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Modest Mouse – The Golden Casket

Quarta-feira, 28.07.21

Oriundos de Issaquah, nos arredores de Washington, mas estabelecidos em Portland, no Oregon e já com mais de duas décadas de carreira, os Modest Mouse do guitarrista Isaac Brock, do baterista Jeremiah Green e do baixista Eric Judy, uma banda fundamental do indie rock alternativo contemporâneo, já têm nos escaparates o sucessor do já saudoso álbum Strangers To Ourselves, de dois mil e quinze. É um trabalho intituladoThe Golden Casket, tem doze canções e viu a luz do dia no final do passado mês de junho com a chancela da Epic.

Modest Mouse Share New Album The Golden Casket: Stream

Com um início particularmente abrasivo e até garageiro, através da irriquietude de Fuck Your Acid Trip, uma estruturalmente curiosa canção, The Golden Casket é mais um buliçoso compêndio de indie rock de forte cariz experimental, mas também contém a imprescindível tarimba experimentalista a que os Modest Mouse já nos habituaram. De facto, a agulha vira-se logo a seguir para terrenos mais nostálgicos e de travo punk com We Are Between, composição em que o timbre metálico da guitarra nos convida a um cerrar de punhos instintivo, que se transforma num enorme sorriso em The Sun Hasn't Left, uma composição luminosa e otimista, em que os sintetizadores ditam a sua lei, trespassados por uma melodia muito caraterística e em tudo parecida ao som de um xilofone, um modus operandi pouco usal nos Modest Mouse, algo que até se saúda, mas que não deixa de salvaguardar alguns dos melhores detalhes da herança sonora do projeto.

Estamos, pois, na presença de um disco que consegue equlibrar-se neste perigoso limbo entre territórios acessíveis e orelhudos e uma destreza criativa que busca o inédito, um esforço que deve ser elogiado com elevadas loas porque estamos a falar de uma banda com três décadas de carreira e que persiste em acrescentar novas nuances ao seu adn. Aliás, o incrível travo R&B inicial de We're Lucky, que é depois abafado por sopros abrasivos, a crueza instigadora de Walk and Running, a falsa sensação de ligeireza pueril de Wooden Soldiers e o tratado de rock psicadélico que é Transmitting Receiving, são demonstrações supremas desta filosofia estilística de The Golden Casket, um ziguezaguear constante de estilos, atmosferas e estruturas, que nunca coloca em causa o brilhantismo constante que este alinhamento nos vai oferecendo, canção após canção.

Disco intenso, que tem o melhor rock contemporâneo na sua essência, mas que é uma soma de muitos outros estilos, The Golden Casket lida bem com o amadurecimento pessoal e coletivo dos Modest Mouse, servindo de veículo para o grupo ir explanando as suas vivências pessoais atuais e as experiências de vida de cada um numa sociedade em constante mudança, através de uma obra sonora que vai muito além, felizmente, daquela que era a essência dos seus antecessores. Espero que aprecies a sugestão... 

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publicado por stipe07 às 19:33

Molly Burch – Romantic Images

Terça-feira, 27.07.21

Já chegou aos escaparates Romantic Images, com a chancela da Captured Tracks, o quarto disco da carreira de Molly Burch e que sucede ao excelente First Flower de dois mil e dezanove. São nove deliciosas canções que colocam esta cantora e compositora natural de Austin, no Texas, no terreno que se sente mais confortável e que se carateriza por ambientes algo nebulosos e jazzísticos e que não descuram uma leve pitada de R&B, mas que têm como base os cânones fundamentais da melhor indie pop atual.

Molly Burch – Control - man on the moon

Produzido por Alaina Moore e Pat Riley, donos da dupla Tennis e masterizado por Heba Kadry (Bjork, Beach House), Romantic Images é um acréscimo contundente ao cardápio já de si fantástico de Molly Burch. Impecavelmente dotado de charme e tremendamente feminino,  com um clima assumidamente polido e contemporâneo, mas também algo intrigante e instigador, como é norma nesta autora sempre disponível ao questionamento contundente, quer sobre si própria quer sobre aqueles ou aquilo que a incomodam ou atiçam, Romantic Images é um álbum pleno de energia, segurança e sagacidade.

