
man on the moon
music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
Father John Misty - The Old Law EP
Segunda-feira, 12.01.26
Um dos grandes discos do ano de dois mil e vinte e quatro foi, sem dúvida, Mahashmashana, o sexto compêndio de originais da carreira do músico norte-americano Josh Tillman, que assina a sua música como Father John Misty. Esse álbum, com oito canções, foi produzido pelo próprio Father John Misty e por Drew Erickson e dissertava sobre o momento civilizacional atual e a ténue fronteira que todos nós sabemos que existe entre e vida e a morte, considerando, o autor, que temos os nossos arraiais assentes em Mahashmashana, (महामशान) uma palavra em sânscrito que significa grande campo de cremação. E, de facto, este registo oscilava entre canções com um intenso espírito roqueiro, viçoso, inquieto e irrequieto e baladas de elevado pendor melodramático e quase desesperante, sendo transversal a todo o registo uma permanentes sensação de tensão e de inquietude, que personifica, de certa forma, a tal fronteira ténue em que vivemos.

pic by Bradley J. Calder
Agora, cerca de catorze meses depois do lançamento de Mahashmashana, Father John Misty regressa ao nosso radar devido a um EP intitulado The Old Law que, tendo a chancela do consórcio Bella Union e Sub Pop Records, contém um novo tema original do autor, que dá nome ao registo, acompanhado de dois dos momentos mais altos de Mahashmashana, as canções Josh Tillman And The Accidental Dose e I Guess Time Just Makes Fools Of Us All.
Este tema The Old Law, que já se chamou The God's Trash, foi produzido, uma vez mais, por Drew Erickson e pelo próprio Josh Tillman, misturado por Michael Harris e Jonathan Wilson nos estúdios Fivestar Studios, em Los Angeles e masterizado por Adam Amyan. É uma canção vigorosa e enleante, conduzida por uma guitarra agreste, exemplarmente entrelaçada com o piano e a bateria, num resultado final com um ímpar travo psicadélico, aprimorando, como não podia deixar de ser, a ímpar capacidade que Tillman tem demonstrado ultimamente para criar sobreposições orgânicas e sintéticas e jogos de sedução entre sons das mais diversas proveniências, sempre com a mira apontada ao rock sessentista e ao clima mais experimental e progressivo da década seguinte, fazendo-o com um charme inconfundível. Confere...

01. The Old Law
02. Josh Tillman And The Accidental Dose
03. I Guess Time Just Makes Fools Of Us All
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Jaguar Sun e Jesse Maranger – Blossom EP
Quarta-feira, 03.12.25
Tem sido presença assídua recente neste espaço de crítica e divulgação sonora, um projeto a solo chamado Jaguar Sun, com origens em Ontário, no Canadá e encabeçado pelo multi-instrumentista Chris Minielly. É um músico que navega nas águas serenas de uma indie pop apimentada por paisagens ilidíacas e que começou por impressionar esta redação no verão de dois mil e vinte com This Empty Town, o disco de estreia, um trabalho que teve sucessor no ano seguinte, um álbum com onze canções intitulado All We've Ever Known e que tinha a chancela da Born Losers Records.

