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Belle And Sebastian – What Happened To You, Son?

Quarta-feira, 24.04.24

Como os mais atentos certamente se recordam, nos últimos dois anos os Belle And Sebastian estiveram particularmente ativos, lançando os discos A Bit Of Previous e Late Developers, em dois mil e vinte e dois e em dois mil e vinte e três, respetivamente. Agora, em plena primavera de dois mil e vinte e quatro, o grupo escocês acaba de divulgar uma extraordinária nova canção intitulada What Happened To You, Son?, composição que, de acordo com a banda, ficou de fora do alinhamento de Late Developers, mas que não podia deixar de ver a luz do dia, e ainda bem.

Belle And Sebastian lançam nova música 'What Happened To You, Son? -  Confere Rock

What Happened To You, Son? é um tratado sonoro épico, luminoso e vibrante, que impressiona pela destreza melódica e que tem como detalhe interessante, a contundência de um solo protagonizado pelo baixo. O tema encarna uma superior agregação de diversas camadas instrumentais, num resultado final que nos conduz de volta ao indie pop mais orelhudo, com aquele requinte vintage que revive os gloriosos anos setenta e oitenta. What Happened To You, Son? é, em suma, um novo tema animado e festivo do grupo de Glasgow, que solidifica o espírito e a filosofia positiva e vibrante que carateriza a essência deste projeto liderado por Stuart Murdoch. Confere...

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publicado por stipe07 às 16:58

Os Melhores Discos de 2023 (10 - 01)

Sábado, 30.12.23

Man On The Moon EP1 - YouTube

10 - The Polyphonic Spree - Salvage Enterprise

É sempre habitual nos seus álbuns, os The Polyphonic Spree oferecerem ao ouvinte verdadeiras orgias lisérgicas de sons e ruídos etéreos ou orquestrais e que os orientam muitas vezes, e a nós também, em simultâneo, para direções aparentemente opostas, geralmente da indie pop etérea e psicadélica, ao rock experimental. Salvage Entreprise, é um portento de indie rock progressivo e experimental. É um disco ambivalente porque se a maioria das suas composições assentam, melodicamente, numa desarmante simplicidade, já que têm sempre como base o dedilhar de uma viola acústica ou a vibração das teclas de um piano, atingem, depois, quase sempre, picos de epicidade indiscritíveis, que transmitem sempre, a quem escuta, uma torrente de emocionalidade e sentimentalismo, a que é difícil ficar alheio e indiferente.

9 - Tiny Skulls – Songs From Some Depressing Movie

Inquietantes, tocantes e retemperadoras, as treze composições de Songs From Some Depressing Movies estão abrigadas por alguns dos melhores pilares estilísticos e conceptuais que sustentam a nata do rock alternativo atual, um modus operandi que tem também na folk uma pedra basilar e que não descura piscares de olhos descarados a ambientes eminentemente clássicos, polidos e orquestralmente ricos e que pretendem puxar o ouvinte para um lado eminentemente reflexivo e sonhador. Songs From Some Depressing Movie brinca com o nosso eu mais nostálgico. As suas canções estão interligadas entre si, a contemplação deste disco vale pelo todo, porque este é, claramente, um daqueles registos que se definem como uma peça única que merece idêntica devoção, numa escuta feita de fio a pavio.

8 - Sparklehorse - Bird Machine

Bird Machine é uma extraordinária obra de arte sonora e, curiosamente, um dos discos mais intensos e luminosos da carreira de um projeto que sempre se abrigou num universo algo depressivo e fatalista. As suas canções gravitam em redor de dois grandes universos sonoros distintos. Algumas das canções do álbum são intensas e de forte cariz lo fi; São composições imediatistas, inebriantes e contundentes, feitas com guitarras encharcadas em eletrificação e com um registo vocal modificado, canções que vivem à sombra de um indie rock pujante, experimental, poeirento e ruidoso, pleno de rugosidade, ímpeto e vibração. Depois há outros temas que colocam as fichas num perfil mais melancólico e intimista, encarnando deliciosos tratados de indie rock folk genuíno, luminoso e sorridente. Seja qual for o perfil interpretativo das catorze canções de Bird Machine, a trama geral assenta em guitarras, ora acústicas, ora eletrificadas, amiúde adornadas por diversas sintetizações e detalhes percurssivos, que ganham uma amplitude superior em refrões imponentes, elementos bastante comuns no melhor catálogo indie dos anos noventa do seculo passado.

7 - Slowdive - Everything Is Alive

Everything Is Alive encarna uma sentida dedicatória à mãe de Goswell e ao pai de Scott, ambos falecidos em dois mil e vinte. Essa realidade justifica o tom algo negro e pesado do registo, nuances que são, neste caso, notáveis atributos, porque os Slowdive conseguem conferir ao alinhamento do disco o necessário tom pesaroso, sem colocar em causa uma sempre indispensável faceta melódica e uma elevada carga de beleza, comprovando que isso também é possível no meio da dor e do aparente caos. Uma simbiose quase impercetível entre o orgânico e o sintético parece ser o novo modus operandi preponderante deste projeto natural de Reading, cada vez mais atraído por abordagens sonoras que dêem primazia aos sintetizadores, na definição do arquétipo instrumental das suas composições. Everything Is Alive é, por isso, um passo em frente seguro dos Slowdive rumo a uma abordagem sonora um pouco inédita, tendo em conta o catálogo do quinteto, mas sem deixar de respeitar o seu adn, uma forma de estar que justifica o tom multifacetado de um trabalho que querendo exalar dor, consegue também oferecer-nos uma revitalizante dose de esperança e redenção, à boleia de oito canções que, entrelaçando tristeza e gratidão, emergem-nos num universo muito próprio e no qual só penetra verdadeiramente quem se predispuser a se deixar absorver por esta peculiar cartilha. É um paradigma artístico que se firma num falso minimalismo, já que da criteriosa seleção de efeitos da guitarra, à densidade do baixo, passando por uma ímpar subtileza percussiva e um exemplar cariz lo fi na produção, são diversos os elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador.

