Sexta-feira, 19 de Abril de 2019

Tellavision - Add Land

Já viu a luz do dia Add Land, à boleia da Bureau B, o mais recente tomo discográfico do projeto artístico Tellavision, já com uma década de carreira, assente em três álbuns e dois EPs, sempre em busca de excitantes aventuras sónicas, abstrações musicais que têm a sua raíz na génese do chamado krautrock e onde o ruído não é algo supérfluo ou incómodo, mas usado com um propósito bem definido de servir como mais um veículo de transmissão de emoções e sensações que se pretendem o mais físicas e orgânicas possível, dentro daquilo que a música, enquanto manifestação artística por excelência, consegue provocar no âmago de cada um de nós. E de facto, nestas treze canções que constituem o alinhamento de Add Land, produzidas pela própria Tellavision e por Thies Mynther, uma das metades da dupla Phantom / Ghost, não faltam instantes que arrebatam e concentram a atenção, mesmo no ouvinte mais desatento ou desprevenido.

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Começa-se a ouvir os flashes sintetizados do tema homónimo do disco e somos logo dominados por campos magnéticos que estalam ao longo de uma batida pontiaguda, enquanto um pulso lento e levemente errático agita-se por baixo da voz de Tellavision à medida que ela canta, evocando os medos que nos paralisam, mas também aqueles que nos inspiram. E logo nesse tema percebe-se outro ás de trunfo deste projeto, o registo vocal da protagonista, sempre vibrante e tremendamente empático. Depois, no minimalismo da batida misteriosa de Salty Man, no travo maquinal de Hat Makers e no groove dançante da buliçosa bateria que conduz Purple View, estamos lançados e ficamos ainda mais esclarecidos acerca dos elevados níveis de complexidade e virtuosismo que estiveram na génese da concepção de um registo, em que máquinas e sons eletrónicos coabitam pacificamente e com superior simbiose com aquela instrumentação mais tradicional e orgânica e que costuma balizar as trevas mestras do indie rock.

Disco merecedor de contemplação cuidada e dedicada, aberto, confiante e otimista, apesar de muito balizado pela noção de medo, como de certo modo já referi, mas com o foco deste sentimento muito virado para o amor que nos permite superar os nossos medos, nomeadamente o nosso amor pelo outro e por nós próprios, Add Land oferece um novo grau de firmeza qualitativa a um projeto ímpar no panorama sonoro e artístico alternativo europeu. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 14:48
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Quinta-feira, 18 de Abril de 2019

Tricycles - Tricycles

João Taborda, Afonso Almeida, Edgar Gomes e Sérgio Dias são os Trycicles, uma espécie de super grupo que se estreou recentemente nos registos discográficos com um extraordinário disco homónimo, gravado e produzido por Nelson Carvalho e editado pela Lux Records. Descritos como um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, os Tricycles começaram a ganhar vida quando o Sérgio (bateria) e o Edgar (baixo) se juntaram ao Afonso (guitarra, voz) e ao João (guitarra, teclas, voz), para dar corpo a uma coisa vagamente improvável, mas que resulta claramente e que em estúdio funciona porque lá brincam como putos irrequietos no parque infantil e ao vivo também já que nos concertos a ideia é que a energia da lua no alcatrão quente suba pelos pedais até ao volante e exploda de modo a que o público e a banda comunguem raivas e melodias.

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De facto, assim que começa All The Mornings, o primeiro tema do alinhamento de Tricyclesum jogo de reflexos e um irónico lamento contra o tic tac do relógio, duas ideias que nos são induzidas através de uma composição vibrante, de pêlo na venta, mas também com um travo melódico particularmente aditivo, percebemos que estamos na presença de um conjunto de amigos com uma inegável sensibilidade pop, feita dos mais variados ambientes, mas também com aquele cerrar de punhos no momento certo, indispensável num projeto que queira também marcar uma presença marcante num espetro mais rock e até garageiro, exemplarmente replicado em Climbing Down. Assim, com uma filosofia interpretativa que dá a primazia à guitarra quer no processo de criação melódica, quer também no modo como as canções vão sendo adornadas, geralmente com rudes baixos que conversam com educadas baterias e pianos falsamente corteses, avançamos algo inebriados ao longo de doze canções que acabam por funcionar, no seu todo, como um sentido quadro sonoro, pintado com belíssimos arranjos e transições entre um alargado e rico espetro sonoro, que abarca alguns dos melhores tiques e heranças do indie rock das últimas décadas. Por exemplo, se no caso de Hamburguer, os Tricycles nos oferecem uma visão algo solarenga e festiva, em Kill It Moon nuances eminentemente etéreas e em Into The Sun um registo mais acústico, mas bastante encantatório, já em Words e em Phone Call: Yesterday's Paper, nas asas de um buliçoso piano, o quarteto vira agulhas para uma atmosfera mais insinuante e charmosa, com Humble Hymn a piscar o olho para territórios mais rockeiros e sumptuosos, mas igualmente acessíveis e deslumbrantes e C para outros mais psicadélicos, experimentais e progressivos.

O resultado feliz deste alinhamento que exala com igual dose de inspiração contemporaneidade e tradição, é um exercício de criatividade e sensibilidade único, feito, como já referi, com os mais variados ambientes e que surpreende faixa a faixa. Nesta belíssima estreia, os Tricycles escancaram-nos um mundo inédito, cujos códigos e fechaduras só eles conhecem, mas que anseiam por partilhar com todos nós. E tal só sucederá eficazmente se estivermos sedentos de sensações revigorantes e reflexivas, já que este coletivo socorre-se continuamente de imagens evocativas, que depois sustenta em melodias bastante virtuosas e cheias de cor, arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos e variações rítmicas e emotivas inesperadas, um caudal sonoro e lírico cuja filosofia subjacente prova a sensibilidade deste projeto para expressar e fazer desfilar, através da música que criam, um rol imenso de sensações, vivências e confissões. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:26
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Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

Beck – Saw Lightning

Beck - Saw Lightning

Colors ainda não tem dois anos, o single Tarantula, inserido na banda-sonora do filme Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, quatro meses, mas Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, já tem disco novo na forja, um registo initulado Hyperspace, ainda sem data de lançamento anunciada, mas certamente ainda em dois mil e dezanove. Tal frenesim criativo não é inédito neste músico californiano que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos foi habituando, nas últimas três décadas, a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras.

Saw Lightning é o primeiro single divulgado de Hyperspace, pouco mais de quatro minutos de um efervescente festim pop, que sobressai pela luminosidade das cordas de uma viola, por diversos detalhes percurssivos e pelo fuzz intermitente de uma teclado, uma canção que deve muito aquela estética típica do som nova iorquino da década de oitenta, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Confere...


autor stipe07 às 12:08
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Segunda-feira, 15 de Abril de 2019

The Flaming Lips – King’s Mouth

Pouco mais de dois anos depois do excelente Oczy Mlody e de uma coletânea com os maiores êxitos da carreira com a chancela da Warner Brothers Records, os The Flaming Lips de Wayne Coyne estão de regresso com King's Mouth, um registo de doze canções que a banda assume ser um álbum conceptual baseado no estúdio de arte com este nome que esta banda de Oklahoma abriu há quatro anos e que tem com uma das principais atrações que os visitantes podem usufruir, um espetáculo de luzes LED de sete minutos que falam de um rei gigante bebé que quando cresceu fê-lo de tal modo que sugou para dentro da sua enorme cabeça todas as auroras boreais.