O piano nostálgico de Control, o baixo imponente e os flashes cósmicos de Emotion, canção apuradamente daftpunkiana, mas interpretada a meias com os Wild Nothing, a batida enfática e as sintetizações inebriantes que vagueiam por Game, o clima percurssivo bastante dançável, trespassado por buliçosos efeitos cósmicos, que afaga o portento melódico sedutor, encharcado em romantismo e contemporaneidade, que é Heart Of Gold, a porta que se abre de par em par à intimidade de alguém que só concebe o amor como algo muito próximo da perfeição no tema homónimo e a inspirada batida e o modo como diversos efeitos sintetizados se entrelaçam com uma guitarra plena de soul em New Beginning, são composições que proporcionam ao ouvinte uma experiência auditiva única e que dificilmente o deixará indiferente, caso seja apreciador de ambientes sonoros que não deixam de marcar pelo modo como instigam, mas que sonoramente são brisas amenas que proporcionam uma superior sensação de conforto e romantismo. Espero que aprecies a sugestão...

 

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publicado por stipe07 às 21:54

Big Scary - Daisy

Sexta-feira, 23.07.21

Os Big Scary são uma dupla australiana sedeada em Melbourne, formada por Tom Iansek e Jo Syme, que se estreou em dois mil e dez com o EP The Big Scary Four Seasons, ao qual se seguiu, no ano seguinte, o longa duração de estreia, intitulado Vacation. Em dois mil e treze viu a luz do dia Not Art, um alinhamento que colocou o hip-hop em plano de destaque na filosofia estilística do grupo e, três anos depois, Animal olhou com gula para ambientes algo teatrais, com o post-rock em cima da mesa como referencial importante no arquétipo sonoro das suas canções.

Big Scary - 'Daisy': Album Review

Este registo Animal viu recentemente sucessor, um disco intitulado Daisy, que contém nove canções e onde é bastante percetível uma simplicidade de processos na fórmula escolhida, mas que é altamente eficaz, respeitando também um cada vez maior ecletismo do adn dos Big Scary. É um registo temática e estilisticamente oposto a Animal, com a situação pandémica atual a ser preponderante nesta alteração de modus operandi.

Acaba, portanto, por ter um naipe de canções mais intimistas relativamente ao antecessor, assentes num arsenal instrumental eminentemente sintético, com a ausência da guitarra a ser uma nuance relevante do álbum, mas que não coloca em causa, diga-se, a bitola qualitativa elevada de um alinhamento que tem no funk arrogante de Get Out!, ampliado por uma potente linha de baixo com fortes reminiscências oitocentistas e no travo arty de Kind Of World  as duas pontas do atual leque estilístico da dupla, num registo em que temas como o amor e a autenticidade em período pandémico e as aspirações pessoais num mundo cada vez mais digital, plasmam-se em letras carregadas de drama e melancolia, aspetos ampliados pela elegância e pela fragilidade característica da voz de Iansek.

Em suma, mais do que um novo acrescento ao cardápio dos Big Scary, Daisy é um upgrade de charme e de reinvenção ao mesmo, um disco revigorante, que faz sentido escutar com devoção nestes tempos conturbados em que vivemos e que, sendo escutado desse modo, endereça ao ouvinte um convite direto ao questionamento pessoal, enquanto desperta a nossa curiosidade relativamente às infinitas possibilidades críticas que a nossa própria vivencia pessoal proporciona, sem muitas vezes nos apercebermos. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 15:28

Malaboos - Nada Cénico

Domingo, 18.07.21

Projeto com cinco anos de existência, os Malaboos são formados por Diogo Silva (Guitarra e Voz), Ivo Correia (Bateria, Voz e Sintetizador) e Rui Jorge (Baixo), um trio que é fruto de um entendimento musical e uma ligação pessoal muito vincada. Inauguraram o cardápio com dois EPs, Plântula e Matuta, trabalhos que permitiram ao grupo partilhar cartaz e palcos variados com artistas de renome e ganhar uma já apreciável reputação no universo indie nacional.

