
01. Crimson Tide
02. Kinda Dark
03. It Just Doesn’t Happen
04. The Television Music Supervisor
05. The Raven
06. Cue Synthesizer
07. University Hill
08. Have We Met
09. The Man In Black’s Blues
10. Foolssong
Foi há já quase uma década, em 2011, com Nevers e um ano depois com um EP intitulado S/T, que o projeto Indoor Voices de Jonathan Relph, chamou a atenção da crítica com um naipe de canções iluminadas por uma fragilidade incrivelmente sedutora, que tiveram sequência há cerca de quatro anos com um outro EP, intitulado Auratic, que viu sucessor o ano passado, um registo de oito canções intitulado Gaslight Ephemera, que contou com as participações especiais vocais de Sandra Vu em Breathe, Barely, Kate Rogers em I'm Sorry, Maja Thunberg em Punch Me in the Face, Always the Same e Shit World e ainda Alisha Erao em You're My. Agora, cerca de um ano depois dess registo, os Indoor Voices já têm um novo disco intitulado Animal, um alinhamento de dez composições masterizado por Simon Scott (Slowdive) e disponível no bandcamp do projeto.

À semelhança da anterior discografia criada por Jonathan Relph, Animal flui, como se percebe logo em He Won't Fight, algures entre um aditivo intimismo e uma indisfarçável epicidade de forte cariz lo fi, carateristicas marcantes do adn de um projeto que tem como principais permissas uma elevada fluidez nas guitarras, sempre acompanhadas por um baixo vigoroso, uma bateria encorpada e uma vasta miríade de entalhes sintéticos, um cardápio sonoro que sustenta a dinâmica natural de temas que não receiam assumir uma faceta algo negra e obscura, para criar um cenário musical implicitamente rock, que em Less Problems Of Joy toca nas bordas do krautrock e em No One, num espetro mais punk, tudo esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.
Este desígnio é logo audível, como referi, no primeiro tema do registo, um enleante instrumental, mas também na intrigante atmosfera nublosa do tema homónimo e burilado com louvável sensibilidade no clima etéreo de Better, uma composição de forte cariz orquestral, onde deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, carregam uma sobriedade sentimental esplendorosa e única. Depois, o clima mais progressivo de Heart é outro exemplo feliz do modo como nestes Indoor Voices conseguem, através do sintetizador, uma simbiose entre shoegaze e post rock, sensação amplificada com superior requinte na cosmicidade pop de I'm Just Fine e feita, neste caso, sem excesso de ruído ou de modo demasiado experimental, apesar do cariz pouco imediato e radiofónico não só desta, mas também das restantes composições do registo.
Na verdade, todos os temas de Animal têm uma toada eminentemente tranquila e algo de épico e sedutor. Há uma sonoridade muito implícita em relação à herança da melhor pop dos anos setenta e oitenta e destacam-se os belos instantes sonoros em que a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, criando uma atmosfera geral contemplativa e que atinge um elevado pico de magnificiência em Always All Ways, o meu destaque maior do trabalho, uma sinuosa e eloquente canção, difícil de desbravar, mas tremendamente narcótica.
Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto cada vez mais sedutor e de um Jonathan Relph cada vez mais sábio e abrangente, Animal exala o contínuo processo de transformação de uns Indoor Voices que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...

01. He Won’t Fight
02. Better
03. I’m Just Fine
04. Heart
05. Wrong Wrong Wrong
06. Always All Ways
07. They Hang Around
08. Animal
09. Less Problems Of Joy
10. No One
Os canadianos Elephant Stone são uma banda de Montreal, no Canadá, liderada por Rishi Dhir, baixista e um dos tocadores de cítara mais importantes do cenário musical psicadélico atual. Andam por cá desde dois mil e nove e nesse ano editaram The Seven Seas, o disco de estreia. Logo aí, deram início à busca, quase obsessiva, pela canção pop perfeita. O seu conteúdo acabou por chamar a atenção da crítica e o álbum foi nomeado para os Polaris Music Prize desse ano. A seguir surgiu mais um EP, The Glass Box EP, num período em que Dhir também andou na digressão de dois mil e onze dos The Brian Jonestown Massacre. Depois, no início de dois mil e treze, chega o segundo álbum, um homónimo lançado pela Hidden Pony Records, quase três anos, em dois mil e dezasseis, vê a luz dia Ship Of Fools e agora, no dealbar de dois mil e vinte, chega aos escaparates Hollow, o novo registo de originais deste grupo que se destaca por uma tonalidade psicadélica única e pouco vulgar no modo como se cruza com alguns dos melhores detalhes do indie rock.

Hollow, o sexto disco dos Elephant Stone, é, antes de mais, um assumir preciso das verdadeiras motivações de Dhir relativamente ao projeto, já que ele é o cérebro dominante na conceção deste trabalho. De facto, nunca um disco dos Elephant Stone dependeu tanto da criatividade e da criação do mentor de um projeto inspirado na música dos Stone Roses com o mesmo nome e numa estátua do deus hindu Ganesh que o próprio Rishi Dhir possui e que o leva a referi que a sua banda tem uma sonoridade hindie rock
Olhando então para o disco, Hollow é um álbum ambicioso e distópico, um compêndio que olha com gula para o universo sci-fi e que, segundo Dhir, é fortemente inspirado nos The Who e no White Album dos Beatles, bandas e registos que, segundo o músico, criavam canções para pessoas infelizes que procuravam encontrar uma saída nas canções, o significado da vida e algo em que acreditar ... ou nada em que acreditar. Assim, Dhir, com isso em mente, começou a escrever um conjunto de canções que relata um mundo de almas infelizes que perderam a conexão entre si, uma história contada pela alquimia psíquica dos Elephant Stone e que ocorre imediatamente após a destruição catastrófica da Terra pela humanidade e o que acontece quando a mesma elite responsável pelo desastre climático que destruiu o mundo aterrou na Nova Terra, um planeta recém-descoberto vendido com a mesma vida de prosperidade que o que eles acabaram de destruir. Assim que os poucos escolhidos abandonam a nave Harmonia e começam a colonizar o novo planeta, fica claro que a humanidade parece destinada a cometer os mesmos erros, replicando-os no novo lar.
Tendo esta trama como pano de fundo, Hollow dá vida e cor a esta sequência de eventos, à boleia de uma sequência de canções abastecidas por guitarras planantes e faustosas, repletas de efeitos em eco, teclados cósmicos, riffs empolgantes e distorções inebriantes, que criam melodia incisivas, com um elevado grau de epicidade e esplendor e que replicam com ímpar contemporaneidade a melhor herança do rock progressivo e do shoegaze setentista, sempre com um indesmentível travo pop, detalhe bem patente logo em Hollow World. Depois, a cítara que vagueira pela etérea Harmonia e que introduz a rugosa e impulsiva Land Of Dead, a luminosidade do timbre metálico das cordas que conduzem We Cry For Harmonia e a tal quase tão desejada perfeição pop que exala dos tambores e dos teclados de I See You, são nuances que neste Hollow conferem o habitual grau de exotismo dos Elephant Stone, que criaram mais um verdadeiro maná de revivalismo psicadélico. Espero que aprecies a sugestão...

