Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

The KVB – Only Now Forever

Foi no passado dia doze de outubro à boleia da Invada Records que chegou aos escaparates Only Now Forever, o sexto registo de originais da carreira dos londrinos The KVB, mais uma banda a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta. Liderados pela dupla Nicholas Wood e Kat Day, o núcleo duro do projeto, os The KVB gravaram este Only Now Forever em Berlim, no apartamento que a banda tem nessa cidade alemã, depois de um ano de dois mil e dezasseis particularmente intenso e repleto de concertos.

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Only Now Forever é um extraordinário registo sonoro em cuja concepção a dupla esmerou-se na construção de composições volumosas e conduzidas por um som denso, atmosférico e sujo, que encontra o seu principal sustento nas guitarras, na bateria e nos sintetizadores, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções que espreitam perigosamente uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia.

Com vários instantes sonoros relevantes, nomeadamente o compositório eletrónico que sustenta a voluptuosa epicidade de Above Us, o clima hipnótico do ecos e do som repetitivo das teclas de On My Skin e a melodia enleante de Only Now Forever, o tema homónimo do disco, três dos vários momentos altos deste agregado, Only Now Forever está recheado de canções onde os sintetizadores se posicionam numa posição cimeira, mas onde a primazia melódica foi entregue às guitarras, sempre acompanhadas por um baixo vibrante que nos recorda a importância que este instrumento ainda tem no punk rock mais sombrio que influencia tanto e tão bem esta banda. E há que realçar que os The KVB conseguem aliar às cordas desse instrumento, cuja gravidade exala ânsia, rispidez e crueza, uma produção cuidada, arranjos subtis e uma utilização bastante assertiva da componente maquinal.

Only Now Forever é mais uma cabal demonstração do modo exemplar como os The KVB são capazes de se insinuar nos nossos ouvidos com uma toada geral de elevado travo orgânico e fazem-no de modo inédito, porque são poucos os projetos contemporâneos que conseguem aliar desta forma a monumentalidade das cordas eletrificadas e da percurssão, com uma abundância de arranjos delicados, quer sintéticos, quer feitos com metais minimalistas. De facto, enquanto muitas bandas procuram a inovação na adição de uma vasta miríade de influências e tiques sonoros, que muitas vezes os confundem e dispersam enquanto calcorreiam um caminho que ainda não sabem muito bem para onde os leva, os The KVB já balizaram com notável exatidão o farol que querem para o seu percurso musical. Espero que aprecies a sugestão...

The KVB - Only Now Forever

01. Above Us
02. On My Skin
03. Only Now Forever
04. Afterglow
05. Violet Noon
06. Into Life
07. Live In Fiction
08. Tides
09. No Shelter
10. Cerulean


autor stipe07 às 21:42
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Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018

Time For T - Maria

Gravado ao longo do ano de 2016 nos Spitfire Audio Studios em Londres, produzido pela própria banda e masterizado por JJ Golden (Rodrigo Amarante, Devendra Banhart, Vetiver) em Ventura, California, Hoping Something Anything é o mais registo de originais dos Time for T de Tiago Saga, que continua a retirar dividendos do seu conteúdo. A mais recente atualização é a divulgação do vídeo do single Maria, juntamente com o anúncio de novas datas de concertos de promoção do álbum, que poderão encontrar no final deste artigo.

Composição inspirada pela temática da infidelidade (Oh Maria, it's all in your head. Give me one more chance even though I'll need ten), Maria, uma canção conduzida por um boémio efeito de uma guitarra e por uma bateria abastecida por uma vasto arsenal de nuances rítmicas, já teve uma primeira versão no trajeto inicial da banda, aprimorada, entretanto, para constar do alinhamento de Hoping Something Anything. A canção tem já também um vídeo realizado por Rafael Farias entre Lagos e Lisboa e que representa a ideia de solidão e afastamento das pessoas que mais amamos por más decisões.

