Quarta-feira, 4 de Outubro de 2017

Cinnamon Tapes - Nabia

Cinnamon Tapes é o nome artístico de Susan Souza, uma cantora e compositora brasileira, natural de São Paulo, que acaba de se estrear nos discos com Nabia, quase quarenta minutos de uma pop folk introspetiva bastante profunda e um pouco enigmática, que viu a luz do dia através da Balaclava Records e que deve também muito do seu sumo e conteudo à relação de amizade da artista com Steve Shelley, antigo membro dos Sonic Youth.

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É ao som da viola que Susan reflete sobre o mundo à sua volta, fazendo-o, curiosamente, com um certo misticismo, porque no seu universo lírico, ora em inglês ora em português, são várias as referências a elementos como o tarot, o paganismo, ou o zodíaco, este último explícito em Lua, Terra e Sol, por exemplo, mas também com um elevado grau de impressionismo realista, já que as histórias que conta são comuns a qualquer ser humano que anda por cá e que sente algumas dificuldades em ser feliz e sentir-se realizado.

São, no fundo, temas que exalam um certo feminismo algo angustiado, mas também uma acolhedora melancolia, onde a vertente mais acústica destila os sentimentos amargurados e soturnos e os instantes mais elétricos e de maior amplitude instrumental oferecem as composições mais desconcertantes, experimentais e luminosas de Nabia, como é o caso de Cinnamon Sea ou o piano agridoce de Ventre.

Este alinhamento exige tempo, mas quanto mais nos aventuramos nele, melhor percebemos o quanto Susan é uma excelente intérprete como cantora, compositora e até como produtora. Por mais que demore a entrar, quando desvendado Nabia tece no ouvinte uma teia sonora e poética que toca e emociona, mesmo que algumas nuvens tentem bloquear essa sensação. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:38
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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2017

Mariano Marovatto - Lá Cima Ao Castelo.

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Brasileiro de nascimento, tendo isso sucedido a um de abril de 1982, no Rio de Janeiro, mas a residir atualmente em Lisboa, o escritor, cantor e compositor luso-brasileiro Mariano Marovatto começa a ganhar notoriedade devido ao seu trabalho artístico e nos dois lados do atlântico. E a música é, sem dúvida, a sua forma de expressão artística predileta, tendo como mais recente materialização um álbum intitulado Selvagem, que chegou aos escaparates há poucos dias e que encontra muita da sua génese na aldeia de Monsanto, como se percebe em Lá Cima Ao Castelo, o single já retirado do alinhamento.

Originalmente título de uma moda cantada durante a Festa do Castelo que ocorre anualmente na primeira semana de maio em Monsanto, aldeia de Castelo Branco, Lá Cima Ao Castelo, sobre o olhar de Marovatto, é uma lindíssima canção que coloca a nú todo o esplendor, bom gosto e criatividade de um músico ímpar no modo como entrelaça instrumentos e melodia e lhes dá um cunho bastante misterioso e sensorial. A canção já tem também direito a um vídeo, da autoria da cineasta russa Anastasia Lukovnikova e usa a aldeia como pano de fundo, complementando, na perfeição, o cariz fortemente impressivo da composição. Confere...


autor stipe07 às 18:53
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Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2016

Cervelet - Degradê

Oriundos de  Jaboticabal, no estado de São Paulo, uma cidade de setenta mil habitantes, fundada por portugueses e onde prosperam cinco universidades, os brasileiros Cervelet são Guto Cornaccioni, Iuri Nogueira, Igor Nogueira, Tiko Previato e Vitor Marini, uma banda que diz misturar cerveja com música, poesia e liberdade e que, por isso, se considera a banda mais estranha da cidade!

Depois de ter editado na primavera de 2014 Canções de Passagem, o disco de estreia, este quinteto regressará em 2016 aos lançamentos discográficos com um EP e Degradê é o primeiro single divulgado do mesmo, uma canção sobre o amor, que viu a luz do dia ainda em 2015, a dezassete de dezembro e que assenta numa instrumentação radiante, que progride de forma interessante à medida que vão sendo adicionados os diversos arranjos que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte. Confere...


autor stipe07 às 21:04
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015

Gui Amabis - Ruivo em Sangue

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, Gui Amabis regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de três anos depois, está novamente de volta com este lindíssimo Ruivo em Sangue, um trabalho composto e gravado entre São Paulo e Lisboa e que, de acordo com o press release de lançamento, carrega no gene a solidão insólita de caminhar à deriva pelas ruas da capital portuguesa.

Gui Amabis começa a destacar-se no seu percurso discográfico não só pela beleza das suas canções, mas também pela faceta poética e pelo superior dramatismo da sua escrita. Assumindo-se como um letrista que quer passar em cada canção uma mensagem explicitamente e que a mesma seja entendida e decifrada através dos sons que a acompanham, um objetivo que Amabis descreve em mais uma entrevista extraordinária que me concedeu e que podes conferir abaixo, este autor está cada vez mais exímio no modo como retrata o sonho e a realidade, muitas vezes de modo indistinto e com uma carga onírica e fortemente cinematográfica.

Havendo dedicação e gosto na audição da música de Gui Amabis, é fácil criar e imaginar personagens e ações na nossa imaginação à medida que a sua música flui pelos nossos ouvidos, torna-se espontânea a necessidade de recriar interiormente as histórias, muitas vezes autobiográficas, que ele nos conta. De facto, no momento de cruzar as notas com as letras e de modo a exacerbar o ideário das mesmas, o autor olha para este processo como um quebra-cabeças, um jogo, já que quando escreve uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar.

Assim, neste Ruivo Em Sangue, disco em que consta da lista de participações especiais nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral, escutamos esta faceta única da música de Amabis, que apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de o autor não dispensar a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, este novo disco é mais direto, cru, visceral e vibrante. É, claramente, um disco mais rock e que prova que Gui continua a ser um mestre da melodia e um génio criativo, onde transpiração e inspiração se dividem em doses iguais para nos oferecer mais uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Confere, já a seguir, a entrevista que Gui Amabis concedeu a Man On The Moon e espero que aprecies a sugestão...

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. E agora, pouco mais de um ano depois, com este lindíssimo Ruivo em Sangue. Conforme fiz da última vez que te entrevistei, começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as expetativas para este novo trabalho? Continuas a seguir o conselho do teu pai e a não criar expetativas, ou há algo escondido aí dentro de ti, um desejo ou uma meta muito pessoais que tenhas para este disco?

Começo então agradecendo o lindíssimo. Tenho mais vontades que expectativas. Quero tocar mais, a cada apresentação sinto que eu e meus parceiros ficamos mais perto, musicalmente. Por outro lado, como letrista, a vontade é que meu texto seja compreendido e assimilado. Acredito que todo músico quer ser ouvido, se não, acabaria por não emitir sons.

Pelos vistos, este é mais um capítulo da tua forte ligação a Portugal, país onde encontras as tuas raízes, já que, além de Ruivo em Sangue ter sido gravado entre São Paulo e Lisboa, conta histórias inspiradas em passeios solitários pela nossa capital. Será sempre de certo modo inevitável na tua carreira construir pontes sonoras entre os dois lados do atlântico?

Quero muito poder apresentar esse concerto em Portugal, a banda está muito feliz e dedicada à pesquisa musical. Penso em ir  com esse grupo e poder interagir mais com músicos portugueses, quando aí estive fiquei isolado por estar na fase de composição do disco. Portugal faz parte disso, sendo eu metade lusitano não posso pensar de outra forma que não seja essa. Isso acaba por ser marcante no som e no texto.

Continuas a fazer música de modo a retratar momentos da tua vida e a escrever para tentares entender os teus sentimentos?

Sempre escrevo sobre cenários familiares, não costumo inventar coisas. Não sei se tenho um objetivo ao escrever. Tenho me divertido com o jogo de compor, achar a melodia presente em cada frase, deixar que essa revele suas notas e modulações. Os assuntos chegam sem serem chamados.

Se Trabalhos Carnívoros me tinha agradado pela bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, já em Ruivo em Sangue, apesar de não dispensares a habitual exuberância ao nível dos arranjos e as constantes variações rítmicas, dois aspetos que Eles Eram Humanos, por exemplo, plasma claramente, parece-me que fizeste um disco mais direto, cru, visceral e vibrante. Um disco mais rock, digamos assim… Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, que idealizaste para o álbum inicialmente? E o resultado final correspondeu ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Na resposta acima falo um pouco disso, cada frase tem sua melodia, cada melodia sua harmonia, cada harmonia seu arranjo e cada arranjo sua cor. Tudo está ligado, é um processo mutante e quando vemos está pronto. Geralmente começo sem saber aonde vai dar.

Continuas a ser um mestre da melodia, um génio criativo no momento de cruzar as notas com as letras de modo a exacerbar o ideário das mesmas e na entrevista anterior confessaste que este processo é para ti como um quebra-cabeças, um jogo e que quando escreves uma letra, de certo modo ela já traz consigo o cenário melódico que a irá sustentar. Na hora de te sentares para escrever e de entrares no estúdio para compor, o processo de criação musical continua a ser assim tão fluído e espontâneo, ou com o passar do tempo e o aumento do teu cardápio sonoro, começas a sentir necessidade de ser mais racional e menos espontâneo? Em suma, qual é, neste momento, a percentagem de inspiração e transpiração em tudo isto?

(Risos…) Vejo que já conhece meu processo, pra mim a inspiração vem da transpiração. São muitos testes e erros até soar bem aos meus ouvidos.

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a opção de disponibilizares gratuitamente o teu novo álbum em formato digital. Como surgiu a ideia e porque foste em frente?

Isso se tornou uma prática entre os músicos independentes do Brasil. Fica difícil não disponibilizar o disco sendo que todos os outros o fazem. O disco está em quase todas as plataformas digitais, portanto, se a pessoa quiser comprar ela pode. Deixo essa escolha para o ouvinte.

