Sexta-feira, 18 de Maio de 2018

The Sea And Cake – Any Day

Cerca de meia década depois do excelente Runners, os norte-americanos The Sea And Cake, agora um trio formado por Sam Prekop, Archer Prewitt, John McEntire, depois da partida do baixista Eric Claridge, estão de regresso aos lançamentos discográficos à boleia da Thrill Jockey, a sua morada há já algum tempo, com Any Day, dez canções que deixam bem claro que, mesmo depois de um hiato mais ou menos prolongado, a fórmula The Sea And Cake continua jovem, não pensa em férias e tem argumentos para esgrimir com a concorrência, mesmo já em pleno século XXI.

Resultado de imagem para The Sea And Cake 2018

Com a participação especial de Paul Von Mertens, habitual colaborador de Brian Wilson, nas flautas e clarinetes e de Nick Macri no baixo, em Any Day os The Sea and Cake oferecem-nos uma refrescante e íntima coleção de canções pop, cada uma com a sua singularidade, mas todas tendo em comum uma ímpar delicadeza, limpidez e luminosidade que transpira otimismo e boa disposição por todos os poros, também por causa de melodias particularmente inspiradas e aditivas.

Mestres da subtileza, os The Sea And Cake apelam à descoberta pessoal e à reflexão íntima, com canções como a incisiva e lânguida Cover The Mountain, a refrescante e bem disposta I Should Care, a serenidade folk da homónima, o travo tropical de Into Rain, a sobriedade melancólica de Occurs ou a rispidez progressiva de Starling a subsistirem alicerçadas em arranjos de cordas com um timbre eminentemente metálico, abraçados a sintetizações moduladas e a um trabalho percurssivo bastante sóbrio, aspetos que nos convidam, ao longo dos quase quarenta minutos do registo, a penetrarmos num universo sonoro com um adn bem definido, mas que não deixa de soar sempre familiar, sem deixar de nos oferecer instantes e detalhes muitas vezes inesperados e que espelham a riqueza criativa do projeto. Os sopros que acompanham as cordas e adornam a melodia de Paper Window e o modo como um simples toque numa corda eletrificada se intercala com o baixo em Day Moon são um bom exemplo deste modo superior de compôr tendo em vista impressionar e regalar o ouvinte sem o forçar a espreitar para fora de uma zona de conforto bem delimitada.

Em suma, este novo álbum do quarteto de Chicago, mantém a beleza melódica caraterística do projeto, com a adição de novos elementos, nomeadamente uma forte presença de elementos jazzísticos e da folk a serem essenciais para um resultado final bastante fluído, ameno e arejado, que nos possibilita saborearmos uma recatada zona de conforto, mesmo que farta de invulgares expedições sónicas. De facto, os The Sea And Cake já não precisam de argumentos a favor do seu génio. O contributo que deram para a índie dos anos noventa foi extraordinário e não merece ser sequer beliscado até porque ainda hoje conseguem manter uma apreciável dose inventiva, já que Any Day é, claramente, mais um clássico de degustação obrigatória na já extensa discografia desta extraordinária banda norte americana. Espero que aprecies a sugestão...

The Sea And Cake - Any Day

01. Cover The Mountain
02. I Should Care
03. Any Day
04. Occurs
05. Starling
06. Paper Window
07. Day Moon
08. Into Rain
09. Circle
10. These Falling Arms


autor stipe07 às 18:42
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sábado, 3 de Março de 2018

In Tall Buildings – Akinetic

Exatamente três anos depois do excelente Driver, disco que figurou na lista dos melhores álbuns de 2015 para esta redação, o projeto In Tall Buildings do norte-americano Erik Hall, está de regresso com Akinetic, um compêndio de dez canções produzidas com a ajuda de Brian Deck no estúdio caseiro de Erik e abrigadas pela Western Vinyl. É um registo com um clima pop particularmente amplo e luminoso e que, balançando entre escuridão e lucidez, está cheio de alegorias acerca desta espécie de sentimento de alienação massiva que a humanidade enfrenta atualmente, tendo em conta o modo como coloca em perigo, constantemente, a sua própria sobrevivência.

