Quarta-feira, 27 de Junho de 2018

Cœur De Pirate – En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé.

Conhecida pela sua escrita impressiva, quase sempre na primeira pessoa e pela arrebatadora sinceridade e doce luminosidade da sua música, a canadiana Béatrice Martin comemora em 2018 dez anos de carreira à frente do seu projeto Cœur De Pirate e fá-lo com a edição de um álbum intitulado En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé. Esse novo registo de originais desta lindíssima artista oriunda do Quebeque canadiano chegou aos escaparates já no início deste mês através da Dare To Care Records e não é necessário ser um génio na língua francesa para se entender toda a teia emocional destas dez canções que, até no próprio duplo sentido do título do disco, num misto de cautela e turbulência, explícita toda a teia sentimental que descreve a pessoalidade de uma mulher madura, mas também tremendamente humana e já bastante vivida.

Resultado de imagem para Cœur De Pirate – En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé

Gravado maioritariamente em Paris e produzido por Cristian Salvati, En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé é uma deliciosa narrativa sobre o poder do amor, o modo como essa força se ajusta aos diferentes ritmos e vivências de uma relação e como a desregulação desse sentimento pode provocar, no seio da mesma, situações menos felizes e saudáveis que, em última instância, podem colocar em causa a senilidade dos intervenientes.

Escuta-se Somnambule, um dos momentos altos do registo que também teve forte influência da obra ficcional do escritor René Barjavel e percebe-se claramente toda esta trama acima descrita, numa canção que foi composta num estágio superior de sapiência, um estado de alma que permitiu à autora utilizar o seu habitual espírito acústico e orgânico ao piano para se colocar também à boleia de arranjos de cordas tensos, dramáticos e melódicos e contar-nos assim mais uma história que a materializa na forma de uma conselheira espiritual sincera e firme e que tem a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, neste caso do tal amor, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade. Depois, na pop efervescente de Prémonition, na luminosidade e no positivismo feliz de Amour D'un Soir e nos belíssimos arranjos que divagam por De Honte Et De Pardon, percebemos o modo como este disco acabou por funcionar como um bem sucedido escape emocional para alguém que incubou este alinhamento num momento complicado da sua vida pessoal, de exaustão e de necessidade de isolamento, mas que, talvez inconscientemente, acabou por dar vida a um dos discos mais pessoais e intimistas do ano. Espero que aprecies a sugestão...

Cœur De Pirate - En Cas De Tempête, Ce Jardin Sera Fermé.

01. Somnambule
02. Prémonition
03. Je Veux Rentrer
04. Dans Les Bras De L’autre
05. Combustible
06. Dans La Nuit (Feat. Loud)
07. Amour D’un Soir
08. Carte Blanche
09. Malade
10. De Honte Et De Pardon


autor stipe07 às 21:08
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Terça-feira, 5 de Junho de 2018

Father John Misty - God's Favourite Costumer

Depois do excelente Pure Comedy, lançado na primavera do ano passado e que teve posição de destaque na lista dos melhores álbuns desse ano para esta redação, além de ter valido um Grammy para o autor, os fãs nacionais de Father John Misty têm mais motivos para se regozijar em 2018, já que este músico norte-americano acaba de editar um novo álbum intitulado God's Favourite Customer, cujo conteúdo nos oferece um Josh Tillman ainda mais absorvido nos seus dilemas, vulnerabilidades e inquietações pessoais, enquanto ensaia uma abordagem tremendamente empática e próxima com o ouvinte, sem se deslumbrar e perder a sua capacidade superior de criar canções assentes num luminoso e harmonioso enlace entre cordas e teclas, que dão vida a temas carregados de ironia e de certo modo provocadores. Bom exemplo disso é o single Mr Tillman, canção cuja letra, flutuando sobre um memorável piano, nos coloca na perspetiva de um empregado de hotel que questiona o comportamento algo excêntrico do próprio Misty durante uma estadia de dois meses num hotel nova iorquino, onde lidou com o uso abusivo de substâncias psicotrópicas e as dificuldades do seu matrimónio, entre outras questões pessoais.