Graxa em Sal teve direito a um excelente vídeo que ilustra uma pintura da autoria de Biel Carpenter. Como surgiu a inspiração para um tão curioso e interessante vídeo?

Estávamos para lançar o disco e queríamos um video para isso. Pensamos em fazer um Video-letra, mas eu queria fazer algo com Biel, então lembrei dos programas que assistia quando criança, animações em stopmotion. Biel gostou e realizou junto com Antonio Wolff.

Mais uma vez, nos créditos de um trabalho teu constam nomes tão ilustres como Dustan Gallas, Regis Damasceno e Marcelo Cabral. Cada vez mais a tua música, apesar de ter um cariz tão pessoal e íntimo, soa e sabe também a um ato coletivo de partilha de sonhos, ideias e sentimentos, não concordas?

Concordo, gosto das ideias deles, me apresentam caminhos melódicos e harmônicos que não me são naturais. Estão se tornando parceiros muito importantes, além de Samuel Fraga e Richard Ribeiro.

Quando é que podemos ouvir estas músicas ao vivo por cá?

Espero que possamos ir em 2016, estamos a conversar com algumas casas de música em Portugal. Ficaria muito feliz em apresentar, em Portugal, as músicas que aí fiz.

Obrigado mais uma vez pela tua música… Sou cada vez mais teu fã! Abraço…

Obrigado, beijos!


autor stipe07 às 18:28
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Sábado, 22 de Agosto de 2015

Dreams Never End - A Tribute To New Order

Qualquer pessoa em uma pista de dança já vibrou com algum sucesso dos New Order, aquela banda de Manchester que nasceu após o suicídio de Ian Curtis, líder dos Joy Division. A publicação brasileira The Blog That Celebrates Itself de Renato Malizia tomou a iniciativa de criar uma compilação de tributo aos New Order, curiosamente, ou talvez não, numa altura em que esta icónica banda britânica está de regresso aos lançamentos discográficos com Music Complete, um álbum que chegará às lojas a vinte e cinco de setembro, à boleia da Mute Records.

Primeiro disco desta banda fundamental e pioneira na mistura de indie rock com a eletrónica sem o baixista Peter Hook, em compensação Music Complete contará com a teclista Gillian Gilbert, esposa do baterista Stephen Morris, de regresso à banda, de onde tinha saído em 2001 para cuidar dos filhos do casal.

A compilação está diponível gratuitamente ou com a posibilidade de doares um valor pela mesma e contém clássicos da banda como Ceremony, Blue Monday, Waiting For The Siren's Call ou Bizarre Love Triangle, revisitados por nomes tão importantes como Babbling April, Ambros Chapel, Pure os DRLNG de Eliza Brown e Martin Newman, bandas que conseguiram respeitar a essência pós-punk dos New Order, com o cunho pessoal e contemporâneo que ofereceram às canções. Estes últimos são mesmo, na minha opinião, o grande destaque deste tributo, pela aúrea mística, intima e marcadamente nostálgica que recriaram em Bizarre Love Triangle. Confere...


autor stipe07 às 21:33
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Sexta-feira, 20 de Março de 2015

Rita Braga - Gringo In São Paulo EP

Depois de no delicioso disco de estreia, intitulado Cherries That went to The Police  Rita Braga ter reinterpretado temas oriundos de vários países e em várias línguas, esta portuguesa, filha do mundo, voltou ao estúdio para compôr cinco temas originais e inéditos que idealizou no período em que morou no Brasil em 2013 e aos quais deu o nome de Gringo In São Paulo, um simpático EP gravado na Casa do Mancha, um estúdio de gravação e local de concertos conhecido no cenário musical alternativo e independente da maior cidade da América Latina.

Neste EP Rita Braga manuseia com enorme mestria o ukelele, o seu fiel parceiro e instrumento de eleição, mas também os teclados e uma magnífica voz. O registo conta com a participação de vários músicos de São Paulo, nomeadamente Mancha Leonel (bateria), Bernard Simon Barbosa (guitarra eléctrica e baixo), Pedro Falcão (cuíca e pandeiro), José Vieira (piano), Peri Pane (violoncelo) e Matheus Zingano (guitarra acústica). Chris Carlone, um músico norte americano com quem Rita tem vindo a colaborar desde 2008 também surge nos créditos deste Gringo In São Paulo, misturado e masterizado já do lado de cá do atlântico, em plena invicta, com a ajuda de Marc Behrens, tendo a capa da edição em vinil sido concebida também por Marc Behrens e a própria Rita Braga, uma edição física de sete polegadas que conta com os temas Gringo in São Paulo e Erosão, acompanhado de um download card com os cinco temas que integram o EP.

Apesar da importância do instrumento musical ukelele na vida e na carreira de Rita Braga, que já conta no seu curriculum com digressões extensas nos Balcãs e atuações na Itália, Polónia, Bélgica e Suécia, além de gravações com músicos espanhóis e portugueses e agora brasilseiros e influências declaradas de nomes tão fundamentais como Tom Zé, Carmen Miranda, Bob Dylan, Sílvio Caldas ou Black Sabbath, a música de Rita Braga é como um caleidoscópio de músicas do mundo, onde, no caso concreto deste EP, aquela insinuante habitual pitada tropicália, funciona como uma espécie de cereja no topo do bolo e ajuda a plasmar uma incrível sensação de ligação entre as canções, mesmo que uma audição isolada do alinhamento pareça mostrar mais pontos de desencontro do que convergentes entre as várias composições.

Na verdade, ao longo do alinhamento de Gringo In São Paulo assiste-se a uma espécie de narrativa leve e sem clímax, com uma dinâmica bem definida e muito agradável e escutar estes vinte minutros é um exercício muito divertido e reconfortante, com um certo teor melancólico, é certo, onde aquela saudade tão portugesa transpira amiúde, mas, simultaneamente, um exercício otimista e alegre, num trabalho cujo conteúdo geral reside nesta feliz ambivalência.

Em pólos apenas aparentemente opostos parecem também situar-se a exuberância da riqueza instrumental e do arsenal material que sustenta as canções (Helicóptero será a excepção desta constatação) e a subtileza com que os diferentes protagonistas sonoros surgem nas músicas. Refiro-me, por exemplo, a alguns dos instrumentos de percussão, muitos num registo quase impercetível, nomeadamente a cuíca no tema homónimo, outros parecendo deliberadamente condutores e líderes das melodias, conferindo à sonoridade geral de Gringo In São Paulo uma sensação, quanto a mim, bastante experimental, apesar do forte cariz radiofónico e pop da música de Rita Braga.

O cenário melódico que transborda das canções, acaba por possuir uma simplicidade particularmente bonita, apesar da tal exuberância instrumental, com a doçura e a inocência que transpira de Helicóptero a ser, quanto a mim, o momento mais elegante e significativo de uma autora versátil, num EP que presenteia-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que faz com que se defina como uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade.

O registo vocal de Rita Braga é, sem dúvida, um dos seus maiores trunfos e a sua elasticidade fantástica. Além de cantar no EP em três línguas (ingrês, português de Lisboa e português de São Paulo), também leva o desempenho vocal a diferentes patamares, onde não falta até uma espécie de registo imitativo no tema homónimo, por sinal cantado em inglês, ou melhor, ingrês (gringo). Parece-me claro que a autora procura comportar-se como uma atriz quando canta as suas canções, e a mesma confirma-o na entrevista que me concedeu e que podes conferir abaixo, encarnando, com a voz, as diferentes personagens que cria, funcionando como recurso estilístico dos diferentes estados de espírito de uma mesma personagem, à medida que vão sendo relatadas diferentes histórias em que ele é protagonista, neste caso a gringa que deambula por São Paulo, havendo, assim, uma explícita vertente dramática na tua música.

Gringo In são Paulo representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único, que deve ser apreciado enquanto nos rodeamos dos melhores prazeres que esta vida tem para oferecer e conferimos um universo cheio de cores e sons que nos causam espanto, devido à impressionante quantidade de detalhes que Rita coloca a cirandar quase livremente por trás de cada uma destas canções. Aqui tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por diferentes épocas, estilos e preferências musicais, em temas que dão as mãos a um emaranhado de referências que têm como elemento agregador a busca de um clima sonoro com um elevado cariz acolhedor, animado e otimista, provando que a canção portuguesa encontrou em Rita Braga mais uma compositora e letrista notável e sofisticada. Espero que aprecies a sugestão...

Antes de abordarmos especificamente o conteúdo de Gringo In são Paulo, há uma pergunta que não resisto formular. Apesar da importância do instrumento musical ukelele na tua vida e na tua carreira, com digressões extensas nos Balcãs e atuações na Itália, Polónia, Bélgica e Suécia, gravações com músicos espanhóis e portugueses e agora brasileiros e influências declaradas de nomes tão fundamentais como Tom Zé, Carmen Miranda, Bob Dylan, Sílvio Caldas ou Black Sabbath, pode-se caraterizar a música de Rita Braga como um caleidoscópio de músicas do mundo?

É possível... É óbvio que tenho pegado em muitas culturas diferentes, tanto falando em géneros e referências musicais como em países (o meu primeiro álbum, “Cherries That Went To The Police”, consiste em versões de canções de várias origens cantadas nas respectivas línguas e o meu projeto a solo tem-se baseado um pouco nessa ideia). No entanto tento mudar as coisas do seu contexto original: toco alguns temas folk mas não da forma tradicional, ou jazz, ou samba, etc. É um bocado o fenómeno de aculturação, ou mesmo “choque cultural”: conhecer as regras do jogo e depois mudá-las e adaptá-las. Este novo disco tem muita influência do Brasil porque foi lá que o fiz e desta vez são composições minhas, no entanto não tentei reproduzir um certo estilo de música brasileira, usei as referências de modo mais subjetivo e pessoal.

