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Senhor Jorge - sr. jorge

Sexta-feira, 30.04.21

Beirão de origem e fadista por paixão, Senhor Jorge Novo é o cabeça de cartaz de um projeto que tem as suas raízes na Igreja da Misericórdia de Viseu. Nela, há pouco mais de dois anos, Rui Sousa (Dada Garbeck), João Pedro Silva (The Lemon Lovers) e Gonçalo Alegre (Galo Cant’às Duas) conheceram este Sr. Jorge Novo, sacristão, ex-lapidador de diamantes e ele próprio uma preciosidade escondida que rapidamente conquistou o coração de quem o ouviu. Foi desse encontro inesperado e feliz, foi dessa surpresa e dos afetos que ela desencadeou, que nasceu este projeto e o E.P. sr. jorge, exercício generoso de troca e de diálogo criativo entre universos artísticos que, frequentemente, estão condenados a viverem separados.

Senhor Jorge assinala edição de EP com videoclip “Palhaço” – Glam Magazine

sr. jorge viu a luz do dia a nove de abril e, sendo um dos lançamentos nacionais mais curiosos desta primeira metade do ano, merece dedicada audição não só pelo cariz inusitado que lhe deu origem, mas também, e acima de tudo, pelo seu notável conteúdo. É um alinhamento de cinco canções imperdíveis, pouco mais de dezoito minutos intensos, concebidos com uma abordagem sonora de forte cariz experimental, claramente etérea e envolvente mas ao mesmo tempo fresca, pop, viciante e catalisadora. A ela junta-se, como refere José Soeiro, responsável pelo press release do lançamento, a voz vivida e emocionante do Sr. Jorge., numa espécie de lamento musicado sobre um passado que já foi, sobre um presente de saudade e de desencanto, sobre o envelhecimento e a perda, as alegrias e as tristezas, a memória das gargalhadas, dos desesperos e das paixões. Temos o amor – e sempre, implacável, o tempo. Temos, acima de tudo, o efeito de múltiplos e fecundos encontros cujo resultado agora se oferece à nossa fruição. Só temos de agradecer e aproveitar.

De facto, canções como Cobertor, tema que nos ensina que por vezes, um amor é tão profundo que, para conforto do outro, consegue conter a urgência de repreender, Palhaço, composição que, na óptica de Pedro Bastos, realizador do vídeo do tema, nos mostra o quanto somos uns palhaços nesta vida sempre que hesitamos (e se eu tivesse ido antes por ali...?), ficamos marcados pelo tempo que não aproveitámos, ou tornamo-nos descartáveis, quando deixamos de ser essenciais, são verdadeiros compêndios de pop experimental contemporânea, ao mesmo tempo que comprovam que aquilo que é aparentemente díspar e inconciliável, pode, afinal, coexistir, subliminar-se e originar algo único e distinto e, por isso mesmo, imperdível. Espero que aprecies a sugestão...

Facebook: https://www.facebook.com/ossenhorjorge

Instagram: https://www.instagram.com/ossenhorjorge/

Soundcloud: https://soundcloud.com/user-45507788

Bandcamp: https://senhorjorge.bandcamp.com/album/senhor-jorge 

YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCtKW9hos6tYZYLB0JdKv_ZQ/videos

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publicado por stipe07 às 11:16

Real Estate – Half A Human EP

Sexta-feira, 26.03.21

Cerca de um ano após o registo The Main Thing, os Real Estate de Martin Courtney, Alex Bleeker, Matt Kallman, Jackson Pollis e o multi-instrumentista Julian Lynch, que substituiu também o ano passado Matt Mondanile, na altura a contas com a justiça devido a várias acusações de abuso sexual, estão de regresso com um EP intitulado Half A Human, uma coleção de seis canções criadas entre dois mundos diferentes. Enquanto a arquitetura de cada uma foi construída durante as sessões de The Main Thing, as canções ganharam vida quando a banda começou a trocar o material remotamente durante a pandemia.