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King’s Mouth, o décimo quinto disco da carreira dos The Flaming Lips, lançado no âmbito da edição deste ano do Record Store Day, é sobre este rei disforme que morre quando tenta salvar o seu reino de uma avalanche de neve apocalíptica, acabando por sucumbir no meio dela. Após a morte, a sua cabeça enorme transforma-se numa espécie de fortaleza de aço pela qual os seus súbditos podem trepar e entrar pela boca, chegando, assim, às estrelas enquanto contemplam toda a imensidão de luzes e cores que em vida esse rei sugou enquanto se tornava maior e atingia a maioridade.

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Dado este mote lírico, incubado pela mente de um Coyne que é, claramente, um dos artistas mais criativos do cenário indie contemporâneo, a componente musical começou com uma mescla de sons e melodias abstratas que acabaram por se transformar num disco, apesar de esses não serem os objetivos iniciais do grupo. Mick Jones dos Clash e o coletivo Big Audio Dynamite narrariam as melodias e a história acima, descrita sucintamente, mas a verdade é que um mês depois de os The Flaming Lips colocarem mâos à obra estava pronto um álbum que acaba por nos oferecer mais uma verdadeira orgia lisérgica de sons e ruídos etéreos que nos catapultam, em simultâneo, para duas direções aparentemente opostas, a indie pop etérea e psicadélica e o rock experimental.

De facto, nas cordas de Sparrow, nos efeitos etéreos e nas nuvens doces de sons que parecem flutuar em Giant Baby, na suavidade flourescente de How Many Times, na sombria agregação de ruídos e samples que abastecem Electric Fire, na inflamante rugosidade do baixo e das distorções que vagueiam por Feedaloodum Beedle Dot e, principalmente, na cósmica puerilidade de All For The Life Of The City, somos convidados a contemplar um extraordinário tratado de indie pop etérea e psicadélica. Tendo esta natureza hermética, King's Mouth afirma-se num bloco de composições que são mais do que partes de uma só canção de enormes proporções, porque além de existir neste alinhamento diversidade e heterogeneidade, cada composição tem um objetivo claro dentro da narrativa, compartimentando-a e ajudando assim o ouvinte a perceber de modo mais claro toda a trama idealizada.

King's Mouth conduz-nos, então, numa espécie de viagem apocalíptica, onde Coyne, sempre consciente das transformações que foram abastecendo a musica psicadélica, assume o papel de guia e conta-nos uma história simples, mas repleta de metáforas sobre a nossa contemporaneidade, servindo-se ora de composições atmosféricas, ora de temas de índole mais progressiva e agreste e onde também coabitam marcas sonoras feitas com vozes convertidas em sons e letras e que praticamente atuam de forma instrumental. No final, tudo é dissolvido de forma aproximada e homogénea, através de sintetizadores cósmicos e guitarras experimentais, sempre com enorme travo lisérgico, num resultado final que ilustra na perfeição o cariz poético dos The Flaming Lips, um grupo ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade e sempre capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-los para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas que só eles conseguem transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

The Flaming Lips - King's Mouth

01. We Dont Know How a´And We Don’t Know Why
02. The Sparrow
03. Giant Baby
04. Mother Universe
05. How Many Times
06. Electric Fire
07. All For The Life Of The City
08. Feedaloodum Beedle Dot
09. Funeral Parade
10. Dipped In Steel
11. Mouth Of The King
12. How Can A Head


autor stipe07 às 14:49
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Sexta-feira, 12 de Abril de 2019

Tunng – Heatwave

Tunng - Heatwave

Alguns meses depois do excelente Songs You Make At Night, disco que chegou aos escaparates no verão passado à boleia da insuspeita Full Time Hobby, o coletivo britânico Tunng, que está a comemorar década e meia de uma respeitável carreira, onde tem misturado com uma ímpar contemporaneidade e bom gosto eletrónica e folk, volta a dar notícias com Heatwave, o primeiro avanço para This Is Tunng… Magpie Bites and Other Cuts, um disco de raridades e lados b que a banda atualmente formada por Mike Lindsay, Sam Genders, Ashley Bates, Phil Winter, Becky Jacobs e Martin Smith, prevê lançar no final do próximo mês de junho.

Tema vibrante, alegre e solarengo, Heatwave impressiona logo pela vasta pafernália de sons e detalhes sintéticos e orgânicos que o preenchem, camada após camada, sendo uma excelente canção para se perceber, de modo particularmente belo e impressivo, a materialização de toda a riqueza e heterogeneidade estilística que tem conduzido as mais recentes propostas sonoras dos Tunng. Confere...


autor stipe07 às 18:16
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Quinta-feira, 11 de Abril de 2019

Tame Impala - Borderline

Tame Impala - Borderline

Cerca de quatro anos após Currents e a testar os limites da nossa paciência devido a tão prolongado hiato, eis que os australianos Tame Impala de Kevin Parker voltam, finalmente, a dar sinais de vida com o anúncio praticamente certo de um novo disco ainda este ano.

De facto, depois de há algumas semanas nos terem brindado com o tema Patience, agora chegou a vez de ficarmos a conhecer a canção Borderline, que foi apresentada em primeira mão no famoso programa de televisão norte-americano Saturday Night Live. A mesma gravita em redor de um teclado inspirado, em redor do qual se insinua a bateria, diversos encaixes eletrónicos, uma guitarra indulgente e o habitual registo vocal ecoante, num resultado final algo melancólico e espiritual e onde, como é norma no projeto, rock, eletrónica e psicadelia dão as mãos dentro de um espetro eminentemente pop. Confere...


autor stipe07 às 23:07
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Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

The Drums - Brutalism

Os norte-americanos The Drums lançaram há dois anos Abysmal Thoughts, o primeiro registo desde que este projeto se tornou, assumidamente, no trabalho a solo de Jonny Pierce. O ano passado este músico nova iorquino voltou a dar sinais de vida com o tema Meet Me In Mexico e agora, na primavera de dois mil e dezanove, regressa finalmente com um novo álbum, um registo intitulado Brutalism, que viu a luz do dia recentemente, à boleia da ANTI.

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Os The Drums são um dos grandes nomes do movimento saudosista de revitalização do lo-fi, que tem feito escola no século XXI. Na verdade, continuam a ser uma daquelas bandas que pura e simplesmente não custa nada gostar, apesar dos momentos menos felizes que viveram e que ditaram praticamente o ocaso do projeto quando, em 2010, o guitarrista Adam Kessler abandonou o projeto e alguns anos depois Jacob Graham também acabou por o fazer. Pierce é quem mantém o projeto vivo, tentando com este Brutalism estabilizar os The Drums numa posição de relevo dentro do espetro sonoro que calcorreia, procurando, desta vez, uma sonoridade com maior ênfase naquela pop sintetizada que dialoga promiscuamente com o rock oitocentista. Tal infere-se, logo a abrir o registo, no minimalismo algo maquinal de Pretty Cloud e depois no single Body Chemistry, uma canção muito pessoal em que Pierce aborda o modo como lidou com um diagnóstico recente de depressão (Maybe I’m depressed, Maybe I know too much about the world, about myself) e que sonoramente assenta numa curiosa simbiose entre o indie surf rock e a eletrónica chillwave, audível num curioso e bem sucedido jogo de interseções melódicas entre baixo e sintetizadores. 