Resultado de imagem para erik hall in tall buildings

Músico e compositor de Pilsen, nos arredores de Chicago e que, de acordo com o próprio, compõe inspirado por duas dicas filosóficas, uma de Allen Ginsburg (First thought, best thought) e a outra da autoria de Kurt Vonnegut (Edit yourself, mercilessly), Erik Hall é uma das personagens mais interessantes de descobrir do cenário indie norte-americano menos divulgado, tal é a elevada bitola qualitativa das composições sonoras que incuba. Se a teoria de Ginsburg apela à primazia do instintivo e da naturalidade e da crueza, acima de tudo, já as palavras de Vonnegut parecem instar à constante insatisfação e à busca permanente da perfeição, considerando-se cada criação como algo inacabado e que pode ser alvo de melhorias e alterações e a verdade é que um dos grandes atributos da filosofica sonora de In Tall Buildings é o constante vaivém, muitas vezes pouco implícito e percetível, entre estas duas realidades aparentemente antagónicas.

Assim, em Akinetic o autor propôe e cria paisagens sonoras simples e amenas, de algum modo descomplicadas e acessíveis, mas que não descuram a beleza dos arranjos e um enorme e intrincado bom gosto na forma como as constrói, deixando sempre margem de manobra para que nos possamos apropriar das mesmas e dar-lhes o nosso próprio sentido. Aquela eletrofolk acústica ambiental, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, é, portanto, a trave mestra do alinhamento, competente na forma como abarca diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e como mistura harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de Hall, sendo este um álbum ameno, íntimo, cuidadosamente produzido e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Ficamos logo agarrados ao disco com Beginning To Fade, o tema de abertura, feito de uma melodia que tem por base a bateria e a distorção de uma guitarra carregada de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o dedilhar de algumas cordas. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente vincadamente experimental, algo que logo depois, em dose dupla, no ritmado tema homónimo e em Long Way Down, fica ainda mais explícito, não só devido à dinâmica da batida e ao efeito sintetizado que acompanha a primeira e as cordas que conduzem a segunda, mas também devido ao modo sinuoso e cativante, como Erik nos convida à introspeção e à reflexão sobre este mundo moderno, ao mesmo tempo que não poupa na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora. Overconscious acaba também por surpreender devido ao modo como o piano é introduzido em toda esta equação, oferecendo ao clima do registo também um pouco daquela sonoridade pop claramente urbana, que acaba por se mostrar perfeita no modo como em Siren Song o baixo e uma bateria galopante se cruzam com o sintetizador. A seguir, em Curtain, percebemos que In Tall Buildings também manipula com mestria os típicos suspiros sensuais que a subtil eletrificação da guitarra e uma batida marcada proporcionam e que se mantém aquela intacta a elevada dose de sensualidade e suavidade na tonalidade das canções que impressionou no registo anterior.

Até ao ocaso de Akinetic, a espiral melodicamente hipnótica de Wake Up e o dedilhar deambulante das cordas em Days In Clover são outros dois momentos que trazem brisas bastante aprazíveis ao ouvinte, fechando-se a cortina de um disco com uma atmosfera simultaneamente íntima e vibrante, que proporciona uma sensação intrincada e fortemente espiritual, que parece querer transmitir todas as sensações positivas e os raios de luz que fazem falta aos nosso dias, agora algo frios e sombrios. Álbum essencial e único, rico e arrojado e apontando em diferentes direções sonoras, Akinetic engloba diferentes aspetos e detalhes de diversas raízes musicais, num pacote cheio de paisagens sonoras que contam histórias que a voz de Hall sabe, melhor do que ninguém, como encaixar. Espero que aprecies a sugestão...

