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Into It. Over It. – Living Up To Let You Down

Terça-feira, 14.07.20

Into It. Over It. - Living Up To Let You Down

O projeto norte-americano Into It. Over It. liderado por Evan Thomas Weiss, já tem disco novo pronto, um trabalho intitlado Figures, que irá ver a luz do dia a dezoito de setembro próximo à boleia do consórcio Triple Crown/Big Scary Monsters. Figures sucede a Standards, sendo o primeiro trabalho da banda de Chicago em quatro anos, período durante o qual Weiss este ocupado com o seu outro projeto Pet Symmetry.

Living Up To Let You Down é o primeiro single divulgado de Figures, um efusiante tratado de emo rock, assente em arranjos de cordas subtis, guitarras aceleradas e uma bateria com um andamento imparável, mesmo com instantes de pausa, um modus operandi tremendamente nostálgico, levando-nos até à melhor herança de um subgénero do rock que marcou de modo indelével e bastante impressivo a última década do século passado e que também pode ter um lado mais solarengo e tremendamente pop. Confere...

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publicado por stipe07 às 14:56

Sufjan Stevens - America

Terça-feira, 07.07.20

Sufjan Stevens - America

Desde o longínquo registo Carrie & Lowell , lançado em dois mil e quinze que o norte-americano Sufjan Stevens não lança um registo a solo. No entanto, o músico natural de Chicago não tem deixado de estar ativo, não só através da participação em outros projetos paralelos, com especial realce para o seu contributo fundamental no álbum Planetarium (2017), onde assinou os créditos com Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister, mas também com a edição de alguns singles, a homenagem a patinadora Tonya Harding no tema com o mesmo nome, lançado no final de dois mil e dezassete e, o ano passado, em junho, mês que comemora o Orgulho LGTBQ, Sufjan Stevens ofereceu-nos, à boleia da Asthamatic Kitty, um EP com dois inéditos, Love Yourself e With My Whole Heart, duas assumidas canções de amor cuja parte das receitas obtidas foram oferecidas às organizações Ali Forney Center em Harlem, Nova Iorque e o Ruth Ells Center, em Detroit, no Michigan, que apoiam, respetivamente, a comunidade LGBTQ e crianças sem lar norte-americanas.

Agora, em dois mil e vinte, parece certo um novo disco de Sufjan Stevens, um trabalho intitulado The Ascension, do qual acaba de ser retirado o épico single America, uma jornada eletrónica climática e intimsta, mas também algo inquietante, feita de um psicadelismo eminentemente experimental, assente numa vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que adornam uma composição bem à medida da imensidão e do silêncio que carateriza o vazio cósmico a que o músico de Chicago nos tem habituado ultimamente.

Liricamente, America são doze minutos de retórica reflexiva, mais ou menos racional e consciente, assente em várias menções alegóricas e até biblícas transpostas para o estado atual do seu país de origem, uma América que, como o próprio já referiu recentemente, o envergonha particuarmente (I’m ashamed to admit I no longer believe). Sufjan fala de uma América a correr vertiginosamente rumo ao apocalipse e de como essa constatação o atormenta e aflige particularmente (don’t do to me what you did to America ). Confere...

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publicado por stipe07 às 14:40

Jeff Tweedy – Warmer

Segunda-feira, 17.06.19

O norte-americano Jeff Tweedy, líder do míticos Wilco, é, claramente, um dos músicos mais profícuos e criativos do cenário musical alternativo atual. Já nesta década, ao comando da sua banda, idealizou e incubou The Whole Love (2011), Star Wars (2015) e Schmilco (2016) e entretanto aproveitou para escrever uma auto-biografia intitulada Let's Go (So We Can Get Back): A Memoir of Recording and Discording with Wilco, Etc., onde disserta sobre aspetos da sua personalidade e do seu trajeto nos Wilco. À boleia desse exaustivo exercício escrito de introspeção, acabou por criar WARM, um dos destaques da sua etapa discográfica a solo, onze canções que viram a luz do dia no início deste ano com a chancela da insuspeita dBpm Records e que sucedem a Together at Last (2017), um registo de versões de alguns dos temas mais emblemáticos da sua já extensa carreira. Ora, por incrível que pareça, esse WARM já tem sucessor, um registo intitulado Warmer e que, conforme o título indica, não pode ser dissociado do conteúdo do antecessor, já que, além de ter sido gravado durante o mesmo período em que foi captado WARM, acaba por, na sua essência, obedecer à mesma filosofia sonora estilística, assente numa concepção de escrita que explora bastante a dicotomia entre sentimentos e no modo criativo e refinado como musica as letras que daí surgem, aliando o seu adn pessoal às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo.

