Segunda-feira, 17 de Junho de 2019

Jeff Tweedy – Warmer

O norte-americano Jeff Tweedy, líder do míticos Wilco, é, claramente, um dos músicos mais profícuos e criativos do cenário musical alternativo atual. Já nesta década, ao comando da sua banda, idealizou e incubou The Whole Love (2011), Star Wars (2015) e Schmilco (2016) e entretanto aproveitou para escrever uma auto-biografia intitulada Let's Go (So We Can Get Back): A Memoir of Recording and Discording with Wilco, Etc., onde disserta sobre aspetos da sua personalidade e do seu trajeto nos Wilco. À boleia desse exaustivo exercício escrito de introspeção, acabou por criar WARM, um dos destaques da sua etapa discográfica a solo, onze canções que viram a luz do dia no início deste ano com a chancela da insuspeita dBpm Records e que sucedem a Together at Last (2017), um registo de versões de alguns dos temas mais emblemáticos da sua já extensa carreira. Ora, por incrível que pareça, esse WARM já tem sucessor, um registo intitulado Warmer e que, conforme o título indica, não pode ser dissociado do conteúdo do antecessor, já que, além de ter sido gravado durante o mesmo período em que foi captado WARM, acaba por, na sua essência, obedecer à mesma filosofia sonora estilística, assente numa concepção de escrita que explora bastante a dicotomia entre sentimentos e no modo criativo e refinado como musica as letras que daí surgem, aliando o seu adn pessoal às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo.

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Logo no balanço delicado entre o quase pop e o contemplativo piscar de olhos à soul em Orphan, uma composição em que Tweedy plasma esta predisposição para utilizar a sua música autobiograficamente, fazendo-o como um exercício sonoro de exorcização de alguns dos seus demónios, angústias, eventos traumáticos e conflitos interiores, fica plasmada a essência sonora de um alinhamento com um travo melancólico particularmente abundante, de algum modo em oposição ao conteúdo do antecessor WARM, um registo mais quente, positivo e sorridente. Depois, na crueza da acusticidade de Family Ghost, mais uma composição sobre o modo como este músico de Chicago vê a morte, mas também em …And Then You Cut It In Half, música em que percussão e as cordas procuram insistentemente e de modo delicioso o ritmo certo e, principalmente, em Ten Sentences, um impressivo e jubilante tratado folk assente num timbre de cordas parricularmente estridente, apreciamos esta apenas aparente dicotomia entre os sentimentos e as confissões que sustentam as letras e o modo criativo e refinado como, no modo como as musica, Tweedy se expôe sem relutância e, devido a uma simplicidade melódica simplesmente arebatadora mas terrivelmente eficaz, desprovido de qualquer sede de exacerbado protagonismo. Mesmo nos efeitos indutores da guitarra que se eletrifica com maior audácia em Empty Head e no clima marcadamente rugoso de Sick Server, instantes que mostram uma faceta sonora folk mais experimental e intrincada que os temas acima referidos, não deixa de estar patente sempre esta sensação de oposição entre poema e melodia, que oferece, no global, a Warmer, uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, num álbum particularmente uniforme e homogéneo e, mais do que essas caraterísticas estilísticas, um verdadeiro tratado de manifestação pura, desinteressada e bastante reveladora de uma pessoalidade única e inconfundivel no panorama indie atual, devido ao modo como, disco após disco, o músico endereça à sua consciência um pedido de análise cru e direto da mesma e, aceitando esse exercício de falsa humilhação, acaba por escrever e compôr algumas das canções mais bonitas, profundas e expressivas que podemos escutar atualmente no outro lado do atlântico. Espero que aprecies a sugestão...

Jeff Tweedy - Warmer

01. Orphan
02. Family Ghost
03. …And Then You Cut It In Half
04. Ten Sentences
05. Sick Server
06. Empty Head
07. Landscape
08. Ultra Orange Room
09. Evergreen
10. Guaranteed


autor stipe07 às 22:20
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Segunda-feira, 3 de Junho de 2019

Sufjan Stevens - Love Yourself & With My Whole Heart

Desde o longínquo registo Carrie & Lowell , lançado em dois mil e quinze que o norte-americano Sufjan Stevens não lança um registo a solo. No entanto, o músico natural de Chicago não tem deixado de estar ativo, não só através da participação em outros projetos paralelos, com especial realce para o seu contributo fundamental no álbum Planetarium (2017), onde assina os créditos com Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister, mas também com a edição de alguns singles, sendo o mais relevante a homenagem a patinadora Tonya Harding no tema com o mesmo nome, lançado no final de dois mil e dezassete.

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Agora, no início de junho, mês que comemora o Orgulho LGTBQ, Sufjan Stevens oferece-nos, à boleia da Asthamatic Kitty, um EP com dois inéditos, Love Yourself e With My Whole Heart, duas assumidas canções de amor cuja parte das receitas obtidas será oferecida às organizações Ali Forney Center em Harlem, Nova Iorque e o Ruth Ells Center, em Detroit, no Michigan, que apoiam, respetivamente, a comunidade LGBTQ e crianças sem lar norte-americanas.

Já com raízes em mil novecentos e noventa e seis, altura em que Sufjan Stevens gravou o tema pela primaiera vez, Love Yourself é uma peça pop de cariz eminentemente sintético, com um ligeiro travo gospel, conduzida por pianos melancólicos e uma suave batida, nuances que aglutinam uma forte veia eletroacústica algo suave e adocicada. Já With My Whole Heart, dentro de um psicadelismo eminentemente experimental, é um instante mais intimista, apesar da vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que adornam uma composição bem à medida da imensidão e do silêncio que muitas vezes carateriza o vazio cósmico que nos invade sempre que o amor nos prega uma partida. Confere...

Sufjan Stevens - Love Yourself - With My Whole Heart

01. Love Yourself
02. Love Yourself (1996 Demo)
03. With My Whole Heart
04. Love Yourself (Short Reprise)


autor stipe07 às 16:35
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Quinta-feira, 30 de Maio de 2019

Andrew Bird – My Finest Work Yet

Já viu a luz do dia My Finest Work Yet, o décimo segundo álbum da carreira de Andrew Bird, um dos maiores cantautores da atualidade e com um vasto catálogo de canções que são pedaços de música intemporais. A elas Bird junta mais dez, abrigadas pela primeira vez pela Loma Vista Recordings, canções que, curiosamente, mostram pela primeira vez uma faceta crítica deste músico norte-americano natural de Chicago relativamente a alguns dos tópicos mais importantes da nossa contemporaneidade, nomeadamente as mudanças climáticas e o choque ideológico global entre o capitalismo de direita, o socialismo e o ambientalismo.

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Líder na última década do século passado dos míticos Bowl Of Fire e apelidado de mestre do assobio, o multi-instrumentista e cantor, Andrew Bird tem consolidado a sua carreira a solo com uma notável frequência de lançamentos discográficos, fazendo-o sempre com elevada bitola qualitativa e conseguindo dar uma cariz identitário genuíno a cada um dos lançamentos, não se limitando, registo após registo, por repetir a mesma fórmula até à exaustão. Ele vai oferecendo-nos sempre novas nuances, detalhes e formas de compôr que entroncam numa base comum, a típica folk norte americana, proposta através de diferentes registos e papéis, mas sempre com a mesma eficácia e brilhantismo, uma das marcas identitárias da sua arte.