 

6 - Blur - The Ballad Of Darren

Disco inspirado em Darren Smoggy Evans, guarda costas dos Blur há vários anos e ajudante pessoal de Damon Albarn, The Ballad Of Darren funciona como uma espécie de tributo a essa personalidade sempre dedicada e leal, ao mesmo tempo que nos recorda que está bem longe do fim a carreira de um grupo ímpar e que está, de pleno direito, no lugar mais alto do pedestal da indústria musical britânica contemporânea. The Ballad Of Darren tem um pé no rock e outro na pop e com a mente a sempre a convergir muitas vezes para a soul, enquanto nos oferece uma sábia introspeção sobre o mundo moderno. Nele, os Blur não pouparam na materialização dos melhores atributos que guardam na sua bagagem sonora, encarnada por quatro músicos criativamente e intepretativamente inigualáveis, confirmando, mais uma vez, o forte cariz eclético e heterogéneo de uma banda que da britpop, ao experimentalismo ruidoso, passando pela eletrónica e pelo fascínio do lo-fi, ainda conseguem fazer-nos sentir aquela névoa húmida tipicamente britânica e pôr-nos a visualizar multidões em chapéu de coco a beber um chá ou um gin e a ter conversas humoradas com o típico sotaque que todos conhecemos, ao som da sua música.

5 - Beach Fossils – Bunny

Os Beach Fossils são exímios a oferecer-nos catálogos de indie rock alternativo, com leves pitadas de surf pop, eletrónica e garage rock, tudo embrulhado com um espírito vintage marcadamente oitocentista e que se escuta de um só trago, enquanto sacia o nosso desejo de ouvir algo descomplicado mas que deixe uma marca impressiva firme e de simples codificação. Bunny é mais um exercício tremendamente bem conseguido de construção de canções simples, mas bastante reflexivas, emotivas e até intensas. O seu alinhamento aprimora um receituário que tem sido bem sucedido, não só devido ao modo como os Beach Fossils manuseiam as guitarras e lhes induzem efeitos e distorções que apelam, quase sempre, a uma certa cosmicidade e luminosidade etéreas, mesmo quando replicadas com um forte espírito orgânico e imediato, sempre ampliado por exemplares arranjos de elevado pendor acústico, mas também porque a voz geralmente ecoante de Payseur é, sem sombra de dúvida, um veículo privilegiado para nos levar ao encontro de sensações como fragilidade e doçura, algo estranhas num indie rock que não coloca completamente de lado o lo fi, mas particularmentes impressivas e revigorantes quando concebidas por este projeto. Escutar Bunny é ter a possibilidade de colocar momentaneamente de lado problemas, dúvidas e inquietações, para mergulhar num universo otimista, positivo e revigorante, mesmo que a grande maioria das onze canções do álbum se debrucem sobre os dilemas existenciais em que vive a juventude americana atualmente, dores de amor mal curadas, memórias de tempos difíceis e o alastrar vigoroso de uma preocupante psicotropia em praticamente todo o país, potenciada pela falta de perspetivas risonhas quanto ao futuro, numa América cada vez mais confusa.

4 - Lichen Slow - Rest Lurks

Rest Lurks é o título do disco de estreia do projeto Lichen Slow, que junta Malcolm Middleton dos Arab Strap e Joel Harries, guru da eletrónica que fez parte dos míticos Team Leader. É um maravilhoso alinhamento de doze canções, plenas de generosidade, convicção e impressionismo, nomeadamente no modo como plasmam a visão física e espiritual de dois músicos abençoados, relativamente ao mundo que os rodeia e no qual, por acaso, também, vivemos. Rest Lurks cruza cordas acústicas ou distorções contundentes, com sintetizações e efeitos que, do insinuante e quase impercetível, ao majestoso e contundente, abarcam basicamente tudo aquilo que de melhor define a eletrónica ambiental atual. Rest Lurks é uma doce paleta de cores, muitas vezes a preto e branco, um oásis aconchegante de dor, loucura e perdição, um tormento de beleza e inspiração. É uma expressão sublime de contradições e a materialização assustadoramente real do modo como a sagacidade de duas mentes inspiradas consegue feitos únicos e inolvidáveis, demonstrando que é possível a convivência saudável entre ordem e caos, amor e ódio, paz e guerra, presença e ausência. Este não é um disco para ser descrito no que diz respeito a géneros, influências, arsenais instrumentais, filosofias estilísticas ou intenções. Rest Lurks é para ser sentido, como obra suprema que é e os Lichen Slow são uma banda para ser apreciada, acima de tudo, por esse prisma espetacular.

3 - Shame - Food For Worms

Food For Worms oferece-nos um punk rock de primeira água, com um espetro identitário abrangente que encontra as suas origens no rock psicadélico setentista e no punk da década seguinte e que não renegando algumas caraterísticas essenciais do rock alternativo noventista, também não enjeita abraçar a herança nova iorquina que tentou salvar o rock no início deste século. Food For Worms seduz, instiga e maravilha pela crueza e pela espontaneidade do rock que exala e que contendo aspetos identitários deslumbrantes de todo o espetro sonoro acima identificado, agrega-os com enorme mestria, ao mesmo tempo que consolida o adn de uma banda que começa a ser referência e inspiração para outras. E quando esse patamar se atinge, um pódio ao alcance de poucos, estamos, obviamente, na presença de uma referência incontornável do indie rock atual. Food For Worms carimba, definitivamente, os Shame nesse grupo restrito. Food For Worms alimenta a ânsia de todos aqueles que procuram projetos sonoros que fujam ao apelo radiofónico e que, simultaneamente, oferecam ao rock novos fôlegos e heróis. Os Shame conseguem este desiderato há já meia década e, mesmo abraçando, nas suas canções, o lado mais negro do amor e as suas habituais agonias e as dores e os medos de quem procura sobreviver nesta típica urbanidade ocidental cada vez mais decadente de valores e referências, fazem-no sem medo, como seria de esperar num grupo de cinco jovens britânicos de gema, rudes e efervescentes, que têm o seu modus operandi bem presente e, devido a este fantástico registo, a certeza de um futuro devidamente consolidado na primeira linha do indie rock alternativo.