Real Estate | Artists | Domino - Domino

Half A Human é, à semelhança de tantos outros registos que têm chegado ao nosso ouvido muito recentemente, não só um espelho criativo sonoro da pandemia global que nos assola, mas também a manifestação prática de um novo modus operandi que os Real Estate e muitos outros projetos e artistas tiveram de encontrar devido às restrições impostas. A intimidade é, desde sempre, fator fulcral no processo criativo musical de bandas que congregam diferentes espíritos, sensibilidades, gostos e aptidões e competências, as grandes obras de arte sonoras foram imesnas vezes fruto de longas jam sessions conjuntas e a impossibilidade atual de reunião física levou à busca de novos procedimentos criativos e maneiras de trabalhar. Foi isso o que os Real Estate colocaram em prática, num EP que, já agora prova que tais constrangimentos não são sinónimo de decréscimo qualitativo. De facto, os seis temas do registo, resultando de um conceito de exploração das paisagens emocionais que têm vindo a aperfeiçoar mais de uma década, assente estilisticamente em canções feitas com guitarras levemente distorcidas e harmoniosas, banhadas pelo sol dos subúrbios, repletas de arranjos luminosos e com um certo toque psicadélico e, ao fazer um balanço de si mesmos e da incerteza de seu futuro, ajudaram os Real Estate a chegar a uma espécie de nova declaração de tese para a banda que, na prática, conduz o grupo para a criação de canções sempre acessíveis e com um elevada luminosidade e que façam o ouvinte sorrir sem razão aparente, mas que sejam também e cada vez mais, assentes num rock que não receie nunca se espandir com requinte e majestosidade, enquanto se foca nas habituais questões do amor e de outras miudezas quotidianas.

De facto, canções como Desire Path, intrigante e típica canção de início de alinhamento, curta mas com uma alma e um encanto profundos, a sedutora homónima, que na sobreposição de diferentes timbres e arranjos de cordas capta na perfeição a essência atual dos Real Estate, a mais psicadélica e orgânica Soon, a rugosa D+ e o indisfarçavel travo tropical da climática Ribbon, atestam a tese descrita enquanto conjuram entre si intimamente, num resultado final bastante charmoso e sensorial, que tem a fabulosa voz de Courtney como a cereja no topo do bolo. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 17:36

Widowspeak – Honeychurch EP

Segunda-feira, 25.01.21

Foi na insuspeita Captured Tracks que os Widowspeak regressaram no passado mês de agosto ao discos com Plum, o quinto álbum deste projeto sedeado em Brooklyn, Nova Iorque e que flutua abrigado pela incrível e criativa química que se estabeleceu há já uma década entre a cantora e escritora Molly Hamilton e o guitarrista Robert Earl Thomas, dois músicos com raízes em Tacoma e Chicago, mas estabelecidos na cidade que nunca dorme há já algum tempo. Plum foi gravado e co-produzido com a preciosa ajuda de Sam Evian (Cass Mccombs, Kazu Makino) e misturado por Ali Chanbt (Aldous Harding, Perfume Genius, PJ Harvey) e dessas sessões de gravação resultaram não só os temas que fazem parte do alinhamento do disco, mas também outras composições, com algumas delas a verem agora a luz do dia através de um EP intitulado Honeychurch.

Honeychurch | WIDOWSPEAK

Disponível apenas digitalmente Honeychurch é uma referência direta à obora do britânico E.M. Forster escrita em mil novecentos e oito e intitulada A Room With A View. O EP dá o pontapé de saída com uma versão particularmente bucólica de Money, o momento alto de Plum. Depois prossegue na mesma toada melancólica, tipificada por esplendorosas cordas que se debruçam copiosamente nos arranjos típicos da folk sulista norte americana com um original intitulado Sanguine. Para o ocaso, além do travo jam do tema homónimo do EP, destaque para as sublimes versões de The One I Love e Romeo And Juliet, originais, respetivamente, dos R.E.M. e dos Dire Straits e que com os Widowspeak ganham uma outra beleza e luz, através de uma simbiose muito particular e caraterística entre um baixo pulsante, guitarras com um timbre encharcado em brilho e sintetizadores minuciosamente apetrechados com diversas camadas melodicas, tudo emoldurado com uma identidade declaradamente vintage.