Já na primavera deste ano de dois mil e vinte e cinco, e cerca de quatro anos após o sempre dificil segundo disco, Jaguar Sun regressou ao nosso radar com uma nova canção intitulada Thousand Sun e volta agora a fazê-lo de mãos dadas com o cantor conterrâneo Jesse Merenger. Juntos incubaram um EP com quatro canções intitulado Blossom, perfeito para ouvirmos em looping sempre que quisermos refugiar-nos em algo aconchegante e, simultaneamente, deixar um pouco de lado este estranho mundo em que vivemos.
As quatro canções de Blossom tanto exalam intimidade como expansividade e vigor. Melodicamente felizes, nelas linhas de guitarras acústicas, com um timbre texturalmente rico, intenso e impressivo e algumas subtis sintetizações, simultaneamente cósmicas e delicadas, sustentam quase quinze minutos que entre um indie pop ecoante e psicadélico e um alt-folk intimista e bastante sensorial, ressoam nos nossos ouvidos como uma espécie de celebração da persistência nas nossas convicções e nos nossos sonhos.
A riqueza luminosa e deslumbrante das cordas que iluminam o maravilhoso percurso melódico feito por April Air, o clima nostálgico e clássico da encantadora Different Light, a imersiva e tremendamente textural When I Was Young, o tema do EP em que melhor sobressai o famoso timbre adocicado de Jesse e a astuta Move On, uma canção com elevado travo folk, assente em cordas luminosas, um baixo discreto, mas omnipresente e diversos entalhes rugosos proporcionados por teclas e bateria, são lindíssimas partes de uma soma que, no seu todo, formam um longo, revigorante e relaxante arfar sonoro, incubado por dois mestres na criação de canções sempre íntimas, melancolicamente reluzentes e particularmente gráficas. Espero que aprecies a sugestão...

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Helado Negro – The Last Sound On Earth EP
Quinta-feira, 13.11.25
Pouco mais de ano e meio depois de PHASOR, um disco que esteve em alta rotação na nossa redação no ocaso do inverno de dois mil e vinte e quatro, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, está de regresso com o anúncio do lançamento de Last Sound on Earth, um novo EP deste artista filho de emigrantes equatorianos e radicado há vários anos nos Estados Unidos. É um registo com cinco canções que viu recentemente a luz do dia com a chancela da Big Dada, a nova etiqueta de Lange.

Os cinco temas de Last Sound On Earth, têm como mote resultarem de um exercício reflexivo levado a cabo pelo artista, no qual imaginou quais seriam os últimos sons que escutaria antes de falecer. O filme Wavelength, assinado por Michael Snow, foi também, de acordo com Lange, um interruptor que acionou no âmago do músico sentimentos e emoções tão díspares como a esperança e o desespero, que acabaram por inspirar o conteúdo deste EP.
More, a composição que abre Last Sound on Earth, uma canção eminentemente sintética, que escorre com desmesurada rugosidade e vibração pelos nossos ouvidos, plena de distorções e de diversos efeitos e sons, alguns cavernosos, acamadas por uma batida plena de groove, dá o mote para o conteúdo filosófico e sonoro do registo, debruçando-se sobre o modo como todos nós, que vivemos numa sociedade tremendamente conetada nas redes sociais e no digital e no virtual, acabamos por nos afundar em instantes prolongados de angústia e de isolamento. Depois, Protector, outro tema eminentemente sintético e um verdadeiro festim de pop eletrónica, acentua o perfil. Por cima de uma batida abrasiva, acomodam-se diversos efeitos, nuances e detalhes, que criam um clima sonoro pleno de distorções, efeitos e sons, um estilo interpretativo que recria uma fronteira muito ténue entre o retro e o futurista, devido também ao elevado espírito lo-fi que exala e que se mantém na cosmicidade ecoante e frenética de Send Receiver, no fugaz sussurro de Zenith e no estilo ambiental e contemplativo de Don't Give It Up Now.
The Last Sound n Earth escorre com desmesurada rugosidade e vibração pelos nossos ouvidos, num resultado final eminentemente experimentalista, que recria um clima que encarna na perfeição o espírito muito particular e simbólico que Helado Negro pretenderá para esta nova etapa da sua carreira e da sua música, que parece ter a bússola definitivamente apontada para as máquinas. Espero que aprecies a sugestão...

01. More
02. Protector
03. Sender Receiver
04. Zenith
05. Don’t Give It Up Now
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ARK IDENTITY – Deluxe Nightmare EP
Sexta-feira, 31.10.25
ARK IDENTITY é o nome do projeto a solo liderado por Noah Mroueh, um músico natural de Toronto e que, de modo bastante cinematográfico, emotivo e realista, é exímio a criar música pop que parece servir para banda sonora de uma representação retro de um futuro utópico e imaginário, enquanto se serve do catálogo de nomes tão díspares como Tame Impala, Oasis, Bon Iver, Foster the People ou os The Beatles, para materializar tão singular propósito.

