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Papercuts – Past Life Regression

Quinta-feira, 19.05.22

Quatro anos depois do excelente Parallel Universe Blues, os Papercuts estão de regresso às luzes da ribalta com Past Life Regression, dez canções que viram a luz do dia em abril último, à boleia da Slumberland Records, a nova etiqueta deste projeto encabeçado por Jason Robert Quever e David Enos e oriundo de São Francisco, na costa oeste dos Estados Unidos da América.

Oh Nobody's Son | Papercuts

Past Life Regression é mais uma feliz jornada afagada nas nuvens poeirentas da folk pop psicadélica, com nomes como os Spiritualized, Echo & The Bunnymen, ou Leonard Cohen a serem influêcias declaradas, como Jason já admitiu recentemente. É um disco muito marcado pela mudança deste músico para São Francisco, depois de alguns anos a viver em Los Angeles, assim como pela questão pandémica atual e pela tensão politica que continua a dividir uma América muito marcada pelos acontecimentos que na última década têm criado feridas profundas nesse país.

Ao longo do alinhamento de Past Life Regression, Quever procura também colocar em perspetiva a sua carreira como grande mentor deste projeto Papercuts, acabando por alimentar nas dez canções um balanço feliz entre aquela que tem sido a sua demanda pelo alargado arco conceptual do chamado indie rock, que começou por abordagens mais ou menos cruas e diretas a universo lo-fi, no início da carreira e que, neste momento, se situa naquela esfera estilística que tem sempre em ponto de mira, nomeadamente ao nível da produção, quer a luminosidade, quer o requinte. 

A pop cósmica de Lodger, uma canção que nos faz levitar rumo às estrelas sem grande dificuldade, afagados por sintetizadores pulsantes e um jogo de cordas majestoso, o luminoso tratado de indie pop que é I Want My Jacket Back, canção que prima pela escolha assertiva de diversos arranjos percurssivos, que nunca ofuscam o brilho que as cordas conferem à canção do primeiro ao último segundo e a tonalidade burilada de The Strange Boys, tema com um orgão distorcido a acamar uma pafernália quase impercetível de sons, numa melodia de elevado cariz épico, são maravilhosos instantes sonoros de um registo que pode ser comparado a uma daquelas telas impressivas que exalam emoção e cor por todos os seus milimetros quadrados.

Past Life Regression é, em suma, um álbum que, canção após canção, implora pela nossa atenção, que sendo para ele orientada, sacia o nosso desejo de ouvir algo rico, charmoso e tremendamente contemporâneo e que deixa uma marca impressiva firme e de recompensadora codificação. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:38

The Smile – A Light For Attracting Attention

Sexta-feira, 13.05.22

Chega hoje mesmo aos escaparates A Light For Attracting Attention, o disco de estreia do projeto The Smile que reúne Thom Yorke e Jonny Greenwood, o chamado núcleo duro dos Radiohead, com Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet. Este é um álbum que tem vindo a agitar, com ânsia, burburinho e excitação, o acervo discográfico do ano de dois mil e vinte e dois, algo compreensível tendo em conta as amostras que foram sendo disponibilizadas nas últimas semanas do fabuloso conteúdo sonoro, lírico e conceptual de um alinhamento que tem a chancela da XL Recordings.

The Smile Debut Album “Free in the Knowledge” Announced with New Single |  Illustrate Magazine

Depois da audição deste disco, a primeira impressão que fica bem vincada no ouvido de quem está familiarizado com o cardápio único e incontornável de uma certa banda de Abingdon, nos arredores de Oxford, são duas questões bastante simples: Se este A Light For Attracting Attention conta com Thom Yorke e Jonny Greenwood em dois dos papéis principais da lista de créditos e se Nigel Godrich, um dos responsáveis máximos pela arquitetura sonora inconfundível dos Radiohead, é o produtor, porque é que este não é um disco assinado pelos próprios Radiohead? Se Yorke e Greenwood tiveram a ideia de um projeto paralelo, porque é que o som que idealizaram é tão semelhante ao da banda mãe de onde provêm, ao contrário do que é normal suceder? De facto, se A Light For Attracting Attention fosse o título de um novo álbum dos Radiohead, o seu conteúdo, tal como está, sem adaptações, seria, claramente, um dos destaques da exuberante discografia do mítico grupo britânico liderado por Thom Yorke e, consequentemente, apetece mesmo questionar se Ed O'Brien e Philip Selway sentir-se-ão confortáveis a ouvir este disco, podendo ter, legitimamente, a mesma sensação que nós temos.

