Ryan Smith, Jordan Smith, Joe Vickers, Danny Hull e Luke Irvin são os brdmm, um projeto natural de Hull, em Inglaterra e que está a fazer furor com If Not, When?, um EP de seis canções que viu a luz do dia no passado outono à boleia da Sonic Cathedral Recordings e que foi gravado e masterizado por Alex Greaves.

If Not, When? tem um alinhamento curto, mas intenso, assente num garage rock que dialoga incansavelmente com o punk rock e que incorpora, nessa trama, doses indiscretas de uma suja nostalgia, que nos conduz a um amigável confronto entre o rock alternativo de cariz mais lo fi e shoegaze com aquela psicadelia particularmente luminosa que atingiu o êxtase nas décadas finais do século passado, mas que se mantém mais atual do que nunca.
Assim, na suprema melancolia e na luminosidade vibrante da lindíssima Shame, no clima nostálgico da etérea The Way I Want, nas diversas camadas de guitarras que tingem a tonalidade progressiva e sentimentalmente crua de Question Mark e no rock efusiante de C: U, somos agraciados por um alinhamento em que sombra, rugosidade e monumentalidade se misturam entre si com intensidade e requinte superiores, através da crueza orgânica das guitarras, repletas de efeitos e distorções inebriantes e de um salutar experimentalismo percurssivo em que baixo e bateria atingem, juntos, um patamar interpretativo particularmente turtuoso.
Sendo este EP um ponto de partida na carreira dos bdrmm, que estarão no Hard Club no próximo dia vinte e três de maio, a base que ele firma no catálogo do projeto é tremendamente consistente e se a opção for permitir que a intuição tome as rédeas em posteriores lançamentos, este é já um belo ponto de partida rumo a sonoridades que poderão ser ainda mais abrangentes. Espero que aprecies a sugestão...
Quatro anos depois do excelente Life Among The Savages, os Papercuts regressaram às luzes da ribalta em outubro de dois mil e dezoito com Parallel Universe Blues, dez canções que viram a luz do dia à boleia da Slumberland Records, a nova etiqueta deste projeto encabeçado por Jason Robert Quever e David Enos e oriundo de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos da América. Sexto disco do cardápio dos Papercuts e, como já referi, primeiro na Slumberland, Parallel Universe Blues continha um alinhamento com canções assentes no cruzamento feliz entre melodia e voz, com a escolha assertiva dos arranjos a nunca ofuscar o brilho que as cordas sempre tiveram no catálogo dos Papercuts. Esta era, de facto, uma nuance fundamental desse novo registo do projeto que, tematicamente, reflete a mudança de Jason Quever de São Francisco para Los Angeles, ocorrida à época.

Foram vários os singles já retirados desse excelente trabalho dos Papercuts, sendo, talvez, o mais badalado, Laughing Man, uma composição que, como os mais atentos se recordarão, estava coberta por um manto de monumentalidade e epicidade únicos. No entanto, um dos temas mais relevantes de Parallel Universe Blues e que merece também superior destaque é, sem dúvida, Kathleen Says, a sexta composição do alinhamento do registo. Foi editada em single, no início da passada primavera, com direito a um EP próprio, com 2 b sides: uma cover do clássico Blues Run The Game, da autoria de Jackson C. Frank e uma versão acústica de Comb In Your Hair., um dos temas mais emblemáticos do passado discográfico dos Papercuts.
Em Kathleen Says, uma guitarra abrasiva e com um elevado timbre metálico, variações percurssivas constantes e deliciosamente encadeadas com o baixo e uma luminosidade melódica ímpar, são os grandes atributos de uma canção repleta de diversos detalhes preciosos, fundamental para conferir uma tonalidade refrescante e inédita ao alinhamento de um disco cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproxima do que melhor propõe atualmente a música independente americana contemporânea. Confere o EP Kathleen Says, o alinhamento de Parallel Universe Blues e espero que aprecies a sugestão...

01. Kathleen Says
02. Blues Run The Game
03. Comb In Your Hair
O escocês Steve Mason esteve nos últimos anos ocupado com a reedição em vinil do catálogo dos seus Beta Band, mas no início deste ano focou-se novamente na sua carreira a solo, à boleia de About The Light, o quarto registo de originais do seu cardápio. Gravado em vários estúdios de Londres e Brighton, com a ajuda do mítico Stephen Street, que trabalhou com os Blur e os The Smiths, About The Light viu a luz do dia a dezoito de janeiro último e na altura sucedeu aos aclamados trabalhos Boys Outside (2010), Monkey Minds In The Devil’s Time (2013) e o antecessor Meet The Humans (2016). Agora, cerca de dez meses depois desse disco, Steve Mason volta a surpreender com Coup D’état, um EP com quatro temas, três novos originais e uma remistura de America Is Your Boyfriend, canção que abria o alinhamento de About The Light, da autoria de Tim Goldsworthy.

