man on the moon
music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
Cootie Catcher - Straight Drop
As origens dos canadianos Cootie Catcher remontam a dois mil e catorze, ano em que a baixista Anita Fowl e o guitarrista Nolan Jakupovski deram as mãos para arrancar um novo projeto de indie pop experimental e eletrónica, ao qual se juntaram, pouco depois, a DJ Sophia Chavez e o baterista Joseph Shemoun.

pic by Colin Medley
Sedeados em Toronto, os Cootie Catcher estrearam-se nos lançamentos discográficos em plena pandemia, em dois mil e vinte e um, com o EP 1234, que teve sequência já no início deste ano de dois mil e vinte e cinco, com o disco de estreia, um trabalho intitulado Shy At First, que chamou de imediato a atenção geral e da crítica especializada, colocando-os, definitivamente, debaixo dos holofotes mais atentos e, agora, no final do ano, também dos nossos, devido a um novo single intitulado Straight Drop.
Esta nova canção divulgada pelos Cootie Catcher é o primeiro avanço revelado de Something We All Got, o sempre difícil segundo disco do quarteto, um alinhamento com catorze canções, que vai chegar aos escaparates a vinte e sete de fevereiro próximo, com a chancela da Carpark Recordings.
Straight Drop é uma composição vibrante, vigorosa e ruidosa, conduzida por um baixo encorpado, uma bateria frenética e guitarras distorcidas com astúcia. Mas o tema impressiona principalmente pelo modo subtil como alguns entalhes sintéticos vão sendo adicionados a um perfil sonoro que assenta naquele indie rock colegial garageiro genuíno, que encontra fortes reminiscências nas melhores propostas do género da última década do século passado e ao qual não falta, para abrilhantar o resultado final, um curioso travo punk. Confere Straight Drop e o artwork e a tracklist de Something We All Got...

Loiter for the love of it
Lyfestyle
Straight drop
From here to halifax
No biggie
Rhymes with rest
Quarter note rock
Take me for granted
Wrong choice
Gingham dress
Puzzle pop
Stick figure
Going places
Pirouette
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Terrible Mistake - Super Fly
Depois de já terem tocado junos no projeto All Them Lucky, Nuno Dionísio (Me And My Brain, Twin Transistors) e André Pires (The Speechless Monologue) têm um novo projeto em comum, sedeado em Leiria, chamado Terrible Mistake. Aqui exploram o lado sombrio e sensual da eletrónica underground, materializado por estes dias numa viagem intensa e psicadélica intitulada I Have An Atomic Bomb Inside Me, um alinhamento de seis canções, lançado em formato digital e vinil e com a chancela da Omnichord Records.

Super Fly é um dos grandes destaques do alinhamento de I Have An Atomic Bomb Inside Me. O tema é, de certa forma e de acordo com o press release do seu lançamento, o ponto de partida de um disco que traduz uma procura do processo de criação artística e da construção de identidade, tanto do caminho de contador de histórias, como do caminho da composição musical.
Super Fly é uma música que fala sobre a dificuldade de encontro no amor e sobre o caminho de descoberta interior que acompanha a criação, materializada num clima sonoro com um elevado travo, inicialmente jazzístico e depois eminentemente progressivo. Em Super Fly, vozes ecoantes e etéreas, teclados planantes e um registo percussivo algo arrastado mas contagiante, oferecem ao ouvinte pouco mais de seis minutos algo sombrios, mas bastante envolventes e com uma sensualidade hipnótica e vibrante única, que nos prende de modo inebriante e irresistível. Confere...
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Helado Negro – The Last Sound On Earth EP
Pouco mais de ano e meio depois de PHASOR, um disco que esteve em alta rotação na nossa redação no ocaso do inverno de dois mil e vinte e quatro, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, está de regresso com o anúncio do lançamento de Last Sound on Earth, um novo EP deste artista filho de emigrantes equatorianos e radicado há vários anos nos Estados Unidos. É um registo com cinco canções que viu recentemente a luz do dia com a chancela da Big Dada, a nova etiqueta de Lange.