Quem é este gringo e o que foi ele fazer a São Paulo? Gringo In São Paulo é um EP conceptual?

É. Na verdade o gringo é uma gringa, é a minha história no Brasil. Com vários momentos. Todas as músicas foram escritas e gravadas durante a minha estadia de poucos meses lá. Tinha essa “missão” que me pus de produzir um disco em São Paulo, com músicos da cidade, e este disco é o resultado.

Ouvir Gringo In São Paulo foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Com um certo teor melancólico mas, simultaneamente, otimista e alegre, o conteúdo geral do trabalho reside nesta feliz ambivalência. As minhas sensações correspondem ao que pretendeste transmitir sonoramente?

Acho que faz sentido. Essa mistura de simultaneamente otimista e alegre com uma dose de melancolia tem muito a ver com o Brasil, e identifico-me com essa maneira de ser, de ter as emoções mais à flor da pele, apesar de não ter sido intencional passar essas sensações para quem escuta o disco.

Confesso que o que mais me agradou na audição do EP foi uma certa bipolaridade entre a riqueza instrumental e a subtileza com que os diferentes protagonistas sonoros surgiam nas músicas. Falo, por exemplo, de alguns dos instrumentos de percussão, muitos num registo quase impercetível, nomeadamente a cuíca no tema homónimo, outros parecendo deliberadamente condutores e líderes das melodias, conferindo à sonoridade geral de Gringo In São Paulo uma sensação, quanto a mim, bastante experimental, apesar do forte cariz radiofónico e pop da tua música. Consideras-te uma compositora rígida, no que concerne às opções que defines para a tua música ou, durante o processo criativo, estás aberta a ires modelando as tuas ideias à medida que o barro se vai moldando, nomeadamente quando as mesmas surgem da parte dos músicos convidados?

A base que compus para as músicas teve uma estrutura fixa (que revi até com o Mancha antes de ir a estúdio, número de estrofes e duração do solo, etc), e direcionei os músicos no sentido dos arranjos mas sempre com espaço em aberto, não lhes disse as notas exatas que tinham que tocar, mas um certo tipo de “feeling”. Por isso as ideias que considerei que faziam sentido foram sempre bem vindas e incluídas. Na fase de mistura e masterização em que trabalhei com o produtor alemão Marc Behrens mudámos ainda pequenas coisas, por exemplo no single recortámos sons da cuíca para imitar buzinas dos carros. Também concordo que tenho um lado experimental, apesar de a sonoridade ser pop e penso que acessível.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, gostei particularmente do cenário melódico das canções, que achei particularmente bonito. Em que te inspiras para criar as melodias?

Na maioria das canções que escrevo a melodia é a primeira coisa a surgir e depois trabalho o acompanhamento e as letras, apesar de outras vezes começar por compor com um teclado ou menos frequentemente com o ukulele. A voz é o meu instrumento principal. Acho que o facto de ouvir muita música de vários estilos e de já ter feito tantas versões faz com que tenha um arquivo de memória musical como uma espécie de base de dados que ajuda a criar. Inspiro-me em situações, sítios e pessoas que me rodeiam, tal como me disse um escritor, “the stories are already there”, e cada canção pode ser como uma história ou um poema.

O teu registo vocal é um dos teus maiores trunfos e a tua elasticidade fantástica. Além de cantares no EP em três línguas (inglês, português de Lisboa e português de São Paulo), também levas a tua voz a diferentes patamares, onde não falta até uma espécie de registo imitativo no tema homónimo, por sinal cantado em inglês. Procuras comportar-te como uma atriz quando cantas as tuas canções, encarnando, com a voz, as diferentes personagens que crias, ou a voz serve funciona como recurso estilístico dos diferentes estados de espírito de uma mesma personagem, à medida que vão sendo relatadas diferentes histórias em que ele é protagonista, neste caso o gringo que deambula por São Paulo? Em suma, há uma explícita vertente dramática na tua música?

Sim, há. Para mim funciona como várias personagens, às vezes duas na mesma canção, mas também pode ser o caso de ser a mesma personagem em diferente estado de espírito, deixo isso em aberto. No single invoquei o sotaque inglês da Carmen Miranda e no final o Bob Dylan, ou seja às vezes até podem surgir personagens masculinos. Tal como o Fernando Pessoa e a sua Maria José. Em “Poetas do Fim do Mar”, o sotaque brasileiro que tentei reproduzir é a dos cantores da rádio dos anos 30, que se aproxima mais do nosso português, e com um “R” muito exagerado.

Adoro a doçura e a inocência que transpira de Helicóptero. A Rita tem um tema preferido em Gringo In São Paulo?

Penso que não tenho um tema preferido... nos últimos dias a “Erosão” tem estado mais presente porque terminámos o clipe há pouco tempo, foi a primeira vez que filmei aqui na zona do Porto e gostei de trabalhar com o Ricardo Leite e o Pedro Neves. Mas fora isso poderia falar de outros temas do disco.

O tema homónimo teve direito a um excelente vídeo de animação idealizado pelo artista sérvio Vuk Palibrk. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com um nome tão interessante e o conceito é da tua autoria, foi um trabalho partilhado ou o autor teve carta branca para idealizar o conteúdo?

Conheci o Vuk Palibrk e o seu trabalho gráfico na primeira viagem à Sérvia, quando fui convidada do Festival Internacional de Banda Desenhada GRRR! em 2006, com uma exposição de desenhos e concerto. Para este clipe, sabendo que a animação feita à mão é um trabalho monstruoso que pode levar anos a produzir poucos minutos, pedi para ele usar pedaços de filmes dele, e juntar alguns elementos alusivos à letra da música (prédios, multidão, carros, etc).

O que podemos esperar do futuro discográfico da Rita Braga?

Estou a preparar demos para um futuro álbum a solo que terá por base mais teclados, sintetizadores e caixas de ritmos. Também quero a certa altura gravar um disco de “Chips and Salsa”, o meu dueto com o Chris Carlone. Um mais eletrónico, o outro acústico. Ambos de temas autorais, não excluindo uma ou outra versão.


autor stipe07 às 21:27
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2014

Duplodeck - Verões

Os Duplodeck são uma banda indie brasileira que se formou numa localidade chamada Juiz de Fora, em Minas Gerais, no ano de 2001 e cujo ponto comum entre os seis membros era a admiração por Jorge Ben. Entre 2001 e 2005 a banda compôs um vasto reportório, mas apenas se estreou nos lançamentos discográficos em 2011, com um EP homónimo, que continha no alinhamento essas músicas que sofreram uma nova mistura e produção e novas guitarras. Agora, três anos depois, chega finalmente o longa duração de estreia; Verões são oito maravilhosas canções, que sabem, por inteiro, à estação do ano que dá título à rodela, um trabalho que viu a luz do dia a três de fevereiro por intermédio da Pug Records e disponível também na plataforma bandcamp, com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo ou de o obteres gratuitamente.

Verões é folk, bossa nova, rock psicadélico, electrónica e ambient, um disco onde o público contacta com uma variedade imensa de instrumentos de cordas e metais e efeitos sintetizados, além da percurssão. Com as guitarras e o sintetizador a assumir as rédeas do processo de criação melódica, os Duplodeck presenteiam-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que fazem com que o álbum seja uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade.

É impressionante a quantidade de detalhes que os Duplodeck colocam a cirandar quase livremente por trás de cada uma das canções que transbordam do disco e ainda mais diversificado é o conjunto de ritmos, sons e incontáveis referências que borbulham enquanto se desenvolve o álbum. Sejam a pop agradável e nada descartável de Saint-Tropez e do tema homónimo, as pequenas transições pela psicadelia garageira em Brisa, ou o indie rock à The Strokes de Boemia e Hi-Fi, tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por várias épocas, estilos e preferências musicais.

Na verdade, assim que o disco começa, somos rapidamente absorvidos pelo mundo caleidoscópico de Verões, um universo cheio de cores e sons que nos causam tanto espanto como a ironia fina que sustenta o primeiro tema do alinhamento, uma canção que leva-nos do típico ambiente folk nórdico, ao blues de Nashville, feito com um subtil e enevoado acorde de uma guitarra elétrica que inflete num arco írís de cordas e arranjos luminosos muito típicos da melhor tropicália de além mar, a sul do Equador.

A voz é um importante trunfo em Verões, quer devido ao registo vocal clássico, que se destaca amplamente não só no tema de abertura, mas, principalmente no quase falsete de Uns Braços, uma canção que plasma claramente o jogo instrumental e alegre que se estabelece entre uma toada mais orgânica, facultada pela bateria e uma vertente sintética proporcionada por um efeito algo hipnótico, com a distorção da guitarra e a voz a serem os fiéis de uma balança que se mantém graciosamente estável, originando um clima sedutor simultaneamente épico e melancólico.

Em suma, Verões é uma coleção de excelentes canções que, entre a eletrónica e o indie rock dançável e orelhudo, procuram conciliar o velho fulgor anguloso e elétrico do rock’n’roll, com novos espetros sonoros e abordagens pop, havendo, pelo meio, a habitual pitada tropicália típica da maioria dos projetos brasileiros a funcionar como uma espécie de cereja no topo do bolo. É incrível a sensação de ligaçao entre as canções e ao longo do alinhamento assiste-se a uma espécie de narrativa leve e sem clímax, com uma dinâmica bem definida e muito agradável.

A música que se ouve aqui é uma harmoniosa chuva de conhecimento musical e espiritual de toda a espécie, de todos os tempos ou apenas de hoje e representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:05
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Quinta-feira, 19 de Junho de 2014

Gui Amabis - Trabalhos Carnívoros

Lançado no início desta semana por cá, apesar de já ter sido editado há mais de umano no Brasil, Trabalhos Carnívoros é o novo disco do músico brasileiro Gui Amabis, um trabalho muito bonito e o sucessor de Memórias Luso/Africanas, o seu primeiro disco a solo, editado em 2011 e que, na altura, contou com a participação de Céu, Tulipa Ruiz, Criolo, Lucas Santtana e Tiganá e que tinha uma ligação muito especial com Portugal, até pelas raízes maternas do músico.

