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Scott Orr – Do You?

Terça-feira, 24.11.20

O canadiano Scott Orr é um dos nomes fundamentais da indie mais melancólica e introspetiva da América do Norte. Depois do excelente registo Worried Mind, um álbum com uma subtileza muito própria e contagiante e que marcou o ano discográfico de dois mil e dezoito, Orr tem-se dedicado a lançar alguns singles avulsos, através da editora independente canadiana Other Songs Music Co., uma etiqueta indie independente de Hamilton no Ontário, terra natal deste extraordinário músico e compositor.

SCOTT ORR - Letras, playlists e vídeos | Shazam

O single mais recente lançado por Scott Orr é Do You?, uma lindíssima paisagem sonora assente num minimalismo eletrónico eminentemente etéreo e com uma forte vocação experimental de elevado travo pop, uma canção conduzida por um sintetizador bastente pueril, ao qual cordas e sopros vão sendo adicionados, com uma subtileza muito própria e contagiante. São pouco mais de quatro minutos onde a toada instrumental se entrelaça com o charme inconfundível da voz do autor, um lançamento disponível gratuitamente ou com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo. Confere...

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publicado por stipe07 às 10:54

Bleachers – Chinatown vs 45

Quinta-feira, 19.11.20

Jack Antonoff é a mente brilhante que conduz as reluzentes águas pelas quais navega o projeto norte-americano Bleachers que se estreou em dois mil e catorze com o estrondoso registo Strange Desire. Depois, a curiosidade relativamente a este nome imprescindível da pop da última década ampliou-se, em dois mil e dezassete, com Gone Now, um disco onde participaram Lorde, Carly Rae Jepsen e MØ, entre outros e, a partir daí, Antonoff foi sendo consecutivamente recrutado para colaborar com diversos outros artistas e projetos, podendo ser encontrado nos créditos de álbuns como Melodrama desse mesmo Lorde, Norman Fucking Rockell, de Lana Del Rey, Gaslighter  dos The Chicks e Folklore, de Taylor Swift.

Bruce Springsteen Joins Bleachers for New Song “chinatown”: Watch the Video  | Pitchfork

Agora, quase no ocaso de dois mil e vinte, Antonoff cria água na boca com Chinatown, inusitada criação que conta com a participação de Bruce Springsteen e ainda 45. São dois temas que fazem adivinhar um novo álbum dos bleachers, temas repletos de uma impressionante sensibilidade e assentes num conceito de fusão entre alguns dos canônes fundamentais de uma etérea cosmicidade, com cordas camufladas por uma ímpar lisergia que nos transporta para a melhor herança oitocentista. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:23

Sigur Rós – Stendur æva

Quarta-feira, 18.11.20

Os islandeses Sigur Rós são provavelmente os maiores responsáveis pela geração a que pertenço se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e de estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical. Ao lado da conterrânea Björk, este projeto não apenas colocou a Islândia no mapa dos grandes expoentes musicais, como definiu de vez o famigerado pós rock, género que mesmo não sendo de autoria da banda, só alcançou o estatuto e a celebração de hoje graças, em grande parte, ao rico cardápio instrumental que este grupo conseguiu alicerçar nas mais de duas décadas que já leva de existência.

Stream "Stendur æva", Sigur Rós' New Orchestral Single | Consequence of  Sound

Agora, sete anos depois do último disco da banda, o aclamado Kveikur,  os Sigur Rós voltam a fazer mossa com Odin’s Raven Magic, um disco orquestral ao vivo, que conta com as participações de vários músicos do país da banda, nomeadamente Maria Huld Markan Sigfúsdóttir do projeto Amiina, Hilmar Örn Hilmarsson e Steindór Andersen e que é inspirado num poema medieval islandês chamado Edda e que retrata um banquete de deuses marcado por presságios agoirentos sobre o fim do mundo. Já agora, a primeira interpretação desta verdadeira banda sonora de um poema sucedeu um par de vezes, há já dezoito anos, em dois mil e dois, no evento Reykjavik Arts Festival. Este lançamento em disco de Odin’s Raven Magic, que vai acontecer a quatro de dezembro à boleia do consórcio Krunk vs Warner, teve os arranjos assinados por Kjartan Sveinsson e por Sigfúsdóttir, da banda Amiina e capta uma performance no La Grande Halle de la Villette, em Paris, em setembro de dois mil e quatro.