Os cinco temas de Last Sound On Earth, têm como mote resultarem de um exercício reflexivo levado a cabo pelo artista, no qual imaginou quais seriam os últimos sons que escutaria antes de falecer. O filme Wavelength, assinado por Michael Snow, foi também, de acordo com Lange, um interruptor que acionou no âmago do músico sentimentos e emoções tão díspares como a esperança e o desespero, que acabaram por inspirar o conteúdo deste EP.
More, a composição que abre Last Sound on Earth, uma canção eminentemente sintética, que escorre com desmesurada rugosidade e vibração pelos nossos ouvidos, plena de distorções e de diversos efeitos e sons, alguns cavernosos, acamadas por uma batida plena de groove, dá o mote para o conteúdo filosófico e sonoro do registo, debruçando-se sobre o modo como todos nós, que vivemos numa sociedade tremendamente conetada nas redes sociais e no digital e no virtual, acabamos por nos afundar em instantes prolongados de angústia e de isolamento. Depois, Protector, outro tema eminentemente sintético e um verdadeiro festim de pop eletrónica, acentua o perfil. Por cima de uma batida abrasiva, acomodam-se diversos efeitos, nuances e detalhes, que criam um clima sonoro pleno de distorções, efeitos e sons, um estilo interpretativo que recria uma fronteira muito ténue entre o retro e o futurista, devido também ao elevado espírito lo-fi que exala e que se mantém na cosmicidade ecoante e frenética de Send Receiver, no fugaz sussurro de Zenith e no estilo ambiental e contemplativo de Don't Give It Up Now.
The Last Sound n Earth escorre com desmesurada rugosidade e vibração pelos nossos ouvidos, num resultado final eminentemente experimentalista, que recria um clima que encarna na perfeição o espírito muito particular e simbólico que Helado Negro pretenderá para esta nova etapa da sua carreira e da sua música, que parece ter a bússola definitivamente apontada para as máquinas. Espero que aprecies a sugestão...

01. More
02. Protector
03. Sender Receiver
04. Zenith
05. Don’t Give It Up Now
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Gorillaz – The God Of Lying (feat. IDLES)
Dois anos e meio depois de Cracker Island, os britânicos Gorillaz, projeto formado por Russell, Noodle, 2D e Murdoc e conduzido pelo enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro, estão de regresso aos discos com The Mountain, o nono álbum da carreira do projeto, um alinhamento de quinze canções que vai chegar aos escaparates a vinte de março de dois mil e vinte e seis, com a chancela da KONG, etiqueta criada pelo próprio grupo.