As guitarras de Encyclopedia, um disco que se afirmou, à época, como um portento de post punk, que parecia ter vindo diretamente do período aúreo e mais sombrio do indie rock, acabam por ter uma posição de menor relevo neste registo, que nos oferece, no seu todo, uma verdadeira montanha mágica, mas mais sintetizada, acompanhada por guitarras menos agressivas mas, de certo modo, melodicamente mais ousadas. Os sintetizadores posicionam-se, portanto, na linha da frente do processo de construção melódica das canções. Conferimos tal permissa em 626 Bedford Avenue, uma daquelas composições que atesta na simbiose, entre flashes sintetizados borbulhantes e cordas luminosas, a rugosa vitalidade experimental que os The Drums sempre demonstraram e os sintetizadores flutuantes do tema homónimo, assim como nos sons poderosos e tortuosos que abastecem Loner, tema conduzido por um baixo exemplar, mas também na tonalidade mais épica e efervescente do efeito da guitarra que tempera o tapete percurssivo sempre agreste de Kiss It Away. Estes são temas que nos oferecem aquela faceta mais marcante, elétrica e explosiva dos The Drums, num alinhamento em que, canção após canção, se sente a vibração a aumentar e a diminuir de forma ritmada e empolgante, com composições com o selo caraterístico daquele rock misterioso e cheio de fechaduras enigmáticas e chaves mestras, mas que, se forem experimentadas com dedicação, acabam por abrir portas para um refúgio perfeito. Depois, ainda há o bónus de podermos conferir a postura vocal de Pierce, mais madura e suculenta do que nunca e particularmente tocante e emocionada em alguns momentos. I Wanna Go Back e Nervous são aquelas em que melhor se pode apreciar esta sua formatação vocal algo nostálgica e amiúde feita com uma quase pueril simplicidade.

Registo bem balizado em termos de referências, Brutalism merece dedicação e nota positiva não só por este encosto a tão importantes referências, particularmente as oitocentistas, mas também por, na minha opinião, mostrar que Pierce é cada vez mais capaz de agarrar em fórmulas bem sucedidas e, procurando nunca se colar demasiado a essa zona de conforto, conseguir criar algo único e genuíno e que, no seu todo, represente a relevância deste projeto nova iorquino no universo indie atual. De facto, Brutalism é uma prova evidente que o grupo não desiste de ser uma referência e que procura fazê-lo com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

The Drums - Brutalism

01. Pretty Cloud
02. Body Chemistry
03. 626 Bedford Avenue
04. Brutalism
05. Loner
06. I Wanna Go Back
07. Kiss It Away
08. My Jasp
09. Blip Of Joy


autor stipe07 às 20:49
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Domingo, 7 de Abril de 2019

Vampire Weekend – This Life & Unbearably White

Mais de meia década depois do excelente Modern Vampires of the City, disco lançado em dois mil e treze, os Vampire Weekend de Ezra Koenig, Rostam Batmanglij, Chris Baio, Chris Tomson e Greta Salpeter, estão finalmente de regresso aos lançamentos discográficos com Father Of The Bride, o quarto disco da carreira do grupo de Nova Iorque, que irá ver a luz do dia a três de maio, através da Columbia Records.

Vampire Weekend

Father Of The Bride será um disco duplo com dezoito composições e um terço do seu alinhamento está a ser divulgado ao grande público no primeiro semestre deste ano, tendo esse processo já dado o pontapé de saída com Harmony Hall e 2021, em fevereiro e Sunflower e Big Blue, no início de março. Agora, cerca de um mês depois, é divulgada a terceira fornada, constituída pelas canções This Life e Unbearably White.

This Life é um buliçoso tema, uma composição solarenga e com um groove bastante charmoso, assente num trabalho rítmico e percurssivo bastante radiante. Conta com a participação especial vocal de Danielle Haim e tem como principal curiosidade uma letra inspirada nas canções It Never Rains in Southern California, um sucesso de mil novecentos e setenta e dois da autoria de Albert Hammond, pai de Albert Hammond Jr., membro dos The Strokes e presença assídua neste blogue (Baby I know pain is as natural as the rain, I just thought it didn’t rain in California) e, no refrão, na composição Tonight, do rapper californiano iLoveMakonnen (You’ve been cheating on, cheating on me, So I’ve been cheating on, cheating on you).

Quanto a Unbearably White, tema que se debruça no modo cínico como a questão do racismo é hoje tratada numa cada vez mais politizada e dividida América (There’s an avalanche coming, Cover your eyes), trata-se de uma composição mais melancólica e intimista, com uma vasta inserção de arranjos de cordas e outros de origem sintética a pairarem sobre uma melodia intrigante e algo densa. Confere... 

Vampire Weekend - This Life - Unbearably White

01. This Life
02. Unbearably White


autor stipe07 às 14:08
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Sexta-feira, 5 de Abril de 2019

Lambchop - This (Is What I Wanted to Tell You)

Depois de FLOTUS, o disco que os Lambchop editaram em dois mil e dezasseis, Kurt Wagner, o grande mentor deste projeto norte-americano sedeado em Nashville e ao qual se juntam atualmente o baixista Matt Swanson e o pianista Tony Crow, fez uma cover para o clássico When You Were Mine de Prince e realizou um mini-documentário em Colónia, onde juntamente com seis músicos alemães reinterpretou temas de FLOTUS. Após essa demanda por outros territórios artísticos, Wagner sentiu-se inspirado para mais uma adição ao cardápio do projeto da sua vida e quase no ocaso de dois mil e dezoito começaram então a ser revelados detalhes de This (is what I wanted to tell you), um trabalho que viu a luz do dia a vinte e dois de março último à boleia da City Slang, em parceria com a Merge Records e que, além do trio, também conta nos créditos com Matt McCaughan, reconhecido pelo seu excelente trabalho percurssivo em projetos como os Hiss Golden Messenger e Bon Iver.

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Percurssores do chamado alt-country, os Lambchop continuam a enredar-se por territórios sonoros onde o risco permanente é uma névoa que paira sempre sobre o grupo, mas que nunca se precipita e sempre se precipita devido ao superior quilate das canções e da filosofia adjacente a cada novo laçamento do grupo. This (Is What I Wanted to Tell You) não foge a essa regra, com os Lambchop a manterem-se fiéis à sua essência estética que vive muito da orgânica das cordas, quase sempre a base das composições, mas a mostrarem-se cada vez mais enredados nas possibilidades que o progresso tecnológico porporciona no momento de conceber o arquétipo instrumental de cada composição que idealizam. The December-ish You, a primeira canção revelada de This (Is What I Wanted to Tell You) teve, desde logo, a virtude de comprovar esta tese anterior. Se, por um lado, permanece nela aquela habitual tonalidade particularmente íntima e que exala a desarmante sensibilidade dos Lambchop, por outro, quer esse tema quer, por exemplo, This is what I wanted to tell you, são composições que seguem uma linha melódica e estilística que enreda cada vez mais a banda em paisagens onde jazz e eletrónica se misturam com superior elegância.

