Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Lobo Mau - Agarrado ao Mundo

Quarta-feira, 23.11.22

Há quase uma década, no verão de dois mil e doze, uma das bandas nacionais que fez furor na nossa redação foram os míticos TV Rural, com o registo A Balada Do Coiote. Era um disco cheio de canções explosivas, onde a tensão poética estava sempre latente e onde foi certamente propositada a busca do espontâneo, do gozo e até do feio, se é que é possível falar-se em estética na música. Agora, nove anos depois, David Jacinto, Gonçalo Ferreira e Lília Esteves, antigos colaboradores dos TV Rural, voltam ao nosso radar por causa do seu projeto Lobo Mau, que se estreou em grande em abril do ano passado com o disco Na Casa Dele, que teve poucos meses depois sequência com um tomo de quatro canções intitulado Vinha a Cantar, lançado em formato EP. Agora, na reta final de dois mil e vinte dois, os Lobo Mau têm um novo longa duração. É um trabalho intitulado Agarrado ao Mundo, uma edição de autor apoiada pela República Portuguesa, através do Programa Garantir Cultura.

Gerador

Agarrado ao Mundo tem um alinhamento de nove canções, que têm como ponto de partida a herança do melhor folk rock nacional, induzindo uma forte componente experimental no mesmo, de modo a obter texturas sonoras que juntem a ousadia da electrónica, o arrojo dos trompetes e dos kazoos e a insistência da caminhada no ritmo das peles, das cordas e das teclas que acompanham a génese das canções, que se faz, sempre, da guitarra e das duas vozes que se escutam.

Assim sendo, ouvir Agarrado ao Mundo oferece-nos uma experiência de certa forma surreal quando contextualizamos este disco no panorama musical nacional atual. Infelizmente ainda apenas acessíveis a um grupo não muito amplo de fervorosos e dedicados fãs, o que é uma perfeita e incompreensível injustiça, os Lobo Mau escrevem em português e, quanto a mim, é nas letras que está outra enorme virtude e arrojo do projeto, já que fazem canções com um significado literal nem sempre coerente e facilmente entendível, mas que emparelhadas com as tais guitarras que correm abrasivamente e fogem às fórmulas compositivas de formatos amigos da rádio, resultam na perfeição e originam algo único e de algum modo surreal.

O Lobo Mau que este trio personifica sonoramente, é um animal agarrado ao mundo, um eremita que observa, alinha pensamentos e os deixa sair e Agarrado ao Mundoé o resultado da caminhada contínua, insaciável e porfiante que o trio escolheu fazer. Aliciado por novas texturas sonoras, este Lobo Mau questiona e questiona-se, observa e observa-se, é e deixa-se ser, e, nesta relação ambígua entre o seu mundo interior e o que o rodeia, vai-se agarrando ao que lhe é familiar e fundamental. Por vezes tem um tom íntimo, outras é como a rebentação do mar bravo, compassado e intenso, mas é sempre explosivo e poético, sendo certamente propositada a forma como, num engenhoso e fulminante modus operandi, busca o espontâneo, o gozo e até o feio, se é que é possível falar-se em estética na música. Pelo menos a mim custa-me. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 17:33

The 1975 – Being Funny In A Foreign Language

Terça-feira, 01.11.22

Um dos grandes momentos discográficos de dois mil e vinte foi, sem dúvida, Notes On A Conditional Form, o registo de originais dos The 1975 de Matt Healy que, à época, sucedeu ao excelente álbum A Brief Inquiry Into Online Relationships, de dois mil e dezoito. Notes On A Conditional Form já tem um sucessor nos escaparates, um trabalho intitulado Being Funny In A Foreign Language, que viu a luz do dia com a chancela da Dirty Hit e que mostra o coletivo de Manchester no momento de maior maturidade da carreira.

