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Coldplay – Music Of The Spheres

Sexta-feira, 03.12.21

Os britânicos Coldplay já têm nos escaparates o sucessor de Everyday Life, o registo duplo que a banda de Chris Martin editou em dois mil e dezanove e que deixou um pouco de lado aquela etiqueta de banda de massas da pop e da cultura musical, feita de exuberância sonora e de uma mescla da enorme variedade de estilos que foram bem sucedidos comercialmente na última década, nomeadamente a eletrónica e o rock repleto de sintetizações, para voltarem a colocar na linha da frente aquele lado mais intimista, simples e humano, o modus operandi que talvez melhor potencie todos os atributos estilísticos e interpretativos que o grupo possui.

Coldplay Announce New Album Music of the Spheres | Pitchfork

Essa guinadela dos Coldplay para territórios mais apetecíveis e originais, digamos assim, não passou disso mesmo, fazendo jus ao conteúdo de Music Of The Spheres, o novo disco, que coloca novamente o projeto a navegar em atributos estilísticos e interpretativos que, também à boleia de alguns convidados especiais, têm o sucesso comercial como objetivo primordial da banda, em detrimento de uma exploração mais genuína dos seus atributos interpretativos. 

Coloratura, a composição que marca o ocaso do alinhamento, uma longa canção, com cerca de dez minutos de duração e que tem uma toada particularmente etérea, no início, com deliciosas linhas de piano a acamarem o registo vocal adocicado de Chris Martin, é a enormíssima exceção à regra do alinhamento de Music Of The Spheres e, curiosamente, um dos melhores temas de sempre do catálogo dos Coldplay. Por volta dos quatro minutos, a guitarra e a bateria induzem uma maior majestosidade ao tema, dando-lhe uma inédita vibe pop oitocentista, induzida também por arranjos de cordas sublimes, dos quais se destacam as harpas e as guitarras e o modo como se cruzam com o piano que se mantém sempre firme ao longo da canção.

Em suma, ao nono disco, os Coldplay voltam a ter como foco principal mostrarem como são realmente especialistas em criar sucessos radiofónicos e que estoirem nas playlists de canções mais ouvidas e vendidas, seguindo a linha interpretativa que orientou a banda de Chris Martin em anos mais recentes e que, na minha opinião, nunca fará justiça ao verdadeiro potencial do grupo. Temas como Humankind ou Biutyful, demonstram-no vivamente. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 14:51

Caveman – Smash

Terça-feira, 23.11.21

Cinco anos depois de Otero War, os nova iorquinos Caveman estão de regresso aos lançamentos com Smash, um registo com a chancela da Fortune Tellers e produzido por Nico Chiotellis nos estúdios Rivington 66. Liderados por Matthew Iwanusa, os Caveman voltam a não desiludir ao terceiro álbum, à sombra do típico rock norte americano e muito influenciados pelo desparecimento de um primo do líder, cujo apelido dá nome ao disco.

Caveman Announces US Fall Tour, 'Smash' LP Out August 13th Via Fortune  Tellers, Buy Tickets Now — Tell All Your Friends PR

Smash impressiona pelas guitarras mas também, e à imagem do antecessor pelo modo como a vertente sintética encaixa nas distorções e no pendor orgânico de grande parte das canções, um pouco à imagem do que sucedeu em Otero War. A sintetização lenta que conduz Hammer e o modo como se cruza com o compasso da bateria, é um bom exemplo deste modus operandi dos Caveman, com Don't Call Me, utilizando a mesma receita, a proporcionar uma faceta mais ampla e ecoante, para criar uma densa parede de som, com uma tonalidade que é já imagem de marca do projeto. E Smash acaba por servir na perfeição para isso mesmo, para carimbar uma sonoridade de forte cariz identitário e para nos esclarecer qual é, definitivamente, o rumo que o grupo pretende trilhar. O próprio piano que se escuta no início do registo, em Like Me, servindo de contraponto, esclarece que a herança e a nostalgia nunca deixarão o catálogo dos Caveman, mas que o olhar anguloso é mesmo em direção a caminhos eminentemente eletrónicos, como se percebe quando os sintetizadores e as próprias guitarras tomam conta do tema. A própria cândura de You Got A Feeling, a serenidade de Awake e a densidade de River acabam por conferir ainda mais homogeneidade a um alinhamento que acaba por expressar aquele dilema que muitas bandas sentem de estarem presas a um determinado som e que, em vez de complicar, resolvem render-se a essa evidência e tentar aprimorar ao máximo a cartilha em que, consciente ou inconscientemente, se sentem mais confortáveis. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 17:57