Steve Mason parece estar destinado a tornar-se numa figura de culto do cenário indie britânico. Tal como muitos parceiros de luta muitas vezes catalogados de egocêntricos, foi-lhe diagnosticado em tempos um síndrome de distúrbio mental, que tem tentado contrariar desde o surpreendente registo Boys Outside, de dois mil e dez. Nesse álbum Mason fez uma espécie de mea culpa acerca da necessidade que foi sentido, ao longo da sua vida, de vestir uma determinada capa perante o grande público e nele, além de debruçar-se, com particular clarividência, sobre essa questão em concreto, também o fez, imagine-se, sobre a realidade política dessa época, no fundo uma estratégia igual a tantas outras, mas eficaz, de aproximação ao público e de quebrar barreiras. O passo seguinte deste exercício de exorcização e de busca de uma normalidade quotidiana deu-se há dois anos, durante o processo de gravação de Meet the Humans. Durante a escrita desse álbum Mason deixou de vez o seu refúgio escocês em Fife, numa zona florestal e mudou-se para a urbanidade de Brighton, em Inglaterra, onde encontrou parceira e enfrentou, inesperadamente, a dura mas feliz batalha da paternidade. Essa nova realidade pessoal, mais feliz, estável e adulta de Mason, acabou por se refletir no conteúdo de About The Light, o seu Brighton Album, como o músico também gostou de o intitular, um disco que sonoramente colocou as fichas na melhor herança da britpop noventista e que apresentou um som eminentemente experimental, como é suposto tendo em conta o adn deste músico, mas claramente mais acessível que o universo sonoro algo intrincado e frequentemente sofisticado dos Beta Band. Agora, neste Coup D’état, que viu os três originais produzidos por Steve Mac e Martin Duffy dos Primal Scream e cujo conteúdo não pode ser desligado do longa duração antecessor, Mason não se afasta muito dessa filosofia interpretativa efusiva, radiofónica e cimentada num rock melodicamente aditivo, mas coloca mais fichas numa toada eletrónica, de elevado cariz retro, como se percebe logo em Like A Ripple, o fabuloso tema que abre o EP e que nos remete para aquele eletro punk encharcado em glam que esteve em voga há cerca de quatro décadas. Depois, quer o pendor abrasivo desta canção, quer a toada mais climática mas tremendamente hipnótica de Against The World, acabam por ser amaciadas em Head Case, singela composição, que flutua num luminoso piano e numa subtil batida, enquanto a voz sorridente de Mason, quer neste tema, quer na cósmica e divertida remix de America Is Your Boyfriend, idealizada por Tim Goldsworthy, encarna o espelho fiel de alguém que dá mais um passo seguro em frente na sua já longa e respeitável carreira porque renova, potencia e embeleza o seu modus operandi, canalizando, novamente, o momento positivo pessoal que vive para a felicidade que sente em compôr de modo simples e direto, mas também, bonito, confidente e gentil. Espero que aprecies a sugestão...

01. Like A Ripple
02. Head Case
03. Against The World
04. America Is Your Boyfriend (Tim Goldsworthy Remix)
A norte-americana Lucy Dacus aproveitou algumas datas marcantes do calendário deste ano de dois mil e dezanove para gravar versões de temas de artistas com os quais se identifica e que diz serem referências ocónicas quer da sua vida, quer da sua carreira musical, mas também inéditos da sua autoria, canções que fazem parte de um EP que a autora editou recentemente, intitulado 2019 e que foi lançando em formato single ao longo do ano.

Assim se no dia de São Valentim nos ofertou o seu olhar sobre o clássico La Vie En Rose de Edith Piaf, no dia da mãe foi a vez de nos presentar com My Mother & I, de Taurus Season e no passado dia quatro de julho, o Dia da Independência e feriado nacional nos Estados Unidos da América, divulgou o inédito Forever Half Mast, uma canção com uma forte crítica à realidade política do seu país. Alguns meses depois, em setembro, chegou a vez de homenagear o Boss, no dia em que fez setenta anos, divulgando uma cover do clássico Dancing In The Dark, um dos expoentes máximos da carreira de Bruce Springsteen. Nesse Dancing In The Dark, de Bruce Springsteen, Lucy Dacus retrata com elevada bitola qualitativa o original, mantendo a essência tipicamente rock da canção, mas fazendo-o com um olhar um pouco mais sintético e contemporâneo que o original.
A final dois mil e dezanove, se no Halloween pudemos escutar uma versão de In The Air Tonight de Phil Collins, Lucy oferece-nos neste natal outro clássico, Last Christmas, um original icónico dos anos oitenta assinado pelos Wham e que também é aqui retratado com uma linguagem sonora mais abrasiva, direta e roqueira. Fools Gold é o tema original do EP e a previsão é que seja editado em formato single pela passagem de ano. Confere...

01. La Vie En Rose
02. My Mother And I
03. Forever Half Mast
04. Dancing In The Dark
05. In The Air Tonight
06. Last Christmas
07. Fool’s Gold
Com o aproximar do Natal é usual haver alguns lançamentos discográficos alusivos à época e o norte-americano Andrew Bird acaba de aderir a esta tendência com a recente edição de Hark, um EP de seis canções de Natal, editado à boleia da Loma Vista Records e que sucede a My Finest Work Yet, o décimo segundo álbum da carreira do músico natural de Chicago, um trabalho que viu a luz do dia na passada primavera.

Andrew Bird é. claramente, um dos maiores cantautores da atualidade e tem um vasto catálogo de canções que são pedaços de música intemporais. A elas poderá muito bem juntar os originais Alabaster, Christmas Is Coming e Night's Falling, assim como as covers dos clássicos Oh Holy Night e White Christmas, além de Skating, um original do compositor Vince Guaraldi e a grande fonte de inspiração para a elaboração de Hark!, um registo que se escuta com particular deleite e que encarna na perfeição o espírito sonoro da época que tem em sonoridades eminentemente clássicas maior aceitação. Nele, quer nas versões quer nos inéditos, Bird vai oferecendo-nos novas nuances, detalhes e formas de compôr que entroncam numa base comum, a típica folk norte americana, proposta através de diferentes registos e papéis, mas sempre com a mesma eficácia e brilhantismo, uma das marcas identitárias da sua arte.
Nos originais, os sinos e o timbre orgânico das cordas e das teclas de Alabaster, o pendor jazzístico da percurssão e dos sopros que inflamam um enorme charme a Skating e o assobio de Christmas Is Coming, são prova clara da habitual na mestria interpretativa de Andrew, enquanto que nas versões, a opção por roupagens minimalistas, acaba por conferir às canções uma alma mais intimista, mostrando-nos o quanto ele é também feliz quando opta por um exercício mais climático de agregação, fazendo-o, neste caso, imbuído de sofisticação e com enorme bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