The 1975 – Part Of The Band - man on the moon

Matt Healy foi recentemente notícia pelo modo como conseguiu superar a sua adição à psicotropia ilegal e este Being Funny In A Foreign Language exala, claramente, uma certa sensação de libertação, de abertura de uma nova janela mais arejada e, ao mesmo tempo, contemplativa e esperançosa, relativamente ao futuro pessoal daquela que é a grande força motriz dos The 1975. O piano e o violoncelo do tema batizado com o nome do grupo, que abre o disco e que carimba um exercício feliz de auto elogio, tem esse travo a renascimento e ao início de uma nova vida depois de um período conturbado. 

Com a janela aberta para o futuro e as portas escancaradas para a luz, a diversão começa logo na batida efusiante e no saxofone que ciranda por Happiness, uma canção com um travo oitocentista incrível, bem plasmado nos exuberantes arranjos de sopros que vão deambulando ao longo do tema e que lhe dão uma inédita luminosidade. Happiness acaba por dar o mote para o que resta de um álbum encharcado em deliciosas canções adornadas por uma curiosa sensação de tranquilidade e de letargia, bem expressa, por exemplo, no clima blues de All I Need To Hear. É uma filosofia estilística e interpretativa que em Looking For Somebody (To Love) tem os anos oitenta do século passado em declarado ponto de mira à boleia de interseções com o melhor R&B norte americano e a eletrónica mais futurista. Depois, a canção I'm In Love With You até olha com enorme curiosidade para a folk, fazendo-o com indisfarcável gula. Esta é uma composição que contém um perfil melódico imediato e radiofónico, assente em cordas exemplarmente equilibradas entre acusticidade e eletricidade, adornadas, depois, por arranjos percussivos repletos de luminosidade, aspetos cada vez mais caro a uns The 1975 sequiosos por chegarem a um número cada vez maior e mais abrangente de ouvintes. Composição que também poderá agradar a quem ainda não está particularmente familiarizado com o catálogo desta banda britânica é Part Of The Band, um tema experimentalmente rico, liricamente algo extravagante, já que contém termos tão sugestivos como ejaculationironically wokemy cancellation, ou Vaccinista e que sonoramente coloca o grupo de Manchester a divagar por territórios nada habituais no seu catálogo e que incluem alguns dos traços identitários da folk mais experimental, imagine-se, num resultado final de superior grau criativo.

Como seria expetável numa banda que nos tem oferecido, disco após disco, um novo labirinto sonoro que da eletrónica, ao punk rock, passando pela pop e o típico rock alternativo lo fi, abraça praticamente todo o leque que define os arquétipos essenciais da música alternativa atual e que tem um líder carismático a liderar as operações e que não receia utilizar a música para exorcizar fantasmas e descobrir caminhos, Being Funny In A Foreign Language é, indiscutivelmente, um álbum com um resultado final de superior grau criativo, com o arquétipo das canções a ser guiado por guitarras, ora límpidas, ora plenas de efeitos eletrificados algo insinuantes, mas com pianos, sopros e uma vasto arsenal de sintetizações a oferecerem à sonoridade geral de um registo de forte pendor nostálgico e enleante, uma profunda gentileza sonora, num ambiente sonoro descontraído, mas extremamente rico e que impressiona e instiga, não deixando indiferente quem se oferece ao prazer de o escutar com deleite. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 14:45

Arctic Monkeys - The Car

Quarta-feira, 26.10.22

Pouco mais de quatro anos após o extraordinário registo Tranquility Base Hotel And Casino, os britânicos Arctic Monkeys, estrondosa banda liderada por Alex Turner e ao qual se juntam Matt Helders, Jamie Cook e Nick O'Malley, estão de regresso com The Car, o sétimo disco da carreira do grupo de Sheffield, um alinhamento de dez canções que viu a luz do dia com a chancela da Domino Records e que conta nos créditos de produção com James Ford.