My Finest Work Yet, um disco gravado ao vivo no Barefoot Studios, em Los Angeles e produzido por Paul Butler, não foge à regra, com canções como Olympians, uma luminosa alegoria intensa e festiva, a setentista Fallorun e a charmosa Proxy War a escorrerem  à sombra de um clima claramente pop, gizado por cordas dedilhadas sempre na medida certa, sem grandes exageros, como é habitual na mestria interpretativa de Andrew. Depois há outras do calibre de Bloodless, um anguloso piscar de olhos ao jazz ou a mais incontida e paisagisticameente vasta Don The Struggle, a oferecerem-nos, dentro da espinha dorsal sonora do autor, outras interseções de maior risco e variedade, mas claramente bem sucedidas, relativamente ao universo sonoro acima referido, um espetro sonoro que tem como grande virtude a possibilidade de se acomodar facilmente aos mais variados géneros que a ela se queiram associar. E Bird mostra neste disco o quanto é exímio neste exercício climático de agregação, fazendo-o imbuído de sofisticação e com enorme bom gosto.

My Finest Work Yet é mais um instante precioso na discografia de um músico notável, um trabalho que mostra a sua beleza não só nos diversos momentos de intersecção entre vozes, sopros, teclas e cordas, mas principalmente no modo como exala um suspiro íntimo e pessoal sobre aspetos sociais que afligem o autor, repleto de optimismo e esperança relativamente a dia melhores. Espero que aprecies a sugestão...

Andrew Bird - My Finest Work Yet

01. Sisyphus
02. Bloodless
03. Olympians
04. Cracking Codes
05. Fallorun
06. Archipelago
07. Proxy War
08. Manifest
09. Don The Struggle
10. Bellevue Bridge Club


autor stipe07 às 16:12
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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2019

Jeff Tweedy – WARM

O norte-americano Jeff Tweedy, líder do míticos Wilco, é, claramente, um dos músicos mais profícuos e criativos do cenário musical alternativo atual. Já nesta década, ao comando da sua banda, idealizou e incubou The Whole Love (2011), Star Wars (2015) e Schmilco (2016) e entretanto aproveitou para escrever uma auto-biografia intitulada Let's Go (So We Can Get Back): A Memoir of Recording and Discording with Wilco, Etc., onde disserta sobre aspetos da sua personalidade e do seu trajeto nos Wilco. À boleia desse exaustivo exercício escrito de introspeção, acabou por criar WARM, a sua mais recente etapa discográfica a solo, onze canções que viram a luz do dia já algumas semanas com a chancela da insuspeita dBpm Records e que sucedem a Together at Last (2017), um registo de versões de alguns dos temas mais emblemáticos da sua já extensa carreira.

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Logo no balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso piscar de olhos ao garage rock de Bombs Above, uma composição em que Tweedy dialoga com um paciente amigo de uma clínica de reabilitação de alcoolismo, fica plasmada esta predisposição do autor para utilizar WARM autobiograficamente, fazendo-o como um exercício sonoro de exorcização de alguns dos seus demónios, angústias, eventos traumáticos e conflitos interiores. Esta predisposição para uma certa depressão mantém-se ao longo do alinhamento do WARM mas, ao contrário do expetável, tendo em conta a filosofia lírica destas canções, sonoramente abundam no registo os instantes de luminosidade que têm aquele travo melancólico positivo e sorridente.

Na crueza da acusticidade de Having Been Is No Way to Be, uma composição sobre o modo como este músico de Chicago vê a morte, mas também em Far From Away, música em que percussão e as cordas procuram insistentemente e de modo delicioso o ritmo certo e que se debruça sobre a inconstância das relações e, principalmente, em I Know What It’s Like, um impressivo e jubilante tratado folk sobre o medo da solidão e o sufoco que isso pode provocar, apreciamos esta apenas aparente dicotomia entre os sentimentos e as confissões que sustentam as letras e o modo criativo e refinado como, no modo como as musica, Tweedy alia esse seu adn pessoal às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo. Mesmo nos efeitos indutores da guitarra cheia de fuzz de Some Birds e no clima marcadamente progressivo e rugoso de Red Brick, instantes que mostram uma faceta sonora folk mais experimental e intrincada que os temas acima referidos, não deixa de estar patente sempre esta sensação de oposição entre poema e melodia, que oferece, no global, a WARM, uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, sendo um álbum que à primeira audição poderá parecer algo uniforme e homogéneo, mas que, devidamente desconstruído, é diversificado, sem perder coerência, versatilidade e unidade.

Exercício permanente de refinamento poético e musical, WARM  brinca de modo sério com as emoções de um músico e compositor que aceitou desafiar o seu lado mais sombrio e os seus maiores fantasmas, num convite que endereçou à sua própria consciência, para que esta analisasse o estado atual do seu lado mais carnal e o desarmasse totalmente, através de canções que parecem tornar inerte o lado mais humano do peito de Tweedy, mas que nunca deixam de exalar um resultado sempre devidamente realista e racional. Se a temática deste alinhamento expôe angústias, o mesmo também avisa quer o autor quer os ouvintes que não se pode deixar de vivenciar sentimentos e emoções reais e, de preferência, deve-se fazê-lo com a crueza e a profundidade simultaneamente vigorosas e profundas que tais permissas merecem. Espero que aprecies a sugestão...

Jeff Tweedy - WARM

01. Bombs Above
02. Some Birds
03. Don’t Forget
04. How Hard It Is For A Desert To Die
05. Let’s Go Rain
06. From Far Away
07. I Know What It’s Like
08. Having Been Is No Way To Be
09. The Red Brick
10. Warm (When The Sun Has Died)
11. How Will I Find You?


autor stipe07 às 14:25
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Terça-feira, 18 de Setembro de 2018

Ezra Furman - Transangelic Exodus

Foi à boleia da Bella Union que viu a luz do dia Transangelic Exodus, o quarto registo de originais de Ezra Furman, um cantor e compositor norte-americano natural de Chicago e que aos trinta e dois anos assina o seu disco mais maduro e consistente. De facto, Transangelic Exodus é um trabalho tremendamente expositivo e que resulta de uma entrega total de um músico a uma causa que é, sem tirar nem pôr, o querer mostrar ao mundo a sua identidade vincada, assumir-se perante nós como um ser humano que tem as suas fragilidades e os seus demónios, mas que também tem um lado muito corajoso e interventivo. Para levar a bom porto este seu objetivo, Furman personifica-se num anjo que ganhou asas e que está a aprender a viver com estes novos apêndices enquanto cura algumas das suas feridas mais profundas.

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Transangelic Exodus expôe as virtudes de Furman como cantor e criador de canções impregnadas com uma rara honestidade, verdadeiros tratados de indie pop, mas que também piscam o olho aquele rock psicadélico com uma aúrea oitocentista muito vincada. Ao fazê-lo, Furman sai definitivamente do armário, deixa de se esconder e através de uma pafernália diversificada de sons explosivos, mudanças rítmicas e estilisticas e de acertos melódicos, proporciona-nos mais um emotivo e exigente encontro com o seu âmago e com toda a intrincada teia relacional que estabelece com um mundo nem sempre disposto a aceitar abertamente a diferença e a busca de caminhos menos habituais para o encontro da felicidade plena. Em Psalm 151, um dos melhores momentos do registo, Furman escreve mesmo no feminino e assume de frente a sua indisponibilidade para manter-se por perto de quem não o entende ou não o aceita tal como é (But I’ve seen the broken halo, That she never wears, Hanging by the stairs, Angel, I’ll be your guardian if you’ll be mine(...) We’ll stay in Kansas city till the wound heals, The government went bad, we got a raw deal, A transangelic exodus on four wheels.

Sonoramente, Transangelic Exodus é um disco bastante dominado por uma voz que se faz acompanhar, geralmente, por sintetizadores, que amiúde dão as mãos a diferentes elementos percussivos, mas principalmente às cordas, o elemento sonoro predilecto deste compositor. Além da guitarra e da viola e do baixo, sublime em Compulsive Liar, tema em que Furman confessa ter, em tempos, mentido sobre o modo como lidava com a questão da identidade de géneros (And I can trace the habit, To when I was eleven, And I thought boys were pretty, And I couldn’t tell no one), violoncelos e violinos surgem nos nossos ouvidos, errantes, nomeadamente na subversão religiosa de God Lifts Up The Lowly, um tema que homenageia o divino e, de modo mais fulgurante, no profundo e intenso muro de lamentações a que sabe o rock clássico e algo paranóico de No Place e na alegria contagiante de Love You So Bad.

