man on the moon
music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
GEE‑AITCH - Mess Of Words
GEE‑AITCH é um projeto musical encabeçado por José Gentil‑Homem, músico portuense com uma trajetória que atravessa várias influências antes de se dedicar a uma eletrónica alternativa e experimental. O projeto estreou-se em dois mil e dezoito com o EP Left Hand Page, que recebeu atenção da crítica, que destacou o clima caseiro, denso e quase claustrofóbico do seu conteúdo, recheado de temas brilhantes, gravados com recursos mínimos.
![]()
Dois anos depois, em dois mil e vinte, GEE‑AITCH evoluiu e estreou-se no formato longa duração com o registo Odyssey, ao qual se seguiu, logo no ano seguinte, Insane, dois álbuns eminentemente introspetivos e minimalistas e assentes em texturas eminentemente eletrónicas, que acabaram por vincar um adn e uma assinatura sonora muito próprias e marcadas por sensibilidade e honestidade.
Agora, no início de dois mil e vinte e seis, GEE‑AITCH acaba de chamar a nossa atenção devido a Mess Of Words, o terceiro disco do projeto. É um alinhamento de oito canções que, em pouco menos de vinte minutos, encarnam uma filosofia interpretativa muito pessoal já que, de acordo com o próprio José Gentil-Homem, plasmam uma fase mais madura e consistente da sua vida. Todas as faixas foram inicialmente compostas ao piano, mas, naturalmente, durante a produção, o piano desapareceu. O resultado é um disco alternativo, pensado para que a música se integre na vida de quem a ouve, criando memórias e pequenas alegrias, seja numa conversa, num cheiro, numa lembrança do dia a dia.
Misturado e masterizado no ArdaRecorders, pelo técnico Ze Nando Pimenta, no Porto, o álbum reflete equilíbrio, clareza e uma maturidade que se distancia das primeiras experiências mais experimentais do artista. São oito canções de cariz fortemente ambiental, como se percebe logo na incontetável beleza e coerência de Here In The Dark, sustentadas por várias camadas de sintetizações, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. No entanto, a acusticidade das cordas também deixa uma marca impressiva, nomeadamente em Fish Fillet, canção que impressiona pela cândura inicial, mas que depois se desenvolve e simultaneamente nos envolve, numa espiral de sentimento e grandiosidade. Já Look Like Him, por exemplo, aposta num som mais esculpido e complexo, plasmando uma dinâmica feliz entre um enorme manancial de efeitos e samples de sons que nos obrigam a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. Por outro lado, temas como a lisérgica No Pressure, o clima punk de Homicide ou Mess Of Words, uma espiral frenética e empolgante de synthpop, impressionam pelo cariz sensorial, criando um cenário de certo modo idílico também para os apreciadores daquele rock progressivo mais enérgico e libertário.
Disco que convoca vários universos sonoros que, da eletrónica, à pop, passando pelo próprio rock progressivo, criou uma relação simbiótica bastante sedutora, Mess of Words é, acima de tudo, uma continuação do percurso de GEE‑AITCH: uma vida confusa e complexa, agora traduzida numa fase estável e introspectiva, com o desejo de que, de acordo com o autor, cada música faça parte da vida das pessoas, acrescentando algo a cada memória que desperta. Espero que aprecies a sugestão...
Autoria e outros dados (tags, etc)
Os Melhores Discos de 2025 (10-01)

10 - Califone - The Villagers Companion
Intenso, orgânico, intimista e intrincado, The Villager's Companion é um autêntico regalo para os ouvidos de todos aqueles que sentem prazer em sentir canções que escorrem lentamente, enquanto absorvem todas as suas nuances e detalhes, até os mais ínfimos e, durante esse processo, dão, muitas vezes instintivamente, forma a ideias, conceitos, pensamentos e até decisões, que as mesmas suscitam. De facto, a audição dedicada das nove composições do disco é marcante e deixa um lastro de sensações que espicaçam e se sentem com elevado grau impressivo, mesmo após o ocaso dos pouco mais de quarenta minutos que dura o registo.
9 - Noiserv - 7305
7305 é um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcança, no seu todo, laivos de excelência que alargam os horizontes sonoros do autor e o arco concetual estilístico do seu catálogo, com superior mestria. Ao longo de pouco mais de trinta e dois minutos estabelece pontes entre aquilo que é definido como o orgânico e acústico e o sintético, através de um manancial de ligações de fios e transistores que debitam um infinito catálogo de sons e díspares referências, únicas no cenário alternativo nacional e que também exalam um intenso charme, induzido por uma filosofia interpretativa que, mesmo tendo por trás um cada vez mais diversificado arsenal instrumental, nunca abandona aquele travo minimalista, pueril, orgânico e meditativo que carateriza o modus operandi deste músico único.
8 - Cass McCombs – Interior Live Oak
Cometa repleto de brilho e de cor, Interior Live Oak é, portanto, uma verdadeira experiência imersiva e metafórica, plena de densidade, onde muitas vezes o acústico e o elétrico se confundem. É um disco generoso e esteticamente inquietante, porque não lhe falta diversidade. Mas também é um trabalho emocionalmente acolhedor, porque tem uma estética conselheira e dialogante que não é de descurar.
7 - The Antlers - Blight
Os pouco mais de quarenta e cinco minutos de Blight impressionam imenso, quer pela riqueza detalhística e pela diversidade de nuances, transversal às nove canções do alinhamento, quer pela própria filosofia lírica e estilística subjacente ao registo e, acima de tudo, pela emotividade e assombro que a sua audição dedicada suscita. O álbum encarna uma espécie de epopeia sonora que acumula um amplo referencial de elementos típicos de diversos universos sonoros, que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica, cinematográfica e até, diria eu, objetivamente sensual.