01. Hollow World
02. Darker Time, Darker Space
03. The Court and Jury
04. Land Of Dead
05. Keep The Light Alive
06. We Cry For Harmonia
07. Harmonia
08. I See You
09. The Clampdown
10. Fox On The Run
11. House On Fire
12. A Way Home
Abrigado pela insuspeita Merge Records, Have We Met é o décimo terceiro e novo registo discográfico dos canadianos Destroyer de Dan Bejar, um músico que também está escalado na formação dos The New Pornographers e que não gostando de lutar contra o tempo e não aprecia estipular prazos, prefere que a música escorra na sua mente e depois nas partituras e nos instrumentos de modo fluído, no devido timing e com a pressa que merece, sempre com uma tonalidade algum cinzenta e agreste e eminentemente reflexiva.

Fortemente influenciado pela banda-sonora de filmes dos anos oitenta, como O Sol da Meia-Noite (1985) e A Garota de Rosa Shocking (1986), produzido pelo carismático John Collins (The New Pornographers, Tegan and Sara) e sucessor do excelente Ken, editado há pouco mais de três anos, Have We Met é um disco algo intrincado, mas bastante sedutor, um dobrar de esquina consistente e apurado, mesmo sendo o trabalho recente dos Destroyer que mais se aproxima da herança atmosférica da obra-prima Kaputt (2011). Tal sucede porque é feito por um grupo que também já habituou os seus fãs a um espetro rock onde não faltavam de guitarras distorcidas e riffs vigorosos, mas que opta agora, e mais do que nunca, num claro sinal de maturidade e de pujança criativa, por compôr composições que olham de modo mais anguloso para a eletrónica e para ambientes eminentemente clássicos, fazendo-o com superior apuro melódico. São, portanto, composições conduzidas por uma ímpar diversidade instrumental, com o modo como as teclas do piano são enormes protagonistas, a meias com a guitarra maravilha de Nicolas Bragg, a serem dis trunfos maiores deste modus operandi com elevado charme quilate.
De facto, quando Bejar e Collins começaram a fermentar artesanalmente o conteúdo de Have We Met, em sessões noturnas de captação e gravação na própria cozinha de Bejar, a ideia inicial era desenvolver um conjunto de demos bastante inspiradas em alguma da melhor herança de nomes como Björk, Air, ou Massive Attack, captadas durante as sessões de gravação do próprio Kaput e do registo Poison Season, de dois mil e quinze. No entanto, depressa perceberam que seguir tal permissa seria distanciar-se demasiado do adn dos Destroyer e, felizmente, optaram por uma espécie de simbiose do melhor desses dois mundos. O resultado final, bastante burilado e tremendamente bem conseguido, proporciona-nos um clima eminentemente sofisticado, claramente clássico e moderno, um disco intenso e que joga com diferentes nuances sonoras sempre com um espírito aberto ao saudosismo e à relevância inventiva.
Canções como a fluída e magnânima Crimson Tide, o abundante jogo de sobreposições que edifica Kinda Dark, a delirante cândura celestial em que levitam os sons fantasmnagóricos de The Television Music Supervisor, um tema sobre as inquietações de alguém que está prestes a morrer, o clima retro eminentemente oitocentista que sustenta The Raven, o picotar melódico a que sabe Cue Synthesizer e o mistério lírico que se entranha nas diferentes camadas sintéticas de Foolsong, além de também piscarem o olho a latitudes sonoras mais consentâneas com as tendências atuais do espetro sonoro em que os Destroyer se movimentam, enriquecem tremendamente o cardápio sonoro do projeto e elevam-no a um novo estatuto, como banda fundamental do indie rock alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

01. Crimson Tide
02. Kinda Dark
03. It Just Doesn’t Happen
04. The Television Music Supervisor
05. The Raven
06. Cue Synthesizer
07. University Hill
08. Have We Met
09. The Man In Black’s Blues
10. Foolssong