Hipotéticas polémicas à parte, debruçando-nos com alguma minúcia no conteúdo sonoro de A Light For Attracting Attention, damos de caras (e ouvidos) com um álbum que disserta com gula, cinismo, ironia, sarcasmo, têmpera, doçura e esperança, sobre a nossa cada vez mais estranha contemporaneidade, algo que não espanta porque foi concebido por um trio cujo nome, (The Smile), não se refere àquele riso inocente e doce que todos apreciamos, seja qual for a sua proveniência, mas àquele riso típico de quem nos mente diariamente e fá-lo sem pudor, nomeadamente aquele riso pateta dos políticos que nos tentam convencer do contrário daquilo que geralmente dizem. E este disco tem, então, todos os ingredientes que é usual encontrar-se num alinhamento dos Radiohead, contando com uma fina e vigorosa interseção entre o melhor dos dois mundos que de modo mais fiel abarcam a herança sonora do grupo Oxford, o mundo do orgânico e o mundo do sintético. Para que tal se materialize, não faltam mesmo várias marcas identitárias, claramente audíveis ao longo do alinhamento, quer nas distorções das guitarras e na rudeza do baixo, quer na panóplia de sintetizações, com que facilmente nos familiarizamos, porque não fazem parte do cardápio de nenhum outro projeto além do projeto dos Radiohead, a não ser daqueles que tentam, quase sempre sem sucesso, replicar uma sonoridade sem paralelo no rock alternativo das últimas três décadas.

Assim, todas as doze canções deste A Light For Attracting Attention, de uma maneira ou de outra, umas mais exuberantes, outras mais cruas e contidas, têm os seus pilares assentes numa dimensão sonora eminentemente épica e orquestral. São composições detalhísticamente ricas em nuances, pormenores, sobreposições e encadeamentos, quase sempre guiadas por um cardápio de cordas geralmente com um timbre abrasivo e rugoso, mas também por um registo percussivo de forte travo jazzístico, ou seja, canções que exalam aquele habitual ambiente soturno que decalca um terreno auditivo muito confortável para Yorke, que sempre gostou de se debruçar sobre o lado mais inconstante e dilacerante da nossa dimensão sensível e de colocar a nu algumas das feridas e chagas que, desde tempos intemporais, perseguem a humanidade e definem a propensão natural que o homem tem, enquanto espécie, de cair insistentemente no erro e de colocar em causa o mundo que o rodeia.

Assim, tomando como referência o típico universo radioheadiano, aquele rock mais cru e vigoroso que todos conhecemos e que a banda de Oxford replicou com enorme argúcia, em especial nos primeiros três discos da sua carreira, está exemplarmente representado em temas como We Don’t Know What Tomorrow Brings, um portentoso hino de synth rock para se escutar de punhos bem cerrados, mas também na elegância das distorções que acamam Skrting On The Surface, ou na abrasiva You Will Never Work In Television Again, composição que em pouco mais de três minutos nos inebria com um punk rock de elevadíssimo calibre, com guitarras ruidosas e um registo percurssivo frenético a acamarem a voz de Yorke que permanece intacta e pujante, mesmo após tantos anos. Na outra face da mesma moeda, ou seja, na herança mais sintética, ambiental e experimental, que começou a ganhar forma no início deste milénio com a mítica dupla Kid A e Amnesiac, cabem temas como Pana-vision, uma canção que nos proporciona um maravilhoso momento sonoro intimista e acolhedor, mas que depois resvala para uma pujante trama orquestral, sustentado pelas teclas do piano, adornadas, depois, com sopros sedutores e uma bateria de forte travo jazzístico, enquanto o típico falsete de Yorke, conduz o andamento do baixo, assim como em Free In The Knowdlege, música bastante reflexiva, íntima e sentimentalmente poderosa, talvez a que, em vinte e sete anos de The Bends, mais perto chegou à fronteira de Fake Plastic Treesmelodicamente assente numa belissima melodia de uma viola, que está sempre, ao longo dos quatro minutos e treze segundos que o tema dura, exemplarmente acompanhada por excelsos violinos e por diversos detalhes percussivos de forte travo jazzístico. Depois, e numa espécie de simbiose entre os dois pólos, temos o funk anguloso e vibrante de The Opposite e, num registo menos fulgurante, mas igualmente sensual, principalmente na beleza dos sopros, The Smoke, duas canções que encaixariam na perfeição no alinhamento do magistral In Rainbows, a hiperativa Thin Thing e a charmosa e melancólica Open The Floodgates. Estes são quatro exemplos de músicas que têm de modo mais ou menos declarado a eletrónica presente, mas sem abafar aquele bucolismo etéreo e introspetivo que, curiosamente, fica ainda mais vincado e realista quando conta com linhas de guitarra ligeiramente agudas e com uma bateria que parece, amiúde, rodar sobre si própria, tal é o seu grau de imediatismo e intuição, no modo como se cola às melodias e amplia o colorido das mesmas.