Honeychurch merece audição atenta e uma demarcação clara daquele que foi o conteúdo de Plum, disco considerado pela nossa redação como o quarto melhor do ano passado. O seu conteúdo reforça a tese de que estes Widowspeak, que começaram por viver à sombra daquela pop de finais dos anos oitenta muito sustentada por elementos sintetizados, são bastante mais felizes quando se deixam absorver pela influência daquelas construções musicais lançadas há cerca de cinco décadas e que navegavam entre a dream pop e uma salutar psicadelia. Espero que aprecies a sugestão...

Widowspeak - Honeychurch

01. Money (Hymn)
02. Sanguine
03. The One I Love
04. Romeo And Juliet
05. Honeychurch

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publicado por stipe07 às 20:22

Death Cab For Cutie – The Georgia E.P.

Quinta-feira, 17.12.20

Pouco mais de um ano após o excelente EP The Blue, os Death Cab For Cutie estão de regresso e no mesmo formato, com The Georgia EP, um alinhamento de cinco temas, todos eles versões de bandas míticas do Estado norte-americano da Georgia e que pretende celebrar o facto de esse mesmo estado, tradicionalmente republicano, ter sido, nas opções de voto, maioritariamente democrata nas últimas eleições presidenciais norte-americanas.

Death Cab for Cutie Releasing New Covers EP This Week | Pitchfork

TLC, R.E.M., Cat Power, Vic Chesnutt e Neutral Milk Hotel são as cinco bandas que os Death Cab For Cutie revisitam neste novo tomo de canções de um projeto formado atualmente por Ben Gibbard, Nick Harmer, Jason McGerr, Dave Depper e Zac Rae e que continua, esplendorosamente, mesmo utilizando originais de outras proveniências, a testar a nossa capacidade de resistência à lágrima fácil e a renovar com clarividência a impressão firme no lado de cá da barricada de estarmos perante uma banda extremamente criativa, atual, inspirada e inspiradora e que sabe, como muito poucas, como agradar aos fãs.

De facto, The Georgia EP oferece-nos aquela irresistível sonoridade ampla, límpida, mas também indesmentivelmente intrincada e detalhisticamente rica que carateriza este trio. Nos vários temas, a voz cristalina de Gibbard, a delicadeza da guitarra e o vigor percursivo, mostram-se sem qualquer parcimónia, aglutinando um indie rock puro e genuíno, de calibre ímpar e com uma radiofonia que também não é, certamente, inocente. Todos os rendimentos das vendas deste álbum serão doados para a Fair Fight Action. Espero que aprecies a sugestão...

Death Cab For Cutie - The Georgia E.P.

01. Waterfalls (TLC Cover)
02. King Of Carrot Flowers Pt. 1 (Neutral Milk Hotel Cover)
03. Fall On Me (R.E.M. Cover)
04. Flirted With You All My Life (Vic Chesnutt Cover)
05. Metal Heart (Cat Power Cover)

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publicado por stipe07 às 13:03

Polyenso – Lost In The Wheel EP

Quarta-feira, 28.10.20

Os Polyenso são uma banda de rock experimental norte americana sedeada em St. Petersburg, na Flórida. A banda é composta pelo vocalista e teclista Brennan Taulbee, pelo multi-instrumentista e vocalista Alexander Schultz e pelo percussionista Denny Agosto. Year Of The Dog foi o último longa duração que o trio lançou, em janeiro do ano passado, oito canções, algumas instrumentais, impregnadas com uma tonalidade refrescante e inédita, um disco cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproximou do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea.