Os canadianos Elephant Stone são uma banda de Montreal, no Canadá, liderada por Rishi Dhir, baixista e um dos tocadores de cítara mais importantes do cenário musical psicadélico atual. Andam por cá desde 2009 e nesse ano editaram The Seven Seas, o disco de estreia e, logo aí, deram início à busca, quase obsessiva, pela canção pop perfeita. O seu conteúdo acabou por chamar a atenção da crítica e o álbum foi nomeado para os Polaris Music Prize desse ano. A seguir surgiu mais um EP, The Glass Box EP, num período em que Dhir também andou na digressão de dois mil e onze dos The Brian Jonestown Massacre. Depois, no início de dois mil e treze, chega o segundo álbum, um homónimo lançado pela Hidden Pony Records, quase três anos, em dois mil e dezasseis, vê a luz dia Ship Of Fools e agora, no dealbar de dois mil e vinte, é-nos anunciado Hollow, o próximo registo de originais deste grupo que se destaca por uma tonalidade psicadélica única e pouco vulgar no modo como se cruza com alguns dos melhores detalhes do indie rock.
Hollow chegará aos escaparates a catorze de fevereiro e Keep The Light Alive é o primeiro single divulgado do alinhamento desse registo, uma composição com um ritmo vibrante, assente em faustosas guitarras que criam uma melodia incisiva, com um elevado grau de epicidade e esplendor. Confere...
Os The New Pornographers de Kathryn Calder, Neko Case, John Collins, Todd Fancey, Carl Newman, Joe Seiders, Blaine Thurier e Simi Stone, já têm sucessor para o excelente Whiteout Conditions de dois mil e dezassete. In The Morse Code Of Brake Lights é o oitavo registo da carreira do coletivo canadiano e tem onze canções que mantêm o habitual indie pop rock inspirado do grupo, produzidas pelo próprio Carl Newman, membro da banda e patrocinadas pela Concord Records.

A primeira coisa que me apraz dizer depois de ter escutado este disco é que In The Morse Code Of Brake Lights, um registo incubado, em grande parte, da mente de Neko Case, é luz em forma de música, um disco cheio de brilho e cor em movimento, uma obra com um alinhamento alegre e festivo e que parece querer exaltar, acima de tudo, o lado bom da existência humana. Registo mais grandioso que o antecessor, algo logo audível na presença de uma orquestra durante a gravação do registo e com uma maior ênfase nas cordas, nele tanto podemos saborear alguns dos melhores tiques da pop contemporânea, nomeadamente no clima cósmico oferecido por The Surprise Knock, como a melhor herança do rock clássico e intemporal em Falling Down The Stairs Of Your Smile, uma canção em que não se deixa, em nenhum instante, de ter vontade de pular e de querer desertar para uma espécie de universo paralelo que o tema sugere, feito com aquela felicidade incontrolável e contagiante que todos nós procuramos e que, nesta composição, tanto surgem na impulsividade do baixo e nas notas mais delicadas do piano e na cosmicidade dos sintetizadores, mas também quando elas estão presentes de um modo particularmente explosivo, nas guitarras, assim como nas vozes de Newman e Case, que se alternam e se sobrepôem em camadas, à medida que estes e outros instrumentos fluem naturalmente, sem se acomodarem ao ponto de se sufocarem entre si, naquilo a que é usual chamar-se de som de banda.
A partir daí, na leveza dos sopros e da voila que alimentam Opening Ceremony, no clima eminentemente classicista de Colossus Of Rhodes, uma composição em que o baixo é quem dita as regras na condução melódica, no inconfundível charme que os violinos e os detalhes sintetizados repletos de metais conferem à agridoce Higher Beams, ou no charme de um piano pleno de vigor e de soul que suporta toda uma trama orquestral complexa, arritmada, mas vigorante, em Need Some Giants, sentimo-nos preenchidos e sorrimos ao som de um disco cheio de notas e movimentos sinuosos, uma espécie de caldeirão sonoro feito por um elenco de extraordinários músicos e artistas, que sabem melhor do que ninguém como recortar, picotar e colar o que de melhor existe neste universo sonoro ao qual dão vida e que deve estar sempre pronto para projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte, assentes num misto de power pop psicadélica e rock progressivo. Espero que aprecies a sugestão...

01. You’ll Need A Backseat Driver
02. The Surprise Knock
03. Falling Down The Stairs Of Your Smile
04. Colossus Of Rhodes
05. Higher Beams
06. Dreamlike And On The Rush
07. You Won’t Need Those Where You’re Going
08. Need Some Giants
09. Opening Ceremony
10. One Kind Of Solomon
11. Leather On The Seat
Montréal, no Canadá, é o poiso dos The High Dials, banda com uma década de carreira e de regresso aos discos em dois mil dezanove com Primitive Feelings, um longa duração com lançamento em formato vinil previsto para muito em breve. Entretanto alinhamento desse álbum físico já começou a ser antecipado digitalmente com dois eps, tendo o primeiro, com oito composições, provavelmente o lado a dessa edição, visto a luz do dia no final da passada primavera e o segundo, o lado b da edição, a revelar-se por estes dias, permitindo-nos contemplar finalmente, na íntegra, um dos melhores discos de dois mil e dezanove.
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Primitive Feelings é o sexto registo de originais dos The High Dials e, pelo que se percebe, quer da primeira metade revelada, quer das seis canções que também podemos agora contmeplar, é um disco repleto de texturas sonoras que privilegiam um punk rock algo sujo e lo fi, mas onde também não faltam texturas eletrónicas particularmente pulsantes e contemporâneas e com um elevado groove e um espírito shoegaze, nuances que se saúdam num projeto particularmente inovador e reputado na esfera indie canadiana.
O fabuloso baixo vibrante e o reverb ecoante que sustentam Fear Of Heights, sendo já uma imagem de marca desta banda, também claramente influenciada pela melhor herança da indie psicadélica britânica forjada em terras de Sua Majestade no último meio século, é um prometedor ponto de partida para um alinhamento com uma ímpar índole psicotrópica, capaz de enlear os nossos sentidos e nos deixar em completa letargia. Depois, a batida incisiva e os riffs incendiários que dão robustez à impetuosa My Dream Addiction, um dos destaques maior destas seis canções, a vibe cósmica proporcionada pelos sintetizadores que fazem gravitar Co-Stars, a presença de alguns dos arquétipos típicos da pop e do punk dos anos oitenta em Cold Shoulder, a graciosidade pop de Work Of Fiction e, por fim, a soul contemplativa que exala de Rays Of Shade, ampliam o efeito soporífero desta segunda amostra de um trabalho que, no seu todo, tem tudo para potenciar a fama destes The High Dials, não só devido à bitola qualitativa e criativa desse novo capítulo de um catálogo discográfico que é já riquissímo, mas também por causa da superior capacidade que têm de fazer o nosso espírito facilmente levitar e provocar no âmago de quem os escuta devotamente um cocktail delicioso de boas sensações. Espero que aprecies a sugestão...