Esta ligação de Gui a Portugal ampliou-se quando recebeu o convite de Rita Redshoes para produzir o seu novo disco, Life Is A Second Of Love, uma experiência que, de acordo com a entrevista que Gui me concedeu e que podes conferir adiante, foi  um enorme sucesso porque gostou muito de trabalhar com a Rita, uma artista incrível, muito focada e assertiva.

Trabalhos Carnívoros é um disco mais introspetivo que o anterior, um álbum onde Amabis assume todas as vozes e se afirma como cantor e compositor. O disco demorou cerca de três meses a ser gravado e a produção foi feita em parceira com Regis Damasceno (Cidadão Instigado). A dupla escolheu as músicas, os tons, a sonoridade e andamento e depois convidou Samuel Fraga (bateria) e Dustan Gallas (guitarra) para completar os arranjos.

De acordo com o artista, cada canção tem uma inspiração, mas tem duas coisas ou situações que o inspiraram, caminhar e se banhar. É um disco de paisagens sonoras e imagéticas, retratos de certos momentos da sua vida e por vezes escreve pra tentar entender as coisas que sente.

Do samba ao rock, passando por alguns detalhes típicos da folk e da bossa nova, Gui assume-se como um autor versátil num disco que presenteia-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que faz com que o álbum seja uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade. Assim que o disco começa somos rapidamente absorvido pelo mundo caleidoscópico de Gui, um universo cheio de cores e sons que nos causam espanto, devido à impressionante quantidade de detalhes que Amabis coloca a cirandar quase livremente por trás de cada uma das canções que transbordam do disco. Ainda mais diversificado é o conjunto de ritmos, sons e incontáveis referências que borbulham enquanto se desenvolve Trabalhos Carnívoros; Sejam a pop agradável, nostálgica e nada descartável de Merece Quem Aceita e Pena Mais Que Perfeita, as pequenas transições pelo jazz e pela tal bossa nova em Trabalhos Carnívoros, o samba e a blues em Tiro e Um Bom Filme, ou mesmo todo o clima caliente de Consulta Mental, tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por diferentes épocas, estilos e preferências musicais.

Amabis dá as mãos a um emaranhado de referências que têm como elemento agregador a busca de um clima sonoro com uma elevado cariz ambiental, mas que não deixa de ser acolhedor, animado e otimista, muito por culpa de cordas luminosas e de alguns arranjos proporcionados por instrumentos de sopro que abrem janelas que nos permitem contemplar canções recheadas de versos intrigantes, instigadores e particularmente melódicos. Domina Trabalhos Carnívoros um som essencialmente bucólico, épico e melancólico, que pode servir de banda sonora para um mundo paralelo cheio de seres fantásticos e criaturas sobrenaturais, como ilustra a capa de um disco que exalta a carne e vê nela uma harmoniosa fonte de conhecimento e inspiração musical e espiritual de toda a espécie, de todos os tempos ou apenas de hoje. Trabalhos Carnívoros representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. 

Além dos seus trabalhos de autor, Gui Amabis produziu grandes discos no Brasil tais como Vagarosa (2009) e Caravana Sereia Bloom (2012) da cantora Céu, São Matheus não é um lugar assim tão longe (2008) de Rodrigo Campos, Sonantes (2008) da banda Sonantes formado por ele, Rica Amabis, Pupillo, Dengue e Céu. Gui também trabalhou em várias bandas sonoras para filmes e séries de TV como: Collateral (2003), Lord of War (2004), Quincas Berro D'água (2010), Perfect Stranger (2007) Giovanni Improtta (2013), Bruna Surfistinha (2011), Filhos do Carnaval (2009) e Cidade dos Homens (2003). Confere abaixo a entrevista que Gui Amabis me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

 

 

Depois do sucesso alcançado em 2011 com Memórias Luso/Africanas, o disco de estreia e onde ficaram logo patentes as tuas fortes ligações a Portugal, regressou aos lançamentos em 2012 com Trabalhos Carnívoros. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as expetativas para este novo trabalho?

Gui- Meu pai, desde que eu era um menino, sempre me dizia para não ter expectativas, pois a frustração seria quase certa, era uma espécie de doutrina, já que sempre fui um menino ansioso. Mas eu teimo em ter, acho que os portugueses vão entender minha poesia e sonoridade, e espero que as sintam também.

 

E, já agora, como nasceu esta forte ligação a Portugal e porque demorou o disco cerca de  dois anos a chegar a este lado do Atlântico?

Gui -Minha ligação com Portugal vem por conta da minha mãe, ela é filha de dois portugueses que emigraram pro Brasil no entre guerras. Essa avó, Firmina dos Prazeres Machado Cabral, foi a única com quem convivi, ajudou a me criar. Sinto que tenho valores parecidos com os daqui, além da genética. Lanço este disco somente agora por uma razão prática, somente neste momento um selo europeu se interessou.

 

Confesso que o que mais me agradou na audição de Trabalhos Carnívoros foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral do disco uma sensação, quanto a mim, enganadoramente, minimal. Talvez esta minha perceção não tenha o menor sentido mas, em termos de ambiente sonoro, que idealizaste para o álbum inicialmente? E o resultado final correspondeu ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Gui -Meu processo é uma constante mudança, até sentir que tudo faça sentido. Concordo consigo a respeito da sonoridade, tem muitos detalhes e melodias escondidas, tem que se ouvir muitas vezes para perceber. Mas ao mesmo tempo tento sempre limpar ao máximo os meus arranjos, deixando soar apenas o que é necessário. Neste caso tinha algumas melodias e ritmos nos ouvidos antes de começar a gravar, mas pra mim um arranjo é um organismo vivo, eu gosto que os músicos tragam ideias e que as coloquem em prática, portanto, cada um que entra muda a história.

 

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, quer orgânica, quer eletrónica, e também a criatividade com que selecionaste os arranjos, gostei particularmente do cenário melódico destas tuas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que te inspiras para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

Gui -Geralmente começo a compor pela letra, uma frase me vem à cabeça, geralmente com uma melodia implícita. Depois vem o trabalho de completar a mensagem que a frase carrega e achar o complemento melódico. Para mim é como se fosse um quebra-cabeças, um jogo. Mas a letra, para mim, carrega a sua melodia.

 

Em que te inspiras no processo de escrita das letras? Escreves muito na segunda pessoa... Trabalhos Carnívoros é um disco conceptual?

Gui -Cada canção tem uma inspiração, mas tem duas coisas ou situações que me inspiram, caminhar e me banhar, por incrível que pareça. Não acho que seja um disco conceptual, sinto que seja um disco de paisagens sonoras e imagéticas. São retratos de certos momentos da minha vida, por vezes escrevo pra tentar entender as coisas que sinto.

 

Também achei curiosa a forma como satirizas no conteúdo e constróis as rimas e a métrica dos teus poemas, na forma e parece perfeita a colagem à componente melódica. Qual a percentagem de inspiração e transpiração em tudo isto?

Gui -Pra mim cada frase carrega a sua melodia, eu preciso de silêncio e concentração pra conseguir ouvir. Depois do encontro desta fagulha vem o trabalho de composição propriamente dito, criar outras frases, e suas melodias, e que essas façam sentido em conjunto com a inicial. Às vezes este processo demora, já cheguei a ficar mais de um ano pra terminar uma música, e ainda hoje quero mudar… 

 

Confesso que fiquei particularmente surpreso com a simplicidade do artwork de Trabalhos Carnívoros, da autoria de Rafael Grampá. Como surgiu a ideia?

Gui -Conheci  Grampá em 2004 e ficamos amigos e atentos ao trabalho um do outro. Assim que terminei meu disco sabia que ele era quem ia fazer a capa. Mostrei o disco e ele veio com tudo pronto. Foi estranho, muito rápido e acertado. Sinto que foi como umas das minhas frases, que aparecem do nada, como se não fossem minhas. Foi um presente…

 

Pena mais que perfeita. teve direito a um excelente vídeo, dirigido por Júlio Andrade e o já citado Rafael Grampá, além de contar com a presença do ator Daniel Oliveira. Como surgiu a oportunidade de trabalhar com nomes tão importantes e a inspiração para o conteúdo tão interessante e intenso deste vídeo?

Gui -Pois este foi outro presente, um dia recebi um telefonema do Júlio Andrade dizendo que iam fazer um clipe pra uma música minha e que precisavam da minha ajuda.  Júlio e Grampá moravam na mesma casa e Daniel é um amigo próximo dos dois. Cheguei lá e já estavam todos prontos pra filmar, foi tudo captado num dia e depois me enviaram pronto. Não dei opinião nenhuma, achei que a música era suficiente, sabia que estava lidando com gente muito talentosa.

 

Na verdade, pelo que li, costuma rodear-se de outros artistas nos discos. Em trabalhos Carnívoros divide a produção do disco, e duas canções (Pena Mais que Perfeita Menino Horrível), com o também multi-instrumentista Regis Damasceno e com Dengue, baixista da Nação Zumbi, que toca na faixa Consulta Mental, composta em parceria consigo. Como consegue, também na vertente musical, agregar à sua volta nomes tão ilustres?

Gui -Valorizo muito meus parceiros e a parceria em si. Sou uma pessoa que se preocupa com a música e me sinto um cara de sorte por conseguir encontrar essas pessoas. Somos todos amantes da música, acho que é isso que nos une.

 

Tens um largo historial como produtor e compositor de bandas sonoras, além dos teus discos. Sendo letrista, cantor, compositor e produtor, qual destas vertentes te dá mais gozo explorar?

