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The Smile – A Light For Attracting Attention

Sexta-feira, 13.05.22

Chega hoje mesmo aos escaparates A Light For Attracting Attention, o disco de estreia do projeto The Smile que reúne Thom Yorke e Jonny Greenwood, o chamado núcleo duro dos Radiohead, com Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet. Este é um álbum que tem vindo a agitar, com ânsia, burburinho e excitação, o acervo discográfico do ano de dois mil e vinte e dois, algo compreensível tendo em conta as amostras que foram sendo disponibilizadas nas últimas semanas do fabuloso conteúdo sonoro, lírico e conceptual de um alinhamento que tem a chancela da XL Recordings.

The Smile Debut Album “Free in the Knowledge” Announced with New Single |  Illustrate Magazine

Depois da audição deste disco, a primeira impressão que fica bem vincada no ouvido de quem está familiarizado com o cardápio único e incontornável de uma certa banda de Abingdon, nos arredores de Oxford, são duas questões bastante simples: Se este A Light For Attracting Attention conta com Thom Yorke e Jonny Greenwood em dois dos papéis principais da lista de créditos e se Nigel Godrich, um dos responsáveis máximos pela arquitetura sonora inconfundível dos Radiohead, é o produtor, porque é que este não é um disco assinado pelos próprios Radiohead? Se Yorke e Greenwood tiveram a ideia de um projeto paralelo, porque é que o som que idealizaram é tão semelhante ao da banda mãe de onde provêm, ao contrário do que é normal suceder? De facto, se A Light For Attracting Attention fosse o título de um novo álbum dos Radiohead, o seu conteúdo, tal como está, sem adaptações, seria, claramente, um dos destaques da exuberante discografia do mítico grupo britânico liderado por Thom Yorke e, consequentemente, apetece mesmo questionar se Ed O'Brien e Philip Selway sentir-se-ão confortáveis a ouvir este disco, podendo ter, legitimamente, a mesma sensação que nós temos.

Hipotéticas polémicas à parte, debruçando-nos com alguma minúcia no conteúdo sonoro de A Light For Attracting Attention, damos de caras (e ouvidos) com um álbum que disserta com gula, cinismo, ironia, sarcasmo, têmpera, doçura e esperança, sobre a nossa cada vez mais estranha contemporaneidade, algo que não espanta porque foi concebido por um trio cujo nome, (The Smile), não se refere àquele riso inocente e doce que todos apreciamos, seja qual for a sua proveniência, mas àquele riso típico de quem nos mente diariamente e fá-lo sem pudor, nomeadamente aquele riso pateta dos políticos que nos tentam convencer do contrário daquilo que geralmente dizem. E este disco tem, então, todos os ingredientes que é usual encontrar-se num alinhamento dos Radiohead, contando com uma fina e vigorosa interseção entre o melhor dos dois mundos que de modo mais fiel abarcam a herança sonora do grupo Oxford, o mundo do orgânico e o mundo do sintético. Para que tal se materialize, não faltam mesmo várias marcas identitárias, claramente audíveis ao longo do alinhamento, quer nas distorções das guitarras e na rudeza do baixo, quer na panóplia de sintetizações, com que facilmente nos familiarizamos, porque não fazem parte do cardápio de nenhum outro projeto além do projeto dos Radiohead, a não ser daqueles que tentam, quase sempre sem sucesso, replicar uma sonoridade sem paralelo no rock alternativo das últimas três décadas.

Assim, todas as doze canções deste A Light For Attracting Attention, de uma maneira ou de outra, umas mais exuberantes, outras mais cruas e contidas, têm os seus pilares assentes numa dimensão sonora eminentemente épica e orquestral. São composições detalhísticamente ricas em nuances, pormenores, sobreposições e encadeamentos, quase sempre guiadas por um cardápio de cordas geralmente com um timbre abrasivo e rugoso, mas também por um registo percussivo de forte travo jazzístico, ou seja, canções que exalam aquele habitual ambiente soturno que decalca um terreno auditivo muito confortável para Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nu algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