01. Fear Of Heights
02. My Dream Addiction
03. Co-Stars
04. Cold Shoulder
05. Work Of Fiction
06. Rays Of Shade
Sedeados em Toronto, os Wildlife têm vindo a captar desde o início desta década a atenção da crítica e de uma cada vez mais vasta legião de fãs, quer no Canadá, quer nos Estados Unidos, devido a um já interessante catálogo de propostas sonoras que gravitam em torno de um indie rock bastante inspirado e atual e que o projeto replica de modo efusiante. Tal também sucede, pelos vistos, nas prestações ao vivo da banda, sempre bastante dramáticas enérgicas e já emblemáticas.

Em dois mil e três o disco On The Heart, dos Wildlife, uma mistura de suor, gritos e lágrimas, ou seja de difícil incubação e de aturado trabalho de estúdio, foi produzido por Peter Katis (The National, Interpol) e Gus Van Go (The Stills) e ganhou enorme relevo também devido ao facto de ser um trabalho conceptual, porque com ele os Wildlife quiseram escrever uma espécie de carta de amor aos corações de todos nós e à capacidade que esse músculo tem de nos proporcionar os mais belos sentimentos. Três anos depois, Age of Everything catapultou definitivamente a banda para o mainstream e agora, perto do ocaso de dois mil e dezanove, os Wildlife preparam-se para lançar aquele que é, de acordo com o grupo, o álbum mais conciso e vibrante do cardápio do projeto.
Produzido por Dave Schiffman e por Mike Keire e gravado durante três semanas neste verão nos estúdios Threshold Studio, Take The Light With You é o nome desse novo registo de originais dos Wildlife, um compêndio de canções assentes num punk rock bastante cru e direto, mas também com momentos mais nostálgicos e etéreos e dos quais já foi retirado o single No Control, uma canção que antecipa um alinhamento que terá tudo para ser uma das melhores surpresas do ano. Confere...

Pouco mais de dois anos depois do excelente EP All We Know, o vocalista, compositor e instrumentista, Tim Crabtree, está de regresso com o seu alter ego Paper Beat Scissors, um projeto que chega de Halifax, no Canadá. Parallel Line é o título do novo álbum deste músico e contém onze canções misturadas pelos conceituados Sandro Perri e Dean Nelson, masterizadas por Andy Magoffin e produzidas pelo próprio Tim Crabtree.

Terceiro longa duração do projeto Paper Beat Scissors e gravado, à semelhança dos antecessores, na zona rural de Ontario, Parallel Line mergulha de modo ainda mais penetrante e realista do que os trabalhos antecessores numa folk que não deixa ninguém indiferente e que delicia pelo modo exímio como utiliza toda uma orgânica instrumental e vocal para dar vida a poemas lindíssimos, através da inserção de diferentes texturas, muitas vezes em várias camadas de sons.
Se logo na acusticidade de Gun Shy percebemos que há aqui um charme incomum e que é viciante porque nos embala e paralisa, é na soul da guitarra de All It Was e no vasto emaranhado de interseções instrumentais que se estabelecem com as cordas nesse tema, que se percebe o nível mais apurado, maduro e coerente do cardápio atual de Paper Beat Scissors. De facto, ao terceiro trabalho Crabtree prova ter dado um salto qualitativo enorme no que concerne à sua capacidade de criar e recriar emoções e sentimentos, geralmente algo tristes e depressivos, sem nos trespassar a alma ou nos fazer sentir dor. Assim, se impressiona mais do que nunca a perceção de que é imensamente apurada a enorme sensibilidade e o intenso sentido melódico deste extraordinário músico e compositor, move-nos o desejo da audição contínua deste alinhamento de canções, a certeza de que são um bálsamo retemperador sempre que as temos por perto, em especial nos instantes da nossa existência em que precisamos de usufruir de um certo isolamento e tranquilidade que nos façam refletir e decidir novas opções e caminhos.
De facto, na toada mais vibrante e pulsante de Don't Mind, um tema sobre o destino e a pouca importância que as pedras que se atravessam no nosso caminho poderão ter quando estamos certo da rota que queremos trilhar, é evidente que ficamos ainda mais absorvidos por esta estética delicada, mas também plena de personalidade, cor e harmonia, mas também acabamos por, inconscientemente, ganhar ânimo para as batalhas futuras e os dilemas que carecem de mais ou menos urgente resolução.
Detentor de um registo vocal também ímpar e capaz de reproduzir variados timbres e diferentes níveis de intensidade, Crabtree tem um dom que certamente já terá nascido consigo e que se define pela capacidade de emocionar, mas também de nos converter a uma causa muito sua e que vive da visão poética de que as tesouras representam a agressão dos fantasmas do passado que muitas vezes insistem em se manter acoplados e o papel aquela tela branca que se disponibiliza a receber os nossos recomeços e expetativas. No fim, neste processo de passagem, a delicadeza e a candura acabam por vencer a agressividade e a rispidez, com estas canções a servirem de banda sonora exemplar durante este salto fraticida. Espero que aprecies a sugestão...