Disco muito desejado desde que se tornou pública a sua concretização, A Light For Attracting Attention é um álbum excitante e obrigatório, não só para todos os seguidores dos Radiohead, mas também para quem procura ser feliz à sombra do melhor indie rock atual, independentemente do seu espetro ou proveniência estilística. O alinhamento do registo contém uma atmosfera densa e pastosa, mas libertadora e esotérica, materializando a feliz junção de três músicos que acabaram por agregar, no seu processo de criação, o modus operandi que mais os seduz neste momento e que, em simultâneo, melhor marcou a sua carreira, quer nos Radiohead, quer nos Sons Of Kemet. Surgiu, assim, um disco experimentalista naquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas, como tão bem prova a fabulosa e surpreendente Waving A White Flag, forte candidata ao pódio das mais bonitas canções de dois mil e vinte e dois. Espero que aprecies a sugestão...

The Smile 'A Light For Attracting Attention' Review

 

The Same

The Opposite

You Will Never Work In Television Again

Pana-vision

The Smoke

Speech Bubbles

Thin Thing

Open the Floodgates

Free in the Knowledge

A Hairdryer

Waving a White Flag

We Don’t Know What Tomorrow Brings

Skrting on the Surface

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publicado por stipe07 às 01:45

Arcade Fire – WE

Sexta-feira, 06.05.22

Meia década depois do registo Everything Now, os canadianos Arcade Fire estão finalmente de regresso aos discos com WE, o sexto álbum da banda liderada por Win Butler. Produzido por Nigel Godrich e os próprios Win Butler e Régine, o núcleo duro do grupo, WE viu a luz do dia hoje mesmo com a chancela da Columbia Records.

Arcade Fire: We review – goodbye cod reggae, hello stadium singalongs |  Music | The Guardian

Antes de mais, vale a pena confessar que a suprema constatação que a nossa redação fez logo após a primeira audição de WE é que, finalmente, quase vinte anos depois do fabuloso e inimitável Funeral, os Arcade Fire estão de regresso às obras-primas. WE é já, logo no primeiro dia de vida oficial, um notável clássico e, na nossa opinião, supera tudo aquilo que o grupo de Montreal apresentou ao mundo depois dessa auspiciosa estreia em dois mil e quatro. Sonoramente, a curiosa estrutura dos sete temas do registo, liga, com contemporaneidade ímpar, um arco conceptual que abraça a herança kraftwerkiana setentista com o melhor rock oitocentista em temas como Age Of Anxiety (Rabbit Hole), passando pela pureza e pelo imediatismo, que definem os pilares que sustentaram o rock impetuoso dos primórdios deste século e, já agora, da carreira do projeto, em The Lightning I, II e sem esquecer o clima mais clássico, progressivo e noventista da dupla End Of The Empire I-III e End Of The Empire IV (Sagittarius A*). Nos sintetizadores imponentes e no registo percussivo que mescla origens orgânicas com sintéticas em Unconditional II (Race And Religion), uma canção que conta com a participação especial de Peter Gabriel, constatamos, com elevada dose de impressionismo a simbiose de toda esta trama conceptual que conduziu a filosofia sonora do álbum.

Estes são carimbos sonoros do alinhamento de WE que justificam a apreciação elogiosa acima referida que, parecendo algo precipitada e resultado de um estado de letargia critica ébria devido à audição entusiasmada do registo, estamos certos que continuará a ecoar nestas paredes e ouvidos, após as múltiplas audições futuras de um trabalho que em pouco mais de quarenta minutos nos oferece um naipe de canções que passam impecavelmente a lustro e com laivos de epicidade extrema esta espécie de revisitação catálogo da história do rock nos últimos quarenta anos, principalmente no seu formato mais pop.

Tematicamente WE é um disco de ruptura com o catálogo anterior dos Arcade Fire. Se Everything Now foi um olhar crítico e críptico dos Arcade Fire sobre o imediato e, na altura, um claro manifesto político e de protesto claro ao rumo que o país vizinho tinha tomado com a subida de Trump ao poder, além da abordagem sociológica que o disco fazia aos novos dilemas da contemporaneidade de cariz mais urbano e tecnológico em que a dita sociedade ocidental mais desenvolvida  ainda hoje vive, WE, um disco que começou a ser gravado em março de dois mil e vinte, poucas horas antes de ser decretado o primeiro confinamento global devido ao COVID, prefere olhar em frente, projetando um futuro imaginário, liberto de muitas das amarras que hoje nos afrontam, ao mesmo tempo que reflete sobre o perigo das forças que constantemente tentam nos afastar das pessoas que amamos e a urgente necessidade de superá-las. É uma jornada catártica que segue um arco definido que vai da escuridão à luz ao longo de sete canções, divididas em dois lados distintos: o lado I, que canaliza o medo e a solidão do isolamento e o lado WE, que expressa a alegria e o poder da reconexão.