2 - Yo La Tengo - This Stupid World

This Stupid World é mais um capítulo eufórico e radiante numa epopeia estilística sonora que privilegiou, desde a estreia em mil novecentos e oitenta e seis com o registo Ride The Tiger, de completa e absoluta liberdade criativa, ou seja, o modus operandi foi, realistícamente, sempre este. Não houve aqui uma espécie de crescendo naquilo que foi a bitola qualitativa dos discos que foram sendo colocados nas prateleiras pelos Yo La Tengo, apenas ligeiras e naturais oscilações estilísticas que, passando pelo rock clássico, o surf rock, o lo fi, o indie puro e duro, a new wave, o punk rock, o rock progressivo e o psicadélico, a country, a folk, a eletrónica e até o jazz, colocaram sempre o melhor indie rock alternativo em declarado ponto de mira. E, na minha modesta opinião, está errado quem não considera que o melhor indie rock alternativo não é nada mais nada menos do que este rock que consegue agregar pitadas daqui e de acolá, com subtileza, arrojo, desenvoltura e superior habilidade criativa, algo que sucede neste álbum dos Yo La Tengo com ímpar sabedoria. This Stupid World é esse tipo de disco. Contém nove composições que têm como principal atributo conseguirem, umas vezes com indisfarcável subtileza e outras com esplendoroso requinte, unir, congregar, construir e desconstruir e sublinhar todo um universo de géneros e estilos que também demarcam, e não será certamente por acaso, as fronteiras do melhor cancioneiro norte americano de igual período. Todos aqueles que têm nos cânones essenciais do rock alternativo das últimas quatro décadas pilares fundamentais do seu gosto musical, de certeza que não se vão arrepender This Stupid World e, no final, depois do modo repeat ter sido ativado instantaneamente, vão-se sentir ainda mais enriquecidos por terem a possibilidade de, quatro décadas depois da estreia, ainda poderem escutar e saberem que está no ativo uma banda tão rica, vigorosa, inspiradora, independente, dinâmica e fluída, como são os Yo La Tengo.

1 - Wilco - Cousin

Os norte americanos Wilco de Jeff Tweedy são um dos projetos mais profícuos do universo indie e alternativo atual. Não cedem à passagem do tempo, não acusam a erosão que tal inevitabilidade forçosamente provoca, mantêm-se firmes no seu adn e conseguem, disco após disco, apresentar uma nova nuance interpretativa, ou uma nova novela filosófica que surpreenda os fãs e os mantenha permanentemente ligados e fidelizados. Cousin, o novo álbum dos Wilco, não foge a essa permissa e os seus pouco mais de quarenta minutos oferecem-nos, sem qualquer dúvida, uma manifestação impressiva de que Jeff Tweedy e os seus fiéis companheiros ainda têm muito para dar e, claro, para vender. Cousin não é um decalque exaustivo de uma fórmula, mas mais um passo firme e faustoso em frente no enriquecimento do adn de um projeto incomparável no modo como disserta, sem preconceitos e amiúde até de forma irónica, sobre uma América que vive uma contemporaneidade algo perigosa, fraturada em dois extremos dominantes, recentemente espartilhada por um vírus que não não foi fácil de lidar nesse vasto território e ensaguentada de traumas e males raciais, assentes numa sequência nada feliz de décadas e até de séculos de casos mal resolvidos, que remontam ao período da escravatura, o grande motivo da Guerra Civil que o país viveu há pouco mais de duzentos anos e que deixou fantasmas ainda a pairar. Sonoramente, Cousin assenta num modus operandi que aproxima os Wilco de uma psicadelia blues de superior filigrana, que se escuta com aquela intensidade que fisicamente não deixa a anca indiferente, mas sem deixar de lado a faceta experimental e lisérgica que o grupo  tanto preza e que certamente quis que este seu novo trabalho tivesse. É um experimentalismo folk, conduzido por cordas mais acústicas e com um travo de minimalismo lo fi, aspectos que são, como se sabe, traves mestras no percurso discográfico dos Wilco. Colocando na linha da frente o lado mais sensível e emotivo do grupo, Cousin deixa no ouvinte a perceção clara que foi espetacular o momento em que os Wilco optaram por ligar a sua faceta experimental mais uma vez a pleno gás para, obtendo um balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso e sem nunca descurar aquela particularidade fortemente melódica que costuma definir as composições deste grupo, conseguirem criar uma verdadeira obra-prima que irá certamente figurar, com inteira justiça, num lugar bastante cimeiro dos melhores discos da carreira do projeto. Para nós, foi o melhor de dois mil e vinte e três.

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publicado por stipe07 às 14:52

OS Melhores Discos de 2023 (20-11)

Quinta-feira, 28.12.23

Man On The Moon EP1 - YouTube

20 - Sigur Rós - ÁTTA

ÁTTA é um novo marco e um passo em frente, seguro e maduro, na discografia dos Sigur Rós. Em quase uma hora, o trio avança, talvez definitivamente, rumo à musica de cariz mais clássico e erudito, deixado para trás as guitarras inflamadas em agrestes distorções e uma imponência percurssiva, tantas vezes inigualável, que só o baterista Orri Páll Dýrason sabia como replicar, para se deleitar com um manuseamento tremendamente delicado, despudoradamente calculado e indisfarçadamente belo, do sintético, mesmo se trombones, violinos, harpas ou trompetes continuem a fazer parte da equação. No entanto, é curioso o modo como mesmo através desta guinada conceptual e interpretativa, os Sigur Rós continuam a manter intacto aquele adn muito próprio e único que nos transporta sempre para a típica paisagem vulcânica islandesa, fria e inóspita, já que, à semelhança da restante discografia do trio, este alinhamento é para ser escutado como um único bloco de som, compacto, hermético e aparentemente minimalista, mas rico em detalhes, experiências, nuances e paisagens, como é, num obrigatório e feliz paralelismo, um país tão belo, intrigante e rico como a Islândia.