Helado Negro – Far In

Quinta-feira, 18.11.21

O projeto Helado Negro, liderado por Roberto Carlos Lange, um filho de emigrantes equatorianos, radicado nos Estados Unidos, começou em grande estilo a sua caminhada ao lado da etiqueta 4AD, para onde se transferiu em dois mil e vinte, dando as mãos à cantora e compositora Jenn Wasner, que assina as suas obras sonoras como Flock of Dimes e a Devendra Banhart, para assinarem,  há cerca de um ano, em conjunto, uma versão do clássico Lotta Love de Neil Young. Agora Helado Negro já tem também o seu primeiro disco etiquetado pela 4AD, um trabalho intitulado Far In, com quinze inéditos e que aprimora ainda mais a visão psicadélica e caleidoscópica de um artista ímpar no panorama alternativo atual.

Helado Negro's Far In: Stream the New Album

Quem segue com particular atenção a carreira deste músico incrível, ao escutar com devoção Far In a primeira impressão que tem é que o catálogo do mesmo nunca foi tão sensorial e orgânico como agora. De facto, este é um disco que apela muito à natureza, ao ambiente e ao modo como o autor, colocando-se na primeira pessoa, nos transmite memórias de um passado rico em experiências e vivências num Equador riquíssimo em belezas naturais e ancestralmente muito ligado à terra e aos recursos que a mesma nos oferece de mão beijada, quando é devidamente respeitada.

Gemini And Leo, o segundo tema do alinhamento de Far In e o primeiro avanço divulgado deste novo registo de Helado Negro há alguns meses atrás, elucidou-nos desde logo esta ligação que o disco iria ter à natureza. E, sonoramente, também nos fez prever que, como se veio a concretizar, o autor iria ampliar as suas já habituais experimentações com samples e sons sintetizados, com referências sonoras eminentemente cruas, para recriar um clima ainda mais acolhedor e imediato que o habitual e que encarnasse na perfeição o espírito muito particular e simbólico que pretende para esta nova etapa da sua carreira e da sua música.

Far In escorre sorrateiramente pelos nossos ouvidos e os nossos apurados sentidos voltam a ficar em sentido perante Outside The Outside, canção que mantém o autor nessa tão propalada demanda experimental, que se materializa, neste caso, numa agregação inspirada entre batidas e adornos rítmicos e melódicos ondulantes, das mais diversas proveniências instrumentais, principalmente sintéticas, enquanto Lange revive afetuosas memórias da sua infância e o modo como a sua família foi acolhida nos Estados Unidos da América. Depois, a cereja no topo do bolo está guardada para outro fruto, La Naranja, tema muito focado no prazer do usufruto das coisas simples da vida, como um simples sumo de laranja e sonoramente com uma vibração particularmente luminosa e tropical, impressionando pelo modo como a orquestralidade dos arranjos de violino vagueia pela batida sem nunca abafar o seu vigor e impetuosidade.

Far In é, em suma, uma coleção irrepreensível de sons inteligentes e solidamente construídos, mais um naipe de belíssimas canções que são mais um momento marcante deste músico sedeado em Brooklyn, um alinhamento com forte pendor temperamental e com um ambiente feito com cor, sonho e sensualidade. Nele percebe-se esta filosofia de alguém positivamente obcecado pela evocação de memórias passadas e, principalmente, pela concretização sonora de sensações, estímulos, reações e vivências cujo fato serve a qualquer comum mortal. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 21:23

They Might Be Giants – Book

Domingo, 14.11.21

Três anos depois do excelente registo My Murdered Remains, os They Might Be Giants, uma banda norte-americana de rock alternativo do Massachusetts, formada por John Flansburgh, John Linnell, Dan Miller, Danny Weinkauf e Marty Beller, estão de regresso com um novo disco intitulado BOOK. Trata-se, na verdade, de um livro com cento e quarenta e quatro páginas, acompanhado por uma banda sonora constituida por quinze canções, um compêndio que resulta de uma colaboração direta do grupo norte-americano com o designer gráfico Paul Sahre e o fotógrafo de rua Brian Karlsson, que reside em Brooklyn, Nova Iorque.

