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Gorillaz – Cracker Island (feat. Thundercat)

Domingo, 26.06.22

Foi há já ano e meioa que chegou aos escaparates Song Machine, Season One: Strange Timez, o sétimo álbum dos britânicos Gorillaz, que ofereceram ao úblico português aquele que foi muito possivelmente, a par dos Pavement, o melhor concerto da última edição do NOS Primavera Sound, que decorreu no Parque da Cidade do Porto há cerca de duas semanas. Agora, em pleno início tímido do verão de dois mil e vinte e dois, Russell, Noodle, 2D e Murdoc, conduzidos pelo enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro, apresentam-nos um novo tema intitulado Cracker Island que, para já, não traz atrelado a divulgação de um novo disco do projeto.

Gorillaz tease release of techno-tinged new track 'Cracker Island'

Canção produzida por Greg Kurstin, Remi Kabaka Jr. e os próprios Gorillaz e que resulta de uma feliz parceria da banda com Stephen Lee Bruner, aka Thundercat, Cracker Island pretende, antes de mais, convidar-nos a todos a aderirmos a uma espécie de culto, que tem como grande líder, nada mais nada menos que o próprio Murdoc Niccals, o baixista da banda. E o convite irresistível é feito à boleia de uma inebriante e polida composição, que junta a uma batida angulosa guitarras efusiantes e diversas camadas de sintetizações ondulantes, ou seja, é uma canção cujo centro nevrálgico gravita em redor de toda a diversidade que sustenta muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:32

Nick Mulvey - New Mythology

Quinta-feira, 16.06.22

Uma pandemia de quase dois anos e a paternidade recente são marcas fulcrais do novo disco do cantor e compositor britânico Nick Mulvey, o terceiro da carreira, um trabalho intitulado New Mythology e que, focando-se na ideia de mudança, acaba por ser o registo mais vulnerável e introspetivo do músico natural de Cambridge.

Nick Mulvey releases third album and first in 5 years, 'New Mythology'

Star Nation, um dos momentos altos deste New Mythology, é um bom exemplo desta filosofia estilística, que acaba por se refletir num disco que acaba por nos oferecer, no seu todo, um maravilhoso compêndio de folk contemporânea, na medida em que mantém intactos alguns dos traços identitários deste estilo musical tão peculiar, agregando-lhe nuances e detalhes, nomeadamente através de inspiradas sintetizações, que encontram sustento em alguma da melhor pop atual.

De facto, se logo a abrir o disco a cândida viola que conduz A Prayer Of My Own e, pouco depois, Shores Of Mona, exalam aquele lado mais clássico e íntimo da folk e se a referida Star Nation já arrisca interseções mais ou menos insinuantes entre esse legado e as novas tendências, a batida seca que trespassa Mecca ou os ecos sintéticos que deambulam pelas cordas de The Gift, são traços exemplares de uma construção artística fulgurante no modo como consegue atestar o grau de ecletismo e de heterogeneidade de treze canções com uma sonoridade única e peculiar.

Em New Mythology, Nick Muvey conseguiu criar um refúgio perfeito para a reflexão pessoal e uma armadilha subtil para capturar os nossos maiores temores, que sujeitam-se a ser devidamente exorcizados num alinhamento repleto de paisagens sonoras que, do minimalismo eletrónico eminentemente etéreo e com uma forte vocação experimental, à típica folk, esbarrando no rap, está impregnado com uma beleza e uma complexidade tais, que merece ser apreciado com alguma devoção, fazendo-nos sentir vontade, no fim, de carregar novamente no play e voltar ao início. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 13:53