6 - Damien Jurado - Private Hospital
Private Hospital proporciona-nos, em pouco mais de trinta e dois minutos, um festim de indie pop rock luxuriante e vibrante, com forte travo vintage, potenciado por um processo de gravação eminentemente analógico, que coloca as fichas num clima ligeiramente jazzístico. Estas novas canções de Damien Jurado, sendo instrumentalmente fartas e filosoficamente tocantes, comunicam com o nosso âmago, através de uma forma de compôr que, algures entre a penumbra e a luz e com uma sofisticação muito própria, é incubada por um dos maiores cantautores e filósofos do nosso tempo, um artista sem paralelo no panorama da indie folk contemporânea.
5 - Lord Huron - The Cosmic Selector Vol. 1
Com uma discografia já bastante sólida e com uma vasta legião de seguidores fiéis, Lord Huron solidifica em The Cosmic Selector Vol. 1, com notável eficácia, a elevada bitola qualitativa do seu catálogo, à boleia de doze canções que, em quase cinquenta minutos, nos presenteiam com canções que calcorreiam caminhos tão díspares como a folk introspetiva, o rock alternativo e o rock progressivo e o próprio jazz. É um disco fantástico e cheio de nuances, mas também íntimo, profundo, reflexivo. É um registo repleto de laivos musicais de excelência e que proporcionam ao ouvinte muitas boas sensações, que só a vivência da audição consegue suscitar e descrever com detalhe.
4 - Midlake - A Bridge To Far
Com um alinhamento de dez canções e produzido por Sam Evian, A Bridge To Far reclama, com firmeza, o posicionamento dos seus autores num lugar de relevo do panorama indie e alternativo, nomeadamente naquele espetro sonoro que aposta na riqueza dos detalhes e na sapiência melódica, como traves mestras do processo criativo. De facto, os Midlake sempre tiveram apetência para a criação de canções aprazíveis e reluzentes e que, simultaneamente, contendo sempre um elevado grau de acessibilidade, mostrassem um elevado grau de refinamento, servindo-se da típica folk norte-americana, feita de cordas reluzentes e com aquele timbre metálico ecoante tão caraterístico. Em suma, se o resultado final de A Bridge To Far não deixa de ser vistoso, a verdade é que é também profundamente comovente, até no modo como nos mostra que os Midlake investiram muito de si próprios e da sua exposição pessoal perante o mediático, naquele que é o conteúdo do registo. Essa coragem, geralmente universalmente incompreensível, é sempre de realçar e de elogiar e ainda mais quando acontece de modo tão deslumbrante e bonito.
3 - Dumbo Gets Mad - Five Eggs
Five Eggs é uma elegante e bem sucedida viagem sonora, que nos proporciona, em pouco mais de trinta minutos, uma espetacular e efusiante trip psicadélica de elevado calibre e verdadeiramente narcótica para quem se deixar levar por uma doutrina que se serve de guitarras, acústicas ou eletrificadas e de sintetizadores inspirados para, com uma ímpar teatralidade e uma inimitável versatilidade estilística, criar grandiosas canções que versam sobre algumas dicotomias que, no fundo, regem a nossa existência mais metafísica. É um disco compacto, mas multifacetado, solidificando a habitual estratégia de Luca Bergomi de construir alinhamentos de vários temas que funcionem como uma espécie de tratado de natureza hermética, onde esse bloco de composições não é mais do que partes de uma só canção de enormes proporções, porque é esse o efeito que este disco de certa forma transmite.
2 - Jeff Tweedy - Twilight Override
Triplo álbum, Twilight Override é um verdadeiro exercício exaustivo de megalomania, para ser escutado na íntegra, como um todo. Instrumentalmente heterogéneo, com momentos épicos e outros intimistas, tem como grande trunfo a força que emana de dentro de si, nomeadamente no modo como se debruça sobre as fragilidades e as potencialidades da nossa espécie, ou seja, sobre o conceito de humanidade, aquela humanidade que todos temos dentro de cada um de nós e como essa mesma humanidade conduz e determina a forma como nos relacionamos com o próximo e vivemos em comunidade. A partir daí, o amor acaba por ser o tema central do disco. Não apenas o amor sensual e que é vivido entre duas pessoas apaixonadas e que se relacionam emocional e fisicamente, mas também a compaixão, a amizade, a ternura e o apego que temos por aqueles que nos rodeiam e fazem parte da nossa vida. É, sonoramente, um impressivo e jubilante tratado folk, dominado, de alto a baixo, por timbres de cordas, muitas vezes particularmente estridentes, que abastecem a tal constante dicotomia entre sentimentos e confissões, não faltando também, algumas nuances mais eletrificadas e radiofónicas, sempre sem descurar a essência eminentemente reflexiva e sentimental da génese do catálogo do autor.
1 - Geese - Getting Killed
Caos e tensão são adjetivos que se ajustam às mil maravilhas aos Geese, uma banda de Nova Iorque pujante e, ao mesmo tempo íntima, contundente e simultaneamente emotiva. São o exemplo perfeito de como na música muitas vezes a ausência de regras estilísticas rigidas, de seguidismos ou de balizamentos é, também, uma boa fórmula para se chegar ao sucesso e à tão almejada perfeição. Getting Killed, o novo álbum do projeto, pode ser catalogado, de modo simplista, como um disco de indie rock, mas é claramente muito mais do que isso. Os seus quarenta e cinco minutos condensam, sem ordem definida e numa espécie de caos ordenado, world music, jazz, folk, rock, pop, R&B, grunge, garage, psicadelia, punk e tudo aquilo que mais quiseres colocar nesta listagem. Depois, qual cereja no topo do bolo, temos Cameron Winter, considerado já por muitos como um dos vocalistas mais carismáticos do cenário indie e alternativo atual. Se num segundo ele choca-te e instiga-te com um voz ensurdecedora e, imagine-se, algo desconfortável, pouco depois está a falar, de modo contundente, ao teu coração, sussurrando-te ao ouvido com o registo mais adoçicado que possas imaginar. Cheio de força e vigor criativo, timbres e dinâmicas, este quarteto nova iorquino mostra em Getting Killed que o sucesso e a felicidade no seio desta forma de arte chamada música, podem andar de mãos dadas, desde que se ponha de lado convenções e regras e se aposte numa fé inabalável no instinto e naquilo que ele nos pedir que seja feito no momento de criar e de desconstruir, porque aí, quando a realidade se dissolve, vale mesmo tudo.
