Domingo, 5 de Abril de 2020

Born Ruffians – Juice

Os Born Ruffians de Luke Lalonde, Mitch DeRosier e Steve Hamelin provam estar no momento maior de forma de uma já irrepreensível e astuta carreira de quinze anos, uma evidência assente nas nove canções de Juice, o sexto e novo disco deste projeto canadiano que é atualmente abrigado pela Yep Roc Records em parceria com a Paper Bag Records.

Born Ruffians "Breathe" one last time before the drop of their new ...

Juice sucede ao aclamado registo Uncle, Duke & The Chief de dois mil e dezoito e em quase meia hora proporciona-nos um indie rock vibrante, afoito e jovial, muito também devido ao excelente trabalho de produção de Graham Walsh, que foi fundamental para o eclodir de um som polido e confiante e com fortes reminiscências no período mais aúreo daquele experimentalismo setentista que tanto dava enorme ênfase ao vigor das cordas, como à opção por arsenais instrumentais de proveniências menos orgânicas.

Os três temas que abrem o disco,  a majestosa e inebriante secção de sopros e a frenética percurssão de I Fall In Love Every Night, a ferocidade tribal de Breathe e a aspereza punk de Dedication, assumem, desde logo, esse nobre papel de fiéis sustentáculos desta permissa revivalista plena de atitude e firmeza que tem um objetivo que, quanto a mim, me parece claro, a vontade de incendiar as hostes para que reflitam sobre a sua realidade pessoal e assumam de uma vez por todas as suas inquietudes e as combatam sem dó.

A delicadeza dos arranjos acústicos que brilham em Hey You, tema que conta com a participação especial de Maddy Wilde, são um curioso antagonismo entre um travo sonoro algo sobranceiro e contemplativo e uma mensagem efusiva, direta e que nada tem de difuso ou intuitivo. Aliás, a canção é, sonoramente, em termos de luminosidade pop, um oásis num alinhamento pleno de eletricidade e vibração, encontrando apenas paralelo na soul enevoada de Wavy Haze, composição que encerra um disco pleno de consistência, mas também de frescura e de uma multiplicidade de sabores, como se exige a um sumo suculento e revigorante. Espero que aprecies a sugestão...

Born Ruffians - Juice

01. I Fall in Love Every Night
02. Breathe
03. Dedication
04. The Poet (Can’t Jam)
05. I’m Fine
06. Hey You (Feat. Maddy Wilde)
07. Squeaky
08. Hazy Wave
09. Wavy Haze


autor stipe07 às 22:16
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Domingo, 29 de Março de 2020

Young Knives – Sheep Tick

Young Knives - Sheep Tick

Tendo iniciado a carreira discográfica com Voices Of Animals And Men e depois Superabundance, os Young Knives dos irmãos Henry e Thomas Dartnall, aos quais se juntou Oliver Askew, obtiveram rapidamente uma boa reputação e um interessante sucesso comercial de vendas. Depois, em dois mil e onze, com Ornaments From The Silver Arcade, chegaram ainda mais longe na divulgação da sua música, mudaram um pouco o seu som, dando-lhe uma componente mais soul, introduziram novos instrumentos no processo de gravação, contaram com o reputado produtor Nick Launay e alguns músicos, cantores e percussionistas e, através desse trabalho, plasmaram o gosto pelo experimentalismo e pela chamada música de dança. O resultado foi uma míriade de sonoridades, assentes no punk, mas com pinceladas de groove, house, soul, jazz e até alguma eletrónica.

O passo seguinte deu-se quase no ocaso de dois mil e treze, com um trabalho dinâmico e cheio de pequenas surpresas chama-do Sick Octave, álbum que na altura nos propôs uma viagem intensa por diversas sonoridades, climas, emoções e inspirações, um alinhamento de treze temas pensado e desenvolvido numa atmosfera de total liberdade criativa, lançado pelos Young Knives de modo independente, com os próprios recursos financeiros do grupo e sem reportar fosse a quem fosse o andamento do trabalho e o conteúdo sonoro do mesmo.

Depois deste excelente registo os Young Knives ficaram um pouco fora de cena, mas parecem dispostos a voltar a ribalta em dois mil e vinte com um novo trabalho discográfico, que será o quinto da carreira do projeto, uma intenção revelada juntamente com Sheep Tick, o primeiro single desse disco ainda sem nome revelado. A canção é um portento sonoro que mescla algumas das traves mestras da melhor pop contemporânea de raízes eminentemente sintéticas com o indie rock, comercial, pincelado com deliciosos detalhes típicos do punk e do krautrock, num resultado final claramente glorioso e que nos deixa de apetite aguçado para as próximas cenas deste espetacular acordar dos Young Knives. Confere...


autor stipe07 às 22:47
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Quarta-feira, 25 de Março de 2020

Grouplove – Healer

Terminou a espera e já viu a luz do dia o sucessor do excelente registo Big Mess que os norte-americanos Grouplove de Hannah Hooper e Christian Zucconi, editaram em dois mil e dezasseis. O novo registo dos Grouplove chama-se Healer e contém onze canções com a chancela da Canvasback, muito marcadas pelo problema de saúde que Hannah Hooper teve de enfrentar durante este interregno, já que foi diagnosticada com uma mal-formação no cérebro e teve de ser internada durante um longo período, suficiente para a fazer olhar para o mundo em redor e para a sua própria existência de um modo mais profundo e racional do que o habitual.

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Healer é, antes de mais e no seu todo, um portento de luz, cor e festa, um alinhamento que traduz na perfeição o sol da California que diariamente banha os Grouplove e que Dave Sitek (TV On The Radio, Yeah Yeah Yeahs, Weezer), produtor do registo, soube captar, aprimorar e burilar no seu estúdio em El Paso, no Texas. Logo em Deleter, em teclas abrasivas, linhas de guitarras estridentes e uma bateria extremamente rápida, fica plasmado uma espécie de grito de libertação de um período negro e uma abertura escancarada de portas para o interior de um alinhamento que quer proporcionar ânimo e positivismo, através de um modus operandi sonoro a instantes implacável e vigoroso, no modo como interpreta alguns dos cânones fundamentais do rock alternativo de cariz mais rugoso, como é o caso deste tema de abertura e, de um modo mais radiofónico The Great Unknown, mas que também dá espaço para instantes mais límpidos e melodicamente prazeirentos.

O eletrofunk oitocentista a que sabe Youth, o delicioso dedilhar da viola e o jogo de vozes intenso que sustenta Places ou o clima nostálgico sessentista do efeito ecoante que abastece a guitarra que conduz This Is Everything e, de um modo ainda mais retro cósmico Expectations, são outros quatro maravilhosos exemplos desta feliz dicotomia entre indie rock cru e uma feliz sensibilidade pop, num disco com imensa carga emocional e que tem claramente a arte de separar muito bem a melancolia da severidade, tratando as diferentes fases sentimentais de uma qualquer existência de forma leve e elegante e colocando cada pârametro na dose perfeita. Espero que aprecies a sugestão...

Grouplove - Healer

01. Deleter
02. Inside Out
03. Expectations
04. The Great Unknown
05. Youth
06. Places
07. Promises
08. Ahead Of Myself
09. Hail To The Queen
10. Burial
11. This Is Everything


autor stipe07 às 21:06
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Sábado, 21 de Março de 2020

Baxter Dury – The Night Chancers

Três anos depois do excelente registo Prince of Tears, o irascível Baxter Dury, filho do icónico Ian Dury, vocalista dos extintos Blockheads, uma das bandas mais importantes do cenário pós punk britânico, está de regresso com The Night Chancers, dez composições abrigadas pela Heavenly Records, produzidas pelo próprio Baxter com o apoio inestimável de Craig Silvey (Arcade Fire, John Grant, Arctic Monkeys) e gravadas nos estúdios Hoxa em West Hampstead, Londres, na primavera do ano passado.

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Sexto álbum da carreira de Dury, The Night Chancers aprimora a já habitual e bem sucedida fórmula interpretativa de um músico e compositor que se serve do rock, da pop e da eletrónica para alimentar a sua aúrea de exímio inquieto e provocador, assente em impressivas crónicas e relatos de experiências pessoais mais ou menos aventureiras, mas até comuns e ordinárias,que resultam numa enorme sátira e crítica à modernidade, tudo apimentado com aquele sarcástico humor típico de terras de Sua Majestade. 