19 - Dignan Porch - Electric Threads

Noções como crueza, simplicidade, imediatismo, rudeza e aspereza, mas também nostalgia e melancolia, assaltam facilmente a mente de quem escuta, pacientemente, Electric Threads, disponibilizando-se, assim, a embarcar numa viagem contundente rumo aquela indie lo fi e psicadélica do último meio século, que não descura, para se espraiar plena de luz e cor, um travo surf que é sempre tão apelativo. Aparentemente sem grandes pretensões mas, na verdade, de forma claramente calculada, Electric Threads volta a colocar os holofotes sobre os Dignan Porch, já mestres a recriar um som ligeiro, agradável, divertido e simples, mas verdadeiramente capaz de nos empolgar, tendo o louvável intuíto de nos fazer regressar ao passado.

18 - The New Pornographers - Continue As A Guest

Continue As A Guest é um intrincado jogo de luzes e reflexos em forma de música, um disco cheio de brilho e cor em movimento, que tem um alinhamento alegre e festivo e que parece querer exaltar, acima de tudo, o lado bom da existência humana. É, no seu busílis, uma trama orquestral complexa, um festim intrumental em que percussão, sintetizadores, sopros e guitarras, assim como as vozes de Newman e Case, se alternam e se sobrepôem em camadas, à medida que dez composições fluem naturalmente, sem se acomodarem ao ponto de se sufocarem entre si, num caldeirão sonoro criado por um elenco de extraordinários músicos e artistas, que sabem melhor do que ninguém como recortar, picotar e colar o que de melhor existe neste universo sonoro ao qual dão vida e que deve estar sempre pronto para projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte, assentes num misto de power pop psicadélica e rock progressivo.

17 - Ulrika Spacek – Compact Trauma

Compact Trauma volta a colocar os Ulrika Spacek na órbitra da sua já habitual sonoridade punk, feita com fortes reminiscências naquela faceta sessentista ácida e psicotrópica, burilada, como sempre, com um timbre metálico de guitarra rugoso, acompanhado, quase sempre, por uma bateria em contínua contradição. A filosofia de composição musical destes Ulrika Spacek baliza-se através de um assomo de crueza, tingido com uma impressiva frontalidade, quer lírica quer sonora. Compact Trauma é mais um contínuo exercício insinuante de tornar aquilo que é descrito habitualmente, na música, como algo aparentemente desconexo e texturalmente incómodo, em algo que, quer ritmíca, quer melodicamente, é grandioso, sedutor e instigador, enquanto expressa, com nota máxima, um modo bastante textural, orgânico e imediato de criar música e de fazer dela uma forma artística privilegiada na transmissão de sensações que não deixam ninguém indiferente. De facto, Compact Trauma atesta a segurança, o vigor e o modo criativamente superior como este grupo britânico entra em estúdio para compôr e criar um shoegaze progressivo que se firma com um arquétipo sonoro sem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual.

16 - Teenage Fanclub - Nothing Lasts Forever

A ideia de luz é o foco central de um portentoso alinhamento de dez canções que, no seu todo, encarnam um tratado de indie rock com aquele perfil fortemente radiofónico que sempre caracterizou os Teenage Fanclub. De facto, Nothing Lasts Forever, um álbum encharcado em positividade, sorridente melancolia, inocente intimismo e ponderado pendor reflexivo, é um caminho seguro, retílineo e consistente rumo aquele indie rock que provoca instantaneamente sorrisos de orelha a orelha, independentemente do estado de espírito inicial. É um disco cheio de canções leves, melodicamente sagazes e, se forem analisadas tendo em conta o catálogo já vasto do projeto, são imperiosas no modo como, com uma intensidade nunca vista no quinteto, desbravam caminho até uma mescla contundente entre os primórdios da indie folk, a britpop e o melhor rock oitocentista. Nothing Lasts Forever é calor e luz, mas ouve-se em qualquer altura do ano. Intenso, poético e cheio de alma, exala um sedutor entusiasmo lírico, uma atmosfera sempre amável e prova que, quando os intérpretes têm qualidade, escrever e compôr boa música não é uma ciência particularmente inacessível. Aliás, para os Teenage Fanclub nunca foi.

15 - Jonathan Wilson - Eat The Worm

Eat The Worm é uma obra criativa única e indispensável, incubada por um autor que gosta de cantar e contar na primeira pessoa e assumir, ele próprio, o protagonismo das histórias que nos relata, enquanto prova ao mundo inteiro, mais uma vez, que é imcomparável a recriar diferentes personagens, cenas e acontecimentos, geralmente sempre dentro de um mesmo território criativo, neste caso o cinema. Sonoramente, é uma paleta sonora pintada com rock sinfónico de primeira água, um fabuloso tratado sonoro, tremendamente cinematográfico, que materializa uma espécie de colagem de vários trechos díspares num único alinhamento, enquanto abraça um elevado leque de influências que vão do jazz à folk, passando pelo rock psicadélico e progressivo.

14 - GUM - Saturnia

Nas dez canções de Saturnia Jay Watson executa, com elevada mestria, um exercicio criativo de mescla de diferentes influências, que abraçam todo um arco sonoro que vai do rock progressivo com adn setentista, à pop sinfónica de década seguinte, passando por alguns dos detalhes essenciais do jazz, da folk, do R&B e da própria eletrónica. Existe uma vibe psicadélica incomum, mas prodigiosa, em toda esta amálgama repleta de guinadas, interseções, detalhes inesperados, trechos de puro experimentalismo e, acima de tudo, preenchida com um travo de fragilidade e inocência incomuns.