A partir desta trama impecavelmente balizada, a forma como as canções evoluem e o sentimentalismo que é colocado em cada uma, são, como não podia deixar de ser, uma imagem de marca que estará sempre marcada de modo indelével em WE. A exuberância das cordas, o modo como os temas evoluem através do piano e da voz inconfundível de Butler, alicerçada num catálogo de nuances e variações nunca visto, até atingirem um pico orquestral quase sempre exuberante, são caraterísticas de um álbum que emociona e instiga e que carrega um ambiente sonoro que aprimorou a tonalidade da escrita quase religiosa de Butler e Chassagne. Podemos até acrescentar que WE terá a capacidade de até nos pode fazer dançar, com a certeza de que, ao contário do que aconteceu com registos anteriores do grupo, não há o risco de, há mínima escorregadela, podermos cair para um lado mais obscuro e depressivo. Em suma, sendo WE um trabalho altamente preciso e controlado e pensado ao mínimo detalhe, é indesmentível que vai ao encontro das enormes expetativas que sobre ele recaia desde que foi prometido, personificando um salto qualitativo em frente (ou para atrás, dependendo da perspetiva) na carreira dos Arcade Fire, ao mesmo tempo que volta a empolgar os fãs e apreciadores da banda relativamente ao futuro sonoro de uma das maiores e melhores bandas do mundo. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 11:36

Fugly - Dandruff

Quarta-feira, 04.05.22

Quase meia década depois do excelente Millenial Shit, os portuenses FUGLY estão de regresso aos lançamentos com um novo disco intitulado Dandruff, que tem o selo da portuense Saliva Diva. Recordo que os Fugly são liderados por Pedro Feio, ou Jimmy, ao qual se juntam Rafael Silver, Nuno Loureiro e Ricardo Brito.

Fugly lançam novo álbum “Dandruff” | Altamont

Com Millennial Shit os Fugly deram a volta a Portugal, à Europa. A carrinha, o seu panzer do rock turbo negro, ficou demasiado cansada e morreu. Agora têm uma carrinha nova e um álbum novo, que traz consigo um novo mestre dos tambores, Ricardo Brito (esse mesmo). Quase cinco anos depois, Dandruff não engana o ouvinte mais incauto nas referências, que se acamam naquele rock alternativo que há três décadas atrás fez mossa no stock mundial de ténis All Star, de Yamahas DT 50 e de flanelas em xadrez, enquanto a internet era apenas uma ténue miragem que se vislumbrava nos sonhos mais milaborantes de uma noite de sono revolto, que teria o seu epílogo numa manhã de inevitável ressaca.

Filhos dos anos noventa e adolescentes nos anos zero, os Fugly desenham, em doze temas, um caminho sinuoso entre músicas de correr rápido, genéricos de desenhos animados, muzak de guitarras cremosas, dedicatórias, dedos do meio e outras coisas. Avançam em frente, num frenesim roqueiro, feito com guitarras agrestes, mas encharcadas em acordes e distorções luminosas e um registo percurssivo repleto de groove e, qual cereja no topo do bolo, à boleia de uma propositada ingenuidade lírica com acordes simples e refrões que se penduram na cabeça como um morcego atarantado, com direito a coro e tudo.

A parte mais importante naquilo que é um disco de Fugly são as gargalhadas. É fixe estar feliz e lidar com o stress da renda, de ter um não-trabalho, da namorada, do namorado ou do gato com manchas nos olhos com um sorriso na cara. Este disco dá para rir dos assuntos sérios que daqui a uns tempos vão ser parvos. Pelo menos para eles. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:46

Spiritualized - Everything Was Beautiful

Sexta-feira, 22.04.22

O extraordinário registo And Nothing Hurt, de dois mil e dezoito, assinado pelo projeto britânico Spiritualized, tem finalmente sucessor. Everything Was Beautiful é o nome do novo alinhamento de sete maravilhosas canções da banda de Jason Pierce e viu a luz do dia hoje mesmo, para gaúdio da nossa redação, com as chancelas da Bella Union e da Fat Possum.

Spiritualized - 'Everything Was Beautiful': a sonic feast

Everything Was Beautiful é um clássico instantâneo, diga-se. O nono disco da carreira dos Spiritualized foi gravado na íntegra por Jason Pierce, a.k.a. J. Spaceman, líder do grupo, um músico, cantor e compositor extraordinário, que também tocou variadíssimos instrumentos no álbum. E fê-lo em mais de uma dezena de estúdios diferentes e com um elevado naipe de músicos convidados legível nos seus créditos, incluindo Poppy, a filha, num processo contínuo de tentativa vs erro, que se tornou num verdadeiro desafio para o músico, que procurou um ambiente luminoso e de forte pendor ambiental, sem colocar em causa o exigido som de estúdio que faz parte do adn do projeto.

De facto, a voz sussurrante de Jason Pierce e o glorioso e vastíssimo arsenal instrumental que o circunda, fazem-nos sentir, logo que se carrega no play, que tudo é realmente bonito à nossa volta, como refere o título do álbum, numa viagem com sete paragens que nos levam das profundezas do espaço sideral às ruas desertas de uma grande metrópole, passando, pelo meio, por uma simples linha de caminho-de-ferro. E nem vale a pena pensar sequer em tentar resistir a este inapelável convite que o disco faz, canção após canção, à nossa mente e aos nossos sentidos, para que embarquemos numa epopeia que nos envolve também naquilo que é, sem dúvida, um verdadeiro analgésico soporífero em forma de música. 