Resultado de imagem para father john misty 2018

God's Favourite Customer é, claramente, um constante diálogo de Josh consigo próprio, uma forma de exorcizar tudo aquilo que o consome e de conseguir obter uma saída airosa para o labirinto em que a sua vida se parece ter tornado. Ao perguntar a uma entidade divina, em Hangout At The Gallows, o quê e o porquê das coisas, num tema que faz o autor regressar aquela folk mais agreste em que se tornou mestre superior, ao dissertar sobre a dificuldade que tem em avançar em frente nos momentos de maior dor em Just Dumb Enough To Try, ao demonstrar em The Palace o medo que sente de sair do quarto de hotel referido em Mr Tillman, ao colocar-se na pele da esposa em Please Don’t Die, tentanto adivinhar o que ela sente por ver o marido em sofrimento quase permanente e ao encerrar os quase trinta e nove minutos do disco com uma canção em que, como o seu título indica, é a imperfeição da nossa inevitabilidade humana que muitas vezes nos leva ao sofrimento, mas que isso não deverá ser mais forte do que a nossa propensão natural para a busca da felicidade e do sentido da vida, fica plasmado este cenário auto reflexivo, mas que pelo modo como é musicado acaba também por ser, por incrivel que pareça, um tónico que nos deixa acreditar que pode ser possível confiar que o nosso modus operandi para a obtenção dos melhores caminhos e atalhos principais e secundários para a suprema felicidade ou, como ponto de partida, para a redenção pessoal. E Father John Misty leva a cabo esta demanda com um elevado sentido críptico e desafiante, já que não é óbvia, em alguns instantes, a descodificação célere e intuitiva das suas reais intenções.

Num disco preenchido então com canções bonitas e sentidas, repletas de orquestrações opulentas e com um grau de refinamento classicista incomensuravelmente belo, chega a ser inquietante o modo impressivo e realista como Joshua Tillman se senta ao piano ou coloca a viola no regaço e toca e canta emotivamente sobre as agruras, anseios, inquietações inerentes à condição humana, mas também as motivações e os desejos de quem usa o coração como veículo privilegiado de condução, orientação e definição de algumas das metas imprescindíveis na sua existência. Espero que aprecies a sugestão...

Father John Misty - God's Favorite Customer

01. Hangout At The Gallows
02. Mr. Tillman
03. Just Dumb Enough To Try
04. Date Night
05. Please Don’t Die
06. The Palace
07. Disappointing Diamonds Are The Rarest Of Them All
08. God’s Favourite Customer
09. The Songwriter
10. We’re Only People (And There’s Not Much Anyone Can Do About That)


autor stipe07 às 16:15
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Segunda-feira, 30 de Abril de 2018

Sigur Rós - Route One

No solstício de verão de 2016, o dia com mais horas de sol desse ano (o que na Islândia significa que praticamente nunca fica de noite, devido à sua posição sobre o Círculo Polar Ártico) os Sigur Rós embarcaram num interessante projeto designado Route One para mostrar as paisagens da sua terra Natal. Conduziram durante as vinte e quatro horas desse dia pelos mil trezentos e trinta e dois quilómetros da Route One, a estrada que envolve toda a costa do país, motivo pelo qual é também chamada de Ring Route e gravaram essa viagem, cujos filmes, disponíveis no canal de youtube da banda, são uma verdadeira visita guiada por idílicas paisagens e uma bela maneira de ficar a descobrir a Islândia. A essas imagens acabaram por juntar várias melodias que depois de terem sido editadas e comprimidas, resultaram em pouco mais de quarenta minutos de música, divididos em oito faixas, que acabam de ser publicadas, sem aviso prévio, pela XL Recordings, materializando a banda sonora dessa incrível e curiosa jornada.

Resultado de imagem para sigur rós 2018

Cada uma das oito composições de Route One, o oitavo disco da carreira do grupo islandês, representa um ponto específico da ilha, na forma de coordenadas. Assim, se 63º32’43.7″N 19º43’46.3″W refere-se a Steinahellier Cave, uma caverna encrustada na rocha, no sul da ilha, junto ao lago Holtsós, já 63º47’36.2″N 18º02’16.9″W é numa pequena ilha logo a seguir ao posto de gasolina de ÓB Kirkjubæjarklaustur, perto de Skaftárhreppur, por onde passa a Route One, um pouco a leste do primeiro ponto, 64º02’44.1″N 16º10’48.5″W são as coordenadas da ponte sobre o encontro do lago Jökulsárlón e o mar e 64º08’43.3″N 21º55’38.8″W o ponto de partida, em Reykjavík, só para referir alguns exemplos.