Arctic Monkeys on How New Album Weds Their Historic and Current Sounds -  Variety

Há bandas que, invariavelmente, observam sempre o público e a crítica a colocarem as expetativas bastante elevadas e a precisarem de saltar uma fasquia bem alta, para o bem ou para o mal, sempre que anunciam um novo registo de originais. E, muitas vezes, saiem airosamente dessa inevitabilidade, quando não dão a mínima importância a tal evidência e cingem-se ao seu mundo e aquilo que lhes apetece oferecer, tendo como único constrangimento o arsenal de criatividade, bom gosto e qualidade que guardam no seu seio. Os Arctic Monkeys carregam esse fardo, que acaba por ser um selo de qualidade, diga-se, e The Car pode, portanto, ser analisado, tomando como ponto de partida esses dois prismas que, diga-se a verdade, são apenas aparentemente opostos.

A desilusão será então óbvia para quem, depois dos felizes devaneios jazzistícos de Tranquility Base Hotel And Casino, contava com a acendalha das guitarras bem acesa e, com este The Car, uma viagem direta rumo ao melhor punk rock que marcou a carreira inicial do projeto de Sheffield. Não nos esqueçamos que este grupo nessa altura habituou os seus fâs a um rock incisivo e esfuziante, repleto de guitarras distorcidas e riffs vigorososos. Por outro lado, a satisfação será redobrada para quem adorou o álbum de dois mil e dezoito, porque The Car aprimora, com um bom gosto incrível, esse naipe de temas que tinham um fantástico apuro melódico e uma diversidade e subtileza instrumentais únicas.

Sendo assim, The Car mantém as teclas como grandes protagonistas do esqueleto dos seus temas, quase sempre criados ao piano por Turner. No entanto, é curioso escutar atentamente os primeiros acordes de quase todas as canções porque, além de nos deixarem muitas vezes numa deliciosa dúvida sobre qual será o rumo de cada canção, demonstram que as cordas e a bateria foram também essenciais no burilamento arquitetural de praticamente todo o alinhamento do disco. Os restantes elementos do grupo estiveram claramente sintonizados com Turner, nomeadamente pelo modo harmonioso e simbiótico como incorporaram os seus instrumentos nas melodias.

Canções como There'd Be A Mirrorball e a insinuante Body Paint, outra elegante canção, muito buliçosa e com um delicioso travo retro, são, só para citar dois exemplos felizes, composições instrumentalmente ricas, irresistivelmente jazzísticas e encharcadas em mistério e sedução. Agitam e inebriam os nossos ouvidos, fazendo-nos rodopiar num mundo de sonho e fantasia sem grande sacrifício, enquanto conseguem um notável equilíbrio entre um sublime piano e a típica orgânica das cordas, que dos violinos às guitarras, se acamam entre si de modo profundamente charmoso. Depois, num universo repleto de sobreposições densas e intrincadas de arranjos e efeitos, a soul enevoada de Jet Skies On The Mot, a pop sessentista que exala subtilmente do clima clássico de Sculptures Of Anything Goes, a psicadelia de Mr Schwartz e até o próprio jazz mais intemporal, homenageado com um charme algo invulgar em Hello You, envolvem-nos, sem apelo nem agravo, numa arrepiante aurea de mistério e sedução.

Os Arctic Monkeys continuam sintonizados com o absurdo sociológico e político dos nossos tempos, numa carreira de assinalável coerência e bastante marcada por momentos de exaltação e de vigor que nunca descuraram uma profunda reflexão sobre aquilo que os rodeia. Portanto, à semelhança do que sucedeu em Tranquility Base Hotel And Casino, mostram-se, em The Car, incisivos e irónicos, desta vez olhando menos para o espaço e mais para o outro vazio, o das cidades densamente povoadas, fazendo-o abrigados por um vasto manancial de referências que, piscando o olho a latitudes sonoras consentâneas com as tendências atuais do espetro sonoro em que se movimentam, enriquecem tremendamente o cardápio sonoro do quarteto, que é, claramente, uma banda fundamental do indie rock alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 16:12

Cool Sounds – Like That

Sexta-feira, 21.10.22

O coletivo australiano Cool Sounds fez furor em dois mil e dezasseis quando se apresentou ao mundo com um extraordinário registo de estreia intitulado Dance Moves, uma notável coleção de canções pop que tinham no catálogo de bandas como os Talking Heads ou os Roxy Music declaradas influências. Dois anos depois os Cool Sounds viraram agulhas para territórios que calcorream o típico indie rock de cariz eminentemente lo-fi, com o registo Cactus Country, sempre com Dainies Lacey ao leme, o único membro da formação original que ainda permanece no agora sexteto Cool Sounds e a grande força motriz da banda.

