Terça-feira, 14 de Agosto de 2018

daguida - Fico Louco

Yuran, João Pedro e António Serginho são os daguida, um trio oriundo de Santa Maria de Lamas e já com dezoito anos de história. Depois de todo este tempo, apresentaram-se finalmente ao grande público, na passada primavera, com a sua primeira publicação oficial nas redes digitais, um tema intitulado Passageiro e o respetivo vídeo de promoção, realizado pela produtora Dawn Pictures. Agora chegou a vez de divulgarem Fico Louco, uma música de Verão com ritmo dançável e energia bem-disposta, disponível nas plataformas de streaming e no Youtube em formato vídeo-letra. Pode também ser descarregada gratuitamente no bandcamp da banda. O passo seguinte será a edição deste single em vinil e depois virá o álbum de estreia, lá para 2019, estando prevista a abertura de uma campanha de crowdfunding para financiar a sua gravação.

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Edição de autor com o apoio da Revolução d’Alegria Associação, produzida por Nuno Mendes e gravada no El Estúdio, no Centro Comercial Stop, Porto, esta canção é um tema com fortes raízes na música tradicional africana mais extrovertida, com os sopros e os elementos percussivos a conferirem ao tema uma vivacidade ímpar. Luminosa e exuberante e escorreita na melodia, Fico Louco brinca, de acordo com os daguida, com referências ligadas ao universo do futebol e às táticas de engate para reforçar ideias como a confiança e a determinação de quem “vai a jogo”. Confere...


autor stipe07 às 11:26
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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2018

Elephant Micah – Genericana

Os norte-americanos Elephant Micah de Joe O'Connell, Matt O'Connell, Jason Evans Groth e Zeke Graves estão de regresso aos discos com Genericana, seis canções misturadas por Scott Hirsch e masterizadas por Carl Saff e capazes de nos enredar de modo particularmente hipnótico num universo que tendo tanto de alienigena como de alucinogénico. É um disco que comprova a já mítica mestria que este projeto oriundo da Carolina do Norte tem revelado ao longo da carreira para criar composições sonoras onde o salutar experimentalismo, que não renega o uso de nenhuma fonte sonora, é a principal filosofia prática no momento de compôr. Neste caso, um sintetizador barato, alguns artefactos da marca Hindustani e um antigo deck de três pistas, foram parte do arsenal utilizado para criar e captar toda a miríade de sonse ruídos que se escutam ao longo deste incrível alinhamento de seis canções.

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Logo nos segundos iniciais de Genericana, um álbum com o artwork da autoria de Pete Schreiner, percebe-se que este disco é um poiso hermeticamente isolado do mundo real que conhecemos e que só é possível usufruir de tudo aquilo que ele tem para nos oferecer se nos deixarmos levar pela sua doutrina. Começa-se a escutar Surf A e percebe-se que ondas de ruído estático, loops de uma bateria eletrónica e alguns efeitos sintetizados muitas vezes impercetíveis são o ganha pão do arquétipo de um tema que acaba por nos apresentar com impressiva fidelidade o ambiente de um alinhamento que volta a repetir esta tríade, mas com outras nuances, em canções que contendo uma falsa sensação de minimalismo e atravessadas por uma guitarra que tanto pode estar eletrificada como ser dedilhada com elevada crueza, encarnam uma banda sonora que serve para os Elephant Micah refletirem e criticarem a realidade de uma América que culturalmente vive numa era em que vê a política a dominar e a condicionar cada vez mais, direta ou indiretamente o mundo do entretenimento.

Genericana tem este claro propósito de colocar em causa todos os estereótipos que parecem nos dias de hoje condicionar todos aqueles que criam musica no outro lado do atlântico. Para Joe O’Connell, o líder deste projeto, é necessário agitar as águas, remexer no que é efetivamente comercial e colocar os consumidores de música a refletirem se aquilo que escutam nos dias de hoje acrescenta ou não algo de importante e significativo às suas vidas. O disco serve também de crítica ao airplay que domina as rádios americanas e o modo como aquela que é a génese da música nativa tem sido abafada pelas recentes tendências da pop. Se Fire A homenageia a essência da country com que O'Connell cresceu e que o fez querer criar música, as distorções de Life A e o clima rugoso de Surf B, olham com particular saudosismo para o rock alternativo noventista, aquele rock que entre o grunge, o garage e outras nuances mais progressivas, mostrou a melhor forma do rock independente do lado de lá.