01. Alabaster
02. Skating
03. Christmas Is Coming
04. White Christmas
05. Oh Holy Night
06. Night’s Falling
Dois meses depois da edição de Altid Sammen (em português sempre juntos), o quinto registo de originais, os dinamarques Efterklang de Mads Brauer, Casper Clausen e Rasmus Stolberg, um grupo que se divide entre Lisboa e Copenhaga, voltam a oferecer novidades com a edição de um novo EP intitulado Lyset, quatro canções divididas pelo inédito homónimo e três novas versões de três dos momentos maiores de Altid Sammen.

Lyset, mais uma jóia verdadeiramente preciosa que arrebata toda a dose de melancolia que temos guardada dentro de nós, foi gravada no passado dia dezasseis de setembro em Copenhaga, capital da Dinamarca e significa a luz, com os Efterklang a dividirem os créditos do tema com o artista sueco Sir Was.
Quer na gravação de Lyset, quer na das outras três composições, os Efterklang contaram com as participações especiais de Simon Toldam (piano) e Øyunn (voz, percussão), músicos que costumam acmpanhar o trio nos concetos ao vivo e ainda o South Denmark Girls Choir / Sønderjysk Pigekor, sedeado em Sønderborg, cidade natal dos Efterklang, liderado por Mette Rasmussen e que já tinha participado nas gravações de Piramida o mítico álbum de dois mil e doze dos Efterklang. Confere...
01. Lyset
02. Vi Er Uendelig (Feat. South Denmark Girls’ Choir)
03. Havet Løfter Sig
04. Hænder Der Åbner Sig (Feat. South Denmark Girls’ Choir)
Niki Moss é o alter-ego de Miguel Vilhena, músico multi-instrumentista, fundador da editora pontiaq, vocalista dos Savanna e produtor de inúmeras bandas portuguesas (Pista, Marvel Lima, Ditch Days, Flying Cages, George Marvinson, entre outros). Estreou-se em maio com Gooey, o seu registo de estreia e que tem como um dos grandes destaques Standing In The Dark, uma canção que Niki Moss resolveu agora reinterpretar com cinco diferentes versões, dando assim origem a um dos mais curiosos lançamentos em formato EP, dos últimos tempos. Já agora, Gooey e Standing In The Dark EP foram lançados numa colaboração entre a pontiaq e a editora britânica Street Mission Records com distribuição pela PIAS.

No conteúdo do EP, segunda reintrepretação de Standing In The Dark, Standing In The Dark II, é o single do EP, uma versão que se foca nos aspetos mais pop do original e que tem, de acordo com o autor, o refrão mais épico e dramático, com uma instrumentação à anos 80. O single tem também já direito a um vídeo realizado por Diogo Vale e que pretende seguir os passos da música, um filme sombrio mas confortável, misterioso e metafórico, ora sereno, ora explosivo.
Ao conceber este EP Niki Moss teve como grande permissa, um forte desejo de embarcar numa viagem para descobrir quão épico, psicadélico, eletrónico e sombrio este single se poderia tornar. É uma abordagem radical e ousada, um verdadeiro trabalho de amor, onde duas das cinco versões são acompanhadas de teledisco para ilustrar a sua realidade. O próprio confessa que quis dissecar os aspetos mais poderosos da música original e dividi-los em capítulos. A parte dois é focada nas tendências mais pop, com refrões orelhudos e um imaginário mais 80s. A terceira parte remete ao trabalho de estúdio, onde abusei muito do equipamento analógico e retorci os instrumentos originais para criar novas texturas. A parte IV é sobre as influências eletrónicas sempre presentes na minha música e a parte V é sobre as trevas que são o tema do EP.
Confere Standing In The Dark e, se for possível, vai ver Niki Moss, já amanhã, no Super Bock em Stock, na Sala 2 do Cinema São Jorge.
TOUR Niki Moss
22 de Novembro/ Super Bock Em Stock 2019, Lisboa
28 de Novembro/ Wurlitzer Ballroom, Madrid
29 de Novembro/ Carpe Diem, Santo Tirso
30 de Novembro/ Porta 253, Braga
30 de Novembro/ Ferro, Porto
6 de Dezembro/ Rock With Benefits 2019, Fafe
7 de Dezembro/ Quina das Beatas Fest 2019, Portalegre
20 de Dezembro/ Oficina Os Infantes, Beja
21 de Dezembro/ SHE, Évora
Têm apenas alguns meses de vida os Born-Folk, um projeto oriundo de Lisboa constituido por músicos com influências oriundas de épocas distintas, mas que assume uma dimensão criativa pop, livre e eclética. O grupo quer chegar ao âmago do coração, de modo assumidamente casual e algo romântico, e tem já no seu catálogo um EP intitulado Come Inside!, um alinhamento de cinco temas bastante influenciado pela indie de final do século passado, intercetado por alguns dos pilares fundamentais do rock clássico, com pitadas de jazz, do punk e do grunge a comporem este delicioso ramalhete.

