensualidade inconfundível de Keeps Me Satisfied, estão repletas de menções e clichés sobre o amor, do mais romântico ao mais lascivo, mas também sobre a alegria e a positividade. A expressão Put your hate away, que ciranda pelo space funk de Let’s Be Good to Each Other, é, talvez, o exemplo mais paradigmático desta impressão feliz que, a espaços, para ampliar a sensação de festa que Yellow Days certamente procurou incutir num alinhamento longo, mas que nunca satura, obedece a uma lógica sonora próxima do chamado discosound, feita com um elevado toque de modernidade, num ambiente algo psicadélico e que apela claramente às pistas de dança. 

Com nomes tão proeminentes como Howlin’ Wolf e Ray Charles como influências declaradas e repleto de diversos interlúdios feitos apenas à boleia da voz, com destaque para a enigmática Pot Party (The trippers, the grasshoppers, the hip ones, all gathered in secrecy, and flying high as a kite), A Day In A Yellow Beat  proporciona-nos uma experiência sensorial única e até intrigante, já que cada audição é uma janela de oportunidade que se abre para descobrir mais um efeito, uma nuance, um flash, uma corda, um sopro ou uma nota que ainda não tinha sido captada pelo nosso âmago.É um disco criado por uma das personagens mais queridas da indie britânica atual e que se expôe bem menos caótico e confuso do que antes e mais aprumado e organizado, fruto, certamente, de uma nova dinâmica existencial certamente mais feliz e que este A Day In A Yellow Beat claramente exala. Espero que aprecies a sugestão...

Yellow Days - A Day in a Yellow Beat

01. Intro
02. Be Free
03. Let You Know
04. (The Outsider)
05. Who’s There? (Feat. Shirley Jones)
06. Getting Closer
07. Come Groove (Interlude)
08. Keep Yourself Alive
09. Open Your Eyes (Feat. Nick Walters)
10. ! (Feat. Bishop Nehru)
11. (Pot Party)
12. Keeps Me Satisfied
13. You
14. (What Goes Up Must Come Down)
15. The Curse (Feat. Mac Demarco)
16. Let’s Be Good To Each Other
17. Whatever You Wanna Do
18. Something Special (Interlude)
19. So Lost
20. I Don’t Mind
21. (Mature Love)
22. Treat You Right
23. Love Is Everywhere

 

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publicado por stipe07 às 13:21

Time For T - Simple Songs for Complicated Times EP

Sexta-feira, 04.09.20

Gravado, de acordo com a própria banda, durante o mais recente período de confinamento resultante da situação pandémica global e com início numa caravana que assentou arraiais nos arredores de Lagos, Simple Songs For Complicated Times é o novo EP dos Time For T, um projeto nacional mas com raízes em Inglaterra, mais concretamente em Brighton. Na sua génese está Tiago Saga, um jovem com genes britânicos, libaneses e espanhóis e que cresceu no Algarve. Enquanto estudava composição contemporânea na Universidade de Sussex, Inglaterra, Tiago Saga foi criando a sua própria sonoridade assente na world music e na folk rock anglo-saxónica com outros músicos que foi conhecendo e com quem foi partilhando as mesmas inspirações, nomeadamente Joshua Taylor, Felipe Bastos e Juan Toran, os seus parceiros nestes Time For T.

Time For T antecipa edição de EP com “Qualquer Coisa” – Glam Magazine

Simple Songs for Complicated Times foi pensado, inicialmente, para ser uma coleção de canções feitas apenas com voz e guitarra, mas Saga acabou por pedir aos outros membros da banda e a alguns amigos que se encontravam em quarentena, para adicionarem as suas partes, porque cada um tinha a possibilidade de gravar em casa. O resultado é um tomo de canções feitas em português, inglês e espanhol e que nos cativam quase instantaneamente, não só porque, sonoramente, é um registo radiante, repleto de luminosas cordas,  