Sonoramente, Route One é um disco onde tudo se orienta de forma controlada, como se todos os detalhes instrumentais escutados, de forte cariz orgânico, fossem agrupados num bloco único de som que dá voz à exuberância natural de um país forjado à milhões de anos a fogo vulcânico e constantemente banhado por gelo. A Islândia é um dos locais do globo onde os quatro elementos melhor se revelam (água, terra, fogo e ar) e de forma mais extraordinária coabitam. Os Sigur Rós percebem melhor do que ninguém esta maravilhosa constatação que é um dos pilares fundamentais da essência de um país e de um povo e musicaram-na dando a maior liberdade possível ao arsenal instrumental de que se serviram, eminentemente sintético, para recriar as oito coordenadas. O resultado final é um falso minimalismo ambiental que desafia os nossos sentidos segundo após segundo, tal é a opulência sonora de detalhes, ruídos e efeitos que cruzam as melodias, uma receita que não soará particularmente estranha a quem já está devidamente identificado com a discografia dos Sigur Rós e percebe que há aqui o apelo da novidade, mas sem abandonar a essência.

Em suma, à medida que Route One avança e nos dilacera por dentro, testemunhamos euforicamente um intenso impacto lisérgico, num exercício musical que certamente será do agrado de quem não se importa de descobrir uns Sigur Rós mais crus, diretos e psicadélicos, mas que não deixam, mesmo assim, de nos fazer flutuar num universo de composições etéreas e sentimentalmente atrativas. Espero que aprecies a sugestão...

Resultado de imagem para Sigur Rós route one

63º32’43.7″N 19º43’46.3″W
63º47’36.2″N 18º02’16.9″W
64º02’44.1″N 16º10’48.5″W
64º08’43.3″N 21º55’38.8″W
64º46’34.1″N 14º02’55.8″W
65º27’29.1″N 15º31’56.0″W
65º30’17.9″N 18º37’01.3″W
65º38’27.9″N 20º16’56.9″W


autor stipe07 às 21:16
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Terça-feira, 17 de Abril de 2018

Cœur De Pirate – Somnambule

Cœur De Pirate - Somnambule

Conhecida pela sua escrita impressiva, quase sempre na primeira pessoa e pela arrebatadora sinceridade e doce luminosidade da sua música, a canadiana Béatrice Martin comemora em 2018 dez anos de carreira à frente do seu projeto Cœur De Pirate e fá-lo com a edição de um álbum intitulado En cas de tempête, ce jardin sera fermé. Esse novo registo de originais desta lindíssima artista oriunda do quebeque canadiano chega aos escaparates já nesta primavera e Somnambule é o primeiro tema divulgado do seu alinhamento.

Escuta-se Somnambule e percebe-se que esta é uma daquelas canções composta num estágio superior de sapiência que permite à autora utilizar o seu habitual espírito acústico e orgânico ao piano para se colocar também à boleia de arranjos de cordas tensos, dramáticos e melódicos e contar-nos assim mais uma história que a materializa na forma de uma conselheira espiritual sincera e firme e que tem a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, neste caso do amor, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade. Para acompanhar o lançamento deste singleCœur De Pirate gravou uma versão ao vivo em França na igreja Saint-Jean-Baptiste, em Neuilly-sur-Seine. Confere...


autor stipe07 às 18:28
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Terça-feira, 28 de Novembro de 2017

Björk – Utopia

Uma das caraterísticas mais marcantes da carreira da islandesa Björk é não só mostrar o quanto o cenário musical do país de onde é originária é inspirador, mas ela ser também, por si só, uma verdadeira fonte de inspiração para imensos artistas. Recentemente envolvida em algumas questões polémicas, nomeadamente devido ao apoio público incondicional que tem dado a causas que defendem a liberdade de expressão sexual, principalmente nos Estados Unidos e depois de ela ter também confessado ter sido vítima de assédio há alguns anos, Björk, crítica acérrima de Trump, sente-se mais inspirada do que nunca e, em consequência disso, Vulnicura, o álbum que lançou há pouco mais de dois anos, já tem sucessor. O novo disco da artista islandesa chama-se Utopia, viu a luz do dia a vinte e quatro último, via One Little Indian Records, e constitui uma ode ao otimismo e à esperança, porque é isso que estes tempos algo negros e difíceis clamam, depois do antecessor ter sido um disco intimista e algo depressivo, que se focou muito no termino da relação amorosa da autora com Matthew Barney, um reputado artista plástico americano.

