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Sigur Rós – Stendur æva

Quarta-feira, 18.11.20

Os islandeses Sigur Rós são provavelmente os maiores responsáveis pela geração a que pertenço se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e de estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical. Ao lado da conterrânea Björk, este projeto não apenas colocou a Islândia no mapa dos grandes expoentes musicais, como definiu de vez o famigerado pós rock, género que mesmo não sendo de autoria da banda, só alcançou o estatuto e a celebração de hoje graças, em grande parte, ao rico cardápio instrumental que este grupo conseguiu alicerçar nas mais de duas décadas que já leva de existência.

Stream "Stendur æva", Sigur Rós' New Orchestral Single | Consequence of  Sound

Agora, sete anos depois do último disco da banda, o aclamado Kveikur,  os Sigur Rós voltam a fazer mossa com Odin’s Raven Magic, um disco orquestral ao vivo, que conta com as participações de vários músicos do país da banda, nomeadamente Maria Huld Markan Sigfúsdóttir do projeto Amiina, Hilmar Örn Hilmarsson e Steindór Andersen e que é inspirado num poema medieval islandês chamado Edda e que retrata um banquete de deuses marcado por presságios agoirentos sobre o fim do mundo. Já agora, a primeira interpretação desta verdadeira banda sonora de um poema sucedeu um par de vezes, há já dezoito anos, em dois mil e dois, no evento Reykjavik Arts Festival. Este lançamento em disco de Odin’s Raven Magic, que vai acontecer a quatro de dezembro à boleia do consórcio Krunk vs Warner, teve os arranjos assinados por Kjartan Sveinsson e por Sigfúsdóttir, da banda Amiina e capta uma performance no La Grande Halle de la Villette, em Paris, em setembro de dois mil e quatro.

Stendur æva (stands alive) é o mais recente tema divulgado deste novo registo dos Sigur Rós que faz uma súmula desse concerto em Paris, uma composição efervescente e onde todas as opções instrumentais, predominantemente sintéticas e minimalistas, mas também fortemente orgânicas e dominadas pelas cordas e pelos sopros da orquestra participante, se orientaram de forma controlada. A canção é marcada por um loop hipnótico conferido por um curioso xilofone construído a partir de fragmentos de pedra rudemente talhados, da autoria do escultor Páll Guðmundsson. A partir dessa base, os restantes elementos instrumentais, a voz profunda de Andersen e o falsete de Jonsi vão conjurando entre si até se aglutinarem num clímax sereno, mas bastante emotivo, resultando, no seu todo, num salutar grau de epicidade, sendo a audição da composição uma experiência auditiva de forte pendor metafísico e sensorial. Confere Stendur æva e a tracklist de Odin’s Raven Magic...

Sigur Rós - Stendur æva

1. Prologus 
2. Alföður orkar 
3. Dvergmál 
4. Stendur æva 
5. Áss hinn hvíti 
6. Hvert stefnir 
7. Spár eða spakmál 
8. Dagrenning

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publicado por stipe07 às 10:20

Matt Berninger – Serpentine Prison

Segunda-feira, 16.11.20

Já viu a luz do dia Serpentine Prison, o disco de estreia da carreira a solo de Matt Berninger, um registo que deve muito do seu conteúdo ao período de confinamento que o músico viveu em Nova Iorque e que lhe permitiu debruçar-se com maior empenho neste seu projeto paralelo à realidade The National. Serpentine Prison conta nos créditos com os produtores Booker T. Jones e Sean O’Brien, e viu a luz do dia através da Book Records, uma nova etiqueta, subsidiária da Concord Records e formada por Berninger e Jones em conjunto.

Matt Berninger – 'Serpentine Prison' review: poise and prowess

Por muitas voltas que Matt Berninger dê à sua carreira musical, seja a solo, seja nos The National ou no projeto El VY, há sempre um tronco comum a todas as suas abordagens artísticas, as ideias de melancolia, de angústia amorosa e de sofrimento mais ou menos profundo devido a esse sentimento único. Serpentine Prison não foge à regra, num registo quem mostra logo esse adn do músico em My Eyes Are T-Shirts (When I see you something sad goes missing, I stop crying, lay down and listen, I hear your voice and my heart falls together, please come back, baby, make me feel better) e, logo a seguir e com uma sobriedade descomunal em Distant Axis, um tema que foi crescendo a partir de um esboço criado por Walter Martin (The Walkmen) e que tinha o nome inicial Savannah. Distant Axis é, aliás, a canção que melhor conjuga, na minha opinião, as dimensões lírica e sonora de Serpentine Prison, uma lindíssima composição, instrumentalmente riquíssima e repleta de arranjos das mais diversas proveniências, com uma toada emotiva crescente e na qual cordas e piano se deixam cobrir com mestria por uma nuvem espessa de classicismo e por uma aúrea de sentimentalismo e sensibilidade únicos, impressões ampliadas pela superior delicadeza do registo vocal grave de Berninger.

