Terça-feira, 21 de Janeiro de 2020

Bombay Bicycle Club – Everything Else Has Gone Wrong

No ativo há já década e meia, os Bombay Bicycle Club deJack Steadman, Jamye MacCol, Suren de Saram e Ed Nash, abriram as hostilidades em grande forma, em dois mil e nove, com o promissor registo I Had the Blues But I Shook Them Loose e, desde logo, firmaram um lugar de relevo no cenário indie de terras de Sua Majestade. A partir daí, mantendo uma interessante média de lançamentos conceptualmente distintos, nomeadamente Flaws (2010), A Different Kind of Fix (2011) e So Long, See You Tomorrow (2014), nunca deixaram de, álbum após álbum, cimentar essa posição, que atinge o pico à boleia de Everything Else Has Gone Wrong, o quinto registo do grupo, um disco que quebra um inesperado hiato de cinco anos, tendo em conta a frequência temporal dos trabalhos anteriores, e que contém, talvez, o alinhamento mais consistente, assertivo e eclético deste projeto de Crouch End, nos arredores de Londres.

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O caminho traçado pelos Bombay Bicycle Club deu sempre elevado protagonismo à criação de efervescentes composições assentes numa filosofia sonora que, dando também primazia ao baixo e às guitarras, foram sobrevivendo à sombra da omnipresença do sintetizador, nomeadamente nos arranjos melódicos, criando, desse modo, sagazes interseções entre rock e eletrónica. O antecessor So Long, See You Tomorrow foi o expoente máximo deste receituário, que também primou por uma elevada versatilidade na seleção dos arranjos que adornavam as composições, como se percebeu em temas como Luna e Carry Me, dois belos exemplos dessa opção estilística presentes no trabalho de dois mil e catorze. E estas são nuances que neste Everything Else Has Gone Wrong ganham uma nova dimensão, graças a canções do calibre da sumptuosa Eat, Sleep, Wake (Nothing But You), a melancólica composição homónima ou a extremamente criativa I Can Hardly Speak, um tema em que uma extravagante base sintética, acomoda com superior requinte cordas e metais, enquanto Steadman nos oferece o seu já habitual elevado e inédito grau de entrega e de intimidade.

A presença de galardoado produtor John Congleton (St. Vincent, Sharon Van Etten, War on Drugs) nos créditos do registo terá sido, certamente, fator decisivo para que os Bombay Bicycle Club apresentassem neste Everything Else Has Gone Wrong, como já referi, o seu registo mais heterógeneo, mas também curiosamente, o trabalho com maiores parecenças relativamente ao que se faz do lado de lá do atlântico. Além dos três temas já referidos, com particular destaque para o programado vigor algo punk em que alicerça Eat, Sleep, Wake (Nothing But You), a efervescente luminosidade de I Worry Bout You e o clima mais progressivo e encantatório de Good Day, proporcionam ao ouvinte momentos de familiariedade com as propostas mais recentes de nomes tão proeminentes do cenário indie norte-americano, como os Broken Social Scene ou os The New Pornographers.

Disco diversificado, pulsante, optimista e luminoso, Everything Else Has Gone Wrong tem um travo de efervescência e impulsividade únicos, com guitarras e sintetizadores a lançarem constantentemente nos nossos ouvidos vibrações e melodias de esperança e renovação, que não só colocam a banda no trilho de um rock mais cru e direto, como também amplificam a sensação de estarmos perante uma espécie de caleidoscópio sonoro de forte cariz hipnótico, lisérgico e emocional e em que conceitos como o ambiente, a harmonia, a libertação e o amor e o crescimento, ajudam a engrandecer, mais do que nunca, o percurso discográfico dos Bombay Bicycle Club. Espero que aprecies a sugestão...

Bombay Bicycle Club - Everything Else Has Gone Wrong

01. Get Up
02. Is It Real
03. Everything Else Has Gone Wrong
04. I Can Hardly Speak
05. Good Day
06. Eat, Sleep, Wake (Nothing But You)
07. I Worry Bout You
08. People People (Feat. Liz Lawrence)
09. Do You Feel Loved?
10. Let You Go
11. Racing Stripes


autor stipe07 às 14:52
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Terça-feira, 7 de Janeiro de 2020

Black Marble – Bigger Than Life

Os Black Marble são Chris Stewart e Ty Kube, uma dupla natural de Brooklyn, mas agora sedeada em Los Angeles, que se estreou nos discos em outubro de dois mil e doze, através da Hardly Art, com o registo A Different Arrangement, onze canções que carimbaram desde logo a sonoridade de uma banda, que nos remeteu, no imediato, para o classicismo sonoro dos anos setenta e oitenta. Tal impressão teve sequência com o excelente sucessor It's Immaterial, editado também em outubro, mas de dois mil e dezasseis, mantendo-se o décimo mês do ano como período período predileto paras o lançamento de registos, já que Bigger Than Life, o terceiro álbum do projeto, viu a luz do dia precisamente nesse mês do último ano.

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Apesar de serem uma dupla, nos Black Marble quem assume as rédeas é Chris Stewart, que começou a escrever o conteúdo de Bigger Than Life depois da mudança recente de Nova Iorque para a outra costa, uma mudança física e ambiental que acabou por inspirar o músico, que, de acordo com o próprio, no primeiro dia em que entrou em estúdio para gravar e olhou pela janela, ficou logo fascinado com a luz e o contraste entre o ceú e as montanhas que rodeiam a cidade dos anjos, um ambiente natural único que fax da principal cidade da costa oeste dos Estados Unídos um lugar especial e muito procurado.

A partir daí, e tendo presente esta conjuntura relativamente à incubação de Bigger Than Life, conforntamo-nos com um alinhamento bastante coeso de onze canções de forte cariz retro, já que têm como receituário fundamental o classicismo sonoro dos anos setenta e oitenta. é uma estética que não recusa a originalidade e a autenticidade que já são imagem de marca do som identitário dos Black Marble, mas que os mesmos tentam recontextualizar e fazer progredir, tendo sempre como pano de fundo aquela premissa que há trinta anos atrás colocava o sintetizador analógico na linha da frente e a nostalgia na proa das construções melódicas.

A própria postura vocal de Stewart abraça a tonalidade típica de um Ian Curtis que se rege pelo baixo, irrepreensível em Grey Eyeliner, e por batidas insistentes, o que ajuda imenso a criar uma certa tensão melancólica, que também é uma das traves mestras do disco e que terá como ponto forte a vibe surf de Daily Driver, uma das composições mais encantadoras do registo, a par dos fragmentos de sons sintetizados e distorcidos de Feels.

Em suma, neste Bigger Than Life as composições refletem, com alguma minúcia, estados de alma e os contextos que definem o momento atual de Stewart, através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão nelas plasmadas. Tema após tema, o álbum transcende-se e sente-se uma emoção histórica que se encaixa também confortavelmente na tradição gótica dos anos oitenta, mas com uma leitura mais contemporânea, tudo agregado através de uma produção minimal, mas brilhante. Espero que aprecies a sugestão...

Black Marble - Bigger Than Life

01. Never Tell
02. One Eye Open
03. Daily Driver
04. Feels
05. The Usual
06. Grey Eyeliner
07. Bigger Than Life
08. Private Show
09. Shoulder
10. Hit Show
11. Call


autor stipe07 às 18:05
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Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2020

MOMO - I Was Told To Be Quiet

MOMO é Marcelo Frota, um cantor e compositor brasileiro que se estreou a solo em dois mil e seis com o aclamado registo A Estética do Rabisco, onze composições com fortes influências da herança do rock setentista que o país irmão produziu com particular abundância à quatro décadas atrás, em especial no nordeste. Seguiram-se mais quatro álbuns, que piscaram o olho a uma atmosfera mais acessível, sempre dentro de um espetro rock, os registos Buscador (2008), Serenade Of A Sailor (2011), Cadafalso (2013) e Voá (2017). Este último já tem sucessor, um trabalho intitulado I Was Told To Be Quiet, lançado no passado mês de outubro, no Brasil pelo selo LAB344, nos Estados Unidos pelo Yellow Racket Records e na Itália por Deusamora Records.