The Mountain será mais um disco conceptual, como é hábito nos Gorillaz, pretendendo, neste caso, ser uma espécie de banda sonora de uma festa na fronteira entre este mundo e o seguinte, explorando a jornada da vida e a emoção de existir. Para conseguir isso, o quarteto refugiou-se em Mumbai, na Índia, chegando lá à boleia de passaportes falsos fornecidos a Murdoch, por um mafioso de Nova Iorque. Na metrópole asiática, deixaram-se envolver pelo misticismo local e deixaram fluir corpo e mente pelos terrenos íngremes e montanhosos daquilo a que chamamos vida.
O resultado final desta jornada intimista, produzida pelos próprios Gorillaz, com a ajuda de James Ford, Samuel Egglenton e Remi Kabaka Jr. e gravada nos estúdios no Studio 13, em Londres e Devon, em diversos locais da Índia, incluindo Mumbai, Nova Deli, Rajasthan e Varanasi e em Ashgabat, Damasco, Los Angeles, Miami e Nova Iorque, são quinze canções repletas de participações especiais de excelência, como são os casos de Bizarrap, Black Thought, Anoushka Shankar, Omar Souleyman, Johnny Marr (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Paul Simonon (The Clash), Yasiin Bey (anteriormente conhecido como Mos Def), os Idles e os Sparks, dos veteraníssimos irmãos Ron e Russell Mael.
The Happy Dictator, uma canção ímpar no modo como recria um verdadeiro oásis de pop sintética, à boleia de uma batida frenética cósmica, um teclado encharcado em sintetizações retro e um sem fim de entalhes, foi o primeiro single divulgado do alinhamento de The Mountain. Em outubro, tivemos a possibilidade de conferir The Manifesto, canção que conta com as participações especiais do rapper argentino Trueno e com um pequeno trecho de Proof, membro dos D12, que faleceu há quase vinte anos, em abril de dois mil e seis. Era uma tema que, de acordo, com Russell Hobbs, o baterista fictício dos Gorillaz, encarnava uma meditação musical recheada de luz e uma viagem do nosso âmago à boleia de batidas. O resultado final foi, como certamente se recordam, um verdadeiro oásis lisérgico e contemplativo, em que world music, R&B, eletrónica, jazz, rap e hip-hop, conjuravam entre si com particular deleite e também com a ajuda de vários músicos indianos, nomeadamente os irmãos Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash, Ajay Prasanna, a banda Jea Band Jaipur e o coro Mountain Choir, dirigido por Vijayaa Shanker.
Agora, poucas semanas depois, do alinhamento de The Mountain, temos para escuta The God Of Lying, canção que conta com a participação especial de Joe Talbot, vocalista dos IDLES, artista que induz no tema o seu habitual registo vocal carismático e bastante vincado. Sonoramente, The God Of Lying oferece-nos uma espécie de reggae psicadélico, feito com sintetizadores buliçosos, um registo percussivo anguloso, a cargo do indiano Viraj Acharya e diversos arranjos acústicos algo subtis, dos quais se destacam os que são proporcionados por um banjuri tocado pelo também indiano Ajay Prasanna. Confere...