Assim, tomando como referência o típico universo radioheadiano, aquele rock mais cru e vigoroso que todos conhecemos e que a banda de Oxford replicou com enorme argúcia, em especial nos primeiros três discos da sua carreira, está exemplarmente representado em temas como We Don’t Know What Tomorrow Brings, um portentoso hino de synth rock para se escutar de punhos bem cerrados, mas também na elegância das distorções que acamam Skrting On The Surface, ou na abrasiva You Will Never Work In Television Again, composição que em pouco mais de três minutos nos inebria com um punk rock de elevadíssimo calibre, com guitarras ruidosas e um registo percurssivo frenético a acamarem a voz de Yorke que permanece intacta e pujante, mesmo após tantos anos. Na outra face da mesma moeda, ou seja, na herança mais sintética, ambiental e experimental, que começou a ganhar forma no início deste milénio com a mítica dupla Kid A e Amnesiac, cabem temas como Pana-vision, uma canção que nos proporciona um maravilhoso momento sonoro intimista e acolhedor, mas que depois resvala para uma pujante trama orquestral, sustentado pelas teclas do piano, adornadas, depois, com sopros sedutores e uma bateria de forte travo jazzístico, enquanto o típico falsete de Yorke, conduz o andamento do baixo, assim como em Free In The Knowdlege, música bastante reflexiva, íntima e sentimentalmente poderosa, talvez a que, em vinte e sete anos de The Bends, mais perto chegou à fronteira de Fake Plastic Treesmelodicamente assente numa belissima melodia de uma viola, que está sempre, ao longo dos quatro minutos e treze segundos que o tema dura, exemplarmente acompanhada por excelsos violinos e por diversos detalhes percussivos de forte travo jazzístico. Depois, e numa espécie de simbiose entre os dois pólos, temos o funk anguloso e vibrante de The Opposite e, num registo menos fulgurante, mas igualmente sensual, principalmente na beleza dos sopros, The Smoke, duas canções que encaixariam na perfeição no alinhamento do magistral In Rainbows, a hiperativa Thin Thing e a charmosa e melancólica Open The Floodgates. Estes são quatro exemplos de músicas que têm de modo mais ou menos declarado a eletrónica presente, mas sem abafar aquele bucolismo etéreo e introspetivo que, curiosamente, fica ainda mais vincado e realista quando conta com linhas de guitarra ligeiramente agudas e com uma bateria que parece, amiúde, rodar sobre si própria, tal é o seu grau de imediatismo e intuição, no modo como se cola às melodias e amplia o colorido das mesmas.

Disco muito desejado desde que se tornou pública a sua concretização, A Light For Attracting Attention é um álbum excitante e obrigatório, não só para todos os seguidores dos Radiohead, mas também para quem procura ser feliz à sombra do melhor indie rock atual, independentemente do seu espetro ou proveniência estilística. O alinhamento do registo contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica, materializando a feliz junção de três músicos que acabaram por agregar, no seu processo de criação, o modus operandi que mais os seduz neste momento e que, em simultâneo, melhor marcou a sua carreira, quer nos Radiohead, quer nos Sons Of Kemet. Surgiu, assim, um disco experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas, como tão bem prova a fabulosa e surpreendente Waving A White Flag, forte candidata ao pódio das mais bonitas canções de dois mil e vinte e dois. Espero que aprecies a sugestão...

The Smile 'A Light For Attracting Attention' Review

 

The Same

The Opposite

You Will Never Work In Television Again

Pana-vision

The Smoke

Speech Bubbles

Thin Thing

Open the Floodgates

Free in the Knowledge

A Hairdryer

Waving a White Flag

We Don’t Know What Tomorrow Brings

Skrting on the Surface

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publicado por stipe07 às 01:45

Helado Negro – Ya No Estoy Aquí

Quarta-feira, 27.04.22

Poucos meses depois de ter editado o registo Far In, que figurou na lista dos melhores álbuns de dois mil e vinte e um para a nossa redação, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, um filho de emigrantes equatorianos radicado nos Estados Unidos, está de regresso com um novo tema intitulado Ya No Estoy Aquí, que tem o título inspirado num filme com o mesmo nome assinado por Fernando Frias.