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I Was Told To Be Quiet foi gravado em Los Angeles e produzido pelo norte-americano Tom Biller, amigo pessoal de Marcelo e que já trabalho com nomes tão influentes como Fiona Apple, Sean Lennon, Elliot Smith, Kanye West e Warpaint, entre outros. O seu alinhamento é uma resposta sensível ao mundo atribulado que vivemos e junta a herança calorosa e afetiva das sonoridades tupiniquins, nomeadamente a bossa nova e o samba, com a estética arrojada do indie contemporâneo. O resultado é um reportório brilhante e original, no qual o autor exibe diversas nuances de sua musicalidade. Entre composições cantadas em português, inglês e francês, temos contato com seu lado mais sonhador (Higher Ground), o mais confessional (For I Am Just a Reckless Child) e, como não podia deixar de ser, o mais ensolarado (Diz a Verdade). Depois, enquanto em Vida MOMO regressa um pouco aos ambientes psicadélicos de inicío da carreira, Mon Neant, Marigold e Lillies for Eyes impressionam pela riqueza estilística ao nível dos arranjos. Já Stupid Lullaby e Sereno Canto, composições mais exigentes e intrincadas, revelam toda a sua formosura à medida que o ouvinte se deixa conquistar pela voz e pelos sentimentos que MOMO lhes induziu.

Com uma lista notável de convidados, nomeadamente Wado, Thiago Camelo e Ana Lomelino (Mãeana) e com as participações especiais nas gravações dos músicos Régis Damasceno (baixo) e Marco Benevento (piano, polli synth, cordas synth), I Was Told To Be Quiet é um álbum alegre, livre e libertador, parco em pensamentos negativos e que, fazendo a antítise do seu título encharcado em ironia, nos oferece um MOMO buliçoso e salutarmente crítico relativamente ao modo como observa o mundo que o rodeia e como reflete sobre a feliz irrequietude da sua própria existência. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 14:58
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Quarta-feira, 1 de Janeiro de 2020

Loosense - Saloon

Enorme família sedeada em Setúbal e formada por Pedro Nobre, João Completo, Iúri Oliveira, Gonçalo Mahú, Diogo Costa, Diogo Marrafa, Rafael Gil, José Zambujo, Rúben Silva e Ivo Rodrigues, os Loosense são um dos projetos mais interessantes do jazz contemporâneo nacional, aquele jazz corajoso e irrequieto, que irrompe fronteiras e convenções, porque ousa cruzar-se com alguns dos arquétipos fundamentais do indie rock de início da segunda metade do século passado, uma espécie de funk jazz rock que se estreou no verão de dois mil e dezoito com Doze e que, pouco mais de um ano depois, nos oferece Saloon, o segundo alinhamento de canções do projeto e cujo nome homenageia o espaço onde os Loosense ensaiam desde dois mil e catorze, ano em que se formaram.

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Gravado, tal como Doze, no Estúdio Vale de Lobos em Sintra, no verão de dois mil e dezoito, Saloon está recheado de composições astutas, no modo como conseguem ser indutoras de paisagens multicoloridas, telas impressivas que se instalam quase instantaneamente na mente de quem se predispõe a uma escuta dedicada e atenta deste Saloon. Para que isso suceda, guitarras que fluem livremente, sopros bem vincados e uma vasta panóplia percurssiva, onde o baixo assume, muitas vezes, o protagonismo maior, são fortes aliados, amigos que dão as mãos firmemente enquanto entroncam no desejo do coletivo em materializar essa impressão e, ao mesmo tempo, encarnar um forte ensejo de oferecer algo de positivo e marcante ao ouvinte. 

Os sopros melancólicos e esvoaçantes de Capitol e o modo como, em particular, no primeiro tomo dessa composição, se deixam embalar pelo piano, o modo incrível como, no capítulo seguinte, a guitarra flamenga nos instiga, sacode e provoca, através de Marco Alonso, um mestre interpretativo deste intrumento de cordas único, a charmosa eletrónica ambiental que arquiteta Flamingo, o profundo e inebriante pendor festivo de Dabox e o anguloso piscar de olhos a uma vibe funk tropicalista em Tokyo, são apenas alguns dos instantes maiores de um registo composicionalmente interessantíssimo e de um inconformismo estético irrepreensível. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:46
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Terça-feira, 31 de Dezembro de 2019

Time For T - Galavanting

Gravado, de acordo com a banda, por acidente e tendo como ponto de partida um conjunto de demos captadas numa carvana durante o ano de dois mil e dezoito, numa viagem ao Algarve, Galavanting é o novo registo de originais dos Time For T, um projeto nacional mas com raízes em Inglaterra, mais concretamente em Brighton. Na sua génese está Tiago Saga, um jovem com genes britânicos, libaneses e espanhóis que cresceu no Algarve. Enquanto estudava composição contemporânea na Universidade de Sussex, Inglaterra, Tiago Saga foi criando a sua própria sonoridade assente na world music e na folk rock anglo-saxónica com outros músicos que foi conhecendo e com quem foi partilhando as mesmas inspirações, nomeadamente Joshua Taylor (baixo), Martyn Lillyman (bateria), Oliver Weder (teclas), os seus parceiros nestes Time For T.

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Sucessor do excelente Hoping Something Anything, disco editado no início do outono de dois mil e dezassete, Galavanting tanto deambula pela folk como pelo rock psicadélico e nesse balanço, lá pelo meio, tanto piscam o olho à tropicália, como é o caso das batidas e dos arranjos de Naima e Eyes, como ao próprio jazz, exuberante nos devaneios percurssivos de Pink Marshmallows e no clima enevoado das cordas que conduzem Calling Back, indo também até ao blues experimental em Practically, uma canção com raízes na Índia, aquele rock mais boémio, audível em You Seem Intelligent, um modus operandi melodicamente acessível, sem deixar de exalar profundidade lírica e um charme genuíno.

Gravado e produzido por Juan Torán e misturado por Hugo Valverde, Galavanting representa bem aquele espírito intuítivo, orgânico e crú que carateriza a filosofia criativa destes Time For T que sabem melhor do que ninguém como fazer transparecer musicalmente todas as experiências de vidaque vão moldando a personalidade quer dos músicos quer da própria banda como um todo. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 16:53
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Sábado, 28 de Dezembro de 2019

Josh Rouse – The Holiday Sounds Of Josh Rouse

O músico, cantor e compositor Josh Rouse já tem um disco de natal, um trabalho intitulado The Holiday Sounds Of Josh Rouse que compila nove canções que fazem recordar a este músico natural de Nashville, mas há alguns anos radicado no sul de Espanha, momentos felizes da sua infância e de férias de natal passadas fora de casa. A receita é a habitual neste músico; uma enorme sensibilidade melódica assente em esplendorosas cordas e nos arranjos típicos da folk sulista norte americana, que dão as mãos para a criação do habitual ambiente emotivo e honesto que carateriza a música e os discos deste cantautor que nunca perdeu o espírito nostálgico e sentimental que carateriza a sua escrita e composição.