Berninger é, na sua essência, confessionalmente monocromático e, artisticamente, uma fonte inesperada de soul, conforme se percebe, por exemplo, em One More Second, ou nas cordas que abraçam generosamente a sua voz suplicante em Loved So Little. Poucos duvidam que pessoalmente não seja uma personagem irrequieta, bem humorada e divertida, sendo público o seu sorriso fácil e uma genuína simpatia. É um ser repleto de cor e de jovialidade, mas, artisticamente, este autor, cantor e compositor sempre preferiu uma outra profundidade, fazendo-o com uma abordagem genuína e biográfica, plasmada numa faceta cinza que o coloca num pedestal de refinamento e classicismo exuberante e até algo distante da filosofia dos The National, eminentemente crua, enérgica e imediata, quando comparada com esta proposta em nome próprio.  O piano que conduz Take Me Out Of Town é uma sagaz ilustração desta sua visão requintada e charmosa do processo de composição e o cariz boémio e nublado de Collar Of Your Shirt um marco de nobreza melancólica que todos devemos apreciar com elevada devoção.

Em suma, Serpentine Prison oferece-nos com tremenda nitidez alguns dos maiores medos e inseguranças do autor e Berninger fá-lo aqui tornando-se na própria estrela que interpreta o estilo particulamente cinematográfico de uma escrita sempre tocante, intensa e realista. Espero que aprecies a sugestão...

Matt Berninger - Serpentine Prison

01. My Eyes Are T-Shirts
02. Distant Axis
03. One More Second
04. Loved So Little
05. Silver Springs (Feat. Gail Ann Dorsey)
06. Oh Dearie
07. Take Me Out of Town
08. Collar Of Your Shirt
09. All For Nothing
10. Serpentine Prison

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publicado por stipe07 às 17:56

Glass Vaults – Sounds That Sound Like Music

Sexta-feira, 13.11.20

Os Glass Vaults são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em dois mil e quinze à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

Glass Vaults Drop New LP 'Sounds That Sound Like Music' - Music News at  Undertheradar

Dois anos depois, em dois mil e dezassete, The New Happy, o magnífico sucessor desse registo de estreia e que contava com as participações especiais de Daniel Whitaker, Ben Bro e Hikurangi Schaverien-Kaa, inebriou-nos com mais um desfile multifacetado de temas que impressionavam pela grandiosidade, patente nos samples, nos teclados e nos sintetizadores, sempre livres de constrangimentos, num disco onde não havia regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos.

Agora, em dois mil e vinte, a banda neozelandesa volta à carga com Sounds That Sound Like Music, onze composições misturadas por Bevan Smith e que têm como maior destaque o notável trabalho percurssivo que cobre todo o alinhamento do registo. Logo à primeira audição percebe-se que essa é a nuance que mais impressiona num álbum bastante vivo, tremendamente dançável e que mostra este projeto inimitável no modo como genuinamente manipula o sintético e o torna vibrante, fazendo-nos bater constantemente o pé e abanar a anca à boleia de determinados sons que, à partida, poderiam ser compreendidos por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, sem potencial para se converterem em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico e festivo.

O contagiante e sensual clima techno de Oils And Perfume, a sensualidade glam de High Heels, a toada escaldante de Pure Imagination, a banda sonora que vai abrir a primeira rave em Saturno em dois mil e oitenta e nove, o forte cariz sensorial com ligeiro resvalo no funk de Who Would I Become For Love, a magnificiência pop e daftpunkiana de Boys On Boys e o minimalismo hipnótico de Flat White Boy, são canções impregnadas com essa filosofia estilística que encharca este Sounds That Sound Like Music e que tem nas batidas, nos compassos e no andamento harmónico e melódico, as referências maiores, num resultado final que pode ser por nós apropriado para expormos, intimamente ou publicamente, sentimentos de alegria e exaltação, mas também de arrepio e um certo torpor perante a grandiosidade de uma receita sonora cujos fundamentos só podem ser descodificados pelos membros de um dos projetos mais inovadores e consistente da indie pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Vaults - Sounds That Sound Like Music

01. Sounds That Sound Like Music, Part 1
02. Oils And Perfume
03. Pure Imagination (Feat. Instant Fantasy)
04. Who Would I Become For Love?
05. High Heels
06. Better Weather
07. Boys On Boys
08. Flat White Boy
09. Jang 97 BPM
10. Dilute The Water
11. Sounds That Sound Like Music, Part 2

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publicado por stipe07 às 18:03

Noiserv – Uma Palavra Começada Por N

Sexta-feira, 06.11.20

Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional e um dos artistas queridos da nossa redação chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na sua bagagem um já volumoso compêndio de canções, que começaram a ser inscritas nos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra, adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's There. No outono de dois mil e dezasseis a carreira do músico ganhou um novo impulso com um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas que se tornou, justificadamente, mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional. Agora, quatro anos depois dessa pérola debitada quase integralmente nas teclas de um piano, Noiserv regressa com Uma Palavra Começada Por N, onze lindíssimas composições que, em pouco mais de meia hora, nos oferecem um David Santos de regresso a territórios sonoros mais intrincados, subtis e diversificados, com o registo, no seu todo, a proporcionar-nos um banquete intenso e criativo e a impressionar pelo modo como diferentes naunces, detalhes e samples se entrelaçam quase sempre com uma base melódica algo hipnótica, mas extremamente doce e colorida.