Esta sensação de constante experimentação em que os Lambchop vivem e da qual saiem sempre de modo airoso é, claramente, uma marca de independência e coragem por parte de quem assume estar na linha da frente de uma sonoridade eminentemente orgânica, mas que se disponibiliza para ser alvo de um manancial de possíveis remisturas por parte de quem se quiser aventurar a tentar embrenhar-se a fundo num arquétipo sonoro que configura uma espécie de country urbano com laivos de soul. As cordas e a voz modelada de The New Isn’t So You Anymore, trespassadas por vários efeitos divagantes, por um piano insinuante e por sopros estridentes e o jogo arbitrado pelo piano e que se estabelece entre baixo e bateria em Everything For You, uma das composições mais ritmadas do alinhamento, são os momentos maiores de uma espécie de eletroacústico que se embrenha a fundo por territórios digitais, mas nunca deixa de ter bem definidas as suas fronteiras. 

No que concerne ao restante alinhamento, não faltam em This (Is What I Wanted to Tell You) longas canções sobre relacionamentos, perdas, tristezas, revestidas com ironia e autodepreciação, como se exige a um disco dos Lambchop, que volta a colocar este grupo nos lugar devido em termos de reconhecimento que é, no fundo, continuar a conseguir ser uma espécie de segredo bem escondido para quem tem o bom gosto de apreciar o charme e a elegância que continuam a exalar deste projeto. Importa referir apenas que This (is what I wanted to tell you) é, tecnicamente, o décimo terceiro registo dos Lambchop desde o álbum de estreia em mil novecentos e noventa e quatro, mas foi anunciado por Wagner, pelos vistos por uma questão de superstição, como o décimo quarto da carreira do grupo (Like all the other tallest buildings in the world, Lambchop skips No. 13), This (is what I wanted to tell you). Espero que aprecies a sugestão...

Lambchop - This (Is What I Wanted To Tell You)

01. The New Isn’t So You Anymore
02. Crosswords, Or What This Says About You
03. Everything For You
04. The Lasting Last Of You
05. The Air Is Heavy And I Should Be Listening To You
06. The December-ish You
07. This Is What I Wanted To Tell You
08. Flower


autor stipe07 às 10:52
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Domingo, 24 de Março de 2019

Tame Impala – Patience

Tame Impala - Patience

Cerca de quatro anos após Currents e a testar os limites da nossa paciência devido a tão prolongado hiato, eis que os australianos Tame Impala de Kevin Parker voltam, finalmente, a dar sinais de vida com Patience, tema que deverá fazer parte de um novo disco deste coletivo que tem na nostalgia e no modo como apresenta com uma contemporaneidade invulgar alguns sons do passado, importantes pedras de toque da sua filosofia sonora.

Esta canção Patience não foge à bitola concetual anteriormente descrita já que nos seus quase cinco minutos acomoda-se num rock psicadélico sonoramente sustentado numa guitarra mágica de forte índole setentista e que se manifesta com um charme vintage único e em constantes encaixes eletrónicos, detalhes aos quais se junta o já habitual almofadado conjunto de vozes em eco, num resultado final em que rock, eletrónica e psicadelia dão as mãos dentro de um espetro eminentemente pop. Confere...


autor stipe07 às 10:48
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Sexta-feira, 22 de Março de 2019

Be Forest – Knocturne

Knocturne foi lançado há algumas semanas à boleia da We Were Never Being Boring, uma editora já com um catálogo bastante interessante e importante para várias bandas underground e que ainda procuram chegar a um lugar de relevo no universo sonoro alternativo. Falo do novo registo de originais do fabuloso projeto italiano Be Forest, oriundo de Pesaro, uma pequena cidade na costa do Adriático e um viveiro cultural onde, nos últimos, anos, têm despontado algumas bandas promissoras. Formados atualmente por Costanza Delle Rose (baixo e voz), Erica Terenzi (bateria e voz) e Nicola Lampredi (guitarra), este grupo do país dos césares estreou-se nos discos no início desta década com Cold, um trabalho que chamou a atenção por plasmar uma forte influência de um nome tão fundamental como os Cure. Depois, Heartbeat, o sempre difícil segundo álbum, chegou quatro anos após esse promissor arranque e agora, mais ou menos após o mesmo hiato temporal, foi editado este Knocturne, um registo com nove canções produzido e misturado pela própria banda com a ajuda de Steve Scanu e masterizado por Josh Bonati.

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Knocturne é o disco mais ambicioso, rico, cru e atmosférico do catálogo dos Be Forest, um trio conhecido por apostar numa filosofia sonora que centra esforços em aproximações a um indie rock com uma componente eminentemente etérea e contemplativa e que tem impressionado pelo bom gosto com que, nos alinhamentos já criados, se cruzam vários estilos e dinâmicas sonoras, com o lo fi a servir de elemento aglutinador das várias influências do trio. Knocturne não foge, portanto, a esta regra mas, honra seja feita ao seu conteúdo, assume-se como um registo mais ambicioso e amplo no modo como permite ao ouvinte contemplar não só uma pafernália alargada de sensações em que o cósmico e o espiritual são presenças imponentes, como é o caso do single Bengala, uma canção vibrante e fortemente intuitiva, mas também onde não falta um certo groove altivo e revigorante, não só plasmado na distorção aguda da guitarra de Alto I, mas também no vasto rol de efeitos que vagueiam por Empty Space e, principalmente, na percurssão de Gemini, uma composição com uma progressão quase incontrolada e que coloca os Be Forest mesmo na fronteira de um rock progressivo onde o experimentalismo das cordas distorcidas dita, como é óbvio, a sua lei.

Os Be Forest têm no seu ADN bem vincada a vontade de calcorrear uma imensidão de territórios sonoros e este Knocturne mostra que o fazem com uma maturidade imensa, assente em melodias que fazem levitar quem se deixar envolver pelo assomo de elegância contida e pela sapiência melódica do seu conteúdo. Ouvir este disco é uma experiência diferente revigorante e a oportunidade de contatar com um conjunto de canções que transbordam uma aúrea algo mística e espiritual, reproduzidas por um grupo que sabe como o fazer de forma direta, pura e bastante original. Espero que aprecies a sugestão...

Be Forest - Knocturne

01. Atto I
02. Empty Space
03. Gemini
04. K
05. Sigfrido
06. Atto II
07. Bengala
08. Fragment
09. You, Nothing


autor stipe07 às 12:54
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Quinta-feira, 21 de Março de 2019

Said The Whale – Cascadia

Os Said the Whale de Vancouver, no Canadá, regressaram aos discos no início deste ano com Cascadia, o sucessor do excelente As Long As Your Eyes Are Wide, que viu a luz do dia há uns dois anos. Sexto disco da carreira deste projeto liderado por Ben Worcester e Tyler Bancroft, Cascadia contém, em doze canções, um festim luminoso de forte índole sintetizada, que nos mostra um indie rock com pegadas de folkcountry e muita pop e onde é possível a apreciar delicadas harmonias vocais, pianos, guitarras limpas e um imenso impressionismo lírico.