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Assim, apesar de datado e de ter uma especificidade natalícia vincada, The Holiday Sounds Of Josh Rouse não coloca em causa aqueles que são alguns pilares identitários essenciais de um músico que parece ser capaz de entrar pela nossa porta com uma garrafa numa mão e um naco de presunto na outra e o maior sorriso no meio, como se ele fosse já da casa, já que consegue sempre revelar-se, também nestas canções, como um grande parceiro, confidente e verdadeiro amigo, um daqueles que não complicam e com o qual se pode sempre contar. Josh Rouse é único e tem um estilo inconfundível no modo como dá a primazia às cordas, sem descurar o brilho dos restantes protagonistas sonoros e, principalmente, sem se envergonhar de colocar a sua belíssima voz na primeira linha dos principais fatores que ainda tornam a sua música tão tocante e inspiradora. Espero que aprecies a sugestão...

Josh Rouse - The Holiday Sounds Of Josh Rouse

01. Mediterranean X-mas
02. Red Suit
03. New York Holiday
04. Easy Man
05. Sleigh Brother Bill
06. Lights Of Town
07. Letters In The Mailbox
08. Heartbreak Holiday
09. Christmas Songs


autor stipe07 às 20:53
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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2019

Beck – Hyperspace

Colors ainda não tem três anos, o single Tarantula, inserido na banda-sonora do filme Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, um, mas Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, já tem disco novo, um registo intitulado Hyperspace, um tomo de onze canções que viu recentemente a luz do dia, à boleia da Capitol Records.

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O frenesim criativo não é algo inédito neste músico californiano que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos foi habituando, nas últimas três décadas, a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras. Produzido por Pharell Williams e o próprio autor, Hyperspace, o décimo quarto registo de originais da carreira de Beck, acaba por ser mais um passo em frente relativamente às pegadas do antecessor Colors, um trabalho que, recordo, fez Beck regressar ao trilho da pop mais efervescente, sintética e luminosa e que estava repleto de canções a apelarem às pistas e à criatividade dos remisturadores.

O tal passo em frente de Hyperspace relativamente a Colors é dado em direção a uma filosofia estilística e interpretativa menos burilada e mais simples, direta e minimal. No entanto, mantém-se a fixação recente de Beck pelos anos oitenta do século passado, num disco repleto de tiques típicos do R&B, da soul e da pop lisérgica, num resultado final onde ironia, festa e uma auto reflexão muitas vezes emotiva são conceitos transversais a todo o alinhamento.

Assim, se as cordas de Die Waiting nos oferecem aquele Beck que é exímio em criar melodias agradáveis, marcantes e ricas em detalhes e texturas, dentro de um espetro pop eminentemente contemplativo, já Saw Lightning, pouco mais de quatro minutos de um efervescente festim pop, que sobressai pela luminosidade das cordas de uma viola, por diversos detalhes percurssivos e pelo fuzz intermitente de uma teclado, oferece-nos o tal outro lado mais animado e consentâneo com as propostas mais sintéticas do autor. Depois, Chemical, uma lindíssima balada onde sobressai um teclado que acompanha com mestria aquele efeito mais doce com que o músico costuma adornar a sua voz quando quer transmitir algo mais profundo, é outro oásis etéreo dentro de um registo que também vive muito de uma componente cósmica, no que concerne ao cardápio de efeitos e sintetizações que adornam algumas das suas composições.

Recheado de outros ilustres convidados, nomeadamente os colegas de longa data de Beck, Jason Falkner, Smokey Hormel e Roger Manning Jr., Greg Kurstin, que coescreveu e coproduziu See Through, uma mescla feliz entre R&B e chillwave, Paul Epworth que fez o mesmo em Star, Chris Martin que participa em Stratosphere, Terrell Hines, no tema homónimo do disco e Sky Ferreira nos coros de Die Waiting, Hyperspace não é ainda uma aproximação bem conseguida aos melhores trabalhos da carreira de Beck, mas contém um pretexto explícito, mensagens contundentes e uma identidade bem definida, além de um forte sentido de contemporaneidade e de aproximação às tendências comerciais mais ouvidas na música atual. Espero que aprecies a sugestão...

Beck - Hyperspace

01. Hyperlife
02. Uneventful Days
03. Saw Lightning
04. Die Waiting (Feat. Sky Ferreira)
05. Chemical
06. See Through
07. Hyperspace (Feat. Terrell Hines)
08. Stratosphere
09. Dark Places
10. Star
11. Everlasting Nothing


autor stipe07 às 13:40
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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2019

The Flaming Lips - The Soft Bulletin: Recorded Live At Red Rocks With The Colorado Symphony Orchestra

Poucos meses após King's Mouth, um álbum conceptual baseado no estúdio de arte com este nome que esta banda norte americana abriu há quatro anos e que fala de um rei gigante bebé que quando cresceu fê-lo de tal modo que sugou para dentro da sua enorme cabeça todas as auroras boreais e de uma coletânea com os maiores êxitos da carreira com a chancela da Warner Brothers Records, os The Flaming Lips de Wayne Coyne estão de regresso com The Soft Bulletin: Recorded Live At Red Rocks With The Colorado Symphony Orchestra, um registo de doze canções que se assume como o primeiro ao vivo da banda de Oklahoma.  The Soft Bulletin: Recorded Live At Red Rocks With The Colorado Symphony Orchestra conta, como o próprio título indica, com a participação especial de cento e vinte e cinco elementos da Colorado Symphony Orchestra, conduzidos pelo maestro Andre De Ridder, sessenta e oito insturmentistas e cinquenta e sete cantores e reproduz o alinhamento de The Soft Bulletin, considerada por muitos como a obra-prima dos The Flaming Lips, um disco que está a comemorar vinte anos de vida.

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Quem conhece a fundo a trajetória desta banda percebe que este registo ao vivo só pode ter sido incubado pela mente de um Coyne que é, claramente, um dos artistas mais criativos do cenário indie contemporâneo e que percebe, talvez melhor que ninguém, que as componentes visual e teatral são, a par do conteúdo sonoro, também essenciais na promoção e divulgação musical. E ao escutar-se The Soft Bulletin: Recorded Live At Red Rocks With The Colorado Symphony Orchestra, um concerto que teve lugar a vinte e seis de maio de dois mil e dezasseis, a ideia com que imediatamente se fica é que, mesmo não se vendo o palco e a multidão defronte, adivinha-se um orgasmo de cor feito de confetis e balões e até de dramatização de canções que são verdadeiras pérolas do catálogo indie e alternativo de final do século passado.

De facto, na majestosidade das cordas e da percurssão vibrante de Race For The Prize, nos sopros, nos violinos lacrimejantes e na harpa que enfeitiça A Spoonful Weighs A Ton, nos efeitos etéreos e nas nuvens agridoces de sons feitos com trompetes e clarinetes que parecem flutuar em The Spark That Bled, no modo como o piano e os sopros namoram em de The Spiderbite Song e também em Buggin', na suavidade flourescente de What Is The Light?, na luminosidade da curiosa acusticidade das teclas que abastecem Waitin' For A Superman e na inflamante rugosidade do baixo e das distorções que vagueiam por Feeling Yourself Disintegrate, somos convidados a contemplar um extraordinário tratado de indie rock, mas também de música clássica, um caldeirão de natureza hermética e de enormes proporções, porque além de existir neste alinhamento diversidade e heterogeneidade, cada composição tem um objetivo claro dentro da narrativa subjacente à filosofia que incubou The Soft Bulletin, compartimentando-a e ajudando assim o ouvinte a perceber de modo mais claro, orgânico e impressivo toda a trama idealizada há já duas décadas. 

