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Steven Wilson - The Future Bites

Segunda-feira, 22.02.21

Também conhecido pela sua contribuição ímpar nos projetos Porcupine Tree e Storm Corrosion, Steven Wilson tem já uma profícua carreira a solo, que viu recentemente um novo capítulo, com o registo The Future Bites. Sexto trabalho do catálogo de Steven Wilson, gravado em Londres e resultado de uma parceria entre Wilson e David Kosten, The Future Bites sucede ao aclamado álbum To The Bone, trabalho que há três anos comprovou que este é um dos músicos que na atualidade melhor mistura rock progressivo e eletrónica, fazendo-o sempre com grandiosidade e elevado nível qualitativo. Aliás, bastava escutar Hand. Cannot. Erase.,(2015) ou a obra-prima The Raven That Refused To Sing (And Other Stories) (2013), para se perceber como Steven Wilson é exímio nessa mescla e como convive confortavelmente com o esplendor e a grandiosidade, não tendo receio de arriscar, geralmente com enorme dinâmica e com uma evidente preocupação pela limpidez sonora.

STEVEN WILSON to release '1 of 1' box set for £10,000 to aid the Music  Venue Trust | XS Noize | Online Music Magazine

The Future Bites é, de acordo com o próprio Wilson um portal online para um mundo de elevado conceito de design construído especificamente para consumidores ultra-modernos. Nos seus pouco mais de quarenta minutos, somos constantemente bombardeados por uma ímpar riqueza melódica e por uma assertiva conexão entre belas paisagens acústicas e instantes de fulgor progressivo, como se percebe logo na parelha UNSELF e SELF. Depois, a sagacidade orgânica que molda o falso minimalismo a que sabe King Ghost e o inconfundível timbre metálico aconchegante e o vigoroso ritmo de12 Things I Forgot, que nos remetem para a melhor herança daquele rock oitocentista mais nostálgico e efusiante, são outras composições a reter atentamente, juntamente com o orgasmo contemplativo de Man On The People, o efusiante krautrock que encharca Follower e a cuidadosa e bem planeada incursão ao R&B em Eminent Sleeze.

The Future Bites é, em suma, um disco extremamente sensorial e que está carregado com uma densidade e ao mesmo tempo leveza sonora, difíceis de descrever, graças não só a guitarras e elementos percurssivos debitados com uma contemporaneidade bastante vincada, mas também devido a teclados atmosféricos e ao glamour inigualável da voz nasalada bastante sedutora e intrigante deste gentleman do indie rock britânico. Espero que aprecies a sugestão...

 

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publicado por stipe07 às 15:30

Clap Your Hands Say Yeah – New Fragility

Sábado, 20.02.21

Disco fundamental da reentrée em dois mil e vinte e um é New Fragility, o novo compêndio de originais dos norte americanos Clap Your Hands Say Yeah, sucessor do excelente registo The Tourist lançado no início de dois mil e dezassete e que continha um olhar particularmente anguloso, para sonoridades mais ecléticas, tendo os anos oitenta em particular, como principal ponto de mira. Este New Fragility, título inspirado no conto de David Foster Wallace Forever Overhead, é o sexto trabalho da banda oriunda de Brooklyn, Nova Iorque, liderada pelo carismático por Alec Ounsworth e que há década e meia causou enorme furor com um fabuloso homónimo junto de uma blogosfera atenta, que sempre os seguiu com devoção e na qual me incluo, até se tornarem, aos dias de hoje, num projeto de dimensão mundial. New Fragility foi produzido pelo próprio Alec Ounsworth, com produção adicional de Will Johnson, gravado por Britton Beisenherz em Austin, no Texas, misturado por John Agnello e masterizado por Greg Calbi.

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Alec Ounsworth é a face mais visível e o grande sustentáculo deste projeto, facto que, por si só, imprime o espírito e a filosofia de cada disco dos Clap Your Hands Say Yeah. E a política nunca foi, na verdade, um prato forte na escrita de Alec, até este New Fragility, o disco mais politizado da carreira do grupo de Brooklyn e onde conceitos como o cada vez mais crescente capitalismo e o suposto colapso da democracia americana durante a administração Trump, estão bem presentes, juntamente com as consequências que tal conjuntura atual e dominante na sociedade em que o coletivo vive, tem provocado na existência pessoal de cada um e, em particular de Ounsworth, que já confessou publicamente um certo trauma por viver num mundo em que o abuso de substâncias ilícitas e o divórcio que a maioria das pessoas tem pelas causas públicas e o bem coletivo, é uma realidade bastante impressiva.