Em suma, prestando tributo aos melhores dias da música alternativa norte-americana de final do século passado, numa época onde a riqueza e a diversidade até deixaram que sonoridades mais dançantes, como o dub nova iorquino e o techno de Detroit, tivessem um espaço de relevo e de simbiose com o rock da altura (escute-se Fire B), Genericana é a tentativa dos Elephant Micah de criar um álbum que possa servir de ponto de partida para a música de um país que está, na óptica deste grupo, amorfa e demasiado amarrada à ditadura das playlists e das vendas, nomeadamente as digitais e que precisa urgentemente de se reinventar e de encontrar novos caminhos, criativamente mais ricos e salutares. Espero que aprecies asugestão..... 

Elephant Micah - Genericana

01. Surf A
02. Fire A
03. Life A
04. Life B
05. Fire B
06. Surf B


autor stipe07 às 18:10
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Quinta-feira, 9 de Agosto de 2018

Death Cab For Cutie – Autumn Love

Death Cab For Cutie - Autumn Love

Cerca de três anos depois de Kintsugi os Death Cab For Cutie já têm finalmente um sucessor para esse excelente disco que atestou, à época e mais uma vez, que eles são mestres em escrever sobre sentimentos e emoções, plasmadas, no caso desse registo, em letras profundas e intensas, que debruçavam-se sobre as relações humanas, num álbum possível de ser fonte de identificação para qualquer um de nós.

Thank You For Today, o nono álbum da carreira desta banda norte americana de indie rock oriunda de Washington e formada por Ben Gibbard, Nick Harmer e Jason McGerr, deverá manter o trio nesse rumo filosófico, com Autumn Love, o terceiro single divulgado do seu alinhamento, a testar novamente a nossa capacidade de resistência à lágrima fácil e a renovar com clarividência a impressão firme no lado de cá da barricada de estarmos perante uma banda extremamente criativa, atual, inspirada e inspiradora e que saberá mais uma vez como agradar aos fãs. Confere...


autor stipe07 às 10:57
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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2018

Beautify Junkyards - Aquarius

Foi a nove de março último, à boleia da inglesa Ghost Box , que viu a luz do dia The Invisible World of Beautify Junkyards, a nova coleção de canções dos Beautify Junkyards. Este é o terceiro disco deste coletivo formado por João Branco Kyron (sintetizadores e voz), Rita Vian (voz), João Pedro Moreira (viola, sintetizadores), Helena Espvall (violoncelo e viola), Sergue (baixo) e António Watts (bateria e percussões) e que assume de uma vez por todas querer estar na linha da frente do panorama sonoro nacional, através de uma inédita mas convincente folk cósmica, particularmente lisérgica e esplendorosa.

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Primeira aposta internacinal da Ghost Box, The Invisible World of Beautify Junkyards foi misturado por Artur David (Orelha Negra, Mão Morta e Cool Hipnoise), masterizado por Jon Brooks e tem um título feliz porque ao longo do seu alinhamento percebe-se a declarada intenção do projeto em transportar o ouvinte para um universo paralelo ao nosso. Fazem-no mergulhados num mundo controlado por cordas inebriantes e sintetizadores plenos de exotismo, uma eletrónica eminentemente ambiental misturada com folk, que cria melodias que quer claramente levar-nos a passear pelo mundo dos sonhos, algo muito perceptível em Aquarius, o mais recente single retirado do álbum, uma canção assente num extraordinário diálogo percurssivo entre a pafernália instrumental que a sustenta.

Resultado de várias sessões de improviso particularmente inspiradas, The Invisible World of Beautify Junkyards está, em suma, cheio de momentos que configuram um passeio por um universo feito de exaltações melancólicas, que são nada mais nada menos do que um retrato sombrio do estranho quotidiano que sustenta a vida adulta, repleto de alguns instantes em que uma dor profunda que parece em determinados instantes afogar-nos. O amor, a solidão, o abandono, a vida e a morte, tudo parece servir como assunto, conceitos que pouco têm a ver com o universo das histórias infantis, mas antes com a crueza da realidade em que vivemos.