The Soft Bulletin: Recorded Live At Red Rocks With The Colorado Symphony Orchestra conduz-nos, então, numa espécie de viagem apocalíptica, onde Coyne, exemplarmente secundado pelo maestro Andre De Ridder, assume o papel de guia, num resultado final que ilustra na perfeição o cariz poético, teatral e orquestral dos The Flaming Lips, um grupo ao mesmo tempo próximo e distante da nossa realidade e sempre capaz de atrair quem se predispõe a tentar entendê-los para cenários complexos, mas repletos de sensações únicas que só eles conseguem transmitir. Espero que aprecies a sugestão...

The Flaming Lips - The Soft Bulletin Recorded Live At Red Rocks With The Colorado Symphony Orchestra

01. Race For The Prize
02. A Spoonful Weighs A Ton
03. The Spark That Bled
04. The Spiderbite Song
05. Buggin’
06. What Is The Light?
07. The Observer
08. Waitin’ For A Superman
09. Suddenly Everything Has Changed
10. The Gash
11. Feeling Yourself Disintegrate
12. Sleeping On The Roof


autor stipe07 às 17:52
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Quarta-feira, 27 de Novembro de 2019

Elbow – Giants Of All Sizes

Já chegou aos escaparates Giants Of All Sizes, o oitavo álbum de estúdio dos britânicos Elbow, um compêndio de nove canções lançado à boleia da Polydor Records. Giants Of All Sizes foi gravado em Hamburgo, na Alemanha, nos estúdios Clouds Hill Studios, com equipamento eminentemente analógico e foi produzido e misturado pelo teclista do grupo, Craig Potter. É um trabalho que conta com as participações especiais de músicos como Jesca Hoop, os The Plumedores e o novato Chilli Chilton e que, de acordo com Guy Garvey, o vocalista e líder do projeto, tem o conceito de luto bastante presente, um luto devido às morte recente do pai de Garvey (On Deronda Road debruça-se sobre este assunto em particular), mas também um mais metafórico devido ao brexit e ao atentado a vinte e dois de maio de dois mil e dezassete em Manchester, terra natal dos Elbow, durante um concerto de Ariana Grande.

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Donos de um som épico, eloquente e que exige dedicação, os Elbow verbalizam sonoramente em Giants Of All Sizes, um distanciamento cada vez maior da faceta rock que sempre marcou o projeto e que teve como clímax o excelente tema Grounds for Divorce, incluído no já clássico The Seldom Seen Kid (2208), para se aproximarem, mais do que nunca, de um som íntimo, polido, de forte pendor acústico, ou seja, um som que tem na pop, na folk e até na própria música de câmara influências mais do que evidentes.

Assim, charme e classicismo são conceitos que assaltam facilmente a mente de quem escuta estas nove composições que, não deixando de ter felizes combinações entre guitarras eletrificadas e uma ímpar imponência percurssiva, como é o caso do single Dexter And Sinister, canção que mistura com ímpar virtuosismo um baixo vibrante, com alguns efeitos sintetizados subtis e uma bateria eloquente, acabam por mostrar todo o seu esplendor em composições que têm como ponto forte instrumentais sofisticados, onde não faltam violinos (Seven Veils) ou orgãos (Empires), como instrumentos de eleição da condução melódica e da indução de alma, caráter e beleza às mesmas e, no cômputo geral, ao registo. No entanto, importa também salientar que a voz de Garvey é, também, um ponto forte do trabalho, funcionando como mais uma espécie de elemento instrumental, com igual importância no arquétipo do registo. O modo como se entrelaça com as cordas em The Delayed é um excelente exemplo dessa constatação, que se tornará óbvia para quem escutar este registo com alguma devoção.

Giants Off All Sizes é o primeiro capítulo de uma espécie de segunda vida dos Elbow, até porque não terá sido por acaso que o grupo editou uma compilação de sucessos há exatamente dios anos. A nova vida da banda britânica é sonoramente mais recatada e charmosa, mas a escrita talvez seja mais efusiva e aprimorada do que nunca. Independentemte disso, o travo mantém-se idêntico; Os Elbow são das melhores bandas do mundo para nos ensinar como enfrentar a habitual ressaca emocional que os eventos familiares menos positivos provocam no equilíbrio emocional de qualquer mortal, mas também servem como odes celebratórias de todo o encanto e alegria que a vida nos oferece. Espero que aprecies a sugestão...

Elbow - Giants Of All Sizes

01. Dexter And Sinister
02. Seven Veils
03. Empires
04. The Delayed 3:15
05. White Noise White Heat
06. Doldrums
07. My Trouble
08. On Deronda Road
09. Weightless


autor stipe07 às 21:20
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Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019

Coldplay – Everyday Life

Quatro anos depois de A Head Full Of Dreams, os britânicos Coldplay estão de regresso com Everyday Life, um disco duplo que contém um total de vinte e duas composições, com vários interlúdios pelo meio, um alinhamento cuja primeira metade tem como título Sunrise, ao passo que a segunda se chama SunsetEveryday Life viu a luz do dia hoje mesmo através da Parlohone, a etiqueta de sempre da banda formada por Chris Martin, Guy Berryman, Will Champion e Jonny Buckland.

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Disco antecipado desde há algumas semanas através da publicação de diversas mensagens enigmáticas na página oficial da banda, cartas escritas aos fãs e da divulgação de diversos cartazes em várias cidades do mundo, com fotos vintage dos membros dos Coldplay a tocarem numa orquestra dos anos vinte do século passado, juntamente com o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Everyday Life pode muito bem ser um daqueles discos que inicialmente se estranha, mas que após sucessivas audições poderá acabar por se entranhar e tornar-se, quem sabe, no melhor trabalho do grupo desde a genial estreia com Parachutes, há já quase vinte anos.

De facto, não só devido à possível saturação de uma fórmula que já se estava a tornar demasiado repetitiva, mas também porque os últimos desenvolvimentos na vida pessoal de Chris Martin fizeram o seu âmago recuar até aos bons velhos tempos daquela juventude mais inocente e apaixonada, parece que os Coldplay parecem finalmente apostados em deixar um pouco de lado aquela etiqueta de banda de massas da pop e da cultura musical, feita de exuberância sonora e de uma mescla da enorme variedade de estilos que foram bem sucedidos comercialmente na última década, nomeadamente a eletrónica e o rock repleto de sintetizações, para voltarem a colocar na linha da frente aquele lado mais intimista, simples e humano, o modus operandi que talvez melhor potencie todos os atributos estilísticos e interpretativos que o grupo possui.

Assim, apesar do tema homónimo, por exemplo, ser uma composição instrumentalmente bastante cinematográfica e épica e que tem no piano a ferramenta maior de uma melodia com uma sensibilidade muito própria, como é apanágio das propostas mais recentes da banda de Chris Martin, de Arabesque, tema com trechos cantados em francês e que conta com as participações especiais de Stromae (voz) e de Femi Kuti (sopros), estar repleta de detalhes eletrónicos e de Orphans oferecer-nos aquela tal faceta eminentemente pop que marcou os últimos trabalhos dos Coldplay, os melhores momentos de Everyday Life estão reservados para canções como Daddy, um sublime exercício de catarse intimista dedilhado ao piano e sussurrado no nosso ouvido, Church, tema assente num rock rugoso e direto de primeira água, apesar da vasta miríade de efeitos que o adorna sem ofuscar, Trouble In Town, uma montanha russa de emoções assente num riff de guitarra empolgante e numa sonoridade rock expansiva que faz jus a alguns dos melhores instantes da carreira da banda e BroKen, um delicioso exercício experimental gospel, buliçoso e vibrante.