In Tall Buildings - Akinetic

01. Beginning To Fade
02. Akinetic
03. Long Way Down
04. Overconscious
05. Cascadia
06. Siren Song
07. Curtain
08. New Moon
09. Days In Clover
10. Wake Up


autor stipe07 às 11:36
link do post | comenta / bad talk | See the bad talk... (1) | The Best Of... Man On The Moon...
Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Sufjan Stevens – Tonya Harding

Sufjan Stevens - Tonya Harding

Tonya Harding my star, this world is a cold one, but it takes one to know one. É deste belo modo que começa Tonya Harding, a nova música do norte-americano Sufjan Stevens, um tributo à patinadora Tonya Harding, um ícone da cultura americana de final do século passado. É uma belíssima composição que amplia o retorno do músico a sonoridades mais intimistas, nostálgicas e contemplativas, sempre com a eletrónica em pano de fundo. 

Tonya Harding foi um dos nomes maiores da patinagem mundial durante vários anos mas também sofreu imenso com a exposição pública e com alegados abusos físicos e sexuais de que terá sido alvo durante a sua carreira. A determinada altura do tema Sufjan Stevens realça toda essa trama com enorme contundência e elevado sentido poético... Has the world has its fun?” Stevens asks in the song, “They’ll make such a hassle and they’ll build you a castle, then destroy it when you’re done. Confere...


autor stipe07 às 16:38
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2017

Cassettes On Tape – Anywhere

Depois dos eps Cathedrals (2012) e Murmurations (2014), os Cassettes On Tape, uma banda post punk formada por Joe Kozak (guitarras e voz), Greg Kozak (baixo e voz), Shyam Telikicherla (guitarras e voz) e Chris Jepson (bateria), estrearam-se finalmente nos lançamentos discográficos em formato longa duração com Anywhere, dez canções produzidas e misturadas por Jamie Carter no Atlas Studio e na Pie Holden Suite, em Chicago, cidade de onde a banda é natural e masterizadas por Carl Saff. Anywhere encontra-se disponível para audição no bandcamp da banda.

Foto de Cassettes on Tape.

Nunca o ressuscitar do post punk e do shoegaze estiveram tão em voga como nos últimos anos. Basta olhar para as tabelas mais recentes dos melhores álbuns de rock alternativo para se perceber o vigor desta tendência e o sucesso que tem sido a aposta no reviver de diversas sonoridades que despontaram mais intensamente nos anos setenta e se cimentaram, decisivamente, na década seguinte. No entanto, essa aposta atual não se tem limitado ao replicar do que era feito nessa altura e em ambos os lados do oceano atlântico; Os Cassettes On Tape são mais uma banda que aposta nessa simbiose de legados deixados por nomes como Ian Curtis ou Robert Plant, não descurando a habitual cadência proporcionada pela tríade baixo, guitarra e bateria e uma outra tendência mais virada para a psicadelia, da qual, na minha opinião, os The Horrors e os TOY são, atualmente, os expoentes máximos. Só para citar alguns exemplos, o fuzz da guitarra de Please Please Let Me Go, o sintetizador do tema homónimo e a busca de uma melodia de cariz eminentemente épico nessas canções, remetem-nos, quase automaticamente, para o universo algo sujo e rugoso, mas indisfarçadamente melancólico, idealizado por Faris Badwan, uma receita assertiva que se repete, quase transversalmente, no alinhamento deste trabalho, com particular ênfase em Ocean, canção que prima por um sofisticado bom gosto melódico, com forte impressão oitocentista e uma amostra clara do modo como este quarteto dá uma elevada primazia aos detalhes, com as teclas e alguns arranjos sintéticos a surgirem com insistência no edifício das canções, mas sempre agregados à guitarra e a belíssimos efeitos, com um forte cariz etéreo.

Assim, apesar da importância dos teclados, é nessas guitarras carregadas de reverb e distorção e na voz grave de Joe Kozak que assenta a base melódica das canções de Anywhere, os dois aspetos vitais para a assunção do prisma identitário sonoro deste grupo de Chicago. É um disco onde se escutam canções particularmente hipnóticas e com uma dimensão espacial, balizadas por um fino recorte de sensibilidade e uma sobriedade sentimental contínua. Enquanto existe um apelo sincero em Arms Are Shaking que testa a nossa capacidade de resistência à lágrima fácil, com vitórias e derrotas para ambos os lados, já o baixo de Don't Want to be Your Friend equilibra um pouco as contas, emergindo-nos numa faceta mais sombria e reflexiva, para, pouco depois, Orphan Boy, uma das minhas canções preferidas deste disco, oferecer-nos um verdadeiro e indispensável tratado de indie rock que justifica imensas loas a este alinhamento, uma canção que não fica a dever nada aos melhores intérpretes atuais deste género musical.