01. Respire
02. Gun Shy
03. All It Was
04. Don’t Mind
05. Grace
06. Anything
07. All We Know
08. Shapes
09. Better
10. Half Awake
11. Little Sun

Os The New Pornographers de Kathryn Calder, Neko Case, John Collins, Todd Fancey, Carl Newman, Joe Seiders, Blaine Thurier e Simi Stone, já têm sucessor para o excelente Whiteout Conditions de dois mil e dezassete. In The Morse Code Of Brake Lights será o oitavo registo da carreira do coletivo canadiano e terá onze canções que devem manter o habitual indie pop rock inspirado do grupo, tendo em conta o conteúdo de Falling Down the Stairs Of Your Smile, o primeiro avanço já divulgado desse trabalho e que soa a uma típica canção dos The New Pornographers.
De facto, em Falling Down the Stairs Of Your Smile quem vence é aquele pop rock clássico e intemporal, uma canção em que não se deixa, em nenhum instante, de ter vontade de pular e de querer desertar para uma espécie de universo paralelo que o tema sugere, feito com aquela felicidade incontrolável e contagiante que todos nós procuramos e que, nesta composição, tanto surgem na impulsividade do baixo e nas notas mais delicadas do piano e na cosmicidade dos sintetizadores, mas também quando elas estão presentes de um modo particularmente explosivo, nas guitarras, assim como nas vozes de Newman e Case, que se alternam e se sobrepôem em camadas, à medida que estes e outros instrumentos fluem naturalmente, sem se acomodarem ao ponto de se sufocarem entre si, naquilo a que é usual chamar-se de som de banda. Confere Falling Down the Stairs Of Your Smile e a tracklist de In The Morse Code Of Brake Lights...
01 You’ll Need A Backseat Driver
02 The Surprise Knock
03 Falling Down the Stairs Of Your Smile
04 Colossus Of Rhodes
05 Higher Beams
06 Dreamlike And On The Rush
07 You Won’t Need Those Where You’re Going
08 Need Some Giants
09 Opening Ceremony
10 One Kind Of Solomon
11 Leather On The Seat
Montréal, no Canadá, é o poiso dos The High Dials, banda com uma década de carreira e de regresso aos discos em dois mil dezanove com Primitive Feelings, um longa duração com lançamento em formato vinil previsto para o próximo outono. Entretanto alinhamento desse álbum físico já começou a ser antecipado digitalmente com dois eps, tendo o primeiro, com oito composições, provavelmente o lado a dessa edição, visto a luz do dia há algumas semanas.

Primitive Feelings será o sexto registo de originais dos The High Dials e, pelo que se percebe desta primeira metade revelada, será um disco repleto de texturas sonoras que privilegiam um punk rock algo sujo e lo fi, mas onde também não faltam texturas eletrónicas particularmente pulsantes e contemporâneas e com um elevado groove e um espírito shoegaze, nuances que se saúdam num projeto particularmente inovador e reputado na esfera indie canadiana.
O fabuloso baixo vibrante que sustenta The Future Prospects Of Your Ego, sendo já uma imagem de marca desta banda também claramente influenciada pela melhor herança do indie rock britânico forjado em terras de Sua Majestade no último meio século, volta a fazer-se acompanhar, nomeadamente neste tema que é para mim o destaque maior destas oito canções, por uma guitarra jovial e criativa, guiada por uma forte vertente experimental e uma certa soul, com alguns efeitos e detalhes sintetizados a rematarem em grande estilo uma canção que não receia ser exuberante no modo como sustenta alguns dos arquétipos típicos da pop e do punk dos anos oitenta. Depois, a precisão rítmica da bateria e os riffs incendiários que dão colorido à luminosa Jaws Of Life, a graciosidade psicadélica de Employment And Enjoyment, o charmoso piano que deambula por World War You ou o travo jazzístico do punk incisivo que exala de Guerrilla Guru, ampliam o efeito soporífero desta amostra de um trabalho que quando for possível de ser escutado no seu todo, irá certamente potenciar a fama destes The High Dials, não só devido à bitola qualitativa e criativa desse novo capítulo de um catálogo discográfico que é já riquissímo, mas também por causa da superior capacidade que têm de fazer o nosso espírito facilmente levitar e provocar no âmago de quem os escuta devotamente um cocktail delicioso de boas sensações. Se a segunda metade do registo, fizer jus ao conteúdo já revelado de Primitive Feelings, então estaremos certamente em presença de um dos grandes álbuns de dois mil e dezanove. Espero que aprecies a sugestão...

01. O Blue Day
02. The Future Prospects Of Your Ego
03. Jaws Of Life
04. Employment And Enjoyment
05. World War You
06. Guerilla Guru
07. Primitive Feelings
08. City Of Gold
Thomas Bruneau Faubert, Charles Primeau, Élie Raymond, Lazer Vallières e Tony L. Roy são os Foreign Diplomats, uma banda canadiana oriunda de Montreal, no Quebeque, que acaba de regressar aos lançamentos discográficos com Monami, um compêndio de canções que sucede a Princess Flash, o extraordinário disco de estreia que a banda lançou no final de dois mil e quinze, ainda a tempo de ser um dos melhores desse ano para esta redação.

Escrito e composto maioritariamente por Élie Raymond e produzido e misturado por Jace Lasek, que já tinha trabalhado com os Foreign Diplomats no antecessor, Monami mantém o projeot canadiano nas coordenadas certas para estilizar canções em cujo regaço festa e lisergia caminham lado a lado, duas asas que nos fazem levitar ao encontro de paisagens multicoloridas de sons e sentimentos.
Num disco em que a ideia principal é o amor e o medo que nos invade sempre que nos apaixonamos, mas também onde não faltam referências a viagens, comida e a tudo aquilo que preenche a normalidade rotineira de qualquer um de nós, não faltam aqui canções repletas daqueles arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas. E fazem-no deambulando pelos nossos ouvidos, alicerçadas num frágil balanço entre uma percussão pulsante, um rock e uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos, teclados corrosivos no modo como atentam contra o sossego em que constantemente nos refugiamos e a voz de Élie que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.
Se a audição de Monami nos oferece então vastas paisagens sonoras, nota-se, rapidamente, um ponto em comum em praticamente todas as suas canções e, de certo modo, já descrito acima. Refiro-me ao modo como as guitarras fornecem a base melódica que vai depois sustentar praticamente todos os temas até ao seu ocaso, havendo, pelo meio, quase sempre uma explosão sónica sintética, feita de exuberância, cor e um apreciável experimentalismo, que do clima animado de Road Wage, ao travo oitocentista mais negro de City Luv, aperfeiçoado com um grau superior de refinamento em Adopted Hometown, passando pela luminosidade percurssiva de Charger ou, com maior epicidade ainda, de You Decide (The Return Of), pela elegância de Amafula e pelo charme contagiante de Demon (Slamador), tem sempre em comum essa primazia das cordas eletrificadas e a adição às mesmas de teclados repletos de um vasto catálogo de efeitos embebidos por uma inegável filosofia pop, uma relação simbiótica que faz da audição deste alinhamento uma demanda por um percurso triunfante e seguro.
Bálsamo retemperador perfeito capaz de nos fazer recuperar o fôlego de um dia intenso, Monami balança genuinamente nos nossos ouvidos, agita a mente e força-nos a um abanar de ancas intuitivo e capaz de nos libertar de qualquer amarra ou constrangimento que ainda nos domine. Disco mais exuberante e fervoroso que o antecessor, Monami é um extraordinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a combinar guitarras com teclados, sem colocar em causa a vivacidade e o esplendor que é muitas vezes abafado por aquela faceta algo rígida que a eletrónica intui, sendo, no seu todo, uma súmula quase imperceptível entre epicidade frenética, crua e impulsiva e sensualidade lasciva, num resultado global borbulhante e colorido. Espero que aprecies a sugestão...

