Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Tomara - Favourite Ghost

Já chegou aos escaparates Favourite Ghost, o disco de estreia do projeto Tomara da autoria de Filipe Monteiro, um músico que começou por estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e que trabalhou em vídeos e na parte visual de concertos de nomes como os já extintos Da Weasel, mas também com Paulo Furtado, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia. São oito canções plenas daquela nostalgia que provoca encantamento e torpor, temas que enquanto suavemente entram pelos nossos ouvidos, inapelavelmente nos arrebatam e conquistam e em definitivo.

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Logo nas cordas de Hollow Filipe Monteiro convida-nos ao exercício de contemplar o mundo que nos rodeia e, emsimultâneo, a acompanhar o modo como ele também observa o mesmo espaço exterior, mas com uma assertividade incomum, referindo que o mesmo se constrói de exercícios filosóficos que se transformam em tratados lançados para o barulho dos nossos dias e que é importante, vestirmo-nos, se de sapiência formos ricos, do que vale a pena. Este convite inicial e a posterior citação do autor acabam por ser o mote para um álbum que faz uma reflexão crítica bastante pessoal de uma contemporaneidade comum a todos nós, mas que pode ser observada e analisada com diferentes olhares e através de diversos ângulos, sendo o de Filipe claramente aquele que privilegia a componente visual e a musicalidade dessa mesma abordagem.

O disco prossegue e o balanço suave das teclas, as guitarras efusivas e a bateria marcante de Coffee And Toast, a primeira amostra divulgada de Favourite Ghost, remete-nos exatamente para esse universo impressivo, em que a música possibilita a formulação de um ideário e uma trama passíveis de desfilar pela nossa mente, neste caso explicada, novamente pelo próprio autor, como uma canção que narra de forma bela e redentora dias em que a felicidade foi, circunstancialmente, mergulhada num qualquer nevoeiro desordenado e difícil, quase penumbroso, mas com a música a voltar a colocar tudo nos eixos, já que devido a ela o amor emerge ressoante.

Daí em diante, qual soberano dos afetos, Filipe tanto nos faz sorrir sem medo do amanhã defronte da luz que exala da folk intuitiva que reina na acusticidade do tema homónimo, como faz balançar suavemente todo aquele caldo de sentimentos e ressentimentos que o nosso coração guarda sem rancor ao som da guitarra eletrificada que sustenta For No Reason, conseguindo também a proeza de, na pop caleidoscópica algo intrincada de Hope for The Beast, nos fazer acreditar piamente que por detrás dos nossos maiores monstros poderá estar aquele às de trunfo que precisamos de levar a jogo para que tudo volte a fazer sentido.

Favourite Ghost é um manual delicioso de exorcização e crença, com o bónus de carregar nos ombros além do rico manancial lírico que permite tal desiderato, conter ainda deliciosas canções adornadas por uma tranquilidade acústica, uma filosofia estilística que impressiona e fica exemplarmente descrita, guiada quase sempre por guitarras, ora límpidas, ora plenas de efeitos eletrificados algo insinuantes, mas sempre com uma profunda gentileza sonora. Muitas vezes, como é o caso de Land At The Bottom Of The Sea, a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e depois, canções como a cândida e intimista The Road ou o minimalismo suave delicioso de House, são outros exemplos extraordinários de temas que transbordam uma majestosa e luminosa melancolia.

Favourite Ghost conta com algumas participações especiais, nomeadamente Márcia na voz, no tema House e depois o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Claúdia Serrão, que já gravaram, por exemplo, com Old Jerusalem e João Cabrita, João Marques e Jorge Teixeira nos sopros. Confere, já a seguir, a entrevista que o Filipe Monteiro gentilmente me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

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Hallow

Coffe And Toast

Favourite Ghost

For No Reason

Hope For The Best

The Road

House (feat. Marcia)

Land At The Bottom Of The Sea

Olá Filipe. Obrigado pelo tempo que disponibilizas para responder ao meu blogue. É um gosto ouvir o teu disco de estreia, que me encantou imenso, confesso. Estudaste Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e trabalhaste em vídeos e na parte visual de concertos de nomes importantes do nosso panorama musical. Como surgiu a ideia de te tornares também um músico?

Na verdade sempre fui músico ainda antes de ser tudo aquilo que mencionaste. O percurso que fui traçando na área do vídeo e da realização foi sendo construído sempre em paralelo com a musica. Após a “extinção” dos Atomic Bees, banda da qual fiz parte em finais dos 90’s, continuei a tocar com a Rita Redshoes (vocalista dos Atomic) e acompanhei-a em estúdio e no palco durante os dois primeiros discos. E agora toco com a Márcia desde 2011 e produzi o Casulo de 2013. A musica sempre esteve nos meus dias, antes de tudo o resto.

Favourite Ghost é, então, o título do teu álbum de estreia. Um título muito curioso que sustenta, na minha opinião, oito canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as tuas expetativas para este novo trabalho e como surgiu o título?

A minha grande expectativa, até agora, era terminar o disco porque foi um processo muito longo. Comecei a trabalhar nele em 2011 e só agora é que vai ver a luz do dia. Agora que está prestes a ser editado acho que o máximo que posso desejar é que ele consiga chegar aos ouvidos de quem por ele se afeiçoe. Não muito mais que isso, e já não é pouca coisa nos dias que correm.

O titulo vem de uma das canções que o compõem. Foi uma canção que escrevi para a minha filha que tem agora 5 anos e meio. É uma canção muito especial para mim e sintetiza muito do que é abordado no disco; fala de um amor incondicional, mas também do medo, da esperança e do Futuro. Os favourite ghosts são os medos essenciais que nos podem vir a definir, para o bem e para o mal, se não aprendermos a lidar com eles. Todo o disco é um reconhecimento desses medos ou fantasmas; uma tentativa de os olhar nos olhos e aprender a conviver com eles. E se não são ultrapassáveis, pelo menos para já, então que os mantenhamos à vista e por perto. Aprender a conviver com isso.

Quando é que este álbum começou a nascer na tua mente?

É uma vontade que vem desde sempre, mas que arrumei numa caixa, longe da vista, durante muitos anos. Mas a ideia concreta de fazer o disco, de assumir isso para mim próprio começou algures em 2011. Daí até hoje foi todo um processo demorado, com muitas interrupções pelo caminho. Se o disco hoje existe devo-o à Márcia que me “empurrou” para o fazer. E me amparou durante todo o processo.

Como é o teu processo de composição? Em que te inspiras para criar estas melodias que me pareceram tão próximas e que cativam com tanta intensidade? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea, ou são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

Não tenho uma regra. E neste disco isso acontece. Há canções que nasceram da forma mais irreflectida que se possa imaginar. E a maioria talvez tenha surgido assim. Depois nos arranjos é que talvez as coisas difiram muito de caso para caso. A Coffee and Toast e a Favourite Ghost, por exemplo, são canções que levaram algum tempo até encontrarem a sua forma final. Mas quando encontro o “sitio” certo para uma canção é-me muito fácil reconhecê-lo. A For no Reason ou a House são canções cujo arranjo eu encontrei muito instintivamente, tal como os temas instrumentais.

Li algures que Favourite Ghost debruça-se sobre a capacidade de fazermos escolhas e filtramos o que mais nos interessa e nos faz feliz neste barulho dos nossos dias. É mesmo esta, no fundo, a grande mensagem que queres transmitir neste disco?

Essa citação é do Ricardo Mariano que escreveu o press release para o disco. Eu acho que estou demasiado próximo para conseguir ter a necessária lucidez. Mas fiquei muito feliz quando li essa frase por perceber que do disco ele teria retirado essa ideia. E gosto de acreditar que o disco transmite isso. Uma ideia de necessidade de auto-preservação daquilo que é mais importante para cada um. Não é fácil manter o tino nos dias que correm.

Favourite Ghost conta com algumas participações especiais, nomeadamente Márcia na voz, no tema House e depois o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Claúdia Serrão, que já gravaram, por exemplo, com Old Jerusalem e João Cabrita, João Marques e Jorge Teixeira nos sopros. Como foi selecionar e agregar nomes tão ilustres à tua volta? Eram pessoas com quem quiseste desde logo, à partida, trabalhar neste disco, ou foram surgindo e sendo convidadas à medida que as canções iam tomando forma no teu âmago?

A Márcia foi uma escolha óbvia. Além de ser a minha grande companheira de Vida foi a pessoa que me levou a assumir que queria fazer um disco, e que tinha de o fazer. Devo-lhe isso e muito mais. E a canção que cantamos só poderia ser cantada por nós, a dois.

As cordas e os metais surgiram já na recta final de produção do disco. Algumas canções pediam para crescer mais um pouco. E procurei, entre amigos, as pessoas certas para me ajudarem a concretizar isso.

Confesso que o que mais me agradou na audição deste álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase imperceptível, conferindo à sonoridade geral de Favourite Ghost uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaste para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Alterações de fundo não. As canções foram crescendo lentamente. Como o processo foi tão demorado fui tendo tempo e distância para as imaginar com muita calma. Por isso não houve nenhum volte face em nenhuma canção. Simplesmente umas estiveram mais tempo em gestação.

Durante a feitura do disco, houve outros que tivesses ouvido muito e te tenham influenciado?

Nem por isso. Ou pelo menos não directamente ou conscientemente. Aquilo que ouço e me cativa não me faz necessariamente querer estar próximo artisticamente. Um dos discos que mais ouvi nestes últimos tempos foi o do Benjamin Clementine. O disco inspira-me imenso mas se calhar a outros níveis, não propriamente na musica que faço. Acho que só consigo fazer aquilo que sou. E eu não sou o Benjamin Clementine. Mas sinto as influências muitas vezes quando componho. E não fujo delas. São referências que fui acumulando ao longo dos anos e algumas nem são propriamente de artistas que tenha ouvido assim com tanta intensidade. Mas estão próximos do meu DNA.

O teu single Coffee and Toast, teve, na minha opinião, uma excelente e justa aceitação, quer por parte do público, quer por parte da crítica. Surpreendeste-te com a popularidade de uma canção que até não vai muito de encontro aos géneros populares do momento e tal facto também te fez aumentar as expectativas relativamente a este pontapé de saída do projeto Tomara?

Fiquei muito feliz com a recepção ao Coffee and Toast. Tenho perfeita consciência que a minha musica não é talhada para um mainstream e daí as minhas expectativas centrarem-se apenas na vontade de que a musica chegue aos ouvidos de quem dela possa gostar. E sei que esse público existe. Acho que foi um primeiro passo bonito.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantares em inglês e a opção será para se manter?

Não existe nenhuma razão especial excepto o facto de me sentir bem a cantar e escrever em inglês. Foi e é uma ambição minha para este projecto ter canções em português porque acho que não há forma mais intensa de comunicar do que na nossa própria língua. Mas neste disco isso acabou por não fazer sentido porque as canções nasceram desta forma e nesta língua. Tentar forçar isso pareceu-me um exercício contra-natura, que iria retirar muita da honestidade que reconheço no disco. No futuro sim, espero conseguir fazer isso e inclusive ter outras vozes a cantar com a minha. Pode parecer estranho dizer isto de um projecto em que gravo os instrumentos todos e canto as canções sozinho, mas a minha ambição para TOMARA é que se torne cada vez mais um projecto colaborativo e não solitário. Este foi apenas o primeiro passo e teve de ser dado desta forma.

O que vai mover Tomara será sempre esta pop folk simultaneamente vibrante e contemplativa, com pitadas de jazz e blues, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico deste projeto?

Não tenho fronteiras estilísticas para além do meu próprio DNA musical. O processo criativo leva-te sempre (se estiveres aberto a isso) a alargar as tuas próprias fronteiras e acho que isso irá acontecer naturalmente. As minhas “raízes” Folk talvez se mantenham perenes no caminho mas abrem espaços para deixar entrar outras cores. E isso é um processo orgânico e contínuo. Nunca farei um “esforço” para chegar a determinada sonoridade porque isso seria travestir-me artisticamente e não acredito nisso. Pelo menos não para mim.

Obrigado! Um abraço ☺

Obrigado eu pelas perguntas atentas e generosas.


autor stipe07 às 21:52
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2016

The Loafing Heroes - The Baron in the Trees

Com a tenda montada em Lisboa mas com músicos oriundos de diferentes países e proveniências, os The Loafing Heroes são um encontro internacional de ideias musicais de vários países liderado pelo vocalista e guitarrista Bartholomew Ryan (Irlanda), ao qual se juntam Giulia Gallina (Itália) na voz e concertina, João Tordo (Portugal) no contrabaixo, Judith Retzlik (Alemanha) no violino, xilofone e trompete, Jaime McGill (Estados Unidos) no clarinete baixo, e João Abreu (Portugal) na percussão. Hoje chegou aos escaparates The Baron in the Trees, o quinto registo de originais do cardápio do projeto, doze canções buriladas durante dois anos e que misturam lindos poemas com pop, folk, world music e até alguns detalhes típicos da música dita mais erudita e pitadas de blues e jazz, detalhes que se abastecem de uma voz sentida, dedilhares de cordas vibrantes e emotivos, sopros sublimes e a percussão, o contrabaixo e o violino a darem substância e cor às melodias.

A curiosa explicação para o nome deste projeto foi divulgada pelos próprios numa excelente entrevista que podes conferir logo após esta crítica e baseia-se nos loafing heroes de Milan Kundera, heróis errantes que têm direito a tal distinção por serem pessoas que vivem a vida com aparente vulgaridade, mas que vão-se fortalecendo e orientando a sua demanda terrena através de valores comuns e que entroncam no sentimento maior chamado amor.

Num disco abissal, produzido pelo berlinense Tad Klimp, canções como a meiga Loyal To Your Killer, a feminina Gypsy Waltz e a enleante e sedutora Gates Of Gloom, assim como a narrativa impressiva que conduz God's Spies ou a imensidão épica que exala de um espantoso edifício sonoro, simultanamente conciso e onírico, chamado Javali, que abriga um homem só, que ajudado por uma maravilhosa guitarra, murmura sobre o fim do amor, debruçam-se em histórias que podem ser apropriadas por todos nós, já que além desse sentimento maior, também abarcam o tema da perda e da regeneração constante do ser humano, conforme afirmam os próprios The Loafing Heroes, que não esquecem a escrita de nomes tão díspares como Calvino ou Pessoa como outros exemplos inspiradores.

Escutar The Baron In The Trees, um disco melodicamente bastante sedutor, é descobrir um magnífico psicotrópico mental verdadeiramente eficaz e aditivo, sem falsos pressupostos, intenso e genuíno. O seu alinhamento tem um valor natural e genuíno e não precisa de uma análise demasiado profunda para o percebermos, até porque um dos seus grandes atributos, enquanto disco, é não ser demasiado intrincado ou redundante no que concerne aos arranjos e ao arsenal instrumental de que se serve, algo que só demonstra a relevância destes The Loafing Heroes no universo nacional atual, um coletivo em constante mutação, que regressou em grande, com contemporaneidade, consistência e excelência. Espero que aprecies a sugestão...

O Outro Lado

Gypsy Waltz

Collapsing Star

Crossing Roads

Nightsongs

Loyal To Your Killer

Gates Of Gloom

Rag & Bone

Caitlin Maude

Soul

God's Spies

Javali

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de The Baron In The Trees, o vosso novo registo discográfico, começo com uma questão clichê… Como é que nasceu este projeto, já com vários discos em carteira, com músicos de diferentes origens e tão cosmopolita?

Não é o primeiro registo... a banda já tem cinco discos! A banda surgiu quando o vocalista e compositor principal, Bartholomew Ryan, estava na Dinamarca – juntou-se com outros músicos e formaram os Loafing Heroes, banda de inspiração errante, vagabunda, com variadíssimas formações até chegar à formação que tem hoje. Depois passou por Berlim e, finalmente, Lisboa, onde toca com uma italiana, um português, uma alemã, um inglês, uma americana...o projecto nasceu da vontade de fundir música com poesia e literatura, a inspiração vem de Milan Kundera, que fala dos “loafing heroes” de outrora, heróis que erram pela vida sem propósito aparente, assimilando tudo.

Com canções que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da folk, mas onde não faltam pitadas de blues e jazz e que se abastecem de uma voz sentida, dedilhares de cordas vibrantes e emotivos, sopros sublimes e a percussão, o contrabaixo e o violino a darem substância e cor às melodias, The Baron In The Trees é, na minha opinião, uma coleção de canções particularmente inspirada. Que tipo de anseios e expetativas criaram para este novo passo do vosso já notável percurso?

Algum anseio, alguma expectativa, mas quase nenhuma, isto é, sabemos que temos canções muito bonitas mas também sabemos que o mundo está “saturado” de informação, que há milhões de bandas por aí fora e que é difícil “quebrar” o mainstream e fazer música como nós fazemos – bonita, simples nas harmonias mas complexa nos arranjos, música que parece vir de outro tempo mas “aterra” em 2016 sem necessidade de ser cool, hip ou trendy. Por isso as expectativas não são de grandes sucessos nem de aplauso constante, mas de irmos encontrando aqueles que se identificam connosco neste caminho e de ir fazendo música que toque o coração das pessoas, inspirada pelos grandes prosadores e contadores que a humanidade conheceu – de Italo Calvino a Fernando Pessoa, tudo vai passando por aqui.

Olhando um pouco para a lírica das canções, predomina a escrita na primeira pessoa e, também por isso, parece-me ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica, em vez da criação, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais os The Loafing Heroes nunca teriam à partida de se comprometer. Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Há elementos naturais e reais e outros ficcionados. As canções contam muitas histórias, quase todas elas relacionadas com o tema da perda e da regeneração constante do ser humano. O álbum anterior, Crossing the Threshold, apontava neste sentido: uma fronteira atravessada e um novo começo, no limiar de uma descoberta sobre o amor, os outros, o nosso destino no mundo. As histórias contadas vêm complementar estes temas abundantes na nossa música. Sim, há personagens – como o solitário em “Javali” que denuncia o fim do amor, ou a enigmática personagem feminina em Gypsy Waltz, que tenta seduzir um homem para o enfeitiçar; ou alguém perdido numa floresta, em “Soul”, acometido do vazio existencial e prestando atenção aos animais que encontra; mas todas estas histórias cabem na Grande História humana, a da procura de sentido.

Confesso que o que mais me agradou na audição de The Baron In The Trees foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma riqueza e uma exuberância ímpares. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo? Em que se inspiraram para criar as melodias?

As melodias foram sendo construídas ao longo de dois anos, dois anos e meio. O produtor, Tad Klimp, que veio de Berlim para fazer o disco, teve muita influência nesta riqueza e subtilieza do disco, que nos parece muito bonito mas sem ser excessivo – tudo está na conta certa. Foi isto em que pensámos inicialmente? Sim, sabíamos que tínhamos músicos tecnicamente excepcionais e outros músicos que, sem ser de excepção, têm uma sensibilidade muito própria para temas folk e indie, muito identificados com a banda. É uma mistura curiosa de instinto e técnica o que produz esta arte muito particular dos Loafing Heroes. Não somos uma banda normal nesse sentido – o que fazemos é raro porque mistura arte, técnica, literatura e orquestrações cuidadas, tudo dentro da estética folk que podia vir directamente do final dos anos 60.

Sempre senti uma enorme curiosidade em perceber como se processa a dinâmica no processo de criação melódica. Numa banda com vários elementos, geralmente há sempre uma espécie de regime ditatorial (no bom sentido), com um líder que domina a parte da escrita e, eventualmente, também da criação das melodias, podendo os restantes músicos intervir na escolha dos arranjos instrumentais. Como é a química nos The Loafing Heroes? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

Há um “elemento dominador”, o Bartholomew Ryan, que escreve a grande parte das canções e portanto vamos trabalhando a partir das estruturas que ele envia para todos os outros. Mas há canções que surgiram de ensaios, como “Javali”, por exemplo, que partiu de um riff de guitarra muito simples e foi construída a partir daí; ou Caitlin Maude, que a Giulia Gallina inventou ao piano e, no disco, surge sobre outra forma. Há um lado espontâneo, sim, cada vez mais, e menos “dependência” de um único criador, mas continua a ser um trabalho mais de laboratório do Bartholomew, por vezes, e um trabalho de banda, por outras.

Adoro a canção Javali, um longo tema que sabe a despedida, cheio de nuances e com uma guitarra que me encheu as medidas. E o grupo, tem um tema preferido em The Baron In The Trees?

Sim, todos concordamos que essa é a nossa preferida: Javali. Teve uma geração espontânea dentro do grupo e todos adoramos a canção. Representa este álbum na perfeição.

The Baron In The Trees foi produzido pela própria banda, com o apoio de Tad Klimp. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Depois do último álbum, que tinha sido de estúdio, decidimos que íamos gravar em casa – o produtor, Tad Klimp (um génio!) foi “marcado” com um ano de antecedência. E  a gravação foi muito bonita, tudo feito em casa com aparelhos vintage dos anos 70, microfones antigos, etc. Daí o som tão bonito do álbum.

Para terminar, em relação à apresentação e divulgação de The Baron In The Trees, onde podemos ver os The Loafing Heroes a tocar num futuro próximo?

Musicbox no dia 6 de Maio, FNAC Oeiras no dia 7 de Maio e NOS Alive no dia 8 de Julho!


autor stipe07 às 21:24
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Terça-feira, 22 de Março de 2016

Old Jerusalem - A rose is a rose is a rose

Com uma carreira já cimentada de praticamente quinze anos, o projeto Old Jerusalem está de regresso aos discos com a rose is a rose is a rose, um novo tomo de uma já extensa e riquíssima discografia, após um interregno de quatro anos. Esta é uma incrível jornada, batizada com uma música do mítico Will Oldham, da autoria de Francisco Silva e este trabalho um jogo de palavras muito curioso que sustenta, na minha opinião, dez canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional.

A rose is a rose is a rose, ao contrário do que costuma suceder nos discos de Old Jerusalem, conta com algumas participações especiais, nomeadamente Filipe Melo no piano, Nelson Cascais no contrabaixo, Petra Pais e Luís Ferreira, dos Nobody’s Bizness, na voz e guitarras, respetivamente, o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Cláudia Serrão, tendo sido misturado por Nelson Carvalho e gravado com o apoio de Luís Candeias e João Ornelas.

Confesso que o que mais me agradou na audição deste álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de a rose is a rose is a rose uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Canções do calibre de One for Dusty Light ou a lindíssima A Charm, o meu tema predileto do disco, abracam uma enorme riqueza instrumental, nomeadamente das cordas, sem dúvida o maior trunfo do arsenal instrumental de Old Jerusalem que, com um pé na folk e outro na pop e com a mente também a convergir para um certo experimentalismo, típico de quem não acredita em qualquer regra na busca pela perfeição, prima pela constante sobreposição de texturas, sopros e composições contemplativas, que criaram, neste alinhamento, uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades.

A rose is a rose is a rose acaba por ser um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música nacional atual e, já agora, tem também como um dos seus trunfos uma escrita maravilhosa, em canções que, na minha modesta opinião, são uma tentativa, mesmo que pouco consciente, como se percebe na maravilhosa entrevista que o Francisco me concedeu e que podes conferir abaixo, de desmontar o amor enquanto sentimento e torná-lo mais acessível e menos místico. Não posso também deixar de realçar a expressividade do piano do Filipe Melo, o suave charme da bateria e dos restantes elementos percussivos e a criatividade com que Old Jerusalem selecionou os arranjos, o que resultou, no geral, num cenário melódico particularmente bonito.

A rose is a rose is a rose balança um pouco ali, entre o milagre maior que é o amor e que tantas vezes apresenta uma ténue fronteira entre magia e ilusão, como se a explicação desse sentimento quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. Seja como for, estas canções permitem-nos aceder a um universo único, enquanrto experimentamos a simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica que transmitem. Espero que aprecies a sugestão...

 A Charm

Airs Of Probity

A Rose Is A Rose Is A Rose

All The While

One For Dusty Light

Florentine Course

Summer Storm

Tribal Joys

Dayspring

Twenties

Com uma carreira já cimentada de praticamente quinze anos, o projeto Old Jerusalem está prestes a ver um novo tomo de uma já extensa e riquíssima discografia a tomar finalmente forma, ainda por cima após um interregno de quatro anos. Como tem sido para si, Francisco, esta incrível jornada, batizada com uma  música do mítico Will Oldham?

Tem sido globalmente interessante e enriquecedor, a momentos mais, noutros menos, como tudo na vida.

a rose is a rose is a rose é, então, o título do álbum. Um jogo de palavras muito curioso que sustenta, na minha opinião, dez canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as tuas expetativas para este novo trabalho?

Não tenho expectativa que o disco venha a ter uma vida muito diferente da dos anteriores trabalhos de Old Jerusalem, seja em termos da abrangência do público que segue o projecto, seja em termos de vendas ou de concertos. Devo se calhar acrescentar que ao dizer isto se calhar estarei a ser optimista, de tal forma o mercado da música se tem modificado nos últimos tempos! Claro que desejaria que este disco fosse apreciado por mais gente e representasse uma evolução no trabalho e na notoriedade do projecto, mas todos esses aspectos são uma incógnita.

A rose is a rose is a rose, ao contrário do que costuma suceder nos discos de Old Jerusalem, conta com algumas participações especiais, nomeadamente Filipe Melo no piano, Nelson Cascais no contrabaixo, Petra Pais e Luís Ferreira, dos Nobody’s Bizness, na voz e guitarras, respetivamente, o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Cláudia Serrão, tendo sido misturado por Nelson Carvalho e gravado com o apoio de Luís Candeias e João Ornelas. Como foi selecionar e agregar nomes tão ilustres à tua volta? Eram pessoas com quem quiseste desde logo, à partida, trabalhar neste disco, ou foram surgindo e sendo convidadas à medida que as canções iam tomando forma no teu âmago?

O trabalho neste disco começou nos moldes tradicionais para Old Jerusalem, mas sofreu uma “reviravolta” quando decidi que ia dar-lhe continuidade contando com a colaboração do Filipe Melo. Foi por intermédio dele que depois viemos a contar com o contributo do Nelson Cascais, com o quarteto de cordas da Ana Cláudia, da Ana Filipa, da Joana e da Ana, e mesmo mais tarde, indirectamente, foi o Filipe que propiciou o contacto com o Nelson Carvalho para as misturas. Com este leque de colaboradores era natural que o trabalho se estendesse também a outros estúdios além da “casa” de Old Jerusalem no AMP do Paulo Miranda.