Helado Negro comparte el video de su nueva canción “Ya No Estoy Aquí” -  Rock101

De facto, Roberto Carlos Lange está a começar em grande estilo a sua caminhada ao lado da etiqueta 4AD, para onde se transferiu em dois mil e vinte, quer com o disco Far In, quer com esta nova composição, comprovando, também, estar a viver um dos períodos mais profícuos da sua já respeitável carreira. Além dessa exuberância criativa quantitativa, deve ser realçada igualmente a bitola qualitativa da mesma. Ya No Estoy Aquí é uma lindíssima canção, que escorre sorrateiramente pelos nossos ouvidos, enquanto encarna as já habituais experimentações com samples e sons sintetizados, que fazem parte do receituário de Lange, para recriar um clima bastante acolhedor e imediato e que encarna na perfeição o espírito muito particular e simbólico que pretende para esta nova etapa da sua carreira e da sua música. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:30

The Smile – Free In The Knowledge

Segunda-feira, 25.04.22

Será a treze de maio que irá chegar aos escaparates o disco de estreia do projeto The Smile que reúne Thom Yorke e Jonny Greenwood, o chamado núcleo duro dos Radiohead e Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet, álbum que será, certamente, um acervo discográfico incontornável do ano de dois mil e vinte e dois, tendo em conta as diversas amostras já retiradas de um alinhament que terá a chancela da XL Recordings.

Watch Thom Yorke Perform The Smile's 'Free In The Knowledge' | News | Clash  Magazine

O mais recente tema extraído de A Light for Attracting Attention, o nome deste disco de estreia dos The Smile, chama-se Free In The Knowdlege. Já com direito a um vídeo assinado por com um vídeo dirigido por Leo Leigh, é uma composição bastante reflexiva, íntima e sentimentalmente poderosa, melodicamente assente num sofisticado piano, que está sempre exemplarmente acompanhado por cordas ricas em timbres metálicos com elevado pendor orgânico e por diversos detalhes percussivos de forte travo jazzístico, enquanto o típico falsete de Yorke, intacto e pujante, mesmo após tantos anos, deambula pela melodia, conduzindo também o seu andamento. Confere...

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publicado por stipe07 às 11:07

Spiritualized - Everything Was Beautiful

Sexta-feira, 22.04.22

O extraordinário registo And Nothing Hurt, de dois mil e dezoito, assinado pelo projeto britânico Spiritualized, tem finalmente sucessor. Everything Was Beautiful é o nome do novo alinhamento de sete maravilhosas canções da banda de Jason Pierce e viu a luz do dia hoje mesmo, para gaúdio da nossa redação, com as chancelas da Bella Union e da Fat Possum.

Spiritualized - 'Everything Was Beautiful': a sonic feast

Everything Was Beautiful é um clássico instantâneo, diga-se. O nono disco da carreira dos Spiritualized foi gravado na íntegra por Jason Pierce, a.k.a. J. Spaceman, líder do grupo, um músico, cantor e compositor extraordinário, que também tocou variadíssimos instrumentos no álbum. E fê-lo em mais de uma dezena de estúdios diferentes e com um elevado naipe de músicos convidados legível nos seus créditos, incluindo Poppy, a filha, num processo contínuo de tentativa vs erro, que se tornou num verdadeiro desafio para o músico, que procurou um ambiente luminoso e de forte pendor ambiental, sem colocar em causa o exigido som de estúdio que faz parte do adn do projeto.

De facto, a voz sussurrante de Jason Pierce e o glorioso e vastíssimo arsenal instrumental que o circunda, fazem-nos sentir, logo que se carrega no play, que tudo é realmente bonito à nossa volta, como refere o título do álbum, numa viagem com sete paragens que nos levam das profundezas do espaço sideral às ruas desertas de uma grande metrópole, passando, pelo meio, por uma simples linha de caminho-de-ferro. E nem vale a pena pensar sequer em tentar resistir a este inapelável convite que o disco faz, canção após canção, à nossa mente e aos nossos sentidos, para que embarquemos numa epopeia que nos envolve também naquilo que é, sem dúvida, um verdadeiro analgésico soporífero em forma de música. 