Autoria e outros dados (tags, etc)
Dumbo Gets Mad - Five Eggs
Um dos grandes destaques discográficos de dois mil e vinte e cinco é, claramente, Five Eggs, o quinto registo de estúdio dos Dumbo Gets Mad, um projeto encabeçado desde dois mil e onze pelo cantor, compositor, produtor e designer de som italiano, Luca Bergomi. É um álbum com dez explosivas canções e que tem a chancela da Carosello Records.

Five Eggs é uma elegante e bem sucedida viagem sonora, que nos proporciona, em pouco mais de trinta minutos, uma espetacular e efusiante trip psicadélica de elevado calibre e verdadeiramente narcótica para quem se deixar levar por uma doutrina que se serve de guitarras, acústicas ou eletrificadas e de sintetizadores inspirados para, com uma ímpar teatralidade e uma inimitável versatilidade estilística, criar grandiosas canções que versam sobre algumas dicotomias que, no fundo, regem a nossa existência mais metafísica.
Logo na atmosfera surreal, nos coros femininos sensuais e no clima marcial e com travo bolero de Psychedelic Breakfast, fica dado o mote para o que aí vem, um naipe de canções com elevado grau criativo e cinematográfico e que, se acreditarmos na infalível redenção de todos os nossos medos através da música, nos ajudarão a navegar numa vida melhor e mais prazeirosa, independentemente de passar a ser menos ou mais pecaminosa.
O ritmo acelerado de Spizza, com alguns momentos de pausa e com uma atmosfera que proporciona uma sensação particularmente vintage, é outro momento inebriante de Five Eggs, com Pariah a mergulhar de cabeça em ritmos muito mais urbanos e em vibrações de rua, brincando com o funk e acomodando vozes que, se parecem querer embalar, com o seu travo rap, a verdade é que o efeito que provocam é eminentemente instigador.
Five Eggs prossegue e se Biscaglione aposta num ambiente eminentemente pop e algo hipnótico, através de uma batida densa e crescente, já Gossip Playground coloca todas as fichas num clima mais contemplativo, com o hip-hop a ser mais uma prova da abrangência que os Dumbo Gets Mad transportam no seu adn. Depois, a atmosfera intimista e algo onírica de Life Doesn't Mean Much To You, o psicadelismo pós punk de Spacesomething, as cascatas de sintetizações cósmicas que adornam It Really Doesn't Matter e o clima acolhedor e reconfortante de Ritorni, atestam, com astúcia e minúcia, o modo impactante como Five Eggs, um disco compacto, mas multifacetado, solidifica a habitual estratégia de Luca Bergomi de construir alinhamentos de vários temas que funcionem como uma espécie de tratado de natureza hermética, onde esse bloco de composições não é mais do que partes de uma só canção de enormes proporções, porque é esse o efeito que o disco de certa forma transmite. Espero que aprecies a sugestão...
Autoria e outros dados (tags, etc)
MIRANDA - Un_Love
Chegou no passado dia dezassete de outubro aos escaparates Un-Love, o disco de estreia do projeto MIRANDA, liderado pelo músico João P. Miranda, natural de Portalegre e que, para incubar este alinhamento de oito canções, contou com as inestimáveis contribuições vocais de Liliana Bernardo, Rita Rice e Cat Falcão.

Este álbum de estreia do projeto MIRANDA desenvolve-se a partir de uma questão essencial: é possível desamar ou apenas perder um amor? Essa ambiguidade percorre todo o disco feito de canções que se movem entre a dor do desencontro e a esperança luminosa do reencontro, mostrando que a melancolia pode conviver com a persistência e a beleza do amor. Mais do que um lamento, Un_Love assume a melancolia como um estado de alma, um fado contemporâneo em que a perda não apaga o sentimento, antes o transforma numa presença diferente: a memória, a saudade, a persistência do amor mesmo nas ruínas. Mas ao mesmo tempo, o álbum abre espaço para a esperança de voltar a amar — seja reencontrando o amor perdido, seja descobrindo um novo caminho onde a dor se converte em renovação. Musicalmente, o álbum veste estas emoções com orquestrações grandiosas, atmosferas cinematográficas e vozes sensíveis que dão corpo a essa contradição. Porque, no fundo, desamar pode ser impossível – podemos deixar alguém, mas raramente deixamos de carregar o rasto desse amor, e é dessa marca que também nasce a coragem de amar novamente.
O disco abre com A New Beginning, uma mensagem de união, esperança e reconstrução. É uma canção sobre a necessidade de recomeçar e fala do poder da empatia, da força que nasce quando duas pessoas escolhem caminhar juntas, mesmo em tempos de incerteza. Depois chega a vez de escutarmos Dreaming, uma canção profundamente pessoal e que reflete sobre uma relação vivida com alguém emocionalmente distante, frio e incapaz de ver a beleza e a profundidade do mundo. É o relato de um amor que existiu à superfície, onde o eu lírico tentava mergulhar enquanto o outro permanecia imóvel, alheio à intensidade do sentimento. A letra traduz esse contraste entre o sonho e a realidade, entre quem sente demais e quem não sente o suficiente. É, no fundo, o lamento de quem quis partilhar o infinito com alguém que só via o chão. É uma canção sobre a solidão que nasce mesmo dentro de um abraço, sobre a dor de perceber que nem todos têm a mesma capacidade de se maravilhar.
O disco prossegue e em Happiness, o autor explora pela primeira vez arranjos orquestrais e percussões sinfónicas que, aliados à emoção melódica e à densidade harmónica, acabam por definir e estética de grande parte do álbum. É uma música que respira em camadas, entre a força épica da orquestra e a intimidade das guitarras e vozes. Liricamente, Happiness é um retrato da contradição humana entre o desejo e a perda. Depois, I Wish oferece-nos o momento mais emocional e intenso do alinhamento; Aqui, o amor surge como tempestade, como força descontrolada que destrói e recria. A linguagem é simbólica e cheia de metáforas, debruçando-se sobre o desejo e a vulnerabilidade, sobre o impulso de querermos ser tocados por algo maior do que nós. Ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre o tempo, o esquecimento e a solidão.
