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Kumpania Algazarra - Let's Go (Dr. Fre & Sam Rabam remix)

Sexta-feira, 27.11.20

O coletivo Kumpania Algazarra é exímio a criar música que celebra a vida, os afectos e a partilha de um mesmo céu, um mesmo planeta e um mesmo amor. Nasceram nas ruas de Sintra em dois mil e quatro e, sendo saltimbancos por natureza e filhos da rua por destino, é ao vivo que mostram sempre toda a sua potência máxima, pondo toda a gente a dançar, nos quatro cantos do mundo. Na verdade, já atuaram em diversos países, como a Bélgica, Itália, Suíça, Brasil, França, Espanha, Macau, Reino Unido e Sérvia, entre tantos outros.

Kumpania Algazarra… Tour “Let's Go” a fazer a festa de norte a sul do país  – Glam Magazine

Os Kumpania Algazarra trazem tatuadas na pele influências musicais de todas as cores, formas, geografias e latitudes, do ska ao folk, dos ritmos latinos ao funk e ao afro, do reggae às inebriantes melodias dos Balcãs. A comemorar quinze anos de vida e para assinalar a data, a banda gravou o álbum ao vivo Live onde reúnem temas de todos os discos editados até ao momento. Agora, no início de dois mil e vinte e um, preparam o lançamento do álbum Remixed Vol. 2, um compêdio de remisturas produzidas por diversos artistas nacionais e internacionais durante o período de reclusão da pandemia. Para materializar o álbum, resolveram pôr termo ao sossego de vários produtores nacionais e internacionais e convidaram-nos a reinventar um tema à sua escolha pertencente aos vários álbuns da banda.

Para assinalar a divulgaçáo do lançamento deste registo de remisturas, os Kumpania Algazarra já nos deram a conhecer uma das remisturas, a do clássico da banda Let's Go. O original foi revisitado por Dr. Fre & Sam Rabam, produtores belgas que têm trabalhado sobretudo com electro swing, balkan beat e house music. Combinando batidas modernas com melódicas clássicas dos Balcãs, estes produtores tornaram-se nomes de referência no panorama europeu de balkan beats. O videoclipe da remistura foi gravado por João Guimarães na mítica discoteca 2001 - Catedral do Rock no Autódromo do Estoril. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:16

Silente - Ninguém Tem de Saber

Segunda-feira, 09.11.20

Silente é um novo projeto nacional assinado por Miguel Dias (ex-Rose Blanket) e Filipa Caetano, um novo nome a ter em conta no nosso panorama sonoro alternativo e que acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com um charmoso trabalho homónimo, gravado na última meia década, entre o Mindelo e Figueiró dos Vinhos, período durante o qual o gosto pela experimentação contribuiu para alongar, sem pressas, todo o processo criativo. Masterizado por Miguel Pinheiro Marques (Arda Recorders), Silente conta com a colaboração do escritor e poeta Frederico Pedreira, que assina as letras das canções da dupla, mas também de Miguel Ângelo na bateria e de Miguel Ramos no baixo.

Silente… novo projecto de Miguel Dias lança single “Em Espera” – Glam  Magazine

Silente remete-nos para a ideia de silêncio e, num encadeamento algo grosseiro, do silêncio podemos passar ao sossego e daí à contemplação, que pode ser reflexiva, ou não. Caso seja, dúvidas poderão levantar-se, com elas é bem possível que surja o caos e, caso se consiga lidar com ele, reordenam-se as ideias, surgem novos objetivos, sonhos e projetos e, assim, irrequietos, avançamos rumo a novas aventuras e realizações pessoais. Silente, o disco, intenso e sensorial, tem tudo isto na sua bagagem, carrega consigo a doutrina, dá-nos as pistas e ainda, qual cereja no topo do bolo, serve como banda sonora para a demanda. A mesma sustenta-se numa simbiose bastante criativa entre a típica folk encharcada de nuances eminentemente clássicas e o cru e impaciente indie rock, sempre em busca de sonoridades plenas de charme e contemporaneidade, mas que também não descuram a bizarria experimental, pronta a explorar as cada vez mais ténues fronteiras entre o orgânico, acústico ou elétrico e o sintético, contemplativo ou ruidoso, fazendo-o de forma indesmentivelmente inovadora e sedutora.