Confesso que o que mais me agradou na audição deste álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de a rose is a rose is a rose uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaste para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

O contributo dos músicos envolvidos levou efectivamente a essa característica de forte afirmaçao dos arranjos sem que percam subtileza e elegância. Isso é mérito dos vários intervenientes, sejam músicos, sejam técnicos, e confesso que o disco acabou por se aproximar muito do que de melhor gostaria que fosse, e nesse aspecto suplantou até as minhas expectativas iniciais.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, nomeadamente das cordas, sem dúvida o maior trunfo da tua música, não posso deixar de realçar a expressividade do piano do Filipe Melo, o suave charme da bateria e dos restantes elementos percussivos e a criatividade com que selecionaste os arranjos, o que resultou, no geral, num cenário melódico particularmente bonito. Em que te inspiras para criar estas melodias que nos parecem sempre tão próximas e que cativam com tanta intensidade? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea, ou são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

Eu costumava dizer que o meu método para começar a escrever uma canção era tentar soar a um qualquer tema do Van Morrison e depois trabalhar com o tipo de falhanço que resultasse daí. Digo-o em tom de piada mas em parte é o que na prática fazemos: inspiramo-nos em coisas que outros fizeram e que nos soam suficientemente próximas para achar que conseguimos replicá-las e suficientemente distantes para manter a nossa admiração; fazemos jogos com palavras, tentamos abordar temas de sempre de forma diferente do usual (pensamos “lateralmente”, portanto), testamos padrões técnicos diferentes no instrumento que usamos para escrever, experimentamos novas afinações, etc, etc… Em termos processuais, no meu caso, é mais espontâneo do que trabalhado de forma exaustiva e consciente, embora na fase final da escrita possa focar-me em detalhes com essa perspectiva mais técnica.

A rose is a rose is a rose balança, quanto a mim, um pouco ali, entre o milagre maior que é o amor e que tantas vezes apresenta uma ténue fronteira entre magia e ilusão, como se a explicação desse sentimento quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca, a rose is a rose is a rose é também uma tentativa de desmontar o amor enquanto sentimento e torná-lo mais acessível e menos místico? Qual é, no fundo, a grande mensagem que querem transmitir neste disco?

O disco não tem intenção de transmitir qualquer grande mensagem, estou mesmo em crer que isso seria uma pretensão falhada à partida se o tentasse fazer. No entanto, essa referência à tentativa de desmontar o amor enquanto sentimento e torna-lo mais acessível e menos místico é seguramente uma parte considerável do que faço enquanto autor e dificilmente o poria em melhores palavras.

Adoro a canção A Charm. O Francisco tem um tema preferido em a rose is a rose is a rose?

Não sinto uma preferência vincada por nenhum dos temas deste disco, embora tenha trechos preferidos em vários deles – continuo a orgulhar-me bastante das guitarras eléctricas no final do tema Summer Storm, por exemplo.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?

A preferência pelo inglês não se deve a nenhuma intenção deliberada de marcar uma qualquer posição. Simplesmente para o tipo de canções que decidi escrever enquanto Old Jerusalem pareceu-me sempre muito mais “certo” usar o inglês, uma vez que a própria matriz musical, abordagem de produção, etc, seguem uma linha marcadamente anglo-saxónica. Em projectos anteriores e colaborações pontuais escrevi em português (em geral com resultados mais fracos do que em inglês, é certo) e não posso dizer que não o tente fazer de novo, mas certamente não sob a designação de Old Jerusalem.

O que vai mover Old Jerusalem será sempre esta folk vibrante, com pitadas de jazzblues, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico deste projeto?

Estou em crer que a matriz estética fundamental de Old Jerusalem está definida, embora a paleta de opções específicas em termos de arranjos, instrumentação, interpretação, etc, seja tão ampla que acaba por haver muito ainda por onde explorar. Gostava de experimentar outras sonoridades mais distintas enquanto “Francisco Silva-músico” mas essas não têm de entrar no “Francisco Silva-Old Jerusalem”. Quanto ao futuro discográfico do projecto, o campo de possibilidades é enorme: pode vir a surgir um disco novo dentro de relativamente pouco tempo, podemos vir a tardar os mesmos 4-5 anos ou mais a fazer alguma coisa, ou pode mesmo não vir a haver outro disco de Old Jerusalem. Não sei mesmo neste momento o que é mais adequado fazer, há muitas coisas a considerar e várias não têm sequer que ver com a música. O tempo, como costuma dizer-se, dirá.


autor stipe07 às 21:18
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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

Youthless - This Glorious no Age

O londrino Sebastiano Ferranti e o nova iorquino Alex Klimovitsky são a dupla que abraça um extraordinário projeto sonoro sedeado em Lisboa intitulado Youthless, que se estreia hoje mesmo nos discos com This Glorious No Age, dezassete canções disponíveis através da NOS Discos em Portugal e da Club.the.mamoth / Kartel em Inglaterra e que nos oferecem um indie rock com uma singularidade bastante vincada, que conjugado com um abstracismo lírico incomum, estabelece um paralelismo entre uma curiosa obsessão da dupla por tudo aquilo que é elétrico, nomeadamente o modo como a descoberta da eletricidade provocou um caudal massivo de alterações no mundo que nos rodeia e na sociedade em que vivemos e o quanto isso tem de glorioso e de frenético.

Desde que se mostraram ao mundo, de modo mais convicto, com alguns temas que fazem parte do alinhamento deste This Glorious No Age, os Youthless têm tido um percurso fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação, com enormes elogios em vários blogues e estações de rádio, quer por cá, quer em Inglaterra e este This Glorious No Age, misturado por Justin Garrish (Vampire Weekend, The Strokes, Weezer) e gravado por Chris Common, Pedro Cruz e a própria banda em vários estúdios caseiros e sótãos entre Lisboa, Sintra e Cascais e que conta com a participação de nomes tão importantes como Francisco Ferreira (Capitão Fausto, Bispo), João Pereira (Riding Pânico, LaMa), Chris Common (These Arms are Snakes, Le Butcherettes), Francisca Cortesão (Minta and the Brook Trout) e Duarte Ornelas, acaba por ser o cluminar deste percurso ascendente que, desde o EP Telemachy, em 2009, procura fazer uma espécie de súmula histórica de um rock heterogéneo e abrangente, que da folk à psicadelia, passando por sonoridades mais progressivas, aborda, de acordo com os autores, temáticas como a desintegração do velho mundo, a viagem rumo a terreno incerto, pesadelos, esperanças de ascensão e a obsessão pelo passado e pelo futuro, sempre com um duplo significado, por um lado muito pessoal, circunstancial, e, por outro, universal e mitológico.

A entrevista que os Youthless amavelmente me concederam e que podes conferir após esta análise, explica sucintamente a abordagem da dupla ao mundo em que vivemos e a sua visão muito própria do mesmo, através daquilo que eles definem como um eu universal, já que houve uma opção claramente ficcional de escreverem sobre aquilo que os rodeia, mas inventando histórias e personagens imaginárias, atrás das quais podem, de certo modo, refugiar-se, sem terem de se comprometer, com pensadores como Marshal Mcluhen e Guy Debord e outros mais contemporâneos, nomeadamente Jaron Lanier e David Graeber, a serem referências obrigatórias, mas também as experiências muito pessoais, algumas bastante curiosas, como irão perceber, de cada um dos músicos.

Cheio de canções intensas e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop, da new wave e do indie rock psicadélico, com um travo glam fortemente eletrificado, This Glorious No Age assenta em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas e onde não falta um piscar de olhos ao punk e ao garage rock. Depois, a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage e um indisfarçável groove. Finalmente, a bateria cola todos estes elementos com uma coerência exemplar e a voz, muitas vezes sintetizada, mas quase sempre sentida e imponente, dá substância e cor às melodias, com todos estes detalhes a subsistirem à sombra de uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgem nas músicas. Há também que realçar o modo como os diferentes temas se interligam, quase sempre através da guitarra, sendo intercalados, frequentemente, com diversos instrumentais, ricos ao nível de efeitos e samples e que fazem todo o sentido no modo como estão colocados. No caso de Holy Ghost e Fuck Buttons and Knobs, são expressivamente intensos e este é outro aspeto importante e que também ajuda a oferecer à sonoridade geral do disco uma sensação festiva e solarenga, mas também fortemente reflexiva e filosófica.

Em suma, num alinhamento de canções com uma sonoridade impar, é possível absorver This Glorious No Age como um todo, mas entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o disco é outro resultado da mais pura satisfação, como se os Youthless quisessem projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção do alinhamento, sempre com uma assumida pompa sinfónica e eletrificada de modo inconfundível. Falo-vos de uma janela imensa de luz, energia e cor, que nos convida a espreitar para um mundo envolvido por uma psicadelia luminosa, fortemente urbana, mística, mas igualmente descontraída e jovial, como a luz que refracta no prisma, ou os últimos raios de luz que enchem a íris numa tarde de verão, sob a influência e o calor das leis universais. Espero que aprecies a sugestão...

Sail On

Death of the Tyrannosaurus Rex

Golden Spoon

Neu Wave Suicide

Smersh

Mechanical Bride

Silver Apples

Attention

Pale Horse and Rider

Lightning Bolt

Skull and Bones

Black Keys White Lights

High Places

Holy Ghost

This Glorious No Age

Fuck Buttons and Knobs

Lucky Dragons

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de This Glorious No Age, o vosso novo registo discográfico, começo com uma questão clichê... Como é que nasceu este projeto?

O Sab e eu conhecemo-nos desde os 14 anos, quando andámos juntos no Instituto Espanhol de Lisboa em Dafundo. Sempre fomos saltando entre países, eu principalmente entre NY e Lisboa e Sab entre Londres e Lisboa. Em 2009 estávamos cá a tocar numa banda que tínhamos desde miúdos, os Three and a Quarter (com o nosso querido amigo Guillermo Landin), e nos tempos mortos desses ensaios começámos os Youthless com uma brincadeira para fazer barulho e rirmo-nos um pouco. Eu era guitarrista e queria aprender a tocar bateria e o Sab queria tentar usar o baixo como se fosse um lead guitar e fazer ambientes sónicos e big riffs à patrão. Mas logo desde o primeiro ensaio começaram a sair muitas músicas e a coisa foi crescendo. No princípio era só no gozo, só queríamos tentar tocar covers mal feitas dos Black Sabbath.                                                      

Desde que se mostraram ao mundo de modo mais convicto, com alguns temas que fazem parte do alinhamento deste This Glorious No Age, a verdade é que o vosso percurso tem sido fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação, com enormes elogios em vários blogues e estações de rádio, quer por cá, quer em Inglaterra. Como foi conciliar este percurso ascendente com o processo de conclusão da rodela e que expectativas criaram para a mesma? Querem que This Glorious No Age vos leve até onde? 

A verdade é que o nosso percurso como banda tem sido um pouco estranho. Desde que começámos a banda muita coisa aconteceu muito de repente. Depois do nosso segundo concerto como banda fomos convidados a tocar em Londres e aí a editar com uma editora inglesa. Ao mesmo tempo, o Henrique Amarro convidou-nos para fazer um EP através Optimus Discos e a Enchufada pegou em nós para fazer alguns singles. As coisas cresceram até em 2010, tivémos bastante sorte e sucesso num tour que fizemos no UK e muitos blogs começaram a interessar-se pela banda. Um até nos chamou a melhor nova promessa do ano. Foi nesse momento que começámos a trabalhar este disco e desenvolvemos o conceito e a temática, mas nesse momento eu tive uma lesão muito grave nas costas e nos anos seguintes a minha participação na banda ficou muito limitada. Finalmente, fiquei estou melhor e o disco ficou acabado. De certa forma sentimos que estávamos a começar do zero outra vez, e não tínhamos expectativas muito concretas. Queríamos só editar o trabalho porque este disco é muito pessoal e importante para nós, e depois disso vermos o que acontece. Mas ao mesmo tempo, como dizes, a recepção dos primeiros singles tem sido espectacular e já estamos a tocar no UK outra vez e a receber amor pelo disco cá em Portugal. Isso tudo é uma alegria mas tentamos não fazer planos para o futuro e apenas ir vendo onde é que as coisas nos levam.                                              

Acho que This Glorious No Age é um título fantástico e bastante apelativo. Sendo possível estabelecer um paralelismo entre este nome e a vossa curiosa obsessão, digamos assim, por tudo aquilo que é elétrico (algo que a vossa música tão bem plasma), já que a descoberta da eletricidade provocou um caudal massivo de alterações no mundo que nos rodeia e na sociedade em que vivemos, ao ponto de vivermos numa era que tem algo de glorioso, no sentido do frenético, acham que esta vossa expressão sintetiza, de algum modo, o alinhamento?

Não acho que a nível de som ou composição a nossa música seja particularmente futurista, ou até que seja um bom espelho da actualidade, se calhar porque esteticamente sinto que o atual está a mudar a cada milisegundo. Mas sim, acho que depois de falar com muitos amigos, e agora até com alguns jornalistas sobre as temas e ideias que abordamos no disco, parecem ser temáticas bastante universais. Parece que em toda esta loucura e caos do presente há uma experiência bastante comum que estamos a viver todos juntos, mais ou menos conscientemente, e acho que as músicas são um bom registo disso. Dos medos, estimulações, conclusões e experiências que esta fase da transição de um mundo para outro está a causar em nós.

A que se deve o gosto por tudo aquilo que vos moveu na conceção lírica e sonora do disco, nomeadamente a desintegração do velho mundo, a viagem rumo a terreno incerto, pesadelos, esperanças de ascensão, como as ferramentas moldam o construtor, e a nossa obsessão pelo passado e pelo futuro... num duplo significado, por um lado muito pessoal, circunstancial, e, por outro, universal e mitológico., conforme consta do press release do lançamento?

A nível da estrutura inicial, a história do velho mundo pré-eléctrico a converter-se lentamente no novo mundo de abstração digital... isso veio de ideias que eu estava a desenvolver inspiradas em coisas que estava a ler do Marshal Mcluhen e Guy Debord e outros pensadores contemporâneos como Jaron Lanier e David Graeber. Hoje em dia acho que muitos de nós culpamos os males do mundo moderno no capitalismo, mas sempre senti que o capitalismo e o dinheiro em si, eram sintomas, não são a raiz dos problemas da civilização ocidental. E as ideias de Mcluhen de certa forma explicam a desintegração de certas formas de coexistir em sociedade uns com os outros, por causa das tecnologias que criamos e as amputações que nós fazemos ao psíquico. Em relação às letras em si, são todas baseadas em eventos ou temas muito pessoais. Um é sobre o final de um namoro. Outro é sobre uma experiência verdadeira que tive ao encontrar uma pessoa desconhecida que estava a morrer e tentar salvar essa pessoa. Mas escrevo sobre estas experiencias através da lente da estrutura e ideias das quais mencionei antes. Assim que tudo se converte em alegoria e metáfora.    

Com canções intensas e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop, da new wave e do indie rock psicadélico, com um travo glam fortemente eletrificado, assente em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas, onde não falta um piscar de olhos ao punk e ao garage rock e sintetizações impregnadas com indisfarçável groove, com a bateria a colar todos estes elementos com uma coerência exemplar e uma voz muitas vezes sintetizada, mas quase sempre sentida e imponente, a dar substância e cor às melodias, This Glorious No Age, foi composto de acordo com as vossas preferências, ou também tiveram o foco permanentemente ligado na vertente mais comercial? No fundo, em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Nunca nos focamos no comercial, tentamos escrever o que estamos a sentir no momento. As nossas influências nunca entram de maneira directa nas composições mas sim, obviamente, ouvem-se. Acho que tínhamos umas ideais de como queríamos que o disco soasse... sempre gostámos de usar o ruído e feedback como mais um elemento ambiental, e queríamos arranjos mais complexos e quase narrativas... tipo as vozes dos miúdos e os teclados. Mas também tentámos manter-nos bastante fiéis a como as músicas soam ao vivo e a verdade é que como agora tocamos as músicas há mais tempo, acho que muitas delas ganham ainda mais ao vivo.                              

Confesso que algo que me agradou na audição de This Glorious No Age foi uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgem nas músicas, além do modo como foram interligando os diferentes temas, quase sempre através da guitarra, intercalando-os, frequentemente, com diversos instrumentais, ricos ao nível de efeitos e samples, que fazem todo o sentido no modo como estão colocados e que, no caso de Holy Ghost e Fuck Buttons and Knobs, são expressivamente intensos, diga-se... E todos estes aspetos, na minha opinião, conferem à sonoridade geral do disco uma sensação festiva e solarenga, mas também fortemente reflexiva e filosófica. Concordam?

Sim, exactamente… Há um lado de banda que existe desde sempre, que é energia e a alegria de estar a fazer música juntos, e de eu e Sab convivermos através disso. Mas agora, com este disco acho que também conseguimos tocar em lados mais reflexivos e estranhos e se calhar interessantes. Nos intervalos como dizes, muitas vezes as intenções eram narrativas (como o som de feedback que parecem cavalos no Pale Horse and Rider, que usámos como símbolo dos quatro cavalos da morte a aparecerem na terra mesmo antes da grande “tempestade” que é representado pela música “Lightning Bolt” e às vezes eram mais abstratas e só pelo gozo do som em si.                                               

Apesar do esplendor das guitarras, a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage. Como é a química nos Youthless? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

Quase todas as nossas composições surgem de improvisos que fazemos juntos (às vezes trazemos ideias ou composições já feitas mas é menos usual)... e normalmente durante esses momentos também surge a ideia atrás da música (a semente da qual depois vem a letra). Mas ao nível dos arranjos, às vezes depois vemos o que a música precisa e vamos moldando e mudando a coisa até gostarmos. Os sintetizadores foram assim, porque as melodias nestas músicas eram um pouco mais complexas e frágeis que outras músicas nossas do passado, por isso achámos que ganhavam muito com acordes e pads que o baixo não conseguia fazer. De certa forma, eram sons e texturas que já ouvíamos na nossa cabeça enquanto compúnhamos as músicas, mas que só se materializaram com a ajuda dos nossos amigos teclistas.

Olhando um pouco novamente para a escrita das canções, em temas como o homónimo This Glorious No Age ou Black Keys White Lights, só para citar dois exemplos, parece-me ter havido uma opção claramente ficcional de escreverem sobre aquilo que vos rodeia, mas inventando histórias e personagens imaginárias, atrás das quais podem, de certo modo, refugiar-se, sem terem de se comprometer... Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Sim, está bastante certo. As letras são todas sobre experiâncias e observações muito pessoais mas filtradas pelo conceito e estrutura/ história do LP. Por isso, em vez de escrever de um ponto de vista “eu” escrevo quase como se fosse um “eu” universal, ou um “eu” imaginário, exactamente como disseste.                                         

Golden Spoon é um tema particularmente imponente, grandioso, mas adoro o ambiente sonoro de Lucky Dragons. E o grupo, tem um tema preferido em This Glorious No Age                                                  

Para mim pessoalmente vai sempre mudando. A nível de letra acho que Lucky Dragons é o mais elegante de certa forma, mas musicalmente não tenho preferência, às vezes gostamos mais de uma ou outra depende de como sai num concerto ou ensaio.

This Glorious no Age foi produzido por Justin Garrish e gravado por Chris Common, Pedro Cruz, além de vocês, tendo contado com as participações especiais de referências do cenário indie nacional, nomeadamente Francisco Ferreira, João Pereira, Francisca Cortesão e Duarte Ornelas. Como foi o processo de adesão de músicos tão ilustres para a vossa causa?                                     

Justin Gerrish misturou o disco, que para nós foi uma benção muito grande porque acho que foi um disco bastante difícil de misturar por causa de todas as faixas de ruído que usámos em cada música. Nós é que produzimos o disco sozinhos mas com o input musical desta gente toda que lhe acrescentou tanto! Foi uma grande riqueza e honra para nós termos esta gente toda a participar. Muitos já eram amigos com quem tocávamos antes do disco, e o resto ficaram amigos, agora sentimos que temos uma família musical além de só nós os dois. E sempre foi fácil e divertido, foi só convidá-los para a cave do Sebastiano, ou com o Duarte Ornelas fomos até ao Black Sheep Studios, e depois improvisávamos e compartilhávamos ideias.

Como estão a decorrer os concertos de apresentação do disco? E onde podemos ver os Youthless a tocar num futuro próximo?

- 11 de Março, Musicbox, Lisboa

- 12 de Março, Maus Hábitos, Porto

- 18 de Março, Texas Bar, Leiria

- 19 de Março, Salão Brazil, Coimbra

- 1 de Abril, Stairway Club, Cascais

- 15 de Abril, Pouca Terra, Barreiro

- 16 de Abril, Play-Doc, Galiza

- 23 de Abril, Fnac Braga

- 23 de Abril, Convento do Carmo, Braga


autor stipe07 às 18:35
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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2016

Les Crazy Coconuts - Les Crazy Coconuts

Com arraiais assentes em Leiria, Adriana, Tiago e Gil formam os Les Crazy Coconuts, uma das maiores lufadas de ar fresco do panorama indie nacional dos últimos tempos, devido a um excelente homónimo lançado recentemente com a chancela da insuspeita Omnichord Records.

(pic, Joaquim Dâmaso - Região de Leiria)

Quando em 2012 Adriana Jaulino terminou a licenciatura e imaginou criar um projeto sonoro e artístico que envolvesse música e sapateado, não fazia ainda a miníma ideia que estava a criar os alicerces de algo que rapidamente e com toda a justiça se tornou num verdadeiro fenómeno musical, sem paralelo por cá. Com estreia na excelente compilação Leiria Calling e depois de terem sido considerados a melhor banda nacional do Festival Termómetro e de estarem na final do concurso Nacional de Bandas da Antena 3 e de terem pisado palcos do NOS ALIVE, Paredes de Coura, o Indie Music Fest ou o Monkey Week, em terras de nuestros hermanos, o longa duração de estreia tornou-se num passo óbvio e esperado já por muitos seguidores e críticos. E a verdade é que as dez canções de Les Crazy Coconuts, homenageando claramente o conceito de programa de rádio de autor e os anos dourados, tanto do sapateado como da rádio, nomeadamente nas décadas de vinte e trinta do século passado norte americano, impressionam pelo charme vintage, mas contêm uma contemporaneidade invulgar que vai beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop e do indie rock, com um travo glam fortemente eletrificado, assente em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas, onde não falta um piscar de olhos ao punk. A receita, simples mas eficaz, fica completa com sintetizações impregnadas com indisfarçável groove, com a bateria a colar todos estes elementos com uma coerência exemplar e com uma voz sentida e imponente, a dar substância e cor às melodias, que em temas como Words Unsaid ou Myself, parecem, liricamente, ser pouco ficcionais e quase autobiográficos, com a chancela do Gil, o autor das letras.

Les Crazy Coconuts, quer como nome da banda, quer como opção para título do álbum, acaba por saber, no modo como soa, a uma espécie de grito de revolta colorido, uma daquelas entradas em grande no palco em início do espetáculo, de forma tão ruidosa que desperta logo o espetador mais incauto. A feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgem nas músicas, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação festiva e solarenga, define esta janela imensa de luz e cor, que nos convida a espreitar para um mundo envolvido por uma psicadelia luminosa, fortemente urbana e mística, mas igualmente descontraída e jovial, sempre presente durante os quase quarenta minutos que dura este trabalho.

Produzido por Paulo Mouta Pereira quase na sua totalidade, Les Crazy Coconuts é, volto a frisar, uma estreia particularmente inspirada de um projeto que demonstra uma elevada elasticidade e a capacidade de reproduzir diferentes registos e dessa forma atingir um significativo plano de destaque, rebocado por canções com uma sonoridade impar, que plasmam um disco que deve ser tragado como um todo, mas sem que isso evite que a entrega aos pequenos detalhes que o preenchem, não resulte na mais pura satisfação, como se estes Les Crazy Coconuts quisessem projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada um dos fragmentos deste alinhamento. Confere, já de seguida, a entrevista que a banda me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

Les Crazy Coconuts

Hello
Belong
Words Unsaid
Speed Shoes
Myself
Define
Human Radio Station
Party Dancer
Sailormoon
Closing Credits

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de Les Crazy Coconuts, o vosso primeiro registo discográfico, começo com uma questão clichê… Como é que nasceu este projeto em 2012, oriundo da zona de Leiria?

Foi de mim (Adriana), depois de terminar a licenciatura em dança fiquei com vontade de ter um projecto qualquer que envolvesse sapateado e música. Na altura não me passou pela cabeça que pudesse vir a ter uma banda, mas um ano mais tarde dei por mim no festival Paredes de Coura a convencer o Tiago de que íamos ter uma banda juntos. Já de regresso convidámos o Gil para se juntar a nós e a partir daí foi sempre a andar, ou a tocar neste caso.

Desde então, até esta estreia discográfica, o vosso percurso tem sido fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação. Além de terem já tocado em vários festivais, foram aclamados pelo júri do Festival Termómetro como melhor formação nacional de 2014 e pela Antena 3 como uma das 3 melhores novas bandas nacionais no Concurso Nacional de Bandas, entre outras distinções. Como foi conciliar este percurso ascendente com o processo de gravação do disco de estreia?

Foi bastante fácil porque não precisámos propriamente de conciliar nada, já tínhamos estipulado que numa determinada fase iríamos tentar a nossa sorte nos concursos, até porque nos prémios estavam incluídos a gravação de uma música ou de um ep o que nos poderias vir a dar jeito, mas não aconteceu. Na gravação do disco de estreia decidimos que tínhamos de “x” a “y” para gravar, e nesse período só nos focámos mesmo nisso.

Com canções que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da pop e do indie rock, com um travo glam fortemente eletrificado, assente em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas, onde não falta um piscar de olhos ao punk e sintetizações impregnadas com indisfarçável groove, com a bateria a colar todos estes elementos com uma coerência exemplar e uma voz sentida e imponente, a dar substância e cor às melodias, Les Crazy Coconuts é, na minha opinião, uma estreia particularmente inspirada. Que tipo de anseios e expetativas criaram, no vosso seio, para este primeiro passo de um percurso que espero que venha a ser longo?

Tentámos ser fiéis a nós próprios tanto que também não nos regemos só por um estilo musical. Também tivemos consciência desde o início que iríamos ter dois tipos de trabalho diferentes, um ao vivo e outro em albúm devido à especifícidade do nosso projecto. Não gostamos de criar expectativas, o que vier é sempre bem vindo.

Confesso que o que mais me agradou na audição de Les Crazy Coconuts foi uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgiam nas músicas, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, festiva e solarengo e onde, apesar do esplendor das guitarras, a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que os sintetizadores conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo? Em que se inspiraram para criar as melodias?

A base foi sempre a mesma desde o início, o que aconteceu é que naturalmente tivemos de fazer alguns ajustes para tornar todo o álbum mais coeso. Inspirámos-nos em tudo, todos e nada. Ouvimos e vemos muita coisa, naturalmente somos influenciados por isso, consciente ou inconscientemente. Mas nunca partimos de um ponto em que definíssemos uma melodia.