Até ao ocaso do disco, Often a Bird é um hino à esperança que renasce das cinzas, falando de de resistência e de transformação. Save Your Soul, tema com uma cadência lenta, quase de marcha fúnebre, cria uma atmosfera densa e ritualística, fala da possibilidade de renascer, de libertar o espírito, de salvar a alma mesmo quando tudo parece perdido. Tear Us Apart mergulha nas ruínas do amor. É uma canção dura, visceral e honesta, que fala sobre o fim e sobre a dor que fica quando as palavras deixam de fazer sentido. Finalmente, When the Night Comes é um lamento e uma oração, um diálogo entre a dor e a memória. Fala de perda, de amor distante, de uma procura espiritual que se estende pela noite. O narrador vagueia por florestas e colinas, entre ecos e sombras, tentando reencontrar a figura amada, que se tornou símbolo de tudo o que se perde mas continua a viver dentro de nós. Espero que aprecies a sugestão...
Autoria e outros dados (tags, etc)
Jens Lekman – Songs For Other People’s Weddings
Oito anos depois do espetacular disco Life Will See You Now, o músico e compositor sueco Jens Lekman está de volta às luzes da ribalta com o sucessor, um alinhamento de dezassete canções intitulado Songs for Other People’s Weddings, que viu a luz do dia com a chancela da Secretly Canadian.

Intenso e sincero, Jens Lekman oferece-nos neste seu novo disco uma experiência sonora autobiográfica, que tem um lado extravagante muito interessante, que vamos, entretanto, dissecar. Para já, importa dizer que este seu novo catálogo de canções quase que merece ser saboreado como um daqueles bolos de noiva deliciosos, com a sua massa empilhada com as mais sumptuosas coberturas orquestrais que possas imaginar, acrescentando, no fim, generosas porções de doçura, que podem muito ser encarnadas na voz única do autor, que tanto pode soar descaradamente tagarela, como subtilmente sedutora.
Se o amor foi sempre o chamariz do catálogo sonoro do sueco, então Songs for Other People’s Weddings atinge o seu âmago dessa filosofia interpretativa, num disco que teve a sua génese há cerca de vinte anos quando o artista começou a tocar em casamentos e incluiu no seu trabalho de estreia um tema intitulado If You Ever Need a Stranger (To Sing at Your Wedding), o mesmo título de um livro assinado pelo autor David Levithan, com quem trocou correspondência sobre essa temática. Essa obra foi escrita por Levithan também em dois mil e seis e conta a história de um um cantor de casamentos fictício, mas bastante conhecido.
Neste trabalho, em vez de apenas gravar as músicas que compôs para o livro, Lekman foi mais longe, explorando os pontos de vista das personagens, para criar um verdadeiro musical, com dezassete canções intensas e que exalam uma euforia indescrítivel, que é para ser ouvida em cerca de oitenta minutos sem pausas ou cortes, para poder ser devidamente apreciado.
A história das canções, o dito musical, acompanha o arco do romance entre J, o alter ego de Lekman, e V. Conhecem-se num casamento onde todos os convidados estão vestidos como músicas e depois de tomarem um comprimido com sabor a laca, entregam-se à ligação lúdica que definirá a sua intimidade. Trata-se de estar apaixonado e, ao mesmo tempo, ser um observador externo do amor, participante e espectador, uma divisão que esbate a linha entre a vida e a música, algo que Lekman adora fazer. Quando V se muda para o estrangeiro, em busca de espaço, J começa a agendar concertos apenas para estar perto dela. Ao longo da obra, V é interpretada com mestria por Matilda Sargren, que Lekman recrutou através de uma orquestra jovem na sua cidade natal. V tem a última palavra sobre a relação de ambos, e J aprende que o propósito da sua música não é aprisionar a permanência, mas celebrar a ligação, por mais fugaz que seja.
A música deste álbum tem tantas nuances como o amor; ora leve e irreprimível, ora vibrante com uma carga erótica, ora hesitante ou questionador, aconchegante ou desolador. Os duetos desdobram-se em monólogos; o que era alegre regressa, pouco depois, como profundo. A narrativa de Lekman é excecionalmente detalhada e engraçada e o seu alter ego de cantor de casamentos proporciona-lhe um coro de personagens e ambientes cativantes para tecer uma dinâmica contínua e a constante evolução da relação entre J e V.
Assim, em GOT-JFK, por exemplo, enquanto se relatam eventos num casamento em Brooklyn, com subtil delicadeza, em The First Lovesong a voz de Lekman começa surpreendentemente grave e rouca, mas depois escutamos um refrão primorosamente arrebatador. Já Candy From a Stranger exala e pulsa como um perfume caro numa pista de dança quente, enquanto Speak to Me in Music exala a atmosfera de um bar de cocktails dos anos oitenta. Há tiques de INXS em With You I Can Hear My Own Voice, de Tori Amos com um toque de gospel em I Want to Want You Again, um electro-funk à la Prince em Wedding in Brooklyn e traços de Beach Boys em For Skye. Os momentos mais comoventes do alinhamento são frequentemente banhados pela transmissão de que amar é a mais pura alegria de viver, especialmente no hino trance On a Pier, on the Hudson.
Em suma, é apropriado recordar que Songs for Other People’s Weddings tenha surgido de uma troca de correspondência, já que o seu conteúdo tem essa forma e esse efeito algo epistolar e comunicativo. Cada canção é como uma carta que recolhe e transmite uma história única que Lekman recolheu e depois nos devolve de modo mais floreado, brilhante, inteligente, carinhoso e mais perspicaz. O amor é um espetáculo! Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)
Midlake - A Bridge To Far
Três anos depois do excelente registo For the Sake of Bethel Woods, os norte-americanos Midlake de Eric Pulido estão de regresso ao formato longa duração com um disco intitulado A Bridge to Far, o sexto da carreira, que acaba de ver a luz do dia com a chancela do consórcio Believe / Bella Union e que conta com várias participações especiais, nomeadamente Madison Cunningham, Hannah Cohen e Meg Lui.