Aquela viola que ciranda por Fire On The Mountain, uma composição cuja crueza e imediatismo acústicos nos obrigam a fazer um sorriso fácil de orelha a orelha, a doce intimidade convidativa e sincera que plasma Brighton (Clumsy), o divertido aconchego de Manteiga, um tema que fala da experiência pessoal de Tiago por voltar a viver em Portugal e, paralelamente, daquela situação onde todos nós já nos encontramos, quando estamos sem tempo ou energia para fazer tudo aquilo que queremos e o minimalismo reconfortante, asim como o violino eloquente de Qualquer Coisa, um tributo à vida boémia, em toda a sua glória e comédia trágica, contendo uma lista de observações da vida em Portugal, mais concretamente em Lisboa, na altura dos Santos. são momentos maiores de um alinhamento que, no geral, balança num timbre luminoso de diversas cordas que se entrelaçam harmoniosamente com um jogo vocal repleto de interseções, uma salutar acusticidade, que nos oferece, de modo particuarmente impressivo e como a própria banda com clareza define bem melhor do que nós, um cardápio sonoro eclético que se abre em leveza aos hemisférios e meridianos, trazendo as praias, as florestas e os desertos à humanidade. Uma viagem imperdível à incandescência da música livre. É mesmo isto. Espero que aprecies a sugestão...

 

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publicado por stipe07 às 14:19

Golf Alpha Bravo – The Sundog

Quarta-feira, 15.07.20

Chega da Austrália um dos discos mais interessantes e convidativos deste início de verão. Chama-se The Sundog, é o registo de estreia da carreira a solo de Gab Winterfield, guitarrista e vocalista dos Jagwar Ma e foi editado pela própria etiqueta do músico, a Treasured Recordings Label. The Sundog contém onze canções e no regaço delas viajamos espacial e temporalmente, até à melhor herança do rock psicadélico setentista, uma epopeia pincelada com impressivos tiques do melhor jazz e do melhor blues que são possíveis conferir na história mais recente da música contemporânea, uma espécie de surf blues inspirado pelas vivências pessoais de Gab durante a sua infância e adolescência na zona costeira australiana perto de Sidney, onde cresceu.

Jagwar Ma's Gab Winterfield shares debut solo album as Golf Alpha ...

The Sundog é um daqueles discos que se escutam com o mesmo prazer com que se encosta uma concha ao ouvido e se finge que durante esse ato tão simples, mas também simbólico, se consegue escutar todo o vasto oceano que está defronte de nós e os seres que nele habitam e que stornam, através desse ato tão simples, nossos amigos e confidentes. Se nos Jagwar Ma Gab viajou pelo mundo inteiro, cantou em Coachella ou Glastonbury e conheceu o lado mais frenético daquilo que é a vida cheia e confusa de uma pop star, The Sundog funciona para o autor como um disco de recolhimento, uma tentativa de regresso à terra, às origens e à simplicidade onde cresceu e que o moldou. E de facto, os trinta e oito minutos do disco são bem sucedidos nessa função de auto recolhimento. Para o ouvinte também podem causar resultados similares já que se trata de um registo descomplicado e prazeirento. Nele, à boleia de explorações sonoras eminentemente minimalistas, feitas apenas com o baixo, a viola e a bateria, são criados pontos de interseção seguros e estreitos entre o rock e o jazz, sempre com uma toada eminentemente lo fi e psicadélica, que até nem dispensou alguns artifícios caseiros de gravação. O resultado tanto leva a nossa mente a viajar pela imensidão cósmica, como a embrenhar-se nas profundezas da nossa célula mais minúscula, sendo o disco perfeito para tratar da necessidade primária que todos nós temos, de longe a longe, fugir ao ritmo alucinante desta modernidade que nos absorve, enquanto acende nos nosso corações algumas fogueiras em redor das quais nos sentamos juntamente com todas as faces da nossa individualidade, com o propósito claro de encontrar as melhores saídas para os dilemas que nos afligem ou, simplesmente, usufruir da companhia de todas as vertentes do nosso eu.

The Sundog provoca, de imediato, um sorriso inconsciente, porque não só se escuta de um só travo, quase sem se dar por isso, mas também porque está recheado de canções otimistas, alegres e, sem deixarem de ter o indispensável conteúdo reflexivo e intimista que está sempre subjacente a um alinhamento que quer deixar uma marca enquanto se debruça sobre alguns dos dilemas existenciais típicos da adolescência, sejam eles mais ou menos incisivos no modo como regem a nossa presença neste mundo.