Ninguém Tem de Saber, o mais recente single extraído do registo, é um claro exemplo de toda esta trama, uma canção eminentemente pop e na qual prevalece o gosto pela experimentação e a procura duma sonoridade única e irrepetível. O tema tem como base um teclado ligado a pedais de guitarra, enquanto que a tabla, um instrumento de percussão de origem indiana, tem numa das duas pistas com que foi gravada, um delay associado. Confere...

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publicado por stipe07 às 10:12

Noiserv – Uma Palavra Começada Por N

Sexta-feira, 06.11.20

Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional e um dos artistas queridos da nossa redação chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na sua bagagem um já volumoso compêndio de canções, que começaram a ser inscritas nos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's There. No outono de dois mil e dezasseis a carreira do músico ganhou um novo impulso com um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas que se tornou, justificadamente, mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional. Agora, quatro anos depois dessa pérola debitada quase integralmente nas teclas de um piano, Noiserv regressa com Uma Palavra Começada Por N, onze lindíssimas composições que, em pouco mais de meia hora, nos oferecem um David Santos de regresso a territórios sonoros mais intrincados, subtis e diversificados, com o registo, no seu todo, a proporcionar-nos um banquete intenso e criativo e a impressionar pelo modo como diferentes naunces, detalhes e samples se entrelaçam quase sempre com uma base melódica algo hipnótica, mas extremamente doce e colorida.

Noiserv - Caixa de música ONZE - man on the moon

Gravado no no seu novo estúdio A Loja e com alguns dos temas a terem já direito a excelentes vídeos que resultam de uma colaboração com os leirienses Casota Collective, Uma Palavra Começada Por N  marca também o regresso de Noiserv à língua de Camões, nomeadamente no modo como se serve da mesma como elemento estético fundamental das suas canções. De facto, a excelência melódica que faz já parte do adn deste músico e compositor lisboeta é aqui exemplarmente acompanhada por inquietantes letras que, sendo devidamente esmiuçadas, gostam de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera que as coisas mais simples desta vida nos podem proporcionar e a realidade às vezes tão crua, porque temos sempre a tendência natural para a complicar, um detalhe que ele soube, de novo, tão bem descrever, por exemplo, nas estrofes de Picotado (Regressa sempre em pressa, só por estar, Mas volta nessa vida torta, uma dança pouco solta, Picotado até lugar nenhum, Sempre só, sempre), ou de Neste Andar (As portas passavam sempre aos pares, Enquanto eu, só, encenei tudo, encenei tudo), apenas dois de vários outros exemplos que eu poderia trazer à baila para justificar esta minha opinião.

Mas há outras conclusões que são possíveis de extraír deste registo, além do notável avanço que o mesmo expressa relativamente à performance do autor como poeta e escritor e que, além das duas canções citadas, também em temas como Eram 27 Metros De Salto ou Neutro atinge picos de excelência. Olhando agora para a vertente sonora do alinhamento de Uma Palavra Começada Por N, uma das notas mais evidentes é que este músico e produtor, que ao longo da carreira tem açambarcado para a sua bagagem mental, com indelével e vincado carimbo, imensa herança sonora da vasta míriade de latitudes audíveis na indie contemporânea, desde, principalmente, o estupendo Almost Visible Orchestra (2013), um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcancou, três anos depois, laivos de excelência através das burilações exacerbadas que sustentaram as sequências ao piano de 00:00:00:00 (2016), agora alargou os seus horizontes, com superior mestria. Uma Palavra Começada Por N estabelece pontes entre aquilo que é definido como o orgânico e o acústico com o universo que geralmente carateriza aquela eletrónica de cariz mais ambiental, uma simbiose também sempre patente nas suas atuações ao vivo, em que é cada maior e mais intrincada a pafernália instrumental que o rodeia. De facto, este trabalho parece querer mostrar que Noiserv não receia minimamente que as suas criações possam depender, mais do que nunca, de todo um vasto catálogo de ligações de fios e transistores que debitam um infinito catálogo de sons e díspares referências, nem de encontrar o seu espaço particular dentro da vanguarda eletrónica que define muita da música atual, porque, ao mesmo tempo e também sossegando de algum modo os mais seus seguidores mais puristas, o disco está também repleto de momentos em que são as cordas e o piano quem ditam as regras e sobem ao trono sagrado no arquétipo sonoro desses mesmos instantes.