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Ouvir Cascadia é circular por um sinuoso percurso sonoro com diversas interseções e cruzamentos que abarcam uma vasta míriade de géneros e estilos, tudo feito com coerência e bom gosto. Se em alguns instantes do registo é o rock mais comercial quem dita as suas regras, nomeadamente no single  UnAmerican, já em Love Don't Ask, por exemplo, aprecia-se, ainda dentro do mesmo rock, uma faceta mais intrincada e rugosa que, piscando o olho ao garage através das guitarras, encontra um ponto de equilíbrio no modo como o piano se consegue acomodar ao restante arquétipo instrumental do tema. E nestas duas canções acabamos por ficar com uma ideia clara da tal porção de referências que orienta os Said The Whale, cada vez mais aprimoradas, de disco para disco. Depois, o clima dream pop atmosférico de Shame, a pura e genuína folk de Old Soul, Young Heart, ou o travo lo-fi e avant garde de Gambier Island Greeen, acabam por cimentar toda esta flexibilidade e diversidade estilística de um projeto que nos oferece um registo que acaba por ter nesta enorme riqueza um dos seus maiores atributos.

Cascadia é simultaneamente sério e divertido, sexy e contemplativo e cada uma das suas composições tem uma alma própria, por um lado, mas, por outro, o disco também só é entendível na sua plenitude, já que  este é um alinhamento coerente, autêntico, rico e onde há muito para descobrir e desfrutar. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Wake Up
02. UnAmerican
03. Love Don’t Ask
04. Cascadia
05. Shame
06. Old Soul, Young Heart
07. Record Shop
08. Moonlight
09. Broken Man
10. Love Always
11. Level Best
12. Gambier Island Green


autor stipe07 às 15:15
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Sexta-feira, 15 de Março de 2019

Helado Negro – This Is How You Smile

Pouco mais de dois anos após o excelente Private Energy, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, um filho de emigrantes equatorianos, radicado nos Estados Unidos, está de regresso com This Is How You Smile, o seu sexto longa duração. Falo de doze belíssimas canções que plasmam mais um momento marcante deste músico sedeado em Brooklyn, um disco onde Lange amplia as suas experimentações com samples e sons sintetizados de modo a replicar uma multiplicidade de referências sonoras, desta vez em busca de ambientes mais intimstas e acolhedores, que encarnam na perfeição o espírito muito particular e simbólico da música de Helado Negro.

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Projeto que me é muito querido, Helado Negro tem conduzido o seu percurso musical sempre em busca da mescla entre aa especificidade sonora centro-americana, muito marcada por percurssões vibrantes e cordas de forte pendor orgânico, com a melhor eletrónica ambiental contemporânea. E de facto, se logo em Please Won't Please, uma sublime sapiência sintética e uma incontida sensação de relaxamento e conforto apoderam-se imediatamente do ouvinte, nos acordes de Imagining What To Do, é fácil viajarmos para as areias calientes do caribe. Depois planamos com os samples dos sons tipicamente sul americanos que adornam os teclados e os sopros ariscos de Fantas, e ficamos prontos para ao som da viola que conduz Pais Nublado, para levantar o nosso olhar para o horizonte sem deixar de querer alargar o diâmetro da nossa anca, possuída, sem dono e com vontade própria, porque ela não resiste a acompanhar, subtilmente, uma canção que fala que vai subindo de intensidade e emoção enquanto provoca igual efeito na temperatura do nosso corpo, que volta a estabilizar ao som do delicado piano que sustenta Running, um tema com forte pendor temperamental e com um ambiente único, feito de nostalgia, mas também de cor, de sonho e de sensualidade. Sabana de Luz é outra composição com um efeito soporífero que convida aquela intimidade que força o pensamento à divagar, mas sem deixar que o mesmo resvale para memórias menos felizes.

É assim a música de Helado Negro, intensa, palpável, urbana e dominada por um pendor acústico e tipicamente latino, mas com a eletrónica em forma de dream pop de cariz lo fi e etéreo e que incluí também travos deR&B, a ser cada vez mais um veículo privilegiado no processo de composição. Nela sente-se facilmente aquele aspeto geográfico e ambiental tão sul americano em que cidade, praia e floresta tropical amiúde se fundem, neste caso num registo com uma elevada vertente autobiográfica, já que nele Lange desabafa sobre experiências individuais da sua infância e juventude. O músico apresenta muito esta filosofia interpretativa, no que concerne à escrita das suas canções, mostrando, sem receios, ser alguém positivamente obcecado pela evocação de memórias passadas e, principalmente, pela concretização sonora de sensações, estímulos, reacções e vivências cujo fato serve a qualquer comum mortal.

Cada vez mais confiante, inspirado e multifacetado, Lange continua a aventurar-se corajosamente na sua própria imaginação, construída entre o caribe que o viu nascer e a América de todos os sonhos. Neste This Is How You Smile contorna, mais uma vez, todas as referências culturais que poderiam limitar o seu processo criativo para, isento de tais formalismos, compilar com música, história, cultura, saberes e tradições, num pacote sonoro cheio de groove e de paisagens sonoras que contam histórias que Helado Negro sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Please Won’t Please
02. Imagining What To Do
03. Echo For Camperdown Curio
04. Fantasma Vaga
05. Pais Nublado
06. Running
07. Seen My Aura
08. Sabana De luz
09. November 7
10. Todo Lo Que Me Falta
11. Two Lucky
12. My Name Is For My Friends


autor stipe07 às 18:17
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Segunda-feira, 11 de Março de 2019

Panda Bear – Buoys

Já está nos escaparates desde o início do passado mês de fevereiro Buoys, o sexto álbum de estúdio do músico norte-americano Panda Bear, mais um vigoroso passo em frente na carreira a solo de Noah Lennox, um músico natural de Baltimore, no Maryland e a residir em Lisboa e um dos nomes obrigatórios da indie pop e daquele rock mais experimental e alternativo que se deixa cruzar por uma elevada componente sintética, sempre com uma ímpar contemporaneidade e enorme bom gosto.

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Quem acompanha cuidadosamente e com particular devoção a carreira de Panda Bear, compreende a necessidade que ele sente de propôr em cada novo disco algo que supere os limites da edição anterior. É como se, independente da pluralidade de acertos que caracterizavam o antecessor, o novo compêndio de canções que oferece tenha que transpôr barreiras e como se tudo o que fora antes construído se encaminhasse de alguma forma para o que ainda há-de vir, já que é frequente perceber que, entre tantas mudanças bruscas e nuances, é normal perceber que, para Bear, o que em outras épocas fora acústico, transformou-se depois em eletrónico, o ruidoso tornou-se melodioso e o que antes era experimental, estranhamente aproximou-se da pop. Agora, quase quatro anos depois do aclamado Panda Bear Meets The Grim Reaper e um do EP A Day With The Homies, Lennox dá um novo significado a essa necessidade de superação e de evolução a cada disco no conteúdo deste Buoys, um regresso a um maior minimalismo e acusticidade, numa sequência de nove canções que não deixam de nos oferecer ainda primorosas e atrativas experimentações, mas com um menor nível de desordem sonora e, consequentemente, uma maior acessibilidade para o ouvinte, com o próprio autor a confessar que pretendeu fazer desta vez canções que a sua descendência pudesse ouvir, compreender e apreciar.