Com um alinhamento de dez canções e produzido por Sam Evian, A Bridge To Far reclama, com firmeza, o posicionamento dos seus autores num lugar de relevo do panorama indie e alternativo, nomeadamente naquele espetro sonoro que aposta na riqueza dos detalhes e na sapiência melódica, como traves mestras do processo criativo. De facto, os Midlake sempre tiveram esta apetência para a criação de canções aprazíveis e reluzentes e que, simultaneamente, contendo sempre um elevado grau de acessibilidade, mostrassem o elevado grau de refinamento.
A típica folk norte-americana, feita de cordas reluzentes e com aquele timbre metálico ecoante tão caraterístico, sempre fizeram parte do cardápio da banda e, logo a abrir o disco, a impetuosa Days Gone By plasma praticamente todas as caraterísticas acima descritas, com alguns arranjos de origem sintética a ofereceram ao tema o tal clima intrincado e rico que os Midlake tanto apreciam. Logo a seguir, no tema homónimo, temos um olhar mais contemplativo e, ao mesmo tempo, envolvente, numa canção em que cordas e bateria se entrelaçam com minúcia, convidando as vozes a entrarem numa dança sonora em que elas e os instrumentos foram criativamente coreografados e corresponderam ao milímetro a esse apelo.
Depois de tão auspicioso início, A Bridge To Far, um álbum que se debruça sobre temas tão díspares como o estoicismo, a esperança perante a adversidade e a humildade imposta pelos acontecimentos da vida, entra em alta rotação com The Ghouls, uma composição vibrante e imponente, orquestralmente rica e diversificada, introduzida por um sólido piano e depois conduzida por um registo percurssivo frenético que acama cordas e teclados, num resultado final muito charmoso, emotivo e com um delicioso travo psicadélico.
De seguida, Guardians coloca-nos de novo na senda de uma folk psicadélica bastante evocativa e detalhisticamente rica, com o piano, alguns sopros, uma bateria de forte travo jazzístico e uma viola dedilhada com minúcia, a criarem um dos momentos mais intimistas de um alinhamento que encontra, logo depois, no piano insinuante e no baixo encorpado que sustentam o jazz espacial de Make Haste, o verdadeiro âmago de quase quarenta minutos recheados de canções soberbas no modo como suportam, sem receio, ténues e quase indefinidas fronteiras entre delicadeza e epicidade, muitas vezes numa mesma composição.
Eyes Full Of Animal, um tema que vai crescendo em arrojo e emotividade, mostra bem essa faceta de A Bridge to Far em que a ostentação sonora não é feita gratuitamente, mas de modo bastante calculado. Esta canção tem no balanço quase hipnótico da bateria o sustento perfeito para uma acomodação quase indecifrável de uma diversidade instrumental que é, sem uma audição muito atenta, praticamente impossível de nomear na sua totalidade.
Até ao ocaso de A Bridge To Far, os saxofones vigorosos de The Calling, uma inesperada explosão de cores e de sentimentos, a curiosa abordagem que é feita à eletrónica de cariz mais ambiental em Within/Without, outra composição que impressiona pelo modo como os sons se sobrepôem em subtis camadas e o clima onírico e pastoral da encorajadora The Valley Of Roseless Thorns são outros momentos altos de um álbum sólido, com um ritmo bastante natural do início ao fim e bastante espontâneo e quente, principalmente no modo como exala uma dinâmica muito singular e, em simultâneo, uma forte e marcante faceta emocional.
Em suma, se o resultado final de A Bridge To Far não deixa de ser vistoso, a verdade é que é também profundamente comovente, até no modo como nos mostra que os Midlake investiram muito de si próprios e da sua exposição pessoal perante o mediático, naquele que é o conteúdo do registo. Essa coragem, geralmente universalmente incompreensível, é sempre de realçar e de elogiar e ainda mais quando acontece de modo tão deslumbrante e bonito. Espero que aprecies a sugestão...
Autoria e outros dados (tags, etc)
Damien Jurado – Private Hospital
O norte-americano Damien Jurado atravessa, claramente, desde há algum tempo para cá, uma das fases mais profícuas da sua já longa carreira. Depois de na primavera de dois mil e vinte e um ter editado o excelente registo The Monster Who Hated Pennsylvania, regressou, no verão do ano seguinte, com um novo disco também monstruoso, intitulado Reggae Film Star e em dois mil e vinte e três lançou Sometimes You Hurt The Ones You Hate, o décimo nono registo de originais deste músico e compositor natural de Seattle, um trabalho que, como é habitual neste artista, teve a chancela da Maraqopa Records, a sua própria etiqueta.

Agora, exatamente dois anos depois, Damien Jurado está de regresso com um novo compêndio de originais intitulado Private Hospital, uma coleção de onze músicas produzidas pelo próprio e que, contando com as contribuições especiais de Lacey Brown, Aura Ruddell, Zach Alva e Stevan Alva, proporcionam-nos, em pouco mais de trinta e dois minutos, um novo festim de indie pop rock luxuriante e vibrante, caraterísticas bem patentes logo em Celia Weston, o tema de abertura, um tratado de epicidade rugoso e simultaneamente luminoso, que disserta, com sagaz ironia e requinte, sobre o inevitável fim da nossa passagem por esta vida terrena.
Depois de tão imponente abertura, Private Hospital segue a todo o vapor no clima algo psicadélico e tremendamente cinematográfico de Here In The States, uma canção que crítica severamente o caos económico e social em que, na perspetiva do próprio, está mergulhado o país de origem de Jurado, evidenciando, desse modo, uma habitual faceta deste músico, relacionada com a crítica social, sempre sustentada por pontos de vista algo mordazes, mas certeiros e, muitas vezes, encarnados com uma elevada dose de ironia, como é uma vez mais o caso.