Malaboos antecipa novo disco “Nada Cénico” com videoclip – ineews the best  news

Depois desta auspiciosa estreia, rapidamente o grupo percebeu que dois mil e vinte e um era o momento certo de avançar para o passo seguinte, o disco de estreia. Chama-se Nada Cénico, viu a luz do dia no final do passado mês de maio e logo no punk rock majestoso e eloquente de Cavaco o ouvinte mais perspicaz percebe que tem nas mãos um registo que explora a simbiose entre a dureza, crueza e robustez do Rock Avant-Garde com a delicadeza e experimentalismo do Art-Rock,.

De facto, o press release de divulgação prometia que Nada Cénico iria conter uma fusão de belos riffs, com pesados e marcados beats de bateria. E a verdade é que neste disco somos constantemente esmurrados, no bom sentido da palavra, por uma inteligente crueza, trespassada por uma filosofia experimentalista muito alicerçada num modus operandi tipicamente jam,. Nele, e cintuando a citar o press release porque faz uma análise assertiva do conteúdo e desarma qualquer crítico mais experimentado, as constastes oscilações de dinâmicas e mudanças abruptas de tempo estabelecem o limbo entre a calma e o caos, sentimentos que causam um agradável massacre psicológicoQuando não há nada, encontra-se sempre mais do que se estaria à espera. Entre paisagens desprovidas de sentimento mas providas de textura, encontra-se o nosso refúgio. A filosofia destrutiva e pessimista da interpretação (escute-se Tudônada) é camuflada com entoações e melodias cantantes tornando assim este álbum num exercício enfático de  enaltecimento e ampliação do que é humano, desde os sentimentos mais banais até aos mais invulgares, tornando-se assim um lugar seguro para a libertação de emoções e da viagem conjunta pela solidão constante presente em nósEste álbum é uma tela em branco, fica ao encargo do espectador delinear o seu próprio percurso durante esta viagem atribulada, entre paisagens verdejantes, ao encanto do mar até ao fundo de um escuro poço. Tudo é possível, tudo é válido, tudo e nada coexiste no mesmo universo auditivo, criando assim a possibilidade de uma mancha abstrata no nosso mundo utópico. Espero que aprecies a sugestão...

YouTube https://www.youtube.com/c/MALABOOS/featured
Spotify https://open.spotify.com/artist/0Jb1nrRjiY3JwRk2esf2ew?si=_gy7ACzHSsSvFKFh3vfXWA
Bandcamp Music | Malaboos (bandcamp.com)
Instagram https://www.instagram.com/malaboosmalaboos/
Facebook 
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publicado por stipe07 às 21:04

Massage – Still Life

Terça-feira, 06.07.21

Sedeados em Los Angeles, na Califórnia e liderados por Alex Naidus, membro dos Pains Of Being Pure At Heart, os Massage foram crescendo e ganhando vida na internet. Alex começou a tocar e a escrever algumas canções paralelamente à sua atividade nos Pains Of Being Pure At Heart com o designer e baixista Michael Felix, amigo de infância de Alex e à dupla juntaram-se, entretanto, o jornalista Andrew Romano, David Rager e Gabi Ferrer, responsável pelas teclas e pela composição melódica. Estrearam-se em dois mil e dezasseis com o EP Lydia e lançaram o primeiro longa duração, à boleia da Tear Jerk Records, no verão de dois mil e dezoito, um disco intitulado Oh Boy, gravado com a ajuda de Jason Quever dos Papercuts e que fez parte do top ten dos melhores álbuns desse ano para a nossa redação.