Em Everyday Life os Coldplay parecem querer voltar, como já referi, um pouco àquelas raízes em que o coração de Martin é que impõe a sua lei no conteúdo das canções do quarteto e não aquilo que a exigente radiofonia pede, apesar do travo que o disco tem à areia do deserto que cobre uma das zonas mais conturbadas do mundo atual. Nos seus dois volumes, os Coldplay não deixam de ser ajudados por uma máquina de produção irrepreensível, juntam ao cardápio mais um naipe de canções que funcionará certamente bem em estádio defronte de grandes masssas, apesar da cada vez maior consicência ecológica do projeto e da menos necessidade de faturar os fazer interrrogar acerca da necessidade de tal, mas o que mais marca este álbum é o facto de expôr alguns dos fantasmas estéticos que sempre acompanharam a carreira discográfica dos Coldplay, que tantas vezes procurou um equilíbrio nem sempre fácil entre o apelo comercial da indústria musical e a vontade destes músicos em ressuscitar antigos arranjos, técnicas e sonoridades. Espero que aprecies a sugestão...

Coldplay - Everyday Life

01. Sunrise
02. Church
03. Trouble In Town
04. BrokEn
05. Daddy
06. WOTW/POTP
07. Arabesque
08. When I Need A Friend
09. Sunrise/Sunset Interlude #1
10. Sunrise/Sunset Interlude #2
11. Sunrise/Sunset Interlude #3
12. Sunrise/Sunset Interlude #4
13. Sunrise/Sunset Interlude #5
14. Sunrise/Sunset Interlude #6
15. Guns
16. Orphans
17. Eko
18. Cry Cry Cry
19. Old Friends
20. Bani Adam
21. Champion Of The World
22. Everyday Life


autor stipe07 às 14:55
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Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

Moon Duo – Stars Are The Light

O fabuloso rock psicadélico dos Moon Duo está de regresso em dois mil e dezanove com Stars Are The Light, o sétimo registo de estúdio deste projeto formado pela dupla Ripley Johnson e Sanae Yamada e um nome incontornável do cenário indie atual. Detentores de um trajeto discográfico imaculado e com vários pontos altos, os Moon Duo têm tido uma segunda metade desta década bastante profícua, com o lançamento de Occult Architecture Vol. 1 e Vol., há dois anos, dois álbuns que nos levaram de novo rumo à pop psicadélica setentista, através dos solos e riffs da guitarra de Ripley a exibirem muitas vezes linhas e timbres muito presentes na country americana e no chamado garage rock, mas também de sintetizadores inspirados e com efeitos cósmicos plenos de groove. No início do ano seguinte voltaram com o lançamento de um duplo single, à boleia da Sacred Bones, o refúgio perfeito que encontraram há já algum tempo para explorar todo o hipnotismo lisérgico que carimba o seu adn e agora, com este Stars Are The Light, cimentam uma posição forte, dentro de um espetro sonoro muito peculiar e tremendamente aditivo.

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Com um olhar bastante anguloso numa mescla entre o funk setentista e o salutar caos em que se instalou o rock progressivo no final do século passado, Stars Are The Light oferece-nos oito canções que refletem as experiências humanas que têm no amor, na mudança e na luta interna, muitas vezes a maior força motriz. Em Flying levantamos logo voo nas asas de uma batida inebriante e um sintetizador repleto de cosmicidade e a partir daí ficamos, rapidamente absorvidos por este caldo algo entropecedor, mas nada bafiento. Depois, a curiosa toada épica e vibrante do tema homónimo e, principalmente, o riff abrasivo que define o punk inspirado de Eye 2 Eye afunda-nos definitivamente na espiral filosófica dos Moon Duo, uma espécie de catarse psicadélica que, pouco depois, em Lost Heads, ao assentar numa batida inspirada e em flashes de efeitos e timbres de cordas divagantes, faz-nos dançar em altos e baixos enleantes, ao som de uma química interessante e única entre o orgânico e o sintético.

O que mais impressiona nos Moon Duo é que, registo após registo, a fórmula selecionada é muito simples e semelhante, mas conceitos como inovação, diferença e inquietude estão timbrados com indelével marca porque aquilo que sobressai acaba por ser a genialidade e a capacidade de execução de dois verdadeiros mestres do improviso psicadélico, uma estratégia que, melodicamente, cria atmosferas nostálgicas e hipnotizantes capazes de nos transportar para uma outra galáxia, que terá muito de etéreo, mas também uma imensa aúrea crua e visceral e que contém muitos dos pilares fundamentais que são ainda, meio século depois dos anos setenta, definidores da nossa contemporaneidade cultural.

Álbum que prova que ainda é possível, várias décadas depois, haver um som que pode ser recriado com elevado grau de inedetismo e de acessibilidade, Stars Are The Light tem essa subtil capacidade para nos fazer deambular entre diferentes mundos, inclusive da própria world music (escute-se Eternal Shore), uns com mais groove e outros mais relaxantes, mas sempre com a tónica do experimentalismo na linha da frente e sem este projeto de São Francisco se perder em exageros desnecessários. Espero que aprecies a sugestão... 

Moon Duo - Stars Are The Light

01. Flying
02. Stars Are The Light
03. Fall In Your Love
04. The World And The Sun
05. Lost Heads
06. Eternal Shore
07. Eye 2 Eye
08. Fever Night


autor stipe07 às 12:40
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Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019

Comet Gain - Fireraisers Forever!

Os britânicos Comet Gain de David Feck, estão de regresso com o seu primeiro álbum em cinco anos, um trabalho intitulado Fireraisers Forever! que viu a luz do dia através da Tapete Records e que sucede ao aclamado registo Paperback Ghosts de 2014. Gravado numa sala de estar no norte de Londres com James Hoare (The Proper Ornaments, Ultimate Painting), com a ajuda de Joseph Harvey-Whyte (Hanging Stars), Fireraisers Forever foi transformado em disco pelo baterista e produtor MJ Taylor e oferece-nos doze enraivecidas canções, assentes num punk rock de elevado calibre e com uma forte toada abrasiva, como se exige a um projeto que sempre se fez notar por uma filosofia estilística de choque com convenções e normas pré-estabelecidas.

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Fireraisers Forever! é uma claro contra a desumanidade crescente e a estupidez incomensurável que grassa neste mundo onde o dinheiro se reclama como a religião com mais crentes. Numa época do vale tudo, custe o que custar e seja contra quem for, os Comet Gain parecem apostados em fazer mossa e agitar as mentes mais desprevenidas e incautas com composições plenas de chama nas veias e com um travo nostálgico em que a herança de nomes como os The Clash, Ramones e até o próprio Lou Reed, se faz notar com elevado grau de impressionismo.

Assim, sem perderem tempo com o acessório e claramente a quererem celebrar o momento, o imediato e o presente, os Comet Gain vão diretos ao assunto, com canções como Mid 8ts ou We're All Fucking Morons a assentarem em guitarras repletas de fuzz e distorções ríspidas e uma bateria onde a anarquia é pedra de toque essencial, mas também com instantes como Society Of Inner Nothing ou The Godfrey Brothers, a mostrarem uma faceta mais clássica e acessível, dentro do declarado espetro rock puro e duro em que assenta o adn dos Comet Gain.

Foreraisers Forever! é um daqueles espasmos criativos pensado e executado logo à primeira, um disco para ser escutado sem ideias pré-definidas e que se torna particularmente aprazível em dias festivos e descomprometidos. É aquela banda-sonora perfeita para os momentos em que vale tudo e as consequências ficam para depois, um alinhamento boémio, irascível e lascivo, desobediente e até algo marginal, executado por um projeto que merece claramente uma superior projeção. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 12:41
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Sábado, 16 de Novembro de 2019

TOY – Songs Of Consumption

Depois do lançamento já em dois mil e dezanove de Happy In The Hollow, o quarto registo da carreira, os TOY de  Tom Dougall, Maxim Barron, Dominic O'Dair, Charlie Salvidge e Max Oscarnold, estão de regresso com Songs Of Consumption, uma coleção de oito canções que são, nada mais nada menos, que reinterpretações da banda de temas que inspiraram a carreira dos TOY, originais de alguns nomes míticos do coletivo britânico, nomeadamente os Stooges, Amanda Lear, Nico, The Troggs, Soft Cell, John Barry e Pet Shop Boys, entre outros.