Neste disco Jason Pierce, que nunca é artista de meias medidas ou de minimalismos incipientes, colocou mais uma vez a carne toda no assador. Cascatas de guitarras mais ou menos distorcidas, sintetizações cósmicas variadas, espirais de violinos em catadupa, impacientes e rebeldes sopros e um registo percurssivo com a dinâmica e o vigor indicados, são o receituário que suporta a arquitetura sonora de um alinhamento que também se define, como não podia deixar de ser, pela sua destreza melódica, um expediente essencial nas canções dos Spiritualized que buscam sempre os atalhos mais diretos para o coração do ouvinte. Crazy, a quarta canção do alinhamento de Everything Was Beautiful, estrategicamente situada no âmago do disco, é a composição que exagera, no bom sentido da palavra, na beleza e no romantismo, e que, por isso mesmo, espelha com clareza enorme esta caraterística essencial no momento de caraterizar o adn dos Spiritualized. Crazy é mais um bom exemplo de variações eletromagnéticas emanadas por planetas, ruídos intergaláticos e uma série de elementos que ao serem posicionados de forma correta se transformam em música. O tema, que conta com a participação especial vocal da artista country Nikki Lane, é uma lindíssima balada, plena de soul e emotividade, com uma linha eminentemente country pop, mas há outra canção, também estrategicamente posicionada, que não fica atrás de Crazy na hora de nos fazer sorrir sem razão aparente. Refiro-me a Always Together With You, o tema que abre o alinhamento de Everything Was Beautiful, outra estrondosa composição gravada pela primeira vez em dois mil e catorze, na altura com uma roupagem mais agreste e intitulada, à época, Always Forgetting With You (The Bridge Song), sob o pseudónimo Mississippi Space Program.

Para esclarecer de vez os mais exigentes de que este álbum é, sem qualquer possibilidade de rebate ponderado, um dos discos do ano, escuta-se The Mainline Song/ The Lockdown Song, talvez a composição conceptualmente mais de acordo com aquela que é outra grande matriz identitária dos Spiritualized, o confronto com a realidade e a indispensável crítica analítica à mesma. É um longo tema sobre comboios, mas também sobre as agruras que estes dois anos de confinamentos provocaram em todos nós, com uma base melódica de forte cariz hipnótico e progressivo, assente em cordas reluzentes e arranjos sofisticados que vão sendo inseridos na canção de modo a que ela tenha uma progressão contínua rumo aquela majestosidade que quase sempre se confunde com o habitual pendor psicadélico do projeto.

Jason Pierce é um eterno insatisfeito e esse é um dos maiores elogios que se pode fazer a um artista que se serve desse eterno incómodo relativamente à sua obra, neste caso musical, para, disco após disco, tentar sempre superar-se e apresentar algo de inédito e que surpreenda os fãs. E no caso específico dos Spiritualized, uma daquelas bandas nada consensuais e, por isso, com seguidores que são, na sua esmagadora maioria, bastante devotos, como é o meu caso, ainda mais exigente se torna para o íntimo deste cantor, poeta e compositor britânico conseguir que esta sua filosofia de vida tenha efeitos práticos e seja bem sucedida. Everything Was Beautiful, disco repleto de calafrios na espinha e nós na garganta, faz isso na perfeição. É um fabuloso tratado de indie rock experimental, mas, principalmente, mais uma banda sonora indicada para instantes da nossa existência em que somos desafiados e superar obstáculos que à partida, por falta de coragem, fé e alento, poderiam ser insuperáveis, mas que durante a audição do registo sabem a meros precalços ou areias na engrenagem de fácil superação. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:33

Father John Misty – Chloë And The Next 20th Century

Quarta-feira, 20.04.22

Já passaram quatro anos desde que Josh Tillman nos ofereceu o extraordinário registo God's Favorite Costumer, um dos melhores discos de dois mil e dezoito para esta redação, mas parece que foi ontem, tal é a insistência com que esse registo vai rodando por cá. Foi um trabalho concebido por um dos artistas mais queridos deste espaço de crítica musical, sempre absorvido nos seus dilemas, vulnerabilidades e inquietações pessoais, enquanto ensaia, em cada álbum, uma abordagem tremendamente empática e próxima com o ouvinte, sem se deslumbrar e perder a sua capacidade superior de criar canções assentes num luminoso e harmonioso enlace entre cordas e teclas, que dão vida a temas carregados de ironia e de certo modo provocadores.