Massage announce 'Still Life' LP – Culture Addicts

Agora, novamente no verão, mas em dois mil e vinte e um, os Massage voltam à carga com Still Life, o sempre difícil segundo disco, um alinhamento de doze canções que retratam o amor na sua forma mais singela e pura, porque falam da timidez e das paixões efémeras que abundam nesta altura do ano. Para tal, servindo-se daquela sonoridade tipicamente indie e universitária, que continua a soar mais fresca que nunca, especialmente quando bandas como os Massage surgem a replicá-la no radar, criaram um alinhamento que nos leva facilmente e num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, à boleia de uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, particularmente luminoso e que acaba por se tornar até viciante. E a responsabilidade desta tela impressiva é uma guitarra com um timbre metálico muito caraterístico que serve de base melódica às canções, acompanhada por um baixo exemplar no modo como se alia à guitarra para marcar as várias nuances rítmicas de temas geralmente acelerados, mas sem serem frenéticos, não deixando de se espraiar pelos nossos ouvidos algo preguiçosamente intenso.

De facto, os Massage são a banda perfeita para servirem de banda sonora para os romances de verão que aí vêm. A sensação de autenticidade é muito forte neste álbum puro e cheio de emoção, um disco que, canção após canção, implora pela nossa atenção, que sendo para ele orientada, sacia o nosso desejo de ouvir algo descomplicado mas que deixe uma marca impressiva firme e de simples codificação.

Catapultado pela ligeireza subtil de Made Of Moods, pelo cariz intimista de 10 & 2, pelo clima lisérgico de Until, pelo piscar de olhos a ambientes mais roqueiros em Half A Feeling, ou pelo bom gosto dos acordes de Stick & StonesStill Life é, em suma, um embrulho sonoro com um têmpero lo fi muito próprio, um salutar indie rock com leves pitadas de surf pop, agregado com um espírito vintage marcadamente oitocentista e que esconde a sua complexidade na simplicidade. Estas boas canções mostram como é bonito quando o rock pode ser básico e ao mesmo tempo encantador, divertido e melancólico, sem muito alarde. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 17:26

John Grant – Boy From Michigan

Sexta-feira, 02.07.21

Pouco mais de dois anos após o excelente registo Love Is Magic, um John Grant enraivecido e profundamente incomodado pela conjuntura atual do seu país natal e do mundo, não só devido à crise pandémica, mas também ao crescimento político dos extremismos, que não abrandam apesar da derrota de Trump e da entrada de Biden na Casa Branca, acaba de lançar um novo álbum intitulado Boy From Michigan, que viu a luz do dia à boleia do consórcio Partisan/Bella Union e qwue também se debruça sobre algumas memórias que o músico ainda guarda dos seus primeiros anos de vida no Michigan.

John Grant – 'Boy From Michigan' review: tender and terrifying

Boy From Michigan conta com Cate Le Bon nos créditos da produção que, já agora, tem um novo disco intitulado Reward e que a nossa redação recomenda vivamente. Mas voltando ao novo álbum de Grant, apesar do manto filosófico algo negro e inquietante que o inspira, é um registo com uma toada muito charmosa e onde um delicioso travo psicadélico passeia por doze composições que também encarnam um tratado de chillwave intemporal, interpretado por um dos grandes cronistas da América atual, que nunca é de meios termos, no modo com sente e se expressa, principalmente quando a narrativa se centra na sua própria figura.

Se sonoramente John Grant já testou diversas fórmulas e sempre de modo bem sucedido, o piano mantém-se, de facto, como o seu instrumento de excelência, quer no modo como exacerba as suas cicatrizes e os seus demónios, mas também quando afaga, muitas vezes, um dramatismo que até parece incontrolável e que nos revela uma espécie de apocalipse, mas que não é mais do que o saborear pleno e alegre de crenças e convicções firmes e felizes. E esta ímpar dicotomia que trespassa quase todas as canções de Boy From Michigan, feita com os fascismos, os narcissismos, as sociopatias e as psicopatias crescentes que estão a colocar em causa o futuro da própria humanidade e as vitórias pessoais e as reais ambições de Grant, é uma evidência que comprova a mestria compositória do autor, uma personagem muitas vezes ambígua, mas sempre determinada nas suas crenças e convicções acerca de um mundo que, apesar de mentalmente mais aberto e liberal, continua a ser um lugar estranho para quem nunca hesita em ser implacável, mesmo consigo próprio.