Review: Pure in the Plastic by Polyenso – 88.5 KURE

Agora, mais de ano e meio depois desse tomo, os Polyenso voltam a dar sinais de vida com novas canções que fazem adivinhar sucessor e que foram sendo divulgadas desde o início do último verão. A primeira foi Red Colored Pencil, depois chegou a vez da fresquíssima Dust Devil, e agora é a vez de conferirmos Lost In The Wheel, uma deslumbrante canção incubada num território firme de experimentações sonoras e com um travo lisérgico algo incomum no panorama alternativo atual.

O lançamento deste novo single dos Polyenso teve direito ao formato EP, onde se inclui além de Lost In The Wheel, um curto instrumental chamado “Tempo” e que introduz  MissU (Loops And One-Shots), um devaneio de eletrónica climática, algo sujo e caótico, mas bastante hipnótico. Ora ouçam...

Polyenso - Lost In The Wheel

01. Lost In The Wheel
02. “Tempo”
03. MissU (Loops And One-Shots)

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publicado por stipe07 às 18:22

Zero 7 – Shadows EP

Segunda-feira, 26.10.20

Seis anos após o EP Simple Science e cinco depois de EP3, os britânicos Zero 7, um dos nomes fundamentais da eletrónica downtempo e da chillwave, estão de regresso com um novo EP intitulado Shadows, que também serve para apresentar o novo vocalista principal da banda de Sam Hardaker e Henry Binns, o cantor britânico Lou Stone. Já agora, recordo que os Zero 7 não lançam um disco desde o já longínquo Yeah Ghost de dois mil e nove.

FLOOD | Zero 7 Discuss Returning to Form for Their New “Shadows” EP

Este EP Shadows viu a luz do dia a vinte e três de outubro e oferece-nos um alinhamento muito quente e a apelar à soul, com quatro canções que exalam aquele charme típico da dupla e que reforçam o ambiente fashion que sempre caraterizou os Zero 7. São composições com um enredo bastante centrado nas memórias que Binns e Sam carregam consigo, individualmente e como peças fulcrais do universo Zero 7 e de como as duas décadas que levam juntos as criar e a compôr foram marcando as suas vidas e dando sentido a uma existência que sempre se centrou na necessidade de ambos em criar artisticamente.

É, pois, um EP vibrante, mas também soturno, quatro pérolas buriladas em cima de sintetizadores cósmicos, efusivos em Shadows e algumas cordas, serenas em Take My Hand e belíssimas em After The Fall, esta uma composição onde os típicos violinos, que eram peças chave dos primeiros registos da dupla, se mostram exuberantes. Pelo meio vai sendo tudo acomodado por interseções de arranjos que, contrastando com a emotividade vocal de Stone, uma voz habituada a registos mais folk, mas que se assentou como uma luva nos Zero 7, nos proporciona um resultado final lindíssimo, refinado e tremendamente contemplativo. Espero que aprecies a sugestão...

Zero 7 - Shadows

01. Shadows (Feat. Lou Stone)
02. Take My Hand (Feat. Lou Stone)
03. After The Fall (Feat. Lou Stone)
04. Outline (Feat. Lou Stone)

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publicado por stipe07 às 12:54

Local Natives – Sour Lemon EP

Sexta-feira, 23.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que tem a chancela do selo Loma Vista.

Local Natives share “Lemon” featuring Sharon Van Etten | lab.fm

Novidades dos Local Natives são sempre de saudar efusivamente. E quando trazem na bagagem participações especiais de nomes como Sharon Van Etten, então o regozijo torna-se ainda mais audível e justificado. De facto, as quatro canções de Sour Lemon aprimoram ainda mais o habitual patamar instrumental arrojado deste quinteto californiano, mantendo-se a excelência nas abordagens ao lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzida em inspirados versos e a formatação primorosa de diferentes nuances melódicas numa mesma composição, duas imagens de marca do projeto.