Gaz Coombes - Sonny The Strong

Quarta-feira, 15.06.22

Quem esteve atento à luta fraticida pelo domínio da brit pop durante a década de noventa, recorda-se imediatamente da dupla Blur vs Oasis e depois acrescenta-lhe os Suede e os Pulp, os The Charlatans e talvez os Spiritualized e os Supergrass, este, sem dúvida, o grupo britânico mais negligenciado nessa altura. Gaz Coombes, antigo líder desta banda britânica, estreou-se numa carreira a solo em 2012 e em boa hora o fez com o fabuloso Here Come The Bombs. Uns dois anos depois desse início prometedor, Coombes regressou mais uma vez à boleia da Hot Fruit Recordings, com Matador, um disco produzido pelo próprio autor e gravado no seu estúdio caseiro em Oxford. No início do verão de dois mil e dezoito foi a vez de nos revelar o terceiro disco, um trabalho intitulado World's Strongest Man, com onze canções idealizadas por uma das personalidades mais criativas da indie britânica e inspiradas no concurso anual World's Strongest Man, um enorme sucesso televisivo em Inglaterra, um talkshow passado numa qualquer ilha das Caraíbas e que escolhe, após várias provas, aquele que é supostamente o homem mais forte do mundo.

Gaz Coombes returns with 'Sonny The Strong' | News | DIY Magazine

Agora cerca de quatro anos depois de World's Strongest Man, Gaz está de regresso com novidades, um single intitulado Sonny The Strong, mas que ainda não traz a reboque o anúncio, pelo menos oficial, da edição de um novo longa duração do artista britânico. Canção vibrante, rugosa e visceral, conduzida por um insolente piano, que depois vai sendo cortado a direito por uma bateria de forte pendor jazzístico e um efeito de guitarra metálico rebarbante, Sonny The Strong oferece-nos uma relação pouco vista em Coombes entre o rock clássico e climas mais progressivos, sem descurar um intenso sentido melódico e a tipica epicidade das melhores propostas da indie experimental que habitualmente é incubada em terras de Sua Majestade. Confere...

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publicado por stipe07 às 15:44

Interpol – Fables

Segunda-feira, 23.05.22

Os Interpol de Banks, Fogarino e Kessler, continuam a revelar detalhes de The Other Side Of Make-Believe, um registo que irá ver a luz do dia a quinze de julho próximo, com a chancela da Matador Records e que surge quatro anos depois de Marauder e três do EP Fine Mess. Recordo que durante este período Paul Banks não deixou de estar ativo, porque ofereceu-nos o espetacular disco homónimo de estreia do projeto Muzz, que partilha com Matt Barrick dos The Walkmen e Josh Kaufman dos Bonny Light Horseman.

Interpol lança o single "Fables" do álbum 'The Other Side of Make-Believe'

Assim, depois de terem sido divulgados os singles Toni e Something Changed, de um álbum que começou a ser incubado em dois mil e vinte numa casa alugada nas Catskills e que ganhou definitivamente forma no Norte de Londres com os co-produtores Flood e Alan Moulder, agora chega a vez de conferir Fables, uma curiosa composição que faz a banda resvalar para territórios mais próximos do hip-hop e do próprio R&B clássico, imagine-se, muito graças a um curioso e bem conseguido registo percussivo, a cargo de Daniel Fogarino.

Fables também já tem direito a um espetacular vídeo assinado por Van Alpert, o mesmo realizador dos filmes dos dois singles anteriores. Confere...

Website

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publicado por stipe07 às 13:00

The Smile – A Light For Attracting Attention

Sexta-feira, 13.05.22

Chega hoje mesmo aos escaparates A Light For Attracting Attention, o disco de estreia do projeto The Smile que reúne Thom Yorke e Jonny Greenwood, o chamado núcleo duro dos Radiohead, com Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet. Este é um álbum que tem vindo a agitar, com ânsia, burburinho e excitação, o acervo discográfico do ano de dois mil e vinte e dois, algo compreensível tendo em conta as amostras que foram sendo disponibilizadas nas últimas semanas do fabuloso conteúdo sonoro, lírico e conceptual de um alinhamento que tem a chancela da XL Recordings.