Stendur æva (stands alive) é o mais recente tema divulgado deste novo registo dos Sigur Rós que faz uma súmula desse concerto em Paris, uma composição efervescente e onde todas as opções instrumentais, predominantemente sintéticas e minimalistas, mas também fortemente orgânicas e dominadas pelas cordas e pelos sopros da orquestra participante, se orientaram de forma controlada. A canção é marcada por um loop hipnótico conferido por um curioso xilofone construído a partir de fragmentos de pedra rudemente talhados, da autoria do escultor Páll Guðmundsson. A partir dessa base, os restantes elementos instrumentais, a voz profunda de Andersen e o falsete de Jonsi vão conjurando entre si até se aglutinarem num clímax sereno, mas bastante emotivo, resultando, no seu todo, num salutar grau de epicidade, sendo a audição da composição uma experiência auditiva de forte pendor metafísico e sensorial. Confere Stendur æva e a tracklist de Odin’s Raven Magic...

Sigur Rós - Stendur æva

1. Prologus 
2. Alföður orkar 
3. Dvergmál 
4. Stendur æva 
5. Áss hinn hvíti 
6. Hvert stefnir 
7. Spár eða spakmál 
8. Dagrenning

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publicado por stipe07 às 10:20

Still Corners – Crying

Sábado, 14.11.20

Dois anos depois do belíssimo registo Slow Air, a dupla britânica Still Corners está de regresso, novamente à boleia da Wrecking Light, com The Last Exit, o quinto álbum da carreira deste projeto formado por Greg Hughes e Tessa Murray e que sedeado há já alguns anos nos Estados Unidos tem pautado a sua carreira por calcorrear um percurso sonoro balizado por uma pop leve e sonhadora, íntima da natureza etérea e onde os sintetizadores são reis, mas também uma pop que pisca muitas vezes o olho aquele rock alternativo em que as guitarras eléctricas e acústicas marcam indubitavelmente uma forte presença.

Still Corners "Crying" - Northern Transmissions

Crying é a mais recente composição divulgada do alinhamento deste novo trabalho dos Still Corners, uma composição que apontando timidamente para ambientes dançantes e sendo dominada por um efeito sintetizdo retro, também impressiona por aquela saudável rugosidade orgânica que o baixo e a guitarra eletrificada contêm, tendo sempre em ponto de mira um indisfarçável ambiente de romantismo e sensualidade. Confere...

Still Corners - Crying

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publicado por stipe07 às 18:54

Glass Vaults – Sounds That Sound Like Music

Sexta-feira, 13.11.20

Os Glass Vaults são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em dois mil e quinze à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

Glass Vaults Drop New LP 'Sounds That Sound Like Music' - Music News at  Undertheradar

Dois anos depois, em dois mil e dezassete, The New Happy, o magnífico sucessor desse registo de estreia e que contava com as participações especiais de Daniel Whitaker, Ben Bro e Hikurangi Schaverien-Kaa, inebriou-nos com mais um desfile multifacetado de temas que impressionavam pela grandiosidade, patente nos samples, nos teclados e nos sintetizadores, sempre livres de constrangimentos, num disco onde não havia regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos.

Agora, em dois mil e vinte, a banda neozelandesa volta à carga com Sounds That Sound Like Music, onze composições misturadas por Bevan Smith e que têm como maior destaque o notável trabalho percurssivo que cobre todo o alinhamento do registo. Logo à primeira audição percebe-se que essa é a nuance que mais impressiona num álbum bastante vivo, tremendamente dançável e que mostra este projeto inimitável no modo como genuinamente manipula o sintético e o torna vibrante, fazendo-nos bater constantemente o pé e abanar a anca à boleia de determinados sons que, à partida, poderiam ser compreendidos por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, sem potencial para se converterem em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico e festivo.