Gui -Gosto de todas elas, me sinto feliz em qualquer uma destas posições. Ultimamente tenho gostado muito de tocar ao vivo e cantar. Gosto muito da minha banda (Regis Damasceno - Baixo, Dustan Gallas - Guitarra, Richard Ribeiro - Vibrafone e Samuel Fraga - Bateria), me divirto muito nos ensaios e concertos. 

 

O que move Amabis é apenas uma espécie de folk e indie pop experimental, com travos de samba, jazz e blues, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do seu futuro discográfico?

Gui -Já aí tem muita coisa. Não faço planos neste sentido, procuro escutar o que está ao meu alcance, espero que a música me traga esta surpresa.

 

Quais são as três bandas ou projetos atuais que mais admiras?

Gui -Cidadão Instigado, Siba e Kid Koala.

 

Quando é que podemos ouvir estas músicas ao vivo por cá?

Gui -Dia 08/07 faço um pequeno concerto na Casa Independente com uma formação quase acústica. Tiago Maia e Rita Redshoes vão-me acompanhar nesta noite. 

 

Não posso terminar sem te perguntar... Como surgiu a oportunidade de trabalhar com a Rita Redshoes e produzir Life Is A Second Love, o último disco dela?

Gui -Foi mais uma destas surpresas, recebi um email da Rita me convidando para este trabalho e aceitei porque gostei muito da voz e da sonoridade. Ela conheceu meu som quando escutou uma faixa do último disco da Céu “Caravana Sereia Bloom”, registro que produzi. Gostei muito de trabalhar com a Rita, é uma música incrível.  Muito focada e assertiva. Durante o processo conheci músicos incríveis. Gostei tanto que voltei para terminar meu terceiro disco aqui, já gravei um quarteto de cordas e devo gravar voz ainda este mês. 


autor stipe07 às 16:34
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Terça-feira, 27 de Maio de 2014

Cervelet - Janeiro

Oriundos de  Jaboticabal, no estado de São Paulo, uma cidade de setenta mil habitantes, fundada por portugueses e onde prosperam cinco universidades, os brasileiros Cervelet de Guto Cornaccioni, Iuri Nogueira, Tiko Previato e Vitor Marini, são uma banda que diz misturar cerveja com música, poesia e liberdade e que, por isso, se considera a banda mais estranha da cidade! Ou não... Canções de Passagem é o disco de estreia dos Cervelet, um trabalho disponivel para download gratuito na página oficial da banda e que divulguei por cá há algumas semanas.

Regresso aos Cervelet para divulgar que a banda acaba de lançar o video de Janeiro, um dos destaques de Canções de Passagem. Escrita por Tiko Previato, a canção dá vida a um poema lindíssimo e assenta numa instrumentação radiante que pende ora para a folk, ora para a indie pop adocicada e acessível.

O video de Janeiro foi dirigido por Deivide Leme em parceria com Priscila Pina e o tema está disponível para download no soundcloud dos Cervelet. Confere...

Quando o Sol bateu e trouxe, enfim
A luz que faltava pra ver
Todo caminho é uma canção
Livre e sublime como o ar
Estávamos presos em outra dimensão
Tínhamos vendas pra calar
Nossas verdades são nossas manhãs
Simples e calmas pra enxergar além


autor stipe07 às 12:44
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Quinta-feira, 8 de Maio de 2014

Cervelet - Canções de Passagem

Oriundos de  Jaboticabal, no estado de São Paulo, uma cidade de setenta mil habitantes, fundada por portugueses e onde prosperam cinco universidades, os brasileiros Cervelet são Guto Cornaccioni, Iuri Nogueira, Tiko Previato e Vitor Marini, uma banda que diz misturar cerveja com música, poesia e liberdade e que, por isso, se considera a banda mais estranha da cidade! Ou não... Canções de Passagem é o disco de estreia dos Cervelet, um trabalho disponivel para download gratuito na página oficial da banda.

Os Cervelet são, certamente, uma das bandas mais curiosas que conheci do nosso país irmão e essa impressão ficou patente não só no contato que mantive com o grupo e que está plasmado numa entrevista que podes conferir abaixo, mas também no próprio conteúdo de Canções de Passagem, que tem um dos alinhamentos mais originais que já vi; São doze canções batizadas com os doze meses do ano, uma espécie de jornada sentimental que este quarteto nos propôe, e que, de acordo com a banda, partindo da estética do rock, com forte influência de folk, a Cervelet carrega a síntese de falar sobre relacionamentos a partir de diferentes ouvidos: pode ser otimista e inocente em Março; densa e misteriosa em Junho; e venturosa, como se percebe em Agosto, mas sem ser um álbum conceptual. Portanto, esta jornada sentimental é assente em canções acústicas que têm como base o violão e que progridem de forma interessante, à medida que vão sendo adicionados os diversos arranjos que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte.

Num disco gravado em casa e que busca uma amplitude no horizonte sem deixar de sentir o cheiro familiar da sua casa, a escrita das canções é bastante pessoal, algo que exige, naturalmente, os tais arranjos delicados e cuidados, com os quais a banda se identifique e, nessa demanda pela canção pop perfeita, há que enfatizar as paisagens sonoroas criadas em Fevereiro e Maio, duas canções que, apesar de conduzidas pela guitarra, expandem-se e ganham vida devido ao critério que orientou a escolha dos restantes instrumentos e à forma como a voz se posiciona e se destaca.

Os Cervelet parecem ter utilizado referências do próprio quotidiano para construir o panorama lírico do disco, que pende ora para a folk, ora para a indie pop adocicada e acessível. Há desde logo aqui sucessos garantidos, músicas que resultam do desenvolvimento de uma instrumentação radiante, havendo a possibilidade de constatar que todos os integrantes da banda têm um papel fulcral no processo de composição e interpretação vocal, numa banda que, durante a gravação de Canções de Passagem, lalcançou novos parâmetros e patamares de qualidade interpretativa vocal e instrumental.

Na verdade, Canções de Passagem é um compêndio de várias narrativas, feita por um coletivo de compositores, onde convive uma míriade alargada de sentimentos que, da angústia à euforia, conseguem ajudar-nos a conhecer melhor a essência dos Cervelet e a perceber sobre aquilo que meditam, as suas conclusões e as percepções pessoais daquilo que observam , regadas a cerveja, enquanto a vida de todos eles vai-se desenrolando e procuram não se perder demasiado na torrente de sonhos que guardam dentro de si e que nem sempre são atingíveis.

Neste disco que os Cervelet gostavam muito que nós, os portugueses, escutássemos no carro enquanto vamos para o Bairro Alto, ou quem sabe a caminho da casa da namorada descendo na estação de Carcavelos, é possível escutar um punhado de canções marcantes que podem levar estes quatro amigos mais além. Estou convencido que merecem elogios de um público maior do que aquele que o conhece e espero que alcancem a fama e o reconhecimento público que tanto reclamam em Canções de Passagem, porque bem o merecem.

Os Cervelet também disponibilizaram recentemente o vídeo de Maio, dirigido por Deivide Leme, da Sunrise Films, e estão quase a revelar o filme de Janeiro, dirigido pelo mesmo Deivide em parceria com Priscila Pina. Espero que aprecies a sugestão...

Janeiro

Fevereiro

Março

Abril

Maio

Junho

Julho

Agosto

Setembro

Outubro

Novembro

Dezembro

Os Cervelet são de Jaboticabal, no Estado de São Paulo, suponho. Há tantos portugueses que visitam o vosso país; O que podem descobrir em Jaboticabal, além da vossa música?

Jaboticabal é uma cidade muito boa para viver. Morei 10 anos na loucura de São Paulo, e hoje admiro a calma e o sossego. Aqui é um lugar para ir conhecendo aos poucos, seu charme está na sua rotina mais pacata. Na conversa na praça, no comerciante que te conhece pelo nome, numa caminhada ao fim da tarde. É uma cidade pequena mas com ares de cidade grande, afinal tem 5 universidades e apenas 70 mil habitantes, atraindo muitas pessoas de outras cidades e até estados para estudar aqui. Fundada por portugueses, com forte imigração japonesa, italiana, africana e indígena, é genuinamente brasileira. Portanto, se um português quisesse conhecer um pouco da mistura que é o Brasil, poderia descobrir isso em Jaboticabal, ou como gostamos de dizer, Jabuca.

O vosso soundcloud refere que misturam cerveja, com música, poesia e liberdade. Qual é a vossa história? Quem são os Cervelet?

Bom, meu nome é Guto Cornaccioni, tenho 31 anos e moro em Jaboticabal, onde também mora o Vitor Marini, guitarrista da banda e um dos compositores. Em julho de 2013 ele entrou no último semestre do curso de Administração de empresas na Unesp de Jaboticabal. E na sua turma da faculdade estavam Tiko Previato e Iuri Nogueira. Eu já conhecia o Vitor de sua banda anterior, a Zé Amais, e ele sabia que eu já havia lançado um disco independente, e que produzia algumas coisas minhas no meu home studio. Ele recomendou ao Tiko e ao Iuri que fossem gravar na minha casa algumas músicas que eles vinham pensando. Aí um dia eles foram lá.

Mostrei umas coisas que eu vinha fazendo também e pedi que eles me mostrassem uns sons deles. O Tiko disse que tinha umas 5 músicas em construção, pegou o violão e começou um dedilhado. Na hora aquele som me deu um tapa na cara, e não precisei ouvir nem 1/3 da música para dizer: "Para cara, nem precisa mostrar mais as outras. É essa aí que a gente vai gravar". Acho que eles perceberam isso também pois concordaram imediatamente. Gravamos em Maio, em mais ou menos três horas. Nunca haviamos tocado a música juntos. Na verdade nunca tinhamos sequer ensaiado. Foram quatro compositores que reservaram 3 horas de uma quarta feira a noite e disseram; "Vamos gravar. Gravar o que? A gente descobre gravando". Foi criação espontânea porém sem a banda estar tocando. Um exercício que nos demos de produção musical, usando o que adquirimos de experiência em palco e em estúdio. Basicamente a Cervelet é o resumo de todos os anos de vivência musical que tivemos até hoje, sem os quais não seríamos capazes de fazer o que fazemos. Ah, esqueci da falar da cerveja. É que sempre tem cerveja por perto quando a banda se reúne, então ela faz parte do processo.