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Banda eclética no modo como abraça diferentes influências e sonoridades, os Time For T tanto deambulam pela folk como pelo rock psicadélico e nesse balanço, lá pelo meio, tanto piscam o olho à tropicália, como ao próprio jazz, indo também até ao blues experimental e até aquele rock mais impulsivo e cru. É um projeto nacional mas com raízes em Inglaterra, mais concretamente em Brighton, encabeçado, como referi acima, por Tiago Saga, um jovem com genes britânicos, libaneses e espanhóis que cresceu no Algarve. Enquanto estudava composição contemporânea na Universidade de Sussex, Inglaterra, Tiago Saga foi criando a sua própria sonoridade assente na world music e na folk rock anglo-saxónica com outros músicos que foi conhecendo e com quem foi partilhando as mesmas inspirações, nomeadamente Joshua Taylor (baixo), Martyn Lillyman (bateria), Oliver Weder (teclas), os seus parceiros nestes Time For T. Andrew Stuart-Buttle (violino), Harry Haynes (guitarra eléctrica) e Louis Pavlo (teclas) foram outros convidados especiais de um disco que viu a luz do dia a quinze de Setembro último, à boleia da Last Train Records, editora que os Time For T têm em parceria com a banda amiga de Brighton, os Common Tongues. Confere Maria e as datas dos próximos concertos dos Time For T...

19 Outubro / Friday Happiness / Tojeiro

20 Outubro / Atabai / Barao S. Joao

02 Novembro / Madalena / Faro

03 Novembro / Centro Cultural / Barao S. Joao

24 Novembro / Teatro Lethes / Faro

07 Dezembro / Teatro do Bairro / Lisboa


autor stipe07 às 15:51
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2018

Django Django – Winter’s Beach EP

Foi no início deste ano que os Django Django de Dave Maclean, Vincent Neff, Tommy Grace e Jimmy Dixon desvendaram Marble Skies, o último registo de originais desta banda escocesa natural de Edimburgo. O trabalho continha dez canções feitas com uma pop angulosa proposta por quatro músicos que, entre muitas outras coisas, tocam baixo, guitarra, bateria e cantam, sendo isto praticamente a única coisa que têm em comum com qualquer outra banda emergente no cenário alternativo atual. Agora, nove meses depois, os Django Django regressaram aos lançamentos discográficos, mas no formato EP, com um registo intitulado Winter’s Beach, seis originais que viram a luz do dia a doze de outubro à boleia da Because Music.

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Repleto de sintetizadores com uma proeminente toada vintage e fortemente inspirado na eletrónica do século passado, Winter's Beach começou a ganhar forma durante as sessões de gravação de Marble Skies, revisitando, inclusive, algum material de arquivo dos Django Django, nomeadamente em Blue Hazy Highs, o esqueleto de Waveforms, um dos grandes sucessos de Django Django, o disco homónimo de estreia da banda, lançado em dois mil e doze, como certamente se recordam.

O EP abre com o excitante tema homónimo, que tem por base material que Dave compôs em tempos para o artista, escultor e cinematógrafo George Henry Longly. A partir daí, também merece destaque Sand Dunes, canção inspirada na temática dos refugiados e que começou por ser um instante acústico ao qual foram adicionados elementos percurssivos a cargo de Anna Prior dos Metronomy, assim como Flash Forward, onde se pode escutar além de um sample de um cão, uma melodia e diversos arranjos sintéticos que devem muito à herança da música de dança de final do século passado. Depois, merece também dedicada audição o single Swimming At Night, uma contagiante canção escrita por Mclean em casa dos pais, na Escócia, assente em batidas debitadas por um velhinho sintetizador Roland, uma composição feita com uma dose divertida de experimentalismo e psicadelismo, onde sobressai o piano, as palmas e um refrão que convida inconscientemente ao sorriso e à diversão.

Em suma, Winter's Beach cumpre cabalmente a função lúdica dos Django Django de reforçarem o seu acervo com uma visão mais alternativa e até intimista de uma cartilha sonora que é feita há mais de meia década com uma dose divertida de experimentalismo e psicadelismo, que muitos rotulam como art popart rock ou ainda beat pop, um cardápio de um projeto que merece claramente sentar-se à mesa dos nomes fundamentais da música de dança atual. Espero que aprecies a sugestão...