Assim, num disco idealizado com superior requinte e ousadia, até porque Dury começa dizendo I’m not your fucking friend, se composições como a intrigante Slumlord, que nos faz divagar no regaço de uma guitarra planante, ou Carla's Got a Boyfriend, um lamento soul intenso, íntimo e sensual, protagonizado por alguém que acaba de descobrir que a ex tem outra pessoa (I spotted him on Instagram / Followed him about for a bit), são exemplos de canções que sobressaiem no modo como a gravidade vocal de alguém que se recusa a cantar e apenas declama, como se estivesse constantemente encharcado em álcool e numa manhã difícil depois de mais uma noite plena de aventura, é ampliada pela orgânica das cordas e pelo modo como alguns elementos percurssivos conjuram entre si para arquiteturar inquietude e mistério, já o baixo vigoroso e o sintetizador vintage de I'm Not Your Dog, a batida lenta mas indesmentivelmente hipnótica de Saliva Hog e, num registo mais clássico e chill, o monumental jogo de cintura constante, que o saxofone e a guitarra executam em Sleep People, com tremenda fluidez e incomparável bom gosto, aprisionam-nos nesse tal universo sujo, reacionário e até criminoso, mas de um modo bem mais sereno e contemplativo e, por isso, talvez ainda mais perigoso.

Em The Night Chancers, o spoken word Dury, na altivez dos seus quarenta e oito anos, assume que vive num período negro e algo conturbado da sua existência. Escuta-se o álbum e percebe-se facilmente que, para ele, todos aqueles que o rodeiam não são de confiança, incluindo o próprio, a vida resume-se ao hoje, ao aqui e ao agora. O dia a dia é vivido enclausurado entre quatro paredes de duvidosos quartos de hotel, tendo como única companhia os pensamentos obscuros pelos quais se deixa manipular mais vezes que o recomendável e as noites das quais restam, geralmente, vagas memórias, são, uma após outra, sem intermitências, nada serenas ou agradáveis. Refletir sobre toda esta trama musicalmente e expô-la sem particular receio ou filtro, do modo que Baxter o faz, com crueza, despudor e até desprezo por quem se queira predispôr a ouvi-lo e ajudá-lo, pode não ser um exercício de exorcização minimamente eficaz, mas é um facto que artisticamente resulta, até porque, se calhar são mais do que se pensa aqueles que se podem sentir realmente identificados com toda esta narrativa de vida tão peculiar e realista e que, se todos refletirmos sem medo, espelha aquilo que é a verdade de tantos hoje, na dita sociedade ocidental contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Baxter Dury - The Night Chancers

01. I’m Not Your Dog
02. Slumlord
03. Saliva Hog
04. Samurai
05. Sleep People
06. Carla’s Got A Boyfriend
07. The Night Chancers
08. Hello, I’m Sorry
09. Daylight
10. Say Nothing

 


autor stipe07 às 21:48
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Quarta-feira, 18 de Março de 2020

Deap Lips - Deap Lips

Uma das colaborações mais inusitadas do universo sonoro indie e alternativo é a que junta o projeto californiano Deap Vally, da dupla Lindsey Troy e Julie Edwards aos The Flaming Lips de Wayne Coyne e Steven Drozd, banda de Oklahoma que há quase três décadas gravita em torno de diferentes conceitos sonoros e diversas esferas musicais e que se reinventa constantemente. O resultado final da equação chama-se Dead Lips e já se materializou com um disco homónimo, um cardápio de dez canções que fundem com elevado grau criativo o universo psicadelico unicorniano dos The Flaming Lips e o rock puro e simples das Deap Vally.

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Não é novidade os The Flaming Lips darem as mãos a outros nomes importantes da pop contemporânea, quase sempre projetos ou artistas nos antípodas da esfera sonora em que a banda de Coyne gravita. Miley Cyrus ou Justin Timberlake, são apenas dois dos exemplos mais conhecidos dessa evidência, mas o objeto deste artigo, intitulado Dead Lips, parece-me ser o mais feliz e bem conseguido, de todas as interseções sonoras que a banda de Oklahoma efetuou com outros nomes fundamentais da música atual.

Escutar Dead Lips é, de facto, um verdadeiro festim, tal é o manancial de nuances, detalhes, estilos ou tendências que as canções do álbum contêm e que se escutam de um só travo, como se fossem uma sinfonia única, até porque estão interligadas entre si, sem pausas, com as melodias a saltarem para o tema seguinte, sem pedirem licença e a espraiarem-se lentamente enquanto o arquétipo fundamental da composição seguinte encarreira e segue o seu curso normal. É, no seu todo, uma heterogeneidade ímpar, única e intensa, mas que entronca num pilar fundamental, a indie pop etérea e psicadélica, de natureza eminentemente hermética, impressão que deve muito ao virtuosismo interpretativo de Lindsey Troy na guitarra, assumindo também ela as rédeas vocais do registo.

Mas não se pense que por Coyne se ter mantido longe do microfone e por o exercício performativo dele e do colega Drozd se ter baseado essencialmente no campo do sintético, que o travo dos The Flaming Lips é escasso ou acessório. A impressão é exatamente a contrária. Qualquer seguidor da carreira do grupo de Oklahoma, logo em Home Thru Hell, se não soubesse a origem da canção, imediatamente iria perceber que os The Flaming Lips fazem parte dos créditos do tema. Nesse tema e, mais adiante, em Love Is A Mind Control, os flashes cósmicos e o timbre radiante das cordas que se cruzam com a rispidez da guitarra, em ambos os temas, só poderiam ter uma origem e, a partir daí, a luminosidade folk sessentista e borbulhante de Hope Hell High, a hipnótica subtileza de One Thousand Sisters with Aluminum Foil Calculators e, com um pouco mais de groove, de Wandering Witches, a cativante cândura de Shit Talkin, o clima corrosivo e incisivo de Motherfuckers Got to Go ou a ecoante psicadelia repleta de reverb de Wandering Witches, sem descurarem um lado íntimo e resguardado, oferecem, em toda a amálgama e heterogeneidade que incorporam, um inegável charme, firme, definido e bastante apelativo, mas também insolente, algo selvático, rebelde e banhado numa indesmentível crueza. Atenção que esta tal insolência não é, em momento algum do disco, sinónimo de amálgama ou ruído intencional; Apesar do protagonismo melódico da guitarra de Lindsey, o constante enganador minimalismo eletrónico que trespassa os trinta e oito minutos de Deap Lips, prova o minucioso e matemático planeamento instrumental de um disco que contém um acabamento que gozou de uma clara liberdade e indulgência interpretativa e onde tudo se orientou com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do álbum um corpo único e indivisível, como já referi, e com vida própria, onde couberam todas as ferramentas e fórmulas necessárias para que a criação de algo verdadeiramente imponente e inédito no panorama alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:18
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Domingo, 15 de Março de 2020

Vundabar – Either Light

Oriundos de Boston, no Massachusetts, os Vundabar são uma dupla formada por Brandon Hagen e Drew McDonald e um caso sério no panorama alternativo da costa leste dos Estados Unidos da América. Algo desconhecidos do lado de cá do atlântico, têm, no entanto, já excelentes álbuns em carteira. A saga discográfica iniciou-se em dois mil e treze com o  registo Antics. Dois anos depois viu a luz do dia Gawk e, no dealbar de dois mil e dezoitoSmell Smoke, um trabalho que já tem sucessor pronto, um disco chamado Either Light, que acaba de chegar aos escaparates, através da Gawk Records e bastante inspirado pela personagem Tony Soprano, da série Os Sopranos, interpretada pelo malogrado ator James Gandolfini.

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De facto, estes Vundabar têm chamado a atenção da crítica e já foram alvo de algumas nomeações e artigos relevantes, mas a verdade é que nunca conseguiram fugir do universo mais underground e alternativo. No entanto, têm agora um trunfo de elevada valia paa chegarem à primeira divisão do indie rock, este trabalho intitulado Either Light, onze composições buriladas a guitarra, baixo e bateria,  com um travo festivo em que sobressai a luminosidade do timbre metálico das cordas e o já mítico ecoante efeito vocal dos Vundabar, ingredientes que conferem a este cardápio de canções uma indesmentível toada pop.