Canções de Passagem é o vosso disco de estreia. Era um filho muito desejado?

Acho que mais do que o disco, estar numa banda como essa era algo muito desejado por todos nós. Não é possível falar do disco sem falar da banda pois foi dele que ela surgiu.

De acordo com o press release do lançamento, de janeiro a dezembro, estamos diante de uma jornada sentimental. O que vos inspirou e como surgiu a ideia de criar um alinhamento com os doze meses do ano?

Pode parecer piada, mas o que é mais previsível do que junho vir depois de maio? Demos risada, mas no fundo sabíamos que tinha sentido por trás da piada. É um disco sobre a vida, e a vida é sempre um contraste. Num mês estamos bem, no seguinte talvez algo aconteça e o clima mude ao meu redor. Um ano é uma medida de tempo e o tempo é apenas o ser humano se enganando achando que tem controle sobre algo. Enquanto íamos gravando, também íamos sentindo o clima da música. Era um processo esquisito de intuição coletiva que rolava e baseado nisso dizíamos: "Ah, essa tem cara de dezembro. Nem fazemos ideia do por que. Talvez Junho não seria melancólica se fosse composta em agosto.

Pessoalmente, penso que Canções de Passagem tem tudo o que é necessário para terem, deste lado do Atlântico, o reconhecimento público que merecem. Quais são, antes de mais, as vossas expetativas para este disco? Há planos de uma edição física e posterior distribuição, interna e externa, apesar da disponibilização gratuita do disco, nomeadamente na vossa página oficial?

Acreditamos que este seja um disco capaz de agradar pessoas que gostem de música, independente de rótulos. É um disco para ouvidos dispostos, mas não exige muito sacrifício, é um som que te deixa a vontade para ouvir, ao mesmo tempo rico em arranjos e pensamentos musicais em toda sua produção. Esperamos que ele seja um dos nossos cartões de visita. O outro cartão de visitas é a banda no palco. Nossa expectativa é fazermos bem a nossa parte e defender o nosso trabalho. Espero, e torço muito, para que o público português coloque nosso som em seus fones de ouvido, ou no carro enquanto vai pro Bairro Alto, ou quem sabe a caminho da casa da namorada descendo na estação Carcavelos. Disco físico? Será necessário em um determinado momento, mas agora estamos concentrando nossos esforços na divulgação digital e nos shows.

E, já agora, que se deve a decisão de disponibilizar o download gratuito do disco?

Vivemos o momento mais interessante da história da música em todos os tempos e eu falo isso sem medo de errar. Nunca na história tanta música foi produzida. Nunca foi tão fácil ter uma banda mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil. Fácil, pois hoje com um mínimo de recursos você consegue produzir uma gravação de qualidade se tiver conhecimento para isso. Ao mesmo tempo, você tem um espaço onde depositar o que você produziu e apresentar para as pessoas, o papel de youtube, facebook, soundcloud e outros. Agora, enquanto eu respondo essa entrevista provavelmente milhares de pessoas estão publicando ou compartilhando suas novas produções nas redes sociais. O desafio para o músico de hoje não é apenas de produção mas sim de comunicação.

Com tanta música por circulando por aí, e com tantos estímulos roubando sua atenção, como eu faço para convencer você a parar o que estiver fazendo e prestar atenção em mim por 3 ou 4 minutos? É uma tarefa monstruosa se você pensar a respeito, pois estamos flutuando num oceano de estímulos e informação circulando sem parar. É como se a Cervelet estivesse tocando num pequeno palco de 5 por 7 metros com outras 14 bandas ao mesmo tempo e tivesse que fazer uma pessoa lá no fundo do público ouvir apenas ela. Esse é o desafio hoje. Então todo músico que tem como meta ser um autor e se tornar conhecido de um público, seja esse público pequeno, médio ou grande, tem que saber fazer o marketing de si mesmo. E não há pecado nisso. São ossos o ofício. Acredito que quem não disponibiliza sua música gratuitamente na internet em 2014 está pegando uma luta que já é difícil e a tornando algo impossível de ser vencido. Não julgo se é justo ou não, mas as coisas são assim. Em 10 meses a Cervelet cresceu muito, fomos ouvidos em vários países, e em praticamente todos os estados do Brasil. Não importa quanto, nem como. Se uma pessoa nos ouve no Rio Grande do Sul hoje, talvez amanhã eu consiga que mais 4 ouçam. Cabe a gente criar o nosso público e alimentar seu interesse.

Ouvir Canções de Passagem foi, para mim, um exercício muito agradável e reconfortante que tenho intenção de repetir imensas vezes, confesso. Intrigante e melancólico mas, simultaneamente, optimista e alegre, o conteúdo geral do disco reside nesta feliz ambivalência. As minhas sensações correspondem ao que pretenderam transmitir sonoramente?

Canções de Passagem é um disco sobre estar vivo. E justamente por falar sobre estar vivo, ele precisou ser vivido antes de existir. Intrigante, melancólico, otimista, alegre. Se você pensar em emoções como cores, a vida oferece uma paleta de emoções gigantesca.  Todos nós temos esses matizes de cores no nosso quotidiano e ao falar sobre a vida, falamos de um espectro amplo de emoções. Essa banda surgiu num momento de grande transição na vida das 5 pessoas que a formam. E se você catalizar algumas coisas que acontecem ao teu redor, observá-las, e traze-las para o mundo de uma forma diferente, você fez arte. Nós não sabíamos, a bem da verdade, exatamente o que estávamos fazendo. Começamos com Maio, uma canção que consegue ser feliz e melancólica ao mesmo tempo. Músicas assim não são planejadas, e a partir dela fomos construíndo não só o disco como a banda. As sensações que essas músicas transmitem não foram calculadas, foram criadas intuitivamente na produção dos arranjos. Quando terminávamos, ouvíamos o que tínhamos feito. Foi também um disco gravado em casa, portanto é algo que busca uma amplitude no horizonte sem deixar de sentir o cheiro familiar da sua casa.

Confesso que o que mais me agradou na audição do álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, outros parecendo deliberadamente sobrepostos de forma aparentemente anárquica, conferindo à sonoridade geral de Canções de Passagem uma sensação, quanto a mim, também experimental, apesar do forte cariz pop folk e até radiofónico da vossa música. Consideram-se músicos rígidos, no que concerne às opções que definem para a vossa música ou, durante o processo criativo, estão abertos a irem modelando as vossas ideias à medida que o barro se vai moldando?

Todos trazemos uma bagagem musical. Eu sempre ouvi folk, blues, samba, rock progressivo, grunge, um pouco de jazz. Sempre gostei de artistas que ao vivo nunca terminam uma música duas vezes do mesmo jeito. Gosto da sensação do mergulho no improviso que acontece ao vivo se você está numa banda que sabe se conduzir nesse caminho. Nossa única regra durante a produção do disco era: vamos ouvir o que a música está pedindo e não os nossos egos. Pois na banda todos cantam, todos compõem, todos tocam muitos instrumentos, então se não houver um acordo entre todos de que estamos trabalhando em conjunto para atingir um objetivo único, uma hora ou outra os egos começam a agir.  Isso é normal e acontece em toda e qualquer relação humana. Na hora de produzir, se o Tiko criou uma linha de baixo mais interessante que a minha e se a música ficar melhor assim, excelente. O importante é a música e não a gente. Temos essa consciência e essa sinceridade uns com os outros a ponto de ficarmos felizes com as idéias de cada um pois sabemos que fazemos parte de uma unidade onde o sucesso de um é o sucesso de todos.

Além de ter apreciado a riqueza instrumental, gostei particularmente do cenário melódico das canções, que achei particularmente bonito. Em que se inspiram para criar as melodias?

Provavelmente as músicas que escutamos muitas vezes ao longo da vida deixaram sua marca na maneira em que criamos melodias. Além disso, com a prática cada um vai descobrindo e desenvolvendo sua melodia. Meu caminho melódico quando crio é um. O Tiko tem outro, assim como o Vitor e o Iuri. O desafio é encontrar uma voz única da banda, independente de quem cria ou canta. É fazer da banda uma pessoa, com personalidade própria. Uma melodia é uma forma de dizer sem palavras. E há muita coisa pra se dizer.

Adoro a canção Maio, curiosamente o mês atual e em que faço anos. Os Cervelet têm um tema preferido em Canções de Passagem?

Sou apaixonado por todas essas músicas, mas Maio tem um lugar especial, afinal foi onde tudo começou além de ter sido lançada no exato dia em que descobri que minha mulher estava grávida da nossa primeira filha.

Não sou um purista e acho que as bandas brasileiras valorizam-se imenso por cá por se expressarem em português, mas há também, desse lado do Atlântico, uma forte predisposição no cenário indie e alternativo para os grupos brasileiros cantarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em português e a opção será para se manter?

Simplesmente nos sentimos mais a vontade compondo na nossa lingua, apesar de também sabermos compor em inglês. Foi uma escolha natural, mas também pensamos ser mais fácil nos comunicar com o público assim, ou seja houve um certo raciocínio estratégico em algum momento. Se uma música é boa e me cativa, eu não me importo em que língua ela é cantada. Pode ser até em Klingon. Esse público é o que mais me interessa, que não só ouve, mas sente a música. Isso é comunicação.

O que podemos esperar do futuro discográfico dos Cervelet?