Assim, num álbum sereno, apelativo e coerente, importa antes de mais referir que uma das maiores diferenças que notamos neste Buoys relativamente aos registos anteriores do autor é uma maior predominância da componente vocal na sonoridade global dos temas. Isso não significa necessariamente que exista uma maior abundância dessa vertente, desta vez gravada quase sempre num único take, mas é um facto que desta vez as batidas sintéticas e os efeitos maquinais das cordas ou a sua acusticidade, em vez de se sobreporem à voz, amparam-na e, em alguns casos, até ajudam a evidenciar os dotes de quem a replica. E para esta nova realidade plasmada em Buoys muito contribuiu o excelente trabalho de produção de Rusty Santos, além de diversos arranjos da autoria de DJ e cantora de trap e reggaetón chilena Lizz, não só vocais mas também, por exmplo, de gotas de água ou disparos de laser, só para citar alguns dos exemplos mais audíveis e felizes. Por exemplo, no caso das gotas de água, são elas que de certa forma marcam o ritmo de Dolphin, o single de apresentação do disco e ajudam a dar ao tema uma frescura e um colorido muito curiosos e apelativos.

Mas há outros momentos fortes e merecedores de devoção e audição atenta neste Buoys. O eco que ressoa das cordas e da voz que dá vida a Cranked, atravessada pelos tais lasers, o toque cósmico do dub crescente em Token, o belíssimo instante de folk psicadélica que é I Know I Don't Know ou o (falso) minimalismo tremendamente detalhístico de Master, fazem o disco fluir com uma salutar leveza e uma homogeneidade que acaba por fazer transparecer um certo humanismo que Lennox certamente quis que transbordasse de um alinhamento que entre o experimental e o atmosférico, seduz e emociona, um rol de canções em que, parecendo que não, abundam sons que tão depressa surgem como se desvanecem e deixam-nos sempre na dúvida sobre uma possível alteração repentina do rumo dos acontecimentos, exigindo ao ouvinte estar permanentemente alerta e focado no que escuta.

Exatidão e previsibilidade não são palavras que constem do dicionário deste autor e Buoys, um disco corajoso e encantador, plasma mais uma completa reestruturação no som de Panda Bear, firmada por uma poesia sempre metafórica, o que faz com que este artista se mostre ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade e capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-lo para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas e que só ele consegue transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

Panda Bear - Buoys

01. Dolphin
02. Cranked
03. Token
04. I Know I Don’t Know
05. Master
06. Buoys
07. Inner Monologue
08. Crescendo
09. Home Free


autor stipe07 às 17:48
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Sexta-feira, 8 de Março de 2019

Swervedriver - Future Ruins

Foi no passado dia vinte e cinco de janeiro, à boleia da Dangerbird, que viu a luz do dia Future Ruins, o novo registo de originais dos Swervedriver de Adam Franklin, uma banda icónica de rock shoegaze, nascida há quase trinta anos das cinzas dos míticos Shake Appeal e que depois de um hiato de cerca de uma década voltou a reunir-se há cerca de três anos, tendo incubado na altura o registo I Wasn't Born To Lose You, que viu finalmente sucessor.

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Álbum com uma forte componente política, já que se centra particularmente na política climática dos países ditos desenvolvidos, Future Ruins pretende mostrar o quanto os Swervedriver se sentem infelizes e preocupados com aquilo que o homem está a fazer à sua própria casa, o planeta onde vive. O tema homónimo do registo é muito claro relativamente a essa intenção, já que oferece-nos uma sombria reflexão sobre o estado atual do mundo, considerando que o mesmo é hoje governado por pessoas insensatas que vão levar a nossa descendência à ruína. A própria sonoridade depressiva da canção casa na perfeição com o seu conteúdo lírico, cimentando, desde logo, um importante aspeto deste registo, que mostra uns Swrvedriver mais pessimistas e conformados do que o habitual. Recordo que ao longo da sua discografia, este projeto britânico sempre nos habituou a mostrar que por muito mau que seja o enredo, há sempre algo de positivo ao virar da esquina.

Assim, a força motriz sonora que está no cerne deste Future Ruins, incubado por um projeto que se foi habituando a apresentar um indie rock contemplativo, melancólico e atmosférico, mas mesmo assim incisivo, é um rock com uma elevada toada shoegazer, ali num meio termo entre o post punk e o rock mais progressivo. Acaba por ser uma sonoridade de forte cariz ambiental, uma espécie de space travel rock, em que guitarras e sintetizadores apostam em distorções rugosas e efeitos inebriantes rumo a uma cosmicidade sonora que, como não podia deixar de ser, conta também com uma elevada componente etérea e contemplativa.

Tendo em conta toda esta filosofia estilística do registo, Mary Winter acabou por ser uma opção óbvia para single de apresentação de Future Ruins, já que se trata de uma melancólica e imponente canção, assente numa guitarra distorcida que contrasta na perfeição com o registo vocal ecoante de Adam, que disserta sobre os pensamentos de um astronauta que passeia no espaço enquanto recorda bons momentos vividos cá em baixo (Been floatin’ out here so long, And you know I’m not coming down, With planet earth long gone, And my feet don’t touch the ground). Depois, na luminosidade melódica da guitarra que conduz Drone Lover e na nebulosa pujança de Golden Remedy conferimos outros dois momentos altos de um alinhamento com um universo muito próprio e que, no seu todo, comunica com a nossa mente e os nossos sentidos de modo particularmente perturbador, naquilo que essa sensação pode ter de positivo e esotérico. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:42
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Quinta-feira, 7 de Março de 2019

Tape Junk - Couch Pop

Quase quatro anos depois de um excelente homónimo, os Tape Junk de João Correia estão de regresso aos lançamentos discográficos, em formato digital e em cassete, com Couch Pop, o terceiro disco do projeto, um compêndio de nove canções pensadas e estruturadas pela mente do cérebro da banda. De facto, os Tape Junk assumem-se cada vez mais como um projeto a solo deste músico que também fundou os Julie & The Carjackers e os They’re Heading West, já que neste Couch Pop todos os instrumentos foram registados pelo João, que contou apenas com o apoio de António Vasconcelos Dias nos sintetizadores.

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Álbum escrito e construído sem pressas, entre o início de dois mil e dezasseis e o ocaso do verão passado e com um alinhamento que foi sendo continuamente aperfeiçoado, mutado e aprimorado de acordo com o estado de espírito do autor e ao sabor de um tempo que nunca o pressionou, Couch Pop tem um conjunto notável de composições que, no seu todo, homogéneo e impressivo, nos oferecem um amplo panorama de descobertas sonoras, que acabam por personificar uma espécie de exercício criativo nostálgico, onde cada uma veste a sua própria pele enquanto se dedica, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor lhe designou.

Pavement, Giant Sand, Yo La Tengo, Rolling Stones ou Velvet Underground são influências óbvias e algumas até assumidas e declaradas, mas quem vence é, na soma de todas as partes, aquele rock clássico e intemporal, que logo no delicioso timbre metálico agudo da guitarra de Willow Crown plasma, com notável nitidez instrumental, a tal personificação de soalheiras aventuras sonoras nos temas. E alguns deles até agudizam o elevado pendor pessoal e intimista caraterístico deste projeto, onde não falta, inclusive, um confessado humor negro, e um curioso nonsense, nomeadamente na vibe soalheira de General Population, um exemplo claro desta despreocupação e deste desejo pessoal que os Tape Junk sentem, na pessoa do João Correia, de não serem levados demasiado a séria no que concerne não só ao arquétipo, mas também à vertente lírica e poética das canções.