ALL WRITE NOW – THEY MIGHT BE GIANTS PUMP UP THE VOLUME ON NEW ALBUM 'BOOK'  – Essentially Pop

Book é então, na prática, o vigésimo terceiro registo dos They Might Be Giants e em pouco mais de meia hora oferece-nos um indie rock de extraordinário calibre, encharcado com uma altivez indisfarcável, um disco que merece, logo à partida, todos os elogios porque, independentemente da nossa ligação afetiva à banda ou à sua sonoridade, garante intensidade, animação e diversão a quem se predispuser, de mente aberta e corpo gingado, a deixar-se embuir por uma cartilha interpretativa única e com um adn muito peculiar.

Book foi, de facto, idealizado à boleia de uma filosofia sonora interpretativa que privilegiou exercícios abertos e descomprometidos de excentricidade experimentalista, algo que é, como todos sabemos, um traço típico dos They Might Be Giants e que tem vindo a ser apurado numa notável carreira com cerca de três décadas que parecem confluir neste catálogo de irrepreensíveis canções que, em pouco mais de três minutos, além de nos iluminarem com um travo tremendamente nostálgico e aditivo, também têm inovação e contemporaneidade a rodos.

Assim, e falando do passado, se temas como Part Of You Wants To Believe Me, ou o travo surf rock de Moonbean Rays e o charme de Lord Snowden, nos trazem à memória o melhor catálogo de nomes tão preciosos como os Beach Boys ou os The Beatles, já I Can't Remember The Dream, uma composição com uma rara graça, que se projeta através de um riff de guitarra claramente inspirado na versão de Louie Louie que os Kingsmen fizeram em mil novecentos e sessenta e três e que era um original de Chuck Berry e que acabou por ser o grande sucesso do disco The Kingsmen In Person lançado por esta mítica banda de garage rock de Portland, nesse ano, nos proporciona, com esse olhar fulminante para o passado, com traços ainda mais vibrantes de uma época imprescindível para as fundações da história da música alternativa. 

Outro motivo de enorme interesse neste álbum é o futuro, a percepção de que os momentos inovadores assentam, maioritariamente, em fabulosos instantes de bizarria e salutar improviso. Logo a abrir o registo, o modo como em Synopsis to Latecomers o orgão e a bateria se entrecruzam com a guitarra, ou em Drow The Clown, uma canção que se projeta através de uma linha de teclado claramente inspirada, a forma como as teclas e cordas se abraçam sem qualquer receio, assim como o poder único do baixo de I Lost Thursday, são exemplos felizes de que esta é uma banda indispensável no momento de se criar uma listagem dos projetos que atualmente podem ser considerados influências fundamentais na hora de descrever os cânones fundamentais do pop rock alternativo moderno. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:57

Cassete Pirata - A Semente

Sexta-feira, 12.11.21

Os Cassete Pirata são um grupo formado por João Firmino (Pir), autor das canções, Margarida Campelo e Joana Espadinha, que comandam as teclas e o coro, António Quintino, à frente do baixo e João Pereira aos comandos da bateria. É um projeto que nasceu da vontade de escrever e descobrir novas canções em português, num regresso ao que todos possamos ter de tronco comum de referências, de paisagens, de sons e através da nossa língua e que se estreou nos discos a semana passada com um registo intitulado A Semente, já em alta rotação na nossa redação.

Cassete Pirata lançam a semente | Entrevistas | Antena 3 | RTP

Se queres desde logo e no imediato teres uma noção mais ou menos concreta da virtuosidade incrível destes Cassete Pirata, escuta atentamente e para começar, Só Mais Uma Hora, um dos momentos altos deste registo A Semente. Nesta canção, a batida groovada a braço dado com a melancolia, como a própria banda tão bem descreve, é um trunfo impressivo que se repete noutras composições de um trabalho que surgiu, de acordo com o grupo, como resultado de um período de reflexão e de introspecção dirigido sobretudo ao facto de, de um modo geral, nos termos desligado da terra, da vida plena e serena em comunidade, em detrimento do perigoso individualismo de que a virtualidade, por vezes anónima, nos tende a encaminhar.