Assumidamente ecléticos, sem se quererem amarrar demasiado a fronteiras ou a um modus operandi sonoro demasiado específico e que os castre naquilo que é a sempre indispensável liberdade criativa, os Born-Folk têm nos conceitos de simbolismo e ironia pedras basilares não só da sua filosofia sonora, mas também do seu ideário lírico. Assim, se o tema Heat And Rum assume-se como uma típica canção de verão, com uma indesmentível e peculiar vibe surf rock sessentista, carregada de surf tremolo na guitarra e voz delicada e com uma letra em que está patente toda a simbologia ligada à temática do surf, calor, ondas e raparigas a exibirem-se e toda a parte, já (o) l (a) é um buliçoso e agreste exercício de recriação de como seria recriar Seattle em plena andaluzia espanhola e Le F*ck, um psicadélico devaneio punk que a melhor herança de uns Pavement não hesitaria em colocar em plano de destaque no seu catálogo. Já Fall-Inn, o tema que encerra o alinhamento do EP, conduzido por um eletrificação de cordas agreste e abrasiva, mas tremendamente charmosa e com um travo punk delicioso, tem um clima mais outunal, oferecendo-nos um possível retrato de um peculiar “rendez vous” outonal falhado com uma “patinadora artística” que vai pirateando corações com o seu sorriso alemão. De facto, de acordo com o grupo, no hotel FALL-INN (uma espécie de open space hostel) somos saqueados por uma coelhinha pirata que embala os hóspedes com o seu olho empalado. A enigmática mensagem em “alemão da região da baixa googlândia” é o hall de entrada. Segue-se uma imperial overdrive interminável até à infusão fatal, um cházinho relaxante e inebriante carregado de wah wah “delayano” que nos levará até ao grand finale, onde a queda é uma aposta segura. Willkommen!!! Espero que aprecies a sugestão...

Montréal, no Canadá, é o poiso dos The High Dials, banda com uma década de carreira e de regresso aos discos em dois mil dezanove com Primitive Feelings, um longa duração com lançamento em formato vinil previsto para muito em breve. Entretanto alinhamento desse álbum físico já começou a ser antecipado digitalmente com dois eps, tendo o primeiro, com oito composições, provavelmente o lado a dessa edição, visto a luz do dia no final da passada primavera e o segundo, o lado b da edição, a revelar-se por estes dias, permitindo-nos contemplar finalmente, na íntegra, um dos melhores discos de dois mil e dezanove.
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Primitive Feelings é o sexto registo de originais dos The High Dials e, pelo que se percebe, quer da primeira metade revelada, quer das seis canções que também podemos agora contmeplar, é um disco repleto de texturas sonoras que privilegiam um punk rock algo sujo e lo fi, mas onde também não faltam texturas eletrónicas particularmente pulsantes e contemporâneas e com um elevado groove e um espírito shoegaze, nuances que se saúdam num projeto particularmente inovador e reputado na esfera indie canadiana.
O fabuloso baixo vibrante e o reverb ecoante que sustentam Fear Of Heights, sendo já uma imagem de marca desta banda, também claramente influenciada pela melhor herança da indie psicadélica britânica forjada em terras de Sua Majestade no último meio século, é um prometedor ponto de partida para um alinhamento com uma ímpar índole psicotrópica, capaz de enlear os nossos sentidos e nos deixar em completa letargia. Depois, a batida incisiva e os riffs incendiários que dão robustez à impetuosa My Dream Addiction, um dos destaques maior destas seis canções, a vibe cósmica proporcionada pelos sintetizadores que fazem gravitar Co-Stars, a presença de alguns dos arquétipos típicos da pop e do punk dos anos oitenta em Cold Shoulder, a graciosidade pop de Work Of Fiction e, por fim, a soul contemplativa que exala de Rays Of Shade, ampliam o efeito soporífero desta segunda amostra de um trabalho que, no seu todo, tem tudo para potenciar a fama destes The High Dials, não só devido à bitola qualitativa e criativa desse novo capítulo de um catálogo discográfico que é já riquissímo, mas também por causa da superior capacidade que têm de fazer o nosso espírito facilmente levitar e provocar no âmago de quem os escuta devotamente um cocktail delicioso de boas sensações. Espero que aprecies a sugestão...

01. Fear Of Heights
02. My Dream Addiction
03. Co-Stars
04. Cold Shoulder
05. Work Of Fiction
06. Rays Of Shade
Quase um ano após o excelente Mujeres, o projeto norte americano Y La Bamba, liderado por Luz Elena Mendoza, está de regresso aos lançamentos discográficos com Entre Los Dos, o novo tomo de canções deste grupo sedeado em Portland. Entre Los Dos é um EP com sete espetaculares canções e editado através da Tender Loving Empire, a etiqueta de sempre dos Y La Bamba.