Neste disco Jason Pierce, que nunca é artista de meias medidas ou de minimalismos incipientes, colocou mais uma vez a carne toda no assador. Cascatas de guitarras mais ou menos distorcidas, sintetizações cósmicas variadas, espirais de violinos em catadupa, impacientes e rebeldes sopros e um registo percurssivo com a dinâmica e o vigor indicados, são o receituário que suporta a arquitetura sonora de um alinhamento que também se define, como não podia deixar de ser, pela sua destreza melódica, um expediente essencial nas canções dos Spiritualized que buscam sempre os atalhos mais diretos para o coração do ouvinte. Crazy, a quarta canção do alinhamento de Everything Was Beautiful, estrategicamente situada no âmago do disco, é a composição que exagera, no bom sentido da palavra, na beleza e no romantismo, e que, por isso mesmo, espelha com clareza enorme esta caraterística essencial no momento de caraterizar o adn dos Spiritualized. Crazy é mais um bom exemplo de variações eletromagnéticas emanadas por planetas, ruídos intergaláticos e uma série de elementos que ao serem posicionados de forma correta se transformam em música. O tema, que conta com a participação especial vocal da artista country Nikki Lane, é uma lindíssima balada, plena de soul e emotividade, com uma linha eminentemente country pop, mas há outra canção, também estrategicamente posicionada, que não fica atrás de Crazy na hora de nos fazer sorrir sem razão aparente. Refiro-me a Always Together With You, o tema que abre o alinhamento de Everything Was Beautiful, outra estrondosa composição gravada pela primeira vez em dois mil e catorze, na altura com uma roupagem mais agreste e intitulada, à época, Always Forgetting With You (The Bridge Song), sob o pseudónimo Mississippi Space Program.

Para esclarecer de vez os mais exigentes de que este álbum é, sem qualquer possibilidade de rebate ponderado, um dos discos do ano, escuta-se The Mainline Song/ The Lockdown Song, talvez a composição conceptualmente mais de acordo com aquela que é outra grande matriz identitária dos Spiritualized, o confronto com a realidade e a indispensável crítica analítica à mesma. É um longo tema sobre comboios, mas também sobre as agruras que estes dois anos de confinamentos provocaram em todos nós, com uma base melódica de forte cariz hipnótico e progressivo, assente em cordas reluzentes e arranjos sofisticados que vão sendo inseridos na canção de modo a que ela tenha uma progressão contínua rumo aquela majestosidade que quase sempre se confunde com o habitual pendor psicadélico do projeto.

Jason Pierce é um eterno insatisfeito e esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a um artista que se serve desse eterno incómodo relativamente à sua obra, neste caso musical, para, disco após disco, tentar sempre superar-se e apresentar algo de inédito e que surpreenda os fãs. E no caso específico dos Spiritualized, uma daquelas bandas nada consensuais e, por isso, com seguidores que são, na sua esmagadora maioria, bastante devotos, como é o meu caso, ainda mais exigente se torna para o íntimo deste cantor, poeta e compositor britânico conseguir que esta sua filosofia de vida tenha efeitos práticos e seja bem sucedida. Everything Was Beautiful, disco repleto de calafrios na espinha e nós na garganta, faz isso na perfeição. É um fabuloso tratado de indie rock experimental, mas, principalmente, mais uma banda sonora indicada para instantes da nossa existência em que somos desafiados e superar obstáculos que à partida, por falta de coragem, fé e alento, poderiam ser insuperáveis, mas que durante a audição do registo sabem a meros precalços ou areias na engrenagem de fácil superação. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:33

Father John Misty – Chloë And The Next 20th Century

Quarta-feira, 20.04.22

Já passaram quatro anos desde que Josh Tillman nos ofereceu o extraordinário registo God's Favorite Costumer, um dos melhores discos de dois mil e dezoito para esta redação, mas parece que foi ontem, tal é a insistência com que esse registo vai rodando por cá. Foi um trabalho concebido por um dos artistas mais queridos deste espaço de crítica musical, sempre absorvido nos seus dilemas, vulnerabilidades e inquietações pessoais, enquanto ensaia, em cada álbum, uma abordagem tremendamente empática e próxima com o ouvinte, sem se deslumbrar e perder a sua capacidade superior de criar canções assentes num luminoso e harmonioso enlace entre cordas e teclas, que dão vida a temas carregados de ironia e de certo modo provocadores.