Registo cheio de composições profundamente autobiográficas, que ao invés de nos suscitarem a formulação de um julgamento acerca das opções pessoais do artista e da forma vincada como as expõe, optam por nos oferecer esperança enquanto se relacionam connosco com elevada empatia, Transangelic Exodus espanta pelo seu realismo e provoca no ouvinte aquela lágrima fácil, tal é a profundidade com que o autor desta magnífica obra discográfica relata histórias e eventos que suscitam tudo menos a indiferença. É, claramente, um retrato sincero de sentimentos e, mais do que isso, um alinhamento de canções que podem bem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída, ou necessita urgentemente de assumir uma outra identidade. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 13:09
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

Andrew Belle – Fade Into You

Andrew Belle - Fade Into You

Nascido em Chicago, no Illinois, Andrew Belle lançou o ano passado Dive Deep, um disco com canções escritas e compostas por um dos intérpretes mais importantes da indie pop atual no lado de lá do atlântico, um artista que conhece, com minúcia e destreza, como replicar um ambiente sonoro multicolorido e espetral, sendo claramente influenciado pela paisagem multicultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente. Agora, quase um ano depois do lançamento desse excelente registo, Andrew Belle acaba de revelar uma versão do clássico Fade Into You dos Mazzy Star.

Com um clima eminentemente etéreo e fortemente climático, a cover preserva a filosofia de um tema que fala sobre a necessidade que todos aqueles que vivem uma relação têm de se conectar do modo o mais empático possível com o outro, numa letra carregada de nostalgia e melancolia e à qual Belle, sem colocar em causa a estrutura meldódica do original, adicionou detalhes sonoros delicados e introspetivos que nos levam numa viagem bastante impressiva por um mundo muito peculiar e intimista. Confere...


autor stipe07 às 12:16
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Sexta-feira, 18 de Maio de 2018

The Sea And Cake – Any Day

Cerca de meia década depois do excelente Runners, os norte-americanos The Sea And Cake, agora um trio formado por Sam Prekop, Archer Prewitt, John McEntire, depois da partida do baixista Eric Claridge, estão de regresso aos lançamentos discográficos à boleia da Thrill Jockey, a sua morada há já algum tempo, com Any Day, dez canções que deixam bem claro que, mesmo depois de um hiato mais ou menos prolongado, a fórmula The Sea And Cake continua jovem, não pensa em férias e tem argumentos para esgrimir com a concorrência, mesmo já em pleno século XXI.

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Com a participação especial de Paul Von Mertens, habitual colaborador de Brian Wilson, nas flautas e clarinetes e de Nick Macri no baixo, em Any Day os The Sea and Cake oferecem-nos uma refrescante e íntima coleção de canções pop, cada uma com a sua singularidade, mas todas tendo em comum uma ímpar delicadeza, limpidez e luminosidade que transpira otimismo e boa disposição por todos os poros, também por causa de melodias particularmente inspiradas e aditivas.

Mestres da subtileza, os The Sea And Cake apelam à descoberta pessoal e à reflexão íntima, com canções como a incisiva e lânguida Cover The Mountain, a refrescante e bem disposta I Should Care, a serenidade folk da homónima, o travo tropical de Into Rain, a sobriedade melancólica de Occurs ou a rispidez progressiva de Starling a subsistirem alicerçadas em arranjos de cordas com um timbre eminentemente metálico, abraçados a sintetizações moduladas e a um trabalho percurssivo bastante sóbrio, aspetos que nos convidam, ao longo dos quase quarenta minutos do registo, a penetrarmos num universo sonoro com um adn bem definido, mas que não deixa de soar sempre familiar, sem deixar de nos oferecer instantes e detalhes muitas vezes inesperados e que espelham a riqueza criativa do projeto. Os sopros que acompanham as cordas e adornam a melodia de Paper Window e o modo como um simples toque numa corda eletrificada se intercala com o baixo em Day Moon são um bom exemplo deste modo superior de compôr tendo em vista impressionar e regalar o ouvinte sem o forçar a espreitar para fora de uma zona de conforto bem delimitada.

Em suma, este novo álbum do quarteto de Chicago, mantém a beleza melódica caraterística do projeto, com a adição de novos elementos, nomeadamente uma forte presença de elementos jazzísticos e da folk a serem essenciais para um resultado final bastante fluído, ameno e arejado, que nos possibilita saborearmos uma recatada zona de conforto, mesmo que farta de invulgares expedições sónicas. De facto, os The Sea And Cake já não precisam de argumentos a favor do seu génio. O contributo que deram para a índie dos anos noventa foi extraordinário e não merece ser sequer beliscado até porque ainda hoje conseguem manter uma apreciável dose inventiva, já que Any Day é, claramente, mais um clássico de degustação obrigatória na já extensa discografia desta extraordinária banda norte americana. Espero que aprecies a sugestão...

The Sea And Cake - Any Day

01. Cover The Mountain
02. I Should Care
03. Any Day
04. Occurs
05. Starling
06. Paper Window
07. Day Moon
08. Into Rain
09. Circle
10. These Falling Arms


autor stipe07 às 18:42
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Sábado, 3 de Março de 2018

In Tall Buildings – Akinetic

Exatamente três anos depois do excelente Driver, disco que figurou na lista dos melhores álbuns de 2015 para esta redação, o projeto In Tall Buildings do norte-americano Erik Hall, está de regresso com Akinetic, um compêndio de dez canções produzidas com a ajuda de Brian Deck no estúdio caseiro de Erik e abrigadas pela Western Vinyl. É um registo com um clima pop particularmente amplo e luminoso e que, balançando entre escuridão e lucidez, está cheio de alegorias acerca desta espécie de sentimento de alienação massiva que a humanidade enfrenta atualmente, tendo em conta o modo como coloca em perigo, constantemente, a sua própria sobrevivência.

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Músico e compositor de Pilsen, nos arredores de Chicago e que, de acordo com o próprio, compõe inspirado por duas dicas filosóficas, uma de Allen Ginsburg (First thought, best thought) e a outra da autoria de Kurt Vonnegut (Edit yourself, mercilessly), Erik Hall é uma das personagens mais interessantes de descobrir do cenário indie norte-americano menos divulgado, tal é a elevada bitola qualitativa das composições sonoras que incuba. Se a teoria de Ginsburg apela à primazia do instintivo e da naturalidade e da crueza, acima de tudo, já as palavras de Vonnegut parecem instar à constante insatisfação e à busca permanente da perfeição, considerando-se cada criação como algo inacabado e que pode ser alvo de melhorias e alterações e a verdade é que um dos grandes atributos da filosofica sonora de In Tall Buildings é o constante vaivém, muitas vezes pouco implícito e percetível, entre estas duas realidades aparentemente antagónicas.