Em Outubro, os Beautify Junkyards irão fazer uma pequena digressão no Reino Unido, estando já marcado para vinte e seis de Outubro um concerto numa das mais emblemáticas salas londrinas, o Cafe OTO, numa noite inteiramente dedicada à editora Ghostbox, em que além dos Beautify Junkyards, actuará também a cantora folk Sharron Kraus e o Focus Group de Julian House (DJ). Confere Aquarius...


autor stipe07 às 10:19
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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2018

Ty Segall & White Fence - Joy

Ty Segall é uma máquina de fazer discos. Não apenas trabalhos aleatórios, composições frias ou registos descartáveis, mas lançamentos de peso dentro da cena independente norte-americana. Dono de uma infinidade de projetos paralelos cada um deles com vários álbuns lançados, é quando assume as guitarras na carreira a solo que este californiano, natural de São Francisco, alcança o melhor desempenho. Mas este músico também gosta de alinhar em parcerias e nelas consegue potenciar a sua capacidade para nos embrenhar num universo sonoro labiríntico que nunca deixando de lado a estética lo fi que Ty tanto aprecia, também consegue entranhar alguns dos pilares fundamentais da sonoridade de quem a ele se alia na hora de compôr. Tim Presley, a mente que assina o projeto White Fence, foi um dos que se deixou enredar pela teia lançada por Ty, já em dois mil e doze com o excelente álbum Hair, o que nem admira até porque estamos na presença de dois artistas que têm na sua discografia muito pontos em comum, desde logo a apetência por aquele rock mais cru, que tanto abraça a folk como pisca o olho aquela psicadelia setentista que ainda hoje é muito marcante. Joy é o nome da segunda etapa desta parceria, quinze canções assentes num salutar experimentalismo sem fronteitas ou concessões a um género bem delimitado, cheias de guitarras sujas e riifs enérgicos, mas também sóbrios dedilhares de uma viola e constantes variações ritmícas com Please Don't Leave This Town a ser um bom tema para se perceber toda a essência deste disco.

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Alegria e diversão, cor e arrojo, são adjetivos felizes na hora de caraterizar o conteúdo de Joy e de imaginar o seu processo de gravação. São pouco mais de trinta minutos de pura exaltação indie, assentes numa sonoridade ensolarada, com reminiscências algures na década de sessenta e no rock de garagem da década seguinte, um alinhamento que merece audição dedicada não só pela elevada bitola qualitativa dos arranjos de cordas, percetíveis em diversos temas, como assim como pelas já habituais linhas de baixo a que Ty já nos habituou, absolutamente incríveis.

Assim, no inedetismo do luminoso instante surf psicadélico presente em Good Boy e no modo como a dupla cruza uma toada algo pop, com o fuzz típico do garage rock, fazendo com que este tema deixe de lado os habituais limites do rock caseiro e se converta num momento de pura exaltação e no hard rock setentista, de mãos dadas com rock de garagem e no blues de Other Way e na toada hippie, vintage e acústico psicadélica de My Friend, assentam os momentos maiores de trinta minutos sonoros propostos por dois artistas que parecem querer buscar um lugar no meio de outros gigantes da cena alternativa, mas que, quanto a mim, nada mais têm a provar para terem direito a uma posição de relevo nesse antro de perdição.

Com um nível superior de cumplicidade, em Joy os dois músicos que assinam o registo até deixam um pouco de lado um habitual nível de anarquia e desiquilibrio que frequentemente firmam na execução dos seus registos e, sem sofrerem de desgaste ou possíveis redundâncias, executam um ensaio de assimilação de heranças, com um sentido melódico irrepreensível, que exala um sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentarem de modo tremendamente atual tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 10:17
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Quarta-feira, 11 de Julho de 2018

Patrick Watson – Melody Noir

Patrick Watson - Melody Noir

O canadiano Patrick Watson está de regresso aos discos com Melody Noir, um registo de originais que vai ver a luz do dia muito em breve e do qual acaba de ser revelado o single homónimo, assim como o vídeo, realizado pelo próprio músico e pela conterrânea Brigitte Poupart e produzido por Olivier Sirois.

Esta canção Melody Noir é inspirada num músico venezuelano chamado Simon Diaz e nela Patrick Watson plasma todos os seus predicados quer como dono de uma voz única e multifacetada, da qual sobressai o seu inconfundível falsete, quer como arquiteto de uma sonoridade com raízes na folk, mas que busca uma salutar contemporaneidade ao inserir também alguns detalhes da pop e da eletrónica mais contemplativa.