Resultado de imagem para Björk Utopia

De facto, o que não falta em Utopia são ideias e sugestões para um mundo melhor e o venezuelano Arca, produtor deste disco, é um elemento preponderante para o deslumbre que se sente com toda a pafernália de sons, detalhes e efeitos que vão cirandando em redor da voz de uma Björk que parece ter encontrado de novo motivos para olhar com optimismo para o mundo que a rodeia. Se The Gate, o terceiro tema do disco é, de acordo com a própria autora, a canção que melhor retrata as diferenças entre Vulnicura e Utopia, muito por causa do modo como Björk posiciona o seu registo vocal no meio de uma vasta miríade de luxuriantes efeitos e detalhes eminentemente sintéticos e com um poderoso potencial impressivo, logo na luxuriante secção de metais que vai sobressaindo em Arisen My Senses percebe-se que a compositora islandesa sente-se mais sorridente e disponível para a celebração. Logo depois, em Blissing Me, somos confrontados com uma canção cujo conteúdo mostra que esse desiderato será alcançado com a habitual simplicidade absolutamente sedutora e intemporal que carateriza a música desta expoente da cultura sonora contemporânea. É uma lindíssima canção assente em belíssimos arranjos e pinceladas acústicas que se cruzam com um registo vocal ternurento, uma composição que narra o amor feliz e incondicional que dois seres viciados pela internet sentem um pelo outro e que vinca, definitivamente, aquela que será a filosofia sonora do restante alinhamento de Utopia.

Até ao ocaso deste trabalho, quer na extensa e espiritual Body Memory, uma canção que conta com a extraordinária participação especial de seis dezenas de vozes feminimas, quer na complexidade orquestral de temas tão envolventes como Tabula Rasa, uma composição que eriça com contundência o nosso lado mais sensível, ou de Losss, um oásis de cândura e suavidade, assim como de Claimstaker, uma ode ao amor tremendamente retemperadora, somos absorvidos sem apelo nem agravo por um álbum que representa, claramente, uma espécie de renascimento e de virar de página para um universo mais eloquente e transcendental por parte de uma das intérpretes mais inspiradas e influentes do cenário musical contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão....


autor stipe07 às 20:42
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quarta-feira, 15 de Novembro de 2017

Björk – Blissing Me

Björk - Blissing Me

Uma das caraterísticas mais marcantes da carreira da islandesa Björk é não só mostrar o quanto o cenário musical do país de onde é originária é inspirador, mas ela ser também, por si só, uma verdadeira fonte de inspiração para imensos artistas. Recentemente envolvida em algumas questões polémicas, nomeadamente devido ao apoio público incondicional que tem dado a causas que defendem a liberdade de expressão sexual, principalmente nos Estados Unidos e depois de ela ter também confessado ter sido vítima de assédio há alguns anos, Björk, crítica acérrima de Trump, sente-se mais inspirada do que nunca e, em consequência disso, Vulnicura, o álbum que lançou há pouco mais de dois anos, prepara-se para ter sucessor já dentro de dias.

O novo disco da artista islandesa chamar-se-à Utopia, irá ver a luz do dia já dia vinte e quatro, via One Little Indian, e será, de acordo com a própria autora, uma ode ao otimismo e à esperança, porque é isso que estes tempos algo negros e difíceis clamam. Supostamente irá conter algumas ideias e sugestões para um mundo melhor, o que deverá ser mesmo uma realidade tendo em conta Blissing Me, o novo single divulgado do disco, cujo conteúdo mostra que esse desiderato será alcançado com a habitual simplicidade absolutamente sedutora e intemporal que carateriza a música desta expoente da cultura sonora contemporânea. Falo de uma lindíssima canção assente em belíssimos arranjos e pinceladas acústicas que se cruzam com um registo vocal ternurento, uma composição que narra o amor feliz e incondcional que dois seres viciados pela internet sentem um pelo outro. Confere...