01. Road Wage
02. City Luv
03. Charger
04. Amafula
05. You Decide (The Return Of)
06. Demon (Slamador)
07. Adopted Hometown
08. Frilu
09. Tender Night
10. How Cool Is That?
11. Fearful Flower

Pouco mais de meio ano depois do lançamento de Worried Mind, um disco que já teve sequência há algumas semans com um outro registo inteiramente instrumental com o mesmo nome, Scott Orr surpreende-nos no final de abril com Stay Awake On The Phone, uma nova composição do artista canadiano e que é apresentada como b side desse álbum.
Stay Awake On The Phone é uma lindíssima canção, com um inconfundível travo pop, conduzida por um sintetizador bastente pueril e melancólico e com uma subtileza muito própria e contagiante. São pouco mais de quatro minutos onde a toada instrumental se entrelaça com o charme inconfundível da voz do autor, um lançamento disponível gratuitamente ou com a possibilidade de doares um valor e que tem a chancela da editora independente canadiana Other Songs Music Co., uma etiqueta indie independente de Hamilton no Ontário, terra natal deste extraordinário músico e compositor. Confere...
Os Said the Whale de Vancouver, no Canadá, regressaram aos discos no início deste ano com Cascadia, o sucessor do excelente As Long As Your Eyes Are Wide, que viu a luz do dia há uns dois anos. Sexto disco da carreira deste projeto liderado por Ben Worcester e Tyler Bancroft, Cascadia contém, em doze canções, um festim luminoso de forte índole sintetizada, que nos mostra um indie rock com pegadas de folk, country e muita pop e onde é possível a apreciar delicadas harmonias vocais, pianos, guitarras limpas e um imenso impressionismo lírico.

Ouvir Cascadia é circular por um sinuoso percurso sonoro com diversas interseções e cruzamentos que abarcam uma vasta míriade de géneros e estilos, tudo feito com coerência e bom gosto. Se em alguns instantes do registo é o rock mais comercial quem dita as suas regras, nomeadamente no single UnAmerican, já em Love Don't Ask, por exemplo, aprecia-se, ainda dentro do mesmo rock, uma faceta mais intrincada e rugosa que, piscando o olho ao garage através das guitarras, encontra um ponto de equilíbrio no modo como o piano se consegue acomodar ao restante arquétipo instrumental do tema. E nestas duas canções acabamos por ficar com uma ideia clara da tal porção de referências que orienta os Said The Whale, cada vez mais aprimoradas, de disco para disco. Depois, o clima dream pop atmosférico de Shame, a pura e genuína folk de Old Soul, Young Heart, ou o travo lo-fi e avant garde de Gambier Island Greeen, acabam por cimentar toda esta flexibilidade e diversidade estilística de um projeto que nos oferece um registo que acaba por ter nesta enorme riqueza um dos seus maiores atributos.
Cascadia é simultaneamente sério e divertido, sexy e contemplativo e cada uma das suas composições tem uma alma própria, por um lado, mas, por outro, o disco também só é entendível na sua plenitude, já que este é um alinhamento coerente, autêntico, rico e onde há muito para descobrir e desfrutar. Espero que aprecies a sugestão...

01. Wake Up
02. UnAmerican
03. Love Don’t Ask
04. Cascadia
05. Shame
06. Old Soul, Young Heart
07. Record Shop
08. Moonlight
09. Broken Man
10. Love Always
11. Level Best
12. Gambier Island Green

Depois de ter lançado o ano passado o excelente More or Less, o seu último registo de originais, o canadiano Dan Mangam acaba de disponibilizar uma cover do clássico Losing My Religion, um original dos norte-americanos R.E.M. Esta revisitação do original da banda de Michael Stipe também pode ser escutada no trailer da série da CBC/AMC TV Unspeakable, de cujos créditos Dan Mangan faz parte.
De acordo com o músico de Vancouver, Losing My Religion, um enorme e inesperado éxito da banda de Athens, na Georgia, incluído no alinhamento de Out Of Time (1991), faz parte do seu imaginário infantil e foi sempre uma canção à qual Dan quis dar um cunho pessoal. Acabou por fazê-lo explorando-a através de um ângulo mais etéreo e homenagendo dessa forma o original, sem o querer replicar (When I was a kid, R.E.M. was a staple in my household. I remember air guitaring to this song with my brother and sister. It was such a massive hit but also so unlikely a candidate to be so. The chorus isn't really a chorus. It's long. It's repetitive. It's like a hypnotic cyclical trance of words that stick with you even if you have no idea what they're about. I really wanted to try and approach it from a new angle. There's no point in attempting to sing like Michael Stipe — there is only one Michael Stipe. So I tried my best to let it live in a new light while paying homage to the original.).
O canadiano acabou por dar asas a essa vontade antiga de reinterpretar Losing My Religion de um modo bastante curioso, sem descurar a veia acústica e a folk que escorre do seu cardápio sonoro habitual, mas conjugadas com uma faceta pop assente em arranjos e orquestrações de cariz classicista que deram à versão uma imponência e um nível de refinamento superiores. Confere...
Foi há já quase uma década, em 2011, com Nevers e um ano depois com um EP intitulado S/T, que o projeto Indoor Voices de Jonathan Relph, chamou a atenção da crítica com um naipe de canções iluminadas por uma fragilidade incrivelmente sedutora, que tiveram sequência há cerca de três anos com um outro EP, intitulado Auratic, que vê finalmente sucessor, um registo de oito canções intitulado Gaslight Ephemera, todas escritas por Relph, que contou com as participações especiais vocais de Sandra Vu em Breathe, Barely, Kate Rogers em I'm Sorry, Maja Thunberg em Punch Me in the Face, Always the Same e Shit World e ainda Alisha Erao em You're My.