Importa ainda referir que Patrick Watson está de regresso a Portugal no final do ano para promover este seu novo álbum, mais concretamente de dois a quatro de Dezembro, com Lisboa, Coimbra, Guimarães e Porto a receberem, respectivamente, um dos artistas internacionais mais acarinhados pelo publico português e que deverá fazer-se acompanhar por Joe Grass, na guitarra, Robbie Kuster, na bateria e percurssão e por Mishka Stein, no baixo. Confere...


autor stipe07 às 10:11
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Quinta-feira, 5 de Julho de 2018

Luke Sital-Singh - Just A Song Before I Go EP

Depois da edição o ano passado de Time Is A Riddle, o seu último álbum, Luke Sital-Singh fez as malas, pegou no passaporte e embarcou numa viagem solitária por vários destinos do mundo, durante a qual escutou uma banda-sonora muito pessoal, composta por temas e artistas da sua eleição.

Alguns meses depois, Luke editou Weight Of Love, um EP com quatro canções e que foi divulgado por cá, mas não seria justo deixar de fora desta abordagem recente da nossa redação a Luke Sital-Singh, o EP Just A Song Before I Go, um registo também com quatro temas e que é fortemente influenciado pela passagem do músico pelos Estados Unidos durante essa viagem. Este EP viu a luz do dia no primeiro mês deste ano, através da Dine Alone Records, a morada atual do músico britânico, à semelhança de Weight Of Love e de Time Is A Riddle.

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Luke é exímio a criar canções sonora e liricamente profundamente reflexivas e intimistas, conduzidas por cordas inspiradas, mas também por teclas inspiradas, uma receita que cria melodias deliciosas e repletas de um charme inconfundível que deve muito a alguns dos melhores detalhes não só da folk, mas também da pop contemporânea. A luminosidade do tema homónimo que abre o EP é um bom exemplo disso e a melancolia que está agregada à acusticidade de Thirteen, um clássico original de 1972 dos Big Star, que foi na mala de Luke na tal viagem e já revisitado por nomes tão proeminentes como os Wilco ou Elliot Smith, sendo fiel ao espírito intimista e profundamente reflexivo do músico e ao misticismo, acentua a inocência que a própria canção, na sua génese, transborda, nomeadamente da sua letra. Depois, o intimismo subjacente à versão de Harvest Moon, um clássico de Neil Young aqui conduzido por um piano insinuante e pelo inconfundível falsete do artista e, finalmente, o intenso travo à herança mais pura da folk americana em Late For The Sky, reforçam a suavidade melancólica de um EP que é uma ode do autor a alguns dos seus heróis, muitos deles verdadeiros pilares da história musical do outro lado do atlântico, ao mesmo tempo que plasma todos os predicados que este músico britânico possui para criar composições profundamente emotivas e sofisticadas, sempre com um cunho pessoal muito identitário, mesmo quando revisita composições que não são da sua autoria. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:36
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Segunda-feira, 2 de Julho de 2018

Courtney Barnett – Tell Me How You Really Feel

Já chegou aos escaparates Tell Me How You Really Feel, o segundo registo de originais da australiana Courtney Barnett, um trabalho produzido pela própria e por Burke Reid e Dan Luscombe e lançado pela Milk! Records, etiqueta da própria Barnett e ainda pela Mom + Pop Music e pela Marathon Artists. Tell Me How You Really Feel sucede a Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, o feliz título do arrebatador disco de estreia de Courtney Barnett, que viu a luz do dia há pouco mais de três anos e que à epoca sucedeu aos EPs I've Got a Friend Called Emily Ferris (2011) e How to Carve a Carrot into a Rose (2013), editados depois conjuntamente em The Double EP: A Sea of Split Peas, em 2013.