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Logo no balanço delicado entre o quase pop e o contemplativo piscar de olhos à soul em Orphan, uma composição em que Tweedy plasma esta predisposição para utilizar a sua música autobiograficamente, fazendo-o como um exercício sonoro de exorcização de alguns dos seus demónios, angústias, eventos traumáticos e conflitos interiores, fica plasmada a essência sonora de um alinhamento com um travo melancólico particularmente abundante, de algum modo em oposição ao conteúdo do antecessor WARM, um registo mais quente, positivo e sorridente. Depois, na crueza da acusticidade de Family Ghost, mais uma composição sobre o modo como este músico de Chicago vê a morte, mas também em …And Then You Cut It In Half, música em que percussão e as cordas procuram insistentemente e de modo delicioso o ritmo certo e, principalmente, em Ten Sentences, um impressivo e jubilante tratado folk assente num timbre de cordas parricularmente estridente, apreciamos esta apenas aparente dicotomia entre os sentimentos e as confissões que sustentam as letras e o modo criativo e refinado como, no modo como as musica, Tweedy se expôe sem relutância e, devido a uma simplicidade melódica simplesmente arebatadora mas terrivelmente eficaz, desprovido de qualquer sede de exacerbado protagonismo. Mesmo nos efeitos indutores da guitarra que se eletrifica com maior audácia em Empty Head e no clima marcadamente rugoso de Sick Server, instantes que mostram uma faceta sonora folk mais experimental e intrincada que os temas acima referidos, não deixa de estar patente sempre esta sensação de oposição entre poema e melodia, que oferece, no global, a Warmer, uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, num álbum particularmente uniforme e homogéneo e, mais do que essas caraterísticas estilísticas, um verdadeiro tratado de manifestação pura, desinteressada e bastante reveladora de uma pessoalidade única e inconfundivel no panorama indie atual, devido ao modo como, disco após disco, o músico endereça à sua consciência um pedido de análise cru e direto da mesma e, aceitando esse exercício de falsa humilhação, acaba por escrever e compôr algumas das canções mais bonitas, profundas e expressivas que podemos escutar atualmente no outro lado do atlântico. Espero que aprecies a sugestão...

Jeff Tweedy - Warmer

01. Orphan
02. Family Ghost
03. …And Then You Cut It In Half
04. Ten Sentences
05. Sick Server
06. Empty Head
07. Landscape
08. Ultra Orange Room
09. Evergreen
10. Guaranteed

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publicado por stipe07 às 22:20

Sufjan Stevens - Love Yourself & With My Whole Heart

Segunda-feira, 03.06.19

Desde o longínquo registo Carrie & Lowell , lançado em dois mil e quinze que o norte-americano Sufjan Stevens não lança um registo a solo. No entanto, o músico natural de Chicago não tem deixado de estar ativo, não só através da participação em outros projetos paralelos, com especial realce para o seu contributo fundamental no álbum Planetarium (2017), onde assina os créditos com Bryce Dessner, Nico Muhly e James McAlister, mas também com a edição de alguns singles, sendo o mais relevante a homenagem a patinadora Tonya Harding no tema com o mesmo nome, lançado no final de dois mil e dezassete.

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Agora, no início de junho, mês que comemora o Orgulho LGTBQ, Sufjan Stevens oferece-nos, à boleia da Asthamatic Kitty, um EP com dois inéditos, Love Yourself e With My Whole Heart, duas assumidas canções de amor cuja parte das receitas obtidas será oferecida às organizações Ali Forney Center em Harlem, Nova Iorque e o Ruth Ells Center, em Detroit, no Michigan, que apoiam, respetivamente, a comunidade LGBTQ e crianças sem lar norte-americanas.