O clima mais soturno e ambiental de Hey Pauline, representa, com notável riqueza estilística, as mais recentes experimentações que Jurado, também um mestre da folk, tem colocado em prática, através de instrumentos que habitualmente só fazem parte do cardápio de quem se dedica a criar uma pop de cariz mais sintético. De facto, uma das grandes virtudes de Jurado tem sido, ultimamente, a capacidade de se adaptar aos novos desenvolvimentos tecnológicos e de alargar o seu cardápio instrumental na hora de entrar em estúdio, sem colocar em causa o adn essencial do seu catálogo. O piano eletrónico de forte travo cósmico que conduz Heaven's a Drag é outro exemplo prático desse modus operandi, em que os sintetizadores têm a primazia, mesmo que sejam depois afagados por alguns entalhes percussivos e pelo registo vocal ecoante adocicado de Jurado, num resultado final algo contemplativo.
Private Hospital prossegue em grande estilo em Howard Morton e na robustez de uma batida que sustenta um tema repleto de faustosos arranjos instrumentais, em que cordas, sopros e metais, se vão revezando entre si no predomínio e na liderança da indução de emotividade e charme e altivez a uma composição que balança numa fronteira muito ténue entre o clássico, o retro e o futurista. Depois, Pictures On The Run é um oásis de intimidade com um ligeiro travo a tropicália, um detalhe bastante curioso, mesmo que um sintetizador algo rugoso seja o seu grande sustento sonoro. Já Vampira encontra na mestria de alguns entalhes sintéticos a base que exala um clima amiúde sinistro e inquietante, como é apanágio de uma composição que versa sobre aquilo que uma pessoa sente e faz quando está sobre o efeito de um feitiço inquebrável e não se consegue livrar do mesmo. Private Hospital chega ao seu ocaso em grande estilo, com Call Me, Madam, um tema de forte travo vintage, potenciado por um processo de gravação eminentemente analógico, que coloca as fichas num clima ligeiramente jazzístico.
Em suma, importa dizer, uma vez mais e em jeito de conclusão, que estas novas canções de Damien Jurado, editadas exclusivamente em formato físico de livro, além do digital, sendo, como já vimos, instrumentalmente fartas e filosoficamente tocantes, comunicam com o nosso âmago, através de uma forma de compôr que, algures entre a penumbra e a luz e com uma sofisticação muito própria, é incubada por um dos maiores cantautores e filósofos do nosso tempo, um artista sem paralelo no panorama da indie folk contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)
The Lemonheads - Love Chant
Quase duas décadas depois de um disco homónimo, os The Lemonheads de Evan Dando estão de regresso ao mesmo formato à boleia de Love Chant, um álbum que viu a luz do dia no início recentemente e que nos faz voltar a sentir aquele clima tão caraterístico, que o cenário indie norte-americano replicou com pujança nos anos noventa do século passado.

Disco produzido pelo brasileiro Apollo Nove e que resultou de um aturado processo de escrita, composição e maturação, algo bem patente na linha temporal longa que baliza o lançamento de vários dos seus temas em formato single, Love Chant é uma confirmação do elevado grau de astúcia e criatividade, assinado por Evan Dando, a grande força motriz dos The Lemoheads, um músico que é, sem sombra de dúvida, um dos nomes mais relevantes do indie rock das últimas quatro décadas e que, neste rgisto, teve a inestimável ajuda de nomes tão relevantes como J Mascis, líder dos Dinosaur Jr, Juliana Hatfield, Tom Morgan, Bryce Goggin, Erin Rae, John Strohm, Nick Saloman e Adam Green, dos The Moldy Peaches.
Uma das grandes qualidades dos The Lemonheads foi sempre o enorme sentido melódico das suas canções, mesmo que o ruído e a aspereza fizessem parte do cardápio instrumental das mesmas. Em Love Chant, disco gravado no Brasil, essa virtude continua bem presente, ampliada pelo elevado grau de heterogeneidade de pouco mais de trinta e cinco minutos que nos levam facilmente e num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, à boleia de uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, particularmente luminoso e que acaba por se tornar até viciante, tal é a sua frescura e a proximidade que estabelece com o ouvinte.
Assim, e olhando para alguns dos grandes momentos do álbum, se em Deep End a banda de Boston oferece-nos um espetacular tratado de indie punk rock, com guitarras exemplarmente eletrificadas e repletas de distorções abrasivas e um baixo e uma bateria arritmados, mas exemplarmente coordenados, a sustentarem uma composição, onde não faltam solos inebriantes e aquele notável espírito garageiro que nos marcou a todos há cerca de três décadas, já em The Key Of Victory, o projeto dá uma guinada completa em quase quatro minutos íntimos e introspetivos, gravados nos míticos estúdios Abbey Road, em Londres e que nos oferecem um portento de acusticidade, em que cordas dedilhadas com astúcia, curiosamente por Apollo Nove e diversos arranjos etéreos, tocados por Erin Rae, oferecem-nos uma peça sonora leve, luminosa e profundamente bela. Pelo meio, a garageira e abrasiva In The Margin proporcionam-nos aquele inconfundível travo grunge que todos conhecemos, através de guitarras encharcadas em fuzz e um registo percussivo frenético, nuances que não deixam de ser também uma das matrizes essenciais do ADN dos The Lemonheads, sempre abertos a novas descobertas e paisagens sonoras. Pelo meio, outro grande momento de Love Chant é a aspera, seca, contundente e também abrasiva Togetherness Is All I'm After, canção que condensa, uma vez mais, alguns dos melhores ingredientes daquele rock alternativo e garageiro, que marcou a juventude da minha geração, mas fá-lo com uma destreza melódica superior e com uma curiosa tonalidade psicadélica. A voz adocicada de Evan Dando, quer neste tema, quer nos restantes, diga-se, acaba por ser o ponto de equilíbrio de toda uma estética sonora muito própria e que acaba por ir ao encontro de um louvável intuíto de nos fazer viajar no tempo e entregar-nos o que queremos ouvir, um disco caseiro e pleno de contemporaneidade, mas também perfumado pela melhor herança do passado.