Logo a abrir, o baixo de Out Of It e o modo como se alia a variações rítmicas, um refrão intenso e um efeito de guitarra metálico condutor das base melódica, são detalhes cósmicos inebriantes que merecem, por si só, a audição deste álbum, numa composição que pisca o olho com languidez ao melhor cardápio da pop atual. Depois, o hipnotico frenesim de Burned Off, a delicadeza da oitocentista Codeine, o charme único de Petty Crime, uma curiosa ode strokiana e os arranjos envolventes e sofisticados da sensibilidade melódica muito aprazível de Easyer, composição que intercala uma excelente interpretação vocal de Hagen com um trabalho instrumental habilidoso da restante banda, nomeadamente a bateria e a guitarra, são instantes que impressionam pelo ambiente sonoro com um teor lo fi algo futurista, devido à distorção e à orgânica do ruído em que assentam, quer estas quer as outras canções do registo, onde não faltam alguns arranjos claramente jazzísticos e o tal falsete vocal num registo em falsete, com um certo reverb que acentua o charme rugoso da mesma.

Dicso repleto de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, Either Light envolve-se, no seu todo, por uma pulsão rítmica ímpar, sendo um álbum consistente, carregado de referências assertivas, que também impressiona pela cadência frenética em que assenta e que oscila entre o épico e o hipnótico, o lo-fi e o hi-fi, sendo, de certeza, um dos grandes lançamentos deste primeiro trimestre de dois mil e vinte. Espero que aprecies a sugestão...

Vundabar - Either Light

01. Out Of It
02. Burned Off
03. Codeine
04. Petty Crime
05. Easier
06. Never Call
07. Montage Music
08. Jester
09. Paid For
10. Other Flowers
11. Wax Face


autor stipe07 às 20:38
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Quinta-feira, 5 de Março de 2020

Real Estate - The Main Thing

Já viu a luz do dia e à boleia da Domino Records, The Main Thing, o quarto e novo registo de originais dos Real Estate, sucessor do excelente In Mind, editado em dois mil e dezassete e que estava repleto de canções feitas com guitarras levemente distorcidas e harmoniosas, banhadas pelo sol dos subúrbios, repletas de arranjos luminosos e com um certo toque psicadélico, nuances que ajudaram o projeto a assumir-se definitivamente como um dos mais interessantes e inovadores do cenário indie atual. Este The Main Thing é o primeiro disco do coletivo natural de Rodgewood, em Nova Jersey, sem a presença de Matt Mondanile, a contas com a justiça devido a várias acusações de abuso sexual. Mondanile foi substituido pelo multi-instrumentista Julian Lynch, que se junta a Martin Courtney, Alex Bleeker, Matt Kallman e Jackson Pollis, uma mudança na formação que não alterou decisivamente o som que típifica o adn dos Real Estate, mas que o aprimorou.

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Produzido pelo multi-instrumentista Kevin McMahon (Titus Andronicus, Swans, The Walkmen), The Main Thing é, claramente, o momento maior da catálogo discográfico de uma banda que teve sempre em ponto de mira bandas como os conterrâneos Birds, Wilco, R.E.M., ou Yo La Tengo, entre outras. para a criação de canções acessíveis e com um elevada luminosidade, canções que no fundo, fizessem o ouvinte sorrir sem razão aparente, digamos assim, apenas e só porque o conteúdo sonoro que absorve lhe prova tal reação física. E o novo disco da carreira dos Real Estate tem, de facto, belíssimas canções, assentes num rock que não tem medo de se espandir com o requinte e a majestosidade que a temática do registo, muito focada nas questões do amor e outras miudezas quotidianas, exige, fazendo-o com intenso charme e bom gosto.

Canções como Friday, intrigante e típica canção de início de alinhamento, com uma alma e um encanto profundos, a sedutora November, composição que na sobreposição de diferentes timbres e arranjos de cordas capta na perfeição a essência atual dos Real Estate, as mais psicadélicas e orgânicas You e Gone, a inebriante Shallow Sun e o single Paper Cup, um tema em que piano, cordas e uma vasta míriade de arranjos de elevada luminosidade e com um indisfarçável travo tropical, conjuram entre si intimamente, num resultado final bastante charmoso e sensorial, são momentos belíssimos de um alinhamento que, tendo a fabulosa voz de Courtney como a cereja no topo do bolo, é bem pensado e melhor executado, recompensado largamente quem se predispuser a descobrir os múltiplos encantos de uma das melhores bandas do rock alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Real Estate - The Main Thing

01. Friday
02. Paper Cup (Feat. Sylvan Esso)
03. Gone
04. You
05. November
06. Falling Down
07. Also A But
08. The Main Thing
09. Shallow Sun
10. Sting
11. Silent World
12. Procession
13. Brother


autor stipe07 às 21:11
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Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2020

Indoor Voices - Animal

Foi há já quase uma década, em 2011, com Nevers e um ano depois com um EP intitulado S/T, que o projeto Indoor Voices de Jonathan Relph, chamou a atenção da crítica com um naipe de canções iluminadas por uma fragilidade incrivelmente sedutora, que tiveram sequência há cerca de quatro anos com um outro EP, intitulado Auratic, que viu sucessor o ano passado, um registo de oito canções intitulado Gaslight Ephemera, que contou com as participações especiais vocais de Sandra Vu em Breathe, Barely, Kate Rogers em I'm Sorry, Maja Thunberg em Punch Me in the FaceAlways the Same e Shit World e ainda Alisha Erao em You're My. Agora, cerca de um ano depois dess registo, os Indoor Voices já têm um novo disco intitulado Animal, um alinhamento de dez composições masterizado por Simon Scott (Slowdive) e disponível no bandcamp do projeto.

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À semelhança da anterior discografia criada por Jonathan Relph, Animal flui, como se percebe logo em He Won't Fight, algures entre um aditivo intimismo e uma indisfarçável epicidade de forte cariz lo fi, carateristicas marcantes do adn de um projeto que tem como principais permissas uma elevada fluidez nas guitarras, sempre acompanhadas por um baixo vigoroso, uma bateria encorpada e uma vasta miríade de entalhes sintéticos, um cardápio sonoro que sustenta a dinâmica natural de temas que não receiam assumir uma faceta algo negra e obscura, para criar um cenário musical implicitamente rock, que em Less Problems Of Joy toca nas bordas do krautrock e em No One, num espetro mais punk, tudo esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.

Este desígnio é logo audível, como referi, no primeiro tema do registo, um enleante instrumental, mas também na intrigante atmosfera nublosa do tema homónimo e burilado com louvável sensibilidade no clima etéreo de Better, uma composição de forte cariz orquestral, onde deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, carregam uma sobriedade sentimental esplendorosa e única. Depois, o clima mais progressivo de Heart é outro exemplo feliz do modo como nestes Indoor Voices conseguem, através do sintetizador, uma simbiose entre shoegaze e post rock, sensação amplificada com superior requinte na cosmicidade pop de I'm Just Fine e feita, neste caso, sem excesso de ruído ou de modo demasiado experimental, apesar do cariz pouco imediato e radiofónico não só desta, mas também das restantes composições do registo.

Na verdade, todos os temas de Animal têm uma toada eminentemente tranquila e algo de épico e sedutor. Há uma sonoridade muito implícita em relação à herança da melhor pop dos anos setenta e oitenta e destacam-se os belos instantes sonoros em que a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, criando uma atmosfera geral contemplativa e que atinge um elevado pico de magnificiência em Always All Ways, o meu destaque maior do trabalho, uma sinuosa e eloquente canção, difícil de desbravar, mas tremendamente narcótica. 

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto cada vez mais sedutor e de um Jonathan Relph cada vez mais sábio e abrangente, Animal exala o contínuo processo de transformação de uns Indoor Voices que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

Indoor Voices - Animal

01. He Won’t Fight
02. Better
03. I’m Just Fine
04. Heart
05. Wrong Wrong Wrong
06. Always All Ways
07. They Hang Around
08. Animal
09. Less Problems Of Joy
10. No One


autor stipe07 às 11:52
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Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2020

Mush - 3D Routine

3D Routine marca a estreia em formato longa duração dos britânicos Mush, uma banda oriunda de Leeds e liderada por Dan Hyndman, ao qual se juntam Nick Grant (baixo), Tyson (guitarra) e Phil Porter (bateria). É um registo de doze canções que sucede ao aclamado EP Induction Party, editado em maio do ano passado e que, abrigado pela chancela da insuspeita Memphis Industries, nos oferece um indie rock de primeira água, com aquele travo genuíno e sincero que quase sempre podemos saborear em discos de estreia criados por grupos com uma sede enorme de mostrarem que merecem uma posição de relevo no universo sonoro em que pretendem gravitar e que, neste caso, assenta na melhor herança do rock alternativo que marcou as duas décadas finais do século passado, com os Pavement como referência assumidamente fundamental do quarteto.