O contagiante e sensual clima techno de Oils And Perfume, a sensualidade glam de High Heels, a toada escaldante de Pure Imagination, a banda sonora que vai abrir a primeira rave em Saturno em dois mil e oitenta e nove, o forte cariz sensorial com ligeiro resvalo no funk de Who Would I Become For Love, a magnificiência pop e daftpunkiana de Boys On Boys e o minimalismo hipnótico de Flat White Boy, são canções impregnadas com essa filosofia estilística que encharca este Sounds That Sound Like Music e que tem nas batidas, nos compassos e no andamento harmónico e melódico, as referências maiores, num resultado final que pode ser por nós apropriado para expormos, intimamente ou publicamente, sentimentos de alegria e exaltação, mas também de arrepio e um certo torpor perante a grandiosidade de uma receita sonora cujos fundamentos só podem ser descodificados pelos membros de um dos projetos mais inovadores e consistente da indie pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Vaults - Sounds That Sound Like Music

01. Sounds That Sound Like Music, Part 1
02. Oils And Perfume
03. Pure Imagination (Feat. Instant Fantasy)
04. Who Would I Become For Love?
05. High Heels
06. Better Weather
07. Boys On Boys
08. Flat White Boy
09. Jang 97 BPM
10. Dilute The Water
11. Sounds That Sound Like Music, Part 2

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publicado por stipe07 às 18:03

The Antlers – It Is What It Is

Quinta-feira, 12.11.20

Projeto fundamental do indie rock experimental norte-americano da última década, os The Antlers de Peter Silberman e Michael Lerner, habituaram-nos desde o fabuloso Hospice (2009) a um faustoso banquete de composições encharcadas em sensibilidade, angústia e conflito, canções cheias de sons aquáticos e claustrofóbicos, mas que nos mantinham sempre à tona porque também sabiam salvaguardar um soporífero cariz relaxante. Após o monumental registo Familiars, editado em dois mil e catorze e colocado em primeiro lugar nos melhores álbuns desse ano para a nossa redação, esse desfile de discos assertivos e metaforicamente intensos foi interrompido por opção da própria dupla e os The Antlers entraram num hiato que parece ter sido finalmente interrompido, para gaúdio de todos aqueles que se têm deliciado com a sua notável discografia.

The Antlers Share "It Is What It is": Listen - Stereogum

Assim, e ainda sem trazer consigo o anúncio de um sucessor de Familiars, conferimos há algumas semanas a composição Wheels Roll Home e agora It Is What It Is,  dois novos temas que parecem ter uma lógica sequencial e que marcam o arranque de uma nova fase da carreira dos The Antlers que, tendo em conta estas amostras, será certamente ainda mais promissora, luminosa e empolgante do que a anterior.

A terna acusticidade das cordas que conduzem What Is What It Is e o travo jazzístico das mesmas, um sabor impregnado ardentemente no efeito da guitarra e no modo como tais cordas se entrelaçam com a cândura da bateria,  e com um insinuante teclado, um trompete esguio e o sedutor e impressivo registo vocal de Silberman, sustentam uma canção que nos proporciona aquele limbo matinal e intimista que todos nós tanto desejamos.

It Is What It Is já tem também direito a um extraordinário vídeo, protagonizado pelos dançarinos Bobbi-Jene Smith e Or Schraiber e realizado por Derrick Belchman e Emily Terndrup. A trama do mesmo inicia onde terminou o filme de Wheels Roll Home. Confere...

The Antlers - It Is What It Is

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publicado por stipe07 às 18:13

Silente - Ninguém Tem de Saber

Segunda-feira, 09.11.20

Silente é um novo projeto nacional assinado por Miguel Dias (ex-Rose Blanket) e Filipa Caetano, um novo nome a ter em conta no nosso panorama sonoro alternativo e que acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com um charmoso trabalho homónimo, gravado na última meia década, entre o Mindelo e Figueiró dos Vinhos, período durante o qual o gosto pela experimentação contribuiu para alongar, sem pressas, todo o processo criativo. Masterizado por Miguel Pinheiro Marques (Arda Recorders), Silente conta com a colaboração do escritor e poeta Frederico Pedreira, que assina as letras das canções da dupla, mas também de Miguel Ângelo na bateria e de Miguel Ramos no baixo.

Silente… novo projecto de Miguel Dias lança single “Em Espera” – Glam  Magazine

Silente remete-nos para a ideia de silêncio e, num encadeamento algo grosseiro, do silêncio podemos passar ao sossego e daí à contemplação, que pode ser reflexiva, ou não. Caso seja, dúvidas poderão levantar-se, com elas é bem possível que surja o caos e, caso se consiga lidar com ele, reordenam-se as ideias, surgem novos objetivos, sonhos e projetos e, assim, irrequietos, avançamos rumo a novas aventuras e realizações pessoais. Silente, o disco, intenso e sensorial, tem tudo isto na sua bagagem, carrega consigo a doutrina, dá-nos as pistas e ainda, qual cereja no topo do bolo, serve como banda sonora para a demanda. A mesma sustenta-se numa simbiose bastante criativa entre a típica folk encharcada de nuances eminentemente clássicas e o cru e impaciente indie rock, sempre em busca de sonoridades plenas de charme e contemporaneidade, mas que também não descuram a bizarria experimental, pronta a explorar as cada vez mais ténues fronteiras entre o orgânico, acústico ou elétrico e o sintético, contemplativo ou ruidoso, fazendo-o de forma indesmentivelmente inovadora e sedutora.