São, portanto, vários os temas com forte motivação política e declaradamente canções de intervenção, neste New Fragilty. As que mais impressionam são Hesitating Nation e Thousand Oaks. A primeira reflete sobre o modo como Alec Ounsworth se sente desiludido e até alienado com a tão propalada democracia americana, uma efervescente composição, com uma toada minimal mas crescente, adornada por uma guitarra ondulante e com uma interpretação vocal irrepreensível. Já Thousand Oaks versa sobre o tiroteio que ocorreu em Thousand Oaks, na Califórnia, em mil novecentos e dezoito e que matou treze pessoas. É uma canção que assenta num formato mais contemplativo e altivo, à boleia de uma guitarra insinuante que se vai entrecortando com a bateria, à medida que a canção progride.

Relativamente à componente sonora de New Fragility, como é natural, o indie rock contemporâneo assente em temas construídos sobre linhas de guitarra efervescentes e sintetizadores inspirados, com uma forte componente melódica e refrões bastante luminosos, é a grande força motriz deste registo, caraterísticas impecavelmente impressas no tema homónimo de um disco, ou na majestosidade de CYHSY, 2005, duas das composições em que a banda, ciente  destas permissas, procurou ir um pouco mais adiante e acrescentar novas nuances ao seu cardápio. A abrangência estilística dos arranjos que adornam Went Looking For Trouble, uma canção em que a acusticidade de diversas cordas amplia o pendor suplicante do registo vocal, e também Mirror Song, composição que impressiona pelo modo magnífico como o piano gela os nossos ouvidos, são mais exemplos, numa esfera mais intimista, desse salto estilístico que New Fragility contém, numa espécie de metamorfose e ambivalência entre territórios mais luminosos e outros mais introspetivos.

Disco que se divide constantemente entre a simplicidade e a grandeza dos detalhes, New Fragility é um exercício assertivo numa nova etapa da vida dos Clap Your Hands Say Yeah, que parecem procurar novas boas ideias que comprovam que eles não desistem de procurar o seu lugar de relevo, diferencial e distinto no cenário musical alternativo. No futuro irão certamente reencontrar e nunca se sabe se, entretanto, acontece outra metamorfosoe. Na mente de Alec tudo continua a parecer possível. Espero que aprecies a sugestão...

Clap Your Hands Say Yeah - New Fragility

01. Hesitating Nation
02. Thousand Oaks
03. Dee, Forgiven
04. New Fragility
05. Innocent Weight
06. Mirror Song
07. CYHSY, 2005
8. Where They Perform Miracles
9. Went Looking For Trouble
10. If I Were More Like Jesus

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publicado por stipe07 às 16:09

LNZNDRF – II

Terça-feira, 16.02.21

Depois de cerca de meia década de uma longa e penosa espera, já viu finalmente a luz do dia II, o novo registo de originais do super grupo LNZNDRF, que junta Ben Lanz e Aaron Arntz dos Beirut e Scott e Bryan Devendorf dos The National. Abrigado pela Rough Trade, II é um daqueles excelentes instantes sonoros que merecem figurar em lugar de destaque na indie contemporânea, criado por um quarteto que parece tocar submergido num mundo subterrâneo de onde debita música através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco de composições que impressionam pelo forte cariz sensorial.

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II abre as hostilidades com um piano tocado em surdina, mas que rapidamente perde a vergonha e se deixa contagiar por uma incontida avidez que sobrevoa um baixo rugoso que vai rodando numa espiral continua e agregando cada vez mais detalhes sonoros, uns sinistros outros reluzentes, das mais diversas proveniências, sejam elas acústicas, percurssivas ou sintéticas. É The Xeric Steppe, uma indisfarçável busca por um clímax que por volta do quarto minuto se manifesta, através da bateria vigorosa de Bryan Devendorf, um baixo corpulento e uma tenebrosa guitarra, numa composição que acaba por nos esclarecer o estilo e marca de um disco que será, até ao seu ocaso, um verdadeiro orgasmo de rock com um cariz fortemente ambiental, mas também amplamente progressivo. Esta receita volta a deslumbrar-nos alguns minutos depois, de forma menos efusiva, mas igualmente burilada, em Cascade, um cenário idílico para os apreciadores do rock progressivo mais climático e lisérgico.