O projeto está de regresso aos lançamentos discográficos, em formato EP, com um alinhamento de seis canções intitulado Deluxe Mightmare, um título bastante sugestivo e apropriado para este dias.
Produzido por Giordan Pastorino e com a guitarra na linha da frente do processo de construção melódica dos temas, Deluxe Nightmare impressiona os ouvintes mais incautos pelo modo como Noah, um artista introvertido, melancólico e introspetivo, recria uma atmosfera algo inquietante, mas sem ser incómoda, enquanto reflete sobre a sua própria vida e, ao mesmo tempo, recria e descreve alguns eventos que o marcaram.
Oh My God é um tema exemplar neste contexto específico, já que surgiu a partir de um momento de reflexão sobre a sua própria vida, escolhas passadas e arrependimentos, um exercício autoreflexivo alimentado por som atmosférico com uma elegância ímpar e plena de groove, sustentado em sintetizações cósmicas, abrasivas e planantes, um baixo exemplarmente arritmado e cordas charmosas, uma luminosidade intensa e sedutora que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.
Depois, Still In Love já nos oferece uma perspetiva mais optimista e luminosa, tratando-se de um tema sonoramente luxuriante e riquíssimo em nuances e detalhes, vacilando algures entre um rock lisérgico e progressivo de forte pendor setentista e a tal pop atmosférica acima referida. Já I'm Still The Same volta a um registo mais imersivo, feito com cordas metálicas acústicas vibrantes, que vão recebendo diversos adornos subtis sintéticos e, no refrão, uma vasta pafernália de entalhes que conferem ao tema um ligeiro toque de epicidade, que acaba por ampliar o cariz emotivo da mensagem que o autor pretende transmitir, num tema que se debruça sobre o modo como devemos todos prestar mais atenção aos pequenos detalhes e às coisas simples da vida.
Deluxe Nightmare é, em suma, uma excelente proposta para quem quer escutar um naipe de canções inspiradas, reforçando a estética poética e não convencional de um projeto que sempre habitou a fronteira entre som e narrativa e que continua a expandir um catálogo que deambula constantemente entre o grotesco, o íntimo e o inclassificável. Confere...

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Bright Eyes – Kids Table EP
Quinta-feira, 02.10.25
Um ano depois do excelente registo Five Dice, All Threes, os norte-americanos Bright Eyes, encabeçados pelo compositor e guitarrista Conor Oberst, ao qual se juntam, atualmente, o produtor e multi-instrumentista Mike Mogis, o trompetista e pianista Nate Walcott e vários colaboradores rotativos, vindos principalmente do cenário musical indie de Omaha, no Nebraska, estão de regresso ao nosso radar devido a um novo EP intitulado Kids Table, que viu a luz do dia com a chancela da Dead Oceans.