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Cruzando linhas entre a crítica social, o existencialismo banal e um certo surrealismo abstrato, apimentado com uma interessante dose de ironia, 3D Routine é um disco que tem na guitarra a personagem principal, assumindo-se como o arquétipo maior de canções que têm, no seu todo, aquele travo indie clássico, mas que se forem analisadas à lupa, contêm uma notável abrangência; Do blues ao rock progressivo, passando pelo garage, o grunge e o punk lo fi, tudo cabe.

Logo em Revising My Fee, na batida das baquetas, na distorção da guitarra e no tom deliciosamente desleixado da voz, percebemos esta opção estilística, num tema tenso e progressivo que serve na perfeição para abrir um alinhamento que será um constante jogo do empurra entre banda e ouvinte, que tem de estar em permanente alerta e firme para perceber e opinar acerca daquilo que os Mush têm a dizer, geralmente de punho cerrado e sem riscar a azul partes de vocabulário.

A partir desse prometedor e imperial início de alinhamento, somos constantemente bombardeados com canções onde, sempre sob domínio das guitarras, o baixo e a bateria conjuram entre si, em conjunto ou à vez, para criar um som que pode parecer à primeira vista caótico, mas que é sempre um agregado de ruídos e arranjos calculado. Do alinhamento sobressai pela diferença, além do tema inicial já referido, o falso intimismo saloio de Existential Dread e o mais jingão de Fruits Of The Happening, o clima festivo de Eat The Etiquette, o travo boémio e enfumarado de Coronation Chicken e a intensidade musculada de Island Mentality.

Gravado com a ajuda de Andy Savours (Dream Wife, Our Girl, My Bloody Valentine), nos estúdios Green Mount, em Leeds, 3D Routine é uma estreia em cheio dos Mush, muito por culpa de um som simultaneamente poderoso e agressivo, mas também franco e honesto, com uma positividade contagiante e uma postura anti-sistema que impressiona pela objetividade e, principalmente, pelo grau de proximidade que se estabelece, ao longo do alinhamento, entre grupo e ouvintes. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 18:45
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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Clock Opera - Carousel

Já chegou aos escaparates Carousel, o terceiro e novo disco dos Clock Opera,  sucessor do muito recomendável registo Venn, lançado há quase dois anos. Carousel foi gravado nos próprios estúdios da banda em Londres, sendo um compêndio de pop futurística inspirado em autores de bandas sonoras de filmes de ficção científica, como Jerry Goldsmith ou Mica Levi.

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Esta banda britânica liderada por Guy Connelly olha com uma certa gula para a herança da pop da década de oitenta do século passado, aquela pop burilada com sintetizadores repletos de cosmicidade, cercados por guitarras planantes e repletas de eco e baixos rugosos e cerrados. Com esta receita arquitetam canções diretas, com pouco mais de três minutos e que se esfumam com uma velocidade estonteante, rematadas por um falsete que lembra Chaplin dos Keane, a nostalgia dos Coldplay e uma densidade sonora muito próxima do shoegaze.

Carousel contém, de facto, esta mistura louvável, deliciosa e aditiva, como se percbe logo em Be Somebody Else, composição onde uma bateria marcante e vários efeitos eletrónicos, ajudaram a criar um tema viciante e particularmente luminoso. Depois, o eslendoroso piano que afaga a batida minimalista que conduz o melancólico tema homónimo, a inquietude permanente a que sabem os flashes sintetizados e as teclas insinuantes de Run, o curioso travo R&B de I Surrender e o modo intenso como em Imaginary Nation os samples eletrónicos são processados e recortados numa frequência absurda e com o registo em falsete da voz de Guy Connelly a atingir uma elevada bitola, num belíssimo momento sonoro que nos envolve num turbilhão contagiante de emoções, são peças fundamentais de um álbum verdadeiramente intenso e vertiginoso, nuances que garantem o tal clima cinematográfico algo retro que sustentou a filosofia estilística de Carousel. O travo negro e intimista inicial de Algorithm e que acaba por resvalar para um portento de rugosidade sintética e a sumptuosa nuvem de efeitos e que definem Last Thing First, rematam com enorme fulgor e realismo esta intensão declarada de um registo único no panorama musical deste primeiro terço de dois mil e vinte, criado por uns Clock Opera que levam uma década de existência, sem mostrarem sinal de desgaste ou de déficit criativo. Aliás, Carousel acaba por deixar pistas bastante interessantes sobre o possível futuro artístico do projeto. Espero que aprecies a sugestão...

Clock Opera - Carousel

01. Be Somebody Else
02. Carousel
03. Run
04. Imaginary Nation
05. Howling At The Moon
06. I Surrender
07. Algorhythm
08. Snake Oil
09. Super Blue Blood Moon
10. Last Things First


autor stipe07 às 17:40
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Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Tame Impala – The Slow Rush

Quase cinco anos após Currents e a testar os limites da nossa paciência devido a tão prolongado hiato, eis que os australianos Tame Impala de Kevin Parker voltam, finalmente, aos discos com The Slow Rush, o novo registo de originais do projeto, um alinhamento com doze músicas gravadas, produzidas e misturadas pelo próprio Parker entre Los Angeles e o estúdio do artista em Fremantle, na Austrália, onde reside. The Slow Rush viu a luz do dia à boleia da Modular Records, a habitual etiqueta do grupo.

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Banda fundamental daquele prisma sonoro em que eletrónica e psicadelia se juntam de modo a descobrir novos sons, dentro de um espetro eminentemente pop, há mais de uma década que os Tame Impala refletem essa permissa para a exploração de um universo muito pessoal e privado de Kevin Parker, o grande mentor do projeto. E fazem-no situando-se na vanguarda das propostas musicais dessa área, mas também com um forte pendor nostálgico, também uma das inconfundíveis pedras de toque da discografia dos Tame Impala, nuance que começou por olhar com gula para o período setentista, mas que mais recentemente tem apontado baterias à década seguinte.

Ora, este último travo amplifica-se em The Slow Rush, um trabalho que se mantém, portanto, na peugada eminentemente oitocentista que marcou o antecessor Currents, uma filosofia estilística idealizada, como já disse, quase única e exclusivamente por Parker e que, mais do que nunca, é hoje feita de constantes encaixes eletrónicos durante a construção melódica, aos quais se juntam um almofadado conjunto de vozes em eco e guitarras mágicas que se manifestam com uma mestria instrumental única.

Excelentes exemplos dessa guinagem profunda oitocentista estão bem audíveis no vistoso e exuberante jogo entre o orgânico e o sintético que é possível contemplar em Gilmmer, no cósmico charme de Breathe Deeper e na daftpunkiana Is It True, com o apontar de novas pistas futuras, burilado em temas como Lost In Yesterday, canção sobre as nossas memórias, principalmente as menos felizes e a dificuldade natural que todos sentimos para exorcizar alguns demónios que nos atormentam por causa de eventos passados, ou Phostumous Forgiveness, longa e estratosférica canção, uma junção daquilo que eram inicialmente duas composições distintas e que flui de modo homogéneo e no universo próprio da banda e da sonoridade em que se insere, rebocada pela mestria vocal de Parker e pela multiplicidade de efeitos que cria com a guitarra elétrica, assim como o groove que oferece ao tema o baixo e uma habilidade inata do grupo no manuseamento dos sintetizadores e da percussão.

Conhecidos por nos transportar até aos dias em que os homens eram homens, as raparigas eram girl-groups e a vida revolvia em torno da ideia de expandir os pensamentos através de clássicos de blues rock, com os Cream ou Jimmy Hendrix à cabeça, em The Slow Rush os Tame Impala não fogem à regra deste modus operandi, replicando e aprimorando a fórmula dos recentes antecessores, através de doze canções impecavelmente estruturadas, algumas com uma vibração excitante e onde, no fundo, mais guinadela menos guinadela por alguns dos fundamentos da história da pop contemporânea, mantém-se a temática de revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto há mais de quatro décadas por gigantes que se entregaram ao flutuar sonoro da lisergia. Espero que aprecies a sugestão...