Já com raízes em mil novecentos e noventa e seis, altura em que Sufjan Stevens gravou o tema pela primaiera vez, Love Yourself é uma peça pop de cariz eminentemente sintético, com um ligeiro travo gospel, conduzida por pianos melancólicos e uma suave batida, nuances que aglutinam uma forte veia eletroacústica algo suave e adocicada. Já With My Whole Heart, dentro de um psicadelismo eminentemente experimental, é um instante mais intimista, apesar da vasta miríade de efeitos, distorções de guitarra, interseções e arranjos que adornam uma composição bem à medida da imensidão e do silêncio que muitas vezes carateriza o vazio cósmico que nos invade sempre que o amor nos prega uma partida. Confere...

Sufjan Stevens - Love Yourself - With My Whole Heart

01. Love Yourself
02. Love Yourself (1996 Demo)
03. With My Whole Heart
04. Love Yourself (Short Reprise)

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publicado por stipe07 às 16:35

Andrew Bird – My Finest Work Yet

Quinta-feira, 30.05.19

Já viu a luz do dia My Finest Work Yet, o décimo segundo álbum da carreira de Andrew Bird, um dos maiores cantautores da atualidade e com um vasto catálogo de canções que são pedaços de música intemporais. A elas Bird junta mais dez, abrigadas pela primeira vez pela Loma Vista Recordings, canções que, curiosamente, mostram pela primeira vez uma faceta crítica deste músico norte-americano natural de Chicago relativamente a alguns dos tópicos mais importantes da nossa contemporaneidade, nomeadamente as mudanças climáticas e o choque ideológico global entre o capitalismo de direita, o socialismo e o ambientalismo.

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Líder na última década do século passado dos míticos Bowl Of Fire e apelidado de mestre do assobio, o multi-instrumentista e cantor, Andrew Bird tem consolidado a sua carreira a solo com uma notável frequência de lançamentos discográficos, fazendo-o sempre com elevada bitola qualitativa e conseguindo dar uma cariz identitário genuíno a cada um dos lançamentos, não se limitando, registo após registo, por repetir a mesma fórmula até à exaustão. Ele vai oferecendo-nos sempre novas nuances, detalhes e formas de compôr que entroncam numa base comum, a típica folk norte americana, proposta através de diferentes registos e papéis, mas sempre com a mesma eficácia e brilhantismo, uma das marcas identitárias da sua arte.

My Finest Work Yet, um disco gravado ao vivo no Barefoot Studios, em Los Angeles e produzido por Paul Butler, não foge à regra, com canções como Olympians, uma luminosa alegoria intensa e festiva, a setentista Fallorun e a charmosa Proxy War a escorrerem  à sombra de um clima claramente pop, gizado por cordas dedilhadas sempre na medida certa, sem grandes exageros, como é habitual na mestria interpretativa de Andrew. Depois há outras do calibre de Bloodless, um anguloso piscar de olhos ao jazz ou a mais incontida e paisagisticameente vasta Don The Struggle, a oferecerem-nos, dentro da espinha dorsal sonora do autor, outras interseções de maior risco e variedade, mas claramente bem sucedidas, relativamente ao universo sonoro acima referido, um espetro sonoro que tem como grande virtude a possibilidade de se acomodar facilmente aos mais variados géneros que a ela se queiram associar. E Bird mostra neste disco o quanto é exímio neste exercício climático de agregação, fazendo-o imbuído de sofisticação e com enorme bom gosto.

My Finest Work Yet é mais um instante precioso na discografia de um músico notável, um trabalho que mostra a sua beleza não só nos diversos momentos de intersecção entre vozes, sopros, teclas e cordas, mas principalmente no modo como exala um suspiro íntimo e pessoal sobre aspetos sociais que afligem o autor, repleto de optimismo e esperança relativamente a dia melhores. Espero que aprecies a sugestão...