No entanto, o rock alternativo, na sua essência mais pura e imesiva, é um dos pontos mais fortes de II e um claro avanço relativamente ao antecessor homónimo, patente em algumas das melhores canções do registo. Por exemplo, em Brace Yourself debatemo-nos com um rock pleno de personalidade e força, onde é forte a dinâmica entre uma opção percurssiva arritmada exemplarmente acompanhada por um baixo que parece ser brotar da própria natureza e por um registo vocal efusivo, num encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. Uma receita mais nostálgica e na qual uma guitarra de forte cariz oitocentista assume relevância clara, mas mantendo a opção estilística por um registo sempre crescente, aprimora-se em You Still Rip, canção que rapidamente nos envolve numa espiral de sentimento e grandiosidade, patente também no modo como a voz também se assume como membro pleno do arsenal instrumental, não havendo, como se percebe, regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos. Finalmente, Chicxulub, um instumental que poderia muito bem ter tido a assinatura dos DIIV, é uma verdadeira trip deambulante proporcionada por um baixo pouco meigo no modo como incorpora doses indiscretas de uma pop suja e nostálgica e Ringwoodite ascende, nas asas de guitarras joviais e orgulhosamenre orgânicas, ao éden da melhor pop, que também se embrenha por todos os poros de Glaskiers, duas fabulosas composições que não se envergonham de dar as mãos a alguns dos pilares essenciais daquele krautrock de forte cariz sensorial.

Gravado em inspiradas jam sessions durante o outono de dois mil e dezanove, nos Estúdios Public Hi-Fi, em Austin, no Texas, II navega num universo fortemente cinematográfico e imersivo e aos seu conteúdo deve atribuir-se um claro nível de excelência, não só devido aos diferentes fragmentos que os LNZNDRF convocaram nos vários universos sonoros que os rodeiam e que da eletrónica, à pop, passando pelo rock progressivo criaram uma relação simbiótica bastante sedutora, mas também porque, embarcando nessa feliz demanda, também não deixaram de partir à descoberta de texturas sonoras que se expressaram com intensidade e requinte superiores, nomeadamente num transversal piscar de olhos objetivo aquela crueza orgânica que aqui faz questão de viver permanentemente de braço dado com o experimentalismo e em simbiose com a psicadelia. Para já, o momento discográfico maior de dois mil e vinte um. Espero que aprecies a sugestão...

LNZNDRF - II

01. The Xeric Steppe
02. Brace Yourself
03. You Still Rip
04. Cascade
05. Chicxulub
06. Ringwoodite
07. Glaskiers
08. Stowaway

 

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publicado por stipe07 às 16:27

Lonely Tourist – Remuneration (Solo)

Quinta-feira, 11.02.21

Natural de Bristol, Paul Terney encabeça o projeto Lonely Tourist, que impressionou a crítica inglesa em fevereiro de dois mil e dezoito com Remuneration, o seu quarto disco, um compêndio de indie folk absolutamente ímpar. Pouco mais de um ano depois, no verão de dois mil e dezanove, Lonely Tourist voltou à carga com a edição de Last Night At Tony's, um dos melhores discos ao vivo que a folk britânica viu chegar ao seu catálogo em dois mil e dezanove.

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No verão passado, quase um ano depois desse delicioso alinhamento, Paul Terney deu sinais de vida com um novo tema intitulado Tom And The Library, e agora chegou a vez do músico olhar de novo para o alinhamento de Remuneration e induzir-lhe uma roupagem mais acústica e minimalista, mas igualmente emotiva, servindo-se apenas da viola e da voz para nos oferecer um exuberante e luminoso alinhamento, assente em cordas vibrantes, repletas de vivacidade e ritmo, aspetos que conferem à nova roupagem do disco, juntamente com a notável performance declamativa vocal de Paul, um inconfundível charme, tipicamente british. Confere...

Lonely Tourist - Remuneration (Solo)

01. Frank The Barber
02. Last Day At Tony’s
03. Luxury Coach
04. Highland Dress and Menswear
05. Father Tierney Has His Doubts
06. Sometimes I Can’t Even Say Hello
07. White Beard Kings
08. Wherever You Stand, You’re In The Way
09. Ho-Hum Silver Lining

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publicado por stipe07 às 14:41

Baio – Dead Hand Control

Segunda-feira, 08.02.21

Foi à boleia da conceituada Glassnote que viu a luz do dia Dead Hand Control, o terceiro disco do catálogo de Chris Baio, baixista dos Vampire Weekend, mas que também tem apostado com inegável sucesso numa carreira a solo que navega com astúcia nas águas quentes de um indie rock sonorizado através de inspiradas e felizes interseções entre cordas imponentes e uma componente sintética geralmente bem vincada e onde os sintetizadores são reis. Este abraço é rematado por uma secção rítmica fluída, sendo estas as bases fundamentais num dos discos mais interessantes e apelativos deste arranque de dois mil e vinte e um.