Assim, em Akinetic o autor propôe e cria paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto na forma como as constrói, deixando sempre margem de manobra para que nos possamos apropriar das mesmas e dar-lhes o nosso próprio sentido. Aquela eletrofolk acústica ambiental, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, é, portanto, a trave mestra do alinhamento, competente na forma como abarca diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e como mistura harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de Hall, sendo este um álbum ameno, íntimo, cuidadosamente produzido e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Ficamos logo agarrados ao disco com Beginning To Fade, o tema de abertura, feito de uma melodia que tem por base a bateria e a distorção de uma guitarra carregada de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o dedilhar de algumas cordas. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente vincadamente experimental, algo que logo depois, em dose dupla, no ritmado tema homónimo e em Long Way Down, fica ainda mais explícito, não só devido à dinâmica da batida e ao efeito sintetizado que acompanha a primeira e as cordas que conduzem a segunda, mas também devido ao modo sinuoso e cativante, como Erik nos convida à introspeção e à reflexão sobre este mundo moderno, ao mesmo tempo que não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora. Overconscious acaba também por surpreender devido ao modo como o piano é introduzido em toda esta equação, oferecendo ao clima do registo também um pouco daquela sonoridade pop claramente urbana, que acaba por se mostrar perfeita no modo como em Siren Song o baixo e uma bateria galopante se cruzam com o sintetizador. A seguir, em Curtain, percebemos que In Tall Buildings também manipula com mestria os típicos suspiros sensuais que a subtil eletrificação da guitarra e uma batida marcada proporcionam e que se mantém aquela intacta a elevada dose de sensualidade e suavidade na tonalidade das canções que impressionou no registo anterior.

Até ao ocaso de Akinetic, a espiral melodicamente hipnótica de Wake Up e o dedilhar deambulante das cordas em Days In Clover são outros dois momentos que trazem brisas bastante aprazíveis ao ouvinte, fechando-se a cortina de um disco com uma atmosfera simultaneamente íntima e vibrante, que proporciona uma sensação intrincada e fortemente espiritual, que parece querer transmitir todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nosso dias, agora algo frios e sombrios. Álbum essencial e único, rico e arrojado e apontando em diferentes direções sonoras, Akinetic engloba diferentes aspetos e detalhes de diversas raízes musicais, num pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Hall sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

In Tall Buildings - Akinetic

01. Beginning To Fade
02. Akinetic
03. Long Way Down
04. Overconscious
05. Cascadia
06. Siren Song
07. Curtain
08. New Moon
09. Days In Clover
10. Wake Up


autor stipe07 às 11:36
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Sufjan Stevens – Tonya Harding

Sufjan Stevens - Tonya Harding

Tonya Harding my star, this world is a cold one, but it takes one to know one. É deste belo modo que começa Tonya Harding, a nova música do norte-americano Sufjan Stevens, um tributo à patinadora Tonya Harding, um ícone da cultura americana de final do século passado. É uma belíssima composição que amplia o retorno do músico a sonoridades mais intimistas, nostálgicas e contemplativas, sempre com a eletrónica em pano de fundo. 

Tonya Harding foi um dos nomes maiores da patinagem mundial durante vários anos mas também sofreu imenso com a exposição pública e com alegados abusos físicos e sexuais de que terá sido alvo durante a sua carreira. A determinada altura do tema Sufjan Stevens realça toda essa trama com enorme contundência e elevado sentido poético... Has the world has its fun?” Stevens asks in the song, “They’ll make such a hassle and they’ll build you a castle, then destroy it when you’re done. Confere...


autor stipe07 às 16:38
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017

Cassettes On Tape – Anywhere

Depois dos eps Cathedrals (2012) e Murmurations (2014), os Cassettes On Tape, uma banda post punk formada por Joe Kozak (guitarras e voz), Greg Kozak (baixo e voz), Shyam Telikicherla (guitarras e voz) e Chris Jepson (bateria), estrearam-se finalmente nos lançamentos discográficos em formato longa duração com Anywhere, dez canções produzidas e misturadas por Jamie Carter no Atlas Studio e na Pie Holden Suite, em Chicago, cidade de onde a banda é natural e masterizadas por Carl Saff. Anywhere encontra-se disponível para audição no bandcamp da banda.

Foto de Cassettes on Tape.

Nunca o ressuscitar do post punk e do shoegaze estiveram tão em voga como nos últimos anos. Basta olhar para as tabelas mais recentes dos melhores álbuns de rock alternativo para se perceber o vigor desta tendência e o sucesso que tem sido a aposta no reviver de diversas sonoridades que despontaram mais intensamente nos anos setenta e se cimentaram, decisivamente, na década seguinte. No entanto, essa aposta atual não se tem limitado ao replicar do que era feito nessa altura e em ambos os lados do oceano atlântico; Os Cassettes On Tape são mais uma banda que aposta nessa simbiose de legados deixados por nomes como Ian Curtis ou Robert Plant, não descurando a habitual cadência proporcionada pela tríade baixo, guitarra e bateria e uma outra tendência mais virada para a psicadelia, da qual, na minha opinião, os The Horrors e os TOY são, atualmente, os expoentes máximos. Só para citar alguns exemplos, o fuzz da guitarra de Please Please Let Me Go, o sintetizador do tema homónimo e a busca de uma melodia de cariz eminentemente épico nessas canções, remetem-nos, quase automaticamente, para o universo algo sujo e rugoso, mas indisfarçadamente melancólico, idealizado por Faris Badwan, uma receita assertiva que se repete, quase transversalmente, no alinhamento deste trabalho, com particular ênfase em Ocean, canção que prima por um sofisticado bom gosto melódico, com forte impressão oitocentista e uma amostra clara do modo como este quarteto dá uma elevada primazia aos detalhes, com as teclas e alguns arranjos sintéticos a surgirem com insistência no edifício das canções, mas sempre agregados à guitarra e a belíssimos efeitos, com um forte cariz etéreo.

Assim, apesar da importância dos teclados, é nessas guitarras carregadas de reverb e distorção e na voz grave de Joe Kozak que assenta a base melódica das canções de Anywhere, os dois aspetos vitais para a assunção do prisma identitário sonoro deste grupo de Chicago. É um disco onde se escutam canções particularmente hipnóticas e com uma dimensão espacial, balizadas por um fino recorte de sensibilidade e uma sobriedade sentimental contínua. Enquanto existe um apelo sincero em Arms Are Shaking que testa a nossa capacidade de resistência à lágrima fácil, com vitórias e derrotas para ambos os lados, já o baixo de Don't Want to be Your Friend equilibra um pouco as contas, emergindo-nos numa faceta mais sombria e reflexiva, para, pouco depois, Orphan Boy, uma das minhas canções preferidas deste disco, oferecer-nos um verdadeiro e indispensável tratado de indie rock que justifica imensas loas a este alinhamento, uma canção que não fica a dever nada aos melhores intérpretes atuais deste género musical.

Os Cassettes On Tape escrevem com a mira bem apontada ao nosso âmago, plasmando sonoramente sensações positivas, provocadas por um processo de criação sonora que, no caso deste grupo, deverá ser um momento reconfortante de incubação melódica, também um dos ingredientes indispensáveis para que comecemos a olhar para este coletivo com um olhar mais dedicado. Esta é uma banda extremamente criativa, atual, inspirada e inspiradora e que sabe como agradar aos fãs e Anywhere um excelente cartão de visita e uma ótima estreia, não havendo qualquer tipo de desculpas para que os apreciadores não os possam conhecer e ouvir. Espero que aprecies a sugestão...

Cassettes On Tape - Anywhere

01. Anywhere
02. Ocean
03. Arms Are Shaking
04. Don’t Want To Be Your Friend
05. Liquid Television
06. Modern Love
07. Orphan Boy
08. Please Please Let Me Go
09. Diamonds
10. Shattered


autor stipe07 às 17:52
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016

Wilco - Schmilco

Pouco mais de um ano após Star Wars, os míticos Wilco de Jeff Tweedy, estão de regresso aos discos com Schmilco, mais uma notável coleção de canções oferecida por esta banda de Chicago, que com o passar dos anos não abranda, parece não ser atingida pelas normais crises de writer's block e parecendo, claramente, ser cada vez mais criativa e refinada no modo como alia o seu adn às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo.