Andrew Bird - My Finest Work Yet

01. Sisyphus
02. Bloodless
03. Olympians
04. Cracking Codes
05. Fallorun
06. Archipelago
07. Proxy War
08. Manifest
09. Don The Struggle
10. Bellevue Bridge Club

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publicado por stipe07 às 16:12

Jeff Tweedy – WARM

Quinta-feira, 03.01.19

O norte-americano Jeff Tweedy, líder do míticos Wilco, é, claramente, um dos músicos mais profícuos e criativos do cenário musical alternativo atual. Já nesta década, ao comando da sua banda, idealizou e incubou The Whole Love (2011), Star Wars (2015) e Schmilco (2016) e entretanto aproveitou para escrever uma auto-biografia intitulada Let's Go (So We Can Get Back): A Memoir of Recording and Discording with Wilco, Etc., onde disserta sobre aspetos da sua personalidade e do seu trajeto nos Wilco. À boleia desse exaustivo exercício escrito de introspeção, acabou por criar WARM, a sua mais recente etapa discográfica a solo, onze canções que viram a luz do dia já algumas semanas com a chancela da insuspeita dBpm Records e que sucedem a Together at Last (2017), um registo de versões de alguns dos temas mais emblemáticos da sua já extensa carreira.

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Logo no balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso piscar de olhos ao garage rock de Bombs Above, uma composição em que Tweedy dialoga com um paciente amigo de uma clínica de reabilitação de alcoolismo, fica plasmada esta predisposição do autor para utilizar WARM autobiograficamente, fazendo-o como um exercício sonoro de exorcização de alguns dos seus demónios, angústias, eventos traumáticos e conflitos interiores. Esta predisposição para uma certa depressão mantém-se ao longo do alinhamento do WARM mas, ao contrário do expetável, tendo em conta a filosofia lírica destas canções, sonoramente abundam no registo os instantes de luminosidade que têm aquele travo melancólico positivo e sorridente.

Na crueza da acusticidade de Having Been Is No Way to Be, uma composição sobre o modo como este músico de Chicago vê a morte, mas também em Far From Away, música em que percussão e as cordas procuram insistentemente e de modo delicioso o ritmo certo e que se debruça sobre a inconstância das relações e, principalmente, em I Know What It’s Like, um impressivo e jubilante tratado folk sobre o medo da solidão e o sufoco que isso pode provocar, apreciamos esta apenas aparente dicotomia entre os sentimentos e as confissões que sustentam as letras e o modo criativo e refinado como, no modo como as musica, Tweedy alia esse seu adn pessoal às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo. Mesmo nos efeitos indutores da guitarra cheia de fuzz de Some Birds e no clima marcadamente progressivo e rugoso de Red Brick, instantes que mostram uma faceta sonora folk mais experimental e intrincada que os temas acima referidos, não deixa de estar patente sempre esta sensação de oposição entre poema e melodia, que oferece, no global, a WARM, uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, sendo um álbum que à primeira audição poderá parecer algo uniforme e homogéneo, mas que, devidamente desconstruído, é diversificado, sem perder coerência, versatilidade e unidade.

Exercício permanente de refinamento poético e musical, WARM  brinca de modo sério com as emoções de um músico e compositor que aceitou desafiar o seu lado mais sombrio e os seus maiores fantasmas, num convite que endereçou à sua própria consciência, para que esta analisasse o estado atual do seu lado mais carnal e o desarmasse totalmente, através de canções que parecem tornar inerte o lado mais humano do peito de Tweedy, mas que nunca deixam de exalar um resultado sempre devidamente realista e racional. Se a temática deste alinhamento expôe angústias, o mesmo também avisa quer o autor quer os ouvintes que não se pode deixar de vivenciar sentimentos e emoções reais e, de preferência, deve-se fazê-lo com a crueza e a profundidade simultaneamente vigorosas e profundas que tais permissas merecem. Espero que aprecies a sugestão...

Jeff Tweedy - WARM

01. Bombs Above
02. Some Birds
03. Don’t Forget
04. How Hard It Is For A Desert To Die
05. Let’s Go Rain
06. From Far Away
07. I Know What It’s Like
08. Having Been Is No Way To Be
09. The Red Brick
10. Warm (When The Sun Has Died)
11. How Will I Find You?