Assim, se no início algo subversivo, imersivo e singular de < i >, relativamente à herança de Noiserv, se percebe que em Uma Palavra Começada Por N pouco ou nada do que vamos escutar será facilmente comparável ao que já conferimos deste artista anteriormente, o crescente teclado hipnótico, a percurssão frenética e as delicadas inserções vocais que conduzem a já referida Eram 27 Metros De Salto, o majestoso clima borbulhante de Meio, assim como a indescritível montanha-russa de flashes, efeitos e interseções que se vão sobrepondo em Mas e que criam laços indeléveis com as cordas em Parou, amplificam tal audácia progressiva e fazem-no, ainda por cima, de modo profundamente emotivo e cinematográfico. Noiserv mostra-se, logo nesta primeira metade do disco, um genuíno e incomparável manipulador do sintético, um génio inventivo que converte tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico, mesmo que a tal nuvem minimal, nunca o traia, porque não fica. em nenhum instante, para trás.

No entanto, a partir daí,  na pueril melancolia afetiva a que sabe o piano que nos embala em Picotado, uma das canções mais bonitas de dois mil e vinte, no doce e tocante travo de Neste Andar e no arrojado psicadelismo das cordas que inflamam o manto sintético que abraça Neutro, percebemos que Noiserv mantém sempre, na tal interessante dicotomia em que agora subsiste e que é única no cenário alternativo nacional, um intenso charme, induzido por uma filosofia interpretativa que, mesmo tendo por trás um infinito arsenal instrumental, nunca abandona aquele travo minimalista, pueril, orgânico e meditativo que carateriza o cardápio sonoro deste músico único.

Em suma, não tendo qualquer tipo de preocupação explícita por compôr de modo particularmente comercial e acessível, o que desde logo é um enorme elogio que pode ser feito em relação a este autor, Noiserv deixa-se apropriar de todo o arsenal tecnológico que permite que seja colocado à sua disposição e torna-se ele próprio parte integrante do mesmo que, abraçando o músico, consome-o e dele se apropria. É por Noiserv não ter medo de se deixar enlear e possuir pelas opções instrumentais que toma, que as suas canções ganham a alma e o elo de ligação com a humanidade, que as carateriza, um desejo ardente que sempre o conduziu artisticamente, até porque, em entrevista dada ao nosso blogue há já sete anos, na ressaca de Almost Visible Orchestra, Noiserv confessou-nos que tem como único desejo que as suas músicas possam um dia fazer parte da vida de quem as ouve. O rumo evolutivo que o músico resolveu seguir em Uma Palavra Começada Por N, mostra que está, definitivamente, no bom caminho para atingir esse seu ardente desejo pessoal, suportado em músicas que, além de serem uma intensa fonte de prazer sonoro, têm cheiro, cor e sabor únicos no cenário musical alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Noiserv - Uma Palavra Começada Por N

01. < i >
02. Eram 27 Metros De salto
03. Mas
04. Parou
05. Meio
06. Picotado
07. Neste Andar
08. Neutro
09. Sem Tempo
10. Por Arrasto
11. Sempre Rente Ao Chão

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publicado por stipe07 às 14:12

Kevin Morby - Sundowner

Quinta-feira, 05.11.20

Foi em dois mil e dezanove que Kevin Morby nos presenteou com Oh My God, um compêndio de catorze excelentes canções que exploravam até à exaustão o conceito de religiosidade, em temas como OMG (abreviatura de Oh My God)Congratulations, canção em que eram audíveis várias mulheres de diferentes idades a pedir a Deus por misericórdia, ou Sing A Glad Song, canção que evocava as qualidades de um Deus chamado Bob Dylan, só para citar alguns exemplos de um trabalho que foi muito bem aceite pela crítica e que assentava numa folk rock de primeira água.