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No radar da crítica especializada desde o EP A Sea of Split Peas, Courtney Barnett tem-se mostrado nesta última meia década bastante hábil no modo como expôe aqueles pequenos detalhes da vida comum e do seu próprio quotidiano e os transforma, na sua escrita, em eventos magnificientes e plenos de substância. E se na estreia, há três anos, procurou um ambiente eminentemente festivo e jovial que nos levasse a colocar o nosso melhor sorriso eufórico e enigmático e a passar a língua pelo lábio superior com indisfarçável deleite, ao som de uma voz doce, uma bateria intensa e uma guitarra que brilhava daqui ao céu, num vaivém musculado e constante, agora a opção foi por uma atmosfera menos imediata e um pouco mais intrincada e até amargurada e agressiva, com Hopefulessness, tema onde salta ao ouvido o excelente improviso da guitarra, a define, logo à partida, não o clima instrumental do alinhamento, mas, pelo menos, a sua temática algo agreste (No one’s born to hate, We learn it somewhere along the way, Take your broken heart, Turn it into art).

A partir desse prometedor início de alinhamento, no azedume abrasivo de City Looks Pretty, canção que conta com as irmãs Deal dos The Breeders nas vozes secundárias, no turbilhão ruminante da distorção que sustenta Charity, no modo como a autora depreza todos aqueles que a julgam no charme algo displiscente mas feliz de Need A Little Time, no modo tenso como o ruído trespassa a voz no refrão de Nameless, Faceless e, principalmente, na raiva incontida do grunge que arquiteta e agita I’m Not Your Mother, I’m Not Your Bitch fica expresso, de modo sintomático, um certo paradoxo sonoro, uma constante tensão oscilante entre o tédio e a ansiedade, onde o rock e a pop, o doce e o amargo e, enfim, aquilo que é meramente quotidiano e aquilo que é naturalmente poético se entrelaçam.

Álbum repleto de alusões ao desentendimento e ao lado menos radiante do amor, Tell Me How You Really Feel terá como importante propósito mostrar que a vida pode tornar-se num caminho sinuoso, mas que percorrer essa estrada não tem de ser algo vivido em permanente inquietude e depressão, desde que os fantasmas sejam exorcizados no momento certo. Os acordes deambulantes que empoeiram com ruído e frenesim a maioria das canções manifestam instrumentalmente estas experiências de vida sincera e fazem do registo uma jornada espiritual que nos é dada a apreciar e saborear em verdadeira plenitude, nesta contemporaneidade cheia de encruzilhadas e dilemas.. Espero que aprecies a sugestão...

Courtney Barnett - Tell Me How You Really Feel

01. Hopefulessness
02. City Looks Pretty
03. Charity
04. Need A Little Time
05. Nameless, Faceless
06. I’m Not Your Mother, I’m Not Your Bitch
07. Crippling Self Doubt And A General Lack Of Self Confidence
08. Help Your Self
09. Walkin’ On Eggshells
10. Sunday Roast


autor stipe07 às 14:10
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2018

Mimicking Birds – Layers Of Us

Quase quatro anos depois do excelente Eons, os Mimicking Birds, de Nate Lacy, Aaron Hanson, Adam Trachsel, uma banda norte americana de Portland, no Oregon, estão de regresso com Layers Of Us, um trabalho editado no início deste ano através da Glacial Pace Records, estando disponivel para audição e aquisição na página bandcamp do projeto.

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O efeito da guitarra e os efeitos rugosos do tema que dá nome ao disco e a melodia cinematográfica que sustenta o tema, são detalhes únicos que, abrindo o disco, preparam-nos para a entrada num universo muito peculiar, que ganha uma vida intensa e fica logo colocado a nu, sem truques, no ritmo frenético e no clima rugoso de Another Time e nos efeitos sintetizados borbulhantes e coloridos que divagam pela canção. Os Mimicking Birds apostam num universo feito por um indie rock que se cruza com detalhes típicos da folk e que só faz sentido se pulsar em torno de uma expressão melancólica acústica que este trio norte americano sabe muito bem interpretar, na senda de alguns nomes que sustentam a melhor herança norte americana deste universo sonoro tão peculiar e com raízes tão profundas no outro lado do atlântico.

Layers Of Us é um trabalho que cresce audição após audição; Mesmo não estando na lniha da frente do processo de criação melódica, os sintetizadores conseguem conciliar a efervescência dos efeitos que debitam, com a indispensável dinâmica que constroem com as guitarras, um abraço instrumental que conhece poucos entraves e expande-se com interessante fluídez. A voz também se cruza elegantemente com os instrumentos e elementos como a lua, o sol, animais e cenários campestres apoderam-se da obra com extrema delicadeza. O disco é uma bela exposição sonora de sons e emoções, um trabalho bem expansivo e épico, mas também com uma intimidade muito própria e familiar.