Resultado de imagem para wilco 2016

Se Star Wars continha canções impregnadas com um excelente rock alternativo, onde abundavam composições ligados à corrente, efeitos indutores e guitarras cheias de fuzz, oferecendo ao ouvinte um clima marcadamente progressivo e rugoso, alicerçado num garage rock, ruidoso e monumental, Schmilco vira um pouco as agulhas para o experimentalismo folk, num disco conduzido por cordas mais acústicas e um minimalismo lo fi, aspectos que também não são estranhos ao percurso discográfico do projeto, mas que estavam um pouco alheados da sonoridade dos Wilco nos mais recentes trabalhos discográficos.

Schmilco contém uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, sendo um álbum que à primeira audição poderá parecer algo uniforme e homogéneo, mas que, devidamente desconstruído, é diversificado, sem perder coerência e unidade. Assim, se Normal American Kids abre o alinhamento num universo mais recatado, através de uma folk intimista, nostálgica e contemplativa e que tem nas cordas da viola a principal arma de arremesso, mas onde também não falta um feito de fundo eletrificado indispensável para o clima sedutor e soturno do tema, já a bateria e o baixo da preguiçosa Lose e da intrigante Someone To Lose, aproximam os Wilco de uma psicadelia blues de superior filigrana, que se escuta com aquela intensidade que fisicamente não deixa a anca indiferente. Depois, temas como a encantadora If I Ever Was A Child ou a radiofónica We Aren't The World (Safety Girl) piscam o olho aquela pop sessentista luminosa e colorida, tipicamente Beach Boys, com o fuzz cru de Locator e a confessional Cry All Day a exalarem um balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, mas sem nunca descurarem aquela particularidade fortemente melódica que costuma definir as composições do grupo.

Disco que se destaca pelo habitual entusiasmo lírico e por um prolífero e desafiante incómodo contínuo, que neste caso se saúda com inegável deleite, Schmilco mantém firme o traço de honestidade de uma banda que quer continuar a ser protagonista no universo sonoro em que se move. É um trabalho que desafia o nosso lado mais sombrio e os nossos maiores fantasmas, no convite que nos endereça à consciência do estado atual do nosso lado mais carnal e no desarme total que torna inerte o lado mais humano do nosso peito, nem sempre devidamente realista e racional. Com a temática das canções a expôr as habituais angústias da sociedade de hoje profundamente tecnológica e a dependência da contínua revolução que vivemos, Jeff Tweedy avisa-nos que não se pode deixar de vivenciar sentimentos e emoções reais, de preferência com a crueza e a profundidade simultaneamente vigorosas e profundas que merecem. Espero que aprecies a sugestão...

Wilco - Schmilco

01. Normal American Kids
02. If I Ever Was A Child
03. Cry All Day
04. Common Sense
05. Nope
06. Someone To Lose
07. Happiness
08. Quarters
09. Locator
10. Shrug And Destroy
11. We Aren’t The World (Safety Girl)
12. Just Say Goodbye


autor stipe07 às 12:37
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Segunda-feira, 18 de Julho de 2016

Wilco - Locator

Wilco - Locator

Exatamente um ano após a surpreendente edição do excelente Star Wars, os norte americanos Wilco de Jeff Tweedy, ofereceram uma nova canção, de modo a celebrar a efeméride. Disponível aqui em troca do teu endereço de email, Locator teria cabido no alinhamento de Star Wars, pela excelência de um folk noise algo cru e minimal e que contém aquele balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, sem nunca descurar a particularidade fortemente melódica que costuma definir as composições desta banda de Chicago. Confere...


autor stipe07 às 18:54
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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016

Cross Record – Wabi-Sabi

Emily Cross e Dan Duszynski são o casal de esposos que estende o manto em redor de Cross Record, um projeto que gravou o seu disco de estreia, intitulado Wabi-Sabi, num rancho de dezoito hectares, chamado Moon Phase, arrendado por ambos, perto de uma reserva de aves, em Dripping Springs, a trinta minutos de Austin, em pleno Texas, para onde se mudaram da metrópole Chicago. E a verdade é que este álbum soa a um disco incubado, concebido e gravado num rancho, tal é a força e a dimensão de um alinhamento de canções que plasma, com particular minúcia, uma simbiose feliz entre a naturalidade e a pureza que se observa no contraste do cinza e do laranja que dominou os céus durante a sua gravação, porque sucedeu, quase sempre, nas fases iniciais e finais dos dias e o ruído e o rigor estrutural de uma grande cidade. Steady Waves, o grandioso single já retirado de Wabi-Sabi, demonstra esta junção na simplicidade das cordas da viola e a imponência da distorção da guitarra de High Rise amplifica-a, só para citar dois exemplos que sustentam o universo fortemente cinematográfico e imersivo destes Cross Record, exímios a dar asas às emoções que exalam desde as profundezas do refúgio bucólico onde agora residem e que, pelos vistos, os inspira de modo particularmente sensorial.

Tendo visto a luz do dia abrigado pela sempre recomendável Ba Da Bing Records, Wabi-Sabi impressiona, portanto, pela dinâmica fortemente ambiental, como se percebe dede logo nas várias camadas de efeitos e sopros sintetizados de The Curtains Part, canção que lança o disco numa espiral emotiva e onde tudo é quase sempre filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso.

Depois dos dois temas acima referidos, ficamos logo esclarecidos que, partindo do princípio que aceitamos uma audição atenta e dedicada deste disco, somos naturalmente convocados para uma viagem que nos conduz a diferentes universos sonoros, sempre na óptica da tal relação simbiótica bastante sedutora e que, sonoramente, se firma entre indie rock, punk e post rock, por um lado e folk e dream pop, por outro. E logo a seguir, a indisfarçável toada folk de de Something Unseen Touches A Flower To My Fore, que nem o pedal de uma guitarra e os tambores disfarçam, proporciona-nos um momento de rara frescura e pureza sonora, com o charme lo fi dos ruídos de fundo por baixo das cordas de The Depths, pouco depois, a fazerem-nos levitar rumo a uma nuvem repleta de sensações fortemente nostálgicas e contemplativas, enquanto atestam o feliz encontro entre sonoridades que surgiram há décadas e se foram aperfeiçoando ao longo do tempo e ditando regras que hoje consagram algumas tendências sonoras mais atuais, onde muitas vezes o minimalismo se confunde com aquilo que é esculpido e complexo, sendo ténue a fronteira entre ambos e real um claro encadeamento entre dois pólos aparentemente opostos e que nos obrigam a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador.

Até ao final deste trabalho absolutamente maravilhoso, em Basket ouve-se estranheza, ouve-se escuridão. Mas também se ouve harmonias de vozes de outro planeta. E logo depois, em Wasp In A Jar, há sensualidade em jeito de lamúria ou desabafo e a certeza que ouvir Wabi-Sabi é uma experiência diferente e revigorante e a oportunidade de contatar com um conjunto de canções que transbordam uma aúrea algo mística e espiritual, reproduzidas por um grupo que sabe como o fazer de forma direta, pura e bastante original. Espero que aprecies a sugestão...