Tame Impala - The Slow Rush

01. One More Year
02. Instant Destiny
03. Borderline
04. Posthumous Forgiveness
05. Breathe Deeper
06. Tomorrow’s Dust
07. On Track
08. Lost In Yesterday
09. Is It True
10. It Might Be Time
11. Glimmer
12. One More Hour


autor stipe07 às 13:11
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Segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2020

Basic Plumbing – Keeping Up Appearances

No final do inverno de dois mil e dezoito o universo indie e alternativo britânico ficou em choque com o súbito desaparecimenro de Patrick Doyle, um músico escocês que contava, À altura, trinta e dois anos e que se notabilizava pela sua presença atrás da bateria no aclamado projeto Veronica Falls, mas também por estar a sobressair na sua carreira a solo. O pontapé de saída tinha sido dado em dois mil e dezasseis com um disco homónimo assinando Boys Forever e, à época, preparava-se para o sucessor, mas assinando, desta vez, como Basic Plumbing. Felizmente, quando Doyle faleceu o disco estava praticamente pronto e vê agora a luz do dia, postumamente, com o título Keeping Up Appearances, dez canções que viram a luz do dia no final de janeiro, com o alto patrocínio da Rough Trade.

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Gravadas com o apoio inestimável de Helen Skinner, baixista e companheira de digressão de Doyle, Keeping Up Appearances oferece-nos um indie rock exuberante e hirto, que sabe aquela brisa amena que aparentemente não fere nem inclina, mas que não deixa de penetrar na nossa pele até ao âmago, de nos fazer tremer e de eriçar todos os nossos sentidos. São canções com uma arquitetura sonora muito centrada nas cordas de uma guitarra eletrificada com o nível de distorção certo para nos oferecer um clima tipicamente rock, aliado com um delicioso e orelhudo charme pop, tudo rematado com aquele requinte vintage que revive não só o punk lo fi dos gloriosos anos oitenta, bem patente no baixo que acomoda As You Disappear, mas principalmente o clima mais grunge da década seguinte, indisfarçável na melodia hipnótica que conduz Keeping Up Appearances, o tema homónimo do álbum e a sombria e intrigante Strangers.

Sendo estas três composições talvez os momentos maiores do registo e excelentes portas de entrada para um alinhamento instrumentalmente irrepreensível, sem atropelos e com uma dose de agressividade necessária e salutar, porque este foi um álbum concebido por Doyle para chorar a morte do seu marido, o jornalista Max Padilla, com quem se tinha mudado para Los Angeles à época, canções como Lilac, tema com um curioso toque psicadélico e que nos agarra pela mão e até à pista de dança mais próxima, a vibrante Bad Mood, a minimalista, mas encharcada de grooveToo Slow, ou a contemplativa e introspetiva Sunday, são também belíssimos instantes de um álbum com uma beleza muito imediata e acessível, porque pode ajudar qualquer um de nós a exorcizar sentimentos de perca que nos causam amargura e dor, de um modo algo radiante e otimista.

Quer Skinner quer a família de Patrick resolveram oferecer toda receita deste disco para as organizações LGBT Center de Los Angeles e a CALM, a Campaign Against Living Miserable, uma organização do Reino Unido que trabalha para prevenir o suicídio. Espero que aprecies a sugestão...

Basic Plumbing - Keeping Up Appearances

01. As You Disappear
02. Lilac
03. Keeping Up Appearances
04. Bad Mood
05. Sunday
06. It All Comes Back
07. Too Slow
08. Fantasy
09. Constant Attention
10. Strangers


autor stipe07 às 21:26
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Sábado, 15 de Fevereiro de 2020

Elephant Stone - Hollow

Os canadianos Elephant Stone são uma banda de Montreal, no Canadá, liderada por Rishi Dhir, baixista e um dos tocadores de cítara mais importantes do cenário musical psicadélico atual. Andam por cá desde dois mil e nove e nesse ano editaram The Seven Seas, o disco de estreia. Logo aí, deram início à busca, quase obsessiva, pela canção pop perfeita. O seu conteúdo acabou por chamar a atenção da crítica e o álbum foi nomeado para os Polaris Music Prize desse ano. A seguir surgiu mais um EP, The Glass Box EP, num período em que Dhir também andou na digressão de dois mil e onze dos The Brian Jonestown Massacre. Depois, no início de dois mil e treze, chega o segundo álbum, um homónimo lançado pela Hidden Pony Records, quase três anos, em dois mil e dezasseis, vê a luz dia Ship Of Fools e agora, no dealbar de dois mil e vinte, chega aos escaparates Hollow, o novo registo de originais deste grupo que se destaca por uma tonalidade psicadélica única e pouco vulgar no modo como se cruza com alguns dos melhores detalhes do indie rock.

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Hollow, o sexto disco dos Elephant Stone, é, antes de mais, um assumir preciso das verdadeiras motivações de Dhir relativamente ao projeto, já que ele é o cérebro dominante na conceção deste trabalho. De facto, nunca um disco dos Elephant Stone dependeu tanto da criatividade e da criação do mentor de um projeto inspirado na música dos Stone Roses com o mesmo nome e numa estátua do deus hindu Ganesh que o próprio Rishi Dhir possui e que o leva a referi que a sua banda tem uma sonoridade hindie rock

Olhando então para o disco, Hollow é um álbum ambicioso e distópico, um compêndio que olha com gula para o universo sci-fi e que, segundo Dhir, é fortemente inspirado nos The Who e no White Album dos Beatles, bandas e registos que, segundo o músico, criavam canções para pessoas infelizes que procuravam encontrar uma saída nas canções, o significado da vida e algo em que acreditar ... ou nada em que acreditar. Assim, Dhir, com isso em mente, começou a escrever um conjunto de canções que relata um mundo de almas infelizes que perderam a conexão entre si, uma história contada pela alquimia psíquica dos Elephant Stone e que ocorre imediatamente após a destruição catastrófica da Terra pela humanidade e o que acontece quando a mesma elite responsável pelo desastre climático que destruiu o mundo aterrou na Nova Terra, um planeta recém-descoberto vendido com a mesma vida de prosperidade que o que eles acabaram de destruir. Assim que os poucos escolhidos abandonam a nave Harmonia e começam a colonizar o novo planeta, fica claro que a humanidade parece destinada a cometer os mesmos erros, replicando-os no novo lar.

Tendo esta trama como pano de fundo, Hollow dá vida e cor a esta sequência de eventos, à boleia de uma sequência de canções abastecidas por guitarras planantes e faustosas, repletas de efeitos em eco, teclados cósmicos, riffs empolgantes e distorções inebriantes, que criam melodia incisivas, com um elevado grau de epicidade e esplendor e que replicam com ímpar contemporaneidade a melhor herança do rock progressivo e do shoegaze setentista, sempre com um indesmentível travo pop, detalhe bem patente logo em Hollow World. Depois, a cítara que vagueira pela etérea Harmonia e que introduz a rugosa e impulsiva Land Of Dead, a luminosidade do timbre metálico das cordas que conduzem We Cry For Harmonia e a tal quase tão desejada perfeição pop que exala dos tambores e dos teclados de I See You, são nuances que neste Hollow conferem o habitual grau de exotismo dos Elephant Stone, que criaram mais um verdadeiro maná de revivalismo psicadélico. Espero que aprecies a sugestão... 

Elephant Stone - Hollow

01. Hollow World
02. Darker Time, Darker Space
03. The Court and Jury
04. Land Of Dead
05. Keep The Light Alive
06. We Cry For Harmonia
07. Harmonia
08. I See You
09. The Clampdown
10. Fox On The Run
11. House On Fire
12. A Way Home


autor stipe07 às 16:52
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Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2020

Say Hi – Diamonds And Donuts

Say Hi é Eric Elbogen, um músico norte americano natural de Seattle e que faz música desde 2002. O seu disco mais recente tem o sugestivo nome de Diamonds And Donuts, um trabalho que chegou aos escaparates pela mão da Euphobia Records e o décimo terceiro na carreira de um artista que para este registo se inspirou em treze excitantes estudos psicológicos e que é capaz de, em poucos segundos, viajar do rock mais selvagem até à indie pop de cariz experimental e à eletrónica e sempre movido a muita testosterona.