Django Django - Winter's Beach

01. Winter’s Beach
02. Sand Dunes
03. Swimming At Night
04. Flash Forward
05. Ghost Rider
06. Blue Hazy Highs


autor stipe07 às 14:21
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Domingo, 14 de Outubro de 2018

Palas - Esperança

Já viu a luz do dia Dente de Leão, o registo com seis maravilhosos temas que estreia nas lides discográficas o projeto a solo de Filipe Palas, conhecido pela sua performance em projetos como os Smix Smox Smux e os Máquina del Amor. Para esta sua nova aventura, Palas conta com a ajuda de Tiago Calçada na guitarra, João Costeira na bateria, Filipe Fernandes no baixo e Luis Marques no clarinete, um coletivo que promete muita energia e diversão nos concertos ao vivo.

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Dente de Leão está ainda a ser destrincado pela nossa redação e será alvo de análise minuciosa muito em breve. Para já, e em jeito de aperitivo, sugiro a audição de Esperança, o segundo single retirado do registo, depois de Saltar à Corda. Esperança é uma canção que impressiona pela subtileza da guitarra e pelo modo como a mesma vai, progressivamente, fazendo o tema crescer e ganhar amplitude, garra e rugosidade, uma composição que nos fala de dois mundos diferentes: quando crescemos e tudo o que nos rodeia é seguro e belo, e quando nos deparamos com as dificuldades da vida, as diferenças de valores, educação e personalidades, o jogo da vida sem um árbitro.

Esperança também já tem direito a um vídeo primaveril que acaba numa casa abandonada bastante degradada, a antítese entre as duas particularidades da vida, realizado, editado, filmado e produzido por Bruno Martins,  e tendo como atores Beatriz Vareta e Fernanda Maria. Confere...


autor stipe07 às 22:06
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Sábado, 13 de Outubro de 2018

Flak - Manto Branco

Com uma carreira de mais de três décadas durante a qual incubou e encabeçou bandas tão importantes do universo indie nacional como os Radio Macau ou os Micro Audio Waves, Flak tem também um projeto a solo que começou há exatamente vinte anos com um homónimo que tem finalmente sucessor. Cidade Fantástica é o seu novo registo de originais em nome próprio, um alinhamento de dez canções que irá ver a luz do dia no final deste mês e que foi gravado no mítico Estúdio do Olival, local onde o músico gravou e produziu vários discos, não só das suas bandas, mas também de Jorge Palma, Entre Aspas e GNR, entre muitos outros.

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O primeiro single divulgado de Cidade Fantástica foi a canção Ao Sol da Manhã, tema com direito a um video centrado em ilustrações de Francisco Cortez Pinto, fotografadas e editadas pelo próprio Flak. Agora chegou a vez de ganhar vida Manto Branco, o segundo single do disco, uma música que em si é um delicioso tratado de indie pop, assente numa bateria grave e compassada, uma guitarra em contínuo e inquieto frenesim e teclas com efeitos cósmicos, em suma, uma soul contemplativa que sobrevive num terreno experimental e até psicadélico e onde a fronteira entre a sua heterogeneidade instrumental e melódica e um apenas aparente minimalismo estilístico é muitas vezes indecifrável. Sobre esta composição Manto Branco, o autor refere no seu press release de lançamento:

Manto Branco. Não sei de onde me veio a frase. Manto Branco universo. Across the Universe. Olhar de Falcão. As palavras foram surgindo em simultâneo com a melodia. A segunda estrofe foi escrita mais tarde a partir do nome de uma antiga banda psicadélica brasileira, Perfume Azul do Sol. O vídeo do Vasco Mendes sugere-nos que algo vai acontecer. Por certo nada de bom. Talvez uma premonição. Um sinal dos tempos."

Cidade Fantástica será apresentado ao vivo no Teatro Ibérico, em Lisboa, a oito e nove de Novembro. Confere Manto Branco...


autor stipe07 às 21:37
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Sexta-feira, 12 de Outubro de 2018

Huggs - Did I Cut These Too Short? EP

Duarte Queiroz (voz, guitarra) e Jantónio Nunes da Silva (bateria) são o núcleo duro dos Huggs, dois amigos que se conheceram por acaso na faculdade e que começaram a compôr juntos, inspirados pela energia crua e indisciplinada do panorama underground britânico e pelas baladas românticas típicas dos anos cinquenta e sessenta. A eles junta-se, ao vivo, Guilherme Correia que, depois de assistir a um ensaio, não só se encarregou do baixo como ajudou a produzir e a completar as primeiras canções da banda.