Depois do excelente Ojos Del Sol, lançado há cerca de três anos, a crítica começou finalmente a ficar bastante atenta a este projeto Y La Bamba, único no modo como mescla post punk com música latina, eletrónica e alguns dos arquétipos fundamentais da indie de cariz mais lo fi. Mujeres, um registo gravado pela própria Luz Elena Mendoza, com a ajuda de Ryan Oxford nos estúdios Color Therapy Studios e nos Besitos Fritos Studios em Portland e misturado por Jeff Bond, ampliou ainda mais a elevada bitola qualitativa de uma proposta sonora única no cenário musical contemporâneo e que oferece ao ouvinte mais devoto uma viagem espiritual, convidando-nos a refletir e a conhecer as posições da autora acerca de questões como o machismo, o feminismo e o modo como as mulheres se posicionam socialmente, politicamente e até moralmente nos dias de hoje, com particular enfoque nas que são oriundas de países latinos, especialmente as mexicanas a residir nos Estados Unidos da América.
As sete canções de Entre Los Dos, que além de Luz contam com Grace Bugbee aos comandos do baixo, John Niekrasz na bateria, Margaret Wher Gibson nos teclados e a dupla Ed Rodriguez e Ryan Oxford na guitarra elétrica, são como que um fechar de ciclo de uma espécie de triologia iniciada no tal Ojos Del Sol, três trabalhos que plasmam, com fidelidade e minúcia uma abordagem muito pessoal e íntima, claramente auto-reflexiva, mas que também é, de algum modo, sociológica, por parte de Luz, relativamente ao modo como a mulher é vista nos dias de hoje. No carrocel percurssivo de Gabriel e de Los Gritos, canções que conjugam o melhor dos ritmos da música tradicional espanhola e mexicana, com um toque rock e a voz sublime de Luz, na acusticidade minimal etérea de Entre Los Dos e de Octavio, na eletrónica em forma de dream pop de cariz lo fi e etéreo que cimenta Rios Sueltos, no festim folk punk de Soñadora e na riqueza estilística que define os arranjos que ampliam o grau de rugosidade de Las Platicas, apreciamos uma narrativa plena de histórias simples e comuns, mas onde este timbre ordinário das mesmas é enganador, porque são relatos de vidas difíceis e que muitas vezes escapam à própria compreensão de quem nunca vivenciou na pele tais realidades. Os Y La Bamba acabam por suavizar, até com uma certa ironia e sarcasmo, dores, agruras e medos, com composições que ampliam o diâmetro da nossa anca, deixando-a possuída, sem dono e sem vontade própria, porque não resistimos a acompanhar tambem fisicamente um alinhamento que além de todo o cariz sério e profundo que sustenta, também consegue mexer muito com a temperatura do nosso corpo. Espero que aprecies a sugestão...

01. Gabriel
02. Entre Los Dos
03. Rios Sueltos
04. Octavio
05. Soñadora
06. Las Platicas
07. Los Gritos
No último ano do século passado, mil novecentos e noventa e nove, os Death Cab For Cutie tinham apenas um par de anos de carreira. Nesse ano , um gasoduto explodiu em Bellingham, a cidade natal do grupo, perto de Washington e em resultado desse evento três crianças morreram, um rapaz de dezoito anos e dois com apenas dez. Este é, de certo modo, o ponto de partida para The Blue EP, o novo tomo de canções deste projeto formado atualmente por Ben Gibbard, Nick Harmer, Jason McGerr, Dave Depper e Zac Rae e que continua, esplendorosamente, a testar a nossa capacidade de resistência à lágrima fácil e a renovar com clarividência a impressão firme no lado de cá da barricada de estarmos perante uma banda extremamente criativa, atual, inspirada e inspiradora e que sabe, como muito poucas, como agradar aos fãs.

In the waters where we used to swim, Where we thought we would be young forever, But beads that glisten on your sunburnt skin, Evaporated in the flames and embers, canta Ben Gibbard em Kids In ’99, o tema nevrálgico de The Blue EP e que nos oferece aquela irresistível sonoridade ampla, límpida, mas também indesmentivelmente intrincada e detalhisticamente rica que carateriza este trio. Nela, a voz cristalina de Gibbard, a delicadeza da guitarra e o vigor percursivo, mostram-se sem qualquer parcimónia, aglutinando um indie rock puro e genuíno, de calibre ímpar e com uma radiofonia que também não é, certamente, inocente.
Mas não é este single apenas o grande momento alto de The Blue EP. Aliás, o alinhamento começa em grande estilo com To The Ground, um portento sonoro épico conduzido por uma bateria grave que dá à tarola um protagonismo raro, um baixo eficaz e uma guitarra insinuante, sempre ali, a meio caminho de uma postura groove, mas de setas apontadas a riffs cheios de distorção, um tratado de pós punk que não fica a dever nada aos melhores intérpretes atuais deste subgénero do indie rock. Depois, num registo oposto, a cândura da acusticidade singela de Man In Blue, uma canção sobre a recusa em dialogar com um amor antigo, proporciona-nos o contacto feliz com a tal faceta mais sentimental e profunda dos Death Cab For Cutie. Depois, Before The Bombs, uma descrição de uma zona devastada por um cenário de guerra, ganha raízes numa toada mais pop e radiofónica e, por fim, Blue Bloods, nas asas de guitarras planantes e efeitos bastante sedutores e de timbre eminentemente metálico, induz-nos, sem dó nem piedade, aquele habitual grau de emotividade que carateriza o adn do grupo.
Gravado e produzido por Peter Katis, Rich Costey e a própria banda durante as mesmas sessões de gravação que incubaram Thank You For Today, o disco que os Death Cab For Cutie editaram o ano passado, The Blue EP mantém o projeto norte-americano na senda de uma narrativa geral em que o conceito de tragédia e dor é, decerto modo, o eixo fulcral do arquétipo filosófico das suas criações sonoras, mas em que é audível um equilibrio e balanço feliz, já que a opção sonora geral é rica em momentos deslumbrantes e que viciam facilmente. Espero que aprecies a sugestão...
01. To The Ground
02. Kids In ’99
03. Man In Blue
04. Before The Bombs
05. Blue Bloods
Parece que ainda foi ontem, mas já está a comemorar uma década de vida Astro Coast, o extraordinário registo de estreia dos Surfer Blood e que colocou esta banda oriunda da Flórida no mapa. Para assinalar a efeméride o grupo anunciou o lançamento do sucessor de Snowdonia (2017), um novo álbum ainda sem nome, que irá chegar aos escaparates no próximo ano e divulgou Hourly Haunts, um EP com seis canções e com uma identidade própria já que nenhum destes novos temas do quarteto fará parte desse trabalho que irá ver a luz do dia em dois mil e vinte.