Pic by Mario Heller
Com um faustoso alinhamento de oito canções, tendo em conta que se trata de um EP, Kids Table também é instrumentalmente luxuriante, algo bem patente logo no luminoso tema homónimo, que tem no piano a grande força motriz, exemplarmente acompanhado por sopros, cordas e uma secção percussiva subtil, mas omnipresente. Depois, em Cairns (When Your Heart Belongs To Everyone), as cordas oferecem ao registo um cariz um pouco mais íntimo e familiar, enquanto os Bright Eyes navegam nas águas tranquilas daquela folk tipicamente americana que é também uma das imagens de marca do catálogo deste projeto.
Com uma curiosa abordagem nada displicente ao universo do ska, mas sem renegar o adn dos Bright Eyes, 1st World Blues acaba por ser o tema mais curioso do EP. Assente numa sólida embalagem sonora que coloca na linha da frente aquela indie folk enleante, gizada, neste caso, por uma secção rítmica aconchegante e embaladora 1st World Blues é uma canção rica em diversificados arranjos, marcados pelo uso de ricas orquestrações, que servem para dar vida a um crítica mordaz e contundente à sociedade capitalista contemporânea norte-americana, cada vez mais afundada num sem fim de dilemas, que fazem sobressair o individualismo e a sede de poder.
Até ao ocaso do EP, merece claro destaque Dyslexic Palindrome, composição que conta com a participação especial de Alynda Segarra, vocalista dos Hurray for the Riff Raff. Dyslexic Palindrome, título que reflete a imensa capacidade criativa e irónica da escrita de Conor Orbest, é um tema melodicamente algo hipnótico e instrumentalmente rico, estando repleto de diversificados arranjos, essencialmente percurssivos, trespassados por uma guitarra com um delicioso travo blues, detalhes que servem para dar vida a uma composição intensa e emocionalmente tocante.
Victory City, uma canção introspetiva e melancólica e que assenta a sua filosofia num romance homónimo assinado por Salman Rushdie, é outro tema de audição obrigatória num EP honesto, cheio de trocadilhos e referências, não só ao já citado Rushdie, mas também a nomes como William Shakespeare, Candice Bergen, ou Joe Strummer e que, num balanço perfeito entre uma espécie de otimismo desonesto e desespero pragmático, aprimora o ADN de uma banda obrigatória, quando se quer escutar o que de melhor o cenário indie do outro lado do atlântico tem para nos oferecer atualmente. Espero que aprecies a sugestão...

01. Kids Table
02. Cairns (When Your Heart Belongs To Everyone)
03. 1st World Blues
04. Sharp Cutting Wings (Song To A Poet)
05. It Always Feels Good And It Never Hurts
06. Dyslexic Palindrome (Feat. Hurray For The Riff Raff)
07. Shakespeare In A Nutshell
08. Victory City
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Kurt Vile – Classic Love EP
Terça-feira, 29.07.25
Três anos depois de (watch my moves), o oitavo disco da carreira, Kurt Vile tem apostado no formato EP, tendo iniciado a safra em novembro de dois mil e vinte e três com Back To Moon Beach. No passado dia vinte e cinco, este músico que descende da melhor escola indie rock norte americana e que adora piscar o olho à melhor folk nativa do outro lado do atlântico, quer através da forma como canta, quer nos trilhos sónicos da guitarra elétrica que abraça há duas décadas, sempre com elevado requinte, regressou ao mesmo formato com Classic Love, um alinhamento de cinco canções que conta com a participação especial de Luke Roberts, um cantor e compositor também norte-americano, mas natural de Nashville.

pic by Jessica Kourkounis
Kurt Vile e Luke Roberts conheceram-se há alguns anos na plataforma MySpace e Roberts andou em digressão com Vile em dois mil e quinze. No ano seguinte, Kurt Vile participou no tema Silver Chain de Luke Roberts e agora o cantor retribui fazendo parte dos créditos de um EP que também tem como curiosidade contar com uma versão do clássico Wildflower, um original dos Beach House.
Em pouco mais de vnte minutos, as cinco canções de Classic Love oferecem-nos um luminoso e lisérgico alinhamento sonoro que olha para a folk de espírito livre e aberto, uma opção criativa que deu origem a um EP sublime no modo como aprimora o melhor adn identitário de Vile, feito de melodias conduzidas por cordas acústicas inspiradas, que se vão deixando enlear por uma quase impercetível vastidão de arranjos e detalhes e nuances das mais diversas proveniências, que adornam, com um charme intenso, canções assentes numa simbiose quase hipnótica entre melancolia e experimentalismo, num resultado final de enorme beleza, emoção, arrojo e, acima de tudo, contemplação, caraterísticas que o timbre vocal grave de Roberts amplifica com mestria. Espero que aprecies a sugestão...