Father John Misty Announces 'Chloe And The Next 20th Century

De facto, foi isso que Father John Misty fez em Chloë And The Next 20th Century, o seu novo registo de originais, gravado na segunda metade de dois mil e vinte, em pleno período de confinamento. Neste que é o quinto álbum da carreira, o autor e compositor deu mais uma guinada conceptual e até sonora no seu catálogo, contando, para isso, com a ajuda preciosa de Drew Erickson nos arranjos, de Jonathan Wilson na produção e Dave Cerminara, na mistura, além dos músicos Dan Higgins e Wayne Bergeron, entre outros.

Estilistica e filosoficamente, Chloë and the Next 20th Century tem em declarado ponto de mira o período aúreo do cinema americano, além do catálogo de músicos míticos como Randy Newman e Harry Nilsson, com variadíssimas canções, como Chloë ou Q4, só para citar dois exemplos, a colocarem-nos imediatamente numa mesa redonda de uma sala fumarenta, mesmo em frente a um palco escuro onde o músico, vestido impecavelmente, nos oferece momentos sonoros esplendorosos e únicos, suportado por uma orquestra afinadíssima, repleta de metais e cordas e liderada por um piano exemplar.

Os laivos musicais de excelência que abundam neste álbum proporcionam, entre muitas outras sensações que só a vivência da audição consegue descrever, beleza e melancolia ímpares, como é o caso de The Next 20th Century. E o alinhamento tão depressa abraça a bossa nova, como no caso de Olvidado (Otro Momento), como o charme de uma valsa, radiosamente plasmada em (Everything But) Her Love, ou seja, consegue abraçar, quase sem se notar, universos sonoros tão díspares e heterogéneos e que parecem conjurar entre si para incubar uma trama de caraterísticas únicas e que merecem, também por isso, dedicada audição.

Chloë And The Next 20th Century é, pois, obra criativa única e indispensável, incubada por um autor que gosta de cantar e contar na primeira pessoa e assumir, ele próprio, o protagonismo das histórias que nos relata, enquanto prova ao mundo inteiro, mais uma vez, que é imcomparável a recriar diferentes personagens, cenas e acontecimentos, geralmente sempre dentro de um mesmo território criativo, neste caso o cinema. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:30

50 Foot Wave – Black Pearl

Segunda-feira, 18.04.22

Líder incontestada dos míticos Throwing Muses, Kristin Hersh é também figura de relevo de um outro projeto intitulado 50 Foot Wave, que junta, desde dois mil e três, a autora, cantora e compositora natural de Atlanta, na Georgia, ao baixista Bernard Georges, seu parceiro nosThrowing Muses e ao baterista Rob Ahlers. Este trio tem um novo disco intitulado Black Pearl, sete canções que nos oferecem uma trip sonora verdadeiramente alucinante, um registo que carece de dedicada audição, por todos os amantes daquele rock mais cru e experimental.

50 Foot Wave – FIRE RECORDS

As canções de Black Pearl encontram a sua génese em arquétipos de composições que tinham como destino o catálogo dos Throwing Muses, mas que foram consideradas, logo à partida, demasiado estranhas ou alternativas, para esse propósito. No entanto, e ainda bem, foram preservadas, porque não eram vistas como descartáveis, recebendo agora, anos depois, o polimento final, num resultado verdadeiramente único, muito peculiar e sui generis e que até pode ser considerados por mentes mais puristas como quase marginal.

Carregamos no play e Black Pearl, logo que inicia, ensina-nos que o grunge, aquele famoso subgénero do rock alternativo que fez escola nos anos noventa, também pode ser melancólico e, além disso, também passível de ser sujeito a abordagens que tenham o experimentalismo livre de constrangimentos em declarado ponto de mira. Os riffs ecoantes de Staring Into The Sun, ou o emaranhado sonoro com que a guitarra abastece Hog Child, exemplarmente acompanhada pelo vigor do baixo e da bateria, são exemplos felizes de uma trama que obedece exatamente a estas permissas, em que o lo fi e o ruído são também vetores essenciais, nomeadamente no modo como projetam charme e lisergia.