Les Crazy Coconuts, quer como nome da banda, quer como opção para título do vosso primeiro álbum, sabe-me, no modo como soa, a uma espécie de grito de revolta colorido, uma daquelas entradas em grande no palco em início do espetáculo, de forma tão ruidosa que desperta logo o espetador mais incauto. Por que motivo deram o nome da banda ao vosso primeiro disco?

Foi natural, é o nosso primeiro álbum e também é uma maneira de dizer Olá, somos os Les Crazy Coconuts e aqui estamos.

Sempre senti uma enorme curiosidade em perceber como se processa a dinâmica no processo de criação melódica. Numa banda com vários elementos, geralmente há sempre uma espécie de regime ditatorial (no bom sentido), com um líder que domina a parte da escrita e, eventualmente, também da criação das melodias, podendo os restantes músicos intervir na escolha dos arranjos instrumentais. Como é a química nos Les Crazy Coconuts? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

Acontece sempre tudo naturalmente, e geralmente em jam sessions. Nunca é o mesmo a começar e normalmente as melhores músicas até nascem de brincandeiras.

Olhando um pouco para a escrita das canções, em temas como Words Unsaid ou Myself, parece-me ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica de escreverem sobre aquilo que vos rodeia, em vez de inventarem, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais nunca teriam à partida de se comprometer? Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Essa parte é domínio do Gil Jerónimo que é um picuinhas e escreve sobre as cenas da vida. Às vezes até chora. E faz birras.

Belong é um tema particularmente imponente, grandioso, mas adoro o ambiente sonoro da canção Speed Shoes. E o grupo, tem um tema preferido em Les Crazy Coconuts?

Tem pois, é redutor mas por maioria absoluta a Myself é a preferida.

Les Crazy Coconuts foi produzido por Paulo Mouta Pereira, quase na sua totalidade. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com ele e, já agora, com o islandês Birgir Jón Birgisson em Belong?

O Paulo já nos tem vindo a acompanhar na estrada há algum tempo e como excelente profissional que é fez todo o sentido que fosse ele a produzir o nosso álbum e também já estava mais familiarizado com os nossos gostos e trabalho. Com o Birgir foi por intermédio do nosso amigo e grande músico André Barros que estagiou no estúdio dele e surgiu a oportunidade do Birgir nos masterizar o tema Belong para a compilação Leiria Calling.

A Omnichord Records é a casa de alguns dos nomes fundamentais do universo sonoro musical nacional. É importante para vocês pertencer a essa família que parece apostar convictamente no vosso trabalho?

Claro que sim. E é mesmo esse espírito de familía, ajudamo-nos todos uns aos outros e sentimo-nos muito acarinhados. Assim ainda dá mais gosto trabalhar, temos muito a agradecer a esta grande e espectacular família.


autor stipe07 às 21:04
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Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2016

Bed Legs - Black Bottle

Oriundos de Braga, Fernando Fernandes,Tiago Calçada, Helder Azevedo e David Costa são os Bed Legs, uma banda que começou por criar um certo e justificado burburinho, junto dos críticos mais atentos, à boleia de Not Bad, um EP editado no início de 2014 e que continha cinco canções que justificaram, desde logo, a ideia de estarmos perante uma banda apostada em calcorrear novos territórios, de modo a entrar, justificadamente e em grande estilo, na primeira divisão do campeonato indie e alternativo nacional.

Dois anos depois os Bed Legs estão de regresso com o longa duração de estreia. Disco de certo modo concetual já que, de acordo com o press release do lançamento, conta a história de uma noite estranha naquele bar onde entras enganado, mas do qual não queres sair, Black Bottle é o nome desse novo compêndio do grupo, nove canções que estão impregnadas com o clássico rock cru e envolvente, sem máscaras e detalhes desnecessários, mas onde não faltam arranjos inéditos e uma guitarra nada longe do rock de garagem e daquele blues rock minimal e duro, mas também a piscar o olho a uma salutar vibe psicadélica.

Nestes Bed Legs é viva e evidente mais uma prova que se o rock estiver em boas mãos tem capacidade que sobra de renovar-se e quantas vezes for necessário, com a vantagem de, neste caso, também servir para ser colocado sempre ali, mesmo à mão, para quando sentirmos necessidade de escutar música que dispare em todas as direcções, sem preconceitos nem compromissos, usando a sonoridade habitual e clássica do rock, numa mistura explosiva de energia, audácia, irreverência e atitude, pouco ouvida por cá e que, por isso, merece ser amplamente divulgada.

Canções como o sumptuoso single Vicious, a altiva Wrong Man ou a descomprometida New World, contêm um poder e um charme que atraem e ofuscam tudo em redor, mostrando que uma das grandes virtudes destes Bed Legs é o desprezo pelo conforto do ameno, mas sem se limitarem a produzir barulho como um fim em sim mesmo. Este é um rock com qualidade melódica e que nos dá canções acessíveis e que poderiam relatar factos da vida de qualquer um de nós, mostrando que este rock pode ser a salvação e um excelente remédio para muitos dos nossos problemas.

Em suma, Black Bottle sabe, no modo como soa, a uma espécie de estado de alma colorido e, apesar do Black, vincadamente boémio, uma daquelas entradas em grande no palco em início do espetáculo, de forma tão ruidosa que desperta logo o espetador mais incauto.Confere abaixo a entrevista que este fantástico grupo bracarense concedeu ao blogue e espero que aprecies a sugestão...

Road Again

Vicious

Love, Lies N' Love

Black Bottle

Wrong Man

My Heart Back

New World

Try

The Fight

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de Black Bottle, o vosso primeiro registo discográfico em formato longa duração, começo com uma questão clichê… Como é que nasceu este projeto, oriundo da zona de Braga?

Bed Legs nascem da reunião de 4 amigos músicos com vontade de tocar e de criar. Eu(Fernando), o Tiago (guitarra) e o David (bateria) já tínhamos tocado juntos numa banda nos tempos do secundário. Nos tempos da universidade, fizemos uma jam na república dos Inkas em Coimbra com o Hélder e houve uma enorme química. Mais tarde, o Tiago e o David começam a tocar com ele, no seu sotão. Eles lembraram-se de mim e convidaram-me para cantar. Começámos a trabalhar numas ideias que eles já tinham e noutras que fomos fazendo a longo desses encontros. Daí nasceram temas interessantes, alguns desses que podem ser encontrados no nosso Ep “Not Bad”.

Desde o início, até esta estreia discográfica, o vosso percurso tem sido fulminante em termos de crescimento, visibilidade e aceitação. Além de terem já tocado em vários locais, o vosso Ep Not Bad foi bastante aclamado pela crítica. Como foi conciliar este percurso ascendente e todo este frenesim, nomeadamente de concertos, com o processo de gravação do disco de estreia?

Desconhecia de tanto reconhecimento por parte do público ou da crítica. Nós, até à data somos mais uma banda local, de Braga. O nosso reconhecimento fora da localidade, na minha opinião, acho ser pouco. É verdade, que depois do Ep fomos tocar em mais sítios fora da localidade, partilhamos palco com diversas bandas e isso é muito enriquecedor. Mas se formos perguntar pela rua quem são os Bed Legs, não haverá muita gente que os reconheça. Esperemos que esse dia chegue e rápido!(risos)

Com canções que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais do indie rock de garagem, com um travo blues fortemente eletrificado e algo psicadélico, assente em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas, onde não falta um piscar de olhos ao punk impregnado com indisfarçável groove, com a bateria a colar todos estes elementos com uma coerência exemplar e uma voz sentida e imponente, a dar substância e cor às melodias, Black Bottle é, na minha opinião, uma estreia particularmente inspirada. Que tipo de anseios e expetativas criaram para este primeiro passo de um percurso que espero que venha a ser longo?

O primeiro anseio em relação ao álbum foi lança-lo. Houveram oportunidades anteriores mas só agora o fizemos. Isto, claramente, criou ansiedade porque como artistas gostamos de estar sempre em constante criação e ter de esperar para lançar um álbum mais tarde, cria instabilidade na banda e no seu percurso. É uma questão de gestão das emoções, da razão e  de circunstância. Em relação às expectativas, estamos satisfeitos com o resultado do álbum e só queremos que ele circule pelas mãos da gente.

Confesso que o que mais me agradou na audição de Black Bottle foi uma feliz simbiose entre a riqueza dos arranjos e a energia e imponência com que eles surgiam nas músicas, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, festiva e solarenga e onde, apesar do esplendor das guitarras, a percussão tem também uma palavra importante a dizer, já que o baixo e a bateria conduzem, frequentemente, o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona por um certo charme vintage. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo? Em que se inspiraram para criar as melodias?

O álbum foi-se compondo até aos últimos momentos de gravação. Havia cerca de pouco mais de meio álbum composto até irmos para estúdio. Houveram temas que acabamos em gravações. Já tinhamos ideia do sentimento ou temática que queriamos dar a esses temas incompletos mas foi em gravação que descobrimos soluções. Trabalhamos bem com tempo mas também sobre pressão(risos). Existem arranjos que fazemos logo nos primeiros momentos de composição e outros que fazemos em estúdio. Mas este álbum foi pouco enfeitado, é cru. As inspirações que nos levaram a criar são as nossas emoções, as nossas experimentações, a nossa técnica, os nossos gostos, as nossas referências, as nossas ideias, a nossa vida.

Black Bottle, como opção para título do vosso primeiro álbum, sabe-me, no modo como soa, a uma espécie de estado de alma colorido, apesar do Black e vincadamente boémio, uma daquelas entradas em grande no palco em início do espetáculo, de forma tão ruidosa que desperta logo o espetador mais incauto. Acredito que queiram ser levados a sério pela crítica e que sejam extremamente cuidadosos e profissionais na vossa dinâmica de trabalho enquanto Bed Legs, mas a diversão, o arrojo e a rebeldia são também pilares essenciais do vosso estado de espírito enquanto banda, de certo modo ilustrado pelo curioso vídeo que ilustra Vicious, o single de apresentação do álbum?

Acima de tudo, é a diversão e a realização que nos move. Mas, conforme vamos avançando e o tempo vai passando, a infância na música e na vida vai se perdendo ou adulterando. Queremos manter a força das cores do início, mas o percurso vai escurecendo, a vida escurece. Como indivíduos, vamos ficando mais cicatrizados e isso reflecte-se nas nossas músicas. Este álbum é mais um lamento do que celebração. Mas mantém o vigor da nossa atitude. O vídeo é uma ilustração de momentos da nossa vida e também das que por nós passam. Não é assim tão distante da realidade mundana que chega a ser entediante. O nosso carnaval é que lhe dá cor e diversão.

Sempre senti uma enorme curiosidade em perceber como se processa a dinâmica no processo de criação melódica. Numa banda com vários elementos, geralmente há sempre uma espécie de regime ditatorial (no bom sentido), com um líder que domina a parte da escrita e, eventualmente, também da criação das melodias, podendo os restantes músicos intervir na escolha dos arranjos instrumentais. Como é a química nos Bed Legs? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?
Geralmente, é em jams que fazemos juntos. O instrumental forma-se e a voz entra a seguir. A partir da improvisação e sugestão cria-se a temática da música. Normalmente, sou eu quem escreve as letras. Quando encalho na escrita peço ajuda ao resto da banda. Existem letras do Ep e de temas antigos que são do Hélder ou escritas em conjunto.
Por vezes, trazemos ideias e riffs de casa que propomos ao resto da banda. Se a banda gostar, começamos a trabalhar na ideia ou tema. Neste álbum, existem riffs e propostas de todos os elementos da banda.

Olhando um pouco para a escrita das canções, parece-me ter havido uma opção pouco ficcional de escreverem sobre aquilo que vos rodeia, em vez de não inventarem, apenas e só e na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais nunca teriam à partida de se comprometer. Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?
Acertaste. Tudo o que está escrito em cada tema foi vivido ou ainda está a ser vivido. “Black Bottle” é um álbum cru e sincero que canta sobre a vida na estrada, vícios, amor e mentiras, decadência, desgostos amorosos, promiscuidade, incompatibilidade, frustração, luta e vontade de renascer, de tentar de novo. As relações que deixaram cicatrizes, os inúmeros copos e garrafas vertidas, o ficar e o partir, os romances-mentira, as escolhas e decisões feitas ou pendentes, o rastejar na lama, o comer na lama, o dormir na lama. Tudo isto, é a fórmula do cocktail da Black Bottle. O álbum fala sobre um passado atribulado, um presente incerto e um futuro fora de alcance. Existe muito amor e vivências dedicados a estas canções. Muito sangue derramado para dentro da garrafa. Sangue espesso, preto. A "Black Bottle" navega sobre águas negras como sugere a canção homónima do mesmo. É uma garrafa sem destino, sem rumo. Uma garrafa que emergiu do fundo do mar para dar de beber aos náufragos da vida, aos piratas do amor e aos descobridores do desconhecido.
Para terminar, como está a correr a promoção do disco? Onde podemos ver e ouvir os Bed Legs a tocar num futuro próximo?
Por enquanto, está a correr muito bem. Estamos a chegar mais longe do que antes. Começamos a entrar com mais facilidade nas rádios, televisão, revistas, blogs, magazines. Isto graças à nossa parceria com a Raquel Lains(Let's Start a Fire), que tem sido preciosa. Em relação a concertos de apresentação e divulgação, ainda  estamos a tratar disso, juntamente com a Bazuuca(agência). Temos uma marcada em Lisboa, no Sabotage, a 20 de Fevereiro. Estejam atentos à nossa página do Facebook, brevemente divulgaremos as próximas datas. Esperamos por vocês na linha da frente. Rock on!


autor stipe07 às 22:14
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015

Entrevista - Hatcham social

Toby Kidd, Finnigan Kidd e David Claxton são os Hatcham Social, uma banda britânica oriunda da capital Londres e The Birthday Of The World o quarto trabalho do cardápio de um projeto cujas raízes remontam a 2006, altura em que com a benção de Tim Burgess, o líder dos Charlatans e de Alan McGee, patrão da Creation Records, os irmãos Kidd e Claxton, antigo baterista dos Klaxons, deram o pontapé de saída numa trip sonora que tem mergulhado, disco após disco, num universo sonoro recheado de novas experimentações e renovações e que soa sempre poderoso, jovial e inventivo.

Verdadeiramente desconcertante e com uma produção cuidada, que aposta numa elevada dose de reverb e no típico espírito lo fi, The Brithday Of The World é um disco que faz da sua audição um desafio constante, quer devido ao modo como coloca em causa, permanentemente e sem concessões, o típico formato canção, mas também pela amálgama heterogénea de arranjos,samples e sons que rodeiam e sustentam as suas composições.

Na sequência deste mais recente lançamento discográfico dos Hatcham Social, tive o privilégio de poder colocar algumas questões a Toby Kidd, quer sobre o historial e percurso discográfico da banda, quer sobre este espetacular The Birthday Of The World. Confere a nossa conversa...

1. Hello! First of all, thank you for letting me have this opportunity for an interview, which is very flattering for my blog. Throughout almost ten years, Hatcham Social have been experimenting a lot, without abandoning their powerful, jovial and inventive sound. How has it all started and what's the secret formula of your success?
Hi! We are pleased you find joy in the music. 
Hatcham Social started as a reaction against the macho radio-indie that was happening around 2006. We wanted to make something that felt newer and was as female as it was male. We were inspired by the absurdity of things, by literature, art, and children's books. There is an imagination in Where The Wild Things Are or Alice's Adventures In Wonderland that, mixed with books like The Trial or Sartre's short stories creates an odd friction. These are the beginnings of Hatcham Social.  
If we have kept any success, I think it is because we have always felt the need to try out new ideas. And because we believe in following our own instincts and finding something unusual, not in making something for the radio.

 2. Tim Burgess and Faris Badwan are two fans of Hatcham Social and even produced your debut album, You Dig The Tunnel And I'll Hide The Soil. How was it to work with those two prominent figures of British indie rock?
We were always interested in collaboration and working with people who love the music we love and have an idea what we are about. It is always flattering when someone likes your music and wants to work with you. Especially people who you love their music. Faris has made some excellent records, in particular I love the Horrors first record, and Tim Burgess was someone me and Finn listened to growing up! 
 
3. Your music has very particular characteristics and it sounds lustful, spiritual and hypnotic. How would you describe your sound?
Hard question! I think our sound varies. At times I think it is very postmodern and pop and at other times reaching to the sublime dream. I think it is quite introverted and talks a lot about what is inside. I guess we are interested in the idea of beauty, which can feel like a unfashionable idea these days, but for us it means finding something that makes you feel something.
For us we are trying to make good songs, that mean something to us, that don't feel like we have ever heard them before, that feel new and exciting. 

4. You have a very diverse list of instruments in your songs (keyboard, synthesizers, guitars, acoustic guitars and other percussion instruments). How is a typical day of Hatcham Social in a recording studio?
There is not one! Each time we record an album it is totally different. We are very interested in process and how that can develop a sound. Each record will have a method. With The Birthday Of The World we all had ideas we wanted to develop with sounds. A lot were put on across different times, slowly building up the intricacies.

5. In your new record, The Birthday Of The World, you can go from pure psychedelic chaos (in songs like Wondrous Place) to blues rock (Find A Way To Let In Your Sins [Hit Red Cut A Right]) or  a more melancholic pop (Darling). Are you happy with this final result and does it match your initial expectations or did you change your formula as songs were being recorded?
We don't believe in genre, it is dead. We wanted to express ideas as they come, and make them feel something how best they need. An album should have a journey. We wanted the album to fullfill that. So, yeah we have made the album we set out to. But did we plan how it would sound exactly? No, chance comes in and gives you many new places to go when making and many of them you take. Making a record to us is an exploration.
 
6. Can we say that in 2015, with Birthday Of The World, Hatcham Social are at the peak of their career? Where do you want to go with this record?
We would love for it to be heard by everyone in the world and them to play it once a day in celebration of the birthday of the world! 
 
7. And now, to finish, what can we expect from your discography in the future?
I think we have made something that has taken us a lot of work and time and we will let it breath, where we go to next is anyone's guess, we are not in a hurry to make another album.
We have lots of songs getting written and other projects. There is a lyric book with illustrations and extra narrative for the songs, that is planned for next year. And we have an exhibition that should happen with that.
Finn's other band Beds In Parks will be making a record in the new year as well.
Maybe some collaborative stuff. Maybe an EP next year...
Whatever takes our fancy :)
Thanks, Toby


autor stipe07 às 21:28
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Terça-feira, 17 de Novembro de 2015

Bússola - Bússola

Conhecido por algumas deambulações pelo rock e pela eletrónica e que chegaram a incluir a composição de temas para jogos de computador, o leiriense Pedro Santo regressou á sua cidade natal em 2013, também cheio de vontade de criar uma banda, tendo assim nascido a Bússola, um quinteto que se serve da voz, guitarras, acordeão, contrabaixo e bateria para criar canções que vivem num certo cruzamento espetral e meditativo, que pode também ser uma receita eficaz para a preservação da integridade sentimental e espiritual de cada um de nós, duas das facetas que, conjugadas com a inteligência, nos distinguem a nós humanos, dos outros animais.

A Pedro Santo juntam-se neste projeto José Carlos Duarte (bateria), Adelino Oliveira (contrabaixo) e Tiago Ferreira (acordeão) e Nuno Rancho (voz e guitarra). Tudo começou com uma simples demo, que foi sendo trabalhada no verão desse ano de 2013, até se chegar ao produto final que é este Bússola, um EP com cinco canções editadas pela Omnichord Records e que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da folk, nomeadamente uma voz sentida, um dedilhar de cordas vibrante, arranjos de acordeão sublimes e a bateria, o contrabaixo e a guitarra elétrica a darem substância e cor às melodias.

Primeiro passo concreto para um longa duração que deverá chegar aos escaparates no próximo ano, Bússola é, na minha opinião, uma estreia particularmente inspirada, já que assenta numa certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgem nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do alinhamento uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Na verdade, o arsenal instrumental da contemplativa Come Home, que inclui um contrabaixo e as teclas de um acordeão, e o modo como se misturam com as cordas de uma viola, assim como a extrema sensibilidade que escorre do lindissimo registo vocal de Nuno, são sintomáticos da enorme fragilidade sedutora que este EP transpira por todos os poros.

Analisar a música destes Bússola e não salientar a voz de Rancho é desprezar um elemento fulcral da sua criação artística, já que ela torna-se num fio condutor das canções, seja através de um registo sussurrante, ou de uma performance vocal mais aberta e luminosa e que muitas vezes, casando com as cordas, contrasta com a natural frieza das teclas e da percussão, porque expondo-se à boleia de uma folk intimista e sedutora, esta não sobrevive isolada e ganha uma dimensão superior ao abrigar-se num arsenal de cordas que incorporam a densidade e a névoa sombria que esta música exige e que em The End Of time, o momento alto deste EP, ganha contornos superiores de magnificiência e majestosidade.

Uma análise justa a este Bússola só fica completa se não for colocada de parte a componente lírica destas cinco composições. De acordo com a banda, na entrevista que concedeu a este blogue e que podes conferir abaixo, as músicas espelham estados de espirito. Se por um lado estas músicas comprometem e se tornam algo incómodas quando temos de falar sobre elas, por outro são honestas e a verdade é que na escrita das canções, parece ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica de escrever sobre aquilo que existe em redor, em vez de serem inventadas, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais a banda nunca teria à partida de se comprometer

Bússola é de uma subtileza experimental incomum e, mesmo que à primeira audição isso não transpareça claramente, os temas estão carregados de sentimentos melancólicos; Cada música tem sempre algo de pessoal e há agregados sonoros que são já um referencial obrigatório de alguns dos melhores momentos musicais nacionais deste ano e que personificam uma arquitetura sonora que sobrevive num domínio muito próprio e que dificilmente encontra paralelo no cenário musical atual. Espero que aprecies a sugestão...

Bússola

Come Home
Looking For You
Uneasy
One Way Ride
The End Of Time

Antes de nos debruçarmos com algum cuidado no conteúdo de Bússola, o vosso primeiro registo discográfico, começo com uma questão clichê… Como é que nasceu este projeto?

Bússola nasce no verão de 2013 aquando o meu (Pedro) regresso à cidade de Leiria. Trazia comigo um conjunto de canções na guitarra que achei que faziam sentido trabalhar como banda. Assim, gravei uma pequena demo e convidei a malta para montar este projecto. 

Com cinco canções que vão beber a alguns dos fundamentos essenciais da folk, nomeadamente uma voz sentida, um dedilhar de cordas vibrante, arranjos de acordeão sublimes e a bateria, o contrabaixo e a guitarra elétrica a darem substância e cor às melodias, Bússola é, na minha opinião, uma estreia particularmente inspirada. Que tipo de anseios e expetativas criaram, no vosso seio, para este primeiro passo de um percurso que espero que venha a ser longo?

Este é o nosso primeiro trabalho discográfico. Embora seja um EP, depositámos neste disco bastante trabalho. Temos esperança que este disco seja a ponte entre a nossa música e o público, e que seja um teaser para o LP que contamos lançar em 2016.

Olhando um pouco para a escrita das canções, parece-me ter havido uma opção pouco ficcional e quase autobiográfica de escreverem sobre aquilo que vos rodeia, em vez de inventarem, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais nunca teriam à partida de se comprometer? Acertei na mouche ou o meu tiro foi completamente ao lado?

Sim, acertaste na mouche. Conteúdo, acaba por não ser bem uma opção de escrita mas mais um reflexo expontâneo de momentos de reflexão sobre o passado. É raro haver uma ideia para um tema pre-concebida na composição e estas músicas espelham estados de espirito. Se por um lado estas músicas comprometem e se tornam algo incómodas quando temos de falar sobre elas, por outro são honestas, e não fariam sentido doutra forma. 

Confesso que o que mais me agradou na audição de Bússola foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo? Em que se inspiraram para criar as melodias?

A maioria dos temas neste disco nasce de canções na guitarra que são na sua essência  simples. No entanto existe muito trabalho nos arranjos. O processo de compor e trabalhar os arranjos raramente foi  linear ou simples, e houve na grande maioria dos temas deste EP bastante debate e experimentação, inúmeros avanços e recuos. Esta procura e experimentação na sala de ensaios acaba por definir a sonoridade que temos como banda. Se por um lado existe um cunho grande de folk na nossa música, considero que a nossa música não se apresenta de uma forma tão linear, e julgo que esse aspecto nos dá uma sonoridade algo singular.  

Adoro a canção The End Of Time. E o grupo, tem um tema preferido em Bússola?

Sim, também temos uma canção favorita. É o The End Of Time também. :)

Bússola foi produzido por um dos integrantes da banda, nomeadamente o Pedro Santo. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Confrontados com os custos e compromissos que evolvem gravar em estúdios acabamos  por optar por tomar essa decisão logo de início. Mais tarde e devido a alguns atrasos recorremos à ajuda da Suse Ribeiro dos estúdios Valentim de Carvalho que, para além da masterização do album, também misturou o tema Uneasy.

A Omnichord Records é a casa de alguns dos nomes fundamentais do universo sonoro musical nacional. É importante para vocês pertencer a essa família que parece apostar convictamente no vosso trabalho?

Estamos muito gratos em pertencer a esta família. A Omnichord têm sido incansável nos seus esforços para promover inúmeras bandas e o seu trabalho.  É com muito orgulho que vemos o nosso disco agora fazer parte do espólio da editora.


autor stipe07 às 22:55
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015

Gui Amabis - Ruivo em Sangue

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, Gui Amabis regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de três anos depois, está novamente de volta com este lindíssimo Ruivo em Sangue, um trabalho composto e gravado entre São Paulo e Lisboa e que, de acordo com o press release de lançamento, carrega no gene a solidão insólita de caminhar à deriva pelas ruas da capital portuguesa.

Gui Amabis começa a destacar-se no seu percurso discográfico não só pela beleza das suas canções, mas também pela faceta poética e pelo superior dramatismo da sua escrita. Assumindo-se como um letrista que quer passar em cada canção uma mensagem explicitamente e que a mesma seja entendida e decifrada através dos sons que a acompanham, um objetivo que Amabis descreve em mais uma entrevista extraordinária que me concedeu e que podes conferir abaixo, este autor está cada vez mais exímio no modo como retrata o sonho e a realidade, muitas vezes de modo indistinto e com uma carga onírica e fortemente cinematográfica.

Havendo dedicação e gosto na audição da música de Gui Amabis, é fácil criar e imaginar personagens e ações na nossa imaginação à medida que a sua música flui pelos nossos ouvidos, torna-se espontânea a necessidade de recriar interiormente as histórias, muitas vezes autobiográficas, que ele nos conta. De facto, no momento de cruzar as notas com as letras e de modo a exacerbar o ideário das mesmas, o autor olha para este processo como um quebra-cabeças, um jogo, já que quando escreve uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar.