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Sucessor do curioso registo Werewolf Diskdrive (2017), Diamonds And Donuts marca mais um capítulo numa saga fictional onde cada tomo deste músico se debruça sobre uma temática precisa. Desta vez, Diamonds And Donuts é o resultado direto de treze experiências psicológicas inovadoras que foram idealizadas e conduzidas pelo próprio Eric ao longo de treze meses, com o único objetivo de gerar teorias sobre a natureza humana que pudessem ser traduzidas em composições musicais. No final, o músico constatou que tanto o Diamond como o Donut foram os dois objetos considerados mais motivacionais para obter respostas verosímeis dos participantes nos grupos de estudo criados para o efeito. Depois de projetar e conduzir cada estudo, o compositor de Seattle entrava em estúdio, na sua própria casa, para manipular os dados obtidos, criando, assim, este disco onde não falta uma mescla de eletropop com sonoridades hard rock, o rock setentista, o rock de garagem e o blues.

Assim, neste Diamonds and Donuts, se temas como Obsidian Oblivion Golfing e Happy As A Clam assentam num sintetizador melodicamente assertivo e numa percussão convincente, além de guitarras plenas de groove e distorção, bem à medida do melhor soft rock oitocentista, já Then Some Miniature Golfing e a soturna Non-Linear Time vs. Misshapen Space abrandam um pouco o clima, mas não o ritmo, já que a receita repleta de espasmos sintéticos debruçados em linhas baixo pulsantes e construções melódicas baseadas em guitarras perspicazes mantém-se, mas numa toada mais nostálgica e intimista. Depois, se Lookachu espreita ambientes mais negros e progressivos, não faltando nessa canção um travo punk delicioso, Confetti Xerox (Let’s Go Team) desvia-se um pouco dessa toada, para se focar num registo mais intrincado e experimental, conferindo ao disco um indispensável grau de ecletismo e abrangência.

A diversidade plasmada nesses seis exemplos acentua a justeza da necessidade de este músico obter, finalmente, um reconhecimento verdadeiro e um estatuto forte no universo sonoro alternativo. Aliás, o modo convincente como em A MacBook Pro To A Nineties Dell e Jupiter Death Bunnies, Say Hi serve-se da grandiosidade das guitarras e das teclas e de variações rítmicas e melódicas constantes, enquanto se debruça a fundo no universo da adição tecnológica e do sobrenatural, além de carimbar a enorme dose de criatividade que nele habita, sugere que este autor busca sempre abranger múltiplas nuances para o seu cardápio, curiosamente dentro de um som experimental, mas que tem, quanto a mim, potencial para um elevado airplay.

Até ao ocaso de Diamonds And Donuts, a imensa soul que desliza pelo piano arrebatador e pelos detalhes sintéticos de Grey As A Ghost e a subtileza instrumental de Ballerina, Ballerina, Ballerina, que desliza até ao âmago de um krautrock tendencialmente obscuro, são outros pontos de paragem obrigatória numa viagem única de fusão entre elementos particulares intrínsecos ao que de melhor ficou dos primórdios da pop, nos anos setenta, com o rock mais épico da década de oitenta e algumas das caraterísticas que definem o adn da eletropop atual.

Indubitavelmente, Say Hi domina a fórmula correta, feita com guitarras energéticas, uma sintetizador indomável, efeitos mais ou menos subtis e melodias cativantes, para presentear quem o quiser ouvir com canções alegres, aditivas, profundas e luminosas. O disco também se torna viciante devido a uma voz que, ao longo do trabalho, preenche verdadeiras pinturas sonoras que se colam facilmente aos nossos ouvidos e que nos obrigam a mover certas partes do nosso corpo. Espero que aprecies a sugestão...

Say Hi - Diamonds And Donuts

01. And Then Some Miniature Golfing
02. Obsidian Oblivion
03. Lookachu
04. Confetti Xerox (Let’s Go Team)
05. Non-Linear Time vs. Misshapen Space
06. Windsor Knots And Ruffles
07. A MacBook Pro To A Nineties Dell
08. Jupiter Death Bunnies
09. Tiger Unicorn
10. Happy As A Clam
11. Grey As A Ghost
12. Heavy Metal And Video Games
13. Ballerina, Ballerina, Ballerina


autor stipe07 às 16:20
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Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2020

Dan Deacon - Mystic Familiar

Quase meia década depois do extraordinário registo Gliss Riffer e de algumas curiosas inscursões pela banda sonora cinéfila, à boleia de Time Trial (2018) e Rat Film (2017), Dan Deacon, um dos artistas mais alternativos do cenário indie atual, está de regresso com Mystic Familiar, o quinto disco de uma carreira onde só subsistem momentos de esplendor. De facto, este músico e produtor que açambarcou na sua mente, com indelével e vicnado carimbo, toda a herança soonora da vasta míriade de latitudes audíveis no underground nova iorquino da primeira década deste século, desde o estupendo Spiderman of the Rings (2007), um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcancou, dois anos depois, laivos de excelência através das burilações sintéticas exacerbadas que sustentaram as sequências percurssivas de BROMST (2009), passando pelo tempero mais pop country que definiu o conceptual America (2012) e todas as ligações de fios e transistores que transportavam um infinito catálogo de sons e díspares referências em Gliss Riffer (2015), este músico de Baltimore tem encontrado na eletrónica uma forma de sobressair e encontrar o seu espaço particular dentro da vanguarda eletrónica que define muita da música norte americana atual, e não só.

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Apaixonado por algumas das mais complexas formas sonoras jamias produzidas, Dan Deacon oferece-nos em Mystic Familiar uma espécie de súmula de toda a salada hipercodificada com uns sons mais e outros menos familiares, que tem balizado o seu catálogo sonoro, muitas vezes acelerado em níveis absurdos de velocidade e levado a volumes excessivos, mas também com momentos melódicos mais adocicados e sonora e vocalmente introspectivos, criando, registo após registo, quase que subversivamente, um som muito singular, mas também autenticamente pertencente ao mundo contemporâneo.

Mystic Familiar tem, pois, essa virtude imensa, de poder servir como alinhamento descritivo de tudo aquilo que de melhor nos pode oferecer hoje a eletrónica, um naipe de canções que se podem abrir como um leque que tem nos dois pólos opostos. Se o majestoso clima borbulhante de Become a Mountain, o crescente teclado hipnótico e as delicadas inserções vocais que conduzem Fell Into The Ocean e o forte sentimentalismo que escorre pelo novo trip-hop de My Friend têm um travo mais natural, clássico, acessível eminentemente contemplativo, menos anárquico e com um indesmentível têmpero pop, já a efusiante e épica batida da cósmica Sat By A Tree, as quatro composições que entre o punk noise, o jazz e o eletro sustentam Arp I-IV e a indescritível montanha-russa de flashes, batidas e interseções percussivas que se concentram em Bumblee Bee Crown King, são composições repletas de batidas esquizofénicas e samples ruidosos que materializam um resultado de proporções igualmente épicas, mas mais rugosas e com um grau de psicadelismo progressivo superior.

Disco com pontes brilhantes entre momentos de maior intensidade com outros mais intimistas, Mystic Familiar leva-nos, em suma, ao encontro de emoções fortes e explosivas, de modo profundamente emotivo e cinematográfico, através de um genuíno e incomparável manipulador do sintético, um génio inventivo que converte tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico. Não tendo qualquer tipo de preocupação explícita por compôr de modo particularmente comercial e acessível, o que desde logo é um enorme elogio que pode ser feito em relação a este autor, Deacon deixa-se apropriar de todo o arsenal tecnológico que permite que seja colocado à sua disposição e torna-se ele próprio parte integrante de uma orquestra robótica e maquinal que o consome e dele se apropria, para que as canções que todas estas máquinas, que parecem ter vida própria, compôem, possam ter uma alma e um elo de ligação com a humanidade, plasmada nas letras confessionais e sinceras e numa voz manipulada de modo a ser também, ela própria, mais um elemento essencial e autónomo. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:24
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Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2020

Destroyer – Have We Met

Abrigado pela insuspeita Merge Records, Have We Met é o décimo terceiro e novo registo discográfico dos canadianos Destroyer de Dan Bejar, um músico que também está escalado na formação dos The New Pornographers e que não gostando de lutar contra o tempo e não aprecia estipular prazos, prefere que a música escorra na sua mente e depois nas partituras e nos instrumentos de modo fluído, no devido timing e com a pressa que merece, sempre com uma tonalidade algum cinzenta e agreste e eminentemente reflexiva.