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Os Huggs acabam de estrear-se nos lançamentos com Did I Cut These Too Short?, um EP gravado por Gonçalo Formiga (dos Cave Story) no seu estúdio nas Caldas da Rainha e produzido pelo próprio em conjunto com a banda. Em seis canções que duram pouco mais de dezanove minutos os Huggs oferecem-nos um verdadeiro tratado de rock acessível e bastante melódico, uma filosofia sonora que acaba por entroncar em alguns dos principais detalhes daquele anguloso punk rock nova iorquino que bandas como os The Strokes ou os Yeah Yeah Yeahs ajudaram a cimentar no início deste século, mas onde também não falta uma curiosa pitada garage novecentista, em especial na guitarra, essencial para conceder às composições dos Huggs um charme vintage particularmente luminoso e apelativo.

Canções do calibre de Take My Hand, composição que mistura calorosamente uma áurea romântica com uma tonalidade punk bem vincada, a abrasiva Losing que se debruça sobre as dores de crescimento, a mais nostálgica Find Out e a impressiva Cocaine, composição sobre um psicopata apaixonado e inspirada no icónico músico punk norte-americano Jay Reatard, famoso como artista a solo e como membro de projetos como os Terror Visions, The Reatards e Lost Sounds, falecido aos vinte e nove anos, em dois mil e dez, carimbam de modo indelével a elevada bitola qualitativa de um registo abrigado pela etiqueta portuense Cão da Garagem e que faz dos Huggs uma das mais promissoras bandas portuguesas de garage rock da actualidade. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 20:01
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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018

Thom Yorke – Suspirium

Líder dos Radiohead, verdadeiros Fab Five do novo milénio, não só porque estão criativamente sempre prontos a derrubar barreiras e a surpreender com o inesperado, mas também porque, disco após disco, acabam por estabelecer novos paradigmas e bitolas pelas quais se vão depois reger tantas bandas e projetos contemporâneos que devem o seu valor ao facto de terem este quinteto na linha da frente das suas maiores influências, Thom Yorke está de regresso à atividade musical com a sua participação na banda sonora de Suspiria. Originalmente lançado em 1977, Suspiria, um dos grandes clássicos do cinema de terror, dirigido por Dario Argento, acaba de ser revisto pelas lentes do cineasta italiano Luca Guadagnino e Thom Yorke criou vinte e cinco originais para a banda-sonora, com a colaboração de Sam Petts-Davies, Noah Yorke, Pasha Mansurov e de elementos da Orquestra Contemporânea de Londres, que já participaram em A Moon Shaped Pool.

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Suspirium é o primeiro tema divulgado dessa banda-sonora, uma composição de intensidade crescente, onde um piano se deixa rodear graciosamente pelo típico registo vocal em falsete de Yorke, fazendo-o de modo particularmente sensível e com um toque de lustro de forte pendor introspetivo, recriando, de certo modo, o típico ambiente soturno que este autor tão bem recria no seu projeto a solo há já mais de uma década. Confere Suspirium e o alinhamento de Suspiria, que estará nos escaparates a partir do próximo dia vinte e seis, via XL...

Suspiria

01 A Storm That Took Everything
02 The Hooks
03 Suspirium
04 Belongings Thrown In A River
05 Has Ended
06 Klemperer Walks
07 Open Again
08 Sabbath Incantation
09 The Inevitable Pull
10 Olga’s Destruction
11 The Conjuring Of Anke
12 A Light Green
13 Unmade
14 The Jumps
15 Volk
16 The Universe Is Indifferent
17 The Balance Of Things
18 A Soft Hand Across Your Face
19 Suspirium Finale
20 A Choir Of One
21 Synthesizer Speaks
22 The Room Of Compartments
23 An Audition
24 Voiceless Terror
25 The Epilogue


autor stipe07 às 21:00
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2018

Low – Double Negative

Três anos depois do extraordinário Ones And Sixes, os Low de Alan Sparhawk, Mimi Parker e Steve Garrington voltam a impressionar-nos com a sua pop emotiva e sedutora à boleia de Double Negative, o décimo segundo e mais recente disco deste grupo norte americano oriundo de Duluth, onze canções abrigadas pela Sub Pop Records e que constituem outro marco significativo na carreira de um projeto ímpar do indie rock e da dream pop atuais.