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Gravado entre o 13 Studios em Londres, propriedade de Damon Albarn e o C+C Music Factory em Los Angeles, estúdio que fundou com o companheiro de banda Chris Tomson, Dead Hand Control é um descarado convite ao positivismo e à boa disposição, ingerdientes que todos precisamos como de pão para a boca neste período pandémico particularmente difícil. O tema homónimo do registo capta a sua essência e esclarece o ouvinte com notável requinte acerca do que o espera nos minutos seguintes, num portento de epicidade folk que faz juz a um dos ambientes sonoros prediletos de Baio, aquele que coloca as cordas bem no centro da ação. Depois, Endless Me, Endlessly, fecha o círculo ao olhar de modo guloso e anguloso para a pop sintetizada oitocentista, movida a néons e plumas, mas que também não descura um olhar em frente, ao abarcar detalhes e arranjos que definem muita da melhor eletrónica que se vai escutando atualmente.

A partir daí, são vários os exemplos do disco que refletem este cenário multicolorido e abrangente. Um dos mais inspirados é Take It From Me, composição em que um groove funk contagiante e sintetizações repletas de luminosidade nos transportam intuitivamente para a melhor herança que o mítico David Byrne imprimiu no catálogo mais inspirado da pop contemporânea. Depois merece também audição dedicada Caisse Noire, composição que impressiona não só pelo baixo pulsante, mas, principalmente, pelo efeito agudo sintetizado que deambula em redor dele e pelo modo como evoluem os restantes arranjos percussivos, num resultado final eloquente, algo etéreo e contemplativo e de elevada amplitude e luminosidade.

Todos estes ingredientes acabam por se repetir noutras canções, resultando num disco que faz uma espécie de mescla entre aquele rock contemporâneo que não precisa de rasgar para se impôr e o melhor retro e vintage que a pop contém na sua herança identitária e que teve a penúltima década do século passado como período mais feliz. O modo como o repetitivo refrão da lo fi Never Never Never abraça o céu e a terra sem se perceber onde termina e acaba essa copúla, ou o modo luxuriante como o baixo e o sintetizador se unem ao tom grave da voz em What Do You Say When I’m Not There?, aprofundam ainda mais a filosofia estilística deste Dead Head Control, um registo que induz no catálogo de Baio novas e inéditas matrizes, precisando por parte deste a sua singular definição da pop que, juntando rock e eletrónica, não renega o rico passado que o músico cresceu a ouvir, mas que em vez de manter em campos estanques, prefere conjugar, não como se fossem água e azeite, mas antes leite e café que, na dose certa, podem tocar-se, envolver-se, dissolver-se e emocionar-nos sem haver fronteiras claras, nessa simbiose, relativamente a cada um dos dois territórios referidos. Espero que aprecies a sugestão...

Baio - Dead Hand Control

01. Dead Hand Control
02. Endless Me, Endlessly
03. What Do You Say When I’m Not There?
04. Dead Hand
05. Take It From Me
06. Caisse Noir
07. Never Never Never
08. O.M.W.

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publicado por stipe07 às 15:10

The Notwist - Vertigo Days

Terça-feira, 02.02.21

Considerados por muitos como verdadeiros pais do indie rock, os The Notwist, liderados pelos irmãos Archer, regressaram no verão anterior aos lançamentos discográficos com Ship, um EP que quebrou um hiato de mais de meia década e que viu a luz do dia à boleia da berlinense Morr Music. Esse EP já tem sucessor e no formato longa-duração, o álbum Vertigo Days que acaba de ver a luz do dia à boleia da mesma etiqueta alemã e que conta com as participações especiais de Juana Molina, Ben Lamar Gay, Zayaendo, Angel Bat Dawid e Saya dos Tenniscoats.