Em Love Chant não deslumbra apenas a versatilidade instrumental e performativa dos intervenientes, mas também, muitas vezes, o balanço perfeito entre o vigor e a delicadeza dos arranjos, dominados quase sempre pelas cordas, mas, principalmente, pelo tom emocional e profundamente melódico das canções, que plasmam uma evidente maturidade musical de um projeto que ainda se quer mostrar relevante, interventivo e inventivo, através de um dos melhores exemplares de indie rock do ano. Espero que aprecies a sugestão...
Autoria e outros dados (tags, etc)
Noiserv - 7305
Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional e um dos artistas queridos da nossa redação chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na sua bagagem um já volumoso compêndio de canções, que começaram a ser inscritas nos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless e Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's There. No outono de dois mil e dezasseis a carreira do músico ganhou um novo impulso com um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas que se tornou, justificadamente, mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional.
![New album] Noiserv – 7305](https://www.ecletismomusical.pt/wp-content/uploads/2025/10/566652850_18530072977008967_4753987768617290443_n-e1760687494832.jpg)
Quatro anos depois dessa pérola debitada quase integralmente nas teclas de um piano, Noiserv regressou com Uma Palavra Começada Por N, onze lindíssimas composições que, em pouco mais de meia hora, nos ofereceram um David Santos de regresso a territórios sonoros mais intrincados, subtis e diversificados, com o registo, no seu todo, a proporcionar-nos um banquete intenso e criativo e a impressionar pelo modo como diferentes nuances, detalhes e samples se entrelaçavam quase sempre com uma base melódica algo hipnótica, mas extremamente doce e colorida.
Agora, cinco anos depois de Uma Palavra Começada Por N, Noiserv tem um disco novo intitulado 7305, que além do notável avanço que o mesmo expressa relativamente à performance do autor, quer como poeta, quer como escritor, também aprimora ainda mais a sua já mítica versatilidade instrumental que, neste caso, teve a mira particularmente apontada a territórios mais sintéticos e eletrónicos, mas sem nunca descurar a presença, nomeadamente ao nível dos arranjos, de alguma instrumentação mais orgânica e acústica, não só ao nível das cordas, irrepreensiveis logo a abrir o alinhamento, na pueril melancolia psicadélica de 20.05. a self conversation is too loud for an empty room, mas também com o uso efetivo e marcante de sopros e de alguns elementos percurssivos.
O quotidiano que todos os dias nos atinge, que assola todos nós, sem exceção, que nos faz viver em permanente sobressalto, não só no que concerne ao cumprimento integral das nossas rotinas e horários, mas também, em paralelo, à convivência permanente com os nossos maiores medos, angústias, sobressaltos e falhas, mas também sonhos, desejos e aspirações, parece ser o grande mote concetual de 7305, tendo em conta a inteprretação que a nossa redação fez após a audição do registo. No entanto, esclarece-se, desde já, que é apenas uma interpretação nossa e que aquilo que o David idealizou para 7305 pode ser algo completamente diferente da nossa interpretação. No fundo é esta a magia da música; deixar que o ouvinte dela se aproprie e lhe dê o melhor uso pessoal e retire os ensinamentos e a inspiração que, num determinado momento, mais o reconforte. E, de facto, a música de Noiserv sempre teve este poder soporífero, esta capacidade de tocar o ouvinte mais dedicado e o fazer refletir sobre si próprio, a sua vida e os seus caminhos, aconselhado por um músico que também é um ser humano igual a nós, com alegrias, aspirações e medos e inquietações certamente parecidas ou semelhantes.
Um bom exemplo que justifica toda esta reflexão inicial acerca do conteúdo de 7305 é 20 . 13 . A lonely garden in the middle of a small house, uma composição cantada em inglês e que versa sobre a solidão e o desejo de encontrar explicações racionais nos momentos em que interiormente nos sentimos mais perdidos. Sonoramente, é uma canção muito complexa, porque se desenvolve dentro de uma ambientação essencialmente experimental, em que o sintético se entrelaça com o orgânico abrasivo das cordas, com elevada mestria. Depois, 20 . 25 . Resumidamente, uma canção cantada em português, amplia essa faceta comunicativa, fazendo, de acordo com o próprio Noiserv, um retrato do homem atual com ironia, poesia e alguma crítica, através de uma letra em que praticamente todas as palavras terminam em mente tende a reforçar o lugar de engano a que a nossa sociedade nos está a conduzir, uma completa troca de valores sobre o que é ou não importante na relação com o outro.
O registo prossegue e 20 . 08 . A Fearless Party Between A Kid And His Own Thoughts, a canção mais intimista e orgânica de todas as composições do disco, leva-nos, de certa forma, às origens da carreira de Noiserv, com uma melodia simples, mas sentida, a assentar num rendilhado sublime entre detalhes sintéticos e cordas dedilhadas com astúcia, sopros pueris e diversos entalhes percurssivos eminentemente metálicos, num resultado final intenso e sentimentalmente exuberante. Depois, 20 . 27 . A Long Journey In A Little Train To Poland, uma canção vigorosa e, a espaços, até algo abrasiva e com uma imponência muito subtil, mas óbvia, impressiona pela clemência e pelo detalhe, nuances que também transparecem no perfil interpretativo vocal do artista, mais intenso e processado do que o habitual.
Outro momento notável do registo é, sem dúvida, 20 . 16 . A Casa Das Rodas Quadradas, canção que se debruça sobre a dor subjacente aos momentos de mudança e que conta com a participação especial de Milhanas. O tema impressiona pela sua delicadeza e intimidade, imagens de marca de grande parte da carreira de Noiserv, que apostou com bastante frequência nas teclas de um piano para criar as suas melodias, fazendo-o aqui novamente e com um bom gosto indesmentível. O resultado final é bastante impressivo e comunicativo, envolvente e tocante, ampliado pela extraordinária dança protagonizada pelas vozes de Milhanas e Noiserv.