Os Cassettes On Tape escrevem com a mira bem apontada ao nosso âmago, plasmando sonoramente sensações positivas, provocadas por um processo de criação sonora que, no caso deste grupo, deverá ser um momento reconfortante de incubação melódica, também um dos ingredientes indispensáveis para que comecemos a olhar para este coletivo com um olhar mais dedicado. Esta é uma banda extremamente criativa, atual, inspirada e inspiradora e que sabe como agradar aos fãs e Anywhere um excelente cartão de visita e uma ótima estreia, não havendo qualquer tipo de desculpas para que os apreciadores não os possam conhecer e ouvir. Espero que aprecies a sugestão...

Cassettes On Tape - Anywhere

01. Anywhere
02. Ocean
03. Arms Are Shaking
04. Don’t Want To Be Your Friend
05. Liquid Television
06. Modern Love
07. Orphan Boy
08. Please Please Let Me Go
09. Diamonds
10. Shattered


autor stipe07 às 17:52
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016

Wilco - Schmilco

Pouco mais de um ano após Star Wars, os míticos Wilco de Jeff Tweedy, estão de regresso aos discos com Schmilco, mais uma notável coleção de canções oferecida por esta banda de Chicago, que com o passar dos anos não abranda, parece não ser atingida pelas normais crises de writer's block e parecendo, claramente, ser cada vez mais criativa e refinada no modo como alia o seu adn às tendências mais contemporâneas da folk e do rock alternativo.

Resultado de imagem para wilco 2016

Se Star Wars continha canções impregnadas com um excelente rock alternativo, onde abundavam composições ligados à corrente, efeitos indutores e guitarras cheias de fuzz, oferecendo ao ouvinte um clima marcadamente progressivo e rugoso, alicerçado num garage rock, ruidoso e monumental, Schmilco vira um pouco as agulhas para o experimentalismo folk, num disco conduzido por cordas mais acústicas e um minimalismo lo fi, aspectos que também não são estranhos ao percurso discográfico do projeto, mas que estavam um pouco alheados da sonoridade dos Wilco nos mais recentes trabalhos discográficos.

Schmilco contém uma atmosfera bucólica e encantatória, mas intrigante, sendo um álbum que à primeira audição poderá parecer algo uniforme e homogéneo, mas que, devidamente desconstruído, é diversificado, sem perder coerência e unidade. Assim, se Normal American Kids abre o alinhamento num universo mais recatado, através de uma folk intimista, nostálgica e contemplativa e que tem nas cordas da viola a principal arma de arremesso, mas onde também não falta um feito de fundo eletrificado indispensável para o clima sedutor e soturno do tema, já a bateria e o baixo da preguiçosa Lose e da intrigante Someone To Lose, aproximam os Wilco de uma psicadelia blues de superior filigrana, que se escuta com aquela intensidade que fisicamente não deixa a anca indiferente. Depois, temas como a encantadora If I Ever Was A Child ou a radiofónica We Aren't The World (Safety Girl) piscam o olho aquela pop sessentista luminosa e colorida, tipicamente Beach Boys, com o fuzz cru de Locator e a confessional Cry All Day a exalarem um balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, mas sem nunca descurarem aquela particularidade fortemente melódica que costuma definir as composições do grupo.

Disco que se destaca pelo habitual entusiasmo lírico e por um prolífero e desafiante incómodo contínuo, que neste caso se saúda com inegável deleite, Schmilco mantém firme o traço de honestidade de uma banda que quer continuar a ser protagonista no universo sonoro em que se move. É um trabalho que desafia o nosso lado mais sombrio e os nossos maiores fantasmas, no convite que nos endereça à consciência do estado atual do nosso lado mais carnal e no desarme total que torna inerte o lado mais humano do nosso peito, nem sempre devidamente realista e racional. Com a temática das canções a expôr as habituais angústias da sociedade de hoje profundamente tecnológica e a dependência da contínua revolução que vivemos, Jeff Tweedy avisa-nos que não se pode deixar de vivenciar sentimentos e emoções reais, de preferência com a crueza e a profundidade simultaneamente vigorosas e profundas que merecem. Espero que aprecies a sugestão...