Betörend melodisch: "Vertigo Days" von The Notwist | BR24

Vertigo Days é um esplendoroso desfile de dissertações sónicas em que uma vasta pafernália de arsenal percurssivo e uma ímpar criatividade ne seleção dos melhores arranjos sintéticos em cada composiçaão. O modo como um simples e repetitivo dedilhar de cordas é trespassdo por diversos efeitos e uma variedade rítmica de proveniências várias em In Love, que depois resvala para um clima mais progressivo e de forte pendor jazzístico em Stars, transformando duas composições aparentemente díspares numa única plena de sentido, é, logo a abrir o registo, a mais intensa demonstração da filosofia única de um trabalho imponente e vertiginoso, que irradia positividade e onde, do mais ínfimo detalhe até à manipulação geral do álbum, tudo soa muito polido, o que acaba por gerar num resultado muito homogéneo e conseguido e com incomensurável diversidade sónica.

De facto, imponência e diversidade são adjetivos felizes para classificar o contéudo este registo. Se canções como Al Sur, que conta com a participação especial de Juana Molina e onde o registo vocal desta cantora argentina que aprecia ambientes estéticos eminentemente experimentais encaixa na perfeição, num exercício melódico exímio a piscar o olho ao indie rock psicadélico, o baixo que acomoda um efeito metálico impetuoso de uma guitarra frenética em Exit Estrategy To Myself, um delicioso tratado de eletro punk rock ou a batida linear e o constante desfile de cordas com forte timbre metáluco, que definem Where You Find Me, a preponderância da bateria e o fugaz charme dos sopros em Into The Ice Age, captam ambientes típicos de um krautrock que também passa pelo hip hop mais negro, o clássico indie rock e o jazz progressivo. Mas depois, a batida seca que lateja sem cessar, enquanto é constantemente rodeada por uma espiral sintetizada repetitiva e diversas aparições de uma guitarra que se insinua sempre à espreita do momento ideal para explodir em riffs e distorções incontroláveis em Ship, uma canção que conta com a participação vocal da japonesa Saya, vocalista da banda Tenniscoats e que impressiona pelo rigor percurssivo e o elevado acerto nostálgico em que navegam as águas calmas que suavemente nos salpicam em Loose Ends, são outros temas que, atestando o cariz camaleónico deste projeto, capturam, ao mesmo tempo, aquela tonalidade mais sintética e minimal que sempre marcou os The Notwist.

Disco mágico, magnético e indutor, Vertigo Days contém uma beleza muito imediata e acessível. É uma manifestação de pura classe destes The Notwist e, dentro de um espetro eminentemente rock e com tudo o que isso implica em termos de ruído, silêncio, minimalismo, crueza, requinte sintético, cosmicidade e visceralidade, é eximío a oferecer ao ouvinte melodias incisivas, com um elevado grau de epicidade e esplendor e que replicam com ímpar contemporaneidade a melhor herança do rock progressivo e do shoegaze setentista, sempre com um indesmentível travo pop. Espero que aprecies a sugestão...

The Notwist - Vertigo Days

01. Al Norte
02. Into Love / Stars
03. Exit Strategy To Myself
04. Where You Find Me
05. Ship (Feat. Saya)
06. Loose Ends
07. Into The Ice Age (Feat. Angel Bat Dawid)
08. Oh Sweet Fire (Feat. Ben LaMar Gay)
09. Ghost
10. Sans Soleil
11. Night’s Too Dark
12. *stars*
13. Al Sur (Feat. Juana Molina)
14. Into Love Again (Feat. Zayaendo)

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publicado por stipe07 às 11:45

Louis Philippe & The Night Mail - Thunderclouds

Sexta-feira, 08.01.21

Francês, mas a viver em Londres há já trinta e quatro anos, Louis Philippe tem já no seu catálogo discográfico um interessante cardápio com mais de uma dezena de discos dos quais é nome de destaque nos seus créditos. De facto, tem sido uma vida inteira dedicada à escrita, produção, composição e interpretação, de mãos dadas com nomes como os The High Llamas, Towa Tei, Martin Newell, Big Big Train, Testbild!, The Clientele e Bertrand Burgalat e produzindo para artistas abrigados pela É! Records de Mie Alway.