Track: Cool Sounds funk it up with '6 or 7 More': a shimmering disco  inflected indie pop masterpiece that floats like a butterfly and stings  like a bee. Plus album news. – Backseat Mafia

Em dois mil e vinte e um as guitarras mantiveram-se na linha da frente estilística do grupo com o disco Bystander, que já tem sucessor, um trabalho intitulado Like That, que chegou aos escaparates recentemente, com a chancela da Chapter Music e que tem nas pistas de dança o grande alvo. É um disco de dez composições com uma sonoridade muito veraneante e repleto de sons essencialmente orgânicos, mas também de proveniência sintética, que vão surgindo ao longo do disco de forma algo surpreendente, em alguns casos, mas que nunca parecem desfasados ou exagerados, sempre em busca de um registo anguloso, vibrante e funky. A consistência do álbum deriva, essencialmente, da versatilidade percurssiva que o traça de alto abaixo, mas também à composição dos arranjos e à voz, fundamentando ainda mais um conceito de diversidade, que tem também a vantagem de conceder a Like That uma abrangência estilística alargada, dentro do espetro que sustenta a melhor pop contemporânea.

Logo no baixo agitado de 6 Or 7 More, um tema que Lacey confessa inspirar-se numa mescla entre os catálogos dos The Clash e de Jessie Ware e que, de facto, no funk anguloso da guitarra que conduz o tema, no já referido baixo vibrante que marca o seu ritmo e nos arranjos sintetizados que o adornam, plasma uma espécie de dance punk bastante charmoso e contundente, ficamos simultaneamente boquiabertos e esclarecidos ao que vêem os Cool Sounds em Like That. A partir dai, em temas como Part Time Punk ou Hello, Alright, You Got That , só para citar os mais contundentes, somos confrontados com um incomum frenesim e vigor, que nos encharcam de entusiasmo e vibrações positivas.

O sintetizador retro do tema homónimo, as suas cordas fluorescentes e o saxofone tocado por Pierce Morton, terminam em grande estilo um disco brilhante, que mais parece a banda sonora de uma festa privada meticulosamente criada, que nunca teve a preocupação de replicar estilos ou tendências, mas antes exalar o gosto pessoal e coletivo de um projeto que deve ser admirado pelo seu arrojo e vanguardismo ímpares. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 16:59

Fujiya And Miyagi – Slight Variations

Quinta-feira, 20.10.22

Três anos depois de Flashback, os britânicos Fujiya And Miyagi têm um novo disco nas lojas. Chama-se Slight Variations e viu a luz do dia recentemente com a cancela da Impossible Objects of Desire, a própria etiqueta da banda.

New Body Language' by Fujiya & Miyagi | New Album, 'Slight Variations' -  It's Psychedelic Baby Magazine

Slight Variations é um portentoso acrescento ao já valioso compêndio de um projeto com mais de década e meia de atividade e que se foi assumindo, à boleia desse vasto e riquíssimo catálogo discográfico, como um dos grupos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como tem vindo a misturar alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo.

A trama mantem-se em Slight Variations e nas suas dez composições, que têm uma tonalidade um pouco mais introspetiva que o habitual, como se os Fujiya And Miyagi quisessem fazer um disco de dança, mas para que não gosta propriamente de dançar. Os temas são, na generalidade, luminosos e animados, têm na performance vocal um elevado trunfo, mas o álbum também impressiona pela vertente rítmica, que é, sem sombra de dúvida, um dos atributos maiores dos Fujiya And Miyagi. Além destes dois aspetos vitais, o disco também é majestoso no modo como exexuta uma simbiose feliz entre elementos orgânicos e sintéticos, com cordas e sintetizações planantes a entrecuzar-se com elevada astúcia entre si.