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Sonoramente, Songs of Consumption é um feliz apêndice da filosofia que esteve subjacente à gravação de Happy In The Hollow, ampliando, portanto, a nova visão sonora dos TOY, cada vez mais distintiva e original e que se vai distanciando do chamado krautrock sujo e aproximando-se de uma bem sucedida simbiose entre alguns elementos fundamentais da pop mais harmoniosa com o fuzz lisérgico que, diga-se de passagem, sempre caraterizou o ambiente sónico deste quinteto.

Sintetizadores e uma vasta miríade de elementos eletrónicos, incluindo as cada vez mais famosas drum machines, e uma opção ao nível da produção, pelo lo fi, sempre aliado a um aturado trabalho de exploração experimental, foram, claramente, as traves mestras que nortearam o processo de incubação de Songs Of Consumption, com os TOY a tentarem sempre puxar as canções para um universo sonoro distinto das versões originais, mas sem nunca colocar em causa a essência das mesmas. Espero que aprecies a sugestão...

TOY - Songs Of Consumption

1.   Down On The Street (The Stooges)
2.   Follow Me (Amanda Lear)
3.   Sixty Forty (Nico)
4.   Cousin Jane (The Troggs)
5.   Fun City (Soft Cell)
6.   Lemon Incest (Charlotte Gainsbourg & Serge Gainsbourg)
7.   Always On My Mind (B.J. Thomas)
8.   A Dolls House (John Barry)


autor stipe07 às 17:56
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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019

Pond – Sessions

Depois de terem começado a primavera deste ano do nosso hemisfério com Tasmania, os POND de Nick Allbrook, baixista dos Tame Impala, estão de regresso com Sessions, um apanhado de onze das canções mais emblemáticas do projeto australiano, interpretadas ao vivo em estúdio e produzidas por Kevin Parker.

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O objetivo primordial de Sessions é, de acordo com Jay Watson, multi-instrumentista dos POND, capturar a essência de um espetáculo ao vivo do grupo e, ao mesmo tempo, reproduzir um pouco da essência das famosas Peel Sessions, da autoria do famoso e saudoso DJ John Peel, da BBC, que promoveu algumas das melhores sessões ao vivo da história da indie contemporânea.

Com especial enfase no conteúdo de Tasmania, mas com temas como Don’t Look at the Sun (Or You’ll Go Blind), lançado originalmente no disco de estreia Psychedelic Mango (2009), Paint Me Silver, Burnt Out StarSweep Me Off My Feet retirados de The Weather (2017), ou Man It Feels Like Space Again, tema homónimo do disco do grupo de dois mil e quinze, a oferecerem ao alinhamento um cariz amplo, abrangente e bastante apelativo, porque Tasmania será, na minha opinião, o registo menos inspirado da carreira dos POND, Sessions é um álbum obrigatório para todos aqueles que da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se deliciam com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um projeto.

Os POND vivem num momento crucial da carreira, não só porque Tasmania mostrou que a banda parece cada vez menos disponível para abraçar aquele lado mais experimental e, consciente ou inconscientemente, um pouco amarrada ao sucesso comercial dos Tame Impala e a resvalar para um perfil mais direcionado para as tabelas de vendas do que o exercício pleno de uma salutar liberdade criativa. Que Sessions seja um ponto de partida para o regresso a um conceito de criação artística que privilegie guitarras alimentadas por um combustível eletrificado que inflame raios flamejantes que cortem a direito, feitas, geralmente, de acordes rápidos, distorções inebriantes e plenas de fuzz e acidez e acompanhadas por sintetizadores munidos de um infinito arsenal de efeitos e sons originários das mais diversas fontes instrumentais, reais ou fictícias. Não faltam exemplos desses neste alinhamento que terá na expressão rock cósmico talvez a forma mais feliz de se catalogar. Espero que aprecies a sugestão...

Pond - Sessions

01. Daisy
02. Paint Me Silver
03. Sweep Me Off My Feet
04. Don’t Look At The Sun (Or You’ll Go Blind)
05. Hand Mouth Dancer
06. Burnt Out Star
07. Tasmania
08. Fire In The Water
09. The Weather
10. Medicine Hat
11. Man It Feels Like Space Again


autor stipe07 às 15:44
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Terça-feira, 12 de Novembro de 2019

Fink – Bloom Innocent

Cinco anos depois do excelente álbum Hard Believer e três do credível e não menos exuberante sucessor, o registo Resurgam, o projeto Fink de Fin Greenall (voz, guitarra), um músico britânico com quase meio século de vida, natural de Bristol e que, deambulando entre Londres e Berlim, vai-se destacando não só como músico, mas também como compositor e produtor para outros projetos, está de volta com Bloom Innocent, oito canções que encarnam o alinhamento mais intimista, negro e intrincado do músico, mas que mesmo assim não deixam de continuar a catapultá-lo para o já habitual nível qualitativo de excelência das suas propostas, numa das carreiras mais menosprezadas do cenário indie contemporâneo.

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Gravado na intimidade do seu estúdio caseiro de Berlim, o local onde Fin se sente mais confortável e feliz a compôr e onde, de acordo com o próprio, consegue manter a sua sanidade mental, sempre em risco de resvalar devido à frustração inerente às agruras e à insatisfação de qualquer processo criativo, com destaque para o musical, Bloom Innocent contém as composições mais complexas da carreira de Fink, assentes em guitarras repletas de efeitos e timbres etéreos e uma complexidade melódica ímpar, que tanto apela à meditação e ao recolhimento, como à celebração de tudo aquilo que de bom podemos retirar das coisas mais simples da vida, o tema preferido da escrita deste compositor único.

Assim, num projeto que também tem como atributo maior a belíssima voz de Fin e o exemplar trabalho de produção de Flood, que já tinha colocado as mãos em Resurgam, canções como Bloom Innocent, o tema homónimo de abertura, feito de uma melodia que tem por base uma bateria, um insinuante piano e a voz de Fink impregnada de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de um teclado e algumas cordas, ou o clima intrigante e vincadamente experimental e orgânico de We Watch The Stars, são perfeitos para nos transportar para um disco essencialmente acústico e com uma forte toada blues. Depois, na indisfarcável tonalidade chill de Once You Get A Taste, no modo preciso como cordas e tambor se revezam no controle em Out Loud, no modo inteligente como as vozes se sobrepôem à crescente trama instrumental, ampliando o travo dramático de That's How I See You Now e no piscar de olhos à música negra e ao r&b em I Just Want A Yes, contemplamos um disco com uma elevada componente cinematográfica e reflexia, uma materialização não tão exuberante como alguns antecessores, mas igualmente assertiva, de todos os atributos que Fink, um artista tremendamente dotado, guarda na sua bagagem sonora, assente numa filosofia estilística de forte cariz eclético.

Bloom Innocent está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem em ambientes carregados de ritmos e estruturas sonoras muitas vezes falsamente minimalistas e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que a música pode ser realmente um veículo para o encontro do bem e da felicidade coletivas. Espero que aprecies a sugestão...