Assim, neste Ruivo Em Sangue, disco em que consta da lista de participações especiais nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral, escutamos esta faceta única da música de Amabis, que apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de o autor não dispensar a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, este novo disco é mais direto, cru, visceral e vibrante. É, claramente, um disco mais rock e que prova que Gui continua a ser um mestre da melodia e um génio criativo, onde transpiração e inspiração se dividem em doses iguais para nos oferecer mais uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Confere, já a seguir, a entrevista que Gui Amabis concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de um ano depois, com este lindíssimo Ruivo em Sangue. Conforme fiz da última vez que te entrevistei, começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as expetativas para este novo trabalho? Continuas a seguir o conselho do teu pai e a não criar expetativas, ou há algo escondido aí dentro de ti, um desejo ou uma meta muito pessoais que tenhas para este disco?

Começo então agradecendo o lindíssimo. Tenho mais vontades que expectativas. Quero tocar mais, a cada apresentação sinto que eu e meus parceiros ficamos mais perto, musicalmente. Por outro lado, como letrista, a vontade é que meu texto seja compreendido e assimilado. Acredito que todo músico quer ser ouvido, se não, acabaria por não emitir sons.

Pelos vistos, este é mais um capítulo da tua forte ligação a Portugal, país onde encontras as tuas raízes, já que, além de Ruivo em Sangue ter sido gravado entre São Paulo e Lisboa, conta histórias inspiradas em passeios solitários pela nossa capital. Será sempre de certo modo inevitável na tua carreira construir pontes sonoras entre os dois lados do atlântico?

Quero muito poder apresentar esse concerto em Portugal, a banda está muito feliz e dedicada à pesquisa musical. Penso em ir  com esse grupo e poder interagir mais com músicos portugueses, quando aí estive fiquei isolado por estar na fase de composição do disco. Portugal faz parte disso, sendo eu metade lusitano não posso pensar de outra forma que não seja essa. Isso acaba por ser marcante no som e no texto.

Continuas a fazer música de modo a retratar momentos da tua vida e a escrever para tentares entender os teus sentimentos?

Sempre escrevo sobre cenários familiares, não costumo inventar coisas. Não sei se tenho um objetivo ao escrever. Tenho me divertido com o jogo de compor, achar a melodia presente em cada frase, deixar que essa revele suas notas e modulações. Os assuntos chegam sem serem chamados.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de não dispensares a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, parece-me que fizeste um disco mais direto, cru, visceral e vibrante. Um disco mais rock, digamos assim… Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, que idealizaste para o álbum inicialmente? E o resultado final correspondeu ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Na resposta acima falo um pouco disso, cada frase tem sua melodia, cada melodia sua harmonia, cada harmonia seu arranjo e cada arranjo sua cor. Tudo está ligado, é um processo mutante e quando vemos está pronto. Geralmente começo sem saber aonde vai dar.

Continuas a ser um mestre da melodia, um génio criativo no momento de cruzar as notas com as letras de modo a exacerbar o ideário das mesmas e na entrevista anterior confessaste que este processo é para ti como um quebra-cabeças, um jogo e que quando escreves uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar. Na hora de te sentares para escrever e de entrares no estúdio para compor, o processo de criação musical continua a ser assim tão fluído e espontâneo, ou com o passar do tempo e o aumento do teu cardápio sonoro, começas a sentir necessidade de ser mais racional e menos espontâneo? Em suma, qual é, neste momento, a percentagem de inspiração e transpiração em tudo isto?

(Risos…) Vejo que já conhece meu processo, pra mim a inspiração vem da transpiração. São muitos testes e erros até soar bem aos meus ouvidos.

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a opção de disponibilizares gratuitamente o teu novo álbum em formato digital. Como surgiu a ideia e porque foste em frente?

Isso se tornou uma prática entre os músicos independentes do Brasil. Fica difícil não disponibilizar o disco sendo que todos os outros o fazem. O disco está em quase todas as plataformas digitais, portanto, se a pessoa quiser comprar ela pode. Deixo essa escolha para o ouvinte.

Graxa em Sal teve direito a um excelente vídeo que ilustra uma pintura da autoria de Biel Carpenter. Como surgiu a inspiração para um tão curioso e interessante vídeo?

Estávamos para lançar o disco e queríamos um video para isso. Pensamos em fazer um Video-letra, mas eu queria fazer algo com Biel, então lembrei dos programas que assistia quando criança, animações em stopmotion. Biel gostou e realizou junto com Antonio Wolff.

Mais uma vez, nos créditos de um trabalho teu constam nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral. Cada vez mais a tua música, apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos, não concordas?

Concordo, gosto das ideias deles, me apresentam caminhos melódicos e harmônicos que não me são naturais. Estão se tornando parceiros muito importantes, além de Samuel Fraga e Richard Ribeiro.

Quando é que podemos ouvir estas músicas ao vivo por cá?

Espero que possamos ir em 2016, estamos a conversar com algumas casas de música em Portugal. Ficaria muito feliz em apresentar, em Portugal, as músicas que aí fiz.

Obrigado mais uma vez pela tua música… Sou cada vez mais teu fã! Abraço…

Obrigado, beijos!


autor stipe07 às 18:28
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2015

The Walks - Fool's Gold

Apenas um ano depois de R, o ep de estreia, os The Walks estão de regresso com Fool’s Gold, o primeiro registo de originais no formato longa duração. Este é um disco que compila todos os temas compostos pelo grupo e que foram editados anteriormente no formato EP e outros que a banda considera importantes para uma caraterização clara da sonoridade deste belo projeto oriundo de Coimbra e formado por Gonçalo Carvalheiro, John Silva, Miguel Martins, Nelson Matias e Paula Nozzari.

Editado pela também conimbricense Lux Records, produzido pela própria banda e por João Brandão, Fool's Gold é um divertido e animado compêndio de canções que nos oferece uma espécie de anti pop, à boleia de um rock alegre e um pouco descomprometido e acelerado. São canções onde o boémio e o sentimentalismo sincero e profundo se misturam e até se confundem, num misto de êxtase, euforia e reflexão, cheias de pormenores que vão além da bateria, do baixo e das guitarras, para abarcar outros instrumentos de percussão e também de sopro.

Para os The Walks o rock não tem entraves, fronteiras e barreiras definidas e a própria banda, no seu seio, com um pragmatismo que se saúda, não busca uma inserção clara com categorias bem definidas desse género sonoro. Se temas como Redefine transpiram alguns detalhes do surf rock sessentista, logo a seguir, em Pleasure And Pain, os The Walks piscam o olho a alguns detalhes do punk rock mais sombrio que começou a fazer escola no final da década seguinte e bastam estes dois temas para se perceber que espontaneidade e naturalidade são conceitos intrínsecos ao processo de criação sonora no seio do grupo e que o momento é o que define um resultado final quase sempre inacabado até ao fim do prazo de entrega e divulgação de um produto final. Mesmo ao vivo, estas canções terão a particularidade de possuir uma flexibilidade tal que podem receber e alterar determinados arranjos, não só em função do espaço, como do próprio espírito da banda e do público no instante, sem que a essência de cada uma se altere.

Consistentes e artisticamente adultos, os The Walks são além de uma lufada de ar fresco, já uma certeza no panorama musical nacional. Não embarcam em rodeios e floreados desnecessários no momento de pegar nas guitarras inspiradas e arrojadas e num baixo denso e uma bateria dominadora, para criar um rock vigoroso, pujante e musculado, que merece a tua dedicada audição. Confere a entrevista que a banda concedeu a esta publicação, respondida pelo Gonçalo e espero que aprecies a sugestão...

Apenas um ano depois de R, o ep de estreia, os The Walks estão de regresso com Fool’s Gold, o primeiro registo de originais no formato longa duração. Aposto que a banda está numa fase criativa particularmente profícua. Antes de mais, e para quem não ouviu o disco anterior, quais são as principais diferenças entre os dois trabalhos?

Fool's Gold embora seja o nosso primeiro álbum, reúne todos os temas que compusémos desde o início do projecto. Fizémos questão de incluir temas que não ficaram registados no EP de estreia mas que para nós são importantes e que marcam sem dúvida a nossa sonoridade.

Claro que há temas que nunca tocámos ao vivo e que fazem parte da mais recente fase criativa.

Se compararmos os dois registos R e Fool's Gold, este último conta com um maior trabalho de produção e arranjo dos temas.

A vossa sonoridade é uma espécie de anti pop, um rock alegre e um pouco descomprometido e acelerado, cheio de pormenores que vão além da bateria, do baixo e das guitarras, para abarcar outros instrumentos de percussão e instrumentos de sopro. Concordam com esta descrição generalista? Quais são as vossas maiores influências?

Quando compomos os temas não nos preocupamos em encaixá-los numa ou noutra categoria.

À medida que os vamos trabalhando adicionamos elementos que julgamos enriquecer os temas e que nos permitem estar mais perto da sonoridade que idealizámos para cada um deles.

Sentimos que por vezes os pequenos detalhes podem fazer a diferença e esforçamo-nos para que isso aconteça.

As influências individuais de cada um acabam por se reflectir no resultado final e variam um pouco com aquilo que estamos a ouvir no momento ou com a fase que estamos a atravessar. Tem sido um processo natural e espontâneo.

Se temas como Redefine transpiram alguns detalhes do surf rock sessentista, mas logo a seguir, em Pleasure And Pain, piscam o olho, na minha opinião, a alguns detalhes do punk rock mais sombrio que começou a fazer escola no final da década seguinte, pode-se dizer que o rock dos The Walks não conhece fronteiras nem entraves?

Como referimos anteriormente, tentamos que o processo criativo não fique espartilhado em rótulos ou categorias.

Obviamente que quando compomos há influências que surgem de forma natural e não colocamos entraves a que isso aconteça, desde que todos se sintam confortáveis e que faça sentido no que estamos a trabalhar.

O disco foi produzido pela banda e por João Brandão. A vossa participação direta no processo de produção foi uma imposição vossa, logo desde o início, ou acabou por suceder com naturalidade?

Desde o EP que estabelecemos uma relação de empatia pessoal e profissional com o João e o Cláudio, e por isso o trabalho de produção colaborativo acaba por surgir naturalmente.

Não nos coibimos de dar as nossas sugestões, de dizer o que gostamos ou não e estamos perfeitamente abertos a que eles também o façam. Tudo resulta melhor quando são várias cabeças a trabalhar para o mesmo objectivo.

Adorei Lost In The Crowd. E para a banda... Há uma canção preferida neste álbum? 

A Lost in the Crowd foi uma das músicas que maiores restruturações sofreu em estúdio. No final ficámos bastante satisfeitos com o resultado e também o consideramos um dos temas fortes do disco. Claro que pessoalmente cada um acaba por ter a sua preferida mas, o tema que encerra o disco, Inside Out está na lista dos mais votados. É um tema pautado por vários momentos, um dos últimos que criámos e que aponta numa direcção um pouco diferente do que até ali tínhamos feito.

Além das canções, impressionou-me o conteúdo e a originalidade contrastante do vídeo do single Clockwork, realizado pelo coletivo We Are Portuguese. Esta componente visual é também uma aposta forte dos The Walks?

Sem dúvida. Desde a fase inicial que temos uma certa preocupação estética e visual por acharmos que pode reforçar a mensagem a transmitir.

No caso concreto do vídeo de apresentação de Clockwork procurámos jogar um pouco com os contrastes, resgatar os diversos tipos de dança dos seus próprios estilos e trazê-los para o nosso. A ideia pareceu-nos interessante, mas julgamos que o resultado final a superou.

A conimbricense Lux Records é uma lufada de ar fresco no panorama musical nacional; Tem sido importante para os The Walks este casamento?

Claro que sim. A Lux esteve connosco desde o início e tem sido um pilar importante para a divulgação e comercialização do nosso trabalho.

Tentamos não desiludir quem aposta em nós e a aliança sai reforçada com o lançamento deste longa duração.

Como têm corrido os concertos de promoção ao disco? Onde é que os leitores de Man On The Moon vos podem ver e ouvir nos próximos tempos?

Os concertos oficiais de apresentação iniciaram-se no Sabotage em Lisboa e no Salão Brazil em Coimbra, respectivamente a 9 e 10 de Outubro. Todas as novas datas serão divulgadas na nossa página do facebook, mas esperemos apresentar Fool's Gold no maior número de palcos possível.

Os concertos de preparação têm corrido da melhor forma e isso deixa-nos motivados para o futuro que se avizinha.

 


autor stipe07 às 18:31
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2015

Few Fingers - Burning Hands

Nuno Rancho, músico dos Dapunksport e dos Bússola, colaborador dos Indignu, líder dos Team Maria e já com três dicos a solo e André Pereira,que tem acompanhado os Ultraleve, os Team Maria e os Quem É O Bob? são a dupla que dá vida aos Few Fingers, dois cúmplices, amigos e antigos vizinhos que já comungam musica e projetos há quase duas décadas. Few Fingers acaba por ser uma consequência óbvia de tão estreita ligação entre dois músicos bastante criativos e Burning Hands, um álbum que viu a luz do dia a vinte e oito de setembro, à boleia da Omnichord Records, o novo passo da dupla rumo ao merecido estrelato.

Cheio de canções com uma sonoridade indie folk particularmente aconchegante e sedutora, conduzidas por uma Lap Steel Guitar, o principal elemento instrumental agregador do disco, Burning Hands é eminentemente acústico e, conforme indica a banda na entrevista que me concedeu e que podes apreciar a seguir a esta crítica, tem um forte pendor orgânico, simples e despretencioso, debruçando-se em algo tão simples como aquele momento do dia em que as nossas tarefas e obrigações ficaram para trás e é o momento de fazer um balanço sobre tudo aquilo que vivemos. Curiosamente, ou talvez não, a simplicidade intimista do vídeo de From Pale To Red, o single já retirado do trabalho, da autoria de Tiago Gomes, é, na minha opinião, particularmente encantadora e além de clarificar a cumplicidade que existe entre ambos, mostra-nos como podemos fazer esse exercício reflexivo, através de um vídeo tão bonito e profundo que parece estabelecer um firme propósito estético no ideário artístico atual e futuro dos Few Fingers, em que os filmes das canções irão ser sempre pensadas de acordo com o conteúdo das mesmas.

Maioritariamente pensado e escrito pelo Nuno e tocado pelo André, este é um álbum dominado então pelo esplendor das cordas, acústicas ou eletrificadas e o seu alinhamento oferece-nos uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles vão surgindo nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de Burning Hands uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. O álbum contém um açúcar muito próprio e um pulsar particularmente emotivo e rico em sentimento, não deixando assim, em nenhum instante, de ser eficaz na materialização concreta de melodias que vivem à sombra de uma herança natural claramente definida e que, na minha opinião, atinge um estado superior de consciência e profundidade nos acordes únicos e lindíssimos da confessional Our Own Holidays.

Burning Hands é alma e emoção traduzidas à voz e às cordas, como documento sonoro ajuda-nos a mapear as nossas memórias e ensina-nos a cruzar os labirintos que sustentam todas as recordações que temos guardadas, para que possamos pegar naquelas que nos fazem bem, sempre que nos apetecer. Basta deixarmo-nos levar pelos sussurros da voz, para sermos automaticamente confrontados com a nossa natureza, à boleia de uma sensação curiosa e reconfortante, que transforma-se, em alguns instantes, numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Espero que aprecies a sugestão...

Nuno Rancho e André Pereira, a vossa trajetória musical até à formação dos Few Fingers e o nascimento de Burning Hands, este vosso fabuloso disco de estreia, aconteceu e foi passada, no caso do Nuno, em participações em bandas como os Dapunksport, os Bússola e os Tema Maria, além de trabalhos a solo e colaborações com os Indignu e, no que que concerne ao André, a participação nos Ultraleve, Tema Maria e nos Quem é o Bob. Além de saltar à vista uma provável coexistência nos Tema Maria, de que modo é que os astros conjuraram para que fosse possível unirem esforços e dessa união feliz nascer os Few Fingers?

Nuno Rancho: Éramos praticamente vizinhos, conhecemo-nos quando começámos a fazer música há uns 15 anos atrás, tivemos na altura numa banda juntos mas rapidamente enveredamos por outros projectos separadamente, depois de 2008 a 2012 voltamos a juntar-nos com os Team Maria onde lançamos um álbum e o ano passado desafiados pela Omnichord Records gravamos um tema inédito (From Pale To Red) para a compilação Leiria Calling, gostamos imenso da canção e achamos que faria todo o sentido gravar um álbum que seguisse a mesma linha estética.

E agora uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as vossas expetativas para este Burning Hands?

Esperamos reacções positivas e que as pessoas consigam ouvir o álbum de uma ponta a outra sem passar faixas à frente. Depois de ouvirem o álbum queremos que as pessoas nos procurem ao vivo.

Disco dominado pelo esplendor das cordas, acústicas ou eletrificadas, confesso que o que mais me agradou na sua audição foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de Burning Hands uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, seja como for, em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Desde o inicio sabíamos que queríamos fazer canções com uma sonoridade folk onde a Lap Steel Guitar tivesse um papel preponderante, há canções em que isso se nota menos mas foi sempre essa a linha condutora, queríamos fazer um disco acústico, maioritariamente orgânico virado para as canções.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, quer orgânica, quer eletrónica, e também a criatividade com que selecionaram os arranjos, gostei particularmente do cenário melódico destas vossas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que se inspiram para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota, todos juntos e depois existe um processo de agregação?

Todas as canções do álbum são inicialmente ideias minhas que apresentava ao André, algumas canções já completas com estruturas e letras definidas, outras apenas esboços que depois montamos em conjunto, posteriormente com a canção já estruturada todo o instrumental do álbum ficou a cargo do André que gravou todos os instrumentos.

A simplicidade do vídeo de From Pale To Red é, na minha opinião, particularmente encantadora e clarifica a cumplicidade que existe entre ambos. Tomando como ponto de partida este vídeo tão bonito e profundo, diria até, existe no ideário artístico atual e futuro dos Few Fingers, um propósito firme e um plano já definido quanto ao rumo a tomar acerca da vossa componente visual, nomeadamente os filmes que ilustram os vossos singles, ou será tudo pensado e decidido no momento consoante as circunstâncias?

Para o video de From Pale To Red decidimos confiar na visão do nosso amigo Tiago Gomes,  pedimos-lhe um video simples e intimista. Com uma produção completamente amadora o video acabou por superar as nossas expectativas, as imagens abraçam a canção na perfeição. A narrativa do próximo video clip será completamente diferente, os vídeos serão sempre pensados conforme a canção.

Burning Hands foi misturado e produzido por ambos. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Nunca pensamos na possibilidade da mistura e produção ser feita por outra pessoa, à medida que fomos trabalhando no álbum fomos percebendo que estávamos a ir no caminho certo e deixamo-nos ir até ao produto final. Apesar disto não pomos de parte a possibilidade de no futuro essas tarefas serem realizadas por outra pessoa.

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a simplicidade do artwork de Burning Hands. Como surgiu a ideia e qual a razão? Caso exista alguma explicação plausível, além de uma possível relação com o nome da banda e do próprio disco...

A ideia do artwork vem do nome do álbum e também do nome da banda. Não queremos entrar em grandes explicações, queremos deixar em aberto, que criem a vossa própria historia ao olharem para a capa e ao juntarem os elementos da mesma.

Adoro a canção Our Own Holidays. Os Few Fingers têm um tema preferido em Burning Hands?

Neste momento a Forward March é a canção que gostamos mais, talvez por ter sido a ultima a entrar no álbum.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?

A maior parte das bandas e artistas que me influenciam cantam e Inglês, não me imagino a cantar noutra lingua.

O que vos move é apenas o rock, a folk e a indie pop experimental ou gostariam ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico dos Few Fingers?

Queremos começar já a trabalhar no próximo álbum a ideia é continuarmos a fazer canções com guitarra acústica e Lap Steel, o folk será sempre a base dos Few Fingers.

Para terminar, mais uma curiosidade… Quais são as três bandas atuais que mais admiram?

Father John Misty, Arcade Fire, Radiohead.


autor stipe07 às 18:11
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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2015

Benjamim - Auto Rádio

Depois do Walter Benjamin, o Luis Nunes resolveu ser só Benjamim, escrever em português, montar arraiais na pacatez de Alvito, deixando Londres para trás e nessa linda vila alentejana montou um estúdio de gravação, por onde têm passado alguns músicos e projetos nacionais que têm merecido amplo destaque por cá, neste espaço de crítica e divulgação sonora.

Benjamim também abriu as hostilidades em relação à sua nova carreira a solo e Auto Rádio surge como o primeiro passo de um percurso cheio de anseios e expectativas e que até já resultou numa espécie de Volta a Portugal, materializada numa sequência de concertos de norte a sul do nosso país, durante trinta e três dias seguidos e que, nas palavras do próprio Benjamim, foi a digressão mais extensa e intensa que já aconteceu em Portugal, tendo passado por festas populares, associações culturais, festivais, bares, esplanadas, no meio da rua, num castelo, coretos e tabernas onde Benjamin tocou para todos os tipos de público que se pode encontrar. Gonçalo Pôla, amigo do músico, encarregou-se do registo foto-videográfico desta empreitada e elaborou um diário de estrada, um documento visual e sonoro precioso, não só para a percepção mais nítida do conteúdo musical e conceptual de Auto Rádio, mas também como documento de estudo de uma outra realidade muitas vezes ignorada do universo dos concertos no nosso país e de como é possível conceber espectáculos de música nos locais mais inusitados.

Antes de olhar com algum cuidado para o alinhamento de Auto Rádio é interessante elucidar acerca das motivações e das fontes de inspiração de doze canções que misturam rock, folk e a indie pop de cariz mais experimental. De facto, Auto Rádio debruça-se sobre as memórias que Benjamim guarda de relatos que o seu pai fazia do tempo que passou em Angola, de onde veio após a revolução dos cravos e, mais recenteemnte, de algumas histórias que Quinito, um amigo alentejano de Benjamim, lhe confidenciou, dos tempos que passou na Guiné, onde esteve destacado como militar no tempo da guerra colonial. Depois, a crise, relatos sobre a Invicta de onde a mãe é natural, o amor e carros a acelerar pela marginal de uma qualquer cidade são também ideias expostas com enorme bom gosto, uma ímpar sensibilidade e um intenso charme que parecem não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um inconfundivel sentimento de qualidade, ainda maior pela peça em si que este disco representa, principalmente para o autor.

Benjamim confessa que as suas influências vão do Duo Ouro Negro à Lena d'Água, passando pelos Beatles, os Beach Boys e Bob Dylan. Influências à parte, confesso que o que mais me agradou na audição de Auto Rádio foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Na verdade, temas como Eu Quero Ser o Que Tu Quiseres e Do Céu e da Terra, estão cobertas por uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis e depois, o bom gosto dos arranjos de cordas de O Quinito foi para a Guiné e a criatividade ímpar de Metereologia, explicam-se devido aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz que a canção toma e nas sensações que transmite.

Disco extraordinariamente jovial, que seduz pela forma genuína e simples como retrata eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, Auto Rádio está imbuído de uma enorme beleza melódica e estilística. É um documento que se escuta com enorme fluidez, onde existe um encadeamento claro entre os vários temas e uma noção de sequencialidade única, mesmo aqueles que parecem opostos no conceito e na ideia que procuram aflorar. Variado, portanto, nas temáticas que aborda, leva-nos à mesma, num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie-folk-surf-suburbano, feito por um dos mestres nacionais de um estilo sonoro com nuances e características muito particulares. Confere a entrevista que Benjamim concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...

Eu Quero Ser O Que Tu Quiseres

Tarrafal

Sintoniza

Os Teus Passos

O Quinito Foi Para A Guiné

O Sangue

Meteorologia

Volkswagen

Rosie

Do Céu E Da Terra

Auto Rádio

O Exílio

Depois do Walter Benjamin, o Luis Nunes resolveu ser só Benjamim, escrever em português, montar arraiais na pacatez de Alvito, deixando Londres para trás e nessa linda vila alentejana montar um estúdio de gravação, por onde têm passado alguns músicos e projetos nacionais que também tenho destacado no meu blogue e que falam sempre muito bem do tempo que passaram aí contigo. Agora, com uma banda, chegou a vez de olhares para a tua própria carreira e Auto Rádio surge como o primeiro passo de um percurso para o qual já criaste algum tipo de anseios e expetativas?

O primeiro passo surgiu em Dezembro com a morte do Walter Benjamin. Tinha de me libertar das amarras de um projecto que tinha há muito tempo e que, com o tempo, foi deixando progressivamente de fazer sentido, principalmente nesta fase em que voltei a morar em Portugal. As expectativas eram muitas mas mais no sentido dos desafios que toda esta mudança iria despertar, do que em termos de recompensa.

Antes de olharmos para o conteúdo de Auto Rádio deixa-me perguntar-te… Porque resolveste fazer uma espécie de Volta a Portugal, materializada numa sequência de concertos de norte a sul do nosso país, durante trinta e três dias seguidos?

Por muitas razões. Em primeiro lugar queria levar a música às pessoas, aproveitando agora o facto da mensagem das canções ser muito mais directa por causa da proximidade da língua, em segundo lugar queria aprender a cantar estas canções e habituar-me à mudança de língua, queria ser confrontado com todos os meus medos de frente – mudar de inglês para português é bem mais difícil do que parece. Por último, queria fazer algo que nunca tivesse sido feito e poder começar esta nova fase da minha vida com força e perceber como é que as pessoas reagiam às canções, independentemente do contexto. Ainda não conheci ninguém que se lembre de uma tour tão extensa e intensa em Portugal. Tocámos em festas populares, associações culturais, festivais, bares, esplanadas, no meio da rua, num castelo, coretos e tabernas para todos os tipos de público que se pode encontrar. Foi a viagem mais fixe que fiz com amigos – poder aliar a música a isso é um privilégio.

E como surgiu a ideia da presença do fotógrafo Gonçalo Pôla, que tem a cargo o registo foto-videográfico da empreitada e a elaboração de uma espécie de diário de estrada, que podemos acompanhar numa página da internet?

O Gonçalo é a pessoa que acompanhou este projecto mais de perto desde o início, foi a pessoa com quem mais desabafei acerca de todo este processo, algo que não foi mesmo nada fácil. Também foi ele que fez o vídeo de “Os teus passos” e foi juntos que começámos a imaginar a Volta a Portugal em Auto Rádio. Eu e o Gonçalo temos vários projectos sonhados que queremos concretizar, um deles é fazer um filme e isso tornou a presença dele absolutamente obrigatória nesta aventura toda.