Kevin Morby on the Midwestern romance behind Sundowner | The FADER

Esse registo Oh My God já tem sucessor, um trabalho intitulado Sundowner, o sexto da carreira do músico natural de Lubbock, no Texas e que começou a ser gravado depois de Morby ter regressado aos arredores de Kansas City, após uma temporada em Los Angeles. Esse regresso a casa, a relação com a também cantora e compositora Katie Crutchfield, do projeto Waxahatchee e a realidade pandémica atual acabam por definir o triângulo filosófico de um trabalho que também tem o propósito de colocar a América mais profunda no centro das atenções, de acordo com o próprio Morby (Sundowner is a attempt to put the Middle American twilight, its beauty profound, though not always immediate, into sound).

Não será por acaso que Don’t Underestimate Midwest American Sun é a canção preferida de Morby deste Sundowner, uma relato impressivo e clarividente de uma América claramente dividida entre dois pólos e que talvez, no campo musical, tenha na típica folk o instrumento mais eficaz de busca de pontes entre tão vincado antagonismo (Don’t Underestimate Midwest American Sun is my favorite song off of the new album, and the one I’m most proud of. I consider space to be a prominent instrument on the song, and here it is as important as anything else you hear on the track. It was my goal to capture the vast openness of the middle American landscape sonically. To this end, there is a whole track of nothing but Texas air, birds and wind chimes living beneath the song).

Wander, uma composição intensa e com aquele travo típico da melhor folk norte-americana, tendo já direito a um vídeo filmado nas proximidades de Kansas e que mostra a já referida Katie Crutchfield a conduzir uma carrinha de caixa aberta por uma estrada vazia, é uma espécie de apelo sentido de Morby à reconciliação, uma canção conduzida por uma viola acústica e bastante melancólica e climática, mas intensa e com uma amplitude muito vincada, fazendo juz à descrição da mesma, feita por Morby e transcrita acima.

De facto, Kevin Morby vem, disco após disco, aprimorando um modus operandi bem balizado, que se define por opções líricas em que dominam ambientes nublados, intimistas e reflexivos e um catálogo sonoro emimentemente delicado e fortemente orgânico, sem artifícios desnecessários, ou uma artilharia instrumental demasiado intrincada. E é este, claramente, o travo geral de Sundowner, um disco minimalista, que procura a interação imediata, mas também profunda, com o ouvinte e que tem no piano e nas cordas as armas de arremesso preferenciais.

Temas como a sussurrante e melancólica A Night at the Little Los Angeles, a etérea e contidaValley, ou a já citada Wonder, assim como a emotiva Campfire, são, além de outras canções acima descritas, a prova cabal de que Kevin Morby é sagaz no modo como vai, disco após disco, subindo degraus no que concerne ao conteúdo qualitativo dos seus registos, fazendo-o com segurança e altivez, nunca beliscando uma apenas aparente dicotomia entre aquilo que é a grandiosidade da sua filosofia criativa e o modo minimal, simples e direto como a expôe, através de canções repletas de beleza, sensibilidade e conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Kevin Morby - Campfire

01. Valley
02. Brother, Sister
03. Sundowner
04. Campfire
05. Wander
06. Don’t Underestimate Midwest American Sun
07. A Night At The Little Los Angeles
08. Jamie
09. Velvet Highway
10. Provisions

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publicado por stipe07 às 20:50

Helado Negro – Lotta Love

Quarta-feira, 04.11.20

O projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, um filho de emigrantes equatorianos, radicado nos Estados Unidos, começa em grande estilo a sua caminhada ao lado da etiqueta 4AD, para onde se transferiu recentemente, dando as mãos à cantora e compositora Jenn Wasner, que assina as suas obras sonoras como Flock of Dimes e a Devendra Banhart, para assinarem, em conjunto, uma versão do clássico Lotta Love de Neil Young.

Helado Negro

Na versão, assente em em cordas de elevado pendor acústico e com alguns detalhes sintéticos que recriam uma espécie de eletrónica em forma de dream pop de cariz lo fi e etéreo e que recria, no geral, um ambiente particularmente intimista e acolhedor e que encarna na perfeição o espírito muito particular e simbólico do original de Young, Lange, procurou respeitar a essência do tema, mas procurou também deixar a sua habitual marca de espiritualidade que e uma imagem de marca destw músico latino, conforme o proprio confessa (I was captivated by the song’s sincerity and wondered how to make a version that compelled you to step closer to the words. I wanted it to be hymnal and spiritual outside of religion. I interpreted the theme of the song to be about protection. How do we protect each other? Creating this version helped me find some sonic respite and hopefully it does the same for others). Confere...