Disco único, quer na concepção, quer na sonoridade que exala, Black Pearl é um registo cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproxima do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea. O álbum comunica connosco através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão plasmadas nas suas canções. É um disco eclético, complexo e de audição verdadeiramente desafiante, mas altamente recompensadora. Espero que aprecies a sugestão...

 

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publicado por stipe07 às 09:49

Beach House - Once Twice Melody

Terça-feira, 12.04.22

Quase meia década depois de 7, os Beach House, um projeto sedeado em Baltimore, no Maryland, formado pela francesa Victoria Legrand e pelo norte americano Alex Scally, estão de regresso com Once Twice Melody, a sua obra mais grandiosa, um megalómano alinhamento de dezoito canções que duram mais de oitenta minutos verdadeiramente épicos e que comprovam que esta dupla nunca foi nem será nada timida a cortejar o infinito, porque não receia desafiá-lo.

Beach House – “Once Twice Melody” - Festival da Noção

Entre a luz e a escuridão é muitas vezes efémera a distância que separa estes dois mundos tão díspares. Mas a música dos Beach House consegue sublimar, quase sem se distinguir a fronteira entre duas realidades que, ao som desta dupla, parecem tudo menos distintas. De facto, este Once Twice Melody, que é, curiosamente, o primeiro registo que os próprios Beach House produzem, tem logo no tema homónimo esse perfume de interação, com os sintetizadores a fornecerem nuances predominantemente claras e reluzentes e o baixo e as guitarras a pintarem tonalidades mais obscuras, mas repletas de charme, numa composição que nos coloca de frente, sem apelo nem agravo, para a filosofia estilística que encharca todo o disco. Entre esses dois pontos efêmeros, Victoria Legrand e Alex Scally se deleitam na interação de sombra e luz, o perfume das flores desabrochando à noite, a rapsódia da própria sensação. Superstar, logo a seguir, dá um cariz ainda mais superlativo e sumptuoso, com Pink Funeral a dissolver definitivamente o nosso ouvido numa trama que tem também, diga-se, uma forte componente cinematográfica no seu âmago.

Já capturados e sem possibilidade de nos libertarmos de tais amarras, na ziguezagueante cosmicidade de Through Me, na languidez metálica de Runaway e no perfume aveludado de ESP prossegue este verdadeiro devaneio pop, que sem deixar de descrever a habitual marca registada dos oito registos que fazem já parte do cardápio dos Beach House, ganha, neste Once Twice Melody, laivos de superlativo requinte.

Até ao ocaso do registo, o caráter e o cenário nunca mudam, mesmo que no techno melódico de Only You Know, nos coros celestiais de Over And Over e em Illusion Of Forever pareça haver uma vontade de espreitar territórios um pouco mais agrestes e progressivos. Há guitarras acústicas repletas de vocoders mágicos, sintetizadores analógicos aquosos e mudanças de acordes que explodem como fogos de artifício contra o céu noturno, refrões crescentes e conjuntos sumptuosos de sintetizadores, mas a essência de som permanece sempre inabalável e suporta com distinção o natural desgaste dos minutos, dada a duração do alinhamento do disco.

Colocando Once Twice Melody em perspetiva, relativamente ao trajeto da banda, parece-me claro referir que toda a carreira dos Beach House sabe a um longo e gradual processo de transformação, um caminho lentamente sinuoso que levou a dupla até este ponto. Ao longo dos anos, eles fizeram ajustes subtis no lânguido modelo de slowcore que criaram para si desde o homónimo de dois mil e seis, passando pela veludez de Depression Cherry e o musculado shoegaze de 7,  até chegarem a um ponto em que, tendo construído nesse longínquo disco de estreia a embarcação em que navegam, ao longo da viagem é como se tivessem substituido, gradualmente, todas as suas peças, desde o mastro, ao cordame, passando pelas velas e o casco, até não restar uma única peça original do barco, com o definitivo novo navio personificado neste Once Twice Melody  a ser, no fundo, exatamente a mesma embaracação com que iniciaram a jornada. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 14:31

Destroyer - Labyrinthitis

Quarta-feira, 06.04.22

Dois anos depois de Have We Met, os canadianos Destroyer de Dan Bejar, já têm na montra o, imagine-se, décimo quarto registo discográfico do projeto, um álbum intitulado Labyrinthitis que viu a luz do dia a vinte e cinco de março, com a chancela da Merge Records.