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Fortemente influenciado pela banda-sonora de filmes dos anos oitenta, como O Sol da Meia-Noite (1985) e A Garota de Rosa Shocking (1986), produzido pelo carismático John Collins (The New Pornographers, Tegan and Sara) e sucessor do excelente Ken, editado há pouco mais de três anos, Have We Met é um disco algo intrincado, mas bastante sedutor, um dobrar de esquina consistente e apurado, mesmo sendo o trabalho recente dos Destroyer que mais se aproxima da herança atmosférica da obra-prima Kaputt (2011). Tal sucede porque é feito por um grupo que também já habituou os seus fãs a um espetro rock onde não faltavam de guitarras distorcidas e riffs vigorosos, mas que opta agora, e mais do que nunca, num claro sinal de maturidade e de pujança criativa, por compôr composições que olham de modo mais anguloso para a eletrónica e para ambientes eminentemente clássicos, fazendo-o com superior apuro melódico. São, portanto, composições conduzidas por uma ímpar diversidade instrumental, com o modo como as teclas do piano são enormes protagonistas, a meias com a guitarra maravilha de Nicolas Bragg, a serem dis trunfos maiores deste modus operandi com elevado charme quilate.

De facto, quando Bejar e Collins começaram a fermentar artesanalmente o conteúdo de Have We Met, em sessões noturnas de captação e gravação na própria cozinha de Bejar, a ideia inicial era desenvolver um conjunto de demos bastante inspiradas em alguma da melhor herança de nomes como Björk, Air, ou Massive Attack, captadas durante as sessões de gravação do próprio Kaput e do registo Poison Season, de dois mil e quinze. No entanto, depressa perceberam que seguir tal permissa seria distanciar-se demasiado do adn dos Destroyer e, felizmente, optaram por uma espécie de simbiose do melhor desses dois mundos. O resultado final, bastante burilado e tremendamente bem conseguido, proporciona-nos um clima eminentemente sofisticado, claramente clássico e moderno, um disco intenso e que joga com diferentes nuances sonoras sempre com um espírito aberto ao saudosismo e à relevância inventiva.

Canções como a fluída e magnânima Crimson Tide, o abundante jogo de sobreposições que edifica Kinda Dark, a delirante cândura celestial em que levitam os sons fantasmnagóricos de The Television Music Supervisor, um tema sobre as inquietações de alguém que está prestes a morrer, o clima retro eminentemente oitocentista que sustenta The Raven, o picotar melódico a que sabe Cue Synthesizer e o mistério lírico que se entranha nas diferentes camadas sintéticas de Foolsong, além de também piscarem o olho a latitudes sonoras mais consentâneas com as tendências atuais do espetro sonoro em que os Destroyer se movimentam, enriquecem tremendamente o cardápio sonoro do projeto e elevam-no a um novo estatuto, como banda fundamental do indie rock alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

Destroyer - Have We Met

01. Crimson Tide
02. Kinda Dark
03. It Just Doesn’t Happen
04. The Television Music Supervisor
05. The Raven
06. Cue Synthesizer
07. University Hill
08. Have We Met
09. The Man In Black’s Blues
10. Foolssong


autor stipe07 às 16:33
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Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2020

Spicy Noodles - Sensacional!

A brasileira Érika Machado e a portuguesa Filipa Bastos são as Spicy Noodles, uma dupla que busca sons e imagens para escrever um diário a quatro mãos e são as responsáveis por toda a parte criativa, das composições e execução das músicas, dos vídeos, às ilustrações, fotografias, e o que mais for preciso. Chamaram a atenção dos mais atentos em janeiro de dois mil e dezassete quando conseguiram incluir o single Leve Leve no álbum Novos Talentos Fnac 2017 e viram esse tema no top A3_30 da Antena 3 durante alguns meses.

Agora, no início de dois mil e vinte, as Spicy Noodles estreiam-se nos discos com Sensacional!, um álbum com a chancela da conimbricense Lux Records, um alinhamento de nove canções idealizado entre Julho e Agosto do ano transato, gravado e pré produzido no estúdio caseiro Quebra Galho em Coimbra e produzido, misturado e masterizado por John Ulhoa, no Estúdio 128 Japs em Belo Horizonte no Brasil.

Sensacional! é mesmo isso... um disco mesmo sensacional, um registo vibrante, com uma luz que irradia otimismo, cor, alegria e alegoria, proporcionando-nos quase meia hora de boa disposição e de uma diversificada paleta de canções capazes de nos transmitir, sem grande esforço, sentimentos bonitos enquanto recarregam as nossas reservas de positivismo e força de ontade para encarar os desafios diários que a vida nos coloca, no implacável movimento de um calendário que não admite a mínima pausa.

Nele, uma vasta miríade instrumental, que amplia a superior destreza interpretativa da dupla, conjura entre si e reparte dividendos, à medida que folhos e laços de samples, guitarras, teclados, brinquedos e bits eletrónicos se misturam e criam uma explosão de barulhinhos em cada uma das canções que, em suma, podem muito bem ser o diário de bordo do quotidiano de qualquer comum mortal. As guitarras efusiantes e o teclado retro de Sensacional, o festim sintético da pueril José Francisco, a ode à melhor pop oitocentista a que sabe Converseta ou o ecoante travo nostálgico de Por Aí e o charme único de Online E Invisível, são alguns dos momentos maiores de um disco com um tempero singular e viciante. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:27
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Terça-feira, 28 de Janeiro de 2020

The Artist Is Irrelevant - The Artist Is Irrelevant

Foi com o apoio da GDA que viu a luz do dia The Artist Is Irrelevant, o disco homónimo de estreia do projeto The Artist Is Irrelevant, assinado por um autor anónimo que, para preservar essa recusa de divulgação da identidade, não irá dar qualquer concerto de promoção ao trabalho. De certo modo justifica-se esta opção, já que estamos a falar de um projeto que não tem o objetivo de colocar os holofotes sobre o músico que está por trás das canções, mas antes concentrar atenções na própria música em si e em toda a panóplia de sentimentos, ideias e emoções que a mesma poderá causar e cuja interpretação acaba por ser, talvez, muito mais genuína, desconhecendo-se o criador e algumas caraterísticas da sua história de vida, elementos que poderiam colocar em causa a pureza interpretativa do conteúdo das suas composições. Em suma, este projeto deixa inteiramente nas mãos dos ouvintes criarem as suas próprias interpretações. Ao mesmo tempo, é também um teste ao valor da música por si só e uma rejeição do culto do “eu” e da imagem, que tem dominado por completo o panorama cultural e social nas últimas décadas.

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The Artist Is Irrelevant tem um alinhamento de oito canções produzidas, misturadas e masterizadas por Noiserv no seu novo estúdio A Loja, que também tem uma participação especial vocal no tema Gizmo, o quinto do alinhamento de The Artist Is Irrelevant. A sua audição permite-nos contemplar uma vibe sonora bastante moderna e atual, mas também nostálgica e algo retro, já que os seus pouco mais de trinta e dois minutos abastecem-se de alguns dos cânones fundamentais da melhor eletrónica ambiental contemporânea, mas também de tiques da pop progressiva e do glam rock dos anos oitenta.

Assim, da pueril Joy, canção perfeita para embalar as mentes mais inquietas e resistentes ao cansaço, deixando-nos naquela letargia típica de quando se dorme e se está acordado, uma dormência que se acentua e que despoleta a nossa capacidade de sonhar de olhos abertos em That Tip-Top Feeling, até à intrincada teia de interseções eletrónicas, batidas subtis e vocais corroídos de Gizmo, passando pela curiosa Play That Sulky Music, White Boy, composição que, de acordo com o seu press releasebrinca com a ideia de que mesmo a música mais soturna também pode ser dançável e viciante, algo que espelha bem os diferentes ambientes ao longo deste tema que começa negro e misterioso e acaba numa poderosa explosão disco, até ao portento de Ladies And Gentlemen We Are Drowning In Space, uma espécie de névoa celestial que nos afaga sem a mínima complacência, The Artist Is Irrelevant, apesar de se sustentar na apenas aparente frieza metálica das máquinas, contém uma frescura e um colorido muito curiosos e apelativos, nuances que nos permitem esquecer tudo o que nos rodeia e refugiar-nos, no seu âmago, numa espécie de feliz isolamento.