Este é, portanto, um trabalho artístico serrado com o produtor musical Moritz Kerschbaumer e que, de acordo com Pir, o guitarrista, nos pretende lembrar que depois de lavrar e cuidar dos nossos terrenos com respeito mútuo, temos que saber escolher e dar uso às nossas sementes.  Os Cassete Pirata querem que este disco faça perguntas, aponte alguns factos e deixe as respostas em aberto para que todos nós, juntos, banda e ouvintes, as consigamos ir encontrando.

Escritas ao longo dos últimos meses, as canções d’A Semente geraram-se no lar do vocalista, no silêncio insone entrecortado pela descoberta da paternidade. Foram sendo trabalhadas por toda a banda, remotamente e sempre que foi possível vingarem as saudades de estarem juntos.

Em suma, através de um indie rock de fino retrato, os Cassete Pirata propôem, em A Sementeum olhar sobre o momento em que vivemos enquanto civilização. Pela primeira vez, como espécie, temos uma percepção mais palpável de um certo precipício inerente ao nosso estilo de vida. Este tem trazido uma sensação de fim de linha, de doença lenta e invisível que a médio e longo prazo nos vai lembrando e concretizando a efemeridade da vida e do modo como a levamos. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 18:11

JW Francis - Wanderkid

Segunda-feira, 25.10.21

Figura ímpar do indie rock norte-americano, o músico nova iorquino JW Francis regressou há alguns dias aos discos com um trabalho intitulado Wanderkid, o segundo do seu cardápio, um registo que que, de acordo com o autor, pretende ser sobre o conceito de escape, aplicado na existência de uma espécie de anti-herói chamado Wanderkid (Wanderkid It’s supposed to be a gut punch of a record about an anti-hero named Wanderkid who wants to get out: out of his living situation, out of his head, out of his life. This album is like looking out the car window with an urgent desire to be on the other side. It was finished during the most recent global pandemic, so hopefully folks find it relatable.)

JW Francis – John, Take Me With You (Official Music Video) - YouTube

A crítica norte-americana mais atenta já considera JW Francis a próxima lenda do indie rock lo fi alternativo. E, de facto, Wanderkid, disco com a chancela da Sunday Best Recordings, oferece-nos pouco mais de trinta minutos de traquejo melódico e de sagacidade instrumental ímpar enquanto nos conta a história de um comum alter-ego continumante confrontado com alguns dos dilemas existencias que sempre fizeram mover a humanidade, como a escassez de cerveja, ou a existência ou não de Deus e, consequentemente, vá-se lá saber porquê, do amor.

Logo a abrir o disco, John, Take Me With You , uma impactante e aditiva canção, oferece-nos alguns dos melhores ingredientes de um rock experimental repleto de groove, assente em guitarras encharcadas por uma cosmicidade boémia que é abastecida com particular requinte e destreza, na hipnótica e divertida I Love You, por metais e sintetizadores insinuantes, mas vincadamente omnipresentes. E nestes dois temas que abrem o disco, fica impressa, no fundo, a cartilha que tipifica o habitual modus operandi de JW Francis, que contém também, há que realçar, um elevado travo nostálgico. Isso acontece porque todo o alinhamento de Wanderkid, estando repleto de especificidades, porque todas as canções apresentam nuances díspares e únicas, recorda-nos, no geral, aquele som que na década de setenta do século passado explodiu da liberalização generalizada dos mais diversos recursos tecnológicos ao serviço da criação musical e que neste Wanderkid , recordados numa vasta pafernália de teclados, recebem um eficaz travo de contemporaneidade.

O modo como um efeito vagueante se entrelaça com diversos metais e com a voz reverberizada em Maybe, o impetuoso baixo afagado por uma linha de guitarra ondulante em Make Another Record, a singela leveza folk de Only With You e, num clima mais tropical, de Holy Mountain, a previsão de como será o melhor folclore balcânico em dois mil e oitenta plasmada no tema homónimo, a sobriedade indie de Don't Fall Apart, são, realmente, momentos de elevado traquejo de um trabalho que, proporcionando-nos uma elevada intimidade com a mente do autor, confronta-nos com uma luminosidade algo inédita, atributo que faz com que JW Francis se mostre, canção após canção, sempre vivo e estranhamente empático e exuberante no modo como comunica connosco.