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Noiserv - 7305
Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional e um dos artistas queridos da nossa redação chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na sua bagagem um já volumoso compêndio de canções, que começaram a ser inscritas nos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless e Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's There. No outono de dois mil e dezasseis a carreira do músico ganhou um novo impulso com um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas que se tornou, justificadamente, mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional.
![New album] Noiserv – 7305](https://www.ecletismomusical.pt/wp-content/uploads/2025/10/566652850_18530072977008967_4753987768617290443_n-e1760687494832.jpg)
Quatro anos depois dessa pérola debitada quase integralmente nas teclas de um piano, Noiserv regressou com Uma Palavra Começada Por N, onze lindíssimas composições que, em pouco mais de meia hora, nos ofereceram um David Santos de regresso a territórios sonoros mais intrincados, subtis e diversificados, com o registo, no seu todo, a proporcionar-nos um banquete intenso e criativo e a impressionar pelo modo como diferentes nuances, detalhes e samples se entrelaçavam quase sempre com uma base melódica algo hipnótica, mas extremamente doce e colorida.
Agora, cinco anos depois de Uma Palavra Começada Por N, Noiserv tem um disco novo intitulado 7305, que além do notável avanço que o mesmo expressa relativamente à performance do autor, quer como poeta, quer como escritor, também aprimora ainda mais a sua já mítica versatilidade instrumental que, neste caso, teve a mira particularmente apontada a territórios mais sintéticos e eletrónicos, mas sem nunca descurar a presença, nomeadamente ao nível dos arranjos, de alguma instrumentação mais orgânica e acústica, não só ao nível das cordas, irrepreensiveis logo a abrir o alinhamento, na pueril melancolia psicadélica de 20.05. a self conversation is too loud for an empty room, mas também com o uso efetivo e marcante de sopros e de alguns elementos percurssivos.
O quotidiano que todos os dias nos atinge, que assola todos nós, sem exceção, que nos faz viver em permanente sobressalto, não só no que concerne ao cumprimento integral das nossas rotinas e horários, mas também, em paralelo, à convivência permanente com os nossos maiores medos, angústias, sobressaltos e falhas, mas também sonhos, desejos e aspirações, parece ser o grande mote concetual de 7305, tendo em conta a inteprretação que a nossa redação fez após a audição do registo. No entanto, esclarece-se, desde já, que é apenas uma interpretação nossa e que aquilo que o David idealizou para 7305 pode ser algo completamente diferente da nossa interpretação. No fundo é esta a magia da música; deixar que o ouvinte dela se aproprie e lhe dê o melhor uso pessoal e retire os ensinamentos e a inspiração que, num determinado momento, mais o reconforte. E, de facto, a música de Noiserv sempre teve este poder soporífero, esta capacidade de tocar o ouvinte mais dedicado e o fazer refletir sobre si próprio, a sua vida e os seus caminhos, aconselhado por um músico que também é um ser humano igual a nós, com alegrias, aspirações e medos e inquietações certamente parecidas ou semelhantes.
Um bom exemplo que justifica toda esta reflexão inicial acerca do conteúdo de 7305 é 20 . 13 . A lonely garden in the middle of a small house, uma composição cantada em inglês e que versa sobre a solidão e o desejo de encontrar explicações racionais nos momentos em que interiormente nos sentimos mais perdidos. Sonoramente, é uma canção muito complexa, porque se desenvolve dentro de uma ambientação essencialmente experimental, em que o sintético se entrelaça com o orgânico abrasivo das cordas, com elevada mestria. Depois, 20 . 25 . Resumidamente, uma canção cantada em português, amplia essa faceta comunicativa, fazendo, de acordo com o próprio Noiserv, um retrato do homem atual com ironia, poesia e alguma crítica, através de uma letra em que praticamente todas as palavras terminam em mente tende a reforçar o lugar de engano a que a nossa sociedade nos está a conduzir, uma completa troca de valores sobre o que é ou não importante na relação com o outro.
O registo prossegue e 20 . 08 . A Fearless Party Between A Kid And His Own Thoughts, a canção mais intimista e orgânica de todas as composições do disco, leva-nos, de certa forma, às origens da carreira de Noiserv, com uma melodia simples, mas sentida, a assentar num rendilhado sublime entre detalhes sintéticos e cordas dedilhadas com astúcia, sopros pueris e diversos entalhes percurssivos eminentemente metálicos, num resultado final intenso e sentimentalmente exuberante. Depois, 20 . 27 . A Long Journey In A Little Train To Poland, uma canção vigorosa e, a espaços, até algo abrasiva e com uma imponência muito subtil, mas óbvia, impressiona pela clemência e pelo detalhe, nuances que também transparecem no perfil interpretativo vocal do artista, mais intenso e processado do que o habitual.
Outro momento notável do registo é, sem dúvida, 20 . 16 . A Casa Das Rodas Quadradas, canção que se debruça sobre a dor subjacente aos momentos de mudança e que conta com a participação especial de Milhanas. O tema impressiona pela sua delicadeza e intimidade, imagens de marca de grande parte da carreira de Noiserv, que apostou com bastante frequência nas teclas de um piano para criar as suas melodias, fazendo-o aqui novamente e com um bom gosto indesmentível. O resultado final é bastante impressivo e comunicativo, envolvente e tocante, ampliado pela extraordinária dança protagonizada pelas vozes de Milhanas e Noiserv.
7305 é, em suma, um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcança, no seu todo, laivos de excelência que, como já foi referido, alargam os horizontes sonoros do autor e o arco concetual estilístico do seu catálogo, com superior mestria. Ao longo de pouco mais de trinta e dois minutos estabelece pontes entre aquilo que é definido como o orgânico e acústico e o sintético, através de um manancial de ligações de fios e transistores que debitam um infinito catálogo de sons e díspares referências, únicas no cenário alternativo nacional e que também exalam um intenso charme, induzido por uma filosofia interpretativa que, mesmo tendo por trás um cada vez mais diversificado arsenal instrumental, nunca abandona aquele travo minimalista, pueril, orgânico e meditativo que carateriza o modus operandi deste músico único. Espero que aprecies a sugestão...
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Westerman – Nevermind
O cantor e compositor britânico Will Westerman esteve am grande destaque na nossa redação em dois mil e vinte e três com um alinhamento de nove canções intitulado An Inbuilt Fault, o sucessor de outro extraordinário registo chamadoYour Hero Is Not Dead, lançado três anos antes, em dois mil e vinte.