Sour Lemon EP convida-nos a penetrar no seu âmago à boleia de Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, Rice e Van Etten, que encaixam na perfeição. Depois, os seguidores mais puristas do grupo ficarão certamente deliciados com o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico, uma canção que nos mostra os Local Natives soterrados em variadas emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, como é apanágio do seu adn. Para o ocaso, se Lost não engana no modo como, etereamente, pisca o olho a ambientes mais nebulosos e jazzísticos, sem descurar uma leve pitada de R&B, já Future Lover tem o condão de nos fazer levitar e nos dar aconchego, através de um espírito interpretativo intenso e charmoso, onde se destaca o timbre metálico de uma divagante guitarra que contradiz na perfeição um registo percurssivo hipnótico, num resultado final de forte cariz pop.

Uma das grandes virtudes destas quatro novas canções dos Local Natives tem a ver com o facto de se sustentarem numa calculada complexidade, aliada a uma inspirada riqueza estilística, aspectos que fazem muitas vezes parecer que uma mesma composição dos Local Natives resulta de uma colagem simbiótica de diferentes puzzles com tonalidades e características diferentes. E estes dois aspetos peculiares marcam, claramente, um EP de enorme beleza e que merece ser apreciado com cuidado e real atenção, deixando bastante água na boca relativamente a um próximo longa duração deste grupo ímpar no panorama indie atual. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sour Lemon

01. Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02. Statues In The Garden (Arras)
03. Lost
04. Future Lover

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publicado por stipe07 às 16:35

Wye Oak – No Horizon EP

Terça-feira, 20.10.20

Foi há já algumas semanas que os infatigáveis Wye Oak nos ofereceram No Horizon, um novo EP desta dupla de Baltimore formada por Jenn Wasner e Andy Stack. Mestres da folk e do indie rock, mas com um cardápio sonoramente cada vez mais eclético, suportado por uma sólida carreira de pouco mais de uma década cujos maiores trunfos são a belíssima voz de Jenn e o magnífico trabalho instrumental de Andy, os Wye Oak têm solidificado, nas suas últimas propostas discográficas, nomeadamente o disco de dois mil e dezoito,The Louder I Call, The Faster It Runs, uma opção clara por sonoridades mais contemporâneas e direcionadas, essencialmente, para cruzamentos entre a pop e a eletrónica. Assim, fiéis à natureza maleável da banda, os Wye Oak convidaram o Brooklyn Youth Chorus, um coro gigantesco que empresta uma dose de grandiosidade instantânea a tudo aquilo em que mexe e criaram, todos juntos, um alinhamento de cinco temas exemplarmente ornamentados e imponentes e meticulosamente traçados de modo a oferecer ao ouvinte o máximo impacto orquestral possível.

WYE OAK share second track from 'No Horizon EP' - Werkre

No Horizon é, do princípio ao fim, sobre a linguagem e o poder de comunicar. É um alinhamento de assumido confronto com a autoridade politica vigente no país de origem da dupla, que pensa ter a capacidade de minimizar a nossa existência e remover as palavras que usamos. No entanto, os Wye Oak consideram que a linguagem é um poder maior do que  aqueles que a tentam controlar e que somos muito maiores que a linguagem e do que qualquer coisa que possa ser sugerida com palavras. A visão caleidoscópica que os Wye Oak têm da eletrónica atual e que é audível em AEIOU, o tema que abre o alinhamento deste EP, gira em redor deste conceito e explica-o com superior requinte. No ocaso do disco, o grito de revolta da dupla em relação ao status quo vigente é rematado com tremenda inteligência e subtileza em Sky Witness, uma aconchegante imensidão de cordas, teclas e diversos fragmentos samplados, agregados em redor de um fluído de elevado travo orgânico (When the world is just a concept, everything has hidden meaning). Pelo meio, outro grande destaque vai para No Place, canção que reforça essa aposta em sonoridades de forte pendor sintético, apesar da tal filosofia rock que esteve sempre subjacente ao adn dos Wye Oak. É uma canção assente numa salutar confusão sonora muito experimental e apelativa e que originou uma atmosfera sonora simultaneamente íntima e vibrante, que se debruça sobre a fronteira que existe entre a nossa dimensão corporal e biológica e a nossa dimensão metafísica e como muitas vezes as pessoas, recentemente mais direcionadas para profissões que exigem o uso predominante da mente e do pesamento, se esquecem do seu lado físico, descurando o bem estar dessa sua dimensão orgânica.