Cross Record - Wabi Sabi

01. The Curtains Part
02. Two Rings
03. Steady Waves
04. High Rise
05. Something Unseen Touches A Flower To My Forehead
06. The Depths
07. Basket
08. Wasp In A Jar
09. Lemon


autor stipe07 às 20:40
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Sábado, 14 de Novembro de 2015

Sufjan Stevens – Exploding Whale

Sufjan Stevens - Exploding Whale

Sem estar ainda refeito do forte impacto que Carrie And Lowell, o último registo de originais do norte americano Sufjan Stevens teve por este lado, acaba de chegar à redação deste blogue Exploding Whale, um tema inédito do autor, editado este ano em formato single de sete polegadas e que amplia o retorno do músico a sonoridades mais intimistas, nostálgicas e contemplativas, mas agora com a eletrónica em pano de fundo, numa canção dominada por sintetizadores e outros detalhes sintéticos que, pelo modo como se encaixam na melodia e em alguns dedilhares de cordas, dão um certo charme e brilho à moldura sonora estética de uma composição que é uma verdadeira jóia, em todos os sentidos. Confere...


autor stipe07 às 21:44
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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2015

Widowspeak - All Yours

Molly Hamilton & Robert Earl Thomas são os Widowspeak, dois músicos com raízes em Tacoma e Chicago, mas atualmente sedeados em Brooklyn, Nova Iorque. Depois de vários singles lançados no início da presente década e disponíveis no bandcamp da banda e do disco homónimo de estreia, editado em 2011, chegou, em 2013, Almanac, sendo o sucessor desse disco All Yours, um trabalho que viu a luz do dia a quatro de setembro através da Captured Tracks.

Quando iniciaram carreira os Widowspeak andavam algures entre a pop de finais dos anos oitenta e não restam dúvidas que é nas construções musicais lançadas há cerca de três décadas que se inspiram, mas sem deixarem de lado sonoridades mais contemporâneas e renovadas. All Yours, o novo registo discográfico da duplaé mais um avanço porque, apesar de ainda próximos das mesmas experiências consolidadas nos últimos anos, deixaram de lado as massas elétricas de distorção para viajar no tempo, interagir com maior acerto com a folk e acomodar de forma mais inteligente a tal pop de finais dos anos oitenta, com detalhes sonoros que nos remetem a décadas anteriores. No fundo, sem descurarem a bitola que os orienta, tornaram-se mais abrangentes.

A dream pop e os acertos típicos do rock alternativo de cariz mais urbano ditam as regras em All Yours, tema homónimo deste novo disco dos Widowspeak e canção com um forte cariz bucólico. A presença das guitarras, logo desde o início, ajuda a canção a assumir uma representação curiosa e bem estruturada de tudo o que marca o atual momento desta dupla nova iorquina; Enquanto a voz de Hamilton, bastante orgânica, representa a busca do campestre, as cordas tocadas por Thomas fazem a ponte com o passado da dupla e a verdade é que essa canção acaba por ter uma importância fulcral para a compreensão de um disco que, logo a seguir, no auge contemplativo de Narrows, convida a nossa mente e o nosso espírito a se deixarem envolver por uma proposta estética assente num clima abstrato e meditativo, presente em praticamente todo o trabalho, com um impacto verdadeiramente colossal e marcante.

A dupla confessou recentemente que depois de nos dois trabalhos anteriroes se terem preocupado demasiado com o que os outros poderiam pensar da sua escrita, resolveram agora deixarem-se levar pelo instinto, tendo, de certa forma, reaprendido a compor. De facto, não faltam neste álbum belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes, em melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, mas onde a guitarra de Robert dita as principais regras, com as cordas a deixarem-se envolver numa melancolia épica algo inocente, mas com uma tonalidade muito vincada e que sopra na nossa mente de modo a fazer o nosso espírito facilmente levitar, algo que provoca um cocktail delicioso de boas sensações. Em canções como Dead Love (So Still), ou Cosmically Aligned, só para citar dois exemplos opostos mas que entroncam numa mesma filosofia, fica claro que a pop experimental dos Widowspeak está cada vez mais elaborada e charmosa, com o fuzz de guitarra na primeira, ou os devaneios do mesmo instrumento na segunda, a marcarem o traço melódico dos temas e tornando-se detalhes marcantes de uma notória evolução, onde o eletrificado assume dimensões díspares sem defraudar, quer numa que noutra canção, o ambiente contemplativo e emotivo fortemente consistente. O próprio efeito desse instrumento em Girls, juntamente com a harmónica e a bateria, além de consolidar essa impressão concetual, sendo balizada pela doçura da voz de Molly, mostra o modo exímio como a dupla consegue que as texturas e as atmosferas que criam, transitem, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquieta todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual.

Com uma sobriedade e um polimento que, neste caso, se saúdam, os Widowspeak já não conseguem escapar de uma maior aproximação ao grande público devido ao conteúdo de All Yours, mais acessível do que os trabalhos anteriores. Neste caso concreto, a banda sai airosamente desse risco já que a nova proposta instrumental e lírica que revelam vai de encontro ao movimento atual que resgata de forma renovada as principais marcas e particularidades sonoras de décadas anteriores. Por exemplo, temas como Stoned e My Baby’s Gonna Carry On, representam com beleza e qualidade toda essa transformação e, nesta espécie de recomeço, é audível que este projeto encontrou um plano qualitativo superior. Espero que aprecies a sugestão...

Widowspeak - All Yours

01. All Yours
02. Narrows
03. Dead Love (So Still)
04. Stoned
05. Girls
06. Borrowed World
07. Cosmically Aligned
08. My Baby’s Gonna Carry On
09. Coke Bottle Green
10. Hands


autor stipe07 às 22:28
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Sexta-feira, 17 de Julho de 2015

Wilco - Star Wars

Os míticos Wilco divulgaram ontem, sem aviso prévio, o sucessor de The Whole Love (2011), o último registo de originais desta banda de Chicago. O novo álbum do grupo de Jeff Tweedy chama-se Star Wars, contem onze canções impregnadas com um excelente rock alternativo e está disponivel, gratuitamente, na página oficial do grupo.

O clichet curioso que encarna o título do novo álbum dos Wilco não passa despercebido, até porque está na ordem do dia a estreia do sétimo episódio da mais famosa saga da indústira cinematográfica, lá para o final do ano, com o mesmo nome. Seja como for, Jeff Tweedy deve ter-se sentido invadido pelo lado bom da força para oferecer a todos os seus fãs, de um modo completamente inesperado, um trabalho que, como seria de esperar, fala de paixão e de amor, como os melhores psicoativos sentimentais que podemos usar, mas também de estrelas e até, se quisermos, de sabres de luz, viagens intergaláticas e planetas distantes habitados pelos mais estranhos seres, já que a musica dos Wilco sempre teve a capacidade de nos fazer divagar ao som de composições bastante sugestivas e esse espírito mantém-se intacto.

Claramente ligados à corrente logo desde o instrumental EKG, os efeitos indutores de More... e o fuzz das guitarras de Random Name Nenerator, os Wilco marcam, à partida, uma posição forte no que concerne à filosofia sonora de Star Wars, oferecendo ao ouvinte quase tudo aquilo que o espera, canções dominadas por guitarras a exibirem linhas e timbres com um clima marcadamente progressivo e rugoso, alicerçado num garage rock, ruidoso e monumental. Não é inédito neste grupo de Chicago tal opção por um som mais cru e ruidoso, que em Cold Slope também mostra todos os atributos, mas é curioso e nobre quererem, nesta fase da carreira, ampliar essa faceta roqueira de uma banda que também se costuma mover confortavelmente por territórios mais acústicos. Em Star Wars, a doce balada pop Taste The Ceiling e o esplendor minimalista de Where Do I Begin são exemplos felizes do lado mais sensível e emotivo do grupo, mas o que realmente sobressai durante a audição integral do trabalho é a perceção clara que os Wilco optaram por ligar a sua faceta experimental a pleno gás, obtendo um balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, mas sem nunca descurar aquela particularidade fortemente melódica que costuma definir as suas composições.

Os quase quatro minutos da já citada Random Name Generator, canção que se sustenta num arranjo de cordas alto e um riff de guitarra bastante elétrico, a fazer lembrar alguns dos melhores instantes de A Ghost Is Born, são a expressão máxima, em Star Wars, da boa forma do grupo e da capacidade que os Wilco ainda têm de se mostrar altivos, joviais, vibrante e contemporâneos. E mesmo quando em The Joke Explained nos fazem recuar umas quatro décadas até aos primórdios do rock clássico, em Pickled Ginger nos abanam com a sensibilidade do efeito metálico abrasivo de uma guitarra que corta fino e rebarba, ou em You Satellite nos oferecem um clima mais negro e soturno, os Wilco deslumbram pelo à vontade com que também navegam nos meandros intrincados e sinuosos do indie rock mais progressivo e psicadélico..