An Inbuilt Fault estava recheado de momentos altos, nomeadamente CSI: Petralona, ou Idol; RE-run, um tema que contava com a participação especial de James Krivchenia dos Big Thief, que assinou, também, a produção de An Inbuilt Fault. Eram dois temas belos, retirados de um disco que impressionou pelo modo como Westerman alternou, com indisfarçável arrojo, entre uma espécie de rugosidade experimental sintética e uma delicadeza intensamente charmosa, predicados bem evidentes também na planante Give, uma belíssima canção de amor.
Agora, no outono de dois mil e vinte e cinco, Westerman regressa ao nosso radar à boleia de Nevermind, o mais recente single retirado do alinhamento de A Jackal’s Wedding, um disco que será lançado já a sete de novembro, com a chancela da Partisan Records.
Nevermind é mais um exemplo feliz do modo enigmático como o autor escreve e se debruça sobre a intimidade humana, um aspeto fundamental de uma escrita muitas vezes densa e críptica, que, neste caso, se debruça sobre o modo como tantas vezes nos esquecemos de certas coisas que dizemos e que, no momento da verbalização, foram pronunciadas com certeza e sobriedade. Esta imagem temática é personificada, neste caso, pela riqueza detalhística de um baixo encorpado e algumas teclas plenas de subtileza, que sustentam um registo melódico algo minimal, mas bastante inspirado e acolhedor. Confere...

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Anna Calvi – I See A Darkness (feat. Perfume Genius)
Sete anos depois de um extraordinário álbum intitulado Hunter, à época o seu terceiro registo de originais, a britânica Anna Calvi, está de regresso ao nosso radar devido a uma cover que incubou a meias com Perfume Genius. Trata-se da revisitação de um original de Bonnie Prince Billy intitulado I See A Darkness, que fazia parte do disco com o mesmo nome que o músico norte-americano Will Oldham lançou em mil novecentos e noventa e nove e o primeiro da sua carreira sob o nome Bonnie "Prince" Billy.
![Cover] Anna Calvi – I See A Darkness (feat. Perfume Genius (Bonnie 'Prince' Billy Cover)](https://www.ecletismomusical.pt/wp-content/uploads/2025/10/561900025_1397140398446575_2975757658218280551_n-e1761147302105-787x787_c.jpg)
Autora, cantora e compositora que tem chamado a si os holofotes da crítica devido ao seu registo vocal único e, já agora, também devido a um modus operandi sempre de difícil catalogação no que concerne ao modo como manuseia a guitarra, simultaneamente rugosa e gentil, Anna Calvi ponderou com todo o detalhe esta nova roupagem de I See A Darkness, não só para não defraudar as justificadas elevadas expetativas dos fervorosos fãs de Oldham, mas também, e principalmente, porque queria doar novas nuances, a um tema já de si bastante rico e intenso.
Assim, com a ajuda de Mike Hadreas aka Perfume Genius, Calvi oferece-nos um soporífero sintético, com uma impactante atmosfera lo-fi, mas também com aquela dose de delicadeza e emotividade que carateriza, através de um aparato tecnológico amplo, os principais caminhos de expressão musical dos dois protagonistas. É, em suma, um curioso e realisticamente magnético exercício de simbiose, entre elementos sintéticos particularmente rugosos. Confere a cover, já com direito a um vídeo assinado por Alexander Brown e o original...