Um dos aspetos mais interessantes de Layers Of Us é a complexidade instrumental que suporta cada uma das canções, com alguns sons a serem quase impercetíveis, mas essenciais para a cadência e a vibração. Se a acusticidade orgânica de Island Shore não é beliscada pela eletrificação da guitarra, o baixo e a percussão também são elementos estruturalmente dominantes em várias canções. Muitas vezes o dedilhar da viola é aquele detalhe que acaba por ser a cereja no topo do bolo de várias composições, cada uma delas com algo distinto.

Do excelente trabalho de guitarra que se escuta em A Part e no rock de One Eyed Jack, à abordagem mais eletrónica de Great Wave, ou da mais ambiental Belongings, Layers Of Us está cheio de exaltações melancólicas, cenários e sensações que se expressam com particular envolvência e que expõem sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema. É impossível ouvir o single Sunlight Daze e não nos sentirmos profundamente tocados pela delicadeza e pela fragilidade que a canção transmite.

No epílogo de Layers Of Us percebemos que escutámos uma ode à América profunda e à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e do rock. A receita é extremamente assertiva e eficaz e o disco reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas delicadas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

Mimicking Birds - Layers Of Us

01. Dust Layers
02. Another Time
03. Sunlight Daze
04. Island Shore
05. Great Wave
06. A Part
07. Belongings
08. Lumens
09. Time To Waste
10. One Eyed Jack


autor stipe07 às 21:21
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Cœur De Pirate – En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé.

Conhecida pela sua escrita impressiva, quase sempre na primeira pessoa e pela arrebatadora sinceridade e doce luminosidade da sua música, a canadiana Béatrice Martin comemora em 2018 dez anos de carreira à frente do seu projeto Cœur De Pirate e fá-lo com a edição de um álbum intitulado En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé. Esse novo registo de originais desta lindíssima artista oriunda do Quebeque canadiano chegou aos escaparates já no início deste mês através da Dare To Care Records e não é necessário ser um génio na língua francesa para se entender toda a teia emocional destas dez canções que, até no próprio duplo sentido do título do disco, num misto de cautela e turbulência, explícita toda a teia sentimental que descreve a pessoalidade de uma mulher madura, mas também tremendamente humana e já bastante vivida.

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Gravado maioritariamente em Paris e produzido por Cristian Salvati, En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé é uma deliciosa narrativa sobre o poder do amor, o modo como essa força se ajusta aos diferentes ritmos e vivências de uma relação e como a desregulação desse sentimento pode provocar, no seio da mesma, situações menos felizes e saudáveis que, em última instância, podem colocar em causa a senilidade dos intervenientes.

Escuta-se Somnambule, um dos momentos altos do registo que também teve forte influência da obra ficcional do escritor René Barjavel e percebe-se claramente toda esta trama acima descrita, numa canção que foi composta num estágio superior de sapiência, um estado de alma que permitiu à autora utilizar o seu habitual espírito acústico e orgânico ao piano para se colocar também à boleia de arranjos de cordas tensos, dramáticos e melódicos e contar-nos assim mais uma história que a materializa na forma de uma conselheira espiritual sincera e firme e que tem a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, neste caso do tal amor, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade. Depois, na pop efervescente de Prémonition, na luminosidade e no positivismo feliz de Amour D'un Soir e nos belíssimos arranjos que divagam por De Honte Et De Pardon, percebemos o modo como este disco acabou por funcionar como um bem sucedido escape emocional para alguém que incubou este alinhamento num momento complicado da sua vida pessoal, de exaustão e de necessidade de isolamento, mas que, talvez inconscientemente, acabou por dar vida a um dos discos mais pessoais e intimistas do ano. Espero que aprecies a sugestão...

Cœur De Pirate - En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé.

01. Somnambule
02. Prémonition
03. Je Veux Rentrer
04. Dans Les Bras De L’autre
05. Combustible
06. Dans La Nuit (Feat. Loud)
07. Amour D’un Soir
08. Carte Blanche
09. Malade
10. De Honte Et De Pardon


autor stipe07 às 21:08
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