Atualmente formados por John Paul Pitts, Tyler Schwarz, Mike McCleary e Lindsey Mills e com um percurso algo acidentado mas sempre profícuo e balizado por um surf rock claramente feliz no modo como pisca o olho a espetros sonoros tão variados como a surf music ou o rock alternativo dos anos noventa, os Surfer Blood oferecem-nos em Hourly Haunts talvez a coleção de canções mais inspirada dos seus dez anos de carreira. São seis composições solarengas, assentes num rock direto e incisivo, tremendamente luminoso e otimista, bastante festivo e exuberante, feito à boleia de guitarras em que abundam várias camadas de distorção, um detalhe imprescindível para o dinamismo de um EP extremamente criativo e pleno de melodias únicas e com um forte cariz radiofónico.
Assim, da toada inicialmente sombria mas depois fortemente orquestral de Around Your Sun à nostalgia ensolarada de Atom Bomb e ao frenesim pop de Nm Sky Song, passando, pouco depois, pelo piscar de olhos da distorção das guitarras ao rock mais progressivo em Windy e, no ponto alto do EP, pelo energia otimista que exala de Cariboo, tudo parece ter sido pensado para soar bem nos nossos ouvidos, com naturalidade e sem exageros desnecessários, num resultado final verdadeiramente feliz e inspirado. Não restam dúvidas que os Surfer Blood continuam na sua louvável cruzada de busca incessante do melhor estilo sonoro, num percurso cheio de energia criativa, marcada por uma angústia quase inofensiva, onde não faltam momentos altos e de notável esplendor e júbilo. Este é claramente o caso. Espero que aprecies a sugestão...

01. Around Your Sun
02. Cariboo
03. Windy
04. NM Sky Song
05. Atom Bomb
06. Edge Of The World
Os Work Drugs de Benjamin Louisiana e Thomas Crystal são uma dupla de Filadélfia já com um assinalável cardápio e que se mantém bastante ativa e profícua, lançando um disco praticamente todos os anos, além de alguns singles e compilações, desde que se estrearam com Summer Blood, há já quase uma década. Enquanto não chega aos escaparates lá para o final deste ano o sucessor do excelente Holding On To Forever de dois mil e dezoito, têm-se mostrado visíveis e audíveis com a edição em formato EP. Belize foi editado em março e agora acaba de ser divulgado Surface Waves. Ambos compilam não só alguns singles que poderão fazer parte desse novo álbum dos Work Drugs, mas também diversos instrumentais e material nunca antes divulgado e que foi sobrando das sessões de gravação de alguns dos antecessores do futuro trabalho discográfico do projeto.

Surface Waves contém oito composições perfeitas para saborear estes últimos raios de sol mais quentes, enquanto não chega a longa penumbra outunal e o interminável frio e implacável inverno. Se a melhor herança de Michael Jackson conduz Embers Never Fade e uma bateria eletrónica bastante insinuante sustenta Burned, em L.A. Looks dominam paisagens com uma mais acentuada tonalidade surf rock, enquanto a chillwave de Counterclaims contém um encanto vintage, relaxante e atmosférico, intenso e charmoso.
O resultado final de Surface Waves é um compêndio particularmente eclético, que além de proporcionar instantes de relaxamento, também poderá adequar-se a momentos de sedução e recolhimento, um EP que faz adivinhar um disco tremendamente sensorial e emotivo e que será, sem dúvida, mais um episódio significativo e bem sucedido num já riquíssimo compêndio proporcionado por um dos projetos mais excitantes da pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

01. Embers Never Fade
02. Burned
03. L.A. Looks
04. Counterclaims
05. Reunions
06. Do It Like We Used To Do
07. Counterclaims (Instrumental)
08. Embers Never Fade (Instrumental)
Produzido por Pontus Winnberg (Miike Snow), Johannes Berglund e Måns Lundberg e gravado nos estúdios Skolhaus, em Mariefred, nos arredores de Estocolmo, Re-Dreaming, é o novo EP do trio sueco Deportees, um registo com cinco canções que colocam este projeto liderado por Peder Stenberg, debaixo dos holofotes da crítica fora das fronteiras de uma Suécia onde são já um caso sério de popularidade.

Com forte tonalidade oitocentista, Re-Dreaming é um daqueles registos optimistas e luminosos, muito à imagem de outras propostas oriundas dos países nórdicos, em que guitarras e sintetizadores conjuram entre si para criar ambientes sonoros amplos, emotivos e com um elevado cariz retro.
Assim, se Bright Eyes, um dos grandes destaques do EP, tem uma atmosfera bastante emotiva, empática e sentimental e debruça-se sobre a capacidade que todos devemos ter de nos reerguermos depois de instantes de dissabor em que tudo parece desmoronar em nosso redor, já Time Is The Tiger, por exemplo, aposta num clima mais progressivo e visceral e Patterns numa abordagem mais melancólica e reflexiva, num resultado final que procura incutir no ouvinte, de acordo com Stenberg, otimismo e esperança relativamente a um futuro que não se prevê particularmente animador. Confere...
01. Bright Eyes
02. Time Is The Tiger
03. Wild Repeat
04. A Love Design
05. Patterns
Montréal, no Canadá, é o poiso dos The High Dials, banda com uma década de carreira e de regresso aos discos em dois mil dezanove com Primitive Feelings, um longa duração com lançamento em formato vinil previsto para o próximo outono. Entretanto alinhamento desse álbum físico já começou a ser antecipado digitalmente com dois eps, tendo o primeiro, com oito composições, provavelmente o lado a dessa edição, visto a luz do dia há algumas semanas.