Wilco - Schmilco

01. Normal American Kids
02. If I Ever Was A Child
03. Cry All Day
04. Common Sense
05. Nope
06. Someone To Lose
07. Happiness
08. Quarters
09. Locator
10. Shrug And Destroy
11. We Aren’t The World (Safety Girl)
12. Just Say Goodbye


autor stipe07 às 12:37
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Segunda-feira, 18 de Julho de 2016

Wilco - Locator

Wilco - Locator

Exatamente um ano após a surpreendente edição do excelente Star Wars, os norte americanos Wilco de Jeff Tweedy, ofereceram uma nova canção, de modo a celebrar a efeméride. Disponível aqui em troca do teu endereço de email, Locator teria cabido no alinhamento de Star Wars, pela excelência de um folk noise algo cru e minimal e que contém aquele balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, sem nunca descurar a particularidade fortemente melódica que costuma definir as composições desta banda de Chicago. Confere...


autor stipe07 às 18:54
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016

Cross Record – Wabi-Sabi

Emily Cross e Dan Duszynski são o casal de esposos que estende o manto em redor de Cross Record, um projeto que gravou o seu disco de estreia, intitulado Wabi-Sabi, num rancho de dezoito hectares, chamado Moon Phase, arrendado por ambos, perto de uma reserva de aves, em Dripping Springs, a trinta minutos de Austin, em pleno Texas, para onde se mudaram da metrópole Chicago. E a verdade é que este álbum soa a um disco incubado, concebido e gravado num rancho, tal é a força e a dimensão de um alinhamento de canções que plasma, com particular minúcia, uma simbiose feliz entre a naturalidade e a pureza que se observa no contraste do cinza e do laranja que dominou os céus durante a sua gravação, porque sucedeu, quase sempre, nas fases iniciais e finais dos dias e o ruído e o rigor estrutural de uma grande cidade. Steady Waves, o grandioso single já retirado de Wabi-Sabi, demonstra esta junção na simplicidade das cordas da viola e a imponência da distorção da guitarra de High Rise amplifica-a, só para citar dois exemplos que sustentam o universo fortemente cinematográfico e imersivo destes Cross Record, exímios a dar asas às emoções que exalam desde as profundezas do refúgio bucólico onde agora residem e que, pelos vistos, os inspira de modo particularmente sensorial.

Tendo visto a luz do dia abrigado pela sempre recomendável Ba Da Bing Records, Wabi-Sabi impressiona, portanto, pela dinâmica fortemente ambiental, como se percebe dede logo nas várias camadas de efeitos e sopros sintetizados de The Curtains Part, canção que lança o disco numa espiral emotiva e onde tudo é quase sempre filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso.

Depois dos dois temas acima referidos, ficamos logo esclarecidos que, partindo do princípio que aceitamos uma audição atenta e dedicada deste disco, somos naturalmente convocados para uma viagem que nos conduz a diferentes universos sonoros, sempre na óptica da tal relação simbiótica bastante sedutora e que, sonoramente, se firma entre indie rock, punk e post rock, por um lado e folk e dream pop, por outro. E logo a seguir, a indisfarçável toada folk de de Something Unseen Touches A Flower To My Fore, que nem o pedal de uma guitarra e os tambores disfarçam, proporciona-nos um momento de rara frescura e pureza sonora, com o charme lo fi dos ruídos de fundo por baixo das cordas de The Depths, pouco depois, a fazerem-nos levitar rumo a uma nuvem repleta de sensações fortemente nostálgicas e contemplativas, enquanto atestam o feliz encontro entre sonoridades que surgiram há décadas e se foram aperfeiçoando ao longo do tempo e ditando regras que hoje consagram algumas tendências sonoras mais atuais, onde muitas vezes o minimalismo se confunde com aquilo que é esculpido e complexo, sendo ténue a fronteira entre ambos e real um claro encadeamento entre dois pólos aparentemente opostos e que nos obrigam a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador.