De facto, o que impressiona na escrita deste cantautor é o modo como disserta sobre banalidades e rotinas comuns e as transforma num interessante conjunto de eventos inspiradores, já que a sua música tem a capacidade de provocar sentimentos e sensações únicas que podem servir de aconchego para as nossas mágoas ou um incentivo ao despertar aquilo que de melhor guardamos dentro de nós. Se a soul contemplativa de Hard Times Blues só não cerra os punhos de quem se sente já demasiado confiante para não perceber que os precalços estão sempre ao virar daquela esquina que cruzamos diariamente e que nunca nos surpreendeu, já o piano de Down, os sons poderosos, tortuosos, luminosos e flutuantes e as vozes deslumbrantes de Carved In Stone ou o riff contagiante da guitarra que acompanha o refrão e os efeitos sintetizados que vão ornamentando diversas mudanças rítmicas no single Cranberry and Thyme, são canções que refletem aquela luz que não se dispersa, mas antes se refrata para inundar os corações mais carentes daquela luminosidade que transmite energia, num disco sem cantos escuros.

Projeto de palco e já com uma notável reputação nesse campo, os Tape Junk têm neste Couch Pop um notável conjunto de canções para juntar ao cardápio que define aquilo que é uma típica banda rock, mas que sabe qual o melhor receituário para adocicar, através de alguns elementos fundamentais da dita pop, a salutar rugosidade de um universo sonoro que tem de guiar a sua sonoridade através de guitarras plenas de eletrificação, mas que pretende fazê-lo de modo a replicar melodias contagiantes e que exalem uma sensação de contemporaneidade. E no caso dos Tape Junk tal pode ser apreciado quer nas notas mais delicadas, até quando elas estão num modo particularmente explosivo, quer nos efeitos selecionados ou nos arranjos simples, mas bastante criativos, mas também em peculiares variações de ritmo e, mais do que tudo isso, numa saudável sensação de crueza e ingenuidade, transversal aos pouco mais de trinta minutos de um disco em que voz e instrumentos fluem naturalmente e se acomodam naquilo a que claramente se chama de som de banda. Em suma, os Tape Junk provam que não é preciso ser demasiado complicado quando o objetivo é criar sons e melodias intrincadas e simultaneamente acessíveis. Consegui-lo é ser-se agraciado pelo dom de se fazer a música que se quer e o João Correia obteve, mais uma vez, tal desiderato, já que usou a fórmula correcta, feita com uma quase pueril simplicidade, para demonstrar uma formatação adulta e a capacidade de se reinventar, reformular ou simplesmente replicar o que de melhor têm alguns projetos bem sucedidos na área sonora em que melhor se identifica, sem deixar de evocar um certo experimentalismo típico de quem procura, através da música, fazer refletir aquela luz que não se dispersa e que fará, certamente parte daquilo que é a sua própria individualidade, não só como artista mas como ser humano. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 16:20
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Segunda-feira, 4 de Março de 2019

Pond – Tasmania

Quase dois anos depois de The Weather e quatro do excelente Man It Feels Like Space Again, os australianos POND de Nick Allbrook, baixista dos Tame Impala, estão de regresso aos discos em dois mil e dezanove com Tasmania, um álbum que viu a luz do dia através da Marathon Artists e idealizado por uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamadospace rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um projeto.

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Oitavo disco da trajetória discográfica dos POND e produzido por Kevin Parker, vocalista dos Tame Impala, Tasmania começou a ser incubado quando Nick Albrook trocou impressões com um cientista especializado em meterologia e questões ambientais que lhe explicou que a temperatura média da Austrália iria continuar a subir consideravelmente nas próximas décadas e que não faltaria muito até a Tasmânia ser o único local habitável desse continente. De facto, canções como o rock orquestral, vibrante e épico de Daisy , o charme hipnótico dos sintetizadores que adornam a melodia de Selené ou o intenso downgrade sonoro, fortemente lisérgico, cósmico e imponente do tema homónimo, (might go and shack up in Tasmania before the ozone goes. And paradise burns in Australia, who knows?) comprovam essa permissa conceptual do disco, alargada com maior abrangência na alegoria pop eletrónica eminentemente sintética de Hand Mouth Dancer, tema em que Albrook alarga as suas preocupações ambientais à realidade geopolítica europeia e à crise de refugiados que atualmente assola o nosso continente (I’m no hero; just do my hand mouth dance,[This is ] for all the actual heroes, dying to get the kids to France). E estes três exemplos, além de mostrarem o leque temático do disco, também podem servir para balizar a matriz sonora de dez canções que apostam, claramente, na diversidade e que têm apenas como ponto comum irem progredindo e aumentando de intensidade, dentro de um universo que terá na expressão rock cósmico talvez a forma mais feliz de se catalogar.

Tasmania é, portanto, mais um retrato fiel do caldeirão sonoro que os POND reservam para nós cada vez que entram em estúdio para compor. Seja no andamento mais progressivo e experimental de Goodnight, P.C.C., no curioso travo R&B de The Boys Are Killing Me ou na vibe cósmica e etérea inicial e depois explosiva de Burnt Out Star, não faltam guitarras alimentadas por um combustível eletrificado que inflama raios flamejantes que cortam a direito, feitas, geralmente, de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez e acompanhadas, desta vez mais do que nunca, por sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. Para compor o ramalhete não falta ainda uma secção rítmica que aposta, frequentemente, numa sobreposição instrumental em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa busca de acessibilidade enquanto passeamos por uma espécie de jardim contemplativo que nos proporciona um rol de emoções e sensações expressas com intensidade e minúcia, misticismo e argúcia e sempre com uma serenidade extraordinariamente melancólica e bastante impressiva.

Com um clima glam muito próprio, Tasmania enche-nos com um espaço sonoro pleno de texturas e fôlegos e onde é transversal uma sensação de experimentação nada inócua e que espelha o cimento das coordenadas que se apoderaram do departamento de inspiração dos POND, sendo o resultado da ambição deste fabuloso projeto australiano em se rodear, cada vez mais, com uma áurea resplandecente e inventiva e de se mostrar mais heterogéneo e abrangente do que nunca. Espero que aprecies a sugestão...

Pond - Tasmania

01. Daisy
02. Sixteen Days
03. Tasmania
04. The Boys Are Killing Me
05. Hand Mouth Dancer
06. Goodnight, P.C.C.
07. Burnt Out Star
08. Selené
09. Shame
10. Doctor’s In


autor stipe07 às 22:06
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Domingo, 3 de Março de 2019

Cosmic Mass - Vice Blooms

Foi no primeiro dia do próximo mês de março que chegou aos escaparates Vice Blooms, o disco de estreia do projeto nacional Cosmic Mass, um quarteto sedeado em Aveiro e formado por André Guimas, Miguel Menano, Pedro Teixeira e António Ventura, que se serve de um garage rock de primeira água, com um elevado pendor psicadélico, para criar canções ariscas, intrigantes e ousadas, que vão diretas ao âmago e ao assunto, sem falsos adereços ou enfeites desnecessários.