Para o curto prazo planeamos começar a produzir um novo disco provavelmente no fim do ano. Para o longo prazo, só Deus sabe quanto essa história vai durar, então seguiremos fazendo música enquanto houver música para ser feita.

Quais são as três bandas atuais que mais admiram?

Essa vou responder só por mim, pois não sei se algum outro integrante da banda descobriu um novo som nas profundezas da internet e está viciado nisso.

Atualmente tenho voltado a escutar muito blues, Freedie King, Albert King, Sonny Boy, Muddy Watters, Willie Dixon, essa turma toda das antigas. Sou amante do blues desde a adolescência e é a casa para onde volto. Mas acho que as três bandas ou artistas que até hoje mais admiro como compositores e interpretes ao vivo são Pearl Jam, Dave Matthews Band e John Mayer.

 


autor stipe07 às 21:19
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Thievery Corporation – Saudade

Lançado no passado dia um de abril por intermédio da própria etiqueta da banda, a ESL Music Label, Saudade é o novo álbum dos Thievery Corporation, o sétimo registo de originais da carreira desta dupla formada por Eric Hilton e Rob Garza. Saudade está disponível para audição no soundcloud dos Thievery Corporation, um dos projetos essenciais do cenário da eletróinica e da dance music contemporânea e que, em Saudade, resolve prestar um tributo à música brasileira, uma influência que foi sempre bastante explícita no percurso musical dos Thievery Corporation.

É comum dizer-se que Saudade é uma palavra exclusiva da língua portuguesa e que não tem tradução em nenhuma outra. E esta palavra, assim como o sentido que nós lhe damos, foi a inspiração para o título deste disco, como explicam os próprios Thievery Corporation, (Saudade borrows its title from a Portuguese word meaning a longing for something or someone that is lost, a contented melancholy, or, simply, the presence of absence).

Saudade impressiona, desde logo, pelo alargado espetro de convidados, que ultrapassam a dezena. Assim, durante o disco podemos deliciar-nos com cinco extraordinárias vozes femininas (LouLou Ghelichkhani, Elin Melgarejo, Karina Zeviani das Nouvelle Vague, Natalia Clavier do projeto Argentine e Shana Halligan dos Bitter:Sweet) e, nos instrumentos, com Michael Lowery, baterista dos U.N.K.L.E,  Federico Aubele, também dos Argentine e o percussionista brasileiro Roberto Santos, entre outros.

Com uma míriade de influências que vão dos clássicos brasileiros Antonio Carlos Jobim, Gal Costa e Luis Bonfá, aos europeus Serge Gainsbourg, e Ennio Morricone, Saudade também tem uma forte componente típica do samba eletro, do qual, por exemplo, Isabelle Antena é hoje um dos nomes mais consensuais.

Não é preciso ser um exímio conhecedor dos universo sonoro abarcado por toda esta amálgama de influências e convidados especiais para adivinhar, prreviamente, que Saudade fará, no seu conteúdo sonoro, uma súmula entre a banda sonora de um dia solarengo na praia de Ipanema com o típico ambiente sonoro que ilustra a Riviera Francesa na época alta. A Europa mediterrânica e o atlântico um pouco a sul do Equador dão as mãos neste disco onde o jazz e a bossa nova dizem olá ao samba e todos juntos, de mãos dadas com a eletrónica, apresentam um verdadeiro festim sonoro para os nossos ouvidos sempre sedentos de paisagens sonoras relaxantes e elegantes.

Saudade sabe à banda sonora de um filme europeu francês ou italiano, onde um gigolo ou um sobredotado da cosa nostra dão o golpe e resolvem refugiar-se algures, no Rio, rodeados dos melhores prazeres que esta vida tem para oferecer. A dupla Eric Hilton e Rob Garza teve certamente em mente esta imagem  elegante que povoou tantas vezes o imaginário a preto e branco de quem, do lado de cá do atlântico, olha tantas vezes para os trópicos como o éden só ao alcance dos predestinados e dos espertos.

Ter musas lindas, elegantes e tão femininas e com vozes tão sensuais como as de Shana Halligan, Lou Lou Gleichkhani, Karina Zeviani, Elin Melgarejo e Natalia Clavier a cantar em Saudade, só ajuda a aguçar ainda mais o nosso imaginário relativamente ao universo sedutor e enigmático que os Thievery Corporation criaram em Saudade, um disco cantado em cinco línguas que falam do amor e da tal saudade, em cima de instrumentais luxuriantes dominados pelas cordas, por uma percurssão vibrante e por arranjos sintetizados que tanto nos colocam na loja mais in de Nice como a comer um sorvete nos areais de Ipanema.

Cada canção deste disco é um tratado sobre como se deve conjugar as cordas de uma viola, com a melhor percurssão brasileira; Das mais climáticas Nós Dois e a instrumental canção homónima, passando pelo samba genuíno de Para Sempre e pelas preguiçosas Claridad e Meu Nêgo, até à hipnotizante e sedutora Sola in La Cittá, ou o português ingenúo e quase genuíno de Quem Me Leva, Saudade é um sonho lounge, simultaneamente eletrónico e orgânico, que alimenta um verdadeiro manancial de referências nostálgicas. A própria capa do disco parece ter sido feita dos anos sessenta, tal é a psicadelia melancólica que ela suscita.

Já não restam dúvidas que Garza e Hilton apreciam imenso a música brasileira, num disco onde, de acordo com os próprios, os Thievery Corporation dão vida à vocalização melancólica, quente e cheia de alma que faz parte da essência da bossa nova e completam um círculo onde, depois de deambularem pela música eletrónica, viajaram para algo mais orgânico e construiram um túnel do tempo musical, antes de passarem ao próximo capítulo. Espero que aprecies a sugestão...

Thievery Corporation - Saudade

01. Décollage (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
02. Meu Négo (Feat. Karina Zaviani)
03. Quem Me Leva (Feat. Elin Melgarejo)
04. Firelight (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
05. Sola In Citta (Feat. Elin Melgarejo)
06. No More Disguise (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
07. Saudade
08. Claridad (Feat. Natalia Clavier)
09. Nós Dois (Feat. Karina Zaviani)
10. Le Coeur (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
11. Para Sempre (Feat. Elin Melgarejo)
12. Bateau Rouge (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
13. Depth Of My Soul (Feat. Shana Halligan)

 


autor stipe07 às 18:40
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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2013

Ganeshas - Cabeça Parabólica

Naturais do Rio de Janeiro, os Ganeshas formaram-se em 2005 e são Brenno Quadros (voz), Bruno Keleta (guitarra), Marcelo Castilho (baixo) e Felipe Genes (bateria), uma banda rock brasileira que acaba de disponibilizar gratuitamente Cabeça Parabólica, o mais recente registo de originais do grupo, gravado no final de 2012 em Minas Gerais. A produção de Cabeça Parabólica ficou a cargo de Nando Costa e Luã Yvys, filho de Elba Ramalho.

Um dos grandes trunfos dos Ganeshas está na simplicidade do som que criam e que mistura diferentes épocas e estilos, através de um rock inteligente, luminoso, criativo e versátil. Desde sonoridades mais sombrias típicas da década de oitenta, passando pela folk, o grunge e o indie rock dos anos noventa, Cabeça Parabólica é uma perspicaz coleção de dez canções, acessíveis e bastante recomendáveis aos apreciadores do género, além de comprovar novamente que o Brasil é um verdadeiro manancial no que diz respeito a projetos que procuram replicar o que de melhor se vai fazendo no indie rock alternativo. Espero que aprecies a sugestão... 

CD Cabeça Parabólica


autor stipe07 às 22:43
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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2013

Grizzly Bear – Speak In Rounds (Bonde Do Rolê Remix)

 

No dia em que foi lançado Shields: B-Sides (ver abaixo), o disco dos Grizzly Bear com os temas extra de Shields, o último trabalho deste grupo de Nova Iorque e que divulguei em setembro de 2012, o coletivo brasileiro Bonde do Rolê lançou a remistura que fez para a banda do tema Speak In Rounds. O grupo brasileiro adicionou batidas típicas funk carioca à música, dando-lhe uma toada ainda mais animada e iluminada pelo quente sol brasileiro.

A remistura está disponivel para download gratuito no soundcloud dos Grizzly Bear. Confere...

 

Grizzly Bear - Shields B-Sides

01. Will Calls
02. Taken Down (Marfa Demo)
03. Listen And Wait
04. Smothering Green
05. Everyone I Know
06. Sleeping Ute (Nicolas Jaar Remix)
07. A Simple Answer (Liars Remix)
08. gun-shy (Lindstrøm Remix)


autor stipe07 às 13:05
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Domingo, 6 de Outubro de 2013

Baleia - Quebra Azul

Quebra Azul é o disco de estreia do coletivo brasileiro Baleia, uma banda do Rio De Janeiro formada por, David Rosenblit (piano, filho do também pianista Alberto Rosenblit), Cairê Rego (baixo, filho do saxofonista Paulo Rego), os irmãos Gabriel e Sofia Vaz (voz), Felipe Pacheco (violino e guitarra) e João Pessanha (bateria).

Amigos desde os tempos de escola e de outras bandas, começaram por interpretar versões, com um repertório bastante amplo, que vai desde Louis Armstrong a Justin Timberlake, passando por Chet Baker, Nina Simone e Radiohead.

Este coletivo navega entre o jazz e o indie rock e mistura o que de melhor têm esses dois mundos. Algures entre Nouvelle Vague e Arcade Fire, Quebra Azul contém oito excelentes canções, com uma toada ora tímida ora experimental, músicas pontuadas por uma verdadeira mescla de influências que fazem deste trabalho um verdadeiro e feliz caldeirão sonoro. Quebra Azul está disponível para download gratuito na página dos Baleia. Confere...