Ninguém Tem de Saber, o mais recente single extraído do registo, é um claro exemplo de toda esta trama, uma canção eminentemente pop e na qual prevalece o gosto pela experimentação e a procura duma sonoridade única e irrepetível. O tema tem como base um teclado ligado a pedais de guitarra, enquanto que a tabla, um instrumento de percussão de origem indiana, tem numa das duas pistas com que foi gravada, um delay associado. Confere...

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publicado por stipe07 às 10:12

Noiserv – Uma Palavra Começada Por N

Sexta-feira, 06.11.20

Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional e um dos artistas queridos da nossa redação chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na sua bagagem um já volumoso compêndio de canções, que começaram a ser inscritas nos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's There. No outono de dois mil e dezasseis a carreira do músico ganhou um novo impulso com um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas que se tornou, justificadamente, mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional. Agora, quatro anos depois dessa pérola debitada quase integralmente nas teclas de um piano, Noiserv regressa com Uma Palavra Começada Por N, onze lindíssimas composições que, em pouco mais de meia hora, nos oferecem um David Santos de regresso a territórios sonoros mais intrincados, subtis e diversificados, com o registo, no seu todo, a proporcionar-nos um banquete intenso e criativo e a impressionar pelo modo como diferentes naunces, detalhes e samples se entrelaçam quase sempre com uma base melódica algo hipnótica, mas extremamente doce e colorida.

Noiserv - Caixa de música ONZE - man on the moon

Gravado no no seu novo estúdio A Loja e com alguns dos temas a terem já direito a excelentes vídeos que resultam de uma colaboração com os leirienses Casota Collective, Uma Palavra Começada Por N  marca também o regresso de Noiserv à língua de Camões, nomeadamente no modo como se serve da mesma como elemento estético fundamental das suas canções. De facto, a excelência melódica que faz já parte do adn deste músico e compositor lisboeta é aqui exemplarmente acompanhada por inquietantes letras que, sendo devidamente esmiuçadas, gostam de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera que as coisas mais simples desta vida nos podem proporcionar e a realidade às vezes tão crua, porque temos sempre a tendência natural para a complicar, um detalhe que ele soube, de novo, tão bem descrever, por exemplo, nas estrofes de Picotado (Regressa sempre em pressa, só por estar, Mas volta nessa vida torta, uma dança pouco solta, Picotado até lugar nenhum, Sempre só, sempre), ou de Neste Andar (As portas passavam sempre aos pares, Enquanto eu, só, encenei tudo, encenei tudo), apenas dois de vários outros exemplos que eu poderia trazer à baila para justificar esta minha opinião.

Mas há outras conclusões que são possíveis de extraír deste registo, além do notável avanço que o mesmo expressa relativamente à performance do autor como poeta e escritor e que, além das duas canções citadas, também em temas como Eram 27 Metros De Salto ou Neutro atinge picos de excelência. Olhando agora para a vertente sonora do alinhamento de Uma Palavra Começada Por N, uma das notas mais evidentes é que este músico e produtor, que ao longo da carreira tem açambarcado para a sua bagagem mental, com indelével e vincado carimbo, imensa herança sonora da vasta míriade de latitudes audíveis na indie contemporânea, desde, principalmente, o estupendo Almost Visible Orchestra (2013), um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcancou, três anos depois, laivos de excelência através das burilações exacerbadas que sustentaram as sequências ao piano de 00:00:00:00 (2016), agora alargou os seus horizontes, com superior mestria. Uma Palavra Começada Por N estabelece pontes entre aquilo que é definido como o orgânico e o acústico com o universo que geralmente carateriza aquela eletrónica de cariz mais ambiental, uma simbiose também sempre patente nas suas atuações ao vivo, em que é cada maior e mais intrincada a pafernália instrumental que o rodeia. De facto, este trabalho parece querer mostrar que Noiserv não receia minimamente que as suas criações possam depender, mais do que nunca, de todo um vasto catálogo de ligações de fios e transistores que debitam um infinito catálogo de sons e díspares referências, nem de encontrar o seu espaço particular dentro da vanguarda eletrónica que define muita da música atual, porque, ao mesmo tempo e também sossegando de algum modo os mais seus seguidores mais puristas, o disco está também repleto de momentos em que são as cordas e o piano quem ditam as regras e sobem ao trono sagrado no arquétipo sonoro desses mesmos instantes.