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Estes Cosmic Mass assumem, de queixo erguido, o objetivo claro de se constituirem como uma alternativa consistente à lixeira pop radiofónica que tem invadido as playlists recentemente, sendo, na minha opinião, uma verdadeira lufada de ar fresco no panorama indie e alternativo nacional. a resposta à mais recente onda psych-rock que tantos discos nos tem dado nos últimos tempos.
Assim, nas nove canções deste disco, gravadas e misturadas nos Estúdios Adega, por Alexandre Braga e Hugo Ribeiro, confere-se um garage rock rude, mas tremendamente preciso e maduro, que narra histórias sobre Vice, um personagem criado pela banda numa série de noites de copos, com o clima vigoroso de Mantra, o frenesim elétrico de Desert, oandamente progressivo do tema homónimo e, principalmente, a guitarra hipnótica, esquizófrenica e fortemente combativa, mas incrivelmente controlada de I've Become The Sun, o single já retirado de Vice Blooms, a consituirem-se como portas de entrada perfeitas para a filosofia sonora destes Cosmic Mass, que incubaram, logo na estreia, um rock de punhos cerrados, mas também de proporções incrivelmente épicas, que nos proporciona um verdadeiro orgasmo sonoro volumoso, soporífero e emocionalmente desconcertante. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 20:02
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Sábado, 2 de Março de 2019

Funeral Advantage – Nectarine EP

Lançado há alguns dias à boleia da Sleep Well Records, Nectarine é o novo fôlego na carreira do projeto norte-americano Funeral Advantage de Tyler Kershaw, sete canções que sucedem a um outro EP intitulado Please Help Me, editado no início de dois mil e dezassete e ao longa duração do projeto, um trabalho intitulado Body Is Dead que viu a luz do dia no final do verão de dois mil e quinze.

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Natural de Boston, Tyler Kershaw é mestre a criar um ambiente sonoro fortemente etéreo e melancólico, através de canções tipicamente rock, esculpidas com cordas ligas à eletricidade, mas com um travo lo fi charmoso que lhes confere uma fragilidade incrivelmente sedutora, uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida e uma exibição consciente da sapiência melódica de um autor, cantor, produtor e compositor que tem na herança oitocentista o seu principal eixo orientador.

Em Nectarine, assistimos então a uma parada de composições bastante emotivas e intimistas e que além de serem construídas à base de guitarras com efeitos e distorções intrigantes e enleantes e uma percussão bastante vincada, sem ter uma tonalidade exageradamente grave, também estão cheias de boas letras que nos oferecem uma atmosfera sonora épica, positiva, sorridente e bastante apelativa.

O timbre metálico da guitarra de Peach Nectarine, o baixo pulsante que conduz o andamento incisivo e visceral de Black House, o frenesim encantador de Rinsed, o esplendor e a intensidade de Stone Around Your Neck são um convite direto e preciso ao acto de encarar estes últimos dias de inverno com esperança, enquanto ficamos envoltos numa intensa aúrea vincadamente orgânica e, por isso, fortemente sensual, que nos despe de todo aquele mistério, tantas vezes artificial, onde frequentemente nos refugiamos, para que não tenhamos receio de mostrar, com ousadia, a verdadeira personalidade do agregado sentimental que nos carateriza, enquanto não chega a primavera que há-de finalmente libertar-nos de toda esta reclusão que nos entorpece. Espero que aprecies a sugestão...

Funeral Advantage - Nectarine

01. Rinsed
02. Black House
03. Peach Nectarine
04. Stone Around Your Neck
05. Bad Magnet
06. Take Me Down
07. It Never Gets Any Better, You Just Get Used To It


autor stipe07 às 15:15
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2019

TOY – Happy In The Hollow

Desde dois mil e dez os TOY têm vindo a ganhar uma reputação de banda íntegra, virtuosa e tremendamente criativa, com Tom Dougall, Maxim Barron, Dominic O'Dair, Charlie Salvidge e Max Oscarnold (desde dois mil e quinze) a oferecerem a uma base já sólida de seguidores um leque alargado de sonoridades que incluem o punk, o psicadelismo, o krautrock ou o post rock, sempre aliadas a um aturado trabalho de exploração experimental de técnicas de gravação feitas em estúdio. Happy in The Holow, registo produzido pela própria banda, é o último grande passo da carreira dos TOY, um trabalho que marca uma nova visão sonora ainda mais distintiva e original, agora à boleia da etiqueta Tough Love, a nova editora do projeto.

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Para quem conhece a discografia dos TOY a fundo, como é o caso desta redação que ainda hoje venera o homónimo de estreia e considera-o um registo essencial da década, Happy In The Hollow é o disco da banda mais incisivo na demonstração de um alargado de sonoridades, referidas acima, sempre aliadas a um trabalho de exploração experimental de técnicas de gravação feitas em estúdio, cada vez mais aprimoradas. O andamento incisivo de Sequence One, acompanhado por uma constante vibração na guitarra e o sample fantasmagórico que paira sobre o swing do baixo do lento krautrock lisérgico de Mistake A Stranger, abrem todo esse leque de uma ponta à outra, logo no início do alinhamento e comprovam esta espécie de refresh do som típico dos TOY, que se torna, clarmamente, mais sofisticado, límpido, radiofónico e abrangente.

Dado esse mote, a partir daí assiste-se, portanto, a uma bem sucedida simbiose entre alguns elementos fundamentais da pop mais harmoniosa com o fuzz lisérgico que costuma caraterizar o ambiente sónico deste quinteto, que em Energy é colocado a nú através de um contagiante frenesim elétrico, conduzido por um feroz riff de guitarra proporcionado por Dominic e um superior desempenho na bateria, a cargo de Charlie, num tema em que Max Dougall escreve sobre alguns rituais noturnos e que nos sete minutos de Willo nos levam numa inebriante viagem psicadélica ambiental, assente na astúcia acústica de Maxim e no orgão inspirado e elegante de Max. Pelo meio, o post rock psicadélico e soturno de Last Warmth Of The Day e o travo eletro particularmente dançante e indisfarçadamente lascivo de Jolt Awake, dão-nos aquela sensação de profundidade e imersão num universo muito próprio e inédito, que os devotos do quinteto sabem melhor que ninguém como caraterizar e que frequentemente exala aquela encantadora fragilidade que emociona qualquer mortal, ainda mais quando é acompanhada por instrumentais épicos e marcantes, uma das principais caraterísticas arquitectónicas da maior parte das composições de Happy In The Hollow.

Disco que não nos deixa aterrar de imediato e que após a audição tem instantes que ficam a ressoar no âmago de quem o escutou com critério e devoção, Happy In The Hollow eleva-nos ainda mais alto e ao encontro do típico universo flutuante e inebriante em que assentam os TOY. Ouvi-lo levanta o queixo e empina o nariz, e prova, mais uma vez e com outro brilho, que os TOY tricotam as agulhas certas num rumo discográfico enleante, que tem trilhado percursos sonoros interessantes, mas sempre pintados por uma psicadelia que escorre, principalmente, nas guitarras, cimentando o cliché que diz que gostar de TOY continua a ser, mais do que nunca, também uma questão de bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

TOY - Happy In The Hollow

01. Sequence One
02. Mistake A Stranger
03. Energy
04. Last Warmth Of The Day
05. The Willo
06. Jolt Awake
07. Mechanism
08. Strangulation Day
09. You Make Me Forget Myself
10. Charlie’s House
11. Move Through The Dark


autor stipe07 às 15:16
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