Noiserv - Caixa de música ONZE - man on the moon

Gravado no no seu novo estúdio A Loja e com alguns dos temas a terem já direito a excelentes vídeos que resultam de uma colaboração com os leirienses Casota Collective, Uma Palavra Começada Por N  marca também o regresso de Noiserv à língua de Camões, nomeadamente no modo como se serve da mesma como elemento estético fundamental das suas canções. De facto, a excelência melódica que faz já parte do adn deste músico e compositor lisboeta é aqui exemplarmente acompanhada por inquietantes letras que, sendo devidamente esmiuçadas, gostam de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera que as coisas mais simples desta vida nos podem proporcionar e a realidade às vezes tão crua, porque temos sempre a tendência natural para a complicar, um detalhe que ele soube, de novo, tão bem descrever, por exemplo, nas estrofes de Picotado (Regressa sempre em pressa, só por estar, Mas volta nessa vida torta, uma dança pouco solta, Picotado até lugar nenhum, Sempre só, sempre), ou de Neste Andar (As portas passavam sempre aos pares, Enquanto eu, só, encenei tudo, encenei tudo), apenas dois de vários outros exemplos que eu poderia trazer à baila para justificar esta minha opinião.

Mas há outras conclusões que são possíveis de extraír deste registo, além do notável avanço que o mesmo expressa relativamente à performance do autor como poeta e escritor e que, além das duas canções citadas, também em temas como Eram 27 Metros De Salto ou Neutro atinge picos de excelência. Olhando agora para a vertente sonora do alinhamento de Uma Palavra Começada Por N, uma das notas mais evidentes é que este músico e produtor, que ao longo da carreira tem açambarcado para a sua bagagem mental, com indelével e vincado carimbo, imensa herança sonora da vasta míriade de latitudes audíveis na indie contemporânea, desde, principalmente, o estupendo Almost Visible Orchestra (2013), um trabalho laborioso de lapidação, detalhe, delicadeza e refinamento, que alcancou, três anos depois, laivos de excelência através das burilações exacerbadas que sustentaram as sequências ao piano de 00:00:00:00 (2016), agora alargou os seus horizontes, com superior mestria. Uma Palavra Começada Por N estabelece pontes entre aquilo que é definido como o orgânico e o acústico com o universo que geralmente carateriza aquela eletrónica de cariz mais ambiental, uma simbiose também sempre patente nas suas atuações ao vivo, em que é cada maior e mais intrincada a pafernália instrumental que o rodeia. De facto, este trabalho parece querer mostrar que Noiserv não receia minimamente que as suas criações possam depender, mais do que nunca, de todo um vasto catálogo de ligações de fios e transistores que debitam um infinito catálogo de sons e díspares referências, nem de encontrar o seu espaço particular dentro da vanguarda eletrónica que define muita da música atual, porque, ao mesmo tempo e também sossegando de algum modo os mais seus seguidores mais puristas, o disco está também repleto de momentos em que são as cordas e o piano quem ditam as regras e sobem ao trono sagrado no arquétipo sonoro desses mesmos instantes.

Assim, se no início algo subversivo, imersivo e singular de < i >, relativamente à herança de Noiserv, se percebe que em Uma Palavra Começada Por N pouco ou nada do que vamos escutar será facilmente comparável ao que já conferimos deste artista anteriormente, o crescente teclado hipnótico, a percurssão frenética e as delicadas inserções vocais que conduzem a já referida Eram 27 Metros De Salto, o majestoso clima borbulhante de Meio, assim como a indescritível montanha-russa de flashes, efeitos e interseções que se vão sobrepondo em Mas e que criam laços indeléveis com as cordas em Parou, amplificam tal audácia progressiva e fazem-no, ainda por cima, de modo profundamente emotivo e cinematográfico. Noiserv mostra-se, logo nesta primeira metade do disco, um genuíno e incomparável manipulador do sintético, um génio inventivo que converte tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico, mesmo que a tal nuvem minimal, nunca o traia, porque não fica. em nenhum instante, para trás.

No entanto, a partir daí,  na pueril melancolia afetiva a que sabe o piano que nos embala em Picotado, uma das canções mais bonitas de dois mil e vinte, no doce e tocante travo de Neste Andar e no arrojado psicadelismo das cordas que inflamam o manto sintético que abraça Neutro, percebemos que Noiserv mantém sempre, na tal interessante dicotomia em que agora subsiste e que é única no cenário alternativo nacional, um intenso charme, induzido por uma filosofia interpretativa que, mesmo tendo por trás um infinito arsenal instrumental, nunca abandona aquele travo minimalista, pueril, orgânico e meditativo que carateriza o cardápio sonoro deste músico único.

Em suma, não tendo qualquer tipo de preocupação explícita por compôr de modo particularmente comercial e acessível, o que desde logo é um enorme elogio que pode ser feito em relação a este autor, Noiserv deixa-se apropriar de todo o arsenal tecnológico que permite que seja colocado à sua disposição e torna-se ele próprio parte integrante do mesmo que, abraçando o músico, consome-o e dele se apropria. É por Noiserv não ter medo de se deixar enlear e possuir pelas opções instrumentais que toma, que as suas canções ganham a alma e o elo de ligação com a humanidade, que as carateriza, um desejo ardente que sempre o conduziu artisticamente, até porque, em entrevista dada ao nosso blogue há já sete anos, na ressaca de Almost Visible Orchestra, Noiserv confessou-nos que tem como único desejo que as suas músicas possam um dia fazer parte da vida de quem as ouve. O rumo evolutivo que o músico resolveu seguir em Uma Palavra Começada Por N, mostra que está, definitivamente, no bom caminho para atingir esse seu ardente desejo pessoal, suportado em músicas que, além de serem uma intensa fonte de prazer sonoro, têm cheiro, cor e sabor únicos no cenário musical alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Noiserv - Uma Palavra Começada Por N