Até ao final deste trabalho absolutamente maravilhoso, em Basket ouve-se estranheza, ouve-se escuridão. Mas também se ouve harmonias de vozes de outro planeta. E logo depois, em Wasp In A Jar, há sensualidade em jeito de lamúria ou desabafo e a certeza que ouvir Wabi-Sabi é uma experiência diferente e revigorante e a oportunidade de contatar com um conjunto de canções que transbordam uma aúrea algo mística e espiritual, reproduzidas por um grupo que sabe como o fazer de forma direta, pura e bastante original. Espero que aprecies a sugestão...

Cross Record - Wabi Sabi

01. The Curtains Part
02. Two Rings
03. Steady Waves
04. High Rise
05. Something Unseen Touches A Flower To My Forehead
06. The Depths
07. Basket
08. Wasp In A Jar
09. Lemon


autor stipe07 às 20:40
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon... (1)
Sábado, 14 de Novembro de 2015

Sufjan Stevens – Exploding Whale

Sufjan Stevens - Exploding Whale

Sem estar ainda refeito do forte impacto que Carrie And Lowell, o último registo de originais do norte americano Sufjan Stevens teve por este lado, acaba de chegar à redação deste blogue Exploding Whale, um tema inédito do autor, editado este ano em formato single de sete polegadas e que amplia o retorno do músico a sonoridades mais intimistas, nostálgicas e contemplativas, mas agora com a eletrónica em pano de fundo, numa canção dominada por sintetizadores e outros detalhes sintéticos que, pelo modo como se encaixam na melodia e em alguns dedilhares de cordas, dão um certo charme e brilho à moldura sonora estética de uma composição que é uma verdadeira jóia, em todos os sentidos. Confere...


autor stipe07 às 21:44
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 11 de Setembro de 2015

Widowspeak - All Yours

Molly Hamilton & Robert Earl Thomas são os Widowspeak, dois músicos com raízes em Tacoma e Chicago, mas atualmente sedeados em Brooklyn, Nova Iorque. Depois de vários singles lançados no início da presente década e disponíveis no bandcamp da banda e do disco homónimo de estreia, editado em 2011, chegou, em 2013, Almanac, sendo o sucessor desse disco All Yours, um trabalho que viu a luz do dia a quatro de setembro através da Captured Tracks.

Quando iniciaram carreira os Widowspeak andavam algures entre a pop de finais dos anos oitenta e não restam dúvidas que é nas construções musicais lançadas há cerca de três décadas que se inspiram, mas sem deixarem de lado sonoridades mais contemporâneas e renovadas. All Yours, o novo registo discográfico da duplaé mais um avanço porque, apesar de ainda próximos das mesmas experiências consolidadas nos últimos anos, deixaram de lado as massas elétricas de distorção para viajar no tempo, interagir com maior acerto com a folk e acomodar de forma mais inteligente a tal pop de finais dos anos oitenta, com detalhes sonoros que nos remetem a décadas anteriores. No fundo, sem descurarem a bitola que os orienta, tornaram-se mais abrangentes.

A dream pop e os acertos típicos do rock alternativo de cariz mais urbano ditam as regras em All Yours, tema homónimo deste novo disco dos Widowspeak e canção com um forte cariz bucólico. A presença das guitarras, logo desde o início, ajuda a canção a assumir uma representação curiosa e bem estruturada de tudo o que marca o atual momento desta dupla nova iorquina; Enquanto a voz de Hamilton, bastante orgânica, representa a busca do campestre, as cordas tocadas por Thomas fazem a ponte com o passado da dupla e a verdade é que essa canção acaba por ter uma importância fulcral para a compreensão de um disco que, logo a seguir, no auge contemplativo de Narrows, convida a nossa mente e o nosso espírito a se deixarem envolver por uma proposta estética assente num clima abstrato e meditativo, presente em praticamente todo o trabalho, com um impacto verdadeiramente colossal e marcante.