Fink - Bloom Innocent

01. Bloom Innocent
02. We Watch The Stars
03. Once You Get A Taste
04. Out Loud
05. That’s How I See You Now
06. I Just Want A Yes
07. Rocking Chair
08. My Love’s Already There


autor stipe07 às 20:39
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Sexta-feira, 8 de Novembro de 2019

Vancouver Sleep Clinic – Onwards To Zion

Foi numas férias em Bali que Tim Bettinson, o músico e compositor australiano de vinte e três anos que encabeça o projeto Vancouver Sleep Clinic, se inspirou e começou a idealizar o conteúdo de Onwards To Zion, o seu segundo registo de originais, onze maravilhosas canções que sucedem a Revival, o álbum de estreia que o autor lançou em dois mil e dezassete e que colocou logo este projeto debaixo de merecidos holofotes, não só da crítica dos antípodas, mas também de diversas outras latitudes do nosso globo.

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Onwards To Zion tem uma faceta dupla bastante interessante e que vale bem a pena tomar como ponto de partida para a análise do seu conteúdo; Se por um lado, para compôr as suas canções, o autor teve de reaprender a incubar e ressuscitar todo o talento que sempre demonstrou ter desde tenra idade para esta poda, já que o álbum encarna um marco de libertação do projeto Vancouver Sleep Clinic de uma espécie de purgatório editorial porque Tim esteve em acérrima luta judicial com a sua editora para poder criar livre de constrangimentos artísticos, por outro é um registo que tem como grande força motriz a perca de um amigo muito chegado do músico, sendo um exercício de catarse dessa inevitável dor.

Logo a abrir o alinhamento de Onwards To Zion, na pueril melodia sintetizada e na batida que se esprai em espuma e dor no falsete de Bad Dream, Tim plasma esta permissa, numa canção que se debruça sobre esse trauma e a necessidade de seguir em frente, sem receios, porque seria certamente esse o desejo de quem partiu. A luminosidade dessa composição e, pouco depois a riqueza emotiva e instrumental da lindíssima Shooting Stars, são músicas que entroncam no desejo do músico de materializar em Onwards To Zion um forte ensejo de oferecer algo de positivo ao mundo, mesmo que subsistam depois, no âmago do álbum, alguns instantes menos coloridos, mas não menos inspirados ou belos, como as cordas melancólicas de Summer 09, canção composta num dia de chuva intensa, a charmosa eletrónica ambiental de ZION, uma enumeração exaustiva de todos os sentimentos negativos que chicotearam Tim em tempos, ou a feliz interseção entre R&B e rock psicadélico plasmada em Into The Sun, um tema sobre como enfrentar com coragem os medos para que não se derrape para um poço sem fundo caso não se consiga exorcizá-los.

Registo repleto de guitarras sonhadoras abraçadas a sintetizadores cósmicos e sofisticados e camaleónicos arranjos da mais diversificada proveniência, com o jazz e a pop sessentistas à cabeça como inspirações óbvias, tudo embrulhado num profundo e inebriante pendor emotivo, Onwards To Zion oferece-nos a visão mágica de uma jornada de descoberta individual, feita por um músico que tem sentido na pele algumas das maiores agruras que a passagem da juventude para a vida adulta podem proporcionar, mas que parece não só passar incólume a essa travessia, como pronto para servir de exemplo e de aconchego a quem com ele se identificar e o solicitar. Espero que aprecies a sugestão...

Vancouver Sleep Clinic - Onwards To Zion

01. Bad Dream
02. Lovina Beach (Sunrise)
03. Summer ’09
04. Into The Sun
05. Shooting Stars
06. Fever
07. Villa Luna (Midnight)
08. Ghost Town
09. ZION
10. Yosemite
11. Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love Love


autor stipe07 às 18:19
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Quarta-feira, 6 de Novembro de 2019

Vetiver – Up On High

Andy Cabic, a mente profunda e inspirada que em São Francisco, na solarenga Califórnia, alimenta e dá vida ao projeto Vetiver, está de regresso aos discos, com um trabalho intitulado Up On High, o sétimo da sua carreira, um alinhamento de dez canções que chegou aos escaparates a um de novembro, através das etiquetas Mama Bird Recording Co. (US/World) e Loose Music (UK/EU).

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Andy Cabic assina com exemplar bitola qualitativa um dos projetos mais bonitos da indie folk contemporânea. E não é como dizer isto de outra forma, porque bonito é mesmo um adjetivo feliz para caraterizar o seu catálogo. De facto, cada disco de Vetiver é um regalo para os ouvidos e para a mente de quem aprecia relaxar e viajar para um universo sonoro que seja melodicamente acessível, mas sem deixar de exalar profundidade lírica, um ideário concetual que Cabic sabe plasmar na perfeição através de canções geralmente  sentidas e honestas no modo como partilham sensações e eventos, que até podem ser factos que o autor experimentou em diferentes locais e com diversas pessoas que se foram cruzando na sua vida.

Esta faceta auto biográfica da discografia de Vetiver é um dos seus maiores atributos e Up On High não foge a essa regra, num álbum mágico e em que o autor parece recolher-se muito sobre si próprio, enrolando-se numa espécie de concha onde dança sozinho estas canções, enquanto reflete sobre si e o o seu passado, de modo a viver o presente com altivez e alegria e sem nunca elevar demasiado o tom delicado da sua voz, nem a míriade instrumental que a sustenta.

Assim, se a cândida acusticidade de The Living End, o tema que abre Up On High, tem, desde logo, a generosidade de nos mostrar aquela folk pintada com alguns dos melhores detalhes da chillwave, uma receita que se repete em Filigree e que Vetiver recria melhor que ninguém, To Who Knows Where adensa ainda mais a trama, indo ao âmago da matriz da melhor herança tradicional americana, com nomes como George Harrison ou até o próprio Reed a serem influências mais ou menos nítidas. Tal também sucede em Wanted, Never Asked, outra aconchegante composição, que contém na sua essência a melhor herança da mais genuína folk do outro lado do atlântico, uma canção com um travo de pureza e simplicidade únicos, amena, íntima e cuidadosamente produzida, mas também arrojada no modo como, através da suavidade das cordas e do groove da bateria exala uma enorme elegância e sofisticação. Depois, canções como Swaying, um tratado de indie rock oitocentista que nos traz à memória momentos maiores da discografia de uns The Feelies, Yo La Tengo, Wilco ou os próprios R.E.M., Hold Tight, curiosa no modo como pisca olho ao reggae e All We Could Want, uma composição buliçosa, sorridente e assente numa orgânica percurssiva com um certo travo psicadélico, acabam por dar a indispensável riqueza e diversidade a um alinhamento que é bem capaz de nos dar a mesma força positiva que levou este compositor a criar estas canções com esse vincado propósito individual.

Registo em que se sente à tona uma curiosa e sensação de positivismo, bom humor e crença em dias melhores, Up On High é capaz de nos colocar no rosto aquele nosso sorriso que nunca nos deixa ficar mal, enquanto nos ajuda, por exemplo, a finalmente traçar uma rota sem regresso até aquele secreto desejo que nunca tivemos coragem de realizar. De facto, a música de Vetiver é perfeita para nos fazer descolar da vida real muitas vezes confusa e repleta de precalços, aterrando-nos num mundo paralelo que espicaça as sensações mais positivas e bonitas que alimentam o nosso íntimo e que, entre a luz e a melancolia, realizam-se, provando que Andy sabe como ser um conselheiro espiritual sincero e firme e que tem a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade. Espero que aprecies a sugestão...

Vetiver - Up On High

01. The Living End
02. To Who Knows Where
03. Swaying
04. All We Could Want
05. Hold Tight
06. Wanted, Never Asked
07. A Door Shuts Quick
08. Filigree
09. Up On High
10. Lost (In Your Eyes)


autor stipe07 às 17:08
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Terça-feira, 5 de Novembro de 2019

Cigarettes After Sex – Cry

Já chegou aos escaparates Cry, o novo registo de originais dos norte americanos Cigarettes After Sex, um projeto oriundo de El Paso, no Texas e liderado por Greg Gonzalez, ao qual se juntam Jacob Tomsky, Phillip Tubbs e Randy Miller. Este novo alinhamento de uma das maiores coqueluches da indie pop de cariz mais ambiental, tem a chancela da Partizan Records e sucede ao muito aclamado registo homónimo de estreia que este grupo lançou há pouco mais de dois anos.