The Smile Debut Album “Free in the Knowledge” Announced with New Single |  Illustrate Magazine

Depois da audição deste disco, a primeira impressão que fica bem vincada no ouvido de quem está familiarizado com o cardápio único e incontornável de uma certa banda de Abingdon, nos arredores de Oxford, são duas questões bastante simples: Se este A Light For Attracting Attention conta com Thom Yorke e Jonny Greenwood em dois dos papéis principais da lista de créditos e se Nigel Godrich, um dos responsáveis máximos pela arquitetura sonora inconfundível dos Radiohead, é o produtor, porque é que este não é um disco assinado pelos próprios Radiohead? Se Yorke e Greenwood tiveram a ideia de um projeto paralelo, porque é que o som que idealizaram é tão semelhante ao da banda mãe de onde provêm, ao contrário do que é normal suceder? De facto, se A Light For Attracting Attention fosse o título de um novo álbum dos Radiohead, o seu conteúdo, tal como está, sem adaptações, seria, claramente, um dos destaques da exuberante discografia do mítico grupo britânico liderado por Thom Yorke e, consequentemente, apetece mesmo questionar se Ed O'Brien e Philip Selway sentir-se-ão confortáveis a ouvir este disco, podendo ter, legitimamente, a mesma sensação que nós temos.

Hipotéticas polémicas à parte, debruçando-nos com alguma minúcia no conteúdo sonoro de A Light For Attracting Attention, damos de caras (e ouvidos) com um álbum que disserta com gula, cinismo, ironia, sarcasmo, têmpera, doçura e esperança, sobre a nossa cada vez mais estranha contemporaneidade, algo que não espanta porque foi concebido por um trio cujo nome, (The Smile), não se refere àquele riso inocente e doce que todos apreciamos, seja qual for a sua proveniência, mas àquele riso típico de quem nos mente diariamente e fá-lo sem pudor, nomeadamente aquele riso pateta dos políticos que nos tentam convencer do contrário daquilo que geralmente dizem. E este disco tem, então, todos os ingredientes que é usual encontrar-se num alinhamento dos Radiohead, contando com uma fina e vigorosa interseção entre o melhor dos dois mundos que de modo mais fiel abarcam a herança sonora do grupo Oxford, o mundo do orgânico e o mundo do sintético. Para que tal se materialize, não faltam mesmo várias marcas identitárias, claramente audíveis ao longo do alinhamento, quer nas distorções das guitarras e na rudeza do baixo, quer na panóplia de sintetizações, com que facilmente nos familiarizamos, porque não fazem parte do cardápio de nenhum outro projeto além do projeto dos Radiohead, a não ser daqueles que tentam, quase sempre sem sucesso, replicar uma sonoridade sem paralelo no rock alternativo das últimas três décadas.

Assim, todas as doze canções deste A Light For Attracting Attention, de uma maneira ou de outra, umas mais exuberantes, outras mais cruas e contidas, têm os seus pilares assentes numa dimensão sonora eminentemente épica e orquestral. São composições detalhísticamente ricas em nuances, pormenores, sobreposições e encadeamentos, quase sempre guiadas por um cardápio de cordas geralmente com um timbre abrasivo e rugoso, mas também por um registo percussivo de forte travo jazzístico, ou seja, canções que exalam aquele habitual ambiente soturno que decalca um terreno auditivo muito confortável para Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nu algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

Assim, tomando como referência o típico universo radioheadiano, aquele rock mais cru e vigoroso que todos conhecemos e que a banda de Oxford replicou com enorme argúcia, em especial nos primeiros três discos da sua carreira, está exemplarmente representado em temas como We Don’t Know What Tomorrow Brings, um portentoso hino de synth rock para se escutar de punhos bem cerrados, mas também na elegância das distorções que acamam Skrting On The Surface, ou na abrasiva You Will Never Work In Television Again, composição que em pouco mais de três minutos nos inebria com um punk rock de elevadíssimo calibre, com guitarras ruidosas e um registo percurssivo frenético a acamarem a voz de Yorke que permanece intacta e pujante, mesmo após tantos anos. Na outra face da mesma moeda, ou seja, na herança mais sintética, ambiental e experimental, que começou a ganhar forma no início deste milénio com a mítica dupla Kid A e Amnesiac, cabem temas como Pana-vision, uma canção que nos proporciona um maravilhoso momento sonoro intimista e acolhedor, mas que depois resvala para uma pujante trama orquestral, sustentado pelas teclas do piano, adornadas, depois, com sopros sedutores e uma bateria de forte travo jazzístico, enquanto o típico falsete de Yorke, conduz o andamento do baixo, assim como em Free In The Knowdlege, música bastante reflexiva, íntima e sentimentalmente poderosa, talvez a que, em vinte e sete anos de The Bends, mais perto chegou à fronteira de Fake Plastic Treesmelodicamente assente numa belissima melodia de uma viola, que está sempre, ao longo dos quatro minutos e treze segundos que o tema dura, exemplarmente acompanhada por excelsos violinos e por diversos detalhes percussivos de forte travo jazzístico. Depois, e numa espécie de simbiose entre os dois pólos, temos o funk anguloso e vibrante de The Opposite e, num registo menos fulgurante, mas igualmente sensual, principalmente na beleza dos sopros, The Smoke, duas canções que encaixariam na perfeição no alinhamento do magistral In Rainbows, a hiperativa Thin Thing e a charmosa e melancólica Open The Floodgates. Estes são quatro exemplos de músicas que têm de modo mais ou menos declarado a eletrónica presente, mas sem abafar aquele bucolismo etéreo e introspetivo que, curiosamente, fica ainda mais vincado e realista quando conta com linhas de guitarra ligeiramente agudas e com uma bateria que parece, amiúde, rodar sobre si própria, tal é o seu grau de imediatismo e intuição, no modo como se cola às melodias e amplia o colorido das mesmas.