Assim, e olhando de modo mais concreto para as canções de The Sundog, se Stuck Being Me é uma daquelas composições que automaticamente nos colocam a refletir acerca daquilo que é o nosso eu e se está tudo bem ou não com ele, já Unwind é o tema perfeito para nos deixar a divagar, enquanto nos deixamos seduzir por uma brisa leve e aconchegante que nos leva sabe-se lá para onde. Já completamente absorvidos por um início de alinhamento tão intenso e incandescente, levamos um soco no baixo ventre quando entra pelos nossos ouvidos o baixo narcótico em que navega Blue Wave, canção que, quanto a mim (e como ninguém vai ler isto, posso dizê-lo abertamente), tem na sua génese tudo para ser sexualmente bastante apelativa e funcionar como um verdadeiro e eficaz estimulante. Na verdade, quer esta Blue Wave, quer a mais espraiada Rainbow Island, parecem uma espécie de parelha inseparável, dois temas que se enrolaram sem apelo nem agravo, envoltos numa sonoridade que faz com que pareçam ter estado presas num qualquer transítor há várias décadas e que finalmente libertadas com o aconchego que a evolução tecnológica destes dias permite, ficaram disponíveis algures num assento almofadado virado para uma solarenga praia, no início daquela madrugada que todos vivemos uma vez na vida, ou na cama mais confortável lá de casa, com vista para um vasto oceano de questões existenciais, que entre o arrojado e o denso, oferece-nos uma estadia de magia e delicadeza invulgares.

Até ao final aguardam-nos muitas outras surpresas e instantes de difícil mas bastante acessível e recompensadora catalogação sonora, que experimentados à boleia do hipnótico cinismo de Comet Loop, da simplicidade crua e boémia de Love In The Clouds e da exuberância e majestosidade de Groove Baby Groove, permitem-nos a absorção plena e dedicada de uma assumida quietude algo celestial, onde o retro se confunde com charme, uma simbiose à qual é impossível ficar indiferente, até porque se situa num patamar superior de abrangência.

The Sundog tem aquele groove que não deixa ninguém indiferente e um conteúdo, quer lirico, quer instrumental, suficientemente sólido para oferecer ao ouvinte uma experiência auditiva particularmente marcante e imersiva, mas também para o fazer sentir-se rodeado de sensações amenas e relaxantes É, no fundo, uma mistura equilibrada, sóbria e bem sucedida entre o passado e o presente e uma épica jornada de conforto e prazer perfeita para um verão que exige festa e alegria incontrolados, mas também períodos de recolhimento e revisão pessoal. Espero que aprecies a sugestão...

Golf Alpha Bravo - The Sundog

01. Stuck Being Me
02. Unwind
03. Blue Wave
04. Rainbow Island
05. Groove Baby Groove
06. Love In The Clouds
07. Mo’ Clouds
08. Golden Deep
09. Comet Loop
10. Night Glow Drip
11. Dream Baker

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publicado por stipe07 às 15:48

Birds Are Indie - Migrations – The Travel Diaries #1

Segunda-feira, 06.07.20

Já viu a luz do dia Migrations – The Travel Diaries #1, o quinto álbum dos conimbricenses Birds Are Indie de Joana Corker, Ricardo Jerónimo e Henrique Toscano, um registo de dez canções abrigadas pela Lux Records e que celebram a mesma quantidade de anos de um dos projetos nacionais mais queridos nesta redação, porque transmitem com as suas composições sonoras um rol de emoções e sensações únicas, sempre com intensidade e minúcia, mas também misticismo e argúcia e geralmente com uma serenidade extraordinariamente melancólica e bastante contemplativa.

Birds Are Indie apresentam "Migrations - the travel diaries #1 ...

Migrations – The Travel Diaries #1 tem a curiosidade de ver a luz do dia em duas edições distintas, uma em CD que surgiu nos escaparates em abril e outra em vinil, que chegrá lá para setembro. Ambos os formatos contam com a revisita de cinco canções da discografia anterior da banda, reinterpretadas e regravadas no estúdio Blue House, em Coimbra, mais cinco originais.

Com mistura e masterização de João Rui, todos os temas de Migrations– The Travel Diaries #1 tiveram a participação no baixo e em algumas teclas do convidado especial Jorri (a Jigsaw), que também colaborou na gravação. Liderar esse processo, como habitualmente, ficou a cargo de um elemento da banda, Henrique Toscano e o mesmo aconteceu com o artwork e o design, feitos pela mão da Joana Corker, modus operandi muito semelhante a Local Affairs, o registo que os Birds Are Indie editaram há dois anos atrás.