Father John Misty Announces 'Chloe And The Next 20th Century

De facto, foi isso que Father John Misty fez em Chloë And The Next 20th Century, o seu novo registo de originais, gravado na segunda metade de dois mil e vinte, em pleno período de confinamento. Neste que é o quinto álbum da carreira, o autor e compositor deu mais uma guinada conceptual e até sonora no seu catálogo, contando, para isso, com a ajuda preciosa de Drew Erickson nos arranjos, de Jonathan Wilson na produção e Dave Cerminara, na mistura, além dos músicos Dan Higgins e Wayne Bergeron, entre outros.

Estilistica e filosoficamente, Chloë and the Next 20th Century tem em declarado ponto de mira o período aúreo do cinema americano, além do catálogo de músicos míticos como Randy Newman e Harry Nilsson, com variadíssimas canções, como Chloë ou Q4, só para citar dois exemplos, a colocarem-nos imediatamente numa mesa redonda de uma sala fumarenta, mesmo em frente a um palco escuro onde o músico, vestido impecavelmente, nos oferece momentos sonoros esplendorosos e únicos, suportado por uma orquestra afinadíssima, repleta de metais e cordas e liderada por um piano exemplar.

Os laivos musicais de excelência que abundam neste álbum proporcionam, entre muitas outras sensações que só a vivência da audição consegue descrever, beleza e melancolia ímpares, como é o caso de The Next 20th Century. E o alinhamento tão depressa abraça a bossa nova, como no caso de Olvidado (Otro Momento), como o charme de uma valsa, radiosamente plasmada em (Everything But) Her Love, ou seja, consegue abraçar, quase sem se notar, universos sonoros tão díspares e heterogéneos e que parecem conjurar entre si para incubar uma trama de caraterísticas únicas e que merecem, também por isso, dedicada audição.

Chloë And The Next 20th Century é, pois, obra criativa única e indispensável, incubada por um autor que gosta de cantar e contar na primeira pessoa e assumir, ele próprio, o protagonismo das histórias que nos relata, enquanto prova ao mundo inteiro, mais uma vez, que é imcomparável a recriar diferentes personagens, cenas e acontecimentos, geralmente sempre dentro de um mesmo território criativo, neste caso o cinema. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:30

50 Foot Wave – Black Pearl

Segunda-feira, 18.04.22

Líder incontestada dos míticos Throwing Muses, Kristin Hersh é também figura de relevo de um outro projeto intitulado 50 Foot Wave, que junta, desde dois mil e três, a autora, cantora e compositora natural de Atlanta, na Georgia, ao baixista Bernard Georges, seu parceiro nosThrowing Muses e ao baterista Rob Ahlers. Este trio tem um novo disco intitulado Black Pearl, sete canções que nos oferecem uma trip sonora verdadeiramente alucinante, um registo que carece de dedicada audição, por todos os amantes daquele rock mais cru e experimental.

50 Foot Wave – FIRE RECORDS

As canções de Black Pearl encontram a sua génese em arquétipos de composições que tinham como destino o catálogo dos Throwing Muses, mas que foram consideradas, logo à partida, demasiado estranhas ou alternativas, para esse propósito. No entanto, e ainda bem, foram preservadas, porque não eram vistas como descartáveis, recebendo agora, anos depois, o polimento final, num resultado verdadeiramente único, muito peculiar e sui generis e que até pode ser considerados por mentes mais puristas como quase marginal.

Carregamos no play e Black Pearl, logo que inicia, ensina-nos que o grunge, aquele famoso subgénero do rock alternativo que fez escola nos anos noventa, também pode ser melancólico e, além disso, também passível de ser sujeito a abordagens que tenham o experimentalismo livre de constrangimentos em declarado ponto de mira. Os riffs ecoantes de Staring Into The Sun, ou o emaranhado sonoro com que a guitarra abastece Hog Child, exemplarmente acompanhada pelo vigor do baixo e da bateria, são exemplos felizes de uma trama que obedece exatamente a estas permissas, em que o lo fi e o ruído são também vetores essenciais, nomeadamente no modo como projetam charme e lisergia.

Disco único, quer na concepção, quer na sonoridade que exala, Black Pearl é um registo cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproxima do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea. O álbum comunica connosco através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão plasmadas nas suas canções. É um disco eclético, complexo e de audição verdadeiramente desafiante, mas altamente recompensadora. Espero que aprecies a sugestão...

 

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publicado por stipe07 às 09:49

Beach House - Once Twice Melody

Terça-feira, 12.04.22

Quase meia década depois de 7, os Beach House, um projeto sedeado em Baltimore, no Maryland, formado pela francesa Victoria Legrand e pelo norte americano Alex Scally, estão de regresso com Once Twice Melody, a sua obra mais grandiosa, um megalómano alinhamento de dezoito canções que duram mais de oitenta minutos verdadeiramente épicos e que comprovam que esta dupla nunca foi nem será nada timida a cortejar o infinito, porque não receia desafiá-lo.