Disco muito desejado desde que se tornou pública a sua concretização, A Light For Attracting Attention é um álbum excitante e obrigatório, não só para todos os seguidores dos Radiohead, mas também para quem procura ser feliz à sombra do melhor indie rock atual, independentemente do seu espetro ou proveniência estilística. O alinhamento do registo contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica, materializando a feliz junção de três músicos que acabaram por agregar, no seu processo de criação, o modus operandi que mais os seduz neste momento e que, em simultâneo, melhor marcou a sua carreira, quer nos Radiohead, quer nos Sons Of Kemet. Surgiu, assim, um disco experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas, como tão bem prova a fabulosa e surpreendente Waving A White Flag, forte candidata ao pódio das mais bonitas canções de dois mil e vinte e dois. Espero que aprecies a sugestão...

The Smile 'A Light For Attracting Attention' Review

 

The Same

The Opposite

You Will Never Work In Television Again

Pana-vision

The Smoke

Speech Bubbles

Thin Thing

Open the Floodgates

Free in the Knowledge

A Hairdryer

Waving a White Flag

We Don’t Know What Tomorrow Brings

Skrting on the Surface

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publicado por stipe07 às 01:45

bdrmm - Three

Segunda-feira, 09.05.22

Ryan Smith, Jordan Smith, Joe Vickers, Danny Hull e Luke Irvin são os bdrmm, um projeto natural de Hull, em Inglaterra e que começou a fazer furor com If Not, When?, um EP de seis canções que viu a luz do dia à boleia da Sonic Cathedral Recordings e que foi gravado e masterizado por Alex Greaves.

bdrmm

Agora, em plena primavera de dois mil e vinte e dois, os bdrmm voltam à carga, com Three, uma honesta e intimista composição, gravada durante as sessões de Port, o disco de estreia que os bdrmm lançaram o ano passado. Three é uma composição plena de sentimento e emoção, alicerçada em opulentas sintetizações que vão ganhando espaço e vigor à medida que o tema flui e vai crescendo em majestosidade e amplitude. É uma canção ímpar, que exala uma suja nostalgia, que nos conduz a um amigável confronto entre o rock alternativo de cariz mais lo fi e shoegaze com aquela psicadelia particularmente luminosa que atingiu o êxtase nas décadas finais do século passado e que, graças a projetos como este, se mantém mais atual do que nunca. Confere...

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publicado por stipe07 às 12:49

Hot Chip – Down

Terça-feira, 26.04.22

Os londrinos Hot Chip têm já cerca de duas décadas de uma carreira de créditos firmados e são um projeto absolutamente essencial, quando se quer fazer um ponto de situação rigoroso sobre o estado atual da música de dança. Atualmente formados por Alexis Taylor, John Goddard, Owen Clarke, Felix Martin, Al Doyle, Rob Smoughton e Sarah Jones, os Hot Chip têm esse cariz de banda indispensável porque, além de serem um dos nomes mais consensuais e proficuos do universo sonoro em que navegam, estão cada vez mais ecléticos, uma nuance que deverá ser marca essencial de Freakout/Release, o novo álbum da banda.