01. < i >
02. Eram 27 Metros De salto
03. Mas
04. Parou
05. Meio
06. Picotado
07. Neste Andar
08. Neutro
09. Sem Tempo
10. Por Arrasto
11. Sempre Rente Ao Chão

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publicado por stipe07 às 14:12

Kevin Morby - Sundowner

Quinta-feira, 05.11.20

Foi em dois mil e dezanove que Kevin Morby nos presenteou com Oh My God, um compêndio de catorze excelentes canções que exploravam até à exaustão o conceito de religiosidade, em temas como OMG (abreviatura de Oh My God)Congratulations, canção em que eram audíveis várias mulheres de diferentes idades a pedir a Deus por misericórdia, ou Sing A Glad Song, canção que evocava as qualidades de um Deus chamado Bob Dylan, só para citar alguns exemplos de um trabalho que foi muito bem aceite pela crítica e que assentava numa folk rock de primeira água.

Kevin Morby on the Midwestern romance behind Sundowner | The FADER

Esse registo Oh My God já tem sucessor, um trabalho intitulado Sundowner, o sexto da carreira do músico natural de Lubbock, no Texas e que começou a ser gravado depois de Morby ter regressado aos arredores de Kansas City, após uma temporada em Los Angeles. Esse regresso a casa, a relação com a também cantora e compositora Katie Crutchfield, do projeto Waxahatchee e a realidade pandémica atual acabam por definir o triângulo filosófico de um trabalho que também tem o propósito de colocar a América mais profunda no centro das atenções, de acordo com o próprio Morby (Sundowner is a attempt to put the Middle American twilight, its beauty profound, though not always immediate, into sound).

Não será por acaso que Don’t Underestimate Midwest American Sun é a canção preferida de Morby deste Sundowner, uma relato impressivo e clarividente de uma América claramente dividida entre dois pólos e que talvez, no campo musical, tenha na típica folk o instrumento mais eficaz de busca de pontes entre tão vincado antagonismo (Don’t Underestimate Midwest American Sun is my favorite song off of the new album, and the one I’m most proud of. I consider space to be a prominent instrument on the song, and here it is as important as anything else you hear on the track. It was my goal to capture the vast openness of the middle American landscape sonically. To this end, there is a whole track of nothing but Texas air, birds and wind chimes living beneath the song).

Wander, uma composição intensa e com aquele travo típico da melhor folk norte-americana, tendo já direito a um vídeo filmado nas proximidades de Kansas e que mostra a já referida Katie Crutchfield a conduzir uma carrinha de caixa aberta por uma estrada vazia, é uma espécie de apelo sentido de Morby à reconciliação, uma canção conduzida por uma viola acústica e bastante melancólica e climática, mas intensa e com uma amplitude muito vincada, fazendo juz à descrição da mesma, feita por Morby e transcrita acima.

De facto, Kevin Morby vem, disco após disco, aprimorando um modus operandi bem balizado, que se define por opções líricas em que dominam ambientes nublados, intimistas e reflexivos e um catálogo sonoro emimentemente delicado e fortemente orgânico, sem artifícios desnecessários, ou uma artilharia instrumental demasiado intrincada. E é este, claramente, o travo geral de Sundowner, um disco minimalista, que procura a interação imediata, mas também profunda, com o ouvinte e que tem no piano e nas cordas as armas de arremesso preferenciais.

Temas como a sussurrante e melancólica A Night at the Little Los Angeles, a etérea e contidaValley, ou a já citada Wonder, assim como a emotiva Campfire, são, além de outras canções acima descritas, a prova cabal de que Kevin Morby é sagaz no modo como vai, disco após disco, subindo degraus no que concerne ao conteúdo qualitativo dos seus registos, fazendo-o com segurança e altivez, nunca beliscando uma apenas aparente dicotomia entre aquilo que é a grandiosidade da sua filosofia criativa e o modo minimal, simples e direto como a expôe, através de canções repletas de beleza, sensibilidade e conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Kevin Morby - Campfire

01. Valley
02. Brother, Sister
03. Sundowner
04. Campfire
05. Wander
06. Don’t Underestimate Midwest American Sun
07. A Night At The Little Los Angeles
08. Jamie
09. Velvet Highway
10. Provisions

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publicado por stipe07 às 20:50

This Is The Kit - Off Off On

Segunda-feira, 02.11.20

Os This Is The Kit da britânica Kate Stables estão de regresso aos discos com Off Off On,  sucessor do belíssimo registo Moonshine Freeze, que viu a luz do dia em dois mil e dezassete. Off Off On foi produzido pelo extraordinário multi-instrumentista Josh Kaufman dos Bonny Light Horseman que, como certamente se recordam, faz parte do projeto MUZZ, juntamente com Paul Banks dos Interpol e Matt Barrick dos The Walkmen, que se estreou nos álbuns com um homónimo no final da passada primavera.