Olhando então para o disco… De memórias remotas do Portugal colonial, que te chegaram aos ouvidos pelo teu pai, que regressou à metrópole em 1974 e por filmes super 8 que ele trouxe na bagagem, seja pelas histórias de um amigo teu alentejano chamado Quinito, que lutou na Guiné, ou as paisagens de Portugal, do Porto e até o amor, é imenso e intenso o ideário lírico e sonoro de Auto Rádio. É simples esta opção pouco ficcional e quase autobiográfica de escreveres sobre aquilo que te rodeia, em vez de inventares, na íntegra, histórias e personagens imaginárias, com as quais nunca terás à partida de te comprometer?

Eu gosto de inventar histórias aldrabando as minhas. Acho que nunca é simples escrever, seja sobre uma pessoa que conheces ou sobre o teu carro, mas eu acabo sempre por me comprometer com as personagens das minhas canções. Como é que alguma vez poderia agora vender o meu carro? Não dá, já está no coração.

Achei curiosas algumas das influências sonoras que referes, nomeadamente nas redes sociais, que vão do Duo Ouro Negro à Lena d'Água, passando pelos Beatles, os Beach Boys e Bob Dylan. Influências à parte, confesso que o que mais me agradou na audição de Auto Rádio foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muito de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, aquilo que idealizaste para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final, ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Eu queria um disco absolutamente bipolar, isto sou eu a voltar ao zero, a reaprender a escrever canções e a experimentar com todos os sons que tinha à mão. Mudei a minha vida toda e construí o meu estúdio só para poder fazer isso. Claro que a cada dia que passou as coisas mudaram, essa é a parte mais entusiasmante de fazer um disco – é uma viagem em que o caminho nunca é muito claro, apesar de o destino já estar traçado pelas canções.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, o encadeamento e a sequencialidade entre as músicas e também a criatividade com que selecionaste os arranjos, gostei particularmente do cenário melódico destas tuas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que te inspiraste para criar as melodias?

Acho que me deixei ir, quis fazer canções pop que é o que gosto de fazer. Inspirei-me em milhares de coisas diferentes, desde histórias a discos que ouço. Acho que a história acaba por influenciar  as melodias, a música tem que bater certo com o que dizes senão ninguém acredita.

Auto Rádio foi produzido por ti. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição tua? E porque a tomaste?

Bem, eu sou produtor de outros discos e produzir é uma coisa que eu adoro fazer, apesar de nem sempre ser fácil estar a cantar e a produzir o mesmo disco. Mas este foi um disco mesmo difícil de deitar para fora, houve muita resistência à mudança por parte das pessoas que normalmente acompanhavam o Walter e as ideias que andavam na minha cabeça tinham que ser executadas exactamente de acordo com aquilo que eu imaginava. Para isso tive de tomar as rédeas do projecto com pulso de ferro e muita determinação, a certa altura deixei de mostrar as canções e comecei a ignorar por completo as opiniões de quase toda a gente. Senti que se caso eu fosse contra uma parede, então seria de acordo com as minhas convicções claras, sem pedir a culpa emprestada. Isso também era fundamental para o início desta fase, queria lançar uma semente que era minha para no futuro poder construir a partir daí. Dito isto, tive toda a ajuda de toda a gente, mesmo dos mais cépticos. É absolutamente normal um processo deste tipo gerar controvérsia e só assim é que é fundamental criar. O António Vasconcelos Dias, que toca comigo, foi um braço direito fundamental no que toca à produção, não só pela ajuda mas como por ter acreditado e dado uma força enorme. Bem como o Gonçalo e o Nuno Lucas. O Joca (João Correia, bateria) estava mais desconfiado e é por isso que eu o adoro, obrigou-me a provar-me a mim próprio o tempo todo. Ele é um músico do outro mundo e a opinião dele não dá para ignorar, ainda para mais é como um irmão e é absolutamente sincero com tudo.

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a simplicidade do artwork de Auto Rádio, que, pelos vistos, mostra o Volkswagen referido no oitavo tema do disco. Como surgiu a ideia e a oportunidade de contar com o João Paulo Feliciano, da Pacata Discos na conceção do artwork?

Bem, o João Paulo é o líder da Pataca Discos e se alguém percebe de artwork é ele. Portanto a ideia e a oportunidade eram as coisas mais naturais do mundo. Havia outra ideia para capa que foi discutida com alguma paixão mas que ficou pelo caminho. Confesso que gosto de estar numa editora em que se discute porque as coisas são feitas com sangue, todos nós damos tudo para que as coisas fiquem de acordo com o que acreditamos. É uma editora de carolas e isso vale tudo no mundo, é cinematográfico. O João Paulo é um grande amigo há muitos anos e é uma honra poder tê-lo como editor e poder contar com a mão dele para o artwork. Como não?

Por falar em Pacata Discos, esta editora é a casa de alguns dos nomes fundamentais do universo sonoro musical nacional. É importante para ti pertencer a esta família que vai do jazz, ao fado, passando pela pop, o indie rock e a eletrónica?

Claro. Somos uma família bem alargada. Eu adoro poder ter amigos e colegas tão talentosos com quem tanto aprendo e que têm sempre disponibilidade em ajudar com o seu talento infinito. Isto para além de que estares num catálogo forte é importante e sinto que foi algo que fomos construindo juntos.

Adoro a canção O Quinito Foi Para A Guiné. Aliás, quando estiveres novamente com ele por aí, conta-lhe que o autor deste blogue lhe agradece particularmente pelo modo como te inspirou nesta música. E tu, tens um tema preferido em Auto Rádio?

Vou dizer-lhe, ele vai ficar vaidoso. Vai mudando mas durante muito tempo foi a Volkswagen. É um bocado como escolher o filho preferido, é difícil e ainda não tenho distância suficiente.

Para terminar, o que te move é apenas esta espécie de mistura entre rock, folk e a indie pop experimental, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico do Benjamim?

Eu gosto de não ter preconceitos em relação à música. Durante muito tempo fui posto na prateleira da folk por causa de um disco do Walter Benjamin e se há coisa que eu pretendo é fazer uma quantidade enorme de discos diferentes. Eu quero experimentar tudo.

Obrigado pela entrevista e, principalmente, pela tua música!

Obrigado eu! Um abraço!


autor stipe07 às 18:10
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Segunda-feira, 10 de Agosto de 2015

Country Playground - Turdus Merula

Editado no passado dia vinte de julho pela Preguiça Magazine, Turdus Merula é o trabalho de estreia da dupla Country Playground, um projeto com raízes em Leiria e formado por Rodrigo Cavalheiro, baterista e vocalista dos Born a Lion e Fernando Silva, ex-guitarrista dos leirienses e extintos Canker Bit Jesus, dois inspirados músicos que de Neil Young a Buffallo Springfield e passando por Townes Van Zandt, Johnny Cash, Rolling Stones ou os Eagles, procuram recriar a textura sonora pura e crua do fim dos anos sessenta, início dos setenta, dando um cunho pessoal mais eléctrico e forte, de modo a replicar aquilo que eles próprios batizaram de electric farmer rock.

Liricamente bastante sentimental e debruçando-se sobre temas tão comuns e nossos, como a dor, o amor, a amizade, a perda e a procura e o reencontro, Turdus Merula contém sete canções que retrata muitas experiências pessoais dos autores e que trazem na bagagem uma carga emocional forte.

Gravado no verão de 2014, este disco começou por ser uma edição de autor digital, mas a Preguiça Magazine aceitou, felizmente, dar-lhe uma edição física, num trabalho onde o rock e a country dançam entre si com particular deleite e assombro de modo a replicar uma sonoridade crua, rude e pura, sem artifícios, mas também com um curioso travo pop, nomeadamente na luminosidade melódica. É, no fundo, um indie rock, animado e dançável, com algum fuzz nas guitarras que debitam distorções vintage, feito com entrega e devoção e de onde se destacam Song for Neil, uma homenagem desinteressada e sentida a Neil Young, uma influência muito grande para a dupla, o blues rugoso, atormentado e sombrio da guitarra de Grandpa's Grave e o festim inebriante da luminosidade que orienta a melodia de My Last Love Song. Seja como for, todas as sete canções são explosivas e há uma tensão poética sempre latente, sendo certamente propositada a busca do espontâneo e do gozo, se é que é possível falar-se em estética na música. Pelo menos a mim custa-me... Confere a entrevista que adupla concedeu  a este blogue e espero que aprecies a sugestão...

Grandpa's Grave

Sand Woman

My Last Love Song

Seas Of Blood

Song For Neil

Down To Mexico

Golden Field

Os Country Playground acabam de abrir as hostilidades com Turdus Merula, sete canções gravadas há cerca de um ano e que pelos vistos estavam na gaveta, à espera que alguém as editasse fisicamente, já que havia sempre a possibilidade de edição em formato digital, em nome próprio. Antes de conversarmos um pouco sobre o trabalho, vamos apontar agulhas para a dupla. Os Country Playground surgiram por geração espontânea, foi uma ideia luminosa de dois amigos após uma noite de copos, por exemplo, ou foi fruto de um período de gestação bastante ponderado? Como surgiu a possibilidade de fazerem música juntos?

Os Country Playground começaram como um projeto do Rodrigo por volta de 2008. O Rodrigo tinha escrito umas músicas com a mulher e pretendia apresentá-las num formato simples e intimista, apenas acompanhado por uma guitarra acústica. Após alguns concertos, o Rodrigo começou a desmotivar-se porque muitas vezes não conseguia transmitir o registo intimista das canções. Também não se sentia muito confortável com a guitarra, que não é o seu instrumento “natural”. Por estes motivos, resolveu arrumar o projeto até que em 2014 foi convidado para dar um concerto. Nessa altura ele quis mudar um pouco as coisas, alterar a sonoridade para algo mais cru e sujo e mais próximo do rock. Foi aí que ele se lembrou de me ligar para saber se eu estaria interessado em experimentar tocar com ele – eu passava a assumir a guitarra eléctrica e algumas vozes, e o Rodrigo a bateria e a voz principal. Já nos conhecíamos há muito tempo, mas nunca tínhamos tocado juntos. Felizmente entendemo-nos às mil maravilhas e aí surgiram os Country Playground como os conheces hoje.

E Country Playground porquê? Por acharem que a aparente ligeireza e lisergia da vossa sonoridade rock de influência country tem algo de natural e rural, digamos assim, e que vocês chamam de electric farmer rock, ou é um nome completamente desfasado da componente sonora do projeto?

Este nome descreve muito bem o que nós fazemos, mas por acaso até surgiu de uma brincadeira. No Festival Sudoeste 2001, o Rodrigo lembrou-se de criar uma brincadeira para animar a malta nas horas vagas. Era uma espécie de tábua de equilíbrio, mas em vez de uma tábua, era um tronco que se movia em cima de outros dois troncos. Basicamente, a diversão consistia em subir para o tronco de cima e fazê-lo rodar para frente e para trás, sem cair – e passar horas nisto. Foram muitos bate-cu e risada à conta disso: havia gente que acordava cedo para ir praticar, outros que até chegaram atrasados a concertos por causa da brincadeira. O Rodrigo batizou este passatempo de Country Playground, mas ficou com o nome sempre na cabeça sabendo que se poderia adequar a um projeto futuro.

Olhando então agora para Turdus Merula… Bateram a muitas portas antes de verem o disco editado? E foi fácil convencer a Preguiça Magazine?

Para ser sincero, não batemos a muitas portas. Falámos com as editoras de Leiria, que são de pessoal que nós conhecemos e com quem nos damos bem, mas por diferentes motivos não foi possível editarem. Nós estávamos até mais virados para fazer uma edição digital, porque o formato que realmente queríamos (vinil) era extremamente dispendioso e arriscado. Quando nos preparávamos para editar em formato digital fomos ter com a Preguiça Magazine para nos ajudarem com a promoção do trabalho. A Preguiça Magazine tem bastante expressão a nível local, é seguida por muita gente e permitiria divulgar o lançamento do trabalho. Quando reunimos com a Paula Lagoa da Preguiça Magazine fomos surpreendidos pela vontade deles em editarem o nosso trabalho. Ficámos muito contentes, porque seria a primeira edição de música da Preguiça e porque eles acreditaram cegamente em nós desde o primeiro momento (nem quiseram ouvir o disco!!!). É claro que eu penso que as imperiais que bebemos durante a nossa conversa podem ter influenciado um pouco os desenvolvimentos, mas gosto de acreditar que não.

Como deverão compreender, é natural escutar-se este fantástico trabalho e sermos transportados para um indie rock que pisca bastante o olho a sonoridades que foram surgindo no outro lado do atlântico no início da segunda metade do século passado, com um certo cariz lo fi, mas também com um curioso travo pop, nomeadamente na luminosidade melódica. Sendo assim, acho que um dos vossos maiores atributos foi ter sabido pegar em possíveis influências que admiram e dar-lhes um cunho muito próprio, uma marca vossa e distinta. Como descrevem, em traços muito gerais, o conteúdo sonoro de Turdus Merula?

O Turdus Merula é um disco rock, de forte influência country, com uma sonoridade crua, rude e pura – sem artifícios. Procurámos captar o som mais próximo possível do que fazemos ao vivo. Eu e o Rodrigo gostamos bastante de Neil Young, Buffallo Springfield, Townes Van Zandt, Johnny Cash, Rolling Stones, Eagles... e procurámos um pouco recriar a textura sonora pura e crua do fim dos anos 60, início dos 70. É claro que lhe demos o nosso cunho pessoal, mais eléctrico e forte. De qualquer das formas, em termos líricos, é um disco bastante sentimental. Fala de dor, amor, amizade, perda, procura e reencontro. Retrata muitas experiências pessoais e tem uma carga emocional forte. No fim, ficámos bastante satisfeitos com o resultado final, uma vez que tanto as canções como a própria sonoridade do álbum ficaram muito próximas do que idealizámos no início do processo de gravação.

Este indie rock, animado e dançável, com algum fuzz nas guitarras que debitam distorções vintage e com um baixo encorpado, é mesmo o género de música que mais apreciam?

Nós não temos baixo – nem no disco, nem ao vivo. De qualquer forma o nosso som de guitarra, além de sujo é algo grave para compensar a ausência desse instrumento. Sim, nós gostamos muito deste tipo de música, é talvez o tipo de som que ouvimos mais atualmente. Mas também temos outros gostos. Penso que além do universo country-rock, também gostamos do rock puro – sem qualquer tipo de restrições. Eu até gosto de algumas coisas que roçam o metal e o industrial. Basicamente, nós gostamos de música... de preferência que seja boa e feita por pessoas com coração e entrega.

Quais são as vossas expectativas para Turdus Merula? Querem que este trabalho vos leve até onde?

Até este momento estamos bastante contentes com que está a acontecer. O álbum está a ser bem aceite por muita da comunicação social. Para nossa surpresa está a passar em bastantes rádios locais por todo o país e o feedback que tenho recebido quando falo com pessoal da imprensa é bastante positivo. Nós já tínhamos um pouco esse feedback cá na nossa zona, mas é mais surpreendente quando o recebes de pessoas que não conheces e que ainda nem te viram ao vivo – só ouviram o disco. Esperamos que este disco nos permita tocar o máximo pelo país fora. Isso é o que eu e o Rodrigo mais gostamos de fazer. Ter a oportunidade de mostrar como são os Country Playground ao vivo e provocar reações (esperamos que positivas) a quem nos vá ver e ouvir. Também esperamos que este disco seja o primeiro de muitos... já temos material pronto para um segundo. Mas cada coisa a seu tempo.

Penso que a vossa sonoridade poderia ser bem-sucedida nos países que abrem os braços ao chamado indie rock mais clássico. Os Country Playground estão, de algum modo, a pensar numa internacionalização, ou é apenas Portugal importante para o futuro da vossa carreira?

Nós gostamos de pensar na possibilidade da internacionalização dos Country Playground. Penso que até podíamos ter uma certa facilidade em termos logísticos, uma vez que somos só dois e estamos muito orientados e focados no que estamos a fazer. No entanto, somos realistas e temos a noção que ainda nos falta percorrer muito caminho para pensarmos nisso. Agora estamos mesmo interessados em dar a conhecer a banda por todos os cantos de Portugal. Ainda não demos nenhum concerto fora da zona de Leiria e estamos mesmo expectantes para ver as reações fora de “casa”. Acho que ainda temos que provar o que valemos a muita gente por cá.

Acho curioso o artwork do disco e muito bem conseguido, com a cover a cargo de Ana Sousa. O nome do disco refere-se è espécie da ave e, independentemente da resposta a essa questão, há alguma relação entre o conteúdo das canções e o conceito do projeto com o artwork?

O melro preto é um animal lindo e imponente que nos remete para uma certa ideia de liberdade. Também está muito ligado ao imaginário country, muito ligado aos animais e à natureza de uma forma em geral. Quando começámos a gravar o Turdus Merula quisemos ter uma ideia unificadora que nos permitisse ao gravar os diferentes temas, manter um certo rumo. Resolvemos que sempre que estivéssemos a gravar a parte instrumental, estaríamos a imaginar a figura de um melro. Isto é quase uma ideia metafísica, mas penso que resultou. Quando chegámos à altura de escolher um nome para o disco, percebemos que o nome estava escolhido desde o início. Também somos da opinião que a capa do disco resultou muito bem. A Ana fez um excelente trabalho, a única coisa que lhe pedimos foi que a capa tivesse um melro e um ar algo vintage, que remetesse para a ideia de um vinil dos anos setenta. Acho que ela conseguiu captar a ideia muito bem e surpreendeu-nos com um artwork excelente que nos encheu as medidas.

Adorei Down To Mexico; E a banda, tem um tema preferido em Turdus Merula?

Nós gostamos de todos, mas temos um gosto particular pela Song for Neil. Esta canção foi escrita desde o primeiro momento para um artista e pessoa que ambos admiramos – o Neil Young. Ele é uma influência muito grande para nós e também nos surgiu na vida em momentos em que ambos precisámos de ultrapassar certas dificuldades. Quisemos prestar-lhe homenagem, de forma completamente desinteressada com esta música. A mim é das que mais gozo me dá tocar. Mas ainda estamos numa fase muito inicial do nosso caminho, todos os temas nos soam bem e apetece-nos sempre tocar todos.

Não sou um purista e acho que há imensos projectos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem também em inglês. Há alguma razão especial para cantarem apenas em inglês e a opção será para se manter?

Penso que com a nossa sonoridade, não se justifica cantar noutra língua que não o inglês. Nós não temos nada contra o português, bem pelo contrário. Na minha banda anterior tínhamos vários temas em português. O Rodrigo tem pelo menos mais dois projetos em que canta em português. Acho que as músicas devem servir-se sempre do que as faça soar melhor. Nos Country Playground acho que o português nunca ía colar de forma natural, seria sempre forçado, por isso essa é uma ideia que nem colocamos em causa.

Imagino que entretanto já tenham temas novos compostos. Será preciso esperar mais quanto tempo para saborear um novo trabalho dos Country Playground?

Sim, já temos praticamente o segundo disco escrito. Desde a gravação à edição do Turdus Merula passou quase um ano e eu e o Rodrigo temos uma facilidade muito grande em escrevermos juntos. Às vezes até no sound-check de um concerto surge uma nova música. Nos nossos concertos já apresentamos algumas dessas músicas novas. De qualquer forma, agora temos de saborear e aproveitar o que o Turdus Merula nos trouxer e assim que chegar a hora, gravamos o próximo.

Como vai decorrer a promoção de Turdus Merdula? Já sei que tocaram recentemente em Leiria e na Marinha Grande, mas onde poderemos ver os Country Playground a tocar num futuro próximo?

Nesta fase ainda estamos a fazer a promoção do disco ao nível da imprensa escrita e da rádio. Em relação aos concertos, como calculas, lançámos o disco numa época em que não é muito habitual fazê-lo, está tudo muito virado para os festivais e para as bandas que nos visitam. De qualquer forma, acho que isso também pode ter jogado a nosso favor, porque chegámos a algumas rádios que não esperávamos. Se calhar em Setembro os lançamentos são tantos que passávamos despercebidos. Também não foi a melhor altura para apanhar o comboio dos concertos de Verão, pelo que estamos a tentar alinhar tudo para arrancar para a estrada no final de Setembro. Já temos alguns showcases marcados em Fnacs, mas ainda não consigo adiantar as datas da tour de promoção do Turdus Merula. De qualquer forma, convido toda a gente a ir seguindo o nosso facebook para saberem as datas e novidades assim que as anunciarmos.


autor stipe07 às 21:55
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Quarta-feira, 1 de Julho de 2015

André Barros - Soundtracks Vol. I

Estudante de direito, André Barros resolveu, em boa hora, aprender a tocar piano, de modo autodidata e numa idade considerada por muitos como tardia mas que, pelos vistos, tendo em conta a beleza da tua música, resultou na perfeição. O passo seguinte, acabou por ser estudar produção musical e para isso rumou à Islândia para trabalhar alguns meses no Sundlaugin Studio dos Sigur Rós, uma das minhas bandas preferidas, num espaço que eu adorava visitar.

Particularmente apaixonado por música instrumental, André Barros sempre adorou escutar bandas sonoras e a facilidade com que tocou um dos temas de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, de Yann Tiersen, num piano acústico de uma amiga, acabou por ser o click final para o arranque de uma carreira, feita muitas vezes de improviso e que acaba de ter um enorme fòlego intitulado Soundtracks Vol. I, o seu rerceiro registo de originais e que, gravado entre Lisboa e Paço de Arcos, viu a luz do dia a dezoito de maio, por intermédio da Omnichord Records.

Soundtracks Vol. I contém, entre outros, os temas do filme Our Father, de Linda Palmer, que renderam ao autor um galardão para melhor banda sonora no Los Angeles Independent Film Festival Awards e que, depois de ter alcançado boas críticas e alguns prémios em vários festivais, chegou também à edição de 2015 do Festival de Cannes.

Músico de excelência e exímio criador de arranjos, quer de teclas quer de cordas, em Soundtracks Vol. 1 André Barros oferece-nos vários temas criados essencialmente para curtas metragens e documentários, com Between Waves a ser a única canção que não é da sua autoria. Refiro-me a um tema de Yuchiro Nakano, com arranjos da autoria de André Barros e que fez parte de uma curta-metragem com o mesmo nome. Depois, há também uma excelente composição intitulada Gambiarras, que conta com a participação especial do escritor Valter Hugo Mãe, que escreveu um poema que o próprio leu, além de uma canção intitulada Flowers On Your Skin, criada propositadamente para o espetáculo de dança contemporânea Short Street Stories.
Trabalho comtemplativo, relaxante e intimista, Soundtracks Vol. I é um admirável compêndio de trechos sonoros, feitos com cordas e pianos que se unem entre si com uma confiança avassaladora, tornando-se absolutamente recompensadores pelo modo como nos transmitem uma paz de espírito genuína, ao memso tempo que conseguem ajudar-nos a materializar visualmente os diferentes cenários que as composições pretendem recriar nos diferentes filmes em que são utilizados. Este é um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, capaz de colocar o ouvinte no meio da ação dos filmes e documentários que utilizam as várias composições do alinhamento, contemplando-os usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião, música com cheiros e cores muito próprios.

Não só no conceito que pretendeu, pelos vistos, criar sons tendo em conta a trama que se desenrola no grande ecrã, sons do momento e, por isso irrepetíveis, mas também na materialização, onde não faltam instantes sonoros subtis proporcionados por alguns arranjos que, confesso, só uma audição atenta com headphones me permitiu conferir, já que alguns são audíveis de forma quase impercetível, percebe-se que a sonoridade geral de Soundtracks Vol. 1 exala uma sensação, quanto a mim, vincadamente experimental e tem tudo o que é necessário para, finalmente, o André Barros ter o reconhecimento público que merece. Confere a entrevista que André Barros concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...

Gravado em Lisboa e em Paço de Arcos, Soundtracks Vol. 1 é um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, capaz de colocar o ouvinte no meio da ação dos filmes e documentários que utilizam as várias composições do alinhamento, contemplando-os usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião, música com cheiros e cores muito próprios. Como surgiu a ideia de gravar um disco assim?

Agradeço imenso estas palavras! Diria que não houve, inicialmente, qualquer intenção de gravar um disco assim pois aquando da composição das várias bandas sonoras a que estes temas pertencem (portanto, desde final de 2013) eu não antevia que, juntamente com a editora, viríamos posteriormente a tomar a decisão de os compilar num CD e passar a ter esta mostra do meu trabalho nesta área dividida por volumes. No entanto, depois de termos os temas prontos, depois de terminadas as bandas sonoras, tudo fez sentido e dado que continuarei a trabalhar com afinco neste mundo da música para imagem, então que melhor forma de o partilhar com o público do que criar estas compilações ao longo do tempo?

Pessoalmente, penso que Soundtracks Vol. 1  tem tudo o que é necessário para, finalmente, o André Barros ter o reconhecimento público que merece. Quais são, antes de mais, as tuas expetativas para este teu novo fôlego no teu projeto a solo?

É extraordinário sentir isso, e sinto-me muito grato por até hoje ter recebido um bom feedback deste trabalho de que tanto me orgulho. Espero tão somente que possa continuar a partilhar as minhas criações com as pessoas, seja gravando mais bandas sonoras, seja pelos concertos, seja pelo lançamento de um novo álbum de originais (que não para filmes). Para o fazer, certamente que terei de influenciar positivamente quem escuta o meu trabalho para que possa ter as condições para continuar, e estou convicto de não defraudarei as expectativas de quem, tão gentilmente, tem seguido o meu percurso.

Ouvir Soundtracks Vol. 1 foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Intrigante e melancólico, é realmente um documento que não tem apenas as teclas do piano como protagonistas maiores do processo melódico, com as cordas, quer de violas, quer de violinos, a serem, também, parte integrante e de pleno direito das emoções que os diversos temas transmitem. Esta supremacia do cariz fortemente orgânico e vivo que esta miríade instrumental constituída por teclas e cordas por natureza confere à música que replica, corresponde ao que pretendeste transmitir sonoramente neste trabalho?

Sem dúvida! Estes temas, todos eles, vivem muito da intenção aquando da sua interpretação, e não apenas de todo o aparato técnico que montamos quando os criamos em estúdio. Este é um aspecto crucial que influenciará certamente a escuta atenta de quem põe o disco a tocar, é também um aspecto que vou tentando aprimorar a cada trabalho que vou produzindo, sendo que por vezes se pode tornar um desafio enorme partilhar com os músicos exactamente a intenção que pretendo que coloquem em cada frase, mas tudo isto é uma aprendizagem e felizmente vejo-me rodeado de músicos bem talentosos e maduros, apesar da sua (nossa!) juventude!

Em traços gerais, como foram sendo selecionados os filmes e documentários onde se podem escutar estas canções? Recebeste convites para participares na banda-sonora ou tu próprio abordaste alguns realizadores com essa intenção?