Primitive Feelings será o sexto registo de originais dos The High Dials e, pelo que se percebe desta primeira metade revelada, será um disco repleto de texturas sonoras que privilegiam um punk rock algo sujo e lo fi, mas onde também não faltam texturas eletrónicas particularmente pulsantes e contemporâneas e com um elevado groove e um espírito shoegaze, nuances que se saúdam num projeto particularmente inovador e reputado na esfera indie canadiana.
O fabuloso baixo vibrante que sustenta The Future Prospects Of Your Ego, sendo já uma imagem de marca desta banda também claramente influenciada pela melhor herança do indie rock britânico forjado em terras de Sua Majestade no último meio século, volta a fazer-se acompanhar, nomeadamente neste tema que é para mim o destaque maior destas oito canções, por uma guitarra jovial e criativa, guiada por uma forte vertente experimental e uma certa soul, com alguns efeitos e detalhes sintetizados a rematarem em grande estilo uma canção que não receia ser exuberante no modo como sustenta alguns dos arquétipos típicos da pop e do punk dos anos oitenta. Depois, a precisão rítmica da bateria e os riffs incendiários que dão colorido à luminosa Jaws Of Life, a graciosidade psicadélica de Employment And Enjoyment, o charmoso piano que deambula por World War You ou o travo jazzístico do punk incisivo que exala de Guerrilla Guru, ampliam o efeito soporífero desta amostra de um trabalho que quando for possível de ser escutado no seu todo, irá certamente potenciar a fama destes The High Dials, não só devido à bitola qualitativa e criativa desse novo capítulo de um catálogo discográfico que é já riquissímo, mas também por causa da superior capacidade que têm de fazer o nosso espírito facilmente levitar e provocar no âmago de quem os escuta devotamente um cocktail delicioso de boas sensações. Se a segunda metade do registo, fizer jus ao conteúdo já revelado de Primitive Feelings, então estaremos certamente em presença de um dos grandes álbuns de dois mil e dezanove. Espero que aprecies a sugestão...

01. O Blue Day
02. The Future Prospects Of Your Ego
03. Jaws Of Life
04. Employment And Enjoyment
05. World War You
06. Guerilla Guru
07. Primitive Feelings
08. City Of Gold
Desde o longínquo registo Carrie & Lowell , lançado em dois mil e quinze que o norte-americano Sufjan Stevens não lança um registo a solo. No entanto, o músico natural de Chicago não tem deixado de estar ativo, não só através da participação em outros projetos paralelos, com especial realce para o seu contributo fundamental no álbum Planetarium (2017), onde assina os créditos com Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister, mas também com a edição de alguns singles, sendo o mais relevante a homenagem a patinadora Tonya Harding no tema com o mesmo nome, lançado no final de dois mil e dezassete.

Agora, no início de junho, mês que comemora o Orgulho LGTBQ, Sufjan Stevens oferece-nos, à boleia da Asthamatic Kitty, um EP com dois inéditos, Love Yourself e With My Whole Heart, duas assumidas canções de amor cuja parte das receitas obtidas será oferecida às organizações Ali Forney Center em Harlem, Nova Iorque e o Ruth Ells Center, em Detroit, no Michigan, que apoiam, respetivamente, a comunidade LGBTQ e crianças sem lar norte-americanas.
Já com raízes em mil novecentos e noventa e seis, altura em que Sufjan Stevens gravou o tema pela primaiera vez, Love Yourself é uma peça pop de cariz eminentemente sintético, com um ligeiro travo gospel, conduzida por pianos melancólicos e uma suave batida, nuances que aglutinam uma forte veia eletroacústica algo suave e adocicada. Já With My Whole Heart, dentro de um psicadelismo eminentemente experimental, é um instante mais intimista, apesar da vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que adornam uma composição bem à medida da imensidão e do silêncio que muitas vezes carateriza o vazio cósmico que nos invade sempre que o amor nos prega uma partida. Confere...

01. Love Yourself
02. Love Yourself (1996 Demo)
03. With My Whole Heart
04. Love Yourself (Short Reprise)
Com uma vasta e bem sucedida carrera de cerca de duas décadas, os britânicos Keane de Tom Chaplin, sempre gostaram de revisitar e dar novas roupagens a alguns dos seus temas mais emblemáticos, sendo a safra mais recente desse exercício de reinterpretação Retroactive EP 1, um tomo de quatro canções, obrigatório para quem é assumido seguidor deste projeto incontornável da história musical contemporânea.
Para quem conhece os Keane e já amou e se desiludiu ao som da voz ternurenta de Tom Chaplin, Retroactive EP 1 é um aconchegante compêndio sonoro, perfeito para tocar nestes finais de tarde ensolarados, enquanto fazemos rewind à fita magnética que guarda algumas das melhores memórias vividas ao som de quatro clássicos únicos e intemporais desta banda britânica. São canções por natureza otimistas, compostas por uma banda que soube sempre fintar as críticas relacionadas com uma face supostamente demasiado radiofónica, melosa e sentimental e que foram criadas num estágio superior de sapiência que, à altura, se colocou à boleia de arranjos tensos, dramáticos e melódicos e dos quais nos apropriámos individual e coletivamente, através de discos tão essenciais para a hitória da pop deste século como Hopes and Fears (2004), Under The iron Sea (2006) ou Perfect Symmetry (2008).
Prestes a lançar novo álbum este ano, quatro das composições marcantes desse período aúreo dos Keanee podem agora ser degustadas com igual emotividade e prazer, através de uma faceta mais acústica, contemplativa e etérea, mas igualmente melancólica, nostálgica e marcante. Espero que aprecies a sugestão...