Hot Chip: novo disco chega em agosto

Com data de lançamento prevista para dezanove de agosto e com a chancela da Domino Recordings, Freakout/Release será o oitavo disco da carreira dos Hot Chip, tendo sido idealizado e gravado no estúdio da banda, chamado Relax & Enjoy. De acordo com o próprio grupo, será um registo liricamente denso, mas sonoramente vibrante, apelativo e bastante dançável, com a cover que o grupo criou para o clássico Sabotage dos Beastie Boys, a ter servido como rampa de lançamento para a filosofia sonora do trabalho.

Down é o primeiro single retirado de Freakout/Release, um tema extremamente vibrante, que impressiona pela grandiosidade e pela saudável espontaniedade e convincente no modo como as suas guitarras e sintetizaodres nos agarram pelos colarinhos, em direção da pista de dança mais próxima, criado em torno de um looping samplado de um trecho da composição More Than Enough dos Universal Togetherness Band, que fazia parte do disco Saturday Night que este grupo lançou em dois mil e catorze. Confere...

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publicado por stipe07 às 16:18

Spiritualized - Everything Was Beautiful

Sexta-feira, 22.04.22

O extraordinário registo And Nothing Hurt, de dois mil e dezoito, assinado pelo projeto britânico Spiritualized, tem finalmente sucessor. Everything Was Beautiful é o nome do novo alinhamento de sete maravilhosas canções da banda de Jason Pierce e viu a luz do dia hoje mesmo, para gaúdio da nossa redação, com as chancelas da Bella Union e da Fat Possum.

Spiritualized - 'Everything Was Beautiful': a sonic feast

Everything Was Beautiful é um clássico instantâneo, diga-se. O nono disco da carreira dos Spiritualized foi gravado na íntegra por Jason Pierce, a.k.a. J. Spaceman, líder do grupo, um músico, cantor e compositor extraordinário, que também tocou variadíssimos instrumentos no álbum. E fê-lo em mais de uma dezena de estúdios diferentes e com um elevado naipe de músicos convidados legível nos seus créditos, incluindo Poppy, a filha, num processo contínuo de tentativa vs erro, que se tornou num verdadeiro desafio para o músico, que procurou um ambiente luminoso e de forte pendor ambiental, sem colocar em causa o exigido som de estúdio que faz parte do adn do projeto.

De facto, a voz sussurrante de Jason Pierce e o glorioso e vastíssimo arsenal instrumental que o circunda, fazem-nos sentir, logo que se carrega no play, que tudo é realmente bonito à nossa volta, como refere o título do álbum, numa viagem com sete paragens que nos levam das profundezas do espaço sideral às ruas desertas de uma grande metrópole, passando, pelo meio, por uma simples linha de caminho-de-ferro. E nem vale a pena pensar sequer em tentar resistir a este inapelável convite que o disco faz, canção após canção, à nossa mente e aos nossos sentidos, para que embarquemos numa epopeia que nos envolve também naquilo que é, sem dúvida, um verdadeiro analgésico soporífero em forma de música. 

Neste disco Jason Pierce, que nunca é artista de meias medidas ou de minimalismos incipientes, colocou mais uma vez a carne toda no assador. Cascatas de guitarras mais ou menos distorcidas, sintetizações cósmicas variadas, espirais de violinos em catadupa, impacientes e rebeldes sopros e um registo percurssivo com a dinâmica e o vigor indicados, são o receituário que suporta a arquitetura sonora de um alinhamento que também se define, como não podia deixar de ser, pela sua destreza melódica, um expediente essencial nas canções dos Spiritualized que buscam sempre os atalhos mais diretos para o coração do ouvinte. Crazy, a quarta canção do alinhamento de Everything Was Beautiful, estrategicamente situada no âmago do disco, é a composição que exagera, no bom sentido da palavra, na beleza e no romantismo, e que, por isso mesmo, espelha com clareza enorme esta caraterística essencial no momento de caraterizar o adn dos Spiritualized. Crazy é mais um bom exemplo de variações eletromagnéticas emanadas por planetas, ruídos intergaláticos e uma série de elementos que ao serem posicionados de forma correta se transformam em música. O tema, que conta com a participação especial vocal da artista country Nikki Lane, é uma lindíssima balada, plena de soul e emotividade, com uma linha eminentemente country pop, mas há outra canção, também estrategicamente posicionada, que não fica atrás de Crazy na hora de nos fazer sorrir sem razão aparente. Refiro-me a Always Together With You, o tema que abre o alinhamento de Everything Was Beautiful, outra estrondosa composição gravada pela primeira vez em dois mil e catorze, na altura com uma roupagem mais agreste e intitulada, à época, Always Forgetting With You (The Bridge Song), sob o pseudónimo Mississippi Space Program.