Em suma, Slight Variations oferece-nos, com elevado grau de impressionismo, todo o ideário sonoro que tem guiado a carreira deste projeto britânico, através da simbiose entre as batidas graves e palmas, a voz sussurrada de Best e o groove de um teclado retro, ao qual se juntam amiúde efeitos metálicos percurssivos com uma declarada essência vintage. É uma filosofia interpretativa que, numa mescla entre electropop, disco e o clássico krautrock alemão setentista, nos proporciona um dos alinhamentos mais dançáveis do ano, mesmo que à primeira audição essa caraterística não pareça muito evidente. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 21:41

Björk – Fossora

Quinta-feira, 13.10.22

Fossora é o curioso título do novo disco de originais da islandesa Björk, uma artista exímia a mostrar o quanto o cenário musical do país de onde é originária é inspirador, mas também ela, por si só, uma verdadeira fonte de inspiração para imensos artistas. E o deslumbre que ela irradia, há já três décadas de uma carreira extraordinária, sente-se na pafernália de sons, detalhes e efeitos que vão cirandando em redor da uma voz que parece sempre encontrar, disco após disco, novo motivos para olhar com optimismo para o mundo que a rodeia.

The Quietus | News | Björk Shares Title Track From New Album, 'Fossora'

Fossora não foge a esta permissa, num alinhamento de treze composições, impecavelmente representadas logo em Atopos, o primeiro tema do registo, uma canção instrumentalmente poderosa, assente num registo percussivo luxuriante e numa imponente secção de sopros, duas nuances habituais no quase sempre celebratório modus operandi sonoro da autora e que versa sobre a necessidade intrínseca à nossa essência humana de procura do outro, utilizando como ponto de partida uma famosa expressão do filósofo Roland Barthes, que traduzida diz algo do género: As nossas diferenças são irrelevantes e o nosso desejo de união é mais forte do que nós

Fossora (escavadora em islandês) é, portanto, um compêndio que foge ao convencional, mas que não deixa, por isso, de conter uma profundidade e uma emotividade bem vincadas. Aliás, sente-se ao longo do disco uma sensação quase física de contacto com algo parecido com o subsolo, uma caraterística muito própria da melhor música tradicional islandesa e que Björk manipula com imaculada destreza, através de sintetizações rugosas e batidas vincadas, mas também com detalhes angelicais, que acabam por conferir a essa sensação uma feminilidade bastante intensa. De facto, as canções exalam tudo aquilo que a autora pretende, quer seja algo sobre o amor e o romantismo, mas também a separação ( Sorrowful Soil), ou sobre a própria morte e o luto (a morte da ativista Hildur Rúna Hauksdóttir, mãe de Björk, inspirou alguns dos temas de Fossora, em particular Ancestress), mesmo que, à partida, a estrutura do tema e a sua própria sonoridade não transpirem equivalência relativamente à componente lírica. Aliás, esta questão da morte e da inevitabilidade da mesma e da necessidade de a encarar de frente, é mesmo a ideia central do álbum, aprofundada pela seleção do universo dos fungos como adereço estilístico visual privilegiado do registo, de modo a mostrar que com a morte também existe a possibilidade de um recomeço, apesar da dor do fim de algo ou de alguém, que ela sempre representa.