Destroyer: Labyrinthitis review – wayward, dance-infused weirdness | Pop  and rock | The Guardian

Labyrinthitis, é, certamente, obra de um esforço coletivo, mas deve muito do seu conteúdo, à mente de Dan Bejar, um músico que também está escalado na formação dos The New Pornographers e que não gostando de lutar contra o tempo e não aprecia estipular prazos, prefere que a música escorra na sua mente e depois nas partituras e nos instrumentos de modo fluído, no devido timing e com a pressa que merece, sempre com uma tonalidade algum cinzenta e agreste e eminentemente reflexiva. E, de facto, Labyrinthitis, uma obra muito orgânica, repleta de contrastes, nuances e amálgamas exemplarmente tricotadas e agregadas e que versa sobre assuntos tão díspares como o romance ou o terror, mas também a arte, tem esta filosofia engimática e intrincada, tão do agrado do autor canadiano.

O alinhamento do disco, no seu todo, assenta, essencialmente, em camadas desordenadas de sons sintéticos e orgânicos, um piano e uma bateria em constante desfasamento e o habitual registo vocal peculiar do músico, mais intrigante e sinistro que nunca. A partir daí, na ímpar interioridade reflexiva a que nos instiga It's In Your Heart Now, na parada cósmica a que tresanda June, no delicioso romantismo vintage de All My Pretty Dresses, no festim eletro de Tintoretto, It's For You, no charme pop de Eat The Wine, Drink The Bread, ou na serena ambiguidade do tema homónimo, confrontamo-nos com um compêndio bastante burilado e tremendamente bem conseguido, abrigado num clima eminentemente sofisticado, claramente clássico e moderno.

Labytinthitis é intenso e joga com diferentes nuances sonoras sempre com um espírito aberto ao saudosismo e à relevância inventiva. É um verdadeiro oásis de pop sofisticada em que Bejar eleva a sua escrita críptica e crítica a uma intensidade e requinte nunca antes vistos, rodeado por um grupo de músicos que também já habituou os seus fãs a um espetro rock onde não faltavam de guitarras distorcidas e riffs vigorosos, mas que opta agora, e mais do que nunca, num claro sinal de maturidade e de pujança criativa, por compôr composições que olham de modo mais anguloso para a eletrónica e para ambientes eminentemente clássicos, fazendo-o com superior apuro melódico. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:09

Gongori - There Is Nowhere

Domingo, 03.04.22

Gonçalo Alegre, natural de Mangualde, nasceu em Julho de mil novecentos e oitenta e oito. Cresceu numa atmosfera onde predominava a música e assume-se como autodidata em vários instrumentos, iniciando estudos em baixo elétrico aos dezassere anos e mais tarde em contrabaixo, na variante de Jazz. Ainda na adolescência, junta-se a amigos e passa por vários projetos como Crying Machine, Sense?, Metamorfose ou Apiores. A Escola de Jazz do Porto e alguns professores particulares também do Porto foram guias determinantes para a aprendizagem desta linguagem e do contexto artístico e musical português, bem como a descoberta dos músicos que naquela altura partilhavam o mesmo palco nas jam sessions da Esmae.

GONGORI antecipa disco de estreia “Vazio” com videoclip “There is Nowhere”  – Glam Magazine

Em dois mil e oito, ingressa no curso de música no ISEIT em Viseu - Licenciatura de Instrumento – Contrabaixo – variante Clássica, que conclui seis anos depois. Cedo começa a trabalhar em estúdio, estreando-se em dois mil e quinze com o produtor Tim Tautorat nos Hansa TonStudios – Berlim, na gravação de um disco que, curiosamente, nunca foi lançado.