Disponivel no bandcamp do projeto, Gaslight Ephemera flui algures entre um aditivo intimismo e uma indisfarçável epicidade de forte cariz lo fi, carateristicas marcantes do adn de um projeto que tem como principais permissas uma elevada fluidez nas guitarras, sempre acompanhadas por um baixo e uma bateria que seguem a dinâmica natural de temas que não receiam assumir uma faceta algo negra e obscura, para criar um cenário musical implicitamente rock, esculpido com cordas ligas à eletricidade, mas com uma certa timidez que não é mais do que um assomo de elegância contida, uma exibição consciente de uma sapiência melódica.
Este desígnio é logo audível na imponência de Breathe, Barely e burilado com louvável sensibilidade no clima etéreo de I'm Sorry, uma composição de forte cariz orquestral, onde deliciosos acordes e melodias minusiosamente construídas com diversas camadas de instrumentos, carregam uma sobriedade sentimental esplendorosa e única. Depois, o clima mais progressivo de Punch Me In The Face é outro exemplo feliz do modo como nestes Indoor Voices conferem, através do sintetizador, leves pitadas de punk ou o garage, aquilo que é, no fundo, uma simbiose entre shoegaze e post rock, amplificada com superior requinte no clima pop de A Little Slow e feita, neste caso, sem excesso de ruído ou de modo demasiado experimental, apesar do cariz pouco imediato e radiofónico não só desta, mas também das restantes composições do registo.
Na verdade, todos os temas de Gaslight Ephemera têm uma toada eminentemente tranquila e algo de épico e sedutor. Há uma sonoridade muito implícita em relação à herança da melhor pop dos anos oitenta e destacam-se os belos instantes sonoros em que a instrumentação é colocada em camadas e a voz manipulada como uma espécie de eco, criando uma atmosfera geral contemplativa e que atinge um elevado pico de magnificiência em Always The Same, o meu destaque maior do trabalho, uma sinuosa e eloquente canção, difícil de desbravar, mas tremendamente narcótica.
Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que se aproxima cada vez mais de algumas referências óbvias de finais do século passado, Gaslight Ephemera exala o contínuo processo de transformação de uns Indoor Voices que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...
01. Gaslight Ephemera
02. Breathe, Barely
03. I’m Sorry
04. Punch Me In The Face
05. A Little Slow
06. You’re My
07. Always The Same
08. I Dunno, Kid
09. Shit World
Os canadianos Wintersleep vão regressar aos discos em março do próximo ano com In The Land Of, o sexto álbum da carreira deste projeto liderado por Paul Murphy e que verá a luz através da Dine Alone Records.
Álbum que será bastante centrado no que é ser um estranho num território adverso e as implicações que a mudança provoca sempre, de acordo com declarações recentes do guitarrista Tim D'Eon, In The Land Of acaba de ver o seu primeiro single divulgado, um tema intitulado Surrender, assente num rock que começa por ser intimista, mas que depois ganha uma majestosidade e um sentido emotivo muito pronunciados. De acordo com o baterista Loel Campbell, Surrender é uma canção de amor que versa sobre a luta interior que todos aqueles que optam pela tal mudança acabam por sentir, devido às dúvidas que sentem acerca da retidão dessa decisão. Confere...
Quase três anos depois do excelente Grey Tickles, Black Pressure, o canadiano John Grant regressou aos discos com Love Is Magic, o quarto registo de originais de um artista que, a solo, demonstra ser um cantor e compositor de inúmeros recursos, utilizados quase sempre para criar composições sonoras com um sabor algo agridoce e expostas num fundo cinza intencionalmente dramático e muitas vezes icónico e geralmente com uma forte componente autobiográfica. Este Love Is Magic não foge à regra, num alinhamento de dez canções que nos apresenta, uma vez mais, uma personagem muitas vezes ambígua, mas sempre determinada nas suas crenças e convicções acerca de um mundo que, apesar de mentalmente mais aberto e liberal, continua a ser um lugar estranho para quem nunca hesita em ser implacável, mesmo consigo próprio, na hora de tratar abertamente e com muita honestidade e coragem os seus problemas relacionados com o vício de drogas, distúrbios psicológicos, relacionamentos amorosos traumáticos e o preconceito.

Cada vez mais requintado no modo como se serve de um vascato cardápio de sintetizações e efeitos no momento de compor, um John Grant mais otimista, convencido, confiante e festivo, criou uma nova coleção de inspiradas e lindíssimas composições, conduzidas por notáveis arranjos orquestrais, apresentados logo em Metamorphosis, uma composição tremendamente cinematográfica e plena de variações rítmicas e melódicas e que também impressiona pelo modo como a voz é sistematicamente modificada. Depois, o dramatismo incontornável do tema homónimo, o clima algo tumultuoso de Tempest, a toada retro de Preppy Boy, a pop luminosa de He's Got His Mother Hips e o vigor algo punk de Diet Gum, são temas que nos inserem num clima de festa e celebração, num mundo muito rosa mas onde podem entrar todos aqueles que têm uma mente aberta e uma predisposição natural para não julgarem nem colocarem entraves ou preconceitos, mas antes deixarem-se levar por uma onda sonora inspirada rumo à diversão pura e genuína.
Love Is Magic oferece-nos, em suma, um John Grant cada vez mais lânguido e libidinoso e virado para a tecnologia, em dez composições que reforçam a sua mestria compositória, o seu ecletismo cada vez mais abrangente e, principalmente, o modo eficaz como usa a música como um elixir terapêutico para tentar amenizar as experiências intensas que vão assolando a sua existência. Espero que aprecies a sugestão...