Em suma, num clima geralmente de festa e de celebração, ampliado pela aparição constante de melodias sustentadas em instrumentos como clarinetes e saxofones, Boy From Michigan documenta a pessoalidade de alguém intimamente sensível e pega nesse pilar individual para olhar metaforicamente para uma sociedade onde essa criança, hoje homem, se sente geralmente um estranho, mas sempre com uma mente aberta e uma predisposição natural para não julgar nem colocar entraves ou preconceitos, na hora de convidar quem o queira escutar com devoção, para uma onda sonora feita de diversão pura e genuína. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 17:15

Kings Of Convenience – Peace Or Love

Segunda-feira, 21.06.21

Doze anos depois do registo Declaration Of Dependence e vinte do álbum de estreia Quiet Is The New Loud, os noruegueses Kings Of Convenience de Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe, estão de regresso com um lindíssimo disco intitulado Peace Or Love, um alinhamento de onze canções que viu a luz do dia a dezoito de junho, através da EMI Records.

Kings of Convenience 'Peace or Love' Review: A Neat Depiction of the  Dichotomies of Love

A exploração profunda, singela e perene daquilo que é o amor e o desejo é o eixo central do conteúdo de Peace Or Love, um contemplativo, confiante e confidente exercício sonoro que, como seria de esperar, exala o adn indie folk típico desta dupla, assente em deslumbrantes cordas e num registo interpretativo que se mostra melodicamente sagaz e sofisticado. Duas décadas após a estreia, Eirik Glambek Bøe e Erlend Øye mostram-se, naturalmente, mais adultos e conscientes do mundo que os rodeia e com um outro conhecimento relativamente à vida, algo que se reflete no modo consciente como plasmam as suas ideias acerca da temática central do registo, com a pureza destas canções e a elegância das mesmas, conferida pelas pitadas deslumbrantes de bossa nova que contêm, a diferenciarem consistentemente este projeto de outras propostas dentro do mesmo espetro sonoro e a plasmarem tal astúcia e traquejo.

De facto, um dos grandes atributos dos Kings Of Convenience é conseguirem escrever músicas sem grandes truques ou adornos, mas sem deixarem de ser profundas, inspiradoras e tocantes, algo que requer uma capacidade criativa melódica incomum e uma dose de confiança mútua ímpar, com a dupla a nunca vacilar, ao longo do registo, no modo como, dentro desta evidência, entrelaçam cordas com alguns adereços percurssivos, fazendo-o com superior requinte, por exemplo, em Catholic Country, mas também deslumbrantemente em canções como Angel, que disserta sobre a tristeza de uma mulher destroçada pela não correspondência, ou na mais contemplativa Killers.

As vozes luminosas e imponentes de Bøe e Øye, de timbre semelhante, são a cereja no topo do bolo desta filosofia que sustenta um disco repleto de charme, delicadeza e cuidado, um trabalho que expressa inocência e experiência ao mesmo tempo e onde mesmo que pareça, em alguns momentos que algumas esperanças silenciosas de obter dele dicas infaliveis acerca de como sobreviver ao fim de um romance sejam frustradas, aquilo que fica é a clarificação de que quer o amor quer o desejo, que são sentimentos complicados e ilegíveis na sua essência, são também, em última análise, razões de ser fundamentais, inadiáveis e inaliáveis na nossa existência. Espero que aprecies a sugestão...