autor stipe07 às 21:34
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

Offa Rex - The Queen Of Hearts

The Queen Of Hearts é o nome do primeiro álbum do projecto Offa Rex que reúne a cantora e multi-instrumentista britânica, Olivia Chaney, uma das melhores da sua geração e os norte-americanos The Decemberists, banda de topo da indie folk do outro lado do atlântico. É um alinhamento de onze canções cuja produção esteve a cargo de Tucker Martine (Modest Mouse, My Morning Jacket, Neko Case) e Colin Meloy. Foi gravado nos Martine’s studio em Portland e viu a luz do dia à boleia da insuspeita e conceituada Nonesuch Records.

Resultado de imagem para Offa Rex The Queen Of Hearts

Trocas de mensagens no twitter entre a cantora e o grupo há alguns meses atrás e a descoberta de uma paixão mútua pela folk britânica do início da segunda metade do século passado, acabaram por ser o combústivel que inflamou a mente criativa deste conjunto de músicos para criar um disco que faz não só uma homenagem à herança de grupos como os Fairport Convention ou os Pentangle, mas que também nos oferece uma visão atual particularmente sensível e algo barroca de alguns dos melhores fundamentos da melhor folk. Assim, se o cravo e a voz sensível de Olivia, logo no tema homónimo, esclarecem o ouvinte acerca das principais permissas vintage de The Queen Of Hearts e se as cordas luminosas e o andamento de Blackleg Miner, o único tema cantado no disco por Colin Meloy, o vocalista dos The Decemberists, transporta-nos para um qualquer salão de festas de um sindicato de mineiros há meio século atrás, uma sensação também possível com a harmónica de Constant Billy (Oddington) / I’ll Go Enlist (Sherborne), já o dedilhar fortemente orgânico e contemplativo da guitarra de The Gardener e a tocante interpretação de Olivia do clássico The First Time I Ever Saw Your Face, da autoria do compositor inglês Ewan MacColl e que nos anos setenta já tinha sido revisitado pela americana Roberta Flack, oferecem a tal visão mais contemporânea, sem nunca defraudar o espírito tipicamente british do registo, potenciado ainda mais no timbre classicista do orgão que conduz The Old Churchyard.

Com letras que andam quase sempre à volta de histórias sobre personagens peculiares e do universo fantástico, The Queen Of Hearts está recheado de intensidade e boas canções, que apesar de conterem uma sonoridade algo estranha à banda de Portland, que baseou sempre o seu som na típica coutry-folk americana, foram exemplarmente recriadas e interpretadas pelo grupo, não só com a mescla instrumental apropriada, mas também, e principalmente, com o espírito e a soul muito precisa que uma autêntica carta de amor sentida à folk britânica exigia e que esta aliança aventureira batizada de Offa Rex conseguir redigir com extrema minúcia, astúcia, alma e sensibilidade. Espero que aprecies a sugestão...

Resultado de imagem para Offa Rex The Queen Of Hearts

01. The Queen of Hearts
02. Blackleg Miner
03. The Gardener
04. The First Time Ever I Saw Your Face
05. Flash Company
06. The Old Churchyard
07. Constant Billy (Oddington) / I’ll Go Enlist (Sherborne)
08. Willie o’Winsbury
09. Bonny May
10. Sheepcock and Black Dog
11. To Make You Stay


autor stipe07 às 14:21
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly And James McAlister – Planetarium

Um dos registos discográficos que era aguardado com maior expetativa nas últimas semanas intitula-se Planetarium, um álbum conceptual sobre o sistema solar, que viu a luz do dia a nove de junho através da 4AD, com a assinatura dos músicos norte americanos Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister. Com dezassete temas, o disco vinha a ser trabalhado pelo quarteto desde 2013, depois de uma performance no Brooklyn Academy Of Music, em Nova Iorque, mas já em 2011 Sufjan Stevens tinha sido convidado pelo compositor Nico Muhly a participar num projeto na galeria holandesa de arte e teatro Muziekgebouw, em Eindhoven.