01. Metamorphosis
02. Love Is Magic
03. Tempest
04. Preppy Boy
05. Smug Cunt
06. He’s Got His Mother’s Hips
07. Diet Gum
08. Is He Strange
09. The Common Snipe
10. Touch And Go
Pouco mais de dois anos depois do excelente registo Everything, o canadiano Scott Orr está de regresso aos lançamentos discográficos com Worried Mind, nove canções que viram a luz dia à boleia da Other Songs, uma etiqueta canadiana indie independente de Hamilton no Ontário, terra natal deste extraordinário músico e compositor.

O modo virtuoso como Orr consegue expôr-se e colocar-nos na primeira fila do exemplar exercício de catarse que é Worried Mind, fica logo plasmado em Sunburned canção agridoce que abre com cândura, inspiração e apurada veia criativa um disco que explora a fundo as diversas possibilidades sonoras das cordas, acústicas e delicadamente eletrificadas, fazendo-o com uma tonalidade única e uma capacidade incomum, possível porque este músico é exímio no seu manuseamento e no modo como dele se serve para transmitir sentimentos e emoções com uma crueza e uma profundidade simultaneamente vigorosas e profundas.
Sempre com a folk na mira, como referi anteriormente, mas com um inconfundível travo pop a incubar da mente incansável de um músico maduro e capaz de nos fazer despertar aquelas recordações que guardamos no canto mais recôndito do nosso íntimo e que em tempos nos proporcionaram momentos reais e concretos de verdadeira e sentida felicidade, ou, no sentido oposto, de angústia e depressão e a necessitarem de urgente exercicío de exorcização para que consigamos seguir em frente, Orr é capaz de nos colocar a olhar o sol de frente com um enorme sorriso nos lábios, com a àspera Fall Apart ou a delicada Halfway, mas também desafia o nosso lado mais sombrio e os nossos maiores fantasmas no convite que nos endereça à consciência do estado atual do nosso lado mais carnal em A Memory e no desarme total que torna inerte o lado mais humano do nosso peito na realista e racional The Sound. Mesmo quando Scott Orr comete o pecado da gula e se liga um pouco mais à luminosidade em Seasons, fá-lo com um açúcar muito próprio e um pulsar percurssivo particularmente emotivo e rico em sentimento, não deixando assim, em nenhum instante de Worride Mind, de ser eficaz na materialização concreta de melodias que vivem à sombra de uma herança natural claramente definida e que, na minha opinião, atinge um estado superior de consciência e profundidade nos acordes únicos e lindíssimos da confessional No Phone.
Worried Mind é alma e emoção e como documento sonoro ajuda-nos a mapear as nossas memórias e ensina-nos a cruzar os labirintos que sustentam todas as recordações que temos guardadas, para que possamos pegar naquelas que nos fazem bem, sempre que nos apetecer. Basta deixarmo-nos levar pelos ecos vigorosos do falsete do autor, para sermos automaticamente confrontados com a nossa natureza, à boleia de uma sensação curiosa e reconfortante, que transforma-se, em alguns instantes, numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Espero que aprecies a sugestão...

01. Sunburned
02. A Memory
03. Fall Apart
04. Halfway
05. The Sound
06. Seasons
07. Ok
08. No Phone
09. Sometime

Para satisfação de muitos, os canadianos Metric estão de volta e cheios de pujança! Este grupo liderado pelo carismático casal Emily Haines e James Shaw, dupla que em tempos se revezou na produção e construção de algum do cardápio dos Broken Social Scene, tinha revelado recentemente o tema Dark Saturday, o primeiro sinal de vida do projeto após o aclamado álbum Pagans In Vegas, de dois mil e quinze. Agora, alguns dias depois, chegou a vez de escutarmos Dressed To Suppress, pouco mais de cinco minutos assentes numa proposta instrumental que leva os Metric para a sua habitual zona de conforto que é delimitada por diferentes focos da música pop, do indie e por vezes da eletrónica, com as guitarras sujas e os sintetizadores a definirem, cada vez mais, a marca registada do grupo.
Juntamente com o single foi também revelado o vídeo, um filme a preto e branco gravado com um iPhone X por Justin Broadbent e que mostra Haines e os seus companheiros da banda a tocarem o tema com os respetivos instrumentos. O novo disco dos Metric, o sexto do cardápio, chega a vinte e um de setembro, as duas composições acima referidas deverão fazer parte do seu alinhamento e a digressão de promoção desse trabalho terá os The Smashing Pumpkins como companheiros de estrada. Confere...

O canadiano Patrick Watson está de regresso aos discos com Melody Noir, um registo de originais que vai ver a luz do dia muito em breve e do qual acaba de ser revelado o single homónimo, assim como o vídeo, realizado pelo próprio músico e pela conterrânea Brigitte Poupart e produzido por Olivier Sirois.
Esta canção Melody Noir é inspirada num músico venezuelano chamado Simon Diaz e nela Patrick Watson plasma todos os seus predicados quer como dono de uma voz única e multifacetada, da qual sobressai o seu inconfundível falsete, quer como arquiteto de uma sonoridade com raízes na folk, mas que busca uma salutar contemporaneidade ao inserir também alguns detalhes da pop e da eletrónica mais contemplativa.
Importa ainda referir que Patrick Watson está de regresso a Portugal no final do ano para promover este seu novo álbum, mais concretamente de dois a quatro de Dezembro, com Lisboa, Coimbra, Guimarães e Porto a receberem, respectivamente, um dos artistas internacionais mais acarinhados pelo publico português e que deverá fazer-se acompanhar por Joe Grass, na guitarra, Robbie Kuster, na bateria e percurssão e por Mishka Stein, no baixo. Confere...
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