01. Somewhere Only We Know (Sprint Music Series)
02. Bedshaped (Acoustic / Live At The Roundhouse / 2013)
03. Spiralling (Demo)
04. Silenced By The Night (Live / Sea Fog Acoustic Session)
Quase um ano após o lançamento de Marauder, os Interpol entraram em grande estilo no verão de dois mil e dezanove com Fine Mess, um EP que a banda acaba de lançar à boleia, obviamente, da Matador Records e que contém cinco canções gravadas por Dave Fridmann nos estúdios nova iorquinos do próprio, os Tarbox Studios, durante a sessões de Marauder, o tal disco que os Interpol editaram no verão passado.

É impossível indissociar o conteúdo de Fine Mess do alinhamento de Marauder, até porque o EP mantém o trio naquele formato que exalta o espírito sombrio dos anos oitenta e que tem sido replicado por Banks, Kessler e Fogarino com elevado quilate. Seja como for, parece-me não ter havido apenas um exercício de junção de composições que ficaram de fora desse registo, mas antes algo mais aturado e refletido. De facto, Fine Mess tem uma identidade muito própria e será redutor e injusto considerar este EP como uma espécie de apêndice de Marauder. Escuta-se o tema homónimo e somos confrontados com o Banks incisivo de sempre, não só na voz mas também no modo como toca aquela guitarra agreste, agudizada pelo efeito identitário dos Interpol, um timbre metálico que lançou o grupo para as luzes da ribalta no início deste século, quando com o indie rock genuíno de Antics e o post punk revivalista de Turn On The Bright Lights conquistaram meio mundo. É, pois, uma canção que contém uma ímpar virilidade elétrica misturada com uma espécie de absurdo lírico que, sendo uma imagem de marca da escrita e composição dos Interpol, inclui, neste caso, referências à década de oitenta e à inquietude das relações.
As nuances rítmicas de No Big Deal e a energia intuitiva de Real Life acabam por ser duas balizas identitárias deste alinhamento e de marcação da tal ruptura com Marauder, com a toada invulgarmente pop de The Weekend a ser a cereja no topo do bolo de um EP que atesta, uma vez mais, a superior experiência por parte do grupo nova iorquino e tem a mais valia de oferecer ao fã um extra inesperado e, ainda por cima, com elevada bitola qualitativa. Espero que aprecies a sugestão...

01. Fine Mess
02. No Big Deal
03. Real Life
04. The Weekend
05. Thrones
Lançado há alguns dias à boleia da Sleep Well Records, Nectarine é o novo fôlego na carreira do projeto norte-americano Funeral Advantage de Tyler Kershaw, sete canções que sucedem a um outro EP intitulado Please Help Me, editado no início de dois mil e dezassete e ao longa duração do projeto, um trabalho intitulado Body Is Dead que viu a luz do dia no final do verão de dois mil e quinze.

Natural de Boston, Tyler Kershaw é mestre a criar um ambiente sonoro fortemente etéreo e melancólico, através de canções tipicamente rock, esculpidas com cordas ligas à eletricidade, mas com um travo lo fi charmoso que lhes confere uma fragilidade incrivelmente sedutora, uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida e uma exibição consciente da sapiência melódica de um autor, cantor, produtor e compositor que tem na herança oitocentista o seu principal eixo orientador.
Em Nectarine, assistimos então a uma parada de composições bastante emotivas e intimistas e que além de serem construídas à base de guitarras com efeitos e distorções intrigantes e enleantes e uma percussão bastante vincada, sem ter uma tonalidade exageradamente grave, também estão cheias de boas letras que nos oferecem uma atmosfera sonora épica, positiva, sorridente e bastante apelativa.
O timbre metálico da guitarra de Peach Nectarine, o baixo pulsante que conduz o andamento incisivo e visceral de Black House, o frenesim encantador de Rinsed, o esplendor e a intensidade de Stone Around Your Neck são um convite direto e preciso ao acto de encarar estes últimos dias de inverno com esperança, enquanto ficamos envoltos numa intensa aúrea vincadamente orgânica e, por isso, fortemente sensual, que nos despe de todo aquele mistério, tantas vezes artificial, onde frequentemente nos refugiamos, para que não tenhamos receio de mostrar, com ousadia, a verdadeira personalidade do agregado sentimental que nos carateriza, enquanto não chega a primavera que há-de finalmente libertar-nos de toda esta reclusão que nos entorpece. Espero que aprecies a sugestão...

01. Rinsed
02. Black House
03. Peach Nectarine
04. Stone Around Your Neck
05. Bad Magnet
06. Take Me Down
07. It Never Gets Any Better, You Just Get Used To It
Depois do excelente You're Welcome, lançado no verão do ano passado, os californianos Wavves de Nathan Williams e Stephen Pope, atualmente em digressão interna com os Beach Fossils, acabam de nos surpreender com Emo Christmas, um EP com duas canções inspiradas nesta época festiva que estamos já a viver e que também tem fortes raízes e tradições no outro lado do Atlântico.

No lado a de Emo Christmas EP podemos conferir o tema homónimo, uma canção melodicamente incisiva, de acordes simples, como se exige a uma boa canção de Natal e bastante orelhuda. Já So Glad It's Christmas, o lado b deste EP de Natal dos Wavves, escrita por Pope, é uma composição mais intimista, com um cariz algo lo-fi, mas com um travo de sarcasmo e ironia muito marcante.
Em suma, neste Natal o que importa para os Wavves é curtir ao máximo e este Emo Christmas EP é uma excelente banda sonora pensada para esse propósito com duas canções a obedecerem a essa fórmula tão legitima como outra qualquer. Se o Natal também já faz parte da indústria do entretenimento, Emo Christmas EP é uma seta apontada diretamente ao centro do alvo desse conceito de abordagem a uma época tão especial e rica em sentimentos e emoções. Confere...

01. Emo Christmas
02. So Glad It’s Christmas
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