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publicado por stipe07 às 14:25

Ezra Furman - Transangelic Exodus

Terça-feira, 18.09.18

Foi à boleia da Bella Union que viu a luz do dia Transangelic Exodus, o quarto registo de originais de Ezra Furman, um cantor e compositor norte-americano natural de Chicago e que aos trinta e dois anos assina o seu disco mais maduro e consistente. De facto, Transangelic Exodus é um trabalho tremendamente expositivo e que resulta de uma entrega total de um músico a uma causa que é, sem tirar nem pôr, o querer mostrar ao mundo a sua identidade vincada, assumir-se perante nós como um ser humano que tem as suas fragilidades e os seus demónios, mas que também tem um lado muito corajoso e interventivo. Para levar a bom porto este seu objetivo, Furman personifica-se num anjo que ganhou asas e que está a aprender a viver com estes novos apêndices enquanto cura algumas das suas feridas mais profundas.

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Transangelic Exodus expôe as virtudes de Furman como cantor e criador de canções impregnadas com uma rara honestidade, verdadeiros tratados de indie pop, mas que também piscam o olho aquele rock psicadélico com uma aúrea oitocentista muito vincada. Ao fazê-lo, Furman sai definitivamente do armário, deixa de se esconder e através de uma pafernália diversificada de sons explosivos, mudanças rítmicas e estilisticas e de acertos melódicos, proporciona-nos mais um emotivo e exigente encontro com o seu âmago e com toda a intrincada teia relacional que estabelece com um mundo nem sempre disposto a aceitar abertamente a diferença e a busca de caminhos menos habituais para o encontro da felicidade plena. Em Psalm 151, um dos melhores momentos do registo, Furman escreve mesmo no feminino e assume de frente a sua indisponibilidade para manter-se por perto de quem não o entende ou não o aceita tal como é (But I’ve seen the broken halo, That she never wears, Hanging by the stairs, Angel, I’ll be your guardian if you’ll be mine(...) We’ll stay in Kansas city till the wound heals, The government went bad, we got a raw deal, A transangelic exodus on four wheels.

Sonoramente, Transangelic Exodus é um disco bastante dominado por uma voz que se faz acompanhar, geralmente, por sintetizadores, que amiúde dão as mãos a diferentes elementos percussivos, mas principalmente às cordas, o elemento sonoro predilecto deste compositor. Além da guitarra e da viola e do baixo, sublime em Compulsive Liar, tema em que Furman confessa ter, em tempos, mentido sobre o modo como lidava com a questão da identidade de géneros (And I can trace the habit, To when I was eleven, And I thought boys were pretty, And I couldn’t tell no one), violoncelos e violinos surgem nos nossos ouvidos, errantes, nomeadamente na subversão religiosa de God Lifts Up The Lowly, um tema que homenageia o divino e, de modo mais fulgurante, no profundo e intenso muro de lamentações a que sabe o rock clássico e algo paranóico de No Place e na alegria contagiante de Love You So Bad.

Registo cheio de composições profundamente autobiográficas, que ao invés de nos suscitarem a formulação de um julgamento acerca das opções pessoais do artista e da forma vincada como as expõe, optam por nos oferecer esperança enquanto se relacionam connosco com elevada empatia, Transangelic Exodus espanta pelo seu realismo e provoca no ouvinte aquela lágrima fácil, tal é a profundidade com que o autor desta magnífica obra discográfica relata histórias e eventos que suscitam tudo menos a indiferença. É, claramente, um retrato sincero de sentimentos e, mais do que isso, um alinhamento de canções que podem bem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída, ou necessita urgentemente de assumir uma outra identidade. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 13:09

Andrew Belle – Fade Into You

Segunda-feira, 30.07.18

Andrew Belle - Fade Into You

Nascido em Chicago, no Illinois, Andrew Belle lançou o ano passado Dive Deep, um disco com canções escritas e compostas por um dos intérpretes mais importantes da indie pop atual no lado de lá do atlântico, um artista que conhece, com minúcia e destreza, como replicar um ambiente sonoro multicolorido e espetral, sendo claramente influenciado pela paisagem multicultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente. Agora, quase um ano depois do lançamento desse excelente registo, Andrew Belle acaba de revelar uma versão do clássico Fade Into You dos Mazzy Star.