Helado Negro - Lotta Love

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publicado por stipe07 às 21:02

This Is The Kit - Off Off On

Segunda-feira, 02.11.20

Os This Is The Kit da britânica Kate Stables estão de regresso aos discos com Off Off On,  sucessor do belíssimo registo Moonshine Freeze, que viu a luz do dia em dois mil e dezassete. Off Off On foi produzido pelo extraordinário multi-instrumentista Josh Kaufman dos Bonny Light Horseman que, como certamente se recordam, faz parte do projeto MUZZ, juntamente com Paul Banks dos Interpol e Matt Barrick dos The Walkmen, que se estreou nos álbuns com um homónimo no final da passada primavera.

This Is the Kit Announces LP Off Off On, Streams "This Is What You Did" |  Consequence of Sound

Off Off On é mais um documento notável no modo como retrata a já mítica expressividade lírica de Kate Stables, que também pode ser catalogada de poeta, além de compositora e cantora. De facto, não faltam exemplos neste novo álbum dos This Is The Kit que comprovam a sua imensa habilidade com as palavras e o modo como se consegue servir delas, sem usar um vocabulário intrincado, para pincelar emoções e vivências. Basta conferir a inspiradora e confessional Starting Again (Carefully you must build it up again, Steadily you must fall apart) ou a dramatização que é encenada sem pudor algum em This is What You Did (This is what they want, why are you still here? This is what they said, this is what you get,) para se perceber como Stables é notável a escrever letras bastante impressivas no modo como nos afagam com verdadeiras novelas, reais ou fictícias, pouco importa, sobre a sua intimidade, que pode ser muito bem também a nossa. Esta é, desde sempre, uma das imagens de marca deste projeto This Is The Kit, que nunca deixou de nos brindar com inspirados retratos melódicos de uma contemporaneidade cada vez mais conturbada e, também por isso, fértil no modo como suscita a criação de uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades, dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual.

Para dar vida e cor às histórias que nos quer contar, Stables olha com gula para as cordas, faz delas o seu trunfo maior no processo de construção das canções e, aliando à viola e à guitarra uma vasta míriade de recursos percurssivos e inspirados sopros, com o trompete neste disco a tornar-se peça fulcral de várias composições, sustenta um adn sonoro com elevado travo indie. Em toda esta trama interpretativa, do rock alternativo à folk, é vasta a amplitude e abrangência do catálogo disponibilizado num registo com onze canções feitas, no seu todo, de toda esta combinação etérea de superior calibre, reservada e contida em alguns momentos, mas também iluminada e vibrante noutros, sempre na medida certa e, no global, inultrapassável no caudal de emoções que arrasta à sua passagem.

Off Off On é, pois, um disco onde intensidade sentimental e sobriedade instrumental se juntam, para permitir que, ao longo da sua audição, nos possamos sentir profundamente tocados por uma nobreza única, que arrebata e salpica com suores quentes todos os poros do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

This Is The Kit - Off Off On

01. Found Out
02. Started Again
03. This Is What You Did
04. No Such Thing
05. Slider
06. Coming To Get You Nowhere
07. Carry Us Please
08. Off Off On
09. Shinbone Soap
10. Was Magician
11. Keep Going

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publicado por stipe07 às 17:24

Ailbhe Reddy - Walk Away

Domingo, 01.11.20

Uma das estreias discográficas mais interessantes deste outono foi o álbum de estreia da irlandesa Ailbhe Reddy, uma jovem artista de Dublin, estudante de psicoterapia. O registo intitula-se Personal History e continua fazer furor no mainstream alternativo europeu, devido ao seu conteúdo íntimo e introspetivo.

Ailbhe Reddy conta-nos um pouco sobre si em Personal History ~ Threshold  Magazine

Personal History é um disco recheado de excelentes canções que ruminam os ritos de passagem de uma mulher exímia a escrever sincera e honestamente sobre si própria, navegando autobiograficamente pelas agruras das relações amorosas mal sucedidas nesta era em que impera a lei das redes sociais (Looking Happy), mas que também sentiu necessidade de exalar aquilo que sente acerca da habitual dualidade de sentimentos, entre a solidão e a independência, que muitas vezes um artista sente em digressão (Time Difference), além de revelar explicitamente e sem pudores a sua orientação sexual (Between Your Teeth e Loyal).