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Por norma, escutar um disco dos Low nem sempre é um exercício à primeira audição reconfortante e aprazível, já que estamos na presença de um grupo que prima pela construção de um som negro e potenciador no modo como suscita a vinda à tona de alguns dos receios, dores e angústias que todos nós guardamos, de forma mais ou menos disfarçada, no nosso âmago. No entanto, há algo de viciante nesta espécie de terapia, um magnetismo óbvio, porque acabamos por perceber que já que foram desencadeadas determinadas memórias menos aprazíveis ao som dos Low, podemos aproveitar o momento para exorcizar alguns desses demónios, porque a música deles também tem esse lado em que luz e positivismo encontram forma de se mostrar, mesmo que o façam de uma forma algo inesperada. E a receita para que tal suceda está mais ou menos bem definida; É uma fórmula sonora que esconde no seu seio uma pancada seca e certeira numa pop paciente e charmosa, nas asas de uma fidelidade quase canónica à lentidão melódica, ao charme da guitarra e à capacidade que o uso assertivo de agudos e falsetes na voz têm de colocar em causa todos esses cânones e normas que também definem, quer queiramos quer não, alguns dos pilares fundamentais da nossa interioridade.

Mantendo-se em Double Negative toda esta filosofia de edificação sonora, os Low acabaram, no entanto, por subverter um pouco a componente prática da mesma porque, preservando estes ideais, optaram, desta vez, por um modus operandi que privilegiou o caos, o rugoso, a distorção e o ruído em detrimento da limpidez sonora e da habitual minúcia melódica, presentes nos últimos registos dos Low, nomeadamente o já referido Ones And Sixes e o muito recomendável C'mon de dois mil e onze. Nas guitarras plenas de reverb e no efeito vocal ecoante de Quorum e de Dancing and Blood e nas asas do eco e do ruído hertziano que fazem levitar Poor Sucker, assim como na cadência subtil das camadas instrumentais que suportam a melódica Dancing and Firetestemunhamos toda esta reconfiguração estilística, um caos que é apenas aparente e que serve na perfeição para fazer passar sensações como isolamento e angústia, transversais, como já referi, à carreira discográfica deste projeto.

Double Negative contém, pois, e como seria de esperar, um alinhamento que personifica sonoramente um desfile intenso de emoções. É um disco que jorra sentimentos por todos os seus acordes, podendo-se mesmo falar em poros, porque, de acordo com a descrição do primeiro parágrafo, esta é uma música que, mesmo apresentado-se com uma tonalidade mais experimental e imprevisível, transmite, com o habitual impressionismo dos Low, determinadas sensações físicas tácteis, nem sempre passíveis de apurado controle pelo nosso lado mais racional. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Quorum
02. Dancing And Blood
03. Fly
04. Tempest
05. Always Up
06. Always Trying To Work It Out
07. The Son, The Sun
08. Dancing And Fire
09. Poor Sucker
10. Rome (Always In The Dark)
11. Disarray


autor stipe07 às 17:15
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2018

Sons Of Kemet - Your Queen Is A Reptile

Your Queen Is a Reptile é o terceiro álbum do grupo britânico de jazz Sons of Kemet, um coletivo incubado em dois mil e onze e atualmente formado Shabaka Hutchings, Tom Skinner, Theon Cross e Eddie Hick. O grupo costuma servir-se do saxofone e do clarinete, instrumentos de sopro tocados por Hutchings, da tuba de Cross e de um exemplar trabalho de percurssão a cargo de Skinner e Hich para oferecer-nos um som que mistura o melhor do jazz, com alguns dos principais arquétipos do rock, da folk caribenha, do dub, da tropicalia e da música africana de cariz mais tradicional.