This Is the Kit Announces LP Off Off On, Streams "This Is What You Did" |  Consequence of Sound

Off Off On é mais um documento notável no modo como retrata a já mítica expressividade lírica de Kate Stables, que também pode ser catalogada de poeta, além de compositora e cantora. De facto, não faltam exemplos neste novo álbum dos This Is The Kit que comprovam a sua imensa habilidade com as palavras e o modo como se consegue servir delas, sem usar um vocabulário intrincado, para pincelar emoções e vivências. Basta conferir a inspiradora e confessional Starting Again (Carefully you must build it up again, Steadily you must fall apart) ou a dramatização que é encenada sem pudor algum em This is What You Did (This is what they want, why are you still here? This is what they said, this is what you get,) para se perceber como Stables é notável a escrever letras bastante impressivas no modo como nos afagam com verdadeiras novelas, reais ou fictícias, pouco importa, sobre a sua intimidade, que pode ser muito bem também a nossa. Esta é, desde sempre, uma das imagens de marca deste projeto This Is The Kit, que nunca deixou de nos brindar com inspirados retratos melódicos de uma contemporaneidade cada vez mais conturbada e, também por isso, fértil no modo como suscita a criação de uma paisagem imensa e ilimitada de possibilidades, dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual.

Para dar vida e cor às histórias que nos quer contar, Stables olha com gula para as cordas, faz delas o seu trunfo maior no processo de construção das canções e, aliando à viola e à guitarra uma vasta míriade de recursos percurssivos e inspirados sopros, com o trompete neste disco a tornar-se peça fulcral de várias composições, sustenta um adn sonoro com elevado travo indie. Em toda esta trama interpretativa, do rock alternativo à folk, é vasta a amplitude e abrangência do catálogo disponibilizado num registo com onze canções feitas, no seu todo, de toda esta combinação etérea de superior calibre, reservada e contida em alguns momentos, mas também iluminada e vibrante noutros, sempre na medida certa e, no global, inultrapassável no caudal de emoções que arrasta à sua passagem.

Off Off On é, pois, um disco onde intensidade sentimental e sobriedade instrumental se juntam, para permitir que, ao longo da sua audição, nos possamos sentir profundamente tocados por uma nobreza única, que arrebata e salpica com suores quentes todos os poros do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

This Is The Kit - Off Off On

01. Found Out
02. Started Again
03. This Is What You Did
04. No Such Thing
05. Slider
06. Coming To Get You Nowhere
07. Carry Us Please
08. Off Off On
09. Shinbone Soap
10. Was Magician
11. Keep Going

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publicado por stipe07 às 17:24

EELS – Earth To Dora

Sexta-feira, 30.10.20

Dois anos depois do excelente registo The Deconstruction, os Eels de E. (Mark Oliver Everett), Kool G Murder e P-Boo regressam hoje mesmo aos lançamentos, no penúltimo dia de outubro deste ano em que se comemoram duas décadas da edição do belíssimo clássico do grupo Daisies Of The Galaxy. O décimo terceiro e novo disco dos Eels intitula-se Earth To Dora e foi gravado no estúdio da banda em Los Feliz, na Califórnia, tendo as sessões de composição e de gravação começado ainda antes do atual período pandémico.

Mark Everett Shares What Went Into Making EELS Latest, 'Earth to Dora'

Em pleno processo de restabelecimento de uma profunda crise de meia idade provocada por três décadas de intensa atividade musical, quase ininterrupta, que o fizeram atingir um profundo desgaste quer físico, quer emocional, levando-o a uma espiral depressiva que o fez perder a sua segunda esposa, uma senhora escocesa que lhe deu o seu primeiro filho em mil novecentos e dezassete, Mark Everett, que usa óculos desde que foi atingido por um laser num concerto dos The Who nos anos oitenta, viveu a sua vida sempre habituado a conviver com a tragédia na sua vida pessoal e a superar eventos nefastos. Tudo começou em mil novecentos e oitenta e dois com a morte por ataque cardíaco do pai, o famoso físico Hugh Everett,  na altura profundamente deprimido por nunca ter conseguido que a sua teoria sobre física quântica fosse aceite no meio científico. Década e meia depois aconteceu o suícidio da irmã Elizabeth em mil novecentos e noventa e seis e a partida da sua mãe, Nancy Everett, devido a um cancro, meses antes do lançamento do espetacular registo Electro-Shock Blues, (1998), disco que se debruça de modo particularemtne impressivo sobre esta espiral de eventos marcantes da vida de Mr E., que ainda teve mais um capítulo no onze de setembro de dois mil e um qundo num dos aviões que foi desviado contra o Pentágono seguia a sua prima Jennifer Lewis Gore.

Earth To Dora marca não só o regresso de Mark Everett à vida ativa na profissão que escolheu e com uma clarividência ímpar, depois da sua própria quarentena, mas também funciona, tendo em conta o conteúdo das doze canções que compôem o seu alinhamento, como um atestado da sua alta clínica, o documento sonoro que confirma o seu regresso em pleno e completamente revigorado ao universo da escrita e composição de canções que, por sinal e como é sabido por todos, são sempre intensamente pessoais e profundas, tratando de temas como a morte, transtornos mentais, a solidão e o amor. O clima geral deste trabalho e o adn lírico do mesmo não fogem, de certa forma, a esta permissa mas, na minha opinião, é um facto que os Eels não lançavam um álbum tão luminoso e otimista desde o já referido Daisies Of The Galaxy.