Resultado de imagem para Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly James McAlister

Planetarium assume em todas as suas notas uma gloriosa e cósmica viagem sonora pelos recantos do nosso sistema planetário, à boleia de um conjunto de canções inspiradas em diferentes planetas e corpos celestes, entre eles a nossa estrela, o Sol. É uma jornada que do rock progressivo à pop construída em redor de pianos melancólicos, aglutina também no seu âmago uma forte veia eletroacústica algo suave e adocicada, como se percebe, por exemplo, em Mercury, um dos grandes instantes do registo, já com direito a um vídeo a preto e branco, assinado por Deborah Johnson.

Ao longo destas jornada somos convidados a escutar uma espécie de ópera cósmica, com as diferentes canções a não viverem isoladamente, mas agregadas num todo sustentado por uma míriade instrumental extensa, que entre o orgânico e o sintético, o acústico e o elétrico,  balançam-se entre si e formam um alinhamento harmonioso por onde palpitam letras de forte cariz metafórico, que tanto são cantadas por vozes modificadas e replicadas roboticamente, mas também num registo o mais cru e humano possível.

Jupiter será talvez o tema que melhor condensa a filosofia sonora subjacente a Planetarium, mas quer a teia intrincada de efeitos e arranjos, principalmente os de sopro, em Uranus e o clima enérgico, futurista e monumentalmente percurssivo de Mars, são também composições que nos colocam eficazmente bem no centro deste recanto da nossa galáxia, sem necessidade de escafandro ou de uma veículo mais rápido que a velocidade da luz. Por outro lado, Sun ou Black Energy proporcionam instantes mais serenos e intimistas, bem à medida da imensidão e do silêncio que caraterizam o vazio cósmico.

Planetarium é uma odisseia sonora por onde confluem vários sons da mais diversa estirpe e de diferentes proveniências, mas todos cheios de vida e a criarem verdadeiras telas sonoras de um sistema solar idealizado por Stevens, Dessner, Muhly e McAlister. Apesar da dimensão universal, estes mais de setenta minutos de música foram entalhados no ventre da terra mãe e dela brotaram para se tornarem na banda sonora perfeita de um território tremendamente sensorial, assente numa arrebatadora coleção de trechos sonoros cuja soma resulta numa grande obra linda e inquietante. Espero que aprecies a sugestão...

Sufjan Stevens, Bryce Dessner, Nico Muhly And James McAlister - Planetarium

01. Neptune
02. Jupiter
03. Halley’s Comet
04. Venus
05. Uranus
06. Mars
07. Black Energy
08. Sun
09. Tides
10. Moon
11. Pluto
12. Kuiper Belt
13. Black Hole
14. Saturn
15. In The Beginning
16. Earth
17. Mercury


autor stipe07 às 15:06
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Father John Misty - Pure Comedy

Father John Misty já foi visto como um reverendo barbudo e cabeludo, que vagueava pela noite americana a pregar o evangelho segundo Neil Young. Encharcado, pegava no violão e cantava sobre cenas bíblicas, Jesus e João Batista e a solidão. Hoje, este ser único não é só um artista, é uma personagem criada e interpretada por Josh Tillman, antigo baterista dos Fleet Foxes, e com uma já respeitável carreira a solo, que acaba de ver um novo capítulo. O mais recente registo discográfico de Joshua Tillman chama-se Pure Comedy, chega aos escaparates hoje, dia sete de abril e assume-se como um portentoso documento sonoro, uma ode aquele lado mais charmoso e clássico da pop que quer ser máquina de transmissão de tudo aquilo que o amor enquanto evidência feliz ou palco dos mais inquietantes e perigosos devaneios oferece, quer sejam realidades empíricas e fisicamente passíveis de provocar reparo ou dano, ou sensações psiquícas que muitas vezes incendeiam, para o bem ou para o mal, até o ser mais empedrenido que habita à face da terra.