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Your Queen Is A Reptile é uma referência direta à rainha de Inglaterra e à coroa britânica, assim como as notas da capa do disco. O objetivo do grupo é denunciar um ponto de vista, segundo o qual a atual monarca britânica não representa os imigrantes negros e não os vê como humanos, discriminando-os racialmente. Assim, nas nove canções do registo, o coletivo serve-se de cada uma das composições para homenagear figuras femininas de relevo, todas reais e com histórias de vida conturbadas, que subiram a pulso e que os Sons Of Kemet assumem ser as mulheres que realmente lhes importam e que regem as suas vidas.
Produzido pelo próprio Shabaka Hutchings, Your Queen Is A Reptile tem como grande motor melódico o saxofone deste músico, instrumento que depois vai suscitar nos restantes elementos sonoros a inserção de arranjos e detalhes que vão dar corpo a composições sempre com uma tonalidade grave, bastante encorpada e tremendamente ritmada. 
Assim, só para citar alguns exemplos e deixando de lado a terminologia inicial My Queen Is, se em Angela Davis, canção que homenageia uma filósofa norte americana comunista acusada injustamente de matar um juiz na época de militância pelos Panteras Negras, na década de sessenta, presente-se os perigos e a perseguição que lhe foi movida através da gravidade da tuba, já em Mamie Phips Clark, uma psicóloga ativista que estudou a autoestima de crianças negras também nessa década, assistimos a uma espiral frenética que mistura dub e rock psicadélico, um efeito potenciado por uma superior performance na bateria. Depois, a coragem e a energia ativista da espiã do tempo da Guerra Civil americana, Harriet Tubman, um rosto recente das notas de vinte dólares e que se notabilizou por levar a cabo missões que libertaram centenas de escravos, é personificada pela modo ágil e virtuoso com que a melodia ganha vida com superior homogeneidade, através dos melhores recursos de todo o arsenal instrumental dos Sons Of Kemet.

Your Queen Is A Reptile tira do anonimato contemporâneo personagens que tiveram os seus momentos de dor, mas também de glória e de reconhecimento, mesmo que póstumo e cujos ideais que defenderam acabam por ser ainda muito atuais, num mundo que continua a não saber respeitar a diferença e as minorias. Numa Inglaterra aristocrática, a viver o Brexit em pleno, com uma certa fobia relativamente aos imigrantes e onde a Monarquia sempre mostrou um posicionamento político algo conservador, este disco faz ainda mais sentido, sendo um exercício claramente recompensador pesquisar acerca destas mulheres constestatárias de sistemas vigentes quase sempre impostos à força e depois relacioná-las com a abordagem sonora que os Sons Of Kemet criaram para lhes dar vida, cor, ritmo e voz. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 10:40
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2018

Sharon Van Etten – Comeback Kid

Sharon Van Etten - Comeback Kid

Quase meia década depois do excelente e melancólico Are We There, e com o nascimento de uma filha pelo meio e a participação nas séries The OA e Twin Peaks como atriz, Sharon Van Etten vai regressar no início do próximo ano aos discos com um trabalho intitulado Remind Me Tomorrow. Esse disco com dez temas será o quinto alinhamento da carreira da autora e compositora norte americana, natural do Tennessee e Comeback Kid é o primeiro single divulgado do registo.

Sempre resistente, inventiva e apaixonada, em Comeback Kid Sharon Van Etten volta a surpreender-nos com a sua voz inconfundível e a sua capacidade única de conseguir fazer-nos crer na nossa capacidade de perseguirmos os nossos sonhos mais verdadeiros, neste caso através de um tema repleto de energia e emotividade. É uma canção que instrumentalmente impressiona pela inserção de uma vertente sintética, algo inédita na carreira da Etten, um detalhe que palpita uma notória sensação instintiva, como se ela tivesse deixado mais uma vez fluir livremente tudo aquilo que sente e a inspira e assim potenciar a possibilidade de nos emocionar genuinamente. Confere...


autor stipe07 às 14:07
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