13 - Woods - Perennial

Perennial é mais uma guinada no percurso sonoro dos Woods. Mantendo o perfil eminentemente indie folk, trespassado por algumas das principais nuances do rock alternativo contemporâneo, é um disco que coloca elevado ênfase num indisfarçável clima jazzístico. O registo coloca a nú a cada vez mais elaborada e eficazmente arriscada filosofia experimental interpretativa de um grupo bastante seguro a manusear o arsenal instrumental de que se rodeia, apostando em composições com arranjos inéditos e que são melodicamente abordados e construídos através de uma perspetiva que se percebe ter resultado de um trabalho aturado de criação que, tendo pouco de intuitivo, diga-se, plasma, com notável impressionismo, a enorme qualidade musical dos Woods. Um dos traços que mais impressionam na audição de Perennial é a quase presunçosa segurança que os autores demonstram na criação e na interpretação de canções que, tendo claramente o adn Woods, não são assim tão óbvias para os ouvintes que conheçam com profundidade a carreira do grupo. Esta sagacidade e esta altivez servem para aumentar ainda mais a pontuação de um trabalho que, sendo eminentemente crú e envolvido por um doce travo psicadélico, passeia por diferentes universos musicais sempre com superior encanto interpretativo e sugestivo pendor pop, traves mestras que melodicamente colam-se com enorme mestria ao nosso ouvido e que justificam, no seu todo, que este seja um dos melhores registos do já impressionante catálogo de uma banda fundamental do rock alternativo contemporâneo.

12 - King Creosote - I DES

Personalidade exímia no modo como retrata uma Escócia repleta de especificidades, com uma cultura milenar e uma história ímpar de sobrevivência, Kenny Anderson utiliza a música como forma de homenagear a terra onde nasceu e sempre viveu, conseguindo, em simultâneo, colocar-nos bem no epicentro de tudo aquilo que o define enquanto pessoa, artista e cidadão. I DES, o seu novo tomo de dez canções e o quinto de uma já notável carreira com a assinatura King Creosote, é um notável catálogo de indie folk majestosa, imponente e, melhor do que isso, melodicamente tocante. Todas as composições do registo têm uma faceta incrivelmente enleante, no modo como nos cativam e nos seduzem, porque mesmo que narrem histórias de angústia, luta contra adversidades, ou de esperança em melhores dias, deixam-nos boquiabertos e, de certo modo, hipnotizados, perante uma indisfarçável beleza melódica que, como é óbvio, só se explica perante a enorme detreza criativa e interpretativa do autor. Um registo percurssivo quase sempre arritmado e vigoroso, teclados hipnóticos e um vasto catálogo de sopros das mais diversas proveniências instrumentais, preenchem o catálogo instrumental de I DES, um álbum portentoso e em que angústia e libertação são sensações que se fundem, quase sem se dar por isso, um modus operandi que resulta num clímax onde não falta um invulgar travo psicadélico. 

11 - Local Natives - Time Will Wait For No One

Time Will Wait for No One é um álbum com uma atmosfera sonora enérgica, mas também com instantes de densidade algo inéditos no percurso discográfico dos Local Natives. É, claramente, um daqueles trabalhos em que uma banda resolve voltar a baralhar e a dar de novo, fazendo-o sem renegar, como é óbvio, o seu passado, mas querendo, com muita força e criatividade, explorar novos caminhos e possibilidades. Assim, neste registo impecavelmente produzido, o quinteto continua a caminhar dentro de uma atmosfera bem delineada e de uma constante proximidade entre as vertentes lírica e musical, algo que ficou logo bem patente logo em Gorilla Manor, a obra de estreia que alicerçou definitivamente o rumo sonoro dos Local Natives, mas o percurso é agora feito num ambiente mais efervescente, opção que demonstra, com objetividade, uma maior consciência musical e um modus operandi ainda mais renovado, emotivo e delicioso.

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publicado por stipe07 às 20:02

There Will Be Fireworks – Summer Moon

Quinta-feira, 23.11.23

A Escócia está, claramente, na ordem do dia com bandas e projetos como King Creosote, Tiny Skulla, The Magnetic North, Frightened Rabbit, The Twilight Sad ou We Were Promised Jetpacks, a carimbarem relevância na contemporaneidade indie que nos vai invandindo, feita de boa música, mas também de algum excesso de fácil radiofonia e de exagerada popularidade. Os There Will Be Fireworks são mais um nome a juntar à listagem, uma banda escocesa, mas atualmente sedeada em Londres, que acaba de deixar em verdadeiro sentido a nossa redação devido a Summer Moon, o novo disco do projeto, que coloca fim a um hiato de uma década, já que sucede ao álbum The Dark, Dark Bright, que o grupo lançou em dois mil e treze.

There Will Be Fireworks announce their first album in ten years, Summer Moon  | The Line of Best Fit

Summer Moon é um extraordinário alinhamento de treze canções que tem a chancela da The Imaginary Kind, uma equena etiqueta escocesa detida por elementos dos There Will Be Fireworks, que se movem confortavelmente a calcorrear caminhos, mais ou menos sinuosos, que os levam do indie rock, ao rock progressivo, à folk e ao emo rock, uma curiosa amálgama que, no caso de Summer Moon, é também uma marca sonora que vinca, neste disco, a transição entre a juventude e a vida adulta dos membros do grupo, uma passagem que ocorreu durante o período que separa este álbum do antecessor. Summer Moon contém, portanto, esta marca de maturidade, com canções filosoficamente mais intrnicadas e profundas, mas sem colocarem em causa a habitual delicadeza e elevado sentimentalismo que os There Will Be Fireworks colocam, mesmo quando o manto sonoro é rugoso, imponente e ruidoso.

Como se percebe logo em Smoke Machines (Summer Moon), Summer Moon é um disco de guitarras, mas também um exemplo consistente de como as mesmas, eletrificadas, podem delinear interseções, junções e sobreposições com os sintetizadores. É um jogo entre o orgânico e o sintético feito com mestria e com enorme apuro melódico. Holding In The Dark, por exemplo, cativa logo ao primeiro instante, pelo modo como um trecho cósmico sintético acompanha, exemplarmente, uma repetitiva linha de guitarra hipnótica, durante quase seis minutos enleantes e vibrantes. Mesmo quando em Bedroom Door existe um apelo mais intenso por parte da acusticidade, não é colocada em causa uma riqueza e uma diversidade instrumental, uma permissa que ganha ainda maior ênfase, logo a seguir, em Love Comes Around, canção em que a bateria assume a linha da frente, enquanto aquela lágrima fácil no canto do nosso olho resolve deslizar face abaixo e sem qualquer hesitação.