Para esclarecer de vez os mais exigentes de que este álbum é, sem qualquer possibilidade de rebate ponderado, um dos discos do ano, escuta-se The Mainline Song/ The Lockdown Song, talvez a composição conceptualmente mais de acordo com aquela que é outra grande matriz identitária dos Spiritualized, o confronto com a realidade e a indispensável crítica analítica à mesma. É um longo tema sobre comboios, mas também sobre as agruras que estes dois anos de confinamentos provocaram em todos nós, com uma base melódica de forte cariz hipnótico e progressivo, assente em cordas reluzentes e arranjos sofisticados que vão sendo inseridos na canção de modo a que ela tenha uma progressão contínua rumo aquela majestosidade que quase sempre se confunde com o habitual pendor psicadélico do projeto.

Jason Pierce é um eterno insatisfeito e esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a um artista que se serve desse eterno incómodo relativamente à sua obra, neste caso musical, para, disco após disco, tentar sempre superar-se e apresentar algo de inédito e que surpreenda os fãs. E no caso específico dos Spiritualized, uma daquelas bandas nada consensuais e, por isso, com seguidores que são, na sua esmagadora maioria, bastante devotos, como é o meu caso, ainda mais exigente se torna para o íntimo deste cantor, poeta e compositor britânico conseguir que esta sua filosofia de vida tenha efeitos práticos e seja bem sucedida. Everything Was Beautiful, disco repleto de calafrios na espinha e nós na garganta, faz isso na perfeição. É um fabuloso tratado de indie rock experimental, mas, principalmente, mais uma banda sonora indicada para instantes da nossa existência em que somos desafiados e superar obstáculos que à partida, por falta de coragem, fé e alento, poderiam ser insuperáveis, mas que durante a audição do registo sabem a meros precalços ou areias na engrenagem de fácil superação. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:33

The Smile – Pana-vision

Sábado, 09.04.22

Está mesmo ao virar da esquina a chegada aos escaparates do disco de estreia do projeto The Smile que reúne Thom Yorke e Jonny Greenwood, o chamado núcelo duro dos Radiohead e Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet. Os The Smile têm já algumas apresentações ao vivo no curriculum e esse disco será, certamente, um acervo discográfico incontornável do ano de dois mil e vinte e dois, tendo em conta You Will Never Work In Television AgainThe SmokeSkrting On The Surface e Pana-vision, os quatro inéditos que o trio já divulgou do registo que terá a chancela da XL Recordings.

Radiohead: The Smile Compartilha Vídeo Do Single “Pana-Vision” -  www.momentsradio.com

Se das canções já conhecidas do álbum Skrting On The Surface era aquele que mais transparecia com maior minúcia o adn sonoro único e incontornável dos Radiohead, não fosse uma canção cujo esboço foi criado no já longínquo ano de dois mil e sete durante as sessões de gravação de In Rainbows, Pana-vision, tema que faz parte do sexto episódio da série da Netflix Peaky Blinders, tem um travo fortíssimo a tudo aquilo que define o acervo fundamental da carreira a solo de Thom Yorke.

Este quarto single do trabalho de estreia dos The Smile é uma canção que nos proporciona um maravilhoso momento sonoro intimista e acolhedor, mas que depois resvala para uma pujante trama orquestral, sustentado pelas teclas do piano, adornadas, depois, com sopros sedutores e uma bateria de forte travo jazzístico, enquanto o típico falsete de Yorke, intacto e pujante, mesmo após tantos anos, deambula pela melodia, conduzindo o andamento do baixo.