Uma década parece uma eternidade mas é um facto que parece que foi ontem que este lindíssimo projeto conimbricense deixou em sentido os mais atentos com a edição do EP Love Birds, Hate Pollen, um tomo de cinco canções que nos ofereceram, desde logo, tonalidades pop vibrantes de primeira água, tendo como grande elementos indutor de imensa magia e encantamento, as cordas. A partir daí, registo após registo, os Birds Are Indie foram dando passos consistentes num percurso que até nos foi habituando a algumas inflexões e salutares piscares de olho ao rock, ao blues e ao jazz, mostrando que o trio está sempre atento às novas tendências e disposto a manipulá-las em proveito próprio, dentro daquela indie folk assente em cordas exuberantes, melodias aditivas e arranjos inspirados, uma fórmula que cria um ambiente emotivo e honesto e que nunca descura um elevado espírito nostálgico e sentimental, duas caraterísticas bastante presentes na escrita e na composição deste grupo.

The Travel Diaries #1 é, no fundo, um registo de balanço de todo este percurso estilístico e conceptual, um trabalho que vagueia e passeia por estes dez anos, mas que também nos oferece algumas pistas importantes acerca do futuro do projeto. O single Black (or the art of letting go), que foi selecionado há alguns meses para nos entreabrir a portas de The Travel Diaries #1 contém, de facto, essa marca viajante sendo, sonoramente, uma composição que, como os próprios Birds Are Indie descrevem, mostra uma determinação materializada num ritmo tenso e intenso, em guitarras sujas e teclados acutilantes, ou seja, que acaba por fazer uma espécie de súmula de tudo aquilo que foi inspirando o projeto no processo de composição e que depois, na letra, nos permite contemplar, no imediato, uma ironia gerada pelo contraste, algo tão característico dos Birds Are IndieNo refrão e a terminar a música, ouve-se repetidamente: «I never said it's over, I'll never say I want you back». E é nesta decidida indecisão que se inicia mais uma viagem...

Em suma, a simplicidade com que os Birds Are Indie transmitem um rol sensações particularmente vasto e sem se preocuparem com o modo como possam ser catalogados, é, talvez, o maior atributo deste grupo, que também impressiona pela graça como os seus membros combinam e manipulam, com sentido melódico e lúdico, a estrutura de uma canção. Muitas vezes parece um esforço indisciplinado, infantil e claramente emocional, mas acaba por ser bem sucedido porque, entre a pop luminosa de I won't take it anymore ou a nostalgia de Time to make amends, além do rock vintage sessentista de Needless to Say e o de cariz mais jazzístico, audível nas teclas do piano que conduzem The senior dancer, sem descurar alguns aspetos essenciais do american rock, claramente esplanados em We're not coming down e na refrescante e encantadora Instead of watching telly, somos presenteados com diversos piscares de olho à história do rock nas últimas décadas, havendo sempre espaço para o sarcasmo e o humor que tão bem carateriza a dupla que lidera este projeto, conduzido por três inspirados músicos que se movem entre o preto, o branco e a cor, entre a luz e a sombra, entre a contenção e a explosão, entre a protecção oferecida pela tela e a crueza da máxima exposição. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 10:18

Glass Animals – Dreamland

Sábado, 02.05.20

Glass Animals - Dreamland

No próximo dia dez de julho chegará aos escaparates Dreamland, o terceiro registo de originais dos britânicos Glass Animals, álbum que sucede ao aclamado compêndio How To Be A Human Being e que, de acordo com informações recentemente divulgadas, será um disco de forte cariz autobiográfico e bastante inspirado num acidente que quase paralisou o baterista da banda Joe Seaward e marcou imenso quer o próprio, quer os seus companheiros, o vocalista Dave Bayley, o guitarrista Drew MacFarlane e o baixista Ed Irwin-Singer.

Em julho de dois mil e dezoito Joe foi atropelado por um camião em Dublin enquanto andava de bicicleta e além de ter ficado com múltiplas fraturas numa perna, teve uma grave lesão craniana que o levou duas vezes à mesa de operações e que o fez perder algumas das suas faculdades psíquicas e partes da sua memória, obrigando-o a um longo e doloroso processo de fisioterapia, de modo a recuperar do evento.

O primeiro single retirado de Dreamland, o novo álbum da banda de Oxford, é o tema homónimo do disco, um tratado de pop eletrónica algo viciante e hipnótico, onde abundam harmonias vocais belíssimas, que se espraiam lentamente pela canção e se deixam afagar livremente pelo manto sonoro que as sustenta. Também já se conhece o vídeo de Dreamland, gravado por Dave integralmente através da plataforma zoom e que replica genuinamente o cariz intimista e marcante da composição. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:21

Balthazar – Halfway

Terça-feira, 11.02.20

Balthazar - Halfway

O excelente registo Fever ainda não tem um ano de existência, mas os belgas Balthazar mantêm-se criativamente ativos, estando de regresso no início deste ano aos lançamentos discográficos, em formato single, com Halfway, um tema que acaba de ver a luz do dia através da etiqueta Play It Again Sam e que foi idealizado por Jinte Deprez e Maarten Devoldere, as duas grandes mentes criativas do projeto.