01. Classic Love (feat. Luke Roberts)
02. Hit Of The Highlife (feat. Luke Roberts)
03. Classic Love
04. Slow Talkers ’22
05. Wildflower
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Elbow – Audio Vertigo Echo Elbow EP5
Sexta-feira, 06.06.25
Praticamente um ano depois do lançamento de Audio Vertigo, o décimo registo de originais dos Elbow, o grupo formado por Guy Garvey, Craig Potter, Mark Potter e Pete Turner estão de regresso com um novo EP, um alinhamento de quatro canções intitulado Audio Vertigo Echo, que chegou hoje aos escaparates em formato digital e vinil de edição limitada, com a chancela do consórcio Polydor/GEFFEN.

Há cerca de meio ano, chegou ao nosso radar Adriana Again, o single de apresentação do EP, uma canção angulosa, com um espírito tremendamente explosivo e até algo sufocante e que deixou, desde logo, imensa curiosidade e água na boca relativamente ao restante conteúdo do registo, impressão que se ampliou com Sober, a segunda composição divulgada, de Audio Vertigo Echo, um tema excitante e, diga-se, sonoramente algo inédito na discografia dos Elbow, porque puxa imediatamente para o nosso imaginário a herança daquele som que em Manchester, a terra natal dos Elbow, no final dos anos oitenta do século passado e início da década seguinte, misturou, com mestria, indie rock, com elementos do acid house, da psicadelia e da melhor pop sessentista, o chamado movimento Madchester, que bandas como os Stone Roses, os Happy Mondays, ou os Primal Scream, exemplarmente recriaram.
Recentemente escutámos Dis-Graceland 463-465 Bury New Road, o tema que abre o alinhamento de Audio Vertigo Echo. Com um título bastante curioso, trata-se de uma canção pop, na verdadeira acepção da palavra, já que oscila entre um refrão vigoroso e imponente e secções melódicas intermédias repletas de efeitos e detalhes, dos quais se destacam diversos instrumentos percussivos, num resultado final recheado de astúcia e virtuosismo. Os Elbow estão em grande forma e este EP é um dos grandes marcos discográficos de dois mil e vinte e cinco, nesse formato. Espero que aprecies a sugestão...
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Born Ruffians – Supersonic Man EP
Segunda-feira, 31.03.25
Depois de uma sequência de temas divulgados em dois mil e vinte e um e no ano seguinte, os canadianos Born Ruffians de Luke Lalonde, Mitch DeRosier e Steve Hamelin, voltam a mostrar intensa atividade e a chamar novamente a nossa atenção devido a um EP com quatro temas intitulado Supersonic Man, que antecipa um novo disco do projeto, intitulado Beauty’s Pride, que deverá ver a luz do dia a seis de junho, com a chancela da Wavy Haze Records.

Gravadas com a ajuda do produtor Roger Leavens e misturadas por Gus Van Go (Metric, The Beaches), estas quatro novas canções dos Born Ruffians são um excelente aperitivo para um disco que será uma obra conceptual sobre a experiência recente da paternidade, vivida por Luke Lalonde, pai há pouco mais de um ano. Todas as composições do disco terão presente essa novidade, começando logo por Supersonic Man, um tema que, metaforicamente, se debruça sobre as primeiras experiências vividas por um alien humanóide que acaba de chegar ao nosso planeta e que, na opinião do vocalista e guitarrista, pode muito bem ser o seu filho.
Sonoramente, no shoegaze cósmico do tema homónimo, uma canção que os Oasis poderão vir a recriar lá para dois mil e sessenta e sete, no clima épico e vibrante de Mean Time, no intenso perfil radiofónico consistente de Let You Down e no excelente indie pop em que se sustenta What A Ride, todas as canções deste EP têm um brilho lisérgico único, sendo adornadas por sintetizações borbulhantes, que vão recebendo diversos timbres de cordas, acústicos e eletrificados, geralmente responsáveis pela condução melódica das mesmas. O registo vocal ecoante de Luke tem sempre um perfil bastante emotivo e, para rematar, um imponente baixo ajuda a conferir brilho e vigor à medida que os temas cimentam o seu elevado cariz confessional.
Como seria de esperar, Supersonic Man EP é um extraordinário aperitivo para um álbum que deverá, uma vez mais, focar-se, em jeito de influência, no período mais áureo daquele experimentalismo setentista que tanto dava enorme ênfase ao vigor das cordas, como à opção por arsenais instrumentais de proveniências menos orgânicas e, em simultâneo, comprovar porque é que os Born Ruffians são unanimemente aceites como fiéis sustentáculos de uma permissa revivalista sonora, plena de atitude e de firmeza. Espero que aprecies a sugestão...