Louis Philippe & The Night Mail editam “Thunderclouds” – Glam Magazine

Assim, depois de Louis Philippe ter aberto as hostilidade em dois mil e vinte com o lançamento de The Devil Laughs, a sua segunda colaboração com Stuart Moxham (Young Marble Giant), perto do ocaso desse ano atípico e através da Tapete Records divulgou Thunderclouds, o título da sua nova obra-prima e o primeiro álbum do músico feito com uma banda ao vivo em estúdio, neste caso  os The Night Mail, um trio formado pelo músico e jornalista Robert Rotifer na guitarra (ex-Acid Jazz e Weller), o DJ, produtor e enciclopédia ambulante de pop Andy Lewis no baixo e o supremo Papernut Cambridge, ex-membro de Thrashing Doves e Death in Vegas Ian Button na bateria. Já agora, esta colaboração entre Louis Philippe e os The Night Mail, começou a ser incubada  em dois mil e dezassete, na festa de duas noites do aniversário dos quinze anos da Tapete Records no Lexington de Londres, quando tocaram juntos, pela primeira vez, na segunda noite.

Thunderclouds contém treze composições encharcadas por uma pop bastante inspirada e concebidas quer por Louis Philippe quer por Rotifer, dois amigos de há muitos anos que se inspiraram na sua experiência compartilhada de espectadores democraticamente marginalizados da agitação em torno da saída da Grã-Bretanha da União Europeia e da confluência dessa crise crescente com a pandemia atual para criarem um disco no momento certo das vidas de ambos.

No final do primeiro período de confinamento, Rotifer foi ver Louis Philippe para lhe mostrar a infindável pilha de demos musicais que ele tinha acumulado ultimamente. No início de setembro, a banda finalmente reuniu-se para dois ensaios antes de ir para os Rimshot Studios na zona rural de Kent gravar as faixas de base para todas as treze músicas do álbum, bem como as cordas (tocadas pela violinista Rachel Hall de Big Big Train) e partes do trompete (por Shanti Jayasinha), seguido por outra sessão de vozes, teclados, percussão e mais algumas guitarras, habilmente projectadas por Andy Lewis no estúdio caseiro de Rotifer em Canterbury. O resultado é um álbum que evoca a marca lendária do progressivo caprichoso daquela cidade, tanto quanto as raízes profundas de Philippe na arte da música francesa e um amor compartilhado pelo lado outonal da pop ensolarada.

Transcrevendo a press release de lançamento do registo, Thunderclouds inicia as hostilidades com “Living on Borrowed Time, um cativante tema que soa a uma música de um filme perdido de Lemmy Caution. Enquanto a faixa-título do álbum esconde a antecipação de uma tempestade de acordes Wyattesque com toques de jazz que se erguem magicamente do barulho musical que emana de umas obras dum edifício junto à casa de Shepherd's Bush de Louis Philippe, valsas leves como "Fall in a Daydream" e “Once in a Lifetime of Lies” conseguem fazer Londres parecer Paris, antes da faixa de encerramento “When London Burns” convidar o ouvinte para uma pista de dança imaginária onde o anglófono Michel Polnareff encontra o disco. Entre tudo isso, atravessamos as misteriosas paisagens urbanas aurais de “Alphaville”, a ampla gama dinâmica de duas suítes de música (“The Man who had it All” e “Rio Grande”), a Tropicália/ subtileza folk de “The Mighty Owl ”, os surpreendentes ritmos gospel de“ Love is the Only Light ”, os cativantes dramáticos de“ No Sound ”, os tons celtas inesperados de“ Do I ”e o igualmente maluco e belo semi-instrumental“ Willow ”.

Como Louis Philippe conseguiu manter todas estas ideias reprimidas dentro de si por todos estes anos permanece um mistério, mas assim que elas começam a jorrar, ele é verdadeiramente imparável. E como ele previu com razão em 2017, The Night Mail provou ser capaz de acompanhá-lo a todo gás. Sem dúvida, porém, essa urgência recém-descoberta é um testemunho dos tempos desafiadores que todos nós estamos passando. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 17:43

Cloud Nothings – Life Is Only One Event

Terça-feira, 05.01.21

Os Cloud Nothings de Dylan Baldi, Jayson Gerycz, TJ Duke e Chris Brown preparam-se para editar no próximo dia vinte e seis de fevereiro, The Shadow I Remember, o sexto disco da carreira do grupo de Cleveland, no Ohio. No entanto o complicado período pandémico que vivemos tem inspirado com particular relevância este grupo, que lançou no último verão um trabalho intitulado The Black Hole Understands, alinhamento disponível em exclusivo na plataforma de streaming e compra digital bandcamp e que na altura sucedeu ao excelente Last Building Burning, um álbum datado de dois mil e dezoito e que nos ofereceu oito canções impregnadas com um excelente indie rock lo fi, abrigadas pela insuspeita Carpark Records e um regalo para os ouvidos de todos aqueles que, como eu, seguem com particular devoção este subgénero do indie rock.