Até agora, todos os filmes nos quais tive o prazer de participar com o meu trabalho (tirando somente produções para filmes institucionais e corporativos/publicidade) surgiram graças ao meu trabalho de pesquisa (uma parte fundamental da minha actividade!) que desenvolvo incessantemente, procurando projectos de filmes em fases de pré-produção para os quais acha uma futura possibilidade de vir a integrar enquanto compositor. Uma vez captado o interesse de um realizador/produtores, desenvolvo os contactos por forma a mostrar que consigo atingir a sonoridade que pretendem, enviando demos com base em guiões ou outro material já disponível, até que (nos casos em que fui bem sucedido) recebo a confirmação do outro lado para integrar oficialmente a equipa de produção.

Não só no conceito que pretendeu, pelos vistos, criar sons tendo em conta a trama que se desenrola no grande ecrã, sons do momento e, por isso irrepetíveis, mas também na materialização, onde não faltam instantes sonoros subtis proporcionados por alguns arranjos que, confesso, só uma audição atenta com headphones me permitiu conferir, já que alguns são audíveis de forma quase impercetível, percebe-se que a sonoridade geral de Soundtracks Vol. 1 exala uma sensação, quanto a mim, vincadamente experimental. Houve, desde o início do processo de gravação, uma rigidez no que concerne às opções que estavam definidas, nomeadamente o tipo de sons a captar no piano e a misturar com as cordas e as vozes, ou durante o processo houve abertura para modelar ideias à medida que o barro se foi moldando?

Sim, há sempre uma certa flexibilidade que me dão durante o processo de amadurecimento dos temas, e que me permite experimentar novos sons ou novos efeitos que poderão enriquecer o resultado final do trabalho. Acredito que tais pormenores, e claro muitos deles apenas perceptíveis se escutados atentamente, acabam por contribuir para uma identidade mais vincada de cada projecto, ajudando-me a enriquecer e a complementar uma melodia.

Além de ter apreciado a riqueza sonora natural, gostei particularmente do cenário melódico das canções, que achei muito bonito. Em que te inspiras para criar as melodias?

Muito obrigado! De facto, tento sempre que o meu trabalho tenha uma boa estrutura melódica pois acabou por ser esta a razão que me levou a entrar no universo da música, da composição... é muito inglório atribuir a este ou outro aspecto/acontecimento o papel de  fonte de inspiração pois será sempre uma resposta subjectiva e incompleta, na medida em que sinto que há uma infinidade de factores de certamente contribuirão para a génese do meu trabalho de composição, muitos deles claramente intuitivos e difíceis de racionalizar!

Valter Hugo Mãe escreveu propositadamente o poema de Gambiarras, um tema em que ele próprio também colabora com a voz. Como surgiu a possibilidade de trabalhar com este escritor ilustre no disco? De quem partiu a iniciativa desta colaboração?

Eu conheci o Valter e enderecei-lhe o convite, sendo que já vinha a amadurecer este tema há algum tempo, e com ele também a ideia de cruzar a poesia (ainda que não declamada, apenas lida) com o este meu trabalho. E quem melhor do que o Valter, que aliás tem imensas colaborações com projectos musicais, para me ajudar a concretizar este devaneio?

Adoro a composição Wounds Of Waziristan, por sinal o single do disco. O André tem um tema preferido em Soundtracks Vol. 1?

É-me sempre difícil responder a esta questão, pois tenho muito carinho por todos os temas do álbum... mas se realmente tivesse de eleger um e distingui-lo como uma espécie de “single” do disco, de facto escolheria precisamente o Wounds of Waziristan pois trata-se do primeiro tema que alguma vez compus para filme, logo terá sempre um espaço especial no meu trajecto e nas minhas memórias!

Em relação ao futuro, após Soundtracks Vol. 1, já está definido o próximo passo na tua carreira?

Continuar a trabalhar nesta área das bandas sonoras pois, para além de me dar imenso prazer, dá-me também um certo conforto financeiro para que me possa continuar a aventurar sem receios nesta indústria! Continuar com os concertos de apresentação tanto deste álbum como do anterior e ir pensando em temas para um eventual álbum a solo (isto é, que não de temas para bandas sonoras).

Em tempos, quando estudavas Direito, resolveste aprender a tocar piano, pelos vistos de modo autodidata, numa idade que muitos podem considerar tardia mas que, pelos vistos, tendo em conta a beleza da tua música, resultou na perfeição. Como se deu esse click?

Sim! Agradeço a simpatia. Eu já ouvia imensa música instrumental e nomeadamente de bandas sonoras pela altura em que estava perto de terminar o curso de Direito, pelo que um dia lembrei-me de tentar tocar um dos temas da banda sonora do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” de Yann Tiersen... pesquisei no Youtube como tocar o tema e pedi a uma amiga que me deixasse tentar fazê-lo num piano acústico que ela tinha em casa. Quando percebi que o fiz com relativa facilidade, apaixonei-me de imediato pelo toque e pela sonoridade do piano, daí até comprar um piano digital passaram uns dias e desde logo me aventurei no improviso até construir os meus temas!

Depois, o passo seguinte, acabou por ser estudar produção musical e para isso rumaste à Islândia para trabalhar alguns meses no Sundlaugin Studio dos Sigur Rós, uma das minhas bandas preferidas, num espaço que eu adorava visitar. Como é, em traços gerais, o ambiente nesse estúdio? Como foi essa experiência?

Sim, estive naquele estúdio maravilhoso durante 3 meses, no Verão de 2012. Foi uma experiência inesquecível, aprendi imenso, contactei com músicos e técnicos extraordinários e seria ridículo não dizer que foi o concretizar de um sonho poder partilhar aquele ambiente com músicos e projectos que tanto admiro. São todos extremamente profissionais e pessoas muito dedicados a esta arte. Reina a calma e a boa disposição e procura-se sempre a perfeição sonora respeitando-se todo e cada instrumento e músico para que transpareça nas gravações a paixão que se sente pelo que fazem.

 


autor stipe07 às 21:32
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2015

Tape Junk - Tape Junk

O projeto TAPE JUNk encabeçado por João Correia e ao qua se juntam Joaquim Francisco, Nuno Lucas e António Vasconcelos está de regresso com um trabalho homónimo, gravado durante três dias no Alvito no verão passado, sob um sol abrasador, num oito pistas instalado no sotão de Luis Nunes (Walter Benjamim), que também produziu o disco. Apesar de ser o segundo da carreira da banda, TAPE JUNk é uma espécie de recomeço para o quarteto e um verdadeiro disco de banda, já que, ao contrário de The Good and The Mean (2013), um quase registo a solo, é um trabalho mais direto e crú, com um alinhamento bastante espontâneo, já que metade do mesmo nunca tinha sido tocado pela banda antes e a outra metade foi gravada com os arranjos utilizados ao vivo e registado sem qualquer isolamento dos instrumentos, uma receita que imprimiu uma particular energia e espontaneidade às gravações, próxima do que os TAPE JUNk costumam preconizar ao vivo.

O tempo do João Correia é, certamente uma sucessão de algumas rotinas, uma significativa quantidade de banalidades e depois, um interessante conjunto de eventos inspiradores, que lhe provocam sentimentos e sensações únicas que encontra na música, mesmo inconscientemente a melhor forma de expressar, apesar de não apreciar particularmente levar-se demasiado a sério, como personagem deste quotidiano em que todos nos movemos. E este homónimo dos TAPE JUNk plasma, com notável nitidez essa personificação de soalheiras aventuras sonoras, algumas delas com um elevado pendor pessoal e intimista, onde não falta um confessado humor negro, e outras a sobreviverem à custa do nonsense, com Thumb Sucking Generation a ser, claramente, um exemplo claro desta despreocupação e deste desejo pessoal que os TAPE JUNk sentem, na pessoa do João Correia, de não serem levados demasiado a séra no que concerne à escrita das canções. Seja como for, não se pense que neste trabalho é impossível encontrar um aconchego para as nossas mágoas ou um incentivo ao despertar aquilo que de melhor guardamos dentro de nós; The Left Side Of My Bed ou Me and My Gin são dois exemplos do modo assertivo como os TAPE JUNk conseguem, utilizando uma linguagem sonora e lírica simples e, simultaneamente, intensa e profunda, falar de situações do quotidiano com as quais facilmente nos identificamos, duas músicas que podem ser um excelente veículo para o reavivar de algumas memórias que estão um pouco na penumbra e que nos confortam o ego quando delas nos recordamos.

Banda de palco e com uma notável reputação nesse campo, os TAPE JUNk são uma típica banda rock que assenta a sua sonoriade em guitarras que replicam melodias contagiantes e que exalam uma sensação de comptempraenidade que pode surgir nas notas mais delicadas, até quando elas estão num modo particularmente explosivo, nos efeitos selecionados ou nos arranjos simples, mas bastante criativos, onde não faltam peculaires variações de ritmo e uma saudável sensação de crueza e ingenuidade ou então, no modo como as vozes se alternam e se sobrepôem em camadas, à medida que os instrumentos fluem naturalmente, sem se acomodarem ao ponto de se sufocarem entre si, naquilo a que claramente se chama de som de banda.

Pavement, Giant Sand, Stooges, Rolling Stones ou Velvet Underground são influências assumidas e declaradas, mas quem vence é aquel rock clássico e intemporal que só ganha vida se houver quem se predisponha a entrar num estúdio de mente aberta e disposto a servir-se de tudo aquilo que é colocado ao seu dispôr para criar música, sejam instrumentos eletrónicos ou acústicos e assim fazerem canções cheias de sons poderosos e tortuosos, luminosos e flutuantes e vozes deslumbrantes. E os TAPE JUNk provam que não é preciso ser demasiado complicado e criar sons e melodias intrincadas. Consegui-lo é ser-se agraciado pelo dom de se fazer a música que se quer e este quarteto sujeita-se seriamente a obter tal desiderato, já que usou a fórmula correcta, feita com uma quase pueril simplicidade, a melhor receita que muitas vezes existe no universo musical para demonstrar uma formatação adulta e a capacidade de se reinventar, reformular ou simplesmente replicar o que de melhor têm alguns projetos bem sucedidos na área sonora em que uma banda se insere.

TAPE JUNk é um álbum rock poderoso mas extremamente divertido, sem deixar de evocar um certo experimentalismo típico de quem procura, através da música, fazer refletir aquela luz que não se dispersa, mas antes se refrata para inundar os corações mais carentes daquela luminosidade que transmite energia, num disco sem cantos escuros. Confere, já de seguida, a entrevista que o João Correia concedeu a este blogue sobre o disco e espero que aprecies a sugestão...

1 - Substance
2 - Bag of Bones
3 - Scratch and Bite
4 - Six String and the Booze
5 - Joyful Song
6 - Me and My Gin
7 - All My Money Ran Out
8 - The Left Side of the Bed
9 - Thumb Sucking Generation

Ao contrário de The Good And The Mean, disco sobre o qual conversámos e onde o João Correia tomou conta de grande parte da ocorrência, já lá vão quase dois anos, este vosso novo trabalho, um homónimo, resulta da interacção directa entre todos os elementos do grupo. Quais são as grandes diferenças entre os dois álbuns?

O primeiro disco foi uma experiência. Não fazia ideia do que ia fazer com aquilo. Felizmente foi bem recebido e surgiram concertos e montámos uma banda. Podia ter sido apenas um registo daquela altura e das músicas que escrevi e de como me apeteceu gravá-las na altura. Nunca foi pensado como o primeiro disco de uma banda. Os anos passaram, demos muitos concertos e encontrámos a nossa sonoridade. Acho que foi um processo óbvio e muito natural. Este novo disco teve um processo de gravação completamente diferente. Agora é sim um disco de uma banda. O segundo de Tape Junk mas o primeiro da banda. E eu quis que fosse um disco espontâneo e até ingénuo como a maior parte dos primeiros discos das bandas de que gosto. 

Este disco foi feito como se fosse um gathering de amigos. Fez-me lembrar quando era puto e gravava com os meus primos nas férias do Verão, na altura para um 4 pistas. Os anos passaram e duplicaram-se as pistas. Os junks não são primos de sangue mas somos todos família.

Pelos vistos a gravação do disco foi uma grande experiência, muito crua, espontânea e direta. Praticamente metade do alinhamento nunca tinha sido tocado pela banda antes e a outra metade foi gravada com os arranjos utilizados ao vivo. Como foram esses dias frenéticos no Alvito?

Passamos os dias a lutar contra um calor abrasador...Mas não abdicámos, é claro,de belos repastos, bom vinho e aguardente caseira ( como menciona a Valéria ). Tratámo-nos muito bem. Todos os dias acordávamos bem cedo e passávamos os dias a tocar no sotão do Luís Nunes. Os takes foram gravados para um Tascam 8 pistas de fita.

As bases instrumentais do disco foram gravadas live e sem isolamento dos instrumentos. Ou seja, cada instrumento tem uma soma sonora dos outros. Há quem defenda que isso é ruído e que "estraga" o som... Eu acho que isso é música. Gravámos umas quantas canções como já as tocávamos ao vivo e entretanto acrescentámos umas quantas que nunca tinham sido tocadas. E essas acabaram por ser algumas das mais importantes do disco, na minha opinião. O "Thumb Sucking Generation", "Six String and the Booze", o "Substance" (que nem uma maquete manhosa tinha) são dos temas que mais definem o álbum e não os conheciamos bem antes de irmos para as gravações. É como quando fazes uma música nova e gravas uma demo, ouves tudo e pensas : "isto está muita fixe!" ou então "em que raio é que eu estava a pensar quando escrevi isto!". Quando gosto da demo até tenho medo de gravar a música em estúdio depois, fica sempre pior. Pensas demais sobre aquilo e a espontaneidade desaparece. Aqui não houve sequer tempo para isso acontecer. Foi um disco em que corremos riscos, umas coisas correram bem, outras não. E ainda bem que assim foi.

As guitarras parecem-me ser o grande fio condutor das canções e, na minha opinião, um dos vossos maiores atributos é a forma simples e direta, sem grandes rodeios ou floreados desnecessários, como apresentam a vossa visão sonora do formato canção, como peças sonoras que, à exceção de ThumbSucking Generation, se esfumam mais depressa que um cigarro, mas que não deixam ninguém indiferente, já que prendem e ficam facilmente na memória. No que concerne às opções que definem para a vossa música, nomeadamente durante o processo criativo, como funcionam como banda?

Normalmente tenho uma demo das músicas gravadas com guitarra acustica e voz. Depois junto-me com o António e gravamos as ideias para as partes de cada instrumento. Depois tocamos todos juntos decidimos o que cada um faz. Eu gosto de manter as coisas muito simples em Tape Junk. Não procuro um som novo e não me preocupa a questão da banda vir a ter sucesso ou não. A ideia deste grupo é escrever canções, tocá-las juntos e partilhar o que fazemos com as pessoas que nos querem ouvir. Escrevo canções em casa quando elas surgem e ambiciono escrevê-las cada vez melhor. Os arranjos nesta banda estão em segundo plano. Têm de ser muito naturais e respeitar o flow da canção. Acho que cada banda tem a sua função. A nossa, para já, é keep it simple. Quero que se ouça pessoas a tocar neste disco. E nós somos pessoas simples.

E como foi trabalhar com o Luis Nunes aka Walter Benjamim, um músico extraordinário que também já foi destaque por cá algumas vezes?

O Luis é um grande amigo e já trabalho com ele há muitos anos. Quis gravar com ele porque já sabia que ele não gostava nada da sonoridade e arranjos do primeiro disco e achei que ele era a pessoa certa para gravar este porque eu queria fazer algo que distanciasse os dois. Para além de gravar também produziu. Fez-me a proposta de gravar tudo num oito pistas no sótão dele em Alvito. Adorei a ideia e lá fomos nós.

Logo na primeira música que gravámos percebi que não ia ser fácil... Fizémos uns dez takes do "All my money ran out" e cada vez que chegávamos ao fim ele dizia "mais um". Depois punha a fita para trás e ficavamos os cinco em silêncio. Optamos por mudar de música e eu pensei que as coisas podiam correr mal porque nunca tinhamos gravado assim juntos. Estivemos umas três horas para nos adaptarmos ao processo...

O Luís e eu somos como irmãos e passamos o tempo todo a discutir cada vez que estamos sob pressão. É hilariante! Eu sou sempre pessimista, ele não. Esse caos é perfeito para mim, odeio quando está tudo muito organizado e no sítio quando tem a ver com Tape Junk. Quando acabámos de gravar tudo no terceiro dia fomos ouvir o disco ainda muito em bruto. Deviam ser umas 4h da manhã e tinhamos passado os dias a gravar e eu disse : ok, foi trabalho em vão, estas músicas juntas não fazem sentido nenhum. O Luís fez um alinhamento em 20 segundos e pôs no play e disse algo como foda-se, és tão chato, meu. Cala-te e ouve as músicas. Eu calei-me e ouvi. Esse alinhamento ficou o do disco, nunca mais se mexeu.Trabalhar com o Luís é altamente.

Tape Junk é um festivo e animado compêndio de indie rock, que apenas abranda um pouco em Me And My Gin, um dos meus temas preferidos do disco e em The Left Side Of The Bed. Fiquei curioso… O gin é a bebida oficial dos TAPE JUNk? Qual é a temática desta canção?

Hahaha nada disso... Se fosse acerca da bebida de eleição seria "Me and my whiskey" mas soava muito mal. Escrevi essa letra no balcão do Roterdão no Cais do Sodré enquanto falava com um amigo meu. Passado uns dias vi que tinha a letra nas notas do telefone e arranjei a coisa e escrevi a música. Esta é das poucas em que a letra surgiu antes da música.

Escrevi isso na altura do primeiro disco quando andava sempre bêbado. Quando estás assim achas que não consegues fazer nada sem beber um copo antes. É uma idiotice. A música é completamente bipolar porque salta de versos sérios para versos completamente idiotas. É das minhas preferidas do disco.

Continuando a abordar a questão das letras, as relações amorosas e a complexidade que envolvem, que exigem um constante (des)acerto para funcionarem, pareceu-me ser uma ideia muito latente no disco e em particular em Joyful Song eThe Left Side Of The Bed. Esta minha percepção faz algum sentido? O que mais inspira a vossa escrita?

Neste disco acho que não me levo a sério demais na escritas das canções. Existem letras no outro disco que agora me acompanham e nem sempre as quero cantar. São muito pessoais. Depois tenho de tocar a mesma música vezes sem conta e já não sinto o que sentia e parece que estou a "vender" um sentimento falso. Neste disco tenho pouca coisa pessoal e tenho mais humor negro nas músicas, se calhar. Também tenho letras como o Thumb Sucking Generation que não interessam para nada... está lá porque tinha de dizer algo e nem me lembro quando nem porque escrevi aquilo. O importante é a música nesse caso. E o nonsense também me atrai na verdade. Quanto à inspiração, acho que escreves coisas melhores quando não estás bem. Quando não escreves uma música porque queres, mas escreves porque tem de ser. O "Left side of the bed" foi um desses casos. As coisas mudaram depois de escrever essa música. Fechei um ciclo de canções de amor depressivas... Depois dessa e do "Me and my gin" surgiu o resto do disco que tem uma linha muito mais leve do que o anterior. Mas misery loves company e toda a gente gosta de ouvir alguém a cantar coisas depressivas, não é? Isso é um bocado chato para um escritor de canções mas eu próprio não me levo tão a sério quando não escrevo sobre coisas viscerais e trágicas. O refrão do "Substance" ridiculariza precisamente esta questão.

O primeiro single do disco é Six String and The Booze e já foi divulgado o vídeo, por sinal bastante divertido e muito bem idealizado. Quem merece os créditos por esse excelente trabalho?

Tive a ideia de ter um vídeo com um casal em que a mulher era contorcionista. Mas faltava-me organizar a ideia e ter uma história interessante. O realizador Pedro Pinto, com quem tinha trabalhado no "Live at 15A" de Julie & The Carjackers agarrou a ideia e fez este mockumentary incrível. Achei a ideia genial. Deu muito trabalho, passámos semanas a fio para juntar a equipa, planear tudo e fazer o vídeo em dois dias com um budget muito reduzido. O Pedro é muito talentoso, hard worker e super profissional. No próprio video estão os créditos de toda a equipa. Foram todos incríveis.

Os TAPE JUNk fazem agora parte da família Pataca Discos. Qual é a sensação?

Eu sinto que estou na Pataca desde que gravei o "Dá" da Márcia. Desde então que tenho estado sempre ligado à editora. Julie & The Carjackers, Walter Benjamin, Bruno Pernadas, They're Heading West são bandas/artistas com quem toco e que fazem parte da Pataca. O João Paulo Feliciano só edita o que gosta muito por isso estava com algum receio das demos que lhe mostrei... Ouvimos as músicas os dois com o Luís Nunes e de cerca de vinte, eles aproveitaram umas oito e mandaram-me vir para casa escrever mais. Só depois disso é que houve certeza que estava ali um disco e entrámos para a Pataca Discos muito contentes.

Como está a correr a promoção do disco? Onde será possível ver os TAPE JUNk a tocar num futuro próximo?

Para já só posso anunciar o Festival Lá Fora em Évora, Festival Med e Nos Alive.

Para terminar apenas outra curiosidade… Quem é a Valéria?

Qual Valéria?! Valéria... Humm... Nome bonito mas não sei do que falas...

( Obrigado pela entrevista, gostei muito das tuas perguntas. João )


autor stipe07 às 19:33
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Sábado, 18 de Abril de 2015

Afonso Pais - Terra Concreta

Afonso Pais, nascido em Lisboa em 1979, tem formação em piano e bateria, mas escolheu a guitarra, intensificando os estudos na escola de jazz do Hot Clube de Portugal e na New School University, nos Estados Unidos. Gravado em estúdios de gravação ao ar livre, em Parques Naturais nacionais e no Vale de Darnum, na ilha do Borneu, com a captação de instantes sonoros únicos e, por isso, irrepetíveis, Terra Concreta é a nova menina dos olhos deste músico, um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, nascido com o propósito firme de transportar o ouvinte para esses locais e de levar a música de regresso às suas origens, sendo a natureza fonte de inspiração e, simultaneamente, protagonista, dividindo esse papel com a viola e com as vozes de Albert Sanz, Luísa Sobral, Beatriz Nunes, Joana Espadinha, Rita Martins e João Firmino, além do próprio Afonso.

Capaz de colocar o ouvinte no meio da natureza, contemplando-a usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, Terra Concreta é, na minha opinião, um compêndio de música com cheiros e cores muito próprios. Ponto simultâneo de partida e chegada, sempre, mas nunca de passagem, o disco permite-nos contactar com instantes de manifestação musical espontâneos, que exalam a profunda delicadeza e sensibilidade do autor e o modo tremendamente eficaz como ele transporta essas duas facetas intrínsecas à sua capacidade criativa para a música que produz, com a felicidade de também nos mostrar, à sua maneira, locais naturais no seu estado mais puro, consciencializando-nos para a presrvação dos mesmos, quase sem darmos por isso.

A natureza acaba por se tornar grata a Afonso, já que se revela esplendorosa e bastante participativa ao longo do diso, revelando uma generosidade heróica através de instantes lindíssimos, não só audíveis no chilrear de algumas aves, mas também nos sons que o movimento do ar, feito vento, consegue criar e que o excelente trabalho de gravação e produção captou. São instantes sonoros naturais subtis, alguns audíveis de forma quase impercetível, outros parecendo deliberadamente sobrepostos de forma aparentemente anárquica, percebendo-se que a sonoridade geral de Terra Concreta exala uma sensação vincadamente experimental.

Escutar Terra Concreta é, sem dúvida, um exercício muito agradável e reconfortante, mas também intrigante e melancólico. Este é um documento que não tem apenas as cordas como protagonistas maiores do processo melódico, já que a própria natureza e o chilrear constante das aves são, realmente, parte integrante e de pleno direito das emoções que os diversos temas transmitem.

Terra Concreta sucede a Onde mora o mundo, disco que Afonso Pais editou com JP Simões, em 2011. Da discografia do músico fazem parte ainda Terranova (2004), Subsequências (2008) e participações em álbuns de Paula Sousa, Joana Machado ou Paulo Bandeira. Confere abaixo a entrevista que gentilmente o autor concedeu ao blogue e espero que aprecies a sugestão...

Gravado em estúdios de gravação ao ar livre, em Parques Naturais nacionais e no Vale de Darnum, na ilha do Borneu, com a captação de instantes sonoros únicos e, por isso, irrepetíveis, Terra Concreta é um documento sonoro invulgar, mas particularmente belo, capaz de colocar o ouvinte no meio da natureza, contemplando-a usando o sentido da audição e depois, o próprio olfato e a visão, já que esta é, na minha opinião música com cheiros e cores muito próprios. Como surgiu a ideia de gravar um disco assim?

Surgiu da regularidade com que visito zonas naturais remotas, sempre acompanhado do meu instrumento musical, a guitarra. Em determinado momento quis experimentar registar o momento natural combinado com a inspiração que dele advém, ao tocar e criar trechos musicais associados ao meio envolvente. Adorei o resultado, e a forma como a música progride de forma diferente neste enquadramento.

De acordo com o press release do álbum, Terra Concreta foi feito sem geradores, só com instrumentos acústicos e com a textura irrepetível dos sons naturais como mote. O registo em disco representa cerca de um ano de incursões no campo, resultando na selecção de temas que melhor representa o momento espontâneo e consequente do meio-envolvente. Logisticamente como foi gravar um disco assim? Como se consegue levar um estúdio “lá para fora”?

Há já muitos anos que se fazem documentários de vida selvagem, como aqueles que vemos na televisão, onde parece que tudo acontece de forma fácil e coordenada, e o meio natural se revela exposto e solícito. Na verdade, esta ilusão de fluxo resulta de horas e horas, meses e meses de tentativas e erros… No contexto do "Terra Concreta", usei um gravador de alta fidelidade daqueles que registam sons nesses documentários mais celebrados, e gravei um ano de incursões musicais nas zonas mais remotas das nossas reservas naturais, das quais escolhi apenas o material que representa absolutamente a melhor combinação entre o meio-envolvente e a prestação musical.

Pessoalmente, penso que Terra Concreta tem tudo o que é necessário para, finalmente, o Afonso Pais ter o reconhecimento público que merece. Quais são, antes de mais, as tuas expetativas para este teu novo fôlego no teu projeto a solo?

Não sinto que haja uma falta de reconhecimento, mas sim barreiras e obstáculos inventados por uma indústria musical permeável ao consensual e dependente das vendas quase imediatas, bastante alheada do propósito cultural que todos partilhamos; sem mesmo atender ao facto de que os movimentos culturais são cada vez mais gerados à sua margem (indústria e "mainstream" artístico), mas sim dinamizados por pequenas comunidades artísticas de tendências convergentes. Se algum projecto meu no qual acredito, como é o caso de "Terra Concreta", for exposto aos ouvintes, conto que a entrega e adesão se baseie só na simples premissa: gosto ou não gosto.