Cigarettes After Sex release new track ‘Falling In Love’

Gravado em sessões noturnas numa mansão na ilha de Maiorca e, de acordo com o grupo, uma meditação cinematográfica sobre as muitas facetas complexas do amor – encontro, desejo, necessidade, perda… ou tudo uma vez só, Cry  contém impressa a marca indistinta de uma banda que se baptizou com felicidade, já que compôe com todos os sentidos apontados à alcova, criando temas que tanto servem para o jogo de sedução, como para (traduzindo à letra) aquele cigarro que muitos gostam de queimar depois do coito.

O desejo e o prazer sexual são então, naturalmente, marcas indistintas desta banda e registadas sem grandes pudores neste Cry, em canções cujo travo minimal é uma enganadora aparência, porque são, globalmente, ricas em detalhes e nuances que vale bem a pena destrinçar. Sintetizadores enevoados, cruzados com cordas de forte pendor metálico e vibrante e arranjos soturnos que contrastam com o ambiente soalheiro da ilha onde Cry foi gravado, são a pedra de toque de um registo com têmpera, que apela aos mais carnais sentidos e cavalga até ao hipotálamo do ouvinte sem receio da rejeição, até porque as palavras não são o que mais conta à primeira impressão, mas antes a aparência, neste caso sonora, de um disco que vale, acima de tudo, pela capacidade melódica que tem de nos hipnotizar e enlear.

Portanto, canções como a romântica Don't Let Me Go, um daqueles típicos temas que pode servir de banda sonora àquela primeira aproximação ao alvo, a lasciva Kiss It Off Me, a intrigante Heavenly, uma composição que serve-se de um imponente baixo, do reverb ecoante de uma guitarra e do ritmo hipnótico da bateria ou a sensitiva Touch, além de colocarem em prática uma alternância contínua e quase impercetível entre diferentes estilos, eminentemente noventistas e com uma dose de experimentalismo bastante vincada e repleta de soul, levam, sem apelo nem agravo, a nossa mente e o nosso corpo rumo a universo abstrato e meditativo, mas também profundamente sensorial e com um impacto verdadeiramente colossal e marcante. Espero que aprecies a sugestão...

Cigarettes After Sex - Cry

01. Don’t Let Me Go
02. Kiss It Off Me
03. Heavenly
04. You’re The Only Good Thing In My Life
05. Touch
06. Hentai
07. Cry
08. Falling In Love
09. Pure


autor stipe07 às 18:36
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Quinta-feira, 31 de Outubro de 2019

Pete Yorn – Caretakers

Nascido em Nova Jersey há já quatro décadas e meia, Pete Yorn é um dos nomes mais interessantes do cenário indie norte-americano, um músico, cantor e compositor, que se notabilizou há cerca de dez anos quando gravou o disco Break Up, em parceria com a atriz e cantora Scarlett Johansson. Caretakers é o seu novo compêndio de originais, o oitavo registo do seu cardápio sonoro, um trabalho em que Yorn demonstra com elevada bitola qualitativa a sua elevadíssima capacidade interpretativa junto das cordas, nomeadamente a viola e a guitarra, os seus instrumentos de eleição.

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Tendo-se estreado no início deste milénio com o álbum musicforthemorningafter e já beneficiado de colaborações de nomes como Peter Buck ou os Guided By Voices, além da já referida Scarlett, nos oito discos que editou, Pete Yorn tem consolidado uma carreira bastante interessante dentro de um espetro sonoro que privilegia uma interseção cuidada entre alguns dos tiques essenciais do típico rock alternativo norte-americano e o chamado alt-country, que conserva, na sua essência, alguns dos mais belos fundamentos daquele som tipicamente americano que todos identificamos facilmente. Chapéus de cowboy e camisas aos quadrados por cima de t-shirts desbotoadas podem muito bem ser o dress code das canções de Yorn, caso elas se quisessem vestir com aquela que é a sua essência e travo.

De facto, em pouco mais de meia hora, Caretakers transporta-nos com nitidez para uma América repleta de dilemas, mas também profundamente humana, emocional e, de algum modo, simples. Canções do calibre de Calm Down, um exuberante exercício de manipulação de cordas luminosas com arranjos de forte cariz vintage, Can't Stop You, um mais intimista e afetuoso instante de melancolia e introspeção à boleia de uma guitarra eletrificada repleta de charme ou ECT, um portento de intimidade que convida ao sorriso fácil e à reflexão espontânea, são momentos maiores de um trabalho onde simplicidade e sofisticação se confundem e se sentem porque as canções deste disco falam do nosso interior com clareza e ressucitam o que de melhor a mente humana pode sentir, sendo a sua audição uma experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Espero que aprecies a sugestão...

Pete Yorn - Caretakers

01. Calm Down
02. I Wanna Be the One
03. Can’t Stop You
04. Idols (We Don’t Ever Have To Say Goodbye)
05. Do You Want To Love Again?
06. Caretakers
07. Friends
08. ECT
09. POV
10. Opal
11. A Fire In The Sun
12. Try


autor stipe07 às 15:09
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Quarta-feira, 30 de Outubro de 2019

Tiago Vilhena - Portugal 2018

O músico e compositor Tiago Vilhena, que já foi George Marvison noutro projeto e membro dos Savana, acaba de se estrear nos lançamentos discográficos com Portugal 2018, um trabalho que tem a chancela da Pontiaq e cantado quase na sua totalidade em português. Portugal 2018 contém dez composições filosóficas e relaxadas, introspetivas e reveladoras, sendo um registo com um forte cunho ativista, mas tambémum álbum fantástico porque retrata profetas, dilemas da morte e da vida, poções e milagres. É um registo em que o autor olha de modo particularmente crítico para este mundo e, de modo muito particular, para o nosso jardim à beira mar plantado, questionando a existência, incorporando e relatando experiências de animais, criticando a inoportunidade, elogiando a vida, a viagem e a simplicidade.

Resultado de imagem para Tiago Vilhena - Portugal 2018

Ode à diversidade e ao bom gosto, Portugal 2018 contém um soberbo manancial de composições buriladas com inquestionável requinte e bom gosto, rematadas por uma limpidez e uma sapiência indesmentíveis, quer ao nível da produção quer da mistura. Se ao ouvires Portugal 2018 percebes que o buliçoso piano de Quem me trouxe ao mundo te faz sorrir de orelha a orelha sem notares, se o dedilhar intensamente impressivo das cordas que recriam um instante a dois de intenso frenesim sensual em Cabaço vai morrer é um filme que fazes no teu âmago sem esforço, se as ondas que sentes a se eriçarem na tua pele durante a audição de O mar têm um travo a sal e a ostras delicioso ou as sintetizações pueris que sustentam Fujo para sempre te iludem com uma espécie de despreocupação inócua, que resulta, na verdade, de um processo de experimentação tremandamente criterioso e bem sucedido, ou se D'esta vida te coloca dentro de uma espécie de caixinha de sons minúscula, que tem como cenário um delicioso pôr do sol em plena Primavera então estás, na minha humilde opinião, claramente sintonizado com a essência de um disco com uma beleza melódica, lírica e instrumental incomum, que instiga, hipnotiza e emociona, um registo capaz de fazer parar o relógio ao mais empedernido coração e colocá-lo no rumo certo, tal é o rol de emoções que transmite e a intensidade das mesmas. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:14
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