Cloud Nothings Announce New Album, Share Video for New Song: Watch |  Pitchfork

Em jeito de antecipação do lançamento de The Shadow I Remember, os Cloud Nothings surpreenderam-nos no início de dezembro último com Life Is Only One Event, dez composições criadas durante o processo de gravação dos temas que fazem parte de The Black Hole Understands e que, merecem audição atenta já que sendo eminentemente feitas de experimentações sujas que procuram conciliar uma componente lo fi com a surf music e o garage rock, numa embalagem caseira e íntima e que não coloca em causa o adn sonoro identitário dos Cloud Nothings, também é um compêndio onde pujança, crueza e até uma certa monumentalidade caminham de mãos dadas, nas asas de guitarras plenas de momentos melódicos mas também de pura distorção, vozes muitas vezes quase inaudíveis e uma bateria que não receia plasmar, em simultâneo, raiva e quietude, no fundo alguns dos atributos essenciais para a definição justa do melhor adn deste grupo e que, nesta nova etapa que virá em fevereiro, atingirá, certamente, um patamar superior de maturidade. Espero que aprecies a sugestão...

Cloud Nothings - Life Is Only One Event

01. Alive In The World
02. Violent Reality
03. Saw This Light
04. The Horror You Found
05. I Rise At Dawn
06. To A Future Audience
07. On Different Earth
08. Heaven In The Wall
09. Patter Of This Place
10. An Older Road

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publicado por stipe07 às 17:00

Future Islands – As Long As You Are

Segunda-feira, 04.01.21

Pouco mais de três anos depois do excelente registo The Far Field, à época o quinto registo de originais dos Future Islands, este projeto norte-americano de Baltimore regressou perto do ocaso de dois mil e vinte com As Long As You Are, um novo tomo de canções de uma banda com uma carreira já bem cimentada no panorama índie contemporâneo, não só por causa da elevada bitola qualitativa do cardápio sonoro que credita, mas também por causa do carisma de Samuel Harring, um agitador nato, fabuloso dançarino e um dos melhores frontmen da atualidade.

Future Islands: As Long As You Are — drenched in synths | Financial Times

Os Future Islands chegam ao sexto disco já com a percepção clara de que fazem parte, com inteiro mérito, dos lugares de topo do panorama sonoro em que se movimentam. Com essa conquista no bolso, a tentação de acomodação e repetição da fórmula vencedora dos trabalhos antecessores poderia ser grande, mas As Long As You Are não cai nessa esparrela, sendo, claramente, mais um passo evolutivo do projeto, num disco que reflete imenso as experiências pessoais de Harring, sonorizadas através de inspiradas e felizes interseções entre uma componente sintética bem vincada e onde os sintetizadores são reis e uma secção rítmica fluída, como é apanágio deste grupo.

São vários os exemplos do disco que refletem este cenário. Um dos mais inspirados é For Sure, tema que conta com a participação especial vocal de Jenn Wasner dos Wye Oak, nos coros e um portento de epicidade que faz juz à estética sonora habitual dos Future Islands, nomeadamente no modo como olha de modo guloso e anguloso para a pop sintetizada oitocentista, movida a néons e plumas, mas que também não descura um olhar em frente, ao abarcar detalhes e arranjos que definem muita da melhor eletrónica que se vai escutando atualmente. Depois merece também audição dedicada Born A War, composição que reflete algumas das tais vivências pessoais de Harring e novamente com uma veia nostálgica oitocentista muito marcada, não só no baixo pulsante, mas, principalmente, no efeito agudo sintetizado que deambula em redor dele e nos restantes arranjos percussivos, num resultado final eloquente, algo etéreo e contemplativo e de elevada amplitude e luminosidade

Estes ingredientes acabam por se repetir noutras canções, resultando num disco que faz uma espécie de mescla entre o melhor retro e vintage que a pop contém na sua herança identitária e que teve a penúltima década do século passado como período mais feliz. O modo como o refrão de Waking abraça o céu e a terra sem se perceber onde termina e acaba essa copúla, ou o modo luxuriante como o baixo e o sintetizador se unem ao tom grave da voz em I Knew You aprofundam ainda mais a filosofia estilística deste As Long As You Are, para que não haja dúvidas que estes Future Islands apontam neste registo algumas novas matrizes, precisando uma inédita definição de pop, que juntando rock e eletrónica, não renega o rico passado que o grupo contém, mas que sabe cada vez melhor como continuar a conjugar dois mundos que sempre pareceram como água e azeite, mas que afinal podem tocar-se, envolver-se e emocionar-nos sem haver fronteiras claras, nessa simbiose, relativamente a cada um dos dois territórios referidos.