Ouvir Terra Concreta foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Intrigante, melancólico, é realmente um documento que não tem apenas as cordas como protagonistas maiores do processo melódico e a própria natureza e o chilrear constante das aves são, realmente, parte integrante e de pleno direito das emoções que os diversos temas transmitem. Esta supremacia do natural corresponde ao que pretendeste transmitir sonoramente neste projeto?

A supremacia do natural a que se refere é também a supremacia do manancial humano de inspiração, no sentido de levar a cabo as suas tarefas de auto-superação, que nos trouxeram enquanto espécie à descoberta das leis da física, do lazer, da genética, e da confiança na infinitude da criatividade que caracteriza Hermeto Pascoal, Salvador Dali ou Fernando Pessoa, nas artes. Só espero não estagnar na minha procura, audácia à parte, no sentido de viabilizar tudo o que justifique uma procura por um elo inabalável com algo que nos sustenta: a natureza tem esse papel para mim, dia após dia, apenas lhe prestei a homenagem que esteve ao meu alcance, com a noção de que a qualidade supera o desejo de concretização.

Não só no conceito que pretendeu, pelos vistos, captar sons no momento e, por isso irrepetíveis, mas também na materialização, onde não faltam instantes sonoros naturais subtis, alguns audíveis de forma quase impercetível, outros parecendo deliberadamente sobrepostos de forma aparentemente anárquica, percebe-se que a sonoridade geral de Terra Concreta exala uma sensação, quanto a mim, vincadamente experimental. Houve, desde o início do processo de gravação, uma rigidez no que concerne às opções que estavam definidas, nomeadamente o tipo de sons a captar e a misturar com as cordas e as vozes, ou durante o processo houve abertura para modelar ideias à medida que o barro se foi moldando?

Um pouco dos dois. Por cada faixa escolhida para o disco houve talvez dez faixas gravadas, em média. Desejei que a qualidade final de execução, interpretação e improviso (quando aplicável) não fossem vitimas de uma escolha que pudesse por em causa o propósito do disco: fundir e homogeneizar a música e o meio natural. E assim aconteceu, houve para cada canção pelo menos um "take" que tornou possível a inclusão da canção correspondente no disco. 

Relativamente às vozes, Terra Concreta conta com as participações especiais de Albert Sanz, Luísa Sobral, Beatriz Nunes, Joana Espadinha, Rita Martins e João Firmino. Foram escolhas pessoais tuas desde o início e as primeiras, ou após teres a parte instrumental dos temas pronta, estudaste as melhores opções?

Houve um processo de selecção a três variáveis, no qual decidi combinando as três:

1 - O local adequado para a gravação.

2- A pessoa que quis convidar para esse lugar

3 - A canção que compus pensando na pessoa que quis convidar cantando no lugar designado.

Além de ter apreciado a riqueza sonora natural, gostei particularmente do cenário melódico das canções, que achei particularmente bonito. Em que te inspiras para criar as melodias?

No efeito que algum lugar verdadeiramente natural exerce em nós e na nossa condição humana enquanto seres singulares, e no desejo de que a originalidade seja um desígnio a nós  predestinado, consequente da nossa proveniência natural, e passível de ser descoberto e potenciado pela nossa curiosidade. A profundidade com que nos relacionamos com as nossas origens não tem fundo.

Adoro a canção Desaire. O Afonso tem um tema preferido em Terra Concreta?

Obrigado. Tenho de dizer que a sucessão de temas e sons naturais presente na colecção de temas do disco perfaz a estória. Quis porém que cada pessoa ou potencial ouvinte pudesse entrar no universo de cada canção, de forma a nomear a sua favorita. Como foram gravadas em espaços diferentes, com instrumentações distintas e sons naturais tão distintos, coube a cada composição o seu lugar na minha estima, mas só a sua sucessão conta a viagem que pretendo apresentar.

Em relação ao futuro, após Terra Concreta, já está definido o próximo passo na tua carreira?

Gravei já outro repertório, de volta aos estúdios, mas quero dizer que "Terra Concreta" é um trabalho discográfico que não se esgota nas canções que o conduzem nem se revê na venda desenfreada de actuações e CD´s. "Terra Concreta" é um cartão de visita, uma forma de expor a música e criatividade a novas premissas, um registo "on-going", que vou querer continuar sob a forma de novas intervenções na natureza que disponibilizarei on-line ao longo de futuros trabalhos discográficos e do meu percurso, dos quais este CD é um primeiro marco e representação física de viabilidade e bom presságio.

Agradeço a entrevista, foi sem dúvida a mais desafiante de todas, e por isso agradeço.


autor stipe07 às 22:09
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Sexta-feira, 20 de Março de 2015

Rita Braga - Gringo In São Paulo EP

Depois de no delicioso disco de estreia, intitulado Cherries That went to The Police  Rita Braga ter reinterpretado temas oriundos de vários países e em várias línguas, esta portuguesa, filha do mundo, voltou ao estúdio para compôr cinco temas originais e inéditos que idealizou no período em que morou no Brasil em 2013 e aos quais deu o nome de Gringo In São Paulo, um simpático EP gravado na Casa do Mancha, um estúdio de gravação e local de concertos conhecido no cenário musical alternativo e independente da maior cidade da América Latina.

Neste EP Rita Braga manuseia com enorme mestria o ukelele, o seu fiel parceiro e instrumento de eleição, mas também os teclados e uma magnífica voz. O registo conta com a participação de vários músicos de São Paulo, nomeadamente Mancha Leonel (bateria), Bernard Simon Barbosa (guitarra eléctrica e baixo), Pedro Falcão (cuíca e pandeiro), José Vieira (piano), Peri Pane (violoncelo) e Matheus Zingano (guitarra acústica). Chris Carlone, um músico norte americano com quem Rita tem vindo a colaborar desde 2008 também surge nos créditos deste Gringo In São Paulo, misturado e masterizado já do lado de cá do atlântico, em plena invicta, com a ajuda de Marc Behrens, tendo a capa da edição em vinil sido concebida também por Marc Behrens e a própria Rita Braga, uma edição física de sete polegadas que conta com os temas Gringo in São Paulo e Erosão, acompanhado de um download card com os cinco temas que integram o EP.

Apesar da importância do instrumento musical ukelele na vida e na carreira de Rita Braga, que já conta no seu curriculum com digressões extensas nos Balcãs e atuações na Itália, Polónia, Bélgica e Suécia, além de gravações com músicos espanhóis e portugueses e agora brasilseiros e influências declaradas de nomes tão fundamentais como Tom Zé, Carmen Miranda, Bob Dylan, Sílvio Caldas ou Black Sabbath, a música de Rita Braga é como um caleidoscópio de músicas do mundo, onde, no caso concreto deste EP, aquela insinuante habitual pitada tropicália, funciona como uma espécie de cereja no topo do bolo e ajuda a plasmar uma incrível sensação de ligação entre as canções, mesmo que uma audição isolada do alinhamento pareça mostrar mais pontos de desencontro do que convergentes entre as várias composições.

Na verdade, ao longo do alinhamento de Gringo In São Paulo assiste-se a uma espécie de narrativa leve e sem clímax, com uma dinâmica bem definida e muito agradável e escutar estes vinte minutros é um exercício muito divertido e reconfortante, com um certo teor melancólico, é certo, onde aquela saudade tão portugesa transpira amiúde, mas, simultaneamente, um exercício otimista e alegre, num trabalho cujo conteúdo geral reside nesta feliz ambivalência.

Em pólos apenas aparentemente opostos parecem também situar-se a exuberância da riqueza instrumental e do arsenal material que sustenta as canções (Helicóptero será a excepção desta constatação) e a subtileza com que os diferentes protagonistas sonoros surgem nas músicas. Refiro-me, por exemplo, a alguns dos instrumentos de percussão, muitos num registo quase impercetível, nomeadamente a cuíca no tema homónimo, outros parecendo deliberadamente condutores e líderes das melodias, conferindo à sonoridade geral de Gringo In São Paulo uma sensação, quanto a mim, bastante experimental, apesar do forte cariz radiofónico e pop da música de Rita Braga.

O cenário melódico que transborda das canções, acaba por possuir uma simplicidade particularmente bonita, apesar da tal exuberância instrumental, com a doçura e a inocência que transpira de Helicóptero a ser, quanto a mim, o momento mais elegante e significativo de uma autora versátil, num EP que presenteia-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que faz com que se defina como uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade.

O registo vocal de Rita Braga é, sem dúvida, um dos seus maiores trunfos e a sua elasticidade fantástica. Além de cantar no EP em três línguas (ingrês, português de Lisboa e português de São Paulo), também leva o desempenho vocal a diferentes patamares, onde não falta até uma espécie de registo imitativo no tema homónimo, por sinal cantado em inglês, ou melhor, ingrês (gringo). Parece-me claro que a autora procura comportar-se como uma atriz quando canta as suas canções, e a mesma confirma-o na entrevista que me concedeu e que podes conferir abaixo, encarnando, com a voz, as diferentes personagens que cria, funcionando como recurso estilístico dos diferentes estados de espírito de uma mesma personagem, à medida que vão sendo relatadas diferentes histórias em que ele é protagonista, neste caso a gringa que deambula por São Paulo, havendo, assim, uma explícita vertente dramática na tua música.

Gringo In são Paulo representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único, que deve ser apreciado enquanto nos rodeamos dos melhores prazeres que esta vida tem para oferecer e conferimos um universo cheio de cores e sons que nos causam espanto, devido à impressionante quantidade de detalhes que Rita coloca a cirandar quase livremente por trás de cada uma destas canções. Aqui tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por diferentes épocas, estilos e preferências musicais, em temas que dão as mãos a um emaranhado de referências que têm como elemento agregador a busca de um clima sonoro com um elevado cariz acolhedor, animado e otimista, provando que a canção portuguesa encontrou em Rita Braga mais uma compositora e letrista notável e sofisticada. Espero que aprecies a sugestão...

Antes de abordarmos especificamente o conteúdo de Gringo In são Paulo, há uma pergunta que não resisto formular. Apesar da importância do instrumento musical ukelele na tua vida e na tua carreira, com digressões extensas nos Balcãs e atuações na Itália, Polónia, Bélgica e Suécia, gravações com músicos espanhóis e portugueses e agora brasileiros e influências declaradas de nomes tão fundamentais como Tom Zé, Carmen Miranda, Bob Dylan, Sílvio Caldas ou Black Sabbath, pode-se caraterizar a música de Rita Braga como um caleidoscópio de músicas do mundo?

É possível... É óbvio que tenho pegado em muitas culturas diferentes, tanto falando em géneros e referências musicais como em países (o meu primeiro álbum, “Cherries That Went To The Police”, consiste em versões de canções de várias origens cantadas nas respectivas línguas e o meu projeto a solo tem-se baseado um pouco nessa ideia). No entanto tento mudar as coisas do seu contexto original: toco alguns temas folk mas não da forma tradicional, ou jazz, ou samba, etc. É um bocado o fenómeno de aculturação, ou mesmo “choque cultural”: conhecer as regras do jogo e depois mudá-las e adaptá-las. Este novo disco tem muita influência do Brasil porque foi lá que o fiz e desta vez são composições minhas, no entanto não tentei reproduzir um certo estilo de música brasileira, usei as referências de modo mais subjetivo e pessoal.

Quem é este gringo e o que foi ele fazer a São Paulo? Gringo In São Paulo é um EP conceptual?

É. Na verdade o gringo é uma gringa, é a minha história no Brasil. Com vários momentos. Todas as músicas foram escritas e gravadas durante a minha estadia de poucos meses lá. Tinha essa “missão” que me pus de produzir um disco em São Paulo, com músicos da cidade, e este disco é o resultado.

Ouvir Gringo In São Paulo foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Com um certo teor melancólico mas, simultaneamente, otimista e alegre, o conteúdo geral do trabalho reside nesta feliz ambivalência. As minhas sensações correspondem ao que pretendeste transmitir sonoramente?

Acho que faz sentido. Essa mistura de simultaneamente otimista e alegre com uma dose de melancolia tem muito a ver com o Brasil, e identifico-me com essa maneira de ser, de ter as emoções mais à flor da pele, apesar de não ter sido intencional passar essas sensações para quem escuta o disco.

Confesso que o que mais me agradou na audição do EP foi uma certa bipolaridade entre a riqueza instrumental e a subtileza com que os diferentes protagonistas sonoros surgiam nas músicas. Falo, por exemplo, de alguns dos instrumentos de percussão, muitos num registo quase impercetível, nomeadamente a cuíca no tema homónimo, outros parecendo deliberadamente condutores e líderes das melodias, conferindo à sonoridade geral de Gringo In São Paulo uma sensação, quanto a mim, bastante experimental, apesar do forte cariz radiofónico e pop da tua música. Consideras-te uma compositora rígida, no que concerne às opções que defines para a tua música ou, durante o processo criativo, estás aberta a ires modelando as tuas ideias à medida que o barro se vai moldando, nomeadamente quando as mesmas surgem da parte dos músicos convidados?

A base que compus para as músicas teve uma estrutura fixa (que revi até com o Mancha antes de ir a estúdio, número de estrofes e duração do solo, etc), e direcionei os músicos no sentido dos arranjos mas sempre com espaço em aberto, não lhes disse as notas exatas que tinham que tocar, mas um certo tipo de “feeling”. Por isso as ideias que considerei que faziam sentido foram sempre bem vindas e incluídas. Na fase de mistura e masterização em que trabalhei com o produtor alemão Marc Behrens mudámos ainda pequenas coisas, por exemplo no single recortámos sons da cuíca para imitar buzinas dos carros. Também concordo que tenho um lado experimental, apesar de a sonoridade ser pop e penso que acessível.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, gostei particularmente do cenário melódico das canções, que achei particularmente bonito. Em que te inspiras para criar as melodias?

Na maioria das canções que escrevo a melodia é a primeira coisa a surgir e depois trabalho o acompanhamento e as letras, apesar de outras vezes começar por compor com um teclado ou menos frequentemente com o ukulele. A voz é o meu instrumento principal. Acho que o facto de ouvir muita música de vários estilos e de já ter feito tantas versões faz com que tenha um arquivo de memória musical como uma espécie de base de dados que ajuda a criar. Inspiro-me em situações, sítios e pessoas que me rodeiam, tal como me disse um escritor, “the stories are already there”, e cada canção pode ser como uma história ou um poema.

O teu registo vocal é um dos teus maiores trunfos e a tua elasticidade fantástica. Além de cantares no EP em três línguas (inglês, português de Lisboa e português de São Paulo), também levas a tua voz a diferentes patamares, onde não falta até uma espécie de registo imitativo no tema homónimo, por sinal cantado em inglês. Procuras comportar-te como uma atriz quando cantas as tuas canções, encarnando, com a voz, as diferentes personagens que crias, ou a voz serve funciona como recurso estilístico dos diferentes estados de espírito de uma mesma personagem, à medida que vão sendo relatadas diferentes histórias em que ele é protagonista, neste caso o gringo que deambula por São Paulo? Em suma, há uma explícita vertente dramática na tua música?

Sim, há. Para mim funciona como várias personagens, às vezes duas na mesma canção, mas também pode ser o caso de ser a mesma personagem em diferente estado de espírito, deixo isso em aberto. No single invoquei o sotaque inglês da Carmen Miranda e no final o Bob Dylan, ou seja às vezes até podem surgir personagens masculinos. Tal como o Fernando Pessoa e a sua Maria José. Em “Poetas do Fim do Mar”, o sotaque brasileiro que tentei reproduzir é a dos cantores da rádio dos anos 30, que se aproxima mais do nosso português, e com um “R” muito exagerado.

Adoro a doçura e a inocência que transpira de Helicóptero. A Rita tem um tema preferido em Gringo In São Paulo?

Penso que não tenho um tema preferido... nos últimos dias a “Erosão” tem estado mais presente porque terminámos o clipe há pouco tempo, foi a primeira vez que filmei aqui na zona do Porto e gostei de trabalhar com o Ricardo Leite e o Pedro Neves. Mas fora isso poderia falar de outros temas do disco.

O tema homónimo teve direito a um excelente vídeo de animação idealizado pelo artista sérvio Vuk Palibrk. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com um nome tão interessante e o conceito é da tua autoria, foi um trabalho partilhado ou o autor teve carta branca para idealizar o conteúdo?

Conheci o Vuk Palibrk e o seu trabalho gráfico na primeira viagem à Sérvia, quando fui convidada do Festival Internacional de Banda Desenhada GRRR! em 2006, com uma exposição de desenhos e concerto. Para este clipe, sabendo que a animação feita à mão é um trabalho monstruoso que pode levar anos a produzir poucos minutos, pedi para ele usar pedaços de filmes dele, e juntar alguns elementos alusivos à letra da música (prédios, multidão, carros, etc).

O que podemos esperar do futuro discográfico da Rita Braga?

Estou a preparar demos para um futuro álbum a solo que terá por base mais teclados, sintetizadores e caixas de ritmos. Também quero a certa altura gravar um disco de “Chips and Salsa”, o meu dueto com o Chris Carlone. Um mais eletrónico, o outro acústico. Ambos de temas autorais, não excluindo uma ou outra versão.


autor stipe07 às 21:27
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Sábado, 14 de Fevereiro de 2015

Cave Story - Spider Tracks EP

Pedro Zina (baixo), Ricardo Mendes (bateria) e Gonçalo Formiga (guitarra e voz) são os Cave Story, uma banda nascida nas Caldas da Rainha em 2013 e que deu o pontapé de saída numa carreira que se adivinha promissora com um conjunto de demos que chamou a atenção de vários promotores e festivais nacionais e internacionais como a FatCat Records e o Reverence Valada.

Spider Tracks é o primeiro EP dos Cave Story, seis canções gravadas durante um ano e que ganham vida quando são descritas dentro dos abrangentes limites definidos por um post punk pop experimental que tipifica o som de um trio que admite estar sempre aberto e pronto para novas sonoridades, mas que confessa sentir-se mais confortável a explorar os recantos mais obscuros de uma relação que se deseja que não seja sempre pacífica entre a mágica tríade instrumental que compôe o arsenal de grande parte dos projetos inseridos nesta miríade sonora.

Gravado durante cerca de um ano, como já referi, num recanto desconhecido, cuja localização a própria banda não quis revelar na entrevista que me concedeu e que podes conferir adiante e onde não faltavam sons da natureza que a banda não se importou de captar (é possível escutar o som de um cão ladrar aos dezassete segundos do EP), Spider Tracks contém canções que muitas vezes crescem em emoção, arrojo e amplitude sonora, sempre de forma progressiva e sem evitar o salutar arrojo de quem olha para a partitura como um tubo de ensaio para a mistura apaixonada de tudo aquilo que é musicalmente viciante e significativo.

O que aqui temos são, no fundo, cerca de vinte minutos onde se pode apreciar um rugoso rigor volumoso de versos sofridos e sons acinzentados e belíssimos arranjos, assentes num baixo vibrante adornado por uma guitarra jovial e pulsante e com alguns efeitos e detalhes que nos arrastam sem dó nem piedade para o ambiente que quisermos, ora sombrio e nostálgico, ora aquele onde cabem os jeans coçados escondidos no guarda fatos, as t-shirts coloridas e um congelador a bombar com cerveja e a churrasqueira a arder porque é hora de festa.

Conferindo um efeito saboroso e inebriante, que pode ser potenciado por repetidas audições que permitem que determinados detalhes e arranjos se tornem cada vez mais nítidos e possam, assim, ser plenamente apreciados, Cave Story é um EP com uma insana cartilha sonora que busca um equilíbrio lisérgico entre momentos frenéticos e contemplativos e que confirma estarmos na presença de mais uma lebre de uma nova geração de bandas nacionais que redescobriu, à chegada do novo século, o velho fulgor anguloso e elétrico do rock’n’roll.

Hoje, dia catorze de Fevereiro, os Cave Story apresentam este EP ao vivo, pelas 23h00m, no Sabotage Club, em Lisboa. Espero que aprecies a sugestão...

Com uma carreira ainda no início, mas que já chamou a atenção de vários promotores importantes, começo com uma questão cliché… quais são, antes de mais, as vossas expetativas para esta estreia?

Queremos tocar por aí e ficamos muito contentes se alguém vier falar connosco dizer que gostou e falar sobre o EP. Idealmente a conversa segue para mais música, com sorte vamos para casa ouvir uma cena nova que não conhecíamos.

Começaram com um single chamado Richman, um tributo apaixonado a Jonathan Richman e com uma versão do tema Helicopter Spies dos Swell Maps. Algum motivo especial para este arranque? São artistas e bandas que admiram? Como foi saber que o próprio Jowe Head adorou a vossa versão?

No final de 2013 editamos uma demo com três faixas, foi esse o começo. “Richman” que lançamos já em 2014 foi um single muito especial para nós, uma maneira literal de colocar na mesa as nossas intenções. A versão da Helicopter Spies serviu o mesmo propósito além de trazer uma grande malha para o nosso arsenal nos concertos. Desde o ínicio que sabemos o que pode ser o nosso som e aquilo que podemos trazer, mas o ponto de partida serão sempre as nossas influências, e fazemos questão de ser abertos nesse sentido. Dito isto é claro que achámos muita piada ao comentário do Jowe Head, os Swell Maps são uma referência.

Falando agora de Spider Tracks… Gravado numa pequena casa no campo, num ambiente supostamente bastante bucólico e certamente isolado, algures na zona oeste, presumo eu, com as muralhas de Óbidos, ou as praias entre São Martinho do Porto e Lourinhã, ou então os pomares do Bombarral, em pano de fundo, o EP tem seis canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Se tivessem gravado noutro local, mais agitado, o conteúdo poderia ter sido diferente?

Sem dúvida, mas não só a gravação em particular, todo processo desde os primeiros acordes foi feito no mesmo sítio. Isolado, mas sem isolamento acústico irónicamente. Na capa há uma nota que diz que se ouve ‘ladrar aos dezassete segundos’ e é verdade. Qualquer ruído no jardim poderia ter feito parte do EP se o ganho dos microfones permitisse. Um disco, espera-se ter sempre uma parte mais ou menos marcada do seu próprio tempo e espaço, para nós, o Spider Tracks é aquilo que construimos ao longo do ano passado, numa altura pós-estudos/génese de novas responsabilidades que decidimos passar juntos, a tocar neste tal sítio no campo tanto tempo quanto possível… Guess we could feel better about worse.

Confesso que o que mais me agradou na audição do EP foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de Spider Tracks uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

O que idealizámos foi mutando ao longo das gravações e misturas. A começar pela escolha das faixas que queriamos incluir e das que acabámos por excluir. Durante as gravações fazemos questão de deixar espaço para que aconteçam coisas, não queremos ter total controlo sobre a gravação, não queremos saber nota a nota as nossas partes. É a diferença entre tirar uma fotografia num ambiente totalmente controlado ou onde há perigo de algo realmente interessante ou desastroso acontecer. Até agora tem funcionado, há sempre um take que tem qualquer coisa peculiar, irrepetível, que nos faz perceber logo “é este”. Os “arranjos” quase imperceptíveis são uma parte importante, para nós é o que nos deixa não ficar tão cansados das nossas músicas. Algo que lá deixámos que cria uma textura com mais camadas.

Além de ter apreciado o modo como conjugam a guitarra, o baixo e a bateria, também impressionou-me o uso, por exemplo, do violino, em Cleaner e Buzzard Feed e a vossa capacidade criativa na seleção dos arranjos, que conferem ao cenário melódico das canções, uma atmosfera particularmente bonita. Em que se inspiram para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

Acontece tudo naturalmente, acho que só o baixo costuma saber a música nota a nota. No caso dos violinos na Cleaner fizemos nove vozes diferentes que depois arranjamos na mistura. Seis vozes pensadas, três aleatórias, alguns bocados foram cortados outros repetidos, esticados invertidos, um processo que seria muito mais romântico se tivesse sido feito em fita. 

Spider Tracks foi misturado pelo Gonçalo Formiga, um de vocês. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Como já demos a entender, para nós todo o processo desde composição até à mistura passando pela gravação é um difícil de separar. Não foi uma imposição mas foi uma escolha feita desde o início. Tomamos essa decisão porque a escrita de canções e a forma que tomam sónicamente são duas coisas que não nos interessa separar. Seremos sempre os nossos próprios produtores ou co-produtores, vindo a trabalhar com outras pessoas.

Adoro a canção Fantasy Football. Os Cave Sotry têm um tema preferido em Spider Tracks?

A Fantasy Football. Apesar de claro, termos uma relação próxima com todas.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?
É o que faz mais sentido para nós. Podemos aventurar-nos a escrever algo em português mas para já não está nos nossos planos.

O que vos vai mover sempre será este post punk e esta pop experimental ou gostariam ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico dos Cave Story?
No futuro próximo devemos manter a linguagem, ainda há coisas para explorar. Quando sentirmos que esgotamos a nossa proposta, se sentirmos, logo se vê. Mas não acredito em mudar só porque sim, se chegámos até este post punk pop experimental, como dizes, foi porque faz sentido para nós, muito teria de mudar para Cave Story virar reggae.

No próximo dia catorze vão apresentar o EP ao vivo, no Sabotage Club, em Lisboa. Alguma surpresa preparada? Ter calhado no dia de são Valentim foi apenas uma coincidência? Será Spider Tracks uma excelente banda sonora para casais apaixonados?
Foi uma coincidência, mas agora não há hipótese vão ter de levar connosco. Vamos ser acompanhados pelos Ghost Hunt, o seu primeiro concerto, o sr Eduardo Morais nos discos e Helena Fagundes nos visuais, só pode correr bem!

Há cerca de dez anos passei um fim-de-semana nas Caldas da Rainha, hospedado numa residencial no centro de uma rua movimentada, em frente ao parque da cidade. Aí havia um pequeno edifício, uma espécie de café / quiosque e, no fim-de-semana, havia aí bandas a ensaiar. Esse espaço ainda funciona? Como está o cenário musical alternativo das Caldas da Rainha neste momento? Que bandas me aconselham?
Não sei se funciona, e mesmo que funcione não sei se será o mesmo. Há vários sítios para ensaiar e várias bandas, o panorama infelizmente não é maior porque há pouca gente interessada apesar da oferta ser considerável. LEAF e Challenge, bandas em que o Ricardo nosso baterista também toca. Depois há os Füzz e os Lupiter. Ainda há uma editora inteira com o nome do bairro onde moro, AVNL Records, apesar de nunca os ter visto. Para os conhecer foi preciso ler um artigo sobre eles numa publicação internacional, curioso.


autor stipe07 às 18:07
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

A Jigsaw - No True Magic

Os A Jigsaw de João Rui e Jorri  andam por cá há mais de uma década e gostam de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e esta realidade às vezes tão crua que eles também sabem tão bem descrever, enquanto embalam os nossos ouvidos com simples acordes, várias vezes dispostos em várias camadas sonoras, com uma naturalidade que impressiona os mais incautos, à semelhança da naturalidade com que a nossa realidade encaixa na melodia das canções.