Durante cinco anos, entre dois mil e onze e dois mil e dezasseis, Gonçalo Alegre faz Direção de Produção de Espetáculos na Moita Mostra - Encontro de Artes em Meio Rural, onde conhece Pedro Branco, filho de José Mário Branco, que o convida a produzir o seu disco de estreia - Contigo, nos estúdios Namouche – Lisboa. É nesta mostra que Galo Cant’Às Duas, projeto seu com Hugo Cardoso, que já passou por cá, se estreia em concerto. Em dois mil e dezoito envolve-se na criação da banda Senhor Jorge, que apresentámos também neste blogue, com Rui Sousa, também conhecido por Dada Garbeck, João Pedro Silva, dos The Lemon Lovers e Jorge Novo, sacristão e “fadista por paixão”.

O ano passado, outra banda sua, os Burning Casablanca’z, lança o primeiro single, Getting Overdo disco de estreia Kind of Truth, com composições suas e de Hugo Cardoso, Bernardo Simões, Bernardo Pardo e Marlow Digs. 

Agora, Gonçalo decide dar o impulso maior ao seu projeto a solo que assina como Gongori. É um projeto artístico de cruzamentos disciplinares que envolve o cinema, a música, a dança, a fotografia e as artes performativas. VAZIO, o disco de estreia, é lançado  dentro de semanas, sendo também o nome do filme que Gonçalo Alegre realiza e conta com argumento de António Sanganha.

There Is Nowhere é o single de apresentação de VAZIO, uma canção que reflete sobre ser-se Humano, e sobre o conflito interior que carregamos no percurso da vida. O tema é uma introspeção sobre a introspeção individual e coletiva, uma camada de luz na sombra, uma lembrança de aceitar quem fomos, somos e podemos ser; que na escuridão existe esperança, e na descoberta uma lembrança, de que estamos vivos. There is Nowhere é a primeira parte de uma viagem para um portal onde no vazio, pode estar tudo, assente em sintetizadores que exploram cruzamentos com o contrabaixo, a guitarra elétrica, a bateria, as percussões e até a voz. Confere...

www.gongori.pt

https://www.instagram.com/gongori.gongori/

https://www.facebook.com/gongori.gongori

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publicado por stipe07 às 15:03

The Smile – Skrting On The Surface

Quarta-feira, 23.03.22

Continua a ganhar cada vez mais forma e impacto o projeto The Smile que reúne Thom Yorke e Jonny Greenwood, o chamado núcelo duro dos Radiohead e Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet. Os The Smile têm já algumas apresentações ao vivo no curriculum e está por dias a estreia no formato disco, que será certamente um acervo discográfico incontornável do ano de dois mil e vinte e dois, tendo em conta You Will Never Work In Television Again, The Smoke e Skrting On The Surface, os três inéditos que o trio já divulgou do registo que terá a chancela da XL Recordings.

The Smile Anunciam Novo Single “Skrting On The Surface”

Skrting On The Surface é, de todos os temas já divulgados do disco de estreia dos The Smile, sem dúvida aquele que transparece com maior minúcia o adn sonoro único e incontornável dos Radiohead, não fosse uma canção cujo esboço foi criado no já longínquo ano de dois mil e sete durante as sessões de gravação de In Rainbows. As cordas com o particular efeito metálico que todos conhecemos e que deambulam pela canção, a performance sedutora do baixo, o registo jazzístico da bateria, os arranjos de sopros que adornam o tema e o típico falsete de Yorke, intacto e pujante, mesmo após tantos anos, são tónicos inebriantes para qualquer fã incondicional do aclamado projeto de Oxford, mas também para todos aqueles que estão sedentos pela chegada deste disco.

Skrting On The Surface também já tem direito a um extraordinário vídeo filmado a preto e branco em  16mm, um filme assinado por Mark Jenkin que nos mostra Thom Yorke a encarnar um dedicado mineiro nas profundezas das minas de Rosevale Tin Mine, em Cornwall, Inglaterra. Confere...

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publicado por stipe07 às 12:09






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