Até ao final de Summer Moon, grandiosidade e consistência são termos que assaltam instintivamente a mente do ouvinte, enquanto se delicia, na impulsividade eletrizante de Our Lady Of Sorrows, ou no baixo embalador e na soul do timbre metálico da guitarra que se vai insinuando em Dream Song, até a canção explodir, quase no sentido literal do termo, com um naipe de canções abrigadas por alguns dos melhores pilares estilísticos e conceptuais que sustentam a nata do rock alternativo atual, um modus operandi que também não descura piscares de olhos descarados a ambientes eminentemente progressivos, mas sempre de um modo polido e orquestralmente rico. É uma trama que acaba por ajudar a puxar o ouvinte para um lado eminentemente reflexivo e sonhador, num disco que é um marco de preserverança e de exaltação, criado por uns There Will Be Fireworks que sempre conseguiram inflamar a sua música com uma quase incontrolada paixão. Espero que aprecies a sugestão...

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King Creosote – I DES

Quinta-feira, 16.11.23

Kenny Anderson é o cantor e compositor escocês que dá vida ao fantástico projeto King Creosote que já não dava sinais de vida desde o excelente registo Astronaut Meets Appleman, de dois mil e dezasseis. Sete anos depois desse notável alinhamento de dez canções, King Creosote está de regresso aos discos com um registo intitulado I DES, que viu a luz do dia a três de novembro com a chancela de Domino Recordings.

King Creosote interview: Why there's no place like home | The Independent |  The Independent

Personalidade exímia no modo como retrata uma Escócia repleta de especificidades, com uma cultura milenar e uma história ímpar de sobrevivência, Kenny Anderson utiliza a música como forma de homenagear a terra onde nasceu e sempre viveu, conseguindo, em simultâneo, colocar-nos bem no epicentro de tudo aquilo que o define enquanto pessoa, artista e cidadão. I DES, o seu novo tomo de dez canções e o quinto de uma já notável carreira com a assinatura King Creosote, é um notável catálogo de indie folk majestosa, imponente e, melhor do que isso, melodicamente tocante. Todas as composições do registo têm uma faceta incrivelmente enleante, no modo como nos cativam e nos seduzem, porque mesmo que narrem histórias de angústia, luta contra adversidades, ou de esperança em melhores dias, deixam-nos boquiabertos e, de certo modo, hipnotizados, perante uma indisfarçável beleza melódica que, como é óbvio, só se explica perante a enorme detreza criativa e interpretativa do autor.

Canções como Blue Marbled Trees, um tema grandioso, épico e vibrante, It’s Sin That’s Got Its Hold Upon Us, a canção que abre o alinhamento do disco e que versa sobre a adição a substâncias psicotrópicas e as marcas que as drogas deixam no nosso subconsciente e no nosso corpo, mesmo depois de estarmos libertos das suas amarras, ou Burial Bleak, um soporífero levitante de cordas e teclas que mais parecem asas que nos acomodam rumo ao infinito, são exemplos notáveis de canções que à medida que vão crescendo em arrojo e emotividade, impressionam também pelo modo como a voz sempre clemente de Anderson, exorciza tudo aquilo que não só ele, mas todo um povo e uma civilização têm necessidade de partilhar e de soprar aos quatro ventos. Por isso, é num sentimento constante de ebulição que se ouve I DES, um disco que nunca deixa o ouvinte acomodar-se, forçando-o, no sentido positivo do termo, a estar constantemente alerta e motivado para aquilo que escuta.

Num compêndio de canções que exorcizam eventos passados e que contêm um indisfarçável travo a renascimento, renovação ou ressurreição, o que quiserem chamar, celebrando, desse modo, um futuro que para muitos poderá ser inquietante, mas que para King Creosote parece ser a melhor escapatória possível, um registo percurssivo quase sempre arritmado e vigoroso, teclados hipnóticos e um vasto catálogo de sopros das mais diversas proveniências instrumentais, preenchem o catálogo instrumental de I DES, um álbum portentoso e em que angústia e libertação são sensações que se fundem, quase sem se dar por isso, um modus operandi que resulta num clímax onde não falta um invulgar travo psicadélico. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:39

Tiny Skulls – Songs From Some Depressing Movie

Segunda-feira, 06.11.23

A Escócia está, claramente, na ordem do dia com bandas e projetos como King Creosote, The Magnetic North, Frightened Rabbit, The Twilight Sad, We Were Promised Jetpacks ou There Will Be Fireworks, a carimbarem relevância na contemporaneidade indie que nos vai invandindo, feita de boa música, mas também de algum excesso de fácil radiofonia e de exagerada popularidade. Os Tiny Skulls são mais um nome a juntar à listagem, uma banda escocesa, mas atualmente sedeada em Londres, formada por Stuart Dobbie, Gibran Farrah, Dave Thomson, Marshall Craigmyle e Rachel Craigmyle, que acaba de deixar em verdadeiro sentido a nossa redação devido a Songs From Some Depressing Movie, o disco de estreia do projeto, um extraordinário alinhamento de treze canções que tem a chancela da The Imaginary Kind, uma equena etiqueta escocesa detida por elementos dos There Will Be Fireworks que, curiosamente, ou talvez não, têm também um disco novo espetacular e igualmente em alta rotação por cá.

Inquietantes, tocantes e retemperadoras, as treze composições de Songs From Some Depressing Movies, que foram, na sua maioria, gravadas entre dois mil e onze e dois mil e catorze e estiveram praticamente uma década à espera do momento certo para ganharem protagonismo, estão abrigadas por alguns dos melhores pilares estilísticos e conceptuais que sustentam a nata do rock alternativo atual, um modus operandi que tem também na folk uma pedra basilar e que não descura piscares de olhos descarados a ambientes eminentemente clássicos, polidos e orquestralmente ricos e que pretendem puxar o ouvinte para um lado eminentemente reflexivo e sonhador.