São já vários os singles extraídos de Personal History, sendo o mais recente Walk Away, uma composição que tem a eletrónica em pano de fundo, mas sem descurar a orgânica das cordas que, neste caso, abraçam até a mais inspirada acusticidade, enquanto Ailbhe Reddy se debruça sobre como enfrentar os medos do compromisso, como a própria confessa. Confere...

Walk Away is about ending a relationship with a lot of uncertainty. I think in most relationships when two people still care about each other it is more difficult to end things, it can feel like the only option but also like something you may come to regret.

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publicado por stipe07 às 18:01

Bright Eyes – Miracle Of Life

Quinta-feira, 29.10.20

Com a participação especial de Phoebe Bridges, Miracle Of Life é a mais recente novidade do coletivo Bright Eyes, que há alguns meses quebrou um hiato de quase uma década com o registo Down In The Weeds, Where The World Once Was, um álbum urgente, que reflectia sobre o nível apocalíptico de ansiedade dos nossos dias e dedicado ao irmão de Conor Orbest, o líder deste projeto, tragicamente desaparecido em 2016. Refiro-me, portanto, a um coletivo norte-americano encabeçado pelo já referido compositor e guitarrista Conor Oberst, ao qual se juntam, atualmente, o produtor e multi-instrumentista Mike Mogis, o trompetista e pianista Nate Walcott e vários colaboradores rotativos, vindos principalmente do cenário musical indie de Omaha. No caso deste tema, o baixista Flea dos Red Hot Chili Peppers e o baterista John Theodore dos Queens Of The Stone Age também contribuem para o seu conteúdo, juntamente com a já citada Phoebe Bridges.

Bright Eyes lança "Miracle Of Life" para defender a saúde pública nos EUA

Miracle Of Life é um portento de indie rock onde sobressai um incrível e enleante jogo de sedução entre as teclas e as cordas, gizado por uma secção rítmica bem vincada. É uma composição onde abundam diversificados arranjos, marcados pelo uso de pequenas orquestrações e que tem o propósito bem claro de aletar para a problemática da legislação sobre o aborto, em vigor nos Estados Unidos da América e dos direitos de quem o quer fazer. Todos os dividendos obtidos pelos Bright Eyes com a venda desta canção no bandcamp do grupo, vão direitinhos para a conta da organização Planned Parenthood. Confere...

Bright Eyes - Miracle Of Life

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publicado por stipe07 às 18:07

Wye Oak – No Horizon EP

Terça-feira, 20.10.20

Foi há já algumas semanas que os infatigáveis Wye Oak nos ofereceram No Horizon, um novo EP desta dupla de Baltimore formada por Jenn Wasner e Andy Stack. Mestres da folk e do indie rock, mas com um cardápio sonoramente cada vez mais eclético, suportado por uma sólida carreira de pouco mais de uma década cujos maiores trunfos são a belíssima voz de Jenn e o magnífico trabalho instrumental de Andy, os Wye Oak têm solidificado, nas suas últimas propostas discográficas, nomeadamente o disco de dois mil e dezoito,The Louder I Call, The Faster It Runs, uma opção clara por sonoridades mais contemporâneas e direcionadas, essencialmente, para cruzamentos entre a pop e a eletrónica. Assim, fiéis à natureza maleável da banda, os Wye Oak convidaram o Brooklyn Youth Chorus, um coro gigantesco que empresta uma dose de grandiosidade instantânea a tudo aquilo em que mexe e criaram, todos juntos, um alinhamento de cinco temas exemplarmente ornamentados e imponentes e meticulosamente traçados de modo a oferecer ao ouvinte o máximo impacto orquestral possível.