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Bon Iver – SABLE, EP
Sexta-feira, 18.10.24
Seis anos depois do disco i,i, Justin Vernon, que assina a sua música como Bon Iver, está finalmente de regresso aos nossos holofotes à boleia de SABLE um novo EP do músico norte-americano, um alinhamento de três canções gravadas entre dois mil e vinte e dois mil e vinte e três nos seus estúdios April Base Recording Studio, no Wisconsin e que acaba de ver a luz do dia, com a chancela da Jagjaguwar.

Segurando aos ombros década e meia de uma carreira recheada de momentos intensamente ricos, Bon Iver tem sempre à sua espera elevadas expetativas por parte dos seus seguidores mais devotos e do público em geral, nomeadamente quando coloca nos escaparates novas canções, independentemente do formato das mesmas. SABLE, mesmo tendo uma quantidade tão limitada de temas, é, sem qualquer sombra de dúvida, um verdadeiro manjar dos deuses para quem aprecia esta cartilha sonora que tem na folk acústica o seu grande sustento, mas que também olha para alguns dos detalhes essênciais da eletrónica ambiental contemporânea e até do próprio jazz com uma certa gula.
Sendo, então, logo à partida, um registo tão sedutor, SABLE ainda ganha maior relevância quando se percebe, na primeira audição, que marca o regresso de Bon Iver aos primórdios da sua carreira, que era marcada por um perfil sonoro eminentemente minimalista e até algo cru, mas sempre profundamente emotivo e tocante, nuances que estavam bem presentes, por exemplo, em For Emma, Forever Ago, o disco de estreia do artista, lançado em dois mil e sete. E esse é, em suma, o registo sonoro que sustenta SABLE, que conta nos créditos da produção com o experiente Jim-E Stack.
SPEYSIDE, um charmoso portento de acusticidade intimista, que impressiona pelo modo como o dedilhar complacente das cordas e a voz única de Vernon conseguem uma proximidade muito íntima com o ouvinte, é o exemplo perfeito deste modus operandi irresistível, que derrete os mais incautos e cuja codificação está, muitas vezes, apenas ao alcance daqueles que sabem o que é ter tido um coração partido e o quanto custa recuperar dessa e de outras agruras que a vida constantemente nos coloca, sem nenhuma cicatriz e completamente incólume. Talvez seja este o motivo pelo qual a música de Bon Iver, sendo tão simples e direta, mas também reveladora e inspiradora, cativa tanto e preenche a alma de muitos. Depois, a constante rejeição do músico pelos holofotes e o modo como defende causas sociais e ambientais de forma tão acérrima, ajuda ainda mais a apimentar esta relação entre artista e plateia que SABLE vai certamente cimentar.
Mas SABLE não é apenas e só sobre dor, solidão e perca. THINGS BEHIND THINGS BEHIND THINGS é uma das canções mais otimistas e inspiradores que tivemos a oportunidade de escutar nesta redação nos últimos tempos, com o timbre delicado das cordas e a sobreposição vigorosa que impôe a uma batida rugosa, a conferirem à composição uma tonalidade simultaneamente intimista e encorajadora. É uma espécie de convite convicto a um cerrar de punhos perante uma circunstância qualquer que tenha sido dolorosa e a um olhar em frente seguro e que deixe para trás, definitivamente, um ciclo de dor e de auto comiseração que não beneficia certamente ninguém. Depois, a finalizar o EP, o travo a resiliência e a renascimento que exala AWARDS SEASON, apimentando por um som semelhante ao de um vento uivante que se escuta no fundo da voz de Vernon, enquanto deambula um piano e diversas sintetizações cavernosas e uma colagem feliz de sopros, é o remate final de cerca de doze minutos que solidificam o tal cariz mágico e inédito da obra de um artista que continua a ser dos melhores a materializar uma mescla híbrida bem sucedida entre dois universos distintos, o acústico orgânico e o sintético, uma simbiose que, como se comprova, é de possível conciliação e com resultados frutuosos.
SABLE é, em suma, uma tremenda encarnação sonora de maturidade, clareza e confiança, pensada, quiçá, para tratar a tristeza com um ligeiro sorriso, representando bem todo o arco sentimental que abastece a mente sempre aberta de Bon Iver que, uma vez mais, expressa, sem rodeios, alguns recortes dolorosos e metáforas da sua existência, incubando, assim, mais um acervo acessível e encantador na sua carreira. Espero que aprecies a sugestão...
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Wings Of Desire – Shut Up And Listen EP
Quinta-feira, 05.09.24
A dupla britânica Wings Of Desire é natural da cidade de Stroud, no sul de Inglaterra e junto da fronteira com o Pais de Gales. Chamaram a atenção da crítica o ano passado com o disco Life Is Infinitive, uma coleção de treze canções que a banda tinha lançado anteriormente online e que teve a chancela da WND Recordings.