 

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publicado por stipe07 às 12:43

Juliana Hatfield – Blood

Sexta-feira, 04.06.21

Depois dos discos de tributo à cantora Olivia Newton-John, em dois mil e dezoito e aos Police, no ano seguinte e do anúncio de um registo nos mesmos moldes, para breve, mas de homenagem aos R.E.M., a norte-americana Juliana Hatfield, uma figura ímpar do rock do outro lado do atlântico das últimas três décadas, está de regresso aos discos com Blood, o décimo nono da sua carreira, um alinhamento de dez canções que viu a luz do dia a catorze de maio último, com a chancela da American Laundromat.

Juliana Hatfield Announces New Album Blood, Shares New Song: Listen |  Pitchfork

Blood foi gravado integralmente em casa de Juliana no Conneticut, que tocou os instrumentos todos no disco, sendo um disco que, de acordo com a autora, é uma reação ao modo sério e negativo como muitas pessoas foram afetadas nos últimos quatro anos, (certamente devido à adminstração Trump, n.d.r.).

De facto, Blood mergulha profundamente naquele lado negro que todos nós temos, sem excepção, com uma visão da psicologia e do comportamento humano moderno, mas isso não significa que seja um disco pesado e sombrio, até porque se assume, aos nossos ouvidos, como musicalmente divertido e até luminoso. E fá-lo com perspicácia, através de um folk rock lânguido, cruzado, em temas como Mouthful of Blood, um tema abrasivo, mas com elevado groove e consistentemente melódico, com alguns dos cânones fundamentais do melhor jazz atual, que não desperdiça, em Gorgon, por exemplo, as potencialidades da eletrónica.

Com um resultado final bastante radiofónico, orelhudo e vibrante, Blood é um retrato intrigante e impressivo de muitos dos nossos maiores receios e angústias e, por isso, um registo também instigante e provocador, sendo esta dualidade entre a sua beleza sonora e a crueza amarga das suas palavras, desafiadora e dançante, uma das suas maiores benesses. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 13:58

Moby – Reprise

Segunda-feira, 31.05.21

O músico e produtor nova iorquino Moby tem nove álbuns na última década, vivendo uma das fases mais inspiradas e produtivas de uma já longa e respeitável carreira, que tem feito dele um dos expoentes maiores da eletrónica do novo milénio. E o novo passo que Moby deu neste percurso inigualável é uma compilação de versões de alguns dos seus maiores sucessos, concretamente treze, com novos arranjos e uma filosofia eminentemente acústica, com a ajuda da Budapest Art Orchestra. Esse disco chama-se Reprise, viu a luz do dia à boleia da Deutsche Grammophon e além da orquestra já referida, também conta com as participações especiais de Gregory Porter, Jim James (My Morning Jacket), Mindy Jones, Víkingur Ólafsson, Kris Kristofferson e Skylar Grey, entre outros.

Moby – Natural Blues (Reprise Version) - man on the moon

Em Reprise, Moby imprime uma dinâmica interpretativa com elevado cariz orquestral e progressivo, que dá um aspecto ainda mais magnificiente ao já robusto catálogo que revisita, algo só possível devido à escolha dos intérpretes, especialistas na replicação de ambientes negros, mas plenos de soul. De facto, com um arranque de carreira memorável à boleia de Play, ainda o melhor disco da sua discografia, foi com elevada dose de ansiedade que se aguardava nesta redação Reprise, até porque há várias canções desse álbum mítico que são alvo de revisão neste trabalho. E as expetativas não são defraudadas porque Reprise contém uma tremenda sensibilidade e está cheio de melodias bastante aditivas. Mesmo revisitando originais, o alinhamento transporta consigo um ideário, quer sonoro, quer lírico e poético muito vincado e consegue tocar o ouvinte e deixá-lo a refletir sobre esta contemporaneidade tão conturbada e perigosa que testemunhamos, quer para a nossa espécie quer para o futuro sustentado do planeta em que vivemos.