Pana-vision tem também como parto forte uma animação de Sabrina Nichols que inclui obras de arte de Stanley Donwood, colaborador de longa data dos Radiohead. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:59

Hatcham Social – We Are The Weirdos

Terça-feira, 05.04.22

Toby Kidd, Finnigan Kidd e David Claxton são os Hatcham Social, uma banda britânica oriunda da capital Londres e We Are The Weirdos o quinto trabalho do cardápio de um projeto cujas raízes remontam a dois mil e seis, altura em que com a benção de Tim Burgess, o líder dos Charlatans e de Alan McGee, patrão da Creation Records, os irmãos Kidd e Claxton, antigo baterista dos Klaxons, deram o pontapé de saída numa trip sonora que tem mergulhado, disco após disco, num universo sonoro recheado de novas experimentações e renovações e que soa sempre poderoso, jovial e inventivo.

Hatcham Social – MP3 & 4 NYC shows including Cake Shop w/ Crystal Stilts &  TPOBPAH, Merc/

Sucessor do extraordinário registo The Birthday Of The World  de dois mil e quinze, We Are The Weirdos proporciona-nos mais uma mirabolante viagem rumo à melhor herança do rock britânico do último meio século. São catorze canções, repletas de vários convidados especiais e que fazem uma espécie de súmula de uma notável carreira de um dos projetos mais interessantes do cenário indie de terras de Sua Majestade. Falamos de uma banda cuja estreia nos discos ocorreu em dois mil e nove depois de alguns singles de sucesso editados anteriormente. You Dig The Tunnel and I'll Hide the Soil, foi o nome desse debut, um álbum produzido pelo já referido Tim Burgess e por Faris Badwan, dos The Horrors. O sempre difícil segundo disco, intitulado About Girls, chegou três anos depois e o elevado apreço por parte da crítica especializada manteve-se com Cutting Up The Present Leaks Out The Future, no início de dois mil e catorze. No outono do ano seguinte a fasquia ficou ainda mais elevada com esse The Birthday Of The World, uma esplendorosa coleção de dez canções, particularmente luxuriante, espiritual e hipnótica.

O que encontramos, então, neste We Are The Weirdos é uma coleção de canções verdadeiramente desconcertante e com uma produção cuidada, que aposta numa elevada dose de reverb e no típico espírito lo fi. É uma compilação que faz da sua audição um desafio constante, quer devido ao modo como coloca em causa, permanentemente e sem concessões, o típico formato canção, mas também pela amálgama heterogénea de arranjos, samples e sons que rodeiam e sustentam as suas composições.

Instrumentalmente, desde a bateria ao baixo, passando pelo orgão, o piano, sintetizadores, guitarras, violas acústicas e um arsenal alargado de instrumentos de percussão, é extenso o rol de convidados para esta festa única e lisérgica, não faltando um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. Abundam as sobreposições instrumentais em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa curiosa busca de acessibilidade, havendo o propósito claro de aproximação ao ouvinte, cativando-o para uma audição dedicada.

Logo em If You Go Down To The Woods Today (Three Cheers For Our Side), a voz e a metalização da guitarra dão corpo a uma melodia plena de majestosidade e cor, encharcada com o melhor código genético de uns The Smiths, para depois, em In My Opinion o espraiar cuidadoso das cordas de uma agreste guitarra, cimentarem o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Hatcham Social, feito de uma enorme assertividade e bom gosto. Depois o blues rock stoniano de I Cannot Cure My Pure Evil, a essência punk vintage do baixo que conduz Sidewalk e a herança aditiva e luminosa que o efeito sintético e o espírito barroco das cordas e de um efeito planante nos transmitem em Lion With A Lazer Gun, assim como a monumentalidade pop da garageira de So So Happy Making, confirmam os mais incautos que estes Hatcham Social são uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze, o chamado space rock e uma reforçada dose de experimentalismo sem regras e concessões, se deliciam com a mistura de vertentes e influências sonoras, sempre em busca de uma espécie de movimento estético de vanguarda sonoro, que desafia convenções e métodos e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:51






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