No Horizon é, em suma, um espelho dos tempos em que vivemos, um modo eloquente mas também intrigante de demonstrar a nossa incapacidade de percebermos que é muito pouco aquilo que controlamos realmente do nosso destino, quando comparado com aquilo que pensamos e ansiamos controlar. Ter essa perceção é meio caminho andado para uma existência mais livre e feliz, uma recomendação que nos é oferecida em bandeja de ouro por uma banda rara no modo como se reinventa em cada novo lançamento e que tem claramente ainda intacta a sua já mítica capacidade de nos surpreender constantemente. Espero que aprecies a sugestão...

Wye Oak - No Horizon

01. AEIOU
02. No Place
03. Spitting Image
04. (Cloud)
05. Sky Witness

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publicado por stipe07 às 13:24

Yo La Tengo – Sleepless Night EP

Sexta-feira, 09.10.20

Já este ano, como certamente se recordam, os Yo La Tengo divulgaram uma música por dia durante uma semana, uma sequência que culminou com a edição de um EP instrumental intitulado We Have Amnesia Sometimes. Depois, no ocaso do mês de agosto, o grupo que nasceu em mil novecentos e oitenta e quatro pelas mãos do casal Ira Kaplan e Georgia Hubley (voz e bateria) e Dave Schramm (entretanto retirado) e James McNew e que me conquistou definitivamente há quase uma década com o excelente Fade, anunciou um novo EP intitulado Sleepless Night e, um alinhamento de sete canções que acabam de ver a luz do dia à boleia da mítica Matador Records.

Yo La Tengo Announce New Sleepless Night EP, Share Cover of the Byrds'  “Wasn't Born to Follow”: Listen | Pitchfork

Sleepless Night EP mostra os Yo La Tengo a tocar alguns dos seus temas favoritos, reunindo um original e covers de originais de Bob Dylan, The Flying Machine, The Delmore Brothers, Ronnie Lane e os The Byrds. Estas versões foram inicialmente criadas para servirem de banda sonora de uma edição limitada de um catálogo pertença do Los Angeles Country Museum Of Art e que faz uma retrospetiva das melhores obras da artista japonesa Yoshitomo Nara, que também opinou acerca das canções que a banda de Nova Jersey deveria revisitar.

Entroncando na habitual bitola sonora do projeto, que ultimamente se tem abrigado numa espiral contemplativa e particularmente intimista, que tem sabido dialogar com as tendências mais atuais do indie rock, nomeadamente quando pisca o olho à eletrónica, principalmente a de cariz mais ambiental, Sleepless Night mostra os Yo La Tengo numa espécie de regresso às origens, não apenas pela óbvia necessidade de não deturparem a essência das canções que revisitam e que entroncam num adn eminentemente acústico e cru, mas também porque, entre a tal sensibilidade típica da banda e a dinâmica dos originais selecionados, esse é o caminho certo para dar um toque de modernidade a melodias amigáveis e algo psicadélicas, assentes quase sempre em guitarras e que (escute-se Bleeding) assentam num subtil jogo de cordas sobrepostas em diversas camadas melódicas ecoantes. Depois, o já famoso registo vocal sussurrante de Hubley, ditando outra das marcas mais identitárias deste grupo mítico, dá o toque de lustro final num alinhamento imperdível para todos aqueles que sentem necessidade de, amiúde, resvalar num registo pensado para ser ouvido e contemplado naqueles instantes de pausa e de sossego que todos nós precisamos amiúde de usufruir. Espero que aprecies a sugestão...