A dupla confessou recentemente que depois de nos dois trabalhos anteriroes se terem preocupado demasiado com o que os outros poderiam pensar da sua escrita, resolveram agora deixarem-se levar pelo instinto, tendo, de certa forma, reaprendido a compor. De facto, não faltam neste álbum belíssimas letras entrelaçadas com deliciosos acordes, em melodias minuciosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, mas onde a guitarra de Robert dita as principais regras, com as cordas a deixarem-se envolver numa melancolia épica algo inocente, mas com uma tonalidade muito vincada e que sopra na nossa mente de modo a fazer o nosso espírito facilmente levitar, algo que provoca um cocktail delicioso de boas sensações. Em canções como Dead Love (So Still), ou Cosmically Aligned, só para citar dois exemplos opostos mas que entroncam numa mesma filosofia, fica claro que a pop experimental dos Widowspeak está cada vez mais elaborada e charmosa, com o fuzz de guitarra na primeira, ou os devaneios do mesmo instrumento na segunda, a marcarem o traço melódico dos temas e tornando-se detalhes marcantes de uma notória evolução, onde o eletrificado assume dimensões díspares sem defraudar, quer numa que noutra canção, o ambiente contemplativo e emotivo fortemente consistente. O próprio efeito desse instrumento em Girls, juntamente com a harmónica e a bateria, além de consolidar essa impressão concetual, sendo balizada pela doçura da voz de Molly, mostra o modo exímio como a dupla consegue que as texturas e as atmosferas que criam, transitem, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquieta todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual.

Com uma sobriedade e um polimento que, neste caso, se saúdam, os Widowspeak já não conseguem escapar de uma maior aproximação ao grande público devido ao conteúdo de All Yours, mais acessível do que os trabalhos anteriores. Neste caso concreto, a banda sai airosamente desse risco já que a nova proposta instrumental e lírica que revelam vai de encontro ao movimento atual que resgata de forma renovada as principais marcas e particularidades sonoras de décadas anteriores. Por exemplo, temas como Stoned e My Baby’s Gonna Carry On, representam com beleza e qualidade toda essa transformação e, nesta espécie de recomeço, é audível que este projeto encontrou um plano qualitativo superior. Espero que aprecies a sugestão...

Widowspeak - All Yours

01. All Yours
02. Narrows
03. Dead Love (So Still)
04. Stoned
05. Girls
06. Borrowed World
07. Cosmically Aligned
08. My Baby’s Gonna Carry On
09. Coke Bottle Green
10. Hands


autor stipe07 às 22:28
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...
Sexta-feira, 17 de Julho de 2015

Wilco - Star Wars

Os míticos Wilco divulgaram ontem, sem aviso prévio, o sucessor de The Whole Love (2011), o último registo de originais desta banda de Chicago. O novo álbum do grupo de Jeff Tweedy chama-se Star Wars, contem onze canções impregnadas com um excelente rock alternativo e está disponivel, gratuitamente, na página oficial do grupo.

O clichet curioso que encarna o título do novo álbum dos Wilco não passa despercebido, até porque está na ordem do dia a estreia do sétimo episódio da mais famosa saga da indústira cinematográfica, lá para o final do ano, com o mesmo nome. Seja como for, Jeff Tweedy deve ter-se sentido invadido pelo lado bom da força para oferecer a todos os seus fãs, de um modo completamente inesperado, um trabalho que, como seria de esperar, fala de paixão e de amor, como os melhores psicoativos sentimentais que podemos usar, mas também de estrelas e até, se quisermos, de sabres de luz, viagens intergaláticas e planetas distantes habitados pelos mais estranhos seres, já que a musica dos Wilco sempre teve a capacidade de nos fazer divagar ao som de composições bastante sugestivas e esse espírito mantém-se intacto.