Um ano depois desse álbum, a dupla formada por James Taylor e Chloe Little está de regresso com um novo EP intitulado Shut Up & Listen, um tomo de quatro temas que tem um cariz benemérito, já que a receita da venda de uma edição limitada do registo em formato cassete irá reverter para uma associação da cidade natal chamada The Long Table, que ajuda diariamente com refeições pessoas carenciadas.
Quando a efervescência nebulosa das guitarras que conduzem o tema que dá nome a este EP entram pelos nossos ouvidos, somos transportados para um gloriosa herança sonora enérgica e que sustentou, na década de oitenta do século passado, uma forma de fazer rock que olhava com particular gula para uma certa tonalidade psicadélica, que tinha também um forte travo cinematográfico. E. de facto, a música destes Wings Of Desire tem essa capacidade imediata de fazer ressurgir da mente de quem os escuta, cadeias de eventos, mais ou menos extraordinários e que, muitas vezes, não são mais do que desejos recalcados, ou medos e anseios que o nosso âmago guarda a sete chaves.
Com uma temática bem vincada e que procura encarnar uma espécie de aviso contra o niilismo e a ignorância, alimentados cada vez mais por uma distopia digital que ameaça perigosamente a Mãe Terra, através de massas automatizadas e influenciadores algorítmicos que nos poderão levar para um futuro distópico, Shut Up And Listen impressiona por este ponto de vista algo apocalítico em que o universo e a Terra estão a já a exibir as suas próprias formas de vingança bíblica, na forma de inundações, furacões, tremores de terra ou explosões solares. No entanto, canções como Forgive and Forget (Reprise), composição que os Arcade Fire não menosprezariam ter no seu catálogo, também nos dão um laivo de esperança no futuro, porque enquanto existirmos como espécie, também haverá lugar para o amor e para a compreensão relativamente ao outro.
Assim, este aviso constante relativamente a uma possível destruição iminente, é-nos suavemente entregue com melodias vibrantes, recriadas não só pelas já referidas guitarras, mas também por sintetizadores planantes, que incubam portentos de krautrock com um groove hipnotizante, verdadeiros orgasmos de rock progressivo, vigorosos mas também melancólicos, onde não falta um forte apelo ao airplay radiofónico, mas também à introspeção pura e dura. Este EP é, de facto, um verdadeiro soporífero, feito de versos fortes e cantantes e refrões gritantes, verdadeiros hinos de estádio que nos mostram que ainda podemos viver neste mundo a tentar melhorar o nosso eu, em busca de uma efémera perfeição. Espero que aprecies a sugestão...