De facto, se Mr E. gosta de surpreender e consegue sobreviver no universo indie rock devido à forma como tem sabido adaptar os Eels às transformações musicais que vão surgindo no universo alternativo sem que haja uma perca de identidade na conduta sonora do grupo, Earth To Dora mantém-no, nesse aspecto, num nível muitíssimo acima da simples tona da água, tal é o grau qualitativo sentimental deste registo, que instrumentalmente é intenso e melodicamente orelhudo. Tal sucede porque o disco assenta num formato eminentemente pop rock lo fi de elevado travo blues, um clima geral ditado pela orgânica distorção metálica da guitarra e dos arranjos das teclas e de outras cordas, como violinos ou o banjo, de forte índole melancolica e introspetiva, um efeito ampliado por uma percurssão sempre bastante aditiva. Enquanto isso, canção após canção, somos presenteados com belíssimos poemas, quase todos sobre o amor e as múltiplas facetas que ele pode ter, desde o irónico ao depressivo, passando pelo falso e o mais puro e genuíno, sempre com o seu último casamento muito presente e tudo aquilo que de revigorante e nefasto lhe ofereceu enquanto durou e que ficou para smepre carimbado no músico com a descendência que dele resultou (I learned the hard way to be prepared and given the options, I’d rather be alone).

O timbre vocal inédito de Everett é o remate final de um registo que no rock colegial de The Gentle Souls, no clima blues faustoso de Are You Fucking Your Ex, na íntimidade despojada de Dark And Dramatic ou na destreza folk de Baby Let’s Make It Real, prova que merece fazer parte do pódio dos melhores álbuns de uma vasta e gloriosa carreira de um dos melhores e mais peculiares grupos de rock alternativo da nossa contemporaneidade. Espero que aprecies a sugestão...

EELS - Are We Alright Again

01. Anything For Boo
02. Are We Alright Again
03. Who You Say You Are
04. Earth To Dora
05. Dark And Dramatic
06. Are You Fucking Your Ex
07. The Gentle Souls
08. Of Unsent Letters
09. I Got Hurt
10. OK
11. Baby Let’s Make It Real
12. Waking Up

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publicado por stipe07 às 15:58

Gorillaz – Sound Machine, Season One: Strange Timez

Terça-feira, 27.10.20

Já chegou aos escaparates Song Machine, Season One: Strange Timez, o sétimo álbum dos britânicos Gorillaz, a última materialização e a maior do mais recente e inovador projeto da banda, intitulado Song Machine, uma aventura que teve início em janeiro com o lançamento do single Momentary Bliss. Depois disso, foram sendo divulgados outros episódios e temas, que mostraram Russell, Noodle, 2D e Murdoc, por locais tão díspares como Paris, Marrocos, Londres, Lago de Como e até a Lua. Sound Machine, Season One: Strange Timez é um portento de world music e conta com a participação de diversos artistas, como Elton John, Robert Smith, Fatoumata Diawara, Beck, ou Peter Hook, entre outros, e tal diversidade artística apenas sucede porque tem no seu âmago o enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro. Em jeito de curiosidade, importa também referir que este novo disco dos Gorillaz marca o retorno do baixista Murdoc Niccals, depois de não ter feito parte dos créditos de The Now Now, por ter sido preso, tendo, nesse registo, sido substituído por Ace, da série Meninas Superpoderosas.

Gorillaz unveil new album 'Song Machine, Season One: Strange Timez'

Melhor álbum dos Gorillaz desde o fabuloso Plastic Beach (2012) e produzido por Remi Kabaka Jr., Sound Machine, Season One: Strange Timez é um passo seguro e estrondosamente feliz deste projeto, no que concerne ao modo como mais uma vez se reinventa, sem renegar, como seria de esperar, a sua essência. Refiro-me a criar canções onde a experimentação é uma matriz essencial, tem a eletrónica aos comandos, o hip-hop e o R&B na mira, mas também olha para o rock com uma certa gula. E nestas dezassete canções encontramos tudo isto e com um grau de ecletismo nunca visto, estando o centro nevrálgico em redor do qual gravita toda esta diversidade em muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico. E uma das facetas mais curiosas das dezassete composições é todas elas conseguirem atingir com enorme mestria o propósito simbiótico entre aquilo que é o som Gorillaz e o adn do convidado desse tema.

A eletrónica minimalista e melancólica de Aries, o ambiente dançante e humorístico de The Valley Of The Pagans, abrilhantado por um Beck na sua melhor forma, o transe melódico de The Lost Chord, o ambiente retro de Pac-Man, abrilhantado por beats inconfundíveis e um jogo vocal entre Albarn e ScHoolboy Q espetacular, a tonalidade pop de Chalk Tablet Towers, a fusão entre rap e o piano de Elton John em The Pink Phantom, a fusão entre dub e downtempo de Friday 13th, o travo latino e caliente de Dead Butterflies e o inesperado cruzamento entre jazz soul e bossanova em Désolé, são os instantes maiores de toda esta caldeirada impressiva, rematada pela simbólica e justíssima homenagem a Tony Allen em How Far?, músico falecido já este ano e parceiro de Albarn em variadíssimas aventuras musicais, com particular destaque para o projeto The Good, The Bad and The Queen.