Repleto de ilustres convidados, Fossora é um extraordinário disco assente numa estética com elevada filosofia orgânica e centrada eminentemente no sintético e na vastidão percurssiva orgânica que está disponível para todos mas que é ainda pouco explorada, talvez o território onde esta artista islandesa se tem sentido mais confortável ao longo da carreira. É um registo sólido e uniforme e muito centrado, liricamente, nas fraquezas individuais e na fragilidade própria da existência humana. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 17:25

Mi Mye – my name's wimp vs bow saw and the EQ EP

Quarta-feira, 12.10.22

Comparados constantemente a nomes tão proeminentes como os The National ou os Sparklehorse, os britânicos Mi Mye acabam de oferecer aos seguidores do universo sonoro indie e alternativo, um curioso duplo lançamento e em simultâneo, ou seja, no mesmo dia. É um registo de originais, em formato álbum, de dez canções, intitulado my name's wimp e um ep com cinco composições chamado the bow saw and the eq.

MI MYE SHARE NEW SINGLE 'OK, SO' AND ANNOUNCE FIFTH ALBUM - Circuit  SweetCircuit Sweet

Tendo em conta o conteúdo sonoro destes dois lançamentos, talvez fizesse todo o sentido abordar ambos em separado. No entanto, como os dois não coexistem desse modo, a opção da nossa redação acabou por recair na crítica em simultâneo, mas feita de um modo generalizado, com o cuidado de abarcar a filosofia estilística dos dois trabalhos, mas sem deturpar a essência de cada um.

Se o alinhamento de nove canções de my name's wimp, contém uma indisfarçável radiofonia que procura chegar a um leque alargado de público, sendo Pleas Let Me Fix This a composição que de modo mais impressivo nos coloca na linha da frente do contexto pretendido para o registo, the bow saw and the eq oferece-nos, por outro lado, composições com outro nível açucarado qualitativo, já que, na nossa modesta opinião, ilustram de modo mais fiável e sincero o quanto certeiros e incisivos os Mi Mye, que se dividem entre Wakefield e Leeds, conseguem ser na replicação do ambiente sonoro que escolheram para a sua carreira e que tem o melhor indie rock alternativo de forte cariz lo fi em declarado ponto de mira. Love Holds (When The Back Pain Was Sorted) é uma daquelas canções que dificilmente se escutam no circuito comercial, mas que deixam uma marca forte, plena de profundidade e força, não só por ser instrumentalmente luxuosa, adulta e impressionista, mas também porque é emocionalmente sublime.

Seja como for, a receita é, no fundo, semelhante nos dois cardápios, assentando num registo vocal eminentemente narrativo, na conjugação de sintetizadores de forte cariz retro, com cordas inspiradas, num baixo vigoroso e num perfil percussivo geralmente enleante. O intuito dos Mi Mye nesta dupla triagem terá sido o reencontro com o simples prazer de compôr e criar, tendo apenas como bitola, além da já rica herança da banda, o gosto pessoal do núcleo duro que sente prazer em proporcionar aos seus ouvintes uma espécie de convite à alegria e à celebração em modo canção, mas fazendo-o com uma sofisticação e um hipnotismo verdadeiramente encantadores, além de uma sensação de modernidade indesmentível. my name's wimp e bow saw and the EQ estão disponíveis para download gratuito pela própria banda. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 16:30

Broken Bells – Into The Blue

Terça-feira, 11.10.22

Oito anos depois do último registo de originais, um alinhamento de onze canções intitulado After The Disco, os Broken Bells de Danger Mouse e James Mercer, vocalista dos The Shins, estão de regresso aos lançamentos discográficos com Into The Blue, o terceiro disco do projeto, um trabalho que tem a chancela da AWAL e que possibilita, merecidamente, um regresso à ribalta desta dupla que se conheceu há dezoito anos nos bastidores do festival de Roskilde, na Dinamarca.

James Mercer: 'Broken Bells started because The Shins got too heavy' – video

Regresso há muito aguardado pela nossa redação e por uma vasta legião de seguidores por esse mundo fora, este novo disco dos Broken Bells é um portento inabalável de indie pop, daquela indie pop charmosa, convincentemente majestosa e descaradamente fulgurante, incubado por dois músicos com provas mais do que dadas em variadíssimos subgéneros sonoros, quer como autores, compositores e intérpretes, mas também quer como produtores. Assim, com uma herança tão rica em ombros, só aos mais distraídos é que pode surpreender o elevadíssimo refinamento deste alinhamento de nove canções, que entusiasma e suscita sem grande sacrifício repetidas, mas sempre prazeirosas audições, garanto.