Incubada durante a recente digressão de promoção a Fever e com muitas das nuances que marcaram esse trabalho que o grupo belga lançou em dois mil e dezanove, Halfway é uma composição melodicamente charmosa e com uma soul muito própria, assente num travo R&B algo peculiar, abrigado por uma linha de baixo plena de groove e adornada por deliciosos falsetes e diversos arranjos de elevado apuro melódico e onde as teclas são protagonistas. Confere...

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publicado por stipe07 às 12:47

Destroyer – Have We Met

Terça-feira, 04.02.20

Abrigado pela insuspeita Merge Records, Have We Met é o décimo terceiro e novo registo discográfico dos canadianos Destroyer de Dan Bejar, um músico que também está escalado na formação dos The New Pornographers e que não gostando de lutar contra o tempo e não aprecia estipular prazos, prefere que a música escorra na sua mente e depois nas partituras e nos instrumentos de modo fluído, no devido timing e com a pressa que merece, sempre com uma tonalidade algum cinzenta e agreste e eminentemente reflexiva.

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Fortemente influenciado pela banda-sonora de filmes dos anos oitenta, como O Sol da Meia-Noite (1985) e A Garota de Rosa Shocking (1986), produzido pelo carismático John Collins (The New Pornographers, Tegan and Sara) e sucessor do excelente Ken, editado há pouco mais de três anos, Have We Met é um disco algo intrincado, mas bastante sedutor, um dobrar de esquina consistente e apurado, mesmo sendo o trabalho recente dos Destroyer que mais se aproxima da herança atmosférica da obra-prima Kaputt (2011). Tal sucede porque é feito por um grupo que também já habituou os seus fãs a um espetro rock onde não faltavam de guitarras distorcidas e riffs vigorosos, mas que opta agora, e mais do que nunca, num claro sinal de maturidade e de pujança criativa, por compôr composições que olham de modo mais anguloso para a eletrónica e para ambientes eminentemente clássicos, fazendo-o com superior apuro melódico. São, portanto, composições conduzidas por uma ímpar diversidade instrumental, com o modo como as teclas do piano são enormes protagonistas, a meias com a guitarra maravilha de Nicolas Bragg, a serem dis trunfos maiores deste modus operandi com elevado charme quilate.

De facto, quando Bejar e Collins começaram a fermentar artesanalmente o conteúdo de Have We Met, em sessões noturnas de captação e gravação na própria cozinha de Bejar, a ideia inicial era desenvolver um conjunto de demos bastante inspiradas em alguma da melhor herança de nomes como Björk, Air, ou Massive Attack, captadas durante as sessões de gravação do próprio Kaput e do registo Poison Season, de dois mil e quinze. No entanto, depressa perceberam que seguir tal permissa seria distanciar-se demasiado do adn dos Destroyer e, felizmente, optaram por uma espécie de simbiose do melhor desses dois mundos. O resultado final, bastante burilado e tremendamente bem conseguido, proporciona-nos um clima eminentemente sofisticado, claramente clássico e moderno, um disco intenso e que joga com diferentes nuances sonoras sempre com um espírito aberto ao saudosismo e à relevância inventiva.

Canções como a fluída e magnânima Crimson Tide, o abundante jogo de sobreposições que edifica Kinda Dark, a delirante cândura celestial em que levitam os sons fantasmnagóricos de The Television Music Supervisor, um tema sobre as inquietações de alguém que está prestes a morrer, o clima retro eminentemente oitocentista que sustenta The Raven, o picotar melódico a que sabe Cue Synthesizer e o mistério lírico que se entranha nas diferentes camadas sintéticas de Foolsong, além de também piscarem o olho a latitudes sonoras mais consentâneas com as tendências atuais do espetro sonoro em que os Destroyer se movimentam, enriquecem tremendamente o cardápio sonoro do projeto e elevam-no a um novo estatuto, como banda fundamental do indie rock alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

Destroyer - Have We Met

01. Crimson Tide
02. Kinda Dark
03. It Just Doesn’t Happen
04. The Television Music Supervisor
05. The Raven
06. Cue Synthesizer
07. University Hill
08. Have We Met
09. The Man In Black’s Blues
10. Foolssong

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publicado por stipe07 às 16:33






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