Portanto, escuta-se o álbum de fio a pavio e parece que estamos a escutar uma coletânea riquíssima dos melhores temas de cada um dos artistas convidados. Tal evidência alimenta a perceção que este foi um registo que se foi alimentando, durante o seu processo de criação e de composição, de um certo caos, de uma amálgama mais ou menos indefinida, como se tivesse florescido num Kong Studios, em Essex, arredores de londres, aberto para quem quisesse nele entrar e gravar com Albarn, não importanto a sua proveniência e gostos musicais, porque havia abertura de espírito e pafernália física e tecnológica disponível para captar o que surgisse. É, por isso, um trabalho que se alimenta do desconhecido e também o faz no modo como funciona, claramente, em puro caos.

Com a voz de Albarn a ser aquele inconfundível e delicioso apontamento de charme, serenidade e harmonia, numa multpilicade e heterogeneidade de outros registos, quase sempre abuptos, graves, determinados, contestatários e buliçosos, Sound Machine, Season One: Strange Timez é um intrigante exemplo sonoro de mescla de diferentes culturas, num pacote seguro e familiar, que permite a Albarn deixar mais uma vez vincada a sua apetência natural para se servir das raízes de qualquer estilo e conferir às mesmas o seu toque de personalidade, contornando, sem beliscar, todas as referências culturais dos seus convidados que, se não tivessem a mente tão aberta como o anfitrião, poderiam ver limitado o processo criativo. E assim, isentos de tais formalismos, não receiam misturar tudo aquilo que ouvem, aprendem e assimilam nas respetivas carreiras, fazendo-o com enorme bom gosto, ao mesmo tempo que refletem com indisfarçável temperamento sobre este mundo conturbado em que todos vivemos. Espero que aprecies a sugestão...

Gorillaz - Sound Machine Season One - Strange Timez

01. Strange Timez (Feat. Robert Smith)
02. The Valley Of The Pagans (Feat. Beck)
03. The Lost Chord (Feat. Leee John)
04. Pac-Man (Feat. ScHoolboy Q)
05. Chalk Tablet Towers (Feat. St Vincent)
06. The Pink Phantom (Feat. Elton John And 6LACK)
07. Aries (Feat. Peter Hook And Georgia)
08. Friday 13th (Feat. Octavian)
09. Dead Butterflies (Feat. Kano And Roxani Arias)
10. Désolé (Feat. Fatoumata Diawara) (Extended Version)
11. Momentary Bliss (Feat. slowthai And Slaves)
12. Opium (Feat. EARTHGANG)
13. Simplicity (Feat. Joan As Police Woman)
14. Severed Head (Feat. Goldlink And Unknown Mortal Orchestra)
15. With Love To An Ex (Feat. Moonchild Sanelly)
16. MLS (Feat. JPEGMAFIA And CHAI)
17. How Far? (Feat. Tony Allen And Skepta)

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publicado por stipe07 às 16:08

Throwing Muses - Sun Racket

Quinta-feira, 22.10.20

O excelente registo Purgatory/Paradise de dois mil e treze, da autoria do mítico projeto Throwing Muses de Kristin Hersh, David Narcizo e Bernard Georges, já tem finalmente sucessor, para gaúdio dos fiéis seguidores desta mítica banda norte-americana. Sun Racket é o título do novo trabalho discográfico do trio de Rhode Island, um poderoso alinhamento de dez canções que viu a luz do dia no início do passado mês de setembro, à boleia da Fire Records.

Throwing Muses Announce First Album in Seven Years, Sun Racket |  Consequence of Sound

Em pouco mais de meia hora, Sun Racket proporciona um verdadeiro festim para todos os amantes daquele punk rock mais sujo e visceral e, talvez por isso, o mais genuíno e eficaz. Distorções de guitarras em catadupa, espirais de batidas vigorosas proporcionadas por um baixo sempre inquietante, cascatas de ruídos e uma bateria que nunca se escusa a induzir o ritmo que a personalidade de cada canção exige, são os pontos fortes de um alinhamento que também pode ser considerado, de algum modo, como bipolar, à imagem de Hersch, diagnosticada com esse distúrbio desde os dezasseis anos quando conduzia uma bicicleta, foi atropelada e bateu violentamente com a cabeça no chão. Esse evento traumático, e que provocou tal distúrbio mental em Kristin, gerou na artista mudanças de comportamento imprevisíveis, algo constante ao longo de várias décadas, um processo doloroso que, de acordo com a própria autora, ainda hoje só alivia quando ela tansforma os estímulos que sente em canções e depois as grava.

De facto, não faltam em Sun Racket décibeis arrebatadores, mas também dedilhares orgânicos, quebras rítmicas e frenesim constante, em suma, instantes ora fortemente eletrificados ou claramente minimalistas e até, como é o caso de St. Charles, uma simbiose quase indelével, mas indesmentível, de toda esta cópula. No entanto, a matriz é sempre a mesma em todos os segundos do alinhamento; rock puro e duro, sem estigmas nem concessões ao mainstream. Por exemplo, logo a abrir o alinhamento, se Dark Blue uma composição entalhada por um vigoroso indie rock de forte cariz lo fi, está coberta por uma aúrea de aspereza e rugosidade únicas, nuances facultadas por guitarras plenas de poder e fúria, mas também de subtileza e charme, num resultado final inebriante, já Bo Diddley Bridge proporciona-nos comoção ardente, mas sem fazer relaxar o cerrar de punhos que os primeiros segundos de Sun Racket logo incentivaram.