Beach House – “Once Twice Melody” - Festival da Noção

Entre a luz e a escuridão é muitas vezes efémera a distância que separa estes dois mundos tão díspares. Mas a música dos Beach House consegue sublimar, quase sem se distinguir a fronteira entre duas realidades que, ao som desta dupla, parecem tudo menos distintas. De facto, este Once Twice Melody, que é, curiosamente, o primeiro registo que os próprios Beach House produzem, tem logo no tema homónimo esse perfume de interação, com os sintetizadores a fornecerem nuances predominantemente claras e reluzentes e o baixo e as guitarras a pintarem tonalidades mais obscuras, mas repletas de charme, numa composição que nos coloca de frente, sem apelo nem agravo, para a filosofia estilística que encharca todo o disco. Entre esses dois pontos efêmeros, Victoria Legrand e Alex Scally se deleitam na interação de sombra e luz, o perfume das flores desabrochando à noite, a rapsódia da própria sensação. Superstar, logo a seguir, dá um cariz ainda mais superlativo e sumptuoso, com Pink Funeral a dissolver definitivamente o nosso ouvido numa trama que tem também, diga-se, uma forte componente cinematográfica no seu âmago.

Já capturados e sem possibilidade de nos libertarmos de tais amarras, na ziguezagueante cosmicidade de Through Me, na languidez metálica de Runaway e no perfume aveludado de ESP prossegue este verdadeiro devaneio pop, que sem deixar de descrever a habitual marca registada dos oito registos que fazem já parte do cardápio dos Beach House, ganha, neste Once Twice Melody, laivos de superlativo requinte.

Até ao ocaso do registo, o caráter e o cenário nunca mudam, mesmo que no techno melódico de Only You Know, nos coros celestiais de Over And Over e em Illusion Of Forever pareça haver uma vontade de espreitar territórios um pouco mais agrestes e progressivos. Há guitarras acústicas repletas de vocoders mágicos, sintetizadores analógicos aquosos e mudanças de acordes que explodem como fogos de artifício contra o céu noturno, refrões crescentes e conjuntos sumptuosos de sintetizadores, mas a essência de som permanece sempre inabalável e suporta com distinção o natural desgaste dos minutos, dada a duração do alinhamento do disco.

Colocando Once Twice Melody em perspetiva, relativamente ao trajeto da banda, parece-me claro referir que toda a carreira dos Beach House sabe a um longo e gradual processo de transformação, um caminho lentamente sinuoso que levou a dupla até este ponto. Ao longo dos anos, eles fizeram ajustes subtis no lânguido modelo de slowcore que criaram para si desde o homónimo de dois mil e seis, passando pela veludez de Depression Cherry e o musculado shoegaze de 7,  até chegarem a um ponto em que, tendo construído nesse longínquo disco de estreia a embarcação em que navegam, ao longo da viagem é como se tivessem substituido, gradualmente, todas as suas peças, desde o mastro, ao cordame, passando pelas velas e o casco, até não restar uma única peça original do barco, com o definitivo novo navio personificado neste Once Twice Melody  a ser, no fundo, exatamente a mesma embaracação com que iniciaram a jornada. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 14:31

Destroyer - Labyrinthitis

Quarta-feira, 06.04.22

Dois anos depois de Have We Met, os canadianos Destroyer de Dan Bejar, já têm na montra o, imagine-se, décimo quarto registo discográfico do projeto, um álbum intitulado Labyrinthitis que viu a luz do dia a vinte e cinco de março, com a chancela da Merge Records.

Destroyer: Labyrinthitis review – wayward, dance-infused weirdness | Pop  and rock | The Guardian

Labyrinthitis, é, certamente, obra de um esforço coletivo, mas deve muito do seu conteúdo, à mente de Dan Bejar, um músico que também está escalado na formação dos The New Pornographers e que não gostando de lutar contra o tempo e não aprecia estipular prazos, prefere que a música escorra na sua mente e depois nas partituras e nos instrumentos de modo fluído, no devido timing e com a pressa que merece, sempre com uma tonalidade algum cinzenta e agreste e eminentemente reflexiva. E, de facto, Labyrinthitis, uma obra muito orgânica, repleta de contrastes, nuances e amálgamas exemplarmente tricotadas e agregadas e que versa sobre assuntos tão díspares como o romance ou o terror, mas também a arte, tem esta filosofia engimática e intrincada, tão do agrado do autor canadiano.

O alinhamento do disco, no seu todo, assenta, essencialmente, em camadas desordenadas de sons sintéticos e orgânicos, um piano e uma bateria em constante desfasamento e o habitual registo vocal peculiar do músico, mais intrigante e sinistro que nunca. A partir daí, na ímpar interioridade reflexiva a que nos instiga It's In Your Heart Now, na parada cósmica a que tresanda June, no delicioso romantismo vintage de All My Pretty Dresses, no festim eletro de Tintoretto, It's For You, no charme pop de Eat The Wine, Drink The Bread, ou na serena ambiguidade do tema homónimo, confrontamo-nos com um compêndio bastante burilado e tremendamente bem conseguido, abrigado num clima eminentemente sofisticado, claramente clássico e moderno.