Resultado de imagem para father john misty 2017

Num disco preenchido então, e como não podia deixar de ser, com canções de amor bonitas e sentidas, as mesmas encontram-se repletas de orquestrações opulentas e com um grau de refinamento classicista incomensuravelmente belo. Chega a ser inquietante o modo impressivo e realista como Joshua Tillman se senta ao piano ou coloca a viola no regaço e toca e canta emotivamente sobre as agruras, anseios, inquietações inerentes à condição humana, mas também as motivações e os desejos de quem usa o coração como veículo privilegiado de condução, orientação e definição de algumas das metas imprescindíveis na sua existência. E, como é do senso comum, somos muitos aqueles que nos deixamos conduzir, quase sempre, pelo coração em vez da razão. E se há momentos em que desconfiamos que seria bem melhor a materialização de opções mais racionais e até, quem talvez não saiba o que diz, conscientes, a música de Father John Misty é aquele tónico que nos deixa acreditar que pode ser possível confiar que o nosso modus operandi também poderá ser válido na obtenção dos melhores caminhos e atalhos principais e secundários para a suprema felicidade ou, em último caso, para a redenção pessoal.

É particularmente arrepiante o modo como no piano do tema homónimo, já com um maravilhoso vídeo realizado por Matthew Daniel Siskin, este verdadeiro sex symbol indie e estrela improvável faz uma sátira feroz e irónica à América atual, numa canção de inegável beleza e melancolia, que se não é a reinvenção da roda contém uma saudável dose de letargia que garante sucessivas audições, por dias a fio. Logo a abrir o disco, acaba por ser um dos mais belos exemplos do modo como Tillman serve-se do piano para expressar sentimentos que podem causar algum desconforto na mente dos mais desconfiados sobre as suas reais intenções, além de afagarem, com notável eficácia, as dores de quem se predispõe a seguir sem concessões a sua doutrina. E mais adiante, em Things That Would Have Been Helpful To Know Before The Revolution, essas mesmas teclas conseguem fazer-nos debruçar, numa fase inicial, de encontro ao nosso âmago, para depois, juntamente com um edifício instrumental heterogéneo e exuberante, fazer-nos desabrochar de novo, mas agora com uma postura final mais firme e confiante.

Mas as cordas também são um veículo imprescindível para o arquétipo sonoro de Tillman e se em Ballad Of The Dying Man entrelaçam-se com o piano para juntos conjurarem juras de amor mútuo e inseparável, já em Total Entertainment Forever constroem, novamente juntos, uma peça sonora vigorosa e pulsante, duas sensações luminosas ampliadas pela presença do trompete, que intercala maravilhosamente com a voz, numa mescla que permite um suave levitar, tal é o rol de emoções que transmite e a intensidade das mesmas. 

Até ao ocaso do disco, Father John Misty não abranda no sermão e na afabilidade com que nos faz espontaneamente refletir sobre a nossa perene existência. E da osmose contemplativa de Birdie, canção que nos faz divagar ao sabor de uma fina corrente de uma enigmática luz que dela exala, ao sentido sabor a despedida de uma cidade que não deixa ninguém indiferente, em Leaving LA, passando pelo profundo sabor a redenção que transborda de When The God OF Love Returns There ll Be Hell To Pay, são vários os momentos altos de um alinhamento que não deixa também de conter um estrondoso frenesim sensual e que aponta novos faróis a um dos artistas mais distintos e criativos da pop atual e que hoje e como nunca o fez antes, instiga, hipnotiza e emociona. 

Sedutor, cativante, profundamente engenhoso e com todos os atributos para ser um verdadeiro diabo vestido de anjo, Tillman aprofunda neste seu novo trabalho, que é já, claramente, um dos melhores discos do ano, o refinado e oportuno sentido de humor que tão bem o carateriza e a sagacidade das suas letras, cada vez mais inteligentes e enigmáticas. E Father John Misty leva a cabo esta demanda com um elevado sentido críptico e desafiante, já que não é óbvia, em alguns instantes, a descodificação célere das suas reais intenções relativamente a todos aqueles que se deixam inebriar pelos seus sermões e fazer parte de um rebanho que se assanha sempre que o pastor investe no seu tema recorrente, o amor. Espero que aprecies a sugestão...