Logo na majestosidade e na riqueza instrumental do tema homónimo, que abre o disco, percebemos que há algo de indistinto e único nos próximos pouco mais de trinta minutos de audição que temos pela frente, mas também algo de familiar. De facto, algo que os Broken Bells têm no seu adn, goste-se ou não da fórmula, é o cariz marcante da sua música. Existe uma marca indelével no seu catálogo, um perfil interpretativo irrepetível e ao alcance de poucos. E o elevado cariz identitário desta dupla, plasma a astúcia e o vigor da ligação pessoal e profissional entre dois artistas que o destino condenou ao encontro, para felicidade de muitos milhares de outros seres que têm o bom gosto primeiro e o privilégio depois, de contar com este projeto californiano na banda sonora essencial das suas vidas. 

Canções como a acusticidade belíssima das cordas que conduzem Invisible Exit, ou Love On The Run, uma majestosa, longa e intrincada canção que nos afaga num clima soul intenso e algo intrigante, com uma mescla feliz entre guitarras e trompetes a conferir-lhe a determinada altura uma toada psicadélica, são, de algum modo, os dois pólos antagónicos de um alinhamento que, sem sombra de dúvida, eleva para um patamar ainda mais eclético e diferenciado o tal adn muito próprio e identitário de uma dupla que depois, em Saturdays, no modo como alia um fabuloso baixo, melodicamente astuto, com alguns detalhes sintéticos efusiantes e guitarras repletas de distorções retro e harmoniosamente sempre subtis, amplia ainda mais a impressão firme de que beleza, emotividade e vigor são também aspetos relevantes de um álbum que, apesar dessas caraterísticas que parecem impôr algum respeito, tem a capacidade explícita de nos envolver num cenário muito próprio, tornando-nos quase que íntimos da dupla que fabricou estas nove canções.

O universo dos Broken Bells sempre oscilou entre atmosferas místicas carregadas com harmonias vintage e terrenos cósmicos futuristas, numa vivência feliz entre o retro e o tecnológico, assente em doces melodias e sofisticados arranjos vocais, com o falsete de Mercer, efusivo, a dar um pulsar e um charme verdadeiramente único aos seus próprios versos. Em Into The Blue este cardápio traça-se nas curvas sinuosas de um caminho que faz esta parceria Broken Bells atingir, finalmente, o real e maior potencial dos seus dois pólos. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 21:11

Pete Astor - Time On Earth

Segunda-feira, 10.10.22

Quatro anos depois do muito recomendável registo One For The Ghost, o britânico Pete Astor, músico já veterano nestas andanças, tendo ao longo da sua carreria dado a cara por bandas tão proeminentes como os The Loft ou os The Weather Prophets, está de regresso aos discos com Time On Earth, dez canções que encarnam uma excelente opção para quem aprecia aquela sonoridade pop folk algo cósmica e luminosa e ligeiramente lo fi.

Review: Singer/Songwriter Pete Astor Returns to Explore His 'Time On Earth'  - American Songwriter

Aposta firme da Tapete Records desde dois mil e dezassete e já com um catálogo de onze discos em carteira, Pete Astor é, desde mil novecentos e oitenta e sete, exímio a encher os nossos ouvidos com a simplicidade óbvia que contêm, geralmente, aquelas belíssimas melodias conduzidas por cordas, ora acústicas ora eletrificadas, cujo dedilhar, seja qual for a opção selecionada, é sempre inspirado. Excelente guitarrista, Pete Astor mostra neste Time On Earth, e uma vez mais, essa constatação, assente em toda a sua destreza com a viola e a guitarra e a capacidade inata que possui para criar música conseguindo abarcar vários géneros e estilos do universo sonoro indie e alternativo e comprimi-los em algo genuíno e com uma identidade muito própria.