7305 é, em suma, um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcança, no seu todo, laivos de excelência que, como já foi referido, alargam os horizontes sonoros do autor e o arco concetual estilístico do seu catálogo, com superior mestria. Ao longo de pouco mais de trinta e dois minutos estabelece pontes entre aquilo que é definido como o orgânico e acústico e o sintético, através de um manancial de ligações de fios e transistores que debitam um infinito catálogo de sons e díspares referências, únicas no cenário alternativo nacional e que também exalam um intenso charme, induzido por uma filosofia interpretativa que, mesmo tendo por trás um cada vez mais diversificado arsenal instrumental, nunca abandona aquele travo minimalista, pueril, orgânico e meditativo que carateriza o modus operandi deste músico único. Espero que aprecies a sugestão...
Autoria e outros dados (tags, etc)
Geese - Getting Killed
Caos e tensão são adjetivos que se ajustam às mil maravilhas aos Geese, uma banda de Nova Iorque que teve a sua génese há quase uma década no profícuo e efervescente bairro de Brooklyn e que é atualmente formada por Cameron Winter, Emily Green, Dominic DiGesu e Max Bassin, quarteto ao qual se junta o teclista Sam Revaz, quando o projeto toca ao vivo. Estrearam-se nos discos já esta década, em dois mil e vinte e um, com o registo Projector, ao qual se sucedeu 3D Country dois anos depois e agora, há poucos dias, Getting Killed, um alinhamento de onze canções produzidas por Kenneth Blume e que têm a chancela da Partisan Recordings.
Pujantes e, ao mesmo tempo íntimos, contundentes e simultaneamente emotivos, os Geese são o exemplo perfeito de como na música muitas vezes a ausência de regras estilísticas rigidas, de seguidismos ou de balizamentos é, também, uma boa fórmula para se chegar ao sucesso e à tão almejada perfeição. Getting Killed, o novo álbum do quarteto, pode ser catalogado, de modo simplista, como um disco de indie rock, mas é claramente muito mais do que isso. Os seus quarenta e cinco minutos condensam, sem ordem definida e numa espécie de caos ordenado, world music, jazz, folk, rock, pop, R&B, grunge, garage, psicadelia, punk e tudo aquilo que mais quiseres colocar nesta listagem. Depois, qual cereja no topo do bolo, temos Cameron Winter, considerado já por muitos como um dos vocalistas mais carismáticos do cenário indie e alternativo atual. Se num segundo ele choca-te e instiga-te com um voz ensurdecedora e, imagine-se, algo desconfortável, pouco depois está a falar, de modo contundente, ao teu coração, sussurrando-te ao ouvido com o registo mais adoçicado que possas imaginar. Pelo meio, captando a nossa atenção frequentemente de uma forma pouco convencional e até algo chocante, mantém uma performance algo arrastada, mas sempre tensa, atributos que ampliam ainda mais o modo bem sucedido como ele comunica connosco, mesmo que a disposição para o escutar não esteja nos píncaros.
Começa-se a escutar Trinidad, o tema que abre Getting Killed e, numa espécie de alegoria aquele jazz da primeira metade do século passado, percebe-se logo a cadência e o travo de um perfil sonoro ansioso, fragmentado e descontrolado, aspetos que vão ser transversais a todo o disco, independentemente do perfil interpretativo selecionado para cada composição, que explora sempre um som vibrante e que parece estar permanentemente a querer fugir ao típico arquétipo estrutural do formato canção, na sua forma mais pura e natural.
Feitas as apresentações, logo a seguir Cobra escancara, de par em par, as janelas da nossa alma para a contemplação de uma pop lisérgica e luminosa, com Husbands a colocar as fichas num perfil mais minimal e eletrónico, mas nem por isso menos abundante em detalhes, tiques e nuances, geralmente percussivas, que nos mantêm permanentemente alerta relativamente ao rumo que a canção possa levar.
Getting Killed prossegue em grande estilo e 100 Horses é outro exemplo feliz desta filosofia interpretativa musculada e quase irreal, em que os instrumentos frequentemente se confundem e mal se distinguem, deixando-nos sempre em absoluto suspense; No travo funk da composição saboreia-se um arsenal instrumental que tem na rugosidade do baixo e na aspereza das guitarras, elementos decisivos na indução de extase a uma canção de elevado pendor lisérgico. Antes, já o ímpeto vibrante do tema homónimo e o modo como as cordas crescem em intensidade e astúcia em Islands Of Men, tinham-nos mostrado que as guitarras são também uma arma de arremesso essencial do disco e que a guitarrista Emily Green e o baixista Dominic DiGesu são peças vitais no seu movimento sinuoso que, por incrível que Às vezes possa parecer, nunca resvala nem se despista.
Até ao ocaso de Getting Killed, o refrão gospel e a alegria contagiante de Half Real, uma belíssima canção de amor e o hino Taxes, um tema que tem tudo para se tornar numa das melhores canções do século XXI, são outros instantes impressivos de um disco cheio de reviravoltas e imprevistos, que escapa constantemente às expetativas que sobre ele se possam colocar e que parece saciar uma curiosidade inquieta e indomável que os Geese sentiram de explorar o máximo possível o potencial criativo que neles existe e o arsenal intrumental que dispôem.
Num dos discos do ano, cheio de força e vigor criativo, timbres e dinâmicas, este quarteto nova iorquino mostra que o sucesso e a felicidade no seio desta forma de arte chamada música, podem andar de mãos dadas, desde que se ponha de lado convenções e regras e se aposte numa fé inabalável no instinto e naquilo que ele nos pedir que seja feito no momento de criar e de desconstruir, porque aí, quando a realidade se dissolve, vale mesmo tudo. Espero que aprecies a sugestão...