Resultado de imagem para father john misty love comedy tracklist

1. Pure Comedy
2. Total Entertainment Forever
3. Things It Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution
4. Ballad of the Dying Man
5. Birdie
6. Leaving LA
7. A Bigger Paper Bag
8. When the God of Love Returns There'll Be Hell to Pay
9. Smoochie
10. Two Wildly Different Perspectives
11. The Memo
12. So I'm Growing Old on Magic Mountain
13. In Twenty Years or So


autor stipe07 às 00:01
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Efterklang And The Happy Hopeless Orchestra – Leaves: The Colour Of Falling

Foi através da Tambourhinoceros que os dinamarqueses Efterklang, formados por Casper Clausen, Mads Christian Brauer e Rasmus Stolberg, regressaram aos discos, fazendo-o com Leaves: The Colour Of Falling, um álbum de música clássica onde juntamente com a The Happy Hopeless Orchestra e alguns vocalistas conterrâneos de renome, nomeadamente a lendária Lisbeth Balslev (soprano), Morten Grove Frandsen (contratenor), Katinka Fogh Vindelev (soprano) e Nicolai Elsberg (baixo), dão vida a lindíssimos poemas da autoria de Ursula Andkjær Olsen.

Resultado de imagem para Efterklang And The Happy Hopeless Orchestra

Exímios no modo como nos oferecem sons criados com forte inspiração em elementos paisagísticos, este trabalho tem uma sonoridade única e peculiar e surge na sequência de outros projetos que esta consagrada banda dinamarquesa tem vindo a levar a cabo ultimamente, dos quais se destacam a participação na banda sonora do filme An Island e a criação do ambiente sonoro do restaurante Noma, um dos mais famosos da Dinamarca.

Ao longo da carreira, o som deste grupo não foi sempre algo estanque e a opção por um alinhamento de contornos eminentemente eruditas acaba por ser um passo lógico depois de uma fase feliz que assentou na mistura de sonos típicos do rock mais progressivo com a eletrónica de cariz mais ambiental. Tem sido, portanto, um percurso cheio de períodos de transformação, que oscilaram entre momentos minimalistas e outros mais expansivos e este Leaves: The Colour Of Falling acaba por, à boleia de uma orquestra, fazer uma espécie de súmula de toda uma amálgama de elementos e referências sonoras, como se todo este arsenal instrumental servisse para, no momento certo para, assim como uma linha de costura, unir pedaços separados e que precisavam de ser agregados.

Assim, se em Imagery Of Perfection somos conduzidos para lugares calmos e distantes, algo místicos, já o single City Of Glass parece querer derrubar tratados e convenções rumo a uma reunificação universal onde tudo é transparente e faz realmente sentido, com a voz de Morten em Spider's Web e o som dos metais e dos coros em The Colour Not Of Love a terem aquela cor e brilho que nos fazem levitar, começando assim um disco cheio de sentimos, emocionalmente profundo e que quando termina deixa-nos com a sensação que acabou-nos de passar pelos ouvidos algo muito bonito, denso e profundo e que, por tudo isso, deixou marcas muito positivas e sintomas claros de algum deslumbramento perante a obra. Espero que aprecies a sugestão... 

Efterklang And The Happy Hopeless Orchestra - Leaves The Colour Of Falling

01. Cities Of Glass
02. Imagery Of Perfection
03. Spider’s Web
04. The Colour Not Of Love
05. Leaves
06. Stillborn
07. Abyss
08. No Longer Me
09. Eye Of Growth
10. Wind


autor stipe07 às 18:29
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...

eu...


more about...

Follow me...

. 50 seguidores

Powered by...

stipe07

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Parceria - Portal FB Headliner

Facebook

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Em escuta...

Twitter

Twitter

Blogs Portugal

Bloglovin

Julho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
13
14

15
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

Cœur De Pirate – En Cas D...

Father John Misty - God's...

Sigur Rós - Route One

Cœur De Pirate – Somnambu...

Björk – Utopia

Björk – Blissing Me

Offa Rex - The Queen Of H...

Sufjan Stevens, Bryce Des...

Father John Misty - Pure ...

Efterklang And The Happy ...

Noiserv - 00:00:00:00

Soulsavers – Kubrick

André Barros - Soundtrack...

Peter Broderick - Colours...

digitalanalogue - Be Embr...

Peixe - Motor

Dust Covered Carpet - Pal...

Song By Toad, Records - M...

Björk – Vulnicura

heklAa - My Name Is John ...

X-Files

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

take a look...

I Love...

Os melhores discos de 201...

Astronauts - Civil Engine...

SAPO Blogs

subscrever feeds