Com um clima eminentemente etéreo e fortemente climático, a cover preserva a filosofia de um tema que fala sobre a necessidade que todos aqueles que vivem uma relação têm de se conectar do modo o mais empático possível com o outro, numa letra carregada de nostalgia e melancolia e à qual Belle, sem colocar em causa a estrutura meldódica do original, adicionou detalhes sonoros delicados e introspetivos que nos levam numa viagem bastante impressiva por um mundo muito peculiar e intimista. Confere...

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publicado por stipe07 às 12:16

The Sea And Cake – Any Day

Sexta-feira, 18.05.18

Cerca de meia década depois do excelente Runners, os norte-americanos The Sea And Cake, agora um trio formado por Sam Prekop, Archer Prewitt, John McEntire, depois da partida do baixista Eric Claridge, estão de regresso aos lançamentos discográficos à boleia da Thrill Jockey, a sua morada há já algum tempo, com Any Day, dez canções que deixam bem claro que, mesmo depois de um hiato mais ou menos prolongado, a fórmula The Sea And Cake continua jovem, não pensa em férias e tem argumentos para esgrimir com a concorrência, mesmo já em pleno século XXI.

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Com a participação especial de Paul Von Mertens, habitual colaborador de Brian Wilson, nas flautas e clarinetes e de Nick Macri no baixo, em Any Day os The Sea and Cake oferecem-nos uma refrescante e íntima coleção de canções pop, cada uma com a sua singularidade, mas todas tendo em comum uma ímpar delicadeza, limpidez e luminosidade que transpira otimismo e boa disposição por todos os poros, também por causa de melodias particularmente inspiradas e aditivas.

Mestres da subtileza, os The Sea And Cake apelam à descoberta pessoal e à reflexão íntima, com canções como a incisiva e lânguida Cover The Mountain, a refrescante e bem disposta I Should Care, a serenidade folk da homónima, o travo tropical de Into Rain, a sobriedade melancólica de Occurs ou a rispidez progressiva de Starling a subsistirem alicerçadas em arranjos de cordas com um timbre eminentemente metálico, abraçados a sintetizações moduladas e a um trabalho percurssivo bastante sóbrio, aspetos que nos convidam, ao longo dos quase quarenta minutos do registo, a penetrarmos num universo sonoro com um adn bem definido, mas que não deixa de soar sempre familiar, sem deixar de nos oferecer instantes e detalhes muitas vezes inesperados e que espelham a riqueza criativa do projeto. Os sopros que acompanham as cordas e adornam a melodia de Paper Window e o modo como um simples toque numa corda eletrificada se intercala com o baixo em Day Moon são um bom exemplo deste modo superior de compôr tendo em vista impressionar e regalar o ouvinte sem o forçar a espreitar para fora de uma zona de conforto bem delimitada.

Em suma, este novo álbum do quarteto de Chicago, mantém a beleza melódica caraterística do projeto, com a adição de novos elementos, nomeadamente uma forte presença de elementos jazzísticos e da folk a serem essenciais para um resultado final bastante fluído, ameno e arejado, que nos possibilita saborearmos uma recatada zona de conforto, mesmo que farta de invulgares expedições sónicas. De facto, os The Sea And Cake já não precisam de argumentos a favor do seu génio. O contributo que deram para a índie dos anos noventa foi extraordinário e não merece ser sequer beliscado até porque ainda hoje conseguem manter uma apreciável dose inventiva, já que Any Day é, claramente, mais um clássico de degustação obrigatória na já extensa discografia desta extraordinária banda norte americana. Espero que aprecies a sugestão...