Claramente ligados à corrente logo desde o instrumental EKG, os efeitos indutores de More... e o fuzz das guitarras de Random Name Nenerator, os Wilco marcam, à partida, uma posição forte no que concerne à filosofia sonora de Star Wars, oferecendo ao ouvinte quase tudo aquilo que o espera, canções dominadas por guitarras a exibirem linhas e timbres com um clima marcadamente progressivo e rugoso, alicerçado num garage rock, ruidoso e monumental. Não é inédito neste grupo de Chicago tal opção por um som mais cru e ruidoso, que em Cold Slope também mostra todos os atributos, mas é curioso e nobre quererem, nesta fase da carreira, ampliar essa faceta roqueira de uma banda que também se costuma mover confortavelmente por territórios mais acústicos. Em Star Wars, a doce balada pop Taste The Ceiling e o esplendor minimalista de Where Do I Begin são exemplos felizes do lado mais sensível e emotivo do grupo, mas o que realmente sobressai durante a audição integral do trabalho é a perceção clara que os Wilco optaram por ligar a sua faceta experimental a pleno gás, obtendo um balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, mas sem nunca descurar aquela particularidade fortemente melódica que costuma definir as suas composições.

Os quase quatro minutos da já citada Random Name Generator, canção que se sustenta num arranjo de cordas alto e um riff de guitarra bastante elétrico, a fazer lembrar alguns dos melhores instantes de A Ghost Is Born, são a expressão máxima, em Star Wars, da boa forma do grupo e da capacidade que os Wilco ainda têm de se mostrar altivos, joviais, vibrante e contemporâneos. E mesmo quando em The Joke Explained nos fazem recuar umas quatro décadas até aos primórdios do rock clássico, em Pickled Ginger nos abanam com a sensibilidade do efeito metálico abrasivo de uma guitarra que corta fino e rebarba, ou em You Satellite nos oferecem um clima mais negro e soturno, os Wilco deslumbram pelo à vontade com que também navegam nos meandros intrincados e sinuosos do indie rock mais progressivo e psicadélico..

A leveza contínua, o entusiasmo lírico, a atmosfera amável, apesar do fuzz constante e o clima geral luminoso, enérgico e algo frenético de Star Wars, são os principais indicadores de um disco que flui bem, não só porque tem um conjunto de belíssimas canções, que nos oferecem camadas sofisticadas de arranjos criativos e bonitos, mas também porque é um álbum que mantém firme o traço de honestidade de uma banda que quer continuar a ser protagonista no universo sonoro em que se move, trazendo de volta os Wilco arrebatadores, que The Whole Love tinha, de algum modo, silenciado. Espero que aprecies a sugestão...

wilco-star-wars-cover-900x506.jpg

01. EKG
02. More…
03. Random Name Generator
04. The Joke Explained
05. You Satellite
06. Taste The Ceiling
07. Pickled Ginger
08. Where Do I Begin
09. Cold Slope
10. King Of You
11. Magnetized

 


autor stipe07 às 11:50
link do post | comenta / bad talk | The Best Of... Man On The Moon...

eu...


more about...

Follow me...

. 50 seguidores

Powered by...

stipe07

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Parceria - Portal FB Headliner

Facebook

Man On The Moon - Paivense FM (99.5)

Em escuta...

Twitter

Twitter

Blogs Portugal

Bloglovin

Junho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10

20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


posts recentes

The Sea And Cake – Any Da...

In Tall Buildings – Akine...

Sufjan Stevens – Tonya Ha...

Cassettes On Tape – Anywh...

Wilco - Schmilco

Wilco - Locator

Cross Record – Wabi-Sabi

Sufjan Stevens – Explodin...

Widowspeak - All Yours

Wilco - Star Wars

Widowspeak - All Yours

In Tall Buildings - Drive...

Wilco - Alpha Mike Foxtro...

Ghastly Menace - Songs of...

In Tall Buildings – Unmis...

Wilco – What’s Your 20? E...

The Smashing Pumpkins – M...

Ghastly Menace - Closing

In Tall Buildings - Flare...

Secret Colours - Positive...

X-Files

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

todas as tags

take a look...

I Love...

Os melhores discos de 201...

Astronauts - Civil Engine...

SAPO Blogs

subscrever feeds