É, de facto, nesta grande surpresa discográfica do ano, que se percebe que a eletrónica é o terreno onde musicalmente este autor nova-iorquino se move com maior conforto. Se em canções como Cars ele até acaba por olhar com bastante atenção para a indie pop movida a cordas reluzentes, a verdade é que existe sempre uma toada sempre pulsante e algo épica, mas também particularmente embaladora e intimista a tomar as rédeas do álbum, recriada, por exemplo, com elevado grau de impressionismo, em I'm Probably A Ghost. Acabam por ser estes sentimentos antagónicos que sobem mais à tona ao longo da audição de Wanderkid, com o objetico claro de dar vida a uma filosofia comum que busca elevada assertividade no modo como se serve do habitual formato canção para atingir grande variedade de fãs, enquanto o autor desta trama se mostra mais amadurecido do que nunca. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 21:31

Strand of Oaks – In Heaven

Terça-feira, 19.10.21

Dois anos depois do excelente Eraserland, o seu sétimo registo de originais, Tim Showalter, que assina a sua música como Strand Of Oaks, está de regresso com um novo alinhamento de onze canções. É o oitavo disco da sua carreira, chama-se In Heaven e oferece-nos mais um maravilhoso e impressivo retrato autobiográfico de um autor nada inibido no momento de expôr as suas alegrias e conquistas, mas também frustrações, dando sempre a firme impressão que tudo aquilo que mexe com o seu âmago é combustível incandescente para criar e compôr canções, geralmente em ponto de mira com a melhor herança do rock norte-americano das décadas de setenta e oitenta do século passado, em especial a primeira.

Strand of Oaks Announces New Album In Heaven, Shares New Song: Listen |  Pitchfork

De facto, teclados efervescentes, guitarras repletas de efeitos planantes e uma filosofia rítmica quase sempre frenética, são os grandes eixos condutores do processo atual de composição de Showalter. Easter, uma luminosa canção que é tão capaz de cerrar punhos como de aclamar à lágrima fácil, é um exemplo paradigmático deste modus operandi do músico natural de Indiana e agora sedeado em Austin, que conta nos créditos de In Heaven com Kevin Ratterman na bateria, com os membros dos My Morning Jacket, Carl Broemel e Bo Koster, na guitarra e nas teclas, respetivamente, com o baixista Cedric LeMoyne, o violinista Scott Moore e ainda James Iha, dos Smashing Pumpkins, na voz e na guitarra do já referido tema Easter.

Intimismo e nostalgia são então, claramente, duas grandes ideias presentes no registo. Galacticana, por exemplo, é uma canção banhada por um manto luminoso feito com a melhor indie folk que se pode ouvir atualmente, porque tem nos fundamentos da sua arquitetura as tais fundações que remontam há quase meio século atrás e que, de uma vez por todas, mostraram ser possível uma coabitação eficaz entre a melhor herança do canioneiro norte-americano muito sustentado nas cordas e a ascenção de uma instrumentação sintética, assente num arsenal tecnológico cada vez mais diversificado e sofisticado. Os efeitos ecoantes de Hurry, uma canção com uma forte componente experimental e uma tonalidade psicadélica ímpar, contém esta faceta simultaneamente identitária e inovadora, assim como o andamento vibrante, proeminente e altivo que conduz Sunbather e Somewhere In Chicago, o quinto tema do alinhamento de In Heaven, que segue essa linha ao nos oferecer belíssimos arranjos de cordas e uma diversidade orquestral significativa, além de um clima sonoro com um pendor ainda mais clássico e romântico que o normal no catálogo do músico.

É, pois, um Timothy revigorado e com uma impressionante capacidade de nos fazer cavalgar à retaguarda umas quatro décadas sem que quase nos apercebamos, que assina este In Heaven, um disco que nos mostra que afinal pode ser bastante ténua a linha que separa aquilo que é a vida real de qualquer comum mortal e aquilo a que nós temos por hábito de chamar arte, neste caso, arte sonora, música, uma manifestação livre da critividade e da imaginação humanas. Strand Of Oaks volta, como já disse, a falar muito de si e da sua existência e fá-lo com um grau de impressionismo e realismo tal, que acaba por exaltar e de algum modo normalizar e relativizar aquilo que é para muitos algo só ao alcance de certos predistinados, a criação artística, neste caso a musical. A religiosidade de Horses At Night, outro momento maior de In Heaven, é outro instante em que se sente um superior grau de refinamento classicista, de modo incomensuravelmente belo, mas também de uma forma muito simples, direta e acessível de transmitir um ideário lírico, que tem muitas parecenças com nomes contemporâneos como Mount Eerie ou Margo Price, intérpretes e escritores reconhecidos pelo modo como se expôem sem receios e de mente aberta.