Assim, se no início algo subversivo, imersivo e singular de < i >, relativamente à herança de Noiserv, se percebe que em Uma Palavra Começada Por N pouco ou nada do que vamos escutar será facilmente comparável ao que já conferimos deste artista anteriormente, o crescente teclado hipnótico, a percurssão frenética e as delicadas inserções vocais que conduzem a já referida Eram 27 Metros De Salto, o majestoso clima borbulhante de Meio, assim como a indescritível montanha-russa de flashes, efeitos e interseções que se vão sobrepondo em Mas e que criam laços indeléveis com as cordas em Parou, amplificam tal audácia progressiva e fazem-no, ainda por cima, de modo profundamente emotivo e cinematográfico. Noiserv mostra-se, logo nesta primeira metade do disco, um genuíno e incomparável manipulador do sintético, um génio inventivo que converte tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico, mesmo que a tal nuvem minimal, nunca o traia, porque não fica. em nenhum instante, para trás.

No entanto, a partir daí,  na pueril melancolia afetiva a que sabe o piano que nos embala em Picotado, uma das canções mais bonitas de dois mil e vinte, no doce e tocante travo de Neste Andar e no arrojado psicadelismo das cordas que inflamam o manto sintético que abraça Neutro, percebemos que Noiserv mantém sempre, na tal interessante dicotomia em que agora subsiste e que é única no cenário alternativo nacional, um intenso charme, induzido por uma filosofia interpretativa que, mesmo tendo por trás um infinito arsenal instrumental, nunca abandona aquele travo minimalista, pueril, orgânico e meditativo que carateriza o cardápio sonoro deste músico único.

Em suma, não tendo qualquer tipo de preocupação explícita por compôr de modo particularmente comercial e acessível, o que desde logo é um enorme elogio que pode ser feito em relação a este autor, Noiserv deixa-se apropriar de todo o arsenal tecnológico que permite que seja colocado à sua disposição e torna-se ele próprio parte integrante do mesmo que, abraçando o músico, consome-o e dele se apropria. É por Noiserv não ter medo de se deixar enlear e possuir pelas opções instrumentais que toma, que as suas canções ganham a alma e o elo de ligação com a humanidade, que as carateriza, um desejo ardente que sempre o conduziu artisticamente, até porque, em entrevista dada ao nosso blogue há já sete anos, na ressaca de Almost Visible Orchestra, Noiserv confessou-nos que tem como único desejo que as suas músicas possam um dia fazer parte da vida de quem as ouve. O rumo evolutivo que o músico resolveu seguir em Uma Palavra Começada Por N, mostra que está, definitivamente, no bom caminho para atingir esse seu ardente desejo pessoal, suportado em músicas que, além de serem uma intensa fonte de prazer sonoro, têm cheiro, cor e sabor únicos no cenário musical alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Noiserv - Uma Palavra Começada Por N

01. < i >
02. Eram 27 Metros De salto
03. Mas
04. Parou
05. Meio
06. Picotado
07. Neste Andar
08. Neutro
09. Sem Tempo
10. Por Arrasto
11. Sempre Rente Ao Chão

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publicado por stipe07 às 14:12