WYE OAK share second track from 'No Horizon EP' - Werkre

No Horizon é, do princípio ao fim, sobre a linguagem e o poder de comunicar. É um alinhamento de assumido confronto com a autoridade politica vigente no país de origem da dupla, que pensa ter a capacidade de minimizar a nossa existência e remover as palavras que usamos. No entanto, os Wye Oak consideram que a linguagem é um poder maior do que  aqueles que a tentam controlar e que somos muito maiores que a linguagem e do que qualquer coisa que possa ser sugerida com palavras. A visão caleidoscópica que os Wye Oak têm da eletrónica atual e que é audível em AEIOU, o tema que abre o alinhamento deste EP, gira em redor deste conceito e explica-o com superior requinte. No ocaso do disco, o grito de revolta da dupla em relação ao status quo vigente é rematado com tremenda inteligência e subtileza em Sky Witness, uma aconchegante imensidão de cordas, teclas e diversos fragmentos samplados, agregados em redor de um fluído de elevado travo orgânico (When the world is just a concept, everything has hidden meaning). Pelo meio, outro grande destaque vai para No Place, canção que reforça essa aposta em sonoridades de forte pendor sintético, apesar da tal filosofia rock que esteve sempre subjacente ao adn dos Wye Oak. É uma canção assente numa salutar confusão sonora muito experimental e apelativa e que originou uma atmosfera sonora simultaneamente íntima e vibrante, que se debruça sobre a fronteira que existe entre a nossa dimensão corporal e biológica e a nossa dimensão metafísica e como muitas vezes as pessoas, recentemente mais direcionadas para profissões que exigem o uso predominante da mente e do pesamento, se esquecem do seu lado físico, descurando o bem estar dessa sua dimensão orgânica.

No Horizon é, em suma, um espelho dos tempos em que vivemos, um modo eloquente mas também intrigante de demonstrar a nossa incapacidade de percebermos que é muito pouco aquilo que controlamos realmente do nosso destino, quando comparado com aquilo que pensamos e ansiamos controlar. Ter essa perceção é meio caminho andado para uma existência mais livre e feliz, uma recomendação que nos é oferecida em bandeja de ouro por uma banda rara no modo como se reinventa em cada novo lançamento e que tem claramente ainda intacta a sua já mítica capacidade de nos surpreender constantemente. Espero que aprecies a sugestão...

Wye Oak - No Horizon

01. AEIOU
02. No Place
03. Spitting Image
04. (Cloud)
05. Sky Witness

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publicado por stipe07 às 13:24

Silente - Silente

Quarta-feira, 14.10.20

Silente é um novo projeto nacional assinado por Miguel Dias (ex-Rose Blanket) e Filipa Caetano, um novo nome a ter em conta no nosso panorama sonoro alternativo e que acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com um charmoso trabalho homónimo, gravado na última meia década, entre o Mindelo e Figueiró dos Vinhos, período durante o qual o gosto pela experimentação contribuiu para alongar, sem pressas, todo o processo criativo. Masterizado por Miguel Pinheiro Marques (Arda Recorders), Silente conta com a colaboração do escritor e poeta Frederico Pedreira, que assina as letras das canções da dupla, mas também de Miguel Ângelo na bateria e de Miguel Ramos no baixo.

Silente | Silente

Silente remete-nos para a ideia de silêncio e, num encadeamento algo grosseiro, do silêncio podemos passar ao sossego e daí à contemplação, que pode ser reflexiva, ou não. Caso seja, dúvidas poderão levantar-se, com elas é bem possível que surja o caos e, caso se consiga lidar com ele, reordenam-se as ideias, surgem novos objetivos, sonhos e projetos e, assim, irrequietos, avançamos rumo a novas aventuras e realizações pessoais. Silente, o disco, intenso e sensorial, tem tudo isto na sua bagagem, carrega consigo a doutrina, dá-nos as pistas e ainda, qual cereja no topo do bolo, serve como banda sonora para a demanda. A mesma sustenta-se numa simbiose bastante criativa entre a típica folk encharcada de nuances eminentemente clássicas e o cru e impaciente indie rock, sempre em busca de sonoridades plenas de charme e contemporaneidade, mas que também não descuram a bizarria experimental, sempre pronta a explorar as cada vez mais ténues fronteiras entre o orgânico, acústico ou elétrico e o sintético, contemplativo ou ruidoso, fazendo-o de forma indesmentivelmente inovadora e sedutora. Se há discos do panorama nacional obrigatórios em dois mil e vinte este é um deles, claramente. Espero que aprecies a sugestão...

Bandcamp: https://silente.bandcamp.com/

Facebook: https://www.facebook.com/BSilente

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publicado por stipe07 às 18:39






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