No True Magic é a mais recente obra prima dos A Jigsaw, um disco particular, que deve também ser admirado tendo em conta a parte lírica; todas escritas em inglês, as canções são pequenas narrativas, algumas delas algo inusitadas e com uma lógica que aparentemente procura suscitar o aparente e o impossível.

No True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. Pareceu-me então que No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística e que a beleza das texturas sonoras que o trabalho contém provocam a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente.

De acordo com o press release do lançamento, em 1817, o poeta e filósofo Samuel Taylor Coleridge cunhou o termo “willing suspension of disbelief” que na abordagem da literatura permitiria ao leitor a suspensão do julgamento da implausibilidade de uma determinada narrativa. Com este álbum, os a jigsaw aceitam que a religião é, frequentemente, o melhor refúgio e abrigo que encontramos para ficarmos face a face com a receita mais indicada para o convivio com essa certeza, ao memso tempo que nos dão pistas sobre como aceitarmos os termos da nossa mortalidade.

Em No True Magic, os A Jigsaw souberam, mais uma vez, convocar um excelente elenco de músicos e formar uma verdadeira orquestra folk que se aperaltou com a melhor farpela e subiu ao cimo daquele estrado de madeira, com algumas ripas rachadas, mesmo ali ao lado de um balcão onde escorre o melhor néctar do Tenessee, condenado a descer por gargantas secas e protegidas com lenços empoeirados e marcados por uma vida de perigos e demandas. Alimentam e o aquecem o ambiente em redor apostando numa fusão de elementos da indie, da pop e da folk, que dão vida a melodias luminosas, feitas com cordas delicadas e arranjos particularmente deslumbrantes e cheios de luz, amiúde dominados também por instrumentos de sopro e por metais, que criam paisagens sonoras bastante peculiares.

Em onze composições sonoras carregadas de texturas, criadas através da justaposição de diferentes camadas de instrumentos e sons, podemos saborear uma conjugação com um elevado cariz contemporâneo e atual, apesar do forte revivalismo que a música dos A Jigsaw transporta sempre consigo. O resultado final é, como esta dupla já nos habituou, verdadeiramente vibrante e com uma energia bastante particular, numa banda que parece não querer olhar apenas para o universo tipicamente folk, mas também abraçar, através de alguns traços sonoros caraterísticos, as facetas mais soul e blues do próprio indie rock.

Se no tema homónimo ficamos imediatamente convencidos e conscientes do irrepreensível charme que nos espera e que seduz pela forma genuína e simples como os A Jigsaw lidam com os nossos medos e fantasmas, enquanto retratam eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, a folk adoçicada de Black Jewelled Moon, com uma irrepreensível articulação entre as vozes de João Rui e de Carla Torgerson, transborda uma luminosa e majestosa melancolia, num belíssimo tratado de folk acústica onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave que deslumbra e corrói, mesmo os corações mais empenedridos.

Ao terceiro tema deixamos de ficar do lado de fora e são-nos finalmente abertas de par em par as portas do poeirento saloon, um antro de vício e luxúria, em plena aridez do deserto mojave, mas que poderia ser também a tasca da Dona Matilde, algures entre Serpa e o Redondo. Embalados pelo blues fumarento, arrastado e fortemente sensual de Without The Prize, pouco depois, em Midnight Rain, já estamos (in)comodamente instalados na primeira mesa que encontramos, onde, enquanto olhamos em redor, reavivamos toda a carambola de emoções que habitam no lado mais agreste do nosso coração (How is your love with the people down below?).

O disco prossegue e em Them Fine Bullets somos trespassados pela bala mais luzidia e certeira do tambor do cano, depois de termos sido convocados pelo para um duelo, mesmo ali, do lado de fora do estabelecimento comercial, onde confrontámos aquele nosso maior medo que todos guardamos cá dentro, o que nos abate e nos acolhe e que é, quase sempre, a incontornável e inevitável morte (But I have the need of nothing, so I'll take them fine bullets to my grave). Tides Of Winter é o momento dramático em que sentimos o último sopro libertário e somos conduzidos ao além numa marcha dramática que devolve ao pó o que é do pó, para assim podermos aceder finalmente, em Gates of Hell, ao instante do juízo final, onde decidimos se queremos realmente deixar que as agruras do amor e desta vida nos dominem, ou se queremos ser nós a tomar as rédeas do nosso próprio destino e viver uma vida plena (I'm counting the days of trust lost with fate, and since you've been praying outside the wrong gate, Let me tell you brother heaven is just a word. Oh you've been looming by the gates of hell).

Até ao ocaso, refeitos e com uma segunda oportunidade guardada secretamente na algibeira do colete coçado, junto ao relógio de corda que conta em sentido contrário o tempo que falta para encararmos novamente o nosso destino, Bring Them Roses é uma canção que cabe nessa algibeira e na de todos aqueles que já viveram amores desencontrados e não correspondidos, com o alinhamento a encerrar com Hardly My Prayer, canção que plasma a enorme capacidade que esta dupla possui para escrever canções que tocam fundo e que transmitem mensagens profundas e particularmente bonitas.

Há definitivamente algo de especial nestes A Jigsaw e na originalidade com que usam aspetos clássicos da folk para criar um som cheio de frescura e vitalidade, mas onde também há espaço para composições melancólicas, com um acabamento bucólico e onde sa sensualidade feminina e o lado mais rugoso e áspero da masculinidade, muitas vezes se fundem e se confundem, em canções desprovidas de género e carregadas de emoções e sentimentos.

No True Magic é, por tudo isto e muito mais, outro marco numa época de extraordinária e definitiva afirmação do cenário musical indie e alternativo português. Confere, já a seguir, a entrevista que a dupla me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

Com uma carreira já cimentada de uma década, iniciada com o EP From Underskin e depois do sucesso alcançado em 2011 com Drunken Sailors & Happy Pirates, regressam aos lançamentos com No True Magic, onze canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as vossas expetativas para este novo trabalho?

Creio que a melhor expressão seria a expectativa da continuidade. Tanto da continuidade da aceitação das nossas canções por quem já conhece o nosso trabalho como também a continuidade no acto de levar as nossas canções a cada vez mais pessoas de cada vez que temos um álbum novo. Isto porque as nossas expectativas em relação ao álbum já foram atendidas assim que ele ficou finalizado.

Confesso que o que mais me agradou na audição do álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de No True Magic uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Há sempre coisas que se alteram entre a génese da criação das canções e depois o formato final que assumem nos álbuns. Faz tudo parte de um processo de refinamento da canção até que fiquemos satisfeito. Esses detalhes que vão surgindo são intencionais. Aliás como o é tudo neste álbum. Não existe nada nele sem uma forte razão para sustentar a sua inclusão no álbum. Um exemplo de uma canção que se transfigurou desde o momento da sua criação foi a tides of winter que inicialmente tinha sido pensada como uma peça com um arranjo simples e despido de instrumentações e acabou por se tornar a música que mais instrumentos tem neste álbum. Seriam necessários cerca de 50 músicos no mínimo para apresentar essa canção ao vivo tal como ela se encontra na gravação patente no álbum.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental das cordas, dos sopros e da percussão, onde não faltam instrumentos como o violino, a harpa e uma trompa francesa e também a criatividade com que selecionaram os arranjos, também gostei particularmente do cenário melódico destas vossas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que se inspiram para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

O momento da criação pode ser um momento solitário. E com isto refiro-me à primeira centelha de uma melodia por exemplo. Mas só consideramos a música como aproximada de uma versão final do que será a partir do momento em que a experimentamos em conjunto e em que discutimos qual a ideia que cada um de nós os dois tem acerca do caminho a seguir com determinada música. Portanto acaba por ser um pouco a soma dos dois. Agora de onde vem a inspiração será porventura uma pergunta de difícil resposta pois não se sabe ao certo de onde advém essa magia. Mas algo que temos perfeita consciência é do trabalho imenso que nos aguarda se nos agrada aquela tal centelha. E é trabalho ansiado.

De acordo com vocês, True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística? A beleza das vossas texturas sonoras quase que provoca a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente. Qual é, no fundo, a grande mensagem que querem transmitir neste disco?

A mensagem acaba por ser a consciencialização dessa mortalidade e dos artifícios de que nos munimos para fingir o seu esquecimento. Quanto ao que fazer com essa informação ou conhecimento a todos os instantes, isso será algo com o qual cada pessoa tem de lidar e para o qual este álbum não será ajuda. Ele é ajuda apenas no caminho até essa consciência.

Aproveitando a deixa... Como está neste momento a vossa relação com Deus? E com os dEUS belgas, de tom Barman, que inspiraram, através de uma das suas canções (Jigsaw You), o título do vosso projecto?

Seremos porventura ateus religiosos ou religiosamente ateus? Temos uma opinião e uma relação com esse Deus relativamente oposta. Contudo certo será que temos um bom punhado de perguntas para Lhe fazer. Quanto à relação com os dEUS já foi melhor. Isto em relação ao trabalho actual deles, já que em relação a álbuns como In a Bar Under The Sea, esses deixaram a sua marca de tal forma que a sua intemporalidade obriga a uma boa relação com esses.

No True Magic foi produzido pela própria banda. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?

Em boa verdade e exceptuando o nosso primeiro álbum Letters From The Boatman, devido à nossa inexperiência do trabalho de estúdio na altura, todos os nossos álbuns desde então foram sempre produzidos por nós pois a nossa visão acerca da estética musical é de tal forma certa em relação a como queremos que fique o álbum que não poderia ser de outra forma. A única diferença é que desta vez não há uma co-produção e assumimos a inteira responsabilidade desse "trabalho" nos créditos do álbum.

Adoro a canção Black Jewelled Moon. Os A Jigsaw têm um tema preferido em No True Magic?

Creio que o tema favorito de ambos é No True Magic. Não a música mas o álbum. Isto porque escrevemos e gravámos mais canções do que aquelas que estão no álbum. As 11 que chegaram ao álbum são as nossas favoritas. As outras ainda que partilhem da mesma devoção da nossa parte não encontraram lugar nesta primeira edição mas que irão certamente ver a luz do dia no futuro tal como já havia sido planeado.

Já agora, como surgiu a possibilidade de contar com a voz de Carla Torgerson neste tema?

Esta possibilidade foi criada por nós quando decidimos escrever esta canção para a Carla interpretar. Decidimos criar uma narrativa que envolvesse um papel feminino que teria que ser interpretado por ela e mais ninguém. Cada uma das palavras foi pensada para a sua voz. Isto é também fruto de uma paixão que nutríamos pela sua voz desde que a ouvimos no dueto Travelling Light dos Tindersticks há cerca de vinte anos no seu segundo álbum. Assim que terminámos a escrita da canção falámos com o Chris Eckman (vocalista dos Walkabouts) que nos deu o contacto da Carla e assim conseguimos falar com ela. Claro que à data em que decidimos escrever a canção para a Carla não sabíamos se ela iria aceitar ou sequer se alguma vez a iria ouvir. Foi um salto de fé que correu muito bem porque ela adorou a canção e de imediato acedeu a participar na mesma. E ainda que falemos da não existência de magia verdadeira. Quando recebemos as gravações da Carla que foram efectuadas em Seattle pelo Glenn Slater, foi um momento verdadeiramente mágico para nós.

Este disco conta com outras participações especiais de relevo, nomeadamente Susana Serra (violino), Gito Lima, Pedro Serra, Guilherme Pimenta, na bateria, Hugo Fernandes e Laurent Rossi, entre outros. São amigos com quem quiseram sempre trabalhar, ou profissionais que foram contactando devido ao seu valor artístico? Em suma, como foi possível congregar nomes tão ilustres à tua volta?

As participações nos nossos álbuns são sempre e em primeiro lugar fruto da admiração que nutrimos pela arte de quem decidimos convidar. E nisso já sabemos à partida que serão boas participações pois conhecemos o trabalho deles. Posto isto é natural que hajam casos que se diferenciam como o caso do convite da Susana Ribeiro que é tão devido à sua arte como envolve um lado emocional pelo facto de ter feito parte dos a a jigsaw ( e em boa verdade o seu coração está de tal forma entrelaçado no nosso que nunca deixará de fazer parte ainda que não presente). Nenhuma outra pessoa poderia ter escrito aquele violino nem nós o aceitaríamos. Temos também casos como o do Gito Lima que desde o nosso segundo álbum que tem gravado sempre o contrabaixo de um tema por álbum e que para além disso neste No True Magic é o responsável pelo design gráfico. O Pedro Serra faz parte agora da banda de suporte que criamos para levar este álbum para a estrada: a The Great Moonshiners Band, tal como o caso do Guilherme Pimenta que nós acompanha na estrada há cerca de três anos. Ou seja, volta aqui também a haver uma razão por detrás de tudo.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?

A razão principal foi o facto de ter iniciado os meus estudos anglo-saxonicos desde tenra idade e o inglês se ter tornado assim uma segunda língua tão natural como o Português. Em ultima análise a culpa de cantarmos inglês é dos meus pais por me terem proporcionado essa educação. E sendo que é uma opção que já dura há 15 anos, no âmbito de a A Jigsaw seria impossível ser de outra forma. Faz parte da nossa identidade.

O que vos vai mover sempre será a folk, o blues e a pop experimental ou gostariam ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico dos A Jigsaw?

Saber o que nos vai mover daqui a 20 anos é um exercício no campo da futurologia experimental. Mas certamente que haverá sempre uma relação umbilical com o folk ou blues independentemente do comprimento desse cordão. Nas palavras do Willie Dixon "os blues são as raízes e tudo o resto são os frutos". Saber daqui a 20 anos quanto distamos das raízes é um exercício fútil. Mas mantendo-nos fiéis a essa máxima do Dixon, não estaremos muito longe. Temos ideias para projectos futuros nossos onde exploramos outro tipo de sonoridades mas que, e mais uma vez, são unidos por essa consciência de proximidade da raiz comum. Os blues.


autor stipe07 às 20:51
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Domingo, 25 de Janeiro de 2015

Vitorino Voador - O dia em que todos acreditaram

Depois do EP de estreia, Vitorioso Voo, O dia em que todos acreditaram é o primeiro disco de longa duração de Vitorino Voador, o projecto a solo de João Gil (membro dos Diabo na Cruz, You Can't Win Charlie Brown, entre outros projectos), um trabalho produzido e gravado pelo próprio João Gil e que conta com participações de diversos convidados, entre eles: David "Noiserv" Santos, António Vasconcelos Dias (Tape Junk, Hombres con Hambre) e José Joaquim de Castro. Já agora, em jeito de curiosidade, recordo que o nome Vitorino apareceu por acaso, devido ao erro num cartaz, mas acabou por ser o evento feliz que despoletou a escolha do alter ego. Quanto ao Voador, bastou uma fotografia dos Diabo Na Cruz em que João aparece a saltar para se dar o click.

Conheci o Vitorino Voador por causa de Vitorioso Voo e logo nesse instante percebi que o panorama musical português acabava de ganhar um novo projeto refrescante e um fazedor irrepreensível de emoções que se entranham, na altura um pouco em contra ciclo com o ambiente de crise e de angústia social instalado. Essa paisagem humana um pouco depressiva e angustiada que preenche as nossas cidades foi uma boa fonte de inspiração e esse EP de Vitorino Voador um veículo previligiado para afugentar medos e renovar com esperança e cor esta tal cor que mal nos ilumina.

Agora, dois anos depois, O dia em que todos acreditaram pode funcionar como uma espécie de catarse para todos aqueles que passaram mais ou menos incólumes pela tempestade e que vislumbram, finalmente, uma réstia de luz nas suas vidas prontas a uma renovação que se exige e que canções como Venha Ele ou O Caminho, por relatarem histórias carregadas de honestidade, intimidade e atualidade, enchem-nos a alma e, por isso, dão um forte contributo a este desiderato, diria-se que nacional, de alegrar quem se predispõe a conhecer este projeto e, através dele, ter consigo uma banda sonora da qual se pode apropriar e usar sempre que necessite de inspiração na busca de um novo rumo.

Disco com uma gestação atribulada já que o músico fraturou as duas mãos na mesma altura em momentos diferentes e quando teve a possibilidade de voltar a trabalhar a sério percebeu que tinha vontade de recomeçar de novo já que algum do material não fazia, algum tempo depois, igual sentido, O dia em que todos acreditaram está cheio de letras pessoais, que contam histórias na primeira pessoa de uma pessoa que também se apropria das histórias dos outros para as contar como se fossem suas, quando também são suas. Genuíno e eloquente no modo como dá vida a sentimentos, desejos e emoções de um ser humano que gosta de viver a vida ao máximo e que assume estar num período feliz da sua existência, este é um trabalho que quer fazer-nos felizes e que tem sempre, em cada uma das suas histórias, duas versões, a do Vitorino Voador e a do João Gil, com o músico a arranjar forma de uni-las às duas e isso continuar a fazer sentido na sua cabeça e depois, na de cada um de nós. O trabalho acaba por ser, apenas e só, uma grande música, já que, de acordo com aquilo que o João confessa na entrevista que me concedeu e que podes ler a seguir, a forma como as musicas se ligam entre si, os finais e os inícios de cada música pensados na música anterior e posterior, os fade ins e outs, a forma como os instrumentos se concentram por blocos ao longo do disco, a razão de ter cordas no início, a meio e no fim, tudo procurou essa razão.

Vitorino Voador não tem qualquer problema em confessar a sua timidez; É junto do piano, do teclado, do sintetizador e no palco  que ela se desvanece, por culpa da música que cria e que lhe permite desabafar as suas experiências pessoais e alguns dos seus segredos. Essa é uma das grandes razões pela qual O dia em que todos acreditaram enche-nos a alma e nos faz acreditar que é possível ser-se verdadeiramente feliz apreciando uma espécie de pintura sonora carregada de imagens evocativas, pintadas com melodias acústicas bastante virtuosas e cheias de cor e arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos, que provam a sensibilidade do Vitorino Voador para expressar pura e metaforicamente a fragilidade humana. E não restam dúvidas que ele combina com uma perfeição raramente ouvida a música pop com sonoridades mais clássicas. Espero que aprecies a sugestão...

Já lá vão dois anos desde que te entrevistei pela primeira vez a propósito do excelente EP Vitorioso Voo. Na altura confessaste-me que o teu disco de estreia, este o dia em que todos acreditaram, estava praticamente pronto, mas só irá ver a luz do dia agora em janeiro de 2015. Porque é que teve de ser para nós, teus fãs, tão longa a espera?

Olá. É verdade, nessa altura já havia um disco praticamente pronto e eu desatei a gabar-me dele sempre que me lembrava disso, o problema é que pouco depois disso consegui fazer a maior proeza do mundo que foi partir as duas mãos em situações completamente diferentes, ambas bastante parvas… O que levou a um atraso gigante no disco e que me fez repensar num disco (quase) todo diferente. Quando voltei a poder trabalhar a sério, já não fazia sentido o que tinha e comecei a fazer um novo alinhamento, algumas musicas como o single ficaram mas outras tantas desapareceram e entraram novas musicas. Foi uma lição muito grande para mim, lição essa: não falar antes de tempo. Já agora, muito obrigado pelo “excelente” e por serem meus fãs, é muito bom saber que há realmente gente que gosta do que faço e que se preocupa, fazem-me querer fazer mais musica todos os dias!

Afirmas que Venha Ele é uma canção que compuseste há bastante tempo, ainda no período do EP de estreia e que, de certa forma, faz a ponte entre essa estreia e este teu primeiro longa duração. A escolha desse tema como single e primeiro avanço do álbum, deve-se a isso?

Sim, penso que sim. A música Venha Ele começou a entrar no meu alinhamento muito cedo, cheguei mesmo a não tocar o single do meu EP e a tocar sempre esta música, sempre me deu gozo. Não tendo entrado no EP, achei que fazia todo o sentido trazê-la comigo para o disco e assim foi. Sempre achei que era uma música orelhuda, que ficava no ouvido, por ser simples e bonita, isso fez com que a escolha para o single do disco fosse fácil. O segundo single não será tão fácil, mas posso estar enganado.

Nesta canção, David "Noiserv" Santos tem uma participação especial e relevante. Mas além dele também aparecem nos créditos de O dia em que todos acreditaram nomes tão importantes como António Vasconcelos Dias e José Joaquim de Castro. Meteste cunha para fazerem parte do disco apenas por serem teus amigos ou porque musicalmente correspondiam aquilo que pretendias para a sua sonoridade? Resumindo, a participação deles teve apenas em conta o teu trabalho prévio e as tuas ideias ou foi numa base democrática em que as sugestões deles também foram válidas e fizeram sentido para ti?

Eu adoro tocar com amigos, aliás, penso que só toco com amigos, sou um sortudo. Estes convidados são todos amigos próximos mas não foi só isso que me fez convidá-los. Cada um deles tem uma razão de ser muito grande para cada uma das músicas em que participou, quase como peças de um puzzle que encaixam naquelas musicas perfeitamente. Cada um teve carta-branca para fazer o que quisesse nas músicas em que participou, depois era só uma questão de discutirmos essas ideias até estarmos todos felizes.

Confessas também que O dia em que todos acreditaram é, entre muitas outras coisas, sobre promessas quebradas e outras cumpridas. Canções como Ser alguém, Sem Ninguém, ou Viver Bem Ou Morrer Mal falam muito, na minha opinião, de uma ideia de urgência em viver e de estar vivo e procurar, o mais possível, ser-se autêntico e não deixarmos que as rotinas nos absorvam. É correto imaginar que compuseste estas canções em redor de um desejo profundo pessoal e teu de veres todos aqueles que te rodeiam escutarem-nas de modo que elas façam com que, de algum modo, acordemos para a vida, a verdadeira e plena vida? O dia em que todos acreditaram é o dia em todos te escutaram e procuraram ser mais felizes por causa das tuas canções? Recordo que há dois anos me confessaste que irias surgir neste disco como um super-herói que já se afirmou e com o qual as pessoas podem contar...

Eu escrevo de uma forma muito pessoal, as histórias que conto são as minhas ou então aquelas que não são minhas mas que vivi quase como minhas. O que falei no início conta como uma dessas promessas quebradas, tanto falei e depois não cumpri, senti-me um mau político, mas ao mesmo tempo depois de uma luta grande consegui ver o disco cá fora e isso é uma promessa cumprida, faz-me feliz. Eu tenho uma necessidade grande de viver a vida ao máximo, se calhar todos temos, eu é que se calhar torno isso demasiado publico porque nem sempre a vivo dessa forma e falando sobre isso, sinto que estou novamente a encarrilar pelo caminho certo. Se eu fizer as pessoas mais felizes através da musica que faço, então atingi sem duvida um dos meus maiores objectivos de vida. Quando falámos sobre este disco, eu já tinha uma história na minha cabeça para essa personagem que é o Vitorino Voador, história essa que vai muito além deste disco. O que tento explicar às pessoas é que existem sempre duas versões da história na minha cabeça, a do Vitorino Voador e a minha como João Gil, o que tento fazer é arranjar forma de uni-las às duas e isso continuar a fazer sentido na minha cabeça, é um desafio, mas nada como um bom desafio.

Sentes-te bem junto do piano, das cordas e do sintetizador e, realmente, acho que o alinhamento demonstra-o já que, se nas primeiras canções há um predomínio do piano e do sintetizador na base melódica, a partir de Ser Alguém, Sem Ninguém parecem-me ser as cordas a tomar as rédeas das canções. A forma como o alinhamento do disco está estruturado procurou obedecer a esta ideia de sequencialidade, ou eu estou a ver as coisas de uma forma completamente errada e o espírito foi outro?

O alinhamento do disco foi mudando ao longo do tempo, aquilo que posso dizer é que o que ficou, cumpriu na perfeição aquilo que tinha sonhado antes de ter as musica, o sonho era ter um disco que soasse a uma grande musica (grande no sentido de ser longa) na minha cabeça, como muitos discos que adorei ao longo da minha vida, era um sonho que tinha e que quis também tentar fazer. A forma como as musicas se ligam entre si, os finais e os inícios de cada música pensados na música anterior e posterior, os fade ins e outs, a forma como os instrumentos se concentram por blocos ao longo do disco, a razão de ter cordas no início, a meio e no fim, tudo teve uma razão de ser e posso dizer com grande orgulho que consigo ouvir o disco do início ao fim e ter essa sensação, é apenas uma grande música.

Presumo que o João Gil que surge nos créditos como produtor do disco sejas tu. A que se deveu a opção de teres sido tu próprio a assumir essa responsabilidade? Era algo que querias muito fazer desde o início ou acabou por acontecer naturalmente?

O João Gil está cá sempre, mesmo quando não quero e só quero o Vitorino Voador, mas para o bem e para o mal está cá sempre. O que faço é uma coisa tão pessoal que acabo por fazer tantas funções diferentes, felizmente estive sempre rodeado de outras pessoas que pensam pelas suas próprias cabeças e que não tiveram medo de dizer o que pensavam, isso influenciou muito as decisões que fui tomando e o caminho que o disco seguiu. Por isso, foi um disco produzido por mim, mas não só por mim. Para responder à pergunta, foi uma coisa que aconteceu naturalmente, sendo também uma coisa que sempre gostei de fazer.

Como vai ser a promoção deste teu álbum? Onde poderemos ver e ouvir o Vitorino Voador num futuro próximo?

Segundo as minhas contas, as apresentações ao vivo devem começar em Fevereiro, gostava de dar tempo às pessoas para ouvirem o disco e perceberem se gostam ou não e depois poderem ir para os concertos conhecendo o novo trabalho e percebendo melhor o que vai acontecer em palco. As datas ainda estão a ser fechadas mas não tarda já devo ter essas informações todas online.

Fiz-te esta pergunta há dois anos e não resisto a repeti-la... O que podemos esperar do futuro do Vitorino Voador? Será paralelo ao do João Gil, como músico noutros projetos, ou a aventura do Vitorino Voador  terminará aqui?

O Vitorino Voador veio para ficar, isto é só o início da aventura. Esta é uma daquelas promessas que não posso quebrar.

Para terminar, ainda escreves cartas de amor foleiras ou tentas escrever sempre qualquer coisa que saiba a uma canção saída de um anúncio de televisão?

Escrevo muitas cartas de amor, foleiras que é como eu gosto delas, quanto mais foleiras mais bonitas. Canções de anúncio de televisão também são bonitas por isso podem esperar mais umas quantas assim!


autor stipe07 às 20:57
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