Jeff Tweedy – Love Is The King

Terça-feira, 03.11.20

O norte-americano Jeff Tweedy, líder do míticos Wilco, é, claramente, um dos músicos mais profícuos e criativos do cenário musical alternativo atual. Já nesta década, ao comando da sua banda, idealizou e incubou The Whole Love (2011), Star Wars (2015) e Schmilco (2016) e entretanto aproveitou para escrever uma auto-biografia intitulada Let's Go (So We Can Get Back): A Memoir of Recording and Discording with Wilco, Etc., onde disserta sobre aspetos da sua personalidade e do seu trajeto nos Wilco. À boleia desse exaustivo exercício escrito de introspeção, acabou por criar WARM, um dos destaques da sua etapa discográfica a solo, onze canções que viram a luz do dia no início deste ano com a chancela da insuspeita dBpm Records e que sucedem a Together at Last (2017), um registo de versões de alguns dos temas mais emblemáticos da sua já extensa carreira. Depois de WARM, o ano passado chegou Warmer, disco que, conforme o título indica, não estava dissociado do conteúdo do antecessor, já que, além de ter sido gravado durante o mesmo período em que foi captado WARM, acabou por, na sua essência, obedecer à mesma filosofia sonora estilística. Agora, no início deste estranho outono, Love Is The King é a mais recente obra discográfica de um compositor que assenta o seu processo criativo numa concepção de escrita que explora bastante a dicotomia entre sentimentos e no modo criativo e refinado como musica as letras que daí surgem, aliando o seu adn pessoal às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo.

Jeff Tweedy And Sons On 'Love Is The King' And Entertaining As A Family :  NPR

Gravado em pleno período pandémico e de confinamento, no estúdio caseiro do autor, Love Is The King é um voo picado que o autor faz sobre si próprio, a sua existência e a daqueles que lhe são mais próximos, nomeadamente os seus herdeiros Spencer e Sam. Acaba por ser um disco feito em família, com a participação direta da mesma na sua concepção e definição do conteúdo sonoro e que, como é natural, sendo eminentemente autobiográfico, constitui um exercício sonoro de exorcização de alguns dos demónios, angústias, eventos traumáticos e conflitos interiores de Tweedy.

Este é, pois, um alinhamento com um travo melancólico particularmente abundante, mas também um registo quente, positivo e sorridente. Mas, tema após tema, seja qual for o lado para o qual se incline, a base é homogénea e de simples descrição; Love Is The King é um álbum direto, cru, tremendamente orgânico, claramente lo-fi, um impressivo e jubilante tratado folk, dominado por timbres de cordas particularmente estridentes, que abastecem uma constante dicotomia entre sentimentos e confissões.

O rock puro e duro de Guess Again, a pueril acusticidade de Even I Can See, a pureza country de Opaline, ou o travo mais alternativo de Bad Day Lately, sustentam toda uma simplicidade melódica simplesmente arebatadora mas terrivelmente eficaz, desprovida de qualquer sede de exacerbado protagonismo. O resultado final é uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, num álbum que manifesta de forma pura, desinteressada e bastante reveladora, uma pessoalidade única e inconfundivel no panorama indie atual. Espero que aprecies a sugestão...

Jeff Tweedy - Love Is The King

01. Love Is The King
02. Opaline
03. A Robin Or A Wren
04. Gwendolyn
05. Bad Day Lately
06. Even I Can See
07. Natural Disaster
08. Save It For Me
09. Guess Again
10. Troubled
11. Half-Asleep

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publicado por stipe07 às 17:10

Polyenso – Lost In The Wheel EP

Quarta-feira, 28.10.20

Os Polyenso são uma banda de rock experimental norte americana sedeada em St. Petersburg, na Flórida. A banda é composta pelo vocalista e teclista Brennan Taulbee, pelo multi-instrumentista e vocalista Alexander Schultz e pelo percussionista Denny Agosto. Year Of The Dog foi o último longa duração que o trio lançou, em janeiro do ano passado, oito canções, algumas instrumentais, impregnadas com uma tonalidade refrescante e inédita, um disco cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproximou do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea.

Review: Pure in the Plastic by Polyenso – 88.5 KURE

Agora, mais de ano e meio depois desse tomo, os Polyenso voltam a dar sinais de vida com novas canções que fazem adivinhar sucessor e que foram sendo divulgadas desde o início do último verão. A primeira foi Red Colored Pencil, depois chegou a vez da fresquíssima Dust Devil, e agora é a vez de conferirmos Lost In The Wheel, uma deslumbrante canção incubada num território firme de experimentações sonoras e com um travo lisérgico algo incomum no panorama alternativo atual.

O lançamento deste novo single dos Polyenso teve direito ao formato EP, onde se inclui além de Lost In The Wheel, um curto instrumental chamado “Tempo” e que introduz  MissU (Loops And One-Shots), um devaneio de eletrónica climática, algo sujo e caótico, mas bastante hipnótico. Ora ouçam...

Polyenso - Lost In The Wheel

01. Lost In The Wheel
02. “Tempo”
03. MissU (Loops And One-Shots)

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publicado por stipe07 às 18:22






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