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Vancouver Sleep Clinic – Beyond All Reason
É sempre com agrado que recordamos na nossa redação um dos discos que mais nos marcou no já longínquo ano de dois mil e dezanove. O trabalho chamava-se Onwards To Zion e era assinado, quase na íntegra, por Tim Bettinson, o músico e compositor australiano que encabeça o projeto Vancouver Sleep Clinic. Era, à altura, o segundo registo de originais de um projeto que ficou logo debaixo de merecidos holofotes, não só da crítica dos antípodas, mas também de diversas outras latitudes do nosso globo e que tinha como grande força motriz a perca de um amigo muito chegado do músico, sendo um exercício de catarse dessa inevitável dor.

Vancouver Sleep Clinic tinha estado pela última vez no nosso radar devido a Fallen Paradise, o álbum que o projeto lançou em dois mil e vinte e dois, o terceiro do grupo, um alinhamento de dez canções que tinha a chancela da Believe e que nos ofereceu pouco mais de trinta e seis minutos de música bastante envolvente, intimista e charmosa. Era um disco intenso, riquíssimo em detalhes e nuances, orquestralmente chegava a ser extravagante em alguns momentos e era tocante, já que exalava, em praticamente todo o seu alinhamento, sentimentos que, à partida, mexem sempre com o nosso âmago e o nosso lado mais irracional.
Agora, no outono de dois mil e vinte e cinco, Vancouver Sleep Clinic impressiona-nos novamente devido a um novo tema Beyond All Season. Trata-se de uma canção sentimentalmente intensa e hipnotizante, com uma elevada luminosidade intimista, que desagua numa feliz interseção entre música clássica eletrónica e pop ambiental, abraçada à voz sempre tocante de Tim, que não deixa ninguém passar incólume e que pode servir como ponte vigorosa, estável e firme para uma travessia segura rumo a um território de aconchego inimitável. Confere...

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Tame Impala – Deadbeat
Cinco anos após The Slow Rush e a testar os limites da nossa paciência devido a tão prolongado hiato, os australianos Tame Impala de Kevin Parker voltaram, finalmente, aos discos com Deadbeat, o quinto e novo registo de originais do projeto, um alinhamento com doze músicas gravadas, produzidas e misturadas pelo próprio Parker no estúdio do artista em Fremantle, na Austrália, onde reside e que, tendo a chancela da Columbia Records, é bastante inspirado na cultura bush doof na cena rave da Austrália Ocidental.