The Sea And Cake - Any Day

01. Cover The Mountain
02. I Should Care
03. Any Day
04. Occurs
05. Starling
06. Paper Window
07. Day Moon
08. Into Rain
09. Circle
10. These Falling Arms

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publicado por stipe07 às 18:42

In Tall Buildings – Akinetic

Sábado, 03.03.18

Exatamente três anos depois do excelente Driver, disco que figurou na lista dos melhores álbuns de 2015 para esta redação, o projeto In Tall Buildings do norte-americano Erik Hall, está de regresso com Akinetic, um compêndio de dez canções produzidas com a ajuda de Brian Deck no estúdio caseiro de Erik e abrigadas pela Western Vinyl. É um registo com um clima pop particularmente amplo e luminoso e que, balançando entre escuridão e lucidez, está cheio de alegorias acerca desta espécie de sentimento de alienação massiva que a humanidade enfrenta atualmente, tendo em conta o modo como coloca em perigo, constantemente, a sua própria sobrevivência.

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Músico e compositor de Pilsen, nos arredores de Chicago e que, de acordo com o próprio, compõe inspirado por duas dicas filosóficas, uma de Allen Ginsburg (First thought, best thought) e a outra da autoria de Kurt Vonnegut (Edit yourself, mercilessly), Erik Hall é uma das personagens mais interessantes de descobrir do cenário indie norte-americano menos divulgado, tal é a elevada bitola qualitativa das composições sonoras que incuba. Se a teoria de Ginsburg apela à primazia do instintivo e da naturalidade e da crueza, acima de tudo, já as palavras de Vonnegut parecem instar à constante insatisfação e à busca permanente da perfeição, considerando-se cada criação como algo inacabado e que pode ser alvo de melhorias e alterações e a verdade é que um dos grandes atributos da filosofica sonora de In Tall Buildings é o constante vaivém, muitas vezes pouco implícito e percetível, entre estas duas realidades aparentemente antagónicas.

Assim, em Akinetic o autor propôe e cria paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto na forma como as constrói, deixando sempre margem de manobra para que nos possamos apropriar das mesmas e dar-lhes o nosso próprio sentido. Aquela eletrofolk acústica ambiental, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, é, portanto, a trave mestra do alinhamento, competente na forma como abarca diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e como mistura harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de Hall, sendo este um álbum ameno, íntimo, cuidadosamente produzido e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Ficamos logo agarrados ao disco com Beginning To Fade, o tema de abertura, feito de uma melodia que tem por base a bateria e a distorção de uma guitarra carregada de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o dedilhar de algumas cordas. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente vincadamente experimental, algo que logo depois, em dose dupla, no ritmado tema homónimo e em Long Way Down, fica ainda mais explícito, não só devido à dinâmica da batida e ao efeito sintetizado que acompanha a primeira e as cordas que conduzem a segunda, mas também devido ao modo sinuoso e cativante, como Erik nos convida à introspeção e à reflexão sobre este mundo moderno, ao mesmo tempo que não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora. Overconscious acaba também por surpreender devido ao modo como o piano é introduzido em toda esta equação, oferecendo ao clima do registo também um pouco daquela sonoridade pop claramente urbana, que acaba por se mostrar perfeita no modo como em Siren Song o baixo e uma bateria galopante se cruzam com o sintetizador. A seguir, em Curtain, percebemos que In Tall Buildings também manipula com mestria os típicos suspiros sensuais que a subtil eletrificação da guitarra e uma batida marcada proporcionam e que se mantém aquela intacta a elevada dose de sensualidade e suavidade na tonalidade das canções que impressionou no registo anterior.

Até ao ocaso de Akinetic, a espiral melodicamente hipnótica de Wake Up e o dedilhar deambulante das cordas em Days In Clover são outros dois momentos que trazem brisas bastante aprazíveis ao ouvinte, fechando-se a cortina de um disco com uma atmosfera simultaneamente íntima e vibrante, que proporciona uma sensação intrincada e fortemente espiritual, que parece querer transmitir todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nosso dias, agora algo frios e sombrios. Álbum essencial e único, rico e arrojado e apontando em diferentes direções sonoras, Akinetic engloba diferentes aspetos e detalhes de diversas raízes musicais, num pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Hall sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

In Tall Buildings - Akinetic

01. Beginning To Fade
02. Akinetic
03. Long Way Down
04. Overconscious
05. Cascadia
06. Siren Song
07. Curtain
08. New Moon
09. Days In Clover
10. Wake Up

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publicado por stipe07 às 11:36






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