Acaba por ser curioso travarmos conhecimento com Timothy, entrando na sua vida pessoal e perceber o quanto ele é recatado e comedido em público e depois contactarmos com esta escrita tão vibrante, confessional e comunicativa. Talvez esta acabe por ser uma fervorosa demonstração de uma saudável alienação e exorcização por parte de um artista que, com quinze anos, no sotão de sua casa, se sentiu ausente do resto do mundo e percebeu que a música seria a sua cura e a composição sonora a alquimia que lhe permitiria exorcizar todos os seus medos, problemas e angústias. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 12:44

Wallows – I Don’t Want To Talk

Domingo, 03.10.21

Os Wallows têm a sua génese em Los Angeles há cerca de quatro anos e são atualmente formados por Dylan Minnette, Braeden Lemasters e Cole Preston. Logo em dois mil e dezassete começaram a divulgar música com o single Pleaser, que alcançou centenas de milhar de audições nas plataformas digitais, o que lhes valeu a atenção de Atlantic Records e um contrato com essa editora.

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Spring foi o título do EP de estreia do projeto, em dois mil e dezoito e o primeiro longa duração, Nothing Happens, chegou no ano seguinte, tendo como grande destaque do seu alinhamento o single Are You Bored Yet?.

Agora, no início do outono de dois mil e vinte e um os Walows voltam à carga com I Don’t Want to Talk, uma nova canção sobre inseguranças, mas vibrante e frenética, sonoramente assente num indie rock que cruza com elevada mestria a clássica tríade guitarra, baixo e bateria com alguns efeitos sintéticos faustosos e produzida por Ariel Rechtshaid (Vampire Weekend, Haim, Adele), tendo já direito a um vídeo assinado por Jason Lester. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:17

Lucy Dacus - Home Video

Quinta-feira, 30.09.21

Depois de andar envolvida durante algum tempo na revisitação de vários temas de artistas que admira e de ter participado ativamente no disco Little Oblivions da sua colega Julien Baker no projeto Boygenius, a norte-americana Lucy Dacus virou finalmente o seu foco para o projeto a solo que assina e que tem um novo capítulo discográfico. Chama-se Home Video o novo álbum da compositora da Virginia, um alinhamento de onze canções que viu a luz do dia a vinte e cinco de junho passado, com a chancela da Matador Records.

Lucy Dacus – 'Home Video' review: her most ambitious music yet

Home Video é um daqueles discos que exala uma sonoridade tipicamente americana, desmascarando algumas das contradições de um país que ainda procura o seu melhor rumo, depois da desastrosa gestão que a liderança do mesmo fez relativamente à situação pandémica que assola o mundo inteiro há quase dois anos e que atingiu com particular fúria os Estados Unidos da América, assim como a transição de uma administração eminentemente conservadora, para uma que afirma ter um olhar mais liberal e que seja socialmente mais justo.

Além deste olhar crítico relativamente ao seu país, Dacus quis também, neste Home Video, reforçar o já habitual cariz pessoal e intimista das suas composições. Por exemplo, VBS, um dos melhores temas do registo, versa sobre a infância de Lucy e o modo como a sua relação com a religião nessa altura a marcou, porque se sentia fortemente controlada pelos líderes da igreja que frequentava, mas First Time também aborda de modo impressivo os seus primeiros anos de vida. Sonoramente, Home Video cativa ao longo da audição não só pelo registo vocal impregnado com uma rara honestidade e sentimentalismo que é transversal a todas as canções, mas também pelo modo vibrante como diversas camadas de guitarras, majestosas em Partner In Crime, que tanto são sujas e repletas de riffs virulentos e rugosos como alicerçadas num timbre metálico luminoso, se entrelaçam com insinuantes sintetizações e uma interpretação rítmica e percurssiva bastante heterogénea em grande parte das canções, num resultado final consistente e de elevado travo classicista, tendo em conta a herança do melhor rock norte-americano contemporâneo. O piano de Please Stay, uma canção sobre o fim de uma relação, acentua ainda mais este carimbo nacional e fortemente identitário do disco. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 12:48

Big Red Machine – How Long Do You Think It’s Gonna Last?