Os seguidores mais atentos do universo sonoro indie, habituaram-se, na última década e meia, a estar sempre particularmente atentos a tudo aquilo em que Kevin Parker fosse criando, quer nos Tame Impala, quer noutros projetos paralelos, ou como convidado. Ao início as cordas do baixo e das guitarras foram sempre suas fiéis aliadas, mas a verdade é que os sintetizadores têm vindo, ao longo dos anos, a ganhar cada vez maior primazia no seu modus operandi e a pop a tornar-se o princial alvo, em detrimento do rock progressivo e psicadélico.
Esta constante mutação sonora, que nunca deixou de ser também evolutiva, acabou por plasmar um importante aspeto da personalidade deste músico, que sempre se mostrou avesso a restrições, seguidismos e balizamentos e que foi perdendo o receio de assumir-se como amante da música de dança, reforçando, ao mesmo tempo o desejo de se vir a tornar num DJ de referência.
Deadbeat é o culminar de toda esta epopeia transformadora e reveladora, num disco que já tem muito pouco, ou praticamente nada, de Currents e que acaba também por cornfirmar as fortes suspeitas relativamente a esta guinada definitiva, que o álbum The Slow Rush já nos tinha deixado em dois mil e vinte. Ao longo de quase uma hora, Parker transforma a sua mente numa enorme pista de dança e oferce-nos um lugar na fila da frente da sua festa privada, com stream aberto, cimentando um ponto forte que este músico sempre teve, que é a capacidade de se conetar com cada um de nós, em particular com todos aqueles que se sentem mais excluídos ou marginalizados, algo bem patente no tema Loser, que tem nas poucas cordas mágicas de uma guitarra do disco e no registo vocal ecoante de Parker aquela marca psicotrópica setentista que tipifica grande parte do catálogo sonoro dos Tame Impala. No entanto, o curioso travo funk do perfil percurssivo do tema, oferece ao mesmo uma tonalidade psicadélica incontestável, numa canção plena de contemporaneidade, mas também com um forte pendor nostálgico, uma das imagens de marca deste projeto.
Antes disso, a abrir o registo, na batida orgânica e lo fi de No Reply, Parker amplifica ainda mais esta ligação que pretende estabelecer com uma audiência que raramente se revê no mainstream, com My Old Ways, tema que abre o disco, a calcorrear territórios um pouco mais intimistas, através de um perfil sonoro com levado travo jazzístico, apesar do registo percussivo sintético, mais uma marca que não é propriamente transversal ao catálogo Tame Impala.
A partir daí, a ecoante Oblivion tem a curiosidade de tocar perigosamente nas fronteiras do techno e a flutuante Not My World acaba por ter um efeito algo hipnótico, apenas afagado por uma melodia cintilante em tom de sino, numa espécie de deep house experimental, também pouco visto no projeto.
Até ao ocaso de Deadbeat, um disco cheio de batidas grandes e vazias que ecoam pelo espaço, na curiosa abordagem ao trance em Ethereal Connection, no piscar de olhos à pop sessentista em See You On Monday (You're Lost) e na eletropop de Dracula, uma canção que aponta baterias para aquilo que nomes como os Justice ou The Weeknd trouxeram para a ribalta já neste século, continua um desfile algo inócuo e inconsequente daquilo a que se pode chamar de uma admirável tentativa de Parker de propor algo novo e que de algum modo redifina a sua própria identidade enquanto artista.
Em suma, essencialmente através de drum machines ligadas desleixadamente a amplificadores de guitarra e deixadas a rodar enquanto reproduzem loops algo rudimentares, Deadbeat acaba, no seu todo, por ter um efeito algo oposto aquilo que a boa música de dança deveria de ter, nomeadamente um poderoso efeito libertador e até terapêutico. Espero que aprecies a sugestão...

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Helado Negro – Protector
Pouco mais de ano e meio depois de PHASOR, um disco que esteve em alta rotação na nossa redação no ocaso do inverno de dois mil e vinte e quatro, o projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, está de regresso com o anúncio do lançamento de Last Sound on Earth, um novo EP deste artista filho de emigrantes equatorianos e radicado há vários anos nos Estados Unidos. Será um registo com cinco canções e irá ver a luz do dia a sete e novembro, com a chancela da Big Dada, a nova etiqueta de Lange.

Os cinco temas de Last Sound On Earth, têm como mote resultarem de um exercício reflexivo levado a cabo pelo artista, no qual imaginou quais seriam os últimos sons que escutaria antes de falecer. O filme Wavelength, assinado por Michael Snow, foi também, de acordo com Lange, um interruptor que acionou no âmago do músico sentimentos e emoções tão díspares como a esperança e o desespero, que acabaram por inspirar o conteúdo deste EP.
No final de setembro passou por cá More, a composição que abre Last Sound on Earth e que se debruçava sobre o modo como todos nós, que vivemos numa sociedade tremendamente conetada nas redes sociais e no digital e no virtual, acabamos por nos afundar em instantes prolongados de angústia e de isolamento.
Agora, cerca de três semanas depois, seguimos a ordem do alinhamento do EP e temos para escuta Protector, um tema eminentemente sintético e um verdadeiro festim de pop eletrónica. Por cima de uma batida abrasiva, acomodam-se diversos efeitos, nuances e detalhes, que criam um clima sonoro pleno de distorções, efeitos e sons, um estilo interpretativo que recria uma fronteira muito ténue entre o retro e o futurista, devido também ao elevado espírito lo-fi que exala. Protector escorre com desmesurada rugosidade e vibração pelos nossos ouvidos, num resultado final eminentemente experimentalista, que recria um clima que encarna na perfeição o espírito muito particular e simbólico que Helado Negro pretenderá para esta nova etapa da sua carreira e da sua música, que parece ter a bússola dfinitivamente apontada para as máquinas. Confere...