A leveza contínua, o entusiasmo lírico, a atmosfera amável, apesar do fuzz constante e o clima geral luminoso, enérgico e algo frenético de Star Wars, são os principais indicadores de um disco que flui bem, não só porque tem um conjunto de belíssimas canções, que nos oferecem camadas sofisticadas de arranjos criativos e bonitos, mas também porque é um álbum que mantém firme o traço de honestidade de uma banda que quer continuar a ser protagonista no universo sonoro em que se move, trazendo de volta os Wilco arrebatadores, que The Whole Love tinha, de algum modo, silenciado. Espero que aprecies a sugestão...

wilco-star-wars-cover-900x506.jpg

01. EKG
02. More…
03. Random Name Generator
04. The Joke Explained
05. You Satellite
06. Taste The Ceiling
07. Pickled Ginger
08. Where Do I Begin
09. Cold Slope
10. King Of You
11. Magnetized

 


autor stipe07 às 11:50
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Domingo, 14 de Junho de 2015

Widowspeak - All Yours

Widowspeak - All Yours

Molly Hamilton & Robert Earl Thomas são os Widowspeak, dois músicos com raízes em Tacoma e Chicago, mas atualmente sedeados em Brooklyn, Nova Iorque. Depois de vários singles lançados no início da presente década e disponíveis no bandcamp da banda e do disco homónimo de estreia, editado em 2011, chegou, em 2013, Almanac, sendo o sucessor desse disco All Yours, um trabalho que irá ver a luz do dia a quatro de setembro através da Captured Tracks.

A dream pop e os acertos típicos do rock alternativo de cariz mais urbano ditam as regras em All Yours, tema homónimo deste novo disco dos Widowspeak e canção com um forte cariz bucólico. A presença das guitarras, logo desde o início, ajuda a canção a assumir uma representação curiosa e bem estruturada de tudo o que marca o atual momento desta dupla nova iorquina; Enquanto a voz de Hamilton, bastante orgânica, representa a busca do campestre, as cordas tocadas por Thomas fazem a ponte com o passado da dupla. Confere...


autor stipe07 às 15:14
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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015

In Tall Buildings - Driver

Já foi finalmente editado Driver, um dos trabalhos mais aguardados por cá no início de 2015 e que viu a luz do dia a dezassete de fevereiro através da Western Vinyl. Este disco é da autoria de Erik Hall, um músico e compositor de Pilsen, nos arredores de Chicago, por detrás do projeto In Tall Buildings, que, de acordo com o próprio, compõe inspirado por duas dicas filosóficas, uma de Allen Ginsburg (First thought, best thought) e a outra da autoria de Kurt Vonnegut (Edit yourself, mercilessly). Se a teoria de Ginsburg apela à primazia do instintivo e da naturalidade e da crueza, acima de tudo, já as palavras de Vonnegut parecem instar à constante insatisfação e à busca permanente da perfeição, considerando-se cada criação como algo inacabado e que pode ser alvo de melhorias e alterações. Driver foi produzido entre a casa de Hall e uma quinta em Leelanau County, no Michigan.

A música de Erik Hall vive um pouco desta aparente dicotomia, já que quando assina In Tall Buildings propôe e cria paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto na forma como constrói as melodias, deixando sempre margem de manobra para que nos possamos apropriar das suas canções e dar-lhes o nosso próprio sentido. Aquela folk acústica, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, é, portanto, a trave mestra de Driver, competente na forma como abarca diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e como mistura harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de Hall, sendo este um álbum ameno, íntimo, cuidadosamente produzido e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Ficamos logo agarrados ao disco com Bawl Cry Wal, o tema de abertura, feito de uma melodia que tem por base a bateria e umas cordas impregnadas de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de um teclado. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e dominado por cordas com uma forte toada blues. Logo depois, All You Pine, apesar de menos ritmada, segue a mesma dinâmica que sustenta um alinhamento sinuoso e cativante, que nos convida frequentemente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno e onde Hall não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, com Unmistakable, o segundo single, a surpreender pouco depois, não só pelo título da canção, sem dúvida uma opção feliz para mais um registo sonoro de dificil catalogação, mas também pela sonoridade pop claramente urbana, mais eletrónica,perfeita no modo como o baixo e a batida se cruzam com o sintetizador. 

Pouco depois, ao sermos presenteados com I'll Be Up Soon, percebemos que In Tall Buildings também manipula com mestria os típicos suspiros sensuais que a subtil eletrificação da guitarra e uma batida lenta e marcada proporcionam e que há uma elevada dose de sensualidade e suavidade na tonalidade das canções que interpretam. Por exemplo, em When You See Me Fall um efeito em espiral e melodicamente hipnótico e o modo com a voz com ele se entrelaça e o dedilhar deambulante de Aloft são outros dois momentos que trazem brisas bastante aprazíveis ao ouvinte.

O auge do disco chega com a atmosfera simultaneamente íntima e vibrante do single Flare Gun, um tema que está já na minha lista das melhores do ano e isso deve-se à forma particular como as cordas deambulam alegremente pela melodia e dão à canção uma sensação intrincada e fortemente espiritual, um ideal de leveza e cor constantes, como se ela transmitisse todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nosso dias, agora algo frios e sombrios.

Rico e arrojado, que aponta em diferentes direções sonoras, apesar de haver um estilo vincado que pode catalogar o cardápio sonoro apresentado, Driver tem um fio condutor óbvio, assente em alguma da melhor indie pop contemporânea, mas uma das suas particularidades é conseguir, sem fugir muito desta bitola, englobar diferentes aspetos e detalhes de outras raízes musicais, num pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Hall sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Este é um álbum essencial, recheado de paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

Bawl Cry Wail

All You Pine

Exiled

Unmistakable

Aloft

Flare Gun

I'll Be Up Soon

Cedarspeak

When You See Me Fall

Pouring Out


autor stipe07 às 19:24
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Domingo, 22 de Fevereiro de 2015

Wilco - Alpha Mike Foxtrot: Rare Tracks 1994-2014:

Os Wilco são uma banda de rock alternativo liderada pelo carismático Jeff Tweedy, natural de Chicago, no Illinois. Formaram-se em 1994 tendo como ponto de partida a banda de country alternativo Uncle Tupelo e enquanto não regressam ao estúdio para gravar mais alguns originais, resolveram editar, através da Nonesuch Records, What’s Your 20? Essential Tracks 1994-2014. Na sequência desse lançamento, comemorativo dos vinte anos de carreira dos Wilco, acabou também por incubar Alpha Mike Foxtrot: Rare Tracks 1994-2014, uma caixa com quatro discos que contêm nada menos que setenta e sete temas, incluindo raridades, remisturas e gravações ao vivo, pedaços da vida dos Wilco essenciais para compreender o legado da banda em toda a sua plenitude.

Depois de terem lançado The Whole Love, o oitavo disco de originais, através da dBpm Records, há cerca de dois anos, os Wilco acharam que seria altura de revisitar a carreira de modo exaustivo e What’s Your 20? Essential Tracks 1994-2014 fá-lo com elevado acerto através de um alinhamento que deixa pouca margem para crítica, num trabalho que só fica completo com estes quatro tomos de Alpha Mike Foxtrot: Rare Tracks 1994-2014.