É assim, no dorso de guitarras que oscilam entre o melódico e o distorcido e uma Kristin Hersh nada popupada a debitar letras surrealistas, que se sustenta um disco fascinante, assustador e viciante, enquanto nos leva a testemunhar os delírios e o sofrimento da grande mentora deste projeto único e influente do panorama alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

Throwing Muses - Sun Racket

01. Dark Blue
02. Bywater
03. Maria Laguna
04. Bo Diddley Bridge
05. Milk At McDonald’s
06. Upstairs Dan
07. St. Charles
08. Frosting
09. Kay Catherine
10. Sue’s

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publicado por stipe07 às 16:52

The Killers - Imploding The Mirage

Quarta-feira, 21.10.20

Um dos marcos discográficos de dois mil e vinte é, naturalmente, Imploding The Mirage, o sexto registo de originais dos The Killers, um álbum que tinha edição prevista para o final do passado mês de maio, mas que só viu a luz do dia alguns meses depois, por dificuldades e atrasos na conclusão do disco, de acordo com a própria banda liderada por Brandon Flowers. Produzido por Jonathan Rado e Shawn Everett, Imploding The Mirage conta com participações especiais de nomes tão proeminentes como Weyes Blood, K.D. Lang, Adam Granduciel, Blake Mills, Lucius e Lindsey Buckingham e marca o ocaso de um período particularmente turbulento do grupo que teve de lidar com a saída do guitarrista Dave Keuning e a participação apenas em estúdio do baixista Mark Stoemer.

The Killers Announce New Album 'Imploding The Mirage' & North American Tour  2020, Share Single

Apesar de os The Killers terem andado a divagar, nos discos anteriores, fruto da obsessão de Flowers pelos anos oitenta, por sonoridades onde o experimentalismo dita regras e terem espreitado extremos tão díspares como a pop mais polida ou o rock progressivo, sustentáculos importantes do álbum anterior, o Wonderful Wonderful de dois mil e dezassete, é no clássico rock de arena, vigoroso, imponente e efusivo, que este coletivo se sente mais confortável. Imploding The Mirage encaixa neste arquétipo sonoro como uma luva, mesmo não deixando de conter algumas nuances desses outros espetros sonoros que enchem a alma de Flowers. Aqui, tais homenagens estão impressas indelevelmente no enlace entre a guitarra de Lindsey Buckingham, guitarrista do Fleetwood Mac e os sintetizadores em Caution ou, piscando o loho ao krautrock, nas diversas interseções que definem o andamento vigoroso de running Towards A Place, não esquecendo a utilização de excertos do clássico Hallogallo dos alemães NEU! e de Moonshake dos também germânicos Can em Dying Breed.

Seja como for, Imploding The Mirage clama, canção após canção, por um olhar nostálgico do ouvinte, para que ele perceba que houve aqui um firme propósito dos The Killers de darem um sinal vigoroso de vida, mostrarem que ainda criam canções orelhudas e que o fazem de modo criativo, cuidado e eclético, ou seja, que aquele período aúreo inicial do grupo ainda não está esquecido. Composições do calibre da já referida Fire In BoneMy Own Soul’s Warning, uma daquelas típicas canções de rock de arena, springsteeniana, majestosa e teatral, assente numa guitarra efusiante, um registo percurssivo vincado e efeitos sintetizados plenos de charme, num resultado final melodicamente marcante e que se debruça sobre as típicas lutas que muitas vezes travamos no nosso íntimo (If you could see through the banner of the sun, Into eternity’s eyes, Like a vision reaching down to you, Would you turn away?), não ficariam nada mal no alinhamento dos clássicos da banda Hot Fuss e Sam’s Town.

Disco indutor, frenético e provocante e cheio de solenidade, Imploding The Mirage cimenta novamente uma posição de relevodos The Killers no panorama sonoro atual, graças a dez canções que, de forma imaculada nos arrastam sem dó nem piedade para o profundo universo emocional que conforta Brandon Flowers e que levam a própria banda a assumir que há um caminho que só eles podem trilhar solitariamente e que, nesse percurso, talvez as formas antigas de composição sejam mesmo as mais eficientes, No entanto, isso não significa que não se devam também orgulhar dos atalhos e das rotas divergentes que já exploraram. Fazendo essa mescla neste trabalho, quebram o enguiço de quem insiste em querer catalogar com injusto menosprezo alguns instantes discográficos de determinados projetos que procuraram apenas, ao longo da carreira, perceber zonas de conforto ou, radicalmente, procurar romper com as mesmas e até viver numa espécie de limbo criativo e ir vendo o que dá. Espero que aprecies a sugestão...

The Killers - Imploding The Mirage

01. My Own Soul’s Warning
02. Blowback
03. Dying Breed
04. Caution
05. Lightning Fields (Feat. K.D. Lang)
06. Fire In Bone
07. Running Towards A Place
08. My God (Feat. Weyes Blood)
09. When The Dreams Run Dry
10. Imploding The Mirage

 

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publicado por stipe07 às 13:54






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