Mesmo com o adn típico de uma orquestra clássica, Reprise não deixa de poder ser catalogado também como um infatigável corpo eletrónico que revela as suas diferentes camadas sonoras enquanto o acústico e o elétrico, a pop e a soul, o rock e a chillwave se entrelaçam sem pudor e enleados por um incisivo clima melancólico que combina bem com a essência de Moby, um especialista na replicação de ambientes negros, mas também de assombros orquestrais intensos e belos. Espero que aprecies a sugestão...

01. Everloving (Reprise Version)

02. Natural Blues (Feat. Gregory Porter And Amythyst Kiah) (Reprise Version)
03. Go (Reprise Version)
04. Porcelain (Feat. Jim James) (Reprise Version)
05. Extreme Ways (Reprise Version)
06. Heroes (Feat. Mindy Jones) (Reprise Version)
07. God Moving Over The Face Of The Waters (Feat. Víkingur Ólafsson) (Reprise Version)
08. Why Does My Heart Feel So Bad (Feat. Apollo Jane And Deitrick Haddon) (Reprise Version)
09. The Lonely Night (Feat. Mark Lanegan And Kris Kristofferson) (Reprise Version)
10. We Are All Made Of Stars (Reprise Version)
11. Lift Me Up (Reprise Version)
12. The Great Escape (Feat. Nataly Dawn, Alice Skye And Luna Li) (Reprise Version)
13. Almost Home (Feat. Novo Amor, Mindy Jones And Darlingside) (Reprise Version)
14. The Last Day (Feat. Skylar Grey And Darlingside) (Reprise Version)

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publicado por stipe07 às 10:45

Maxïmo Park – Nature Always Wins

Quinta-feira, 20.05.21

Já chegou aos escaparates Nature Always Wins o sétimo álbum dos ingleses Maxïmo Park, de Paul Smith, uma das bandas mais interessantes do cenário indie atual e que quando surgiu foi considerada um novo fenómeno fundamental para o ressurgimento da herança post punk da década de oitenta. De facto, os Maxïmo Park têm vindo, de disco para disco, a demonstrar um crescendo de maturidade e uma capacidade inata para apresentar novas propostas diversificadas sem se afastar do ADN que carateriza este coletivo de Newcastle.

Album Review: Maxïmo Park - Nature Always Wins - The Indie Masterplan

Importa esclarecer que Nature Always Wins é um disco de celebração ímpar, já que é muito marcado pela paternidade recente de vários dos elementos da banda. Fazê-lo é ir de encontro ao fulcro de um conpêndio de doze composições que têm uma áurea de esplendor, de otimismo e de vontade de espalhar nos nossos ouvidos sentimentos de crença num futuro risonho. De facto, canções como I Don’t Know What I’m Doing, Baby, Sleep e Child Of The Flatlands e All Of Me, exalam um empolgante modus operandi interpretativo, assente, quase sempre, em guitarras efusiantes trespassadas por sintetizadores que debitam muitas vezes efeitos algo delirantes e invulgares, mas também com o piano (Why Must A Building Burn) a ser elemento preponderante na estilização de uma faceta pop que é sempre de elogiar em registos deste calibre sonoro.

Alinhamento melodicamente maduro e assertivo, que deve muita da sua sagacidade ao irrepreensível trabalho de produção de Ben Allen (Deerhunter, Animal Collective), Nature Always Win é, em suma, um retrato conciso, mas fiel, do estado de espírito mais recente de uma banda que sempre se mostrou exímia no equilíbrio entre o sucesso radiofónico e a exposição criativa das suas habilidades coletivas e que se encontra, claramente, num momento de forma invejável. Espero que aprecies a sugestão...

Maxïmo Park - Nature Always Wins

01. Partly Of My Making
02. Versions Of You
03. Baby, Sleep
04. Placeholder
05. All Of Me
06. Ardour (feat. Pauline Murray)
07. Meeting Up
08. Why Must A Building Burn?
09. I Don’t Know What I’m Doing
10. The Acid Remark
11. Feelings I’m Supposed To Feel
12. Child Of The Flatlands

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publicado por stipe07 às 16:43






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