Labytinthitis é intenso e joga com diferentes nuances sonoras sempre com um espírito aberto ao saudosismo e à relevância inventiva. É um verdadeiro oásis de pop sofisticada em que Bejar eleva a sua escrita críptica e crítica a uma intensidade e requinte nunca antes vistos, rodeado por um grupo de músicos que também já habituou os seus fãs a um espetro rock onde não faltavam de guitarras distorcidas e riffs vigorosos, mas que opta agora, e mais do que nunca, num claro sinal de maturidade e de pujança criativa, por compôr composições que olham de modo mais anguloso para a eletrónica e para ambientes eminentemente clássicos, fazendo-o com superior apuro melódico. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:09

Hatcham Social – We Are The Weirdos

Terça-feira, 05.04.22

Toby Kidd, Finnigan Kidd e David Claxton são os Hatcham Social, uma banda britânica oriunda da capital Londres e We Are The Weirdos o quinto trabalho do cardápio de um projeto cujas raízes remontam a dois mil e seis, altura em que com a benção de Tim Burgess, o líder dos Charlatans e de Alan McGee, patrão da Creation Records, os irmãos Kidd e Claxton, antigo baterista dos Klaxons, deram o pontapé de saída numa trip sonora que tem mergulhado, disco após disco, num universo sonoro recheado de novas experimentações e renovações e que soa sempre poderoso, jovial e inventivo.

Hatcham Social – MP3 & 4 NYC shows including Cake Shop w/ Crystal Stilts &  TPOBPAH, Merc/

Sucessor do extraordinário registo The Birthday Of The World  de dois mil e quinze, We Are The Weirdos proporciona-nos mais uma mirabolante viagem rumo à melhor herança do rock britânico do último meio século. São catorze canções, repletas de vários convidados especiais e que fazem uma espécie de súmula de uma notável carreira de um dos projetos mais interessantes do cenário indie de terras de Sua Majestade. Falamos de uma banda cuja estreia nos discos ocorreu em dois mil e nove depois de alguns singles de sucesso editados anteriormente. You Dig The Tunnel and I'll Hide the Soil, foi o nome desse debut, um álbum produzido pelo já referido Tim Burgess e por Faris Badwan, dos The Horrors. O sempre difícil segundo disco, intitulado About Girls, chegou três anos depois e o elevado apreço por parte da crítica especializada manteve-se com Cutting Up The Present Leaks Out The Future, no início de dois mil e catorze. No outono do ano seguinte a fasquia ficou ainda mais elevada com esse The Birthday Of The World, uma esplendorosa coleção de dez canções, particularmente luxuriante, espiritual e hipnótica.

O que encontramos, então, neste We Are The Weirdos é uma coleção de canções verdadeiramente desconcertante e com uma produção cuidada, que aposta numa elevada dose de reverb e no típico espírito lo fi. É uma compilação que faz da sua audição um desafio constante, quer devido ao modo como coloca em causa, permanentemente e sem concessões, o típico formato canção, mas também pela amálgama heterogénea de arranjos, samples e sons que rodeiam e sustentam as suas composições.

Instrumentalmente, desde a bateria ao baixo, passando pelo orgão, o piano, sintetizadores, guitarras, violas acústicas e um arsenal alargado de instrumentos de percussão, é extenso o rol de convidados para esta festa única e lisérgica, não faltando um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. Abundam as sobreposições instrumentais em camadas, onde vale quase tudo, mas nunca é descurado um forte sentido melódico e uma certa essência pop, numa curiosa busca de acessibilidade, havendo o propósito claro de aproximação ao ouvinte, cativando-o para uma audição dedicada.

Logo em If You Go Down To The Woods Today (Three Cheers For Our Side), a voz e a metalização da guitarra dão corpo a uma melodia plena de majestosidade e cor, encharcada com o melhor código genético de uns The Smiths, para depois, em In My Opinion o espraiar cuidadoso das cordas de uma agreste guitarra, cimentarem o combustível que inflama os raios flamejantes que cortam a direito e iluminam o colorido universo sonoro dos Hatcham Social, feito de uma enorme assertividade e bom gosto. Depois o blues rock stoniano de I Cannot Cure My Pure Evil, a essência punk vintage do baixo que conduz Sidewalk e a herança aditiva e luminosa que o efeito sintético e o espírito barroco das cordas e de um efeito planante nos transmitem em Lion With A Lazer Gun, assim como a monumentalidade pop da garageira de So So Happy Making, confirmam os mais incautos que estes Hatcham Social são uma banda obrigatória para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze, o chamado space rock e uma reforçada dose de experimentalismo sem regras e concessões, se deliciam com a mistura de vertentes e influências sonoras, sempre em busca de uma espécie de movimento estético de vanguarda sonoro, que desafia convenções e métodos e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 16:51






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