Yo La Tengo - Sleepless Night

01. Blues Stay Away From Me
02. Wasn’t Born To Follow
03. Roll On Babe
04. It Takes A Lot To Laugh, It Takes A Train To Cry
05. Bleeding
07. Smile A Little Smile For Me

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publicado por stipe07 às 18:41

Kurt Vile - Speed, Sound, Lovely KV EP

Quarta-feira, 07.10.20

O norte-americano Kurt Vile volta a ser notícia com Speed, Sound, Lovely KV, um EP com cinco canções gravadas durante a passagem do artista ao longo dos últimos anos pelos míticos estúdios Butcher Shoppe de Nashville, propriedade do produtor David Ferguson. São cinco temas que devem muito ao olhar sentido e meticuloso  deste músico natural de Filadélfia, na Pensilvânia, relativamente ao catálogo do mítico cantor e compositor folk John Prine, falecido recentemente. Ambos chegaram a partilhar palcos em Filadélfia e Nashville e gravaram mesmo um tema juntos, uma nova versão de How Lucky, uma canção fundamental do clássico Pink Cadillac, de mil novecentos e setenta e nove, um dos registos mais emblemáticos da carreira de Prine. Esta revisitação de How Lucky é mesmo o tema central deste novo EP de Kurt Vile que, quer antes quer após o desaparecimento de Prine, nunca deixou de enaltecer as qualidades artísticas de um dos seus ídolos de sempre. Mas a cover de Speed of the Sound of Loneliness, canção que Prine compôs em mil novecentos e oitenta e seis, é também um instante essencial destas cinco canções que são também uma ode a Nashville e à classe efervescente de artistas folk que, num espírito de salutar camaradagem, coabitam e colaboram entre si nesta cidade norte-americana bastante peculiar e com traços identitários muito próprios.

Kurt Vile: Speed, Sound, Lonely KV EP Album Review | Pitchfork

Não é segredo para ninguém que Kurt Vile descende da melhor escola indie rock norte americana, quer através da forma como canta, quer nos trilhos sónicos da guitarra elétrica, mas que aplica esse know how a criar composições encharcadas com alguns dos cânones essenciais da melhor folk do seu país de origem. Partindo dessa premissa estilística, este novo EP do músico alinha na perfeição esse virtuosismo de Vile, com a inteligentíssima, humorística e sedutora pena de John Prine, que era um escritor extraordinário a criar peomas sobre o amor e outras coisas banais da nossa existência. De facto, o saudoso artista country natural de Nashville, era um talento de primeira água, que Vile homenageia com algumas versões de temas essenciais do seu catálogo, dando-lhes um semblante mais contemporâneo, eminentemente acústico, mas sem colocar em causa a essência folk rock psicadélica algo divagante que também estruturava o adn sonoro essencial de Prine.

Este EP mostra que Vile está cada vez mais maduro no modo como se serve da guitarra para dar vida a monólogos intensos e marcantes, que narram histórias que podem ser bem reais e apreendidas por qualquer um de nos com facilidade. Mais do que um músico e intérprete, está a tornar-se num excelente comunicador e conversador, fazendo-o conferindo uma excentricidade melódica muito própria, neste caso a temas que, não sendo originalmente seus, têm o travo típico da sua matriz identitária mais genuína. Vile não trai nem os autores nem a sua filosofia e, nesse feliz equilíbrio, delicia-nos com composições tremendamente intimistas e impressivas. Espero que aprecies a sugestão...

Kurt Vile - Speed, Sound, Lovely KV (EP)

01. Speed Of The Sound Of Loneliness
02. Gone Girl
03. Dandelions
04. How Lucky (Feat. John Prine)
05. Pearls

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publicado por stipe07 às 20:32






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