Disco sobre confiança, cheio de honestidade, redenção e desapego, permitindo que velhas feridas cicatrizem ao encerrar capítulos dolorosos, conforme declara o quarteto norte-americano, que assumiu funções de produção pela primeira vez, juntamente com Steve Wright, As Long As You Are encarna uma abundância de fragmentos sonoros cheios de vida e cor, dispostos de modo orgânico e enérgico, com a sua audição a oferecer-nos uma viagem ao passado e ao futuro, com aquela sensualidade que apela diretamente às emoções. Espero que aprecies a sugestão...

Future Islands - As Long As You Are

01. Glada
02. For Sure
03. Born In A War
04. I Knew You
05. City’s Face
06. Waking
07. The Painter
08. Plastic Beach
09. Moonlight
10. Thrill
11. Hit The Coast

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publicado por stipe07 às 15:36

Magic Wands – Illuminate

Segunda-feira, 28.12.20

Os Magic Wands são de Los Angeles e formaram-se em dois mil e oito quando Chris descobriu o myspace de Dexy Valentine, onde ouviu uma canção chamada Teenage Love e desde logo resolveu contactá-la. Pouco tempo depois Dexy mudou-se para Nashville e começaram a escrever música juntos, sendo o nome da banda uma alusão à capacidade de ambos conseguirem trabalhar e escrever música como equipa, apesar de viverem em lados opostos dos Estados Unidos. Ainda nesse ano de 2008 a dupla assinou pela Bright Antenna e editaram o primeiro EP, intitulado Magic Love & Dreams, gravado em Nova Iorque com o produtor John Hill. Na primavera de dois mil e doze editaram o disco de estreia, um registo chamado Aloha Moon que só agora, oito anos depois, ganha sucessor.

MAGIC WANDS (@itsmagicwands) | Twitter

Illuminate é o nome do novo compêndio desta dupla, dez músicas que nos remetem para aquele universo oitocentista bem balizado e com caraterísticas bastante peculiares e únicas, aquele rock com forte pendor nostálgico, feico com diversas camadas de guitarras, mudanças rítmicas constante e um registo vocal geralmente abafado, nuances que ainda hoje são pedras basilares de alguns dos nomes mais proeminentes do indie rock, nomeadamente aqueles que o cruzam com a eletrónica.

Assim, e só para citar dois dos melhores momentos de Illuminate, se Blue Cherry é uma daquelas composições que exala por todos os poros a pop dançante de uns Blondie, já o vibrante tema Angel Dust cruza o melhor soft rock com algumas bizarrias eletrónicas e vocalizações sombrias, numa espécie de cruzamento entre os The Kills e os The Horrors. Depois, se Paradise é um portento de garage rock que dialoga incansavelmente com o surf rock e que incorpora, nessa trama, doses indiscretas de uma pop suja e nostálgica, já o sintetizador hipnótico que afaga o terreno para o portentoso baixo que embala o instrumental Psychic Alien, é um excelente soporífero para que não nos afoguemos nas águas turvas da canção homónima do disco, explosiva composição que nos conduz a um amigável confronto entre o rock alternativo de cariz mais lo fi com aquela pop particularmente luminosa e com um travo negro muito peculiar.

Produzido, gravado e misturado pela própria banda no seu estúdio caseiro na última meia década e inspirado em conceitos como introspeção, fantasia, amor e sonho, Illuminate é um álbum tremendamente pop, que nos acolhe numa ilha mágica, cheia de sonhos e cocktails e onde podemos ser acariciados pela brisa do mar. E quem não acredita que a música pode fazer magia não vai sentir-se tocado pelo disco, que não sendo imaculado, por ter nas canções visões de cristal, muitos corações e estrelas cintilantes, torna-se num espetáculo fascinante capaz de encantar o maior dos cépticos. Espero que aprecies a sugestão...

Magic Wands - Illuminate

01. Honeymoon
02. Blue Cherry
03. Angel Dust
04. Paradise
05. Psychic Alien
06. Illuminate
07. Bat Babby
08. Magic Flower
09. Queen of the Gypsies
10. The Beach

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publicado por stipe07 às 20:44






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