Songs From Some Depressing Movie brinca com o nosso eu mais nostálgico, pelo modo como nos transporta para universos tão díspares como a herança de uns Low ou de uns Talk Talk. As suas canções estão interligadas entre si, numa sequêcia de pouco mais de cinquenta minutos praticamente ininterrupta e, por isso, a contemplação deste disco vale pelo todo e a audição individual de uma única canção, descontextualiza-o, acabando, essa opção redutora, por fazer com que esta obra perca muito do seu brilho, porque este é, claramente, um daqueles registos que se definem como uma peça única que merece idêntica devoção, numa escuta feita de fio a pavio.

Logo a abrir o álbum, Brilliant Things, uma comovente e maravilhosa cascata de cordas singelas, teclas impulsivas, vozes num harmonioso uníssono e um baixo insinuante, induzem-nos numa trama que nos provoca um efeito algo agridoce e indiossincrático, que depois, em Bright, nos faz sorrir, naquela que é, talvez, a composição mais vigorosa do disco, com guitarras frenéticas, um bateria contundente e um teclado hipnótico a darem vida a uma filosofia lírica arrebatadora, ampliada por esse andamento melódico único e fortemente inebriante.

Com um início tão prometedor, Songs From Some Depressing Movie nunca vacila, principalmente, e como o título indica, no modo como induz no ouvinte uma capacidade quase espontânea de criar no seu âmago narrativas visuais relacionadas com aquilo que escuta. Acaba por ser, por exemplo e como o titulo indica, ironicamente diga-se, uma espécie de banda sonora adequada para um enredo dramático, protagonizado por alguém que quer viver longe de tudo o que já conheceu e partir em busca de uma nova realidade existencial, até porque as canções falam muito sobre a transição da juventude para a vida aulta e a complexidade sentimental que essa fase das nossas vidas geralmente carrega consigo.

A imponência do piano que sustenta No One Ever Knows, o desfile rugoso de sintetizações que orquestram a musculada tonalidade sombria de Autumn '08 e, em oposição, a simplicidade desarmante de Go, o clímax rock verdadeiramente exposivo de Ghosts e o imediatismo incisivo da viola que acama Your Shy Heart, agarram-nos definitivamente pelos colarinhos e colocam-nos, mesmo que não se queira, a arrumar todas as prateleiras que andam algo esquecidas no recanto mais secreto da nossa mente e que guardam os nossos sonhos, desejos e fantasias mais inesperadas. De facto, estes Tiny Skulls são exímios a calcorrear diferentes estilos sem perderem o rumo e sem deixarem de ser superlativamente comunicativos, deixando-nos, tema após tema, presos naquela ténue fronteira entre o mundo dos sonhos e a vida real, naquela sensação que todos conhecemos e em que muitas vezes só o fenómeno físico da gravidade é que acaba por nos acordar para o óbvio.

Songs From Some Depressing Movie combina vulnerabilidade pessoal com capacidade de identificação quase universal, alojando diversos estilos musicais com coerência. No seu todo, este álbum encarna uma doce paleta de cores, muitas vezes a preto e branco, um oásis aconchegante de dor, loucura e perdição, um tormento de beleza e inspiração. É uma expressão sublime de contradições e a materialização assustadoramente real do modo como a sagacidade de algumas mentes inspiradas consegue feitos únicos e inolvidáveis, demonstrando que é possível a convivência saudável entre ordem e caos, amor e ódio, paz e guerra, presença e ausência. Este não é um disco para ser descrito no que diz respeito a géneros, influências, arsenais instrumentais, filosofias estilísticas ou intenções. Songs From Some Depressing Movie é para ser sentido como obra suprema que é e os Tiny Skulls são uma banda para ser apreciada, acima de tudo, por esse prisma espetacular. Um dos discos do ano. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:46

King Creosote – It’s Sin That’s Got Its Hold Upon Us

Terça-feira, 17.10.23

Kenny Anderson é o cantor e compositor escocês que dá vida ao fantástico projeto King Creosote que já não dava sinais de vida desde o excelente registo Astronaut Meets Appleman, de dois mil e dezasseis. Sete anos depois desse notável alinhamento de dez canções, King Creosote está de regresso aos discos com um registo intitulado I DES, que irá ver a luz do dia a três de novembro com a chancela de Domino Recordings.

King Creosote unveils new song “It's Sin That's Got Its Hold Upon Us” |  News | Domino - Domino

Blue Marbled Elm Trees foi o primeiro single retirado do alinhamento de I DES, a segunda composição de um total de nove. Era, como certamente se recordam, um tema grandioso, épico e vibrante. Agora chega a vez de escutarmos It’s Sin That’s Got Its Hold Upon Us,  a canção que abre o alinhamento do disco e que versa sobre a adição a substâncias psicotrópicas e as marcas que as drogas deixam no nosso subconsciente e no nosso corpo, mesmo depois de estarmos libertos das suas amarras.

Como se exige a qualquer composição de abertura de disco, It’s Sin That’s Got Its Hold Upon Us é uma exemplar porta de entrada para  mesmo, um tema que ajuda o ouvinte a percecionar, desde logo, o que vai encontrar daí em diante. É um tema assente em cordas luminosas, onde não faltam violinos esplendorosos e um registo percurssivo vigoroso e de elevado travo orgânico, uma composição em que folk e psicadelia se confundem e se fundem com ímpar sentimentalismo. Confere...

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publicado por stipe07 às 18:06

King Creosote – Blue Marbled Elm Trees

Quinta-feira, 05.10.23

Kenny Anderson é o cantor e compositor escocês que dá vida ao fantástico projeto King Creosote que já não dava sinais de vida desde o excelente registo Astronaut Meets Appleman, de dois mil e dezasseis. Sete anos depois desse notável alinhamento de dez canções, King Creosote está de regresso aos discos com um registo intitulado I DES, que irá ver a luz do dia a três de novembro com a chancela de Domino Recordings.