Registo muito marcado pelo meio século de vida do autor e, por isso, um exercício sonoro em que o mesmo coloca a sua vida um pouco em perspetiva, percebendo aquela angústia de quem nota que o passado é mais longo do que o espaço temporal que ainda lhe resta, algo plasmado com elevado grau de impresisonismo em canções como Sixth Form Rock Boys e English Weather, mostrando, também, em temas como New Religion, Time on Earth, Miracle on the High Street, que são muitas vezes as crenças que guardamos no nosso âmago,  os portos de abrigo mais seguros nos momentos em que o nó na garganta aperta mais um pouco, principalmente quando a finitude dos dias e a inevitabilidade da morte parecem mais próximas. Undertaker e Fine and Dandy lidam, aliás, com essa questão da incapacidade que todos sentimos e ludibriar a morte.

Time On Earth tem, em suma, aquele perfil sonoro que muitas vezes sublima folk e pop com alguns dos melhores tiques identitários do melhor rock alternativo de elevado cariz oitocentista e onde não faltram alguns laivos de uma muito rtecomendável psicadelia, enquanto expõe o mundano e a intimidade, num resultado final que contém uma urbanidade e um charme minimalista que cativa e só surpreende os mais distraídos. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 16:31

Two Door Cinema Club – Keep On Smiling

Sexta-feira, 07.10.22

Keep On Smiling é o título do quinto e novo registo dos irlandeses Two Door Cinema Club, um alinhamento de doze canções escritas pelo grupo durante os sucessivos confinamentos que a recente situação pandémica proporcionou. É um disco que chegou aos escaparates digitalmente em setembro, mas fisicamente só irá ver a luz do dia lá para novembro, através da francesa Kitsuné Music.

Two Door Cinema Club – 'Keep On Smiling' review

Contando nos créditos da produção com o conceituado Jacknife Lee, Keep On Smiling é um exemplar e eficaz exercício de criação sonora, que originou um alinhamento de canções que tem o intuito claro de oferecer ao ouvinte sorrisos fáceis e uma bo dose de positivismo, algo imprescindível e que se saúda nestes tempos conturbados que vivemos. A pop tem, de facto, esse condão de, sendo devidamente reinterpretada, proporcionar instantes de prazer sonoros, mesmo que a bitola qualititavia e o grau de criatividade dos mesmos não esteja nos píncaros, não sendo, esclareça-se desde já, este o caso, já que este disco consegue tal desiderato com excelência.

Keep On Smiling tem, portanto, essa virtude de facilitar ao ouvinte a assimilação do seu conteúdo, em doze canções audazes e encharcadas em radiofonia e, como seria expetável nos Two Door Cinema Club, conceptualmente abrangentes. Há indie rock majestoso em Millionaire, uma interessante abordagem à eletrónica mais alternativa em Blue Light e até ao rock progressivo na contundente Feeling Strange, mas também não faltam travos de blues em Little Piggy e de eletro funk em Won't do Nothing.

Em suma, Keep On Smiling é positividade, força, arrojo, engenho e sedução, num disco intenso e feliz, sonoramente incandescente e que alimentando-se, na sua essência, de uma fusão ímpar entre o indie rock mais efusivo e efervescente, com aquela pop experimental new wave, feita com o travo retro proporcionado pelo sintetizador, coloca nos nossos ouvidos quarenta e dete minutos sonoros de superior quilate. É um álbum que merece ser caraterizado e visto como um marco discográfico incontornável da reentrée. Espero que aprecies a sugestão...

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por stipe07 às 16:52






mais sobre mim

foto do autor


Parceria - Portal FB Headliner

HeadLiner

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Man On The Moon · Man On The Moon - Programa 502


Disco da semana 159#


Em escuta...


pesquisar

Pesquisar no Blog  

links

as minhas bandas

My Town

eu...

Outros Planetas...

Isto interessa-me...

Rádio

Na Escola

Free MP3 Downloads

Cinema

Editoras

Records Stream


calendário

Dezembro 2022

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.