Quarta-feira, 22.09.21

Os mais atentos relativamente ao histórico recente do universo sonoro indie e alternativo recordam-se, certamente, da coletânea de beneficiência Dark Was The Night, lançada em dois mil e nove e cujos fundos revertiam a favor a Red Hot Organization, uma organização internacional dedicada à angariação de receitas e consciencialização para vírus HIV. Do alinhamento dessa coletânea fazia parte uma canção intitulada Big Red Machine, da autoria de Justin Vernon aka Bon Iver e Aaron Dessner, distinto membro dos The National, dois artistas que juntos também já desenvolveram a plataforma PEOPLE, que reúne composições inéditas de mais de oitenta artistas, organizaram festivais (Eaux Claires) e acabaram por incubar um projeto sonoro intitulado exatamente Big Red Machine, que se estreou nos discos com um extraordinário homónimo, em dois mil e dezoito, abrigado pela já referida PEOPLE.

Big Red Machine - How Long Do You Think It's Gonna Last? | por Bárbarah  Alves | You! Me! Dancing!

Três anos após essa estreia, a dupla está de regresso com um novo álbum intitulado How Long Do You Think It’s Gonna Last?, que chegou aos escaparates recentemente. São quinze charmosas canções, repletas de convidados especiais, que entregam de mão beijada o melhor do seu adn a construções sonoras geralmente intrincadas, mas acessíveis e repletas de uma vasta míriade de detalhes e efeitos plenos de criatividade, uns de proveniência orgânica, geralmente debitados por cordas e pelo piano,  mas também sintética, já que não falta um assinalável arsenal de sintetizadores no catálogo instrumental do registo.

Canções como Phoenix, um tema conduzido por um majestoso piano e que conta com as participações especiais dos Fleet Foxes e da cantora Anäis Mitchell, Mimi, uma composição luminosa e que conta com a participação especial vocal de Ilsey Juber, uma compositora que se notabilizou nos últimos anos por aparecer nos créditos de criações sonoras assinadas por nomes tão proeminentes como Miley Cyrus, Dua Lipa, Beyoncé ou Lykke Li e Renegade, canção que conta com a participação especial de Taylor Swift e que assenta numa espécie de experimentalismo claustrofóbico, que impressiona pelo modo como o registo vocal de Swift trespassa um inspirado riff acústico acamado por uma arquitetura sonora quente e fortemente cinematográfica e imersiva, que suscita no ouvinte uma forte sensação de proximidade e empatia, são notáveis momentos sonoros, impregnados com a melhor intersecção que é possivel econtrar hoje entre folk e eletrónica no cenário indie. Depois, numa vertente mais sintética, The Ghost Of Cincinnati e Latter Days (feat. Anaïs Mitchell), que sobrevivem muito à custa de um cuidado arsenal instrumental, eminentemente eletrónico, mesmo abrindo ao ouvinte portas para climas mais intimistas, nunca colocam em causa o perfil solarengo e sorridente de um disco que, no fundo, assenta a sua filosofia no modo feliz como Dessner e Vernon deram, no procedimento criativo, primazia às cordas acústicas, elemento instrumental de eleição de ambos e núcleo central do processo de condução sonora e melódica de uma álbum esteticamente muito apelativo e sedutor e tremendamente encharcado em charme e elegância.

Engane-se quem achar que a escuta de How Long Do You Think It’s Gonna Last? não obrigará a um exercício exigente de percepção para que todos os seus cantos e esquinas sejam devidamente retratados na nossa mente. Mas, se tal demanda for feita de modo dedicado, podem estar certos que que tal exercício será, de certeza, fortemente revelador e claramente recompensador, até porque tudo o que é melodicamente belo e exemplarmente interpretado no registo, é ampliado pelo claro charme e misticismo que estes dois músicos transportam sempre que se juntam para compôr, algo que trespassa muitas vezes o cenário do que é apenas audível. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 20:55






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