O amor, a paixão e as suas travessuras, nas quais se incluem críticas mais ou menos veladas a uma América contemporânea cada vez menos socialmente justa e refém dos seus medos, sempre foram temáticas bastante importantes para Jeff Tweedy que, servindo-se dos Wilco, sempre surpreendeu pelo modo como foi diversificando a sua abordagem a estes conceitos ao longo de duas décadas. Do repentismo sincero e inconsciente de Wilco A.M., ao trato leve e sublime em Sky Blue Sky, passando pela imersão em vários psicoativos sentimentais em Yankee Hotel Foxtrot, ou fazendo uma primeira súmula de como sentem e vibram com sentimentos tão intensos, tentada em The Whole Love, os Wilco nunca conseguiram, felizmente, a desejada caricatura definida, numa história, às vezes barulhenta e intensa, outras mais introspetiva e carregada de soul.

Estas raridades acabam por ser fundamentais para se entender o cariz experimental e fortemente melódico de um grupo que geralmente sustentou as suas criações em magníficos arranjos de cordas, sempre acompnhados por uma percussão coerente e intuitiva e detalhes tão charmosos como xilofones, outros metais, ou as teclas de um piano, um forte entusiasmo lírico e, principalmente, uma notável disponibilidade para nos fazerem pensar, mexendo com os nossos sentimentos e tentando dar-nos pistas para uma vida mais feliz. Espero que aprecies a sugestão...

 

Disc one:
01. Childlike and Evergreen (Demo)
02. Someone Else’s Song (Demo)
03. Passenger Side (Demo)
04. Promising
05. The T.B. is Whipping Me – with Syd Straw
06. I Must Be High (Live)
07. Casino Queen (Live)
08. Who Were You Thinking Of (Live)
09. I Am Not Willing
10. Burned
11. Blasting Fonda
12. Thirteen
13. Don’t You Honey Me
14. The Lonely 1 (White Hen version)
15. No More Poetry
16. Box Full of Letters (Live)
17. Red-Eyed and Blue (Live)
18. Forget the Flowers (Live)
19. Sunken Treasure (Live)
20.Monday (Demo)

Disc two:
01. Passenger Side (Live)
02. Outtasite (Outta Mind) (Live)
03. I Got You (At the End of the Century) (Live)
04. Outta Mind (Outta Site) (Live)
05. James Alley Blues – with Roger McGuinn (Live)
06. At My Window Sad and Lonely (Jeff Tweedy solo)
07. California Stars (Live)
08. One Hundred Years From Now
09. A Shot in the Arm (Remix)
10. ELT (King Size demo)
11. Nothing’severgonnastandinmyway (again) (Dave Kahne Remix)
12. She’s a Jar (Austin demo)
13. Tried and True
14. Student Loan Stereo
15. True Love Will Find You in the End
16. I’m Always in Love (Solo acoustic live)
17. Via Chicago (Austin Demo)
18. Can’t Stand It (Live)
19. Airline to Heaven (Alternate)
20. Any Major Dude Will Tell You

Disc three:
01. I’m the Man Who Loves You (Live)
02. The Good Part
03. Cars Can’t Escape
04. Camera
05. Handshake Drugs (First version)
06. A Magazine Called Sunset
07. Bob Dylan’s 49th Beard
08. Woodgrain
09. More Like the Moon
10. Let Me Come Home
11. Old Maid
12. Hummingbird (Alternate)
13. Spiders (Kidsmoke) (Live)
14. Hell is Chrome (Live)
15. At Least That’s What You Said (Live)
16. The Late Greats (Live)
17. Just a Kid – with The Blisters
18. Kicking Television

Disc four:
01. Panthers
02. Theologians (Live)
03. Another Man’s Done Gone (Live)
04. I’m a Wheel (Live)
05. How to Fight Loneliness (Live)
06. One True Vine
07. The Thanks I Get
08. Let’s Not Get Carried Away
09. Hate it Here (Live)
10. Impossible Germany (Live)
11. I Shall Be Released – with Fleet Foxes (Live)
12. What Light (Live)
13. Jesus, Etc. – with Andrew Bird (Live)
14. Glad It’s Over
15. Dark Neon
16. The Jolly Banker
17. Unlikely Japan
18. You and I – with Feist (Live)
19. I Love my Label


autor stipe07 às 21:46
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Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2015

Ghastly Menace - Songs of Ghastly Menace

Liderados por Andy Schroeder e Chris Geick, os norte americanos Ghastly Menace pretendem conquistar o universo sonoro alternativo com um indie rock orquestral, feito de uma dose extra de guitarras e versos simultaneamente épicos e acessíveis, com o acrescento de arranjos onde contrastam elementos acústicos e elétricos e que deitam por terra qualquer sintoma de monotonia e repetição ao longo da audição.

ghastly10

Produzido por Nigel Dennis, o disco de estreia deste coletivo de Chicago chegou aos escaparates a vinte e sete de janeiro através da etiqueta The Record Machine e logo que foi divulgado Closing, o primeiro avanço, uma canção sobre aquilo que se sente quando há uma decisão a tomar e, apesar de muitas vezes haver um caminho óbvio, há sempre outras opções que podem ser ponderadas, percebeu-se imediatamente que este quinteto tem um dom especial para criar composições sonoras com um encanto algo misterioso e místico.

Logo no indie rock vigoroso de 80s, os Ghastly Menace criam alicerces musicais e sentimentais fortes com quem se predispôs à escuta do disco, porque a canção prende, nomeadamente no modo como consegue um equilíbrio cuidado entre o charme inconfundível das guitarras que carimbam o ADN do grupo com o indie pop rock que agrada às gerações mais recentes e onde abunda uma primazia dos sintetizadores e teclados com timbres variados. A inclusão destes efeitos sintetizados, que incluem um curioso flash no já citado single Closing, talvez sejam consequência da busca de uma toada comercial e de um lado mais radiofónico e menos sombrio e melancólico do que aquele que as letras destas canções à primeira vista pressupôem. Seja como for, este encaixe de novas tendências é muito claro no piano deste tema e, mais adiante, na espiral de efeitos que controlam as guitarras, elétrica e acústica, na majestosa On Our Way, e em Real Life, canção onde os efeitos de voz e a percurssão ajudam o fuzz das guitarras a fazer brilhar alguns detalhes feitos por um teclado, que dão um encanto único à canção. Este tema e o piano verdadeiramente desarmante da pop sinfónica de She Won't Stay For Long, conjugado com uma voz incrivelmente doce e sedutora, estão prontas para fazer vibrar grandes plateias, com os sintetizadores e o baixo, juntamente com a guitarra e a percurssão, a conduzirem estas canções, com variações de ritmo e paragens que farão as delícas de qualquer operador de luzes durante um concerto da banda.

Uma das sequências mais interessantes de Songs of Ghastly Menace é constituida pela balada Living Together, uma canção que oscila entre a pop mais experimental e progressiva e uma certa folk e onde a voz de Andy Schroeder assenta na perfeição, à qual se segue While You're Here, o clássico tema orquestral também vincadamente experimental, conduzido pelo sintetizador, com alguns detalhes de uma guitarra e outros efeitos da percurssão a darem à canção um clima romântico e sensível único, ingénuo e peculiar.

Até ao final, o piano volta a destacar-se em Shadow Song com a particularidade de replicar um som em tudo semelhante ao banjo, num dos temas de pendor mais cláassico do disco e o baixo de Wait é uma das melhores surpresas do alinhamento. Já Children exala o lado mais extrovertido dos Ghastly Menace por todos os poros sonoros e tem alguns detalhes que, no ocaso do alinhamento, nos convencem definitivamente que Songs Of Ghastly Menace é abrangente no modo como cruza a leveza onírica da dream pop, bem presente no esplendor da vertente acústica das cordas, com a típica eletrificação que plasma o cariz mais rugoso do rock alternativo, ao mesmo tempo que são convocados outros espetros sonoros, mais progressivos e experimentais. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:30
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