King Creosote returns with a transcendent new track - ABC listen

Blue Marbled Elm Trees é o mais recente single retirado do alinhamento de I DES, a segunda composição de um total de nove. Blue Marbled Trees é um tema grandioso, épico e vibrante, um tratado de indie folk que vai crescendo em arrojo e emotividade ao longo dos seus pouco mais de cinco minutos e que impressiona pelo modo como a voz sempre clemente de Anderson plana por uma bateria arritmada, mas vigorosa, um teclado hipnótico e diversas cordas e sopros, mais ou menos insinuantes, num resultado final em que angústia e libertação são sensações que se fundem, quase sem se dar por isso, e que resulta num clímax onde não falta um invulgar travo psicadélico. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:32

Teenage Fanclub – Nothing Lasts Forever

Sexta-feira, 22.09.23

Trinta anos após o registo de estreia e quatro do excelente disco Here, os icónicos veteranos escoceses Teenage Fanclub, formados por Norman Blake, Raymond McGinley, Francis Macdonald, Dave McGowan e Euros Childs, voltaram em dois mil e vinte e um ao ativo e mais efusivos e luminosos do que nunca, com Endless Arcade, doze canções de um projeto simbolo do indie rock alternativo e que provou, nesse registo, que ainda tem um lugar reservado, de pleno direito, no pedestal deste universo sonoro.

Teenage Fanclub Announce New Album Nothing Lasts Forever, Share Video for  New Song: Watch | Pitchfork

Um ano depois desse belíssimo regresso, ou seja, o ano passado, o projeto escocês voltou a dar sinais de vida com uma nova composição intitulada I Left A Light On, que acabou por ser a primeira amostra de um novo trabalho dos Teenage Fanclub, um disco intitulado Nothing Lasts Forever, que acaba de chegar aos escaparates, com a chancela da Merge Records e da PeMa, etiqueta do próprio grupo.

A ideia de luz é o foco central de um portentoso alinhamento de dez canções que, no seu todo, encarnam um tratado de indie rock com aquele perfil fortemente radiofónico que sempre caracterizou os Teenage Fanclub. De facto, Nothing Lasts Forever, um álbum encharcado em positividade, sorridente melancolia, inocente intimismo e ponderado pendor reflexivo, é um caminho seguro, retílineo e consistente rumo aquele indie rock que provoca instantaneamente sorrisos de orelha a orelha, independentemente do estado de espírito inicial. É um disco cheio de canções leves, melodicamente sagazes e, se forem analisadas tendo em conta o catálogo já vasto do projeto, são imperiosas no modo como, com uma intensidade nunca vista no quinteto, desbravam caminho até uma mescla contundente entre os primórdios da indie folk, a britpop e o melhor rock oitocentista.

Logo a abrir o disco, em Foreign Land, o modo como uma rugosa e épica distorção é trespassada por cordas vibrantes e melodicamente irrepreensíveis, cativa de imediato o ouvinte, ao mesmo tempo que o esclarece devidamente acerca da caraterização do adn que fez dos Teenage Fanclub, ao longo destas décadas, uma banda de pedestal, ou seja, uma referência obrigatória para muitos outros grupos que também procuram o seu lugar ao sol. A guitarra elétrica que acama Tired Of Being Alone é outra imagem de marca e, ao mesmo tempo, um porto seguro para uma canção sentimentalmente desafiante e o piano de I Left A Light On, a prova do apurado ecletismo e da superior sagacidade interpretativa de um quinteto que, por incrível que pareça, pode muito bem estar, à boleia de Nothing Lasts Forever, no pináculo da carreira.

O disco prossegue e no embalo percurssivo de It's Alright, uma canção com um espírito veraneante anguloso, no travo surf punk de Falling Into The Sun, ou na singela acusticidade que atiça a lágrima fácil ao som de Middle Of My Mind, somos afagados por quase quarenta minutos feitos de canções assobiáveis, mas com substância, que dão vida a um bom disco de indie pop rock, feito da mais pura estirpe escocesa. Nothing Lasts Forever é calor e luz, mas ouve-se em qualquer altura do ano. Intenso, poético e cheio de alma, exala um sedutor entusiasmo lírico, uma atmosfera sempre amável e prova que, quando os intérpretes têm qualidade, escrever e compôr boa música não é uma ciência particularmente inacessível. Aliás, para os Teenage Fanclub nunca foi. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:39

Teenage Fanclub – Back To The Light

Sexta-feira, 18.08.23

Trinta anos após o registo de estreia e quatro do excelente disco Here, os icónicos veteranos escoceses Teenage Fanclub, formados por Norman Blake, Raymond McGinley, Francis Macdonald, Dave McGowan e Euros Childs, voltaram em dois mil e vinte e um ao ativo e mais efusivos e luminosos do que nunca, com Endless Arcade, doze canções de um projeto simbolo do indie rock alternativo e que provou, nesse registo, que ainda tem um lugar reservado, de pleno direito, no pedestal deste universo sonoro.

Teenage Fanclub está de música nova; conheça "Back to the Light" - A Rádio  Rock - 89,1 FM - SP

Um ano depois desse belíssimo regresso, ou seja, o ano passado, o projeto escocês voltou a dar sinais de vida com uma nova composição intitulada I Left A Light On, que poderia ser a primeira amostra de um novo trabalho dos Teenage Fanclub, novidade que se confirma agora, em dois mil e vinte e três, com o anúncio de um novo disco dos Teenage Fanclub intitulado Nothing Lasts Forever. É um trabalho que irá chegar aos escaparates a vinte e dois de setembro com a chancela da Merge Records e da PeMa, etiqueta do próprio grupo e que incluirá no seu alinhamento de dez canções esse tema I Left A Light OnForeign Land, a composição que abre o disco e que divulgámos em maio passado e Tired Of Being Alone, o single que divulgámos no mês seguinte.

Agora, já na reta final da espera pelo lançamento de Nothing Lasts Forever, os Teenage Fanclub editam mais uma das suas canções em formato single. É o tema Back To The Light, uma composição conduzida por uma guitarra elétrica plena de luz e que, como tem sido hábito nos temas divulgados do disco, conjura de modo irrepreensível com a bateria de modo a dar vida a um tratado de indie rock com aquele perfil fortemente radiofónico que sempre caracterizou os Teenage Fanclub. Confere...

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publicado por stipe07 às 11:37






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