Além da audição do disco, importa apreciar com elevada dedicação os vídeos já produzidos de promoção a alguns dos temas de The Artist Is Irrelevant, com particular destaque para An Empty Canvas, filme montado por Pedro Gancho a partir de imagens de férias antigas e que explora visualmente este conceito da música enquanto banda sonora das nossas memórias. Espero que aprecies a sugestão...

Site: http://www.theartistisirrelevant.com

Facebook: https://www.facebook.com/theartistisirrelevant/

Instagram: https://www.instagram.com/the_artist_is_irrelevant/


autor stipe07 às 12:48
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Terça-feira, 21 de Janeiro de 2020

Bombay Bicycle Club – Everything Else Has Gone Wrong

No ativo há já década e meia, os Bombay Bicycle Club deJack Steadman, Jamye MacCol, Suren de Saram e Ed Nash, abriram as hostilidades em grande forma, em dois mil e nove, com o promissor registo I Had the Blues But I Shook Them Loose e, desde logo, firmaram um lugar de relevo no cenário indie de terras de Sua Majestade. A partir daí, mantendo uma interessante média de lançamentos conceptualmente distintos, nomeadamente Flaws (2010), A Different Kind of Fix (2011) e So Long, See You Tomorrow (2014), nunca deixaram de, álbum após álbum, cimentar essa posição, que atinge o pico à boleia de Everything Else Has Gone Wrong, o quinto registo do grupo, um disco que quebra um inesperado hiato de cinco anos, tendo em conta a frequência temporal dos trabalhos anteriores, e que contém, talvez, o alinhamento mais consistente, assertivo e eclético deste projeto de Crouch End, nos arredores de Londres.

Resultado de imagem para Bombay Bicycle Club Everything Else Has Gone Wrong

O caminho traçado pelos Bombay Bicycle Club deu sempre elevado protagonismo à criação de efervescentes composições assentes numa filosofia sonora que, dando também primazia ao baixo e às guitarras, foram sobrevivendo à sombra da omnipresença do sintetizador, nomeadamente nos arranjos melódicos, criando, desse modo, sagazes interseções entre rock e eletrónica. O antecessor So Long, See You Tomorrow foi o expoente máximo deste receituário, que também primou por uma elevada versatilidade na seleção dos arranjos que adornavam as composições, como se percebeu em temas como Luna e Carry Me, dois belos exemplos dessa opção estilística presentes no trabalho de dois mil e catorze. E estas são nuances que neste Everything Else Has Gone Wrong ganham uma nova dimensão, graças a canções do calibre da sumptuosa Eat, Sleep, Wake (Nothing But You), a melancólica composição homónima ou a extremamente criativa I Can Hardly Speak, um tema em que uma extravagante base sintética, acomoda com superior requinte cordas e metais, enquanto Steadman nos oferece o seu já habitual elevado e inédito grau de entrega e de intimidade.

A presença de galardoado produtor John Congleton (St. Vincent, Sharon Van Etten, War on Drugs) nos créditos do registo terá sido, certamente, fator decisivo para que os Bombay Bicycle Club apresentassem neste Everything Else Has Gone Wrong, como já referi, o seu registo mais heterógeneo, mas também curiosamente, o trabalho com maiores parecenças relativamente ao que se faz do lado de lá do atlântico. Além dos três temas já referidos, com particular destaque para o programado vigor algo punk em que alicerça Eat, Sleep, Wake (Nothing But You), a efervescente luminosidade de I Worry Bout You e o clima mais progressivo e encantatório de Good Day, proporcionam ao ouvinte momentos de familiariedade com as propostas mais recentes de nomes tão proeminentes do cenário indie norte-americano, como os Broken Social Scene ou os The New Pornographers.

Disco diversificado, pulsante, optimista e luminoso, Everything Else Has Gone Wrong tem um travo de efervescência e impulsividade únicos, com guitarras e sintetizadores a lançarem constantentemente nos nossos ouvidos vibrações e melodias de esperança e renovação, que não só colocam a banda no trilho de um rock mais cru e direto, como também amplificam a sensação de estarmos perante uma espécie de caleidoscópio sonoro de forte cariz hipnótico, lisérgico e emocional e em que conceitos como o ambiente, a harmonia, a libertação e o amor e o crescimento, ajudam a engrandecer, mais do que nunca, o percurso discográfico dos Bombay Bicycle Club. Espero que aprecies a sugestão...

Bombay Bicycle Club - Everything Else Has Gone Wrong

01. Get Up
02. Is It Real
03. Everything Else Has Gone Wrong
04. I Can Hardly Speak
05. Good Day
06. Eat, Sleep, Wake (Nothing But You)
07. I Worry Bout You
08. People People (Feat. Liz Lawrence)
09. Do You Feel Loved?
10. Let You Go
11. Racing Stripes


autor stipe07 às 14:52
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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2020

Black Marble – Bigger Than Life

Os Black Marble são Chris Stewart e Ty Kube, uma dupla natural de Brooklyn, mas agora sedeada em Los Angeles, que se estreou nos discos em outubro de dois mil e doze, através da Hardly Art, com o registo A Different Arrangement, onze canções que carimbaram desde logo a sonoridade de uma banda, que nos remeteu, no imediato, para o classicismo sonoro dos anos setenta e oitenta. Tal impressão teve sequência com o excelente sucessor It's Immaterial, editado também em outubro, mas de dois mil e dezasseis, mantendo-se o décimo mês do ano como período período predileto paras o lançamento de registos, já que Bigger Than Life, o terceiro álbum do projeto, viu a luz do dia precisamente nesse mês do último ano.

Resultado de imagem para Black Marble Bigger Than Life

Apesar de serem uma dupla, nos Black Marble quem assume as rédeas é Chris Stewart, que começou a escrever o conteúdo de Bigger Than Life depois da mudança recente de Nova Iorque para a outra costa, uma mudança física e ambiental que acabou por inspirar o músico, que, de acordo com o próprio, no primeiro dia em que entrou em estúdio para gravar e olhou pela janela, ficou logo fascinado com a luz e o contraste entre o ceú e as montanhas que rodeiam a cidade dos anjos, um ambiente natural único que fax da principal cidade da costa oeste dos Estados Unídos um lugar especial e muito procurado.

A partir daí, e tendo presente esta conjuntura relativamente à incubação de Bigger Than Life, conforntamo-nos com um alinhamento bastante coeso de onze canções de forte cariz retro, já que têm como receituário fundamental o classicismo sonoro dos anos setenta e oitenta. é uma estética que não recusa a originalidade e a autenticidade que já são imagem de marca do som identitário dos Black Marble, mas que os mesmos tentam recontextualizar e fazer progredir, tendo sempre como pano de fundo aquela premissa que há trinta anos atrás colocava o sintetizador analógico na linha da frente e a nostalgia na proa das construções melódicas.

A própria postura vocal de Stewart abraça a tonalidade típica de um Ian Curtis que se rege pelo baixo, irrepreensível em Grey Eyeliner, e por batidas insistentes, o que ajuda imenso a criar uma certa tensão melancólica, que também é uma das traves mestras do disco e que terá como ponto forte a vibe surf de Daily Driver, uma das composições mais encantadoras do registo, a par dos fragmentos de sons sintetizados e distorcidos de Feels.

Em suma, neste Bigger Than Life as composições refletem, com alguma minúcia, estados de alma e os contextos que definem o momento atual de Stewart, através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão nelas plasmadas. Tema após tema, o álbum transcende-se e sente-se uma emoção histórica que se encaixa também confortavelmente na tradição gótica dos anos oitenta, mas com uma leitura mais contemporânea, tudo agregado através de uma produção minimal, mas brilhante. Espero que aprecies a sugestão...

Black Marble - Bigger Than Life

01. Never Tell
02. One Eye Open
03. Daily Driver
04. Feels
05. The Usual
06. Grey Eyeliner
07. Bigger Than Life
08. Private Show
09. Shoulder
10. Hit Show
11. Call


autor stipe07 às 18:05
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