Quebra Azul (Álbum Completo / Full Album)


autor stipe07 às 18:00
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Quarta-feira, 21 de Agosto de 2013

Garotas Suecas - Feras Míticas

Naturais do Brasil, os Garotas Suecas são Fernando Freire (baixo), Guilherme Sal (voz), Irina Bertolucci (teclas), Nico Paoliello (bateria) e Tomaz Paoliello (guitarra), um coletivo de São Paulo que se estreou em 2009 com o EP Dinossauros e em 2010 com o muito aclamado, colorido e tropical Escaldante Banda, um álbum considerado por imensa crítica como um dos melhores desse ano no país irmão. Três anos depois, Escaldante Banda já tem sucessor; Acaba de ser editado Feras Míticas, um conjunto de novas canções produzidas por Nick Graham Smith e gravadas no Pendulum Studio, entre setembro e dezembro de 2012. Além de uma vasta lista de músicos que colaboraram no processo de gravação e nos próprios espetáculos de promoção, Feras Míticas contou com as participações especiais de Lurdez da Luz em A Nuvem, Kid Congo Powers em L.A. Disco e Paulo Miklos, dos Titãs, em Charles Chacal. Feras Míticas está disponível para download gratuito no sitio da banda.

Desconheço o conteúdo sonoro de Escaldante Banda, mas a leitura de alguma crítica sobre Feras Míticas sugere que este novo disco é um passo em frente no cardápio sonoro dos Garotas Suecas já que representa uma certa inflexão de som e estilo. O primeiro disco era muito vivo, cheio de cor, como já referi, mexido e com muito funk e groove. Feras Míticas é um pouco diferente já que, no seu todo, é um trabalho carregado de melancolia, com uma forte essência pop, sem canções propriamente dançáveis e, por isso, muito mais nostálgico, intimista e ameno do que o disco de estreia, apesar das guitarras cheias de tropicalia de Manchetes de Solidão, o tema de abertura do novo trabalho. Onde antes havia suor e crueza, há agora lágrimas e detalhe. Bucolismo, uma das doze canções do disco, define com exatidão a presente fase das Garotas Suecas e a fuga aos sons festivos em deterimento de algo mais maduro e nostálgico (Estou passando por uma uma fase estranha, Algo novo está preso em minhas entranhas, E nada que eu fizer vai me deixar nesse lugar).

Como é de esperar numa alteração de sonoridade, o catálogo instrumental utilizado também muda e em Feras Míticas o público contacta com uma variedade imensa de instrumentos de cordas, metais e sopro, além da percurssão. De violinos às guitarra e aos violoncelo, passando pelo trombone, trompete e flauta, os Garotas Suecas presenteiam-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que terão sido ampliadas pela presença de Nick na produção, um profissional que aprecia a soul e o funk mas também o rock de outras décadas, referências muito presentes em Feras Míticas, o que faz com que o álbum seja uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito novidade.

A voz é um importante trunfo em Feras Míticas, não só por causa do registo vocal de Irina Bertolucci, mas também pelos próprios arranjos que a acompanham e que ajudam a estilizar algumas canções, nomeadamente New Country, L.A. Disco e A Nuvem, temas onde a soul e o R&B estão muito presentes, devido também à ação da voz. Em A Nuvem, como já referi, os Garotas Suecas contaram com a participação especial de Lurdez da Luz na voz e a sua presença é indiscutivelmente uma mais valia na forma como intensifica a relação do tema com o R&BCharles Chacal é um original que esteve para ser gravado pelos Titãs de Paulo Miklos na década de oitenta, algo que não aconteceu porque o tema foi censurado pela ditadura vigente à época. Acaba por ser natural e justa a sua presença na voz que, neste caso, não sendo o principal atributo da canção, é essencial para a complementar com uma certa sujidade roqueira.

Feras Míticas é um exercício musical muito interessante de uma banda que sabe como desatar o nó em que muitas vezes alguns projetos conterrâneos e comtemporâneos se encontram por terem nascido e crescido numa realidade musical riquíssima, mas com contornos sonoros muito particulares e definidos. No Brasil não é particularmente fácil e consensual a aposta em universos sonoros alternativos se antes os projetos se projetaram através de uma fórmula sonora que condensava alguns dos principais tópicos da tropicália para criar um eficaz, divertido e criativo clima de baile. Os Garotas Suecas são um excelente exemplo de como é possível mudar e Feras Míticas, além de ser um álbum que amplia o efeito positivo em cada nova audição, é inspirador porque instiga quem procura novas sonoridades. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:49
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Quinta-feira, 8 de Agosto de 2013

Nana - Pequenas Margaridas

pequenas margaridas cover art

Chama-se Nana, é uma brasileira natural de Salvador da Baía, tem apenas vinte e dois anos, mas é já um dos nomes a ter em conta no cenário musical indie pop do país irmão. Nana iniciou a sua carreria musical há dois anos e durante este período Nana participou, de acordo com o seu sitio oficial, em importantes eventos em Salvador, como o Festival Zona Mundi, onde fez sua primeira apresentação pública, e o projeto Conexão Vivo Sala do Coro, em que fez um show individual em uma das salas do principal centro cultural da cidade, o Teatro Castro Alves. Esse segundo resultou em um DVD com a apresentação na íntegra e nana ainda participou, escolhida por voto popular, do show de encerramento do projeto, na Concha Acústica do TCA, com capacidade para 5.000 pessoas. Também fez shows de abertura para o duo argentino Finlandia em Feira de Santana e para o músico texano Ben Kweller, no SESC Vila Mariana em São Paulo.

Ontem, dia sete de agosto, chegou finalmente o seu disco de estreia. O trabalho tem o delicioso nome de pequenas margaridas (escrito assim mesmo com, letras minúsculas) e foi inspirado num filme de 1966, com esse nome. Essa película era dirigida por Vera Chytilová, uma importante referência para Nana.

Este trabalho assenta, sonoramente, numa espécie de mistura que flutua entre a típica uma indie pop confortável, feita com a nobreza das cordas e aquele samba mais tímido e experimental. O disco foi produzido e arranjado pela própria cantora, num processo bastante artesanal, com um elevado grau de pureza, que não prescindiu do uso de samples e alguns detalhes da eletrónica, mas sem distorcer o cariz eminentemente acústico e delicado do álbum. O selo Tupynambá ajudou no processo de gravação da voz, os arranjos e as programações ficaram a cargo da própria Nana e de um amigo chamado João, o piano, teclados, a escaleta e o violino, foram gravados num cantinho de Nana, as guitarras em casa desse amigo e o violão e o baixo na casa de outro chamado Luisão. O álbum foi misturado e masterizado por Luis Calil no estúdio casa do chá. Este músico da banda Cambriana foi um complemento essencial para a limpidez final dos treze temas deste trabalho.

pequenas margaridas destaca-se pelas letras confessionais das treze canções, das quais destaco Montanha Russa, Expressionismo Alemão e a adorável I Can’t Fall In Love. A propósito, o texto que acompanha o lançamento deste disco diz que é através dos sons delicados e por vezes introspectivos de sua música que podemos entrar de verdade em seu universo e redescobrir o significado de coisas muitas vezes banais.

pequenas margaridas está disponível para download gratuito no site da cantora e o selo Midsummer Madness iráresponsabilizar-se por parte da distribuição do álbum no Brasil. Espero que aprecies a sugestão...

 



autor stipe07 às 14:16
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Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Opala - Opala EP

Maria Luiza com o produtor Lucas de Paiva - Marcos de Paula/ Estadão

Opala é um projeto carioca, do Rio de Janeiro portanto, encabeçado por Maria Luiza Jobim em parceria com Lucas de Paiva. Divulgado já em Curtas... XCVII devido ao tema Come Home, o primeiro single divulgado pela dupla e disponível para download, este projeto volta a merecer amplo destaque neste blogue já que acaba de ser editado o EP de estreia, um conjunto de cinco canções que se acomodam em referências que dançam pelo tempo, já que tem ecos dos anos oitenta e do presente e no qual Come Home também se inclui.

Tal como essa canção, o restante conteúdo do EP é um tratado de natureza minimalista e compacta, uma espécie de representação brasileira de tudo o que ecoa atualmente no cenário estrangeiro e se ouve por lá e por cá, diga-se.

Os Opala dão, com mestria, show de bola na dream pop, com uma estratégia ofensiva que passa por passeios delicados pela pop de cariz mais sintetizado, sem descurarem uma linha defensiva alicercada pela chillwave e uma vasta míriade de referências nostálgicas lo-fi capazes de sustentar com perfeição os cinco temas que constituem a espinha dorsal de Opala e que são, além de Come HomeTwo Moons Absence To Excess, Make It Shake e Shibuya.

Maria Luiza denota talento para cantar a melancolia etérea, uma característica algo inovadora no seu cardápio pessoal e que lhe confere credenciais para uma carreira futura mais abrangente, sendo ela, até agora, conhecida essencialmente como uma cantora de indie pop acústica. Maria Luiza não mostra qualquer dificuldade em cantar em inglês já que viveu um largo período da sua vida em Nova Iorque. Já Lucas, filho de um diplomata, com semelhante vivência fora do Brasil e que trabalha também com Marcela Vale no projeto pop Mahmundi, cria texturas delicadas para acompanhar Maria Luiza e essa combinação ganha força através das letras algo confessionais.

Em suma, temos um misto de Beach House com Chromatics, Toro Y Moi  e Nicolas Jaar num EP que nos convida a esboçar alguns tímidos passos de dança, além de nos transmitir instantes de profunda melancolia. Disponível para audição abaixo, o EP pode ser obtido na íntegra por aqui. Espero que aprecies a sugestão...

Absence To Excess

Two Moons

Come Home

Make It Shake

Shibuya



autor stipe07 às 22:22
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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

Curtas... XCVII

Depois de Hello Sadness, os escoceses Los Campesinos! estão de regresso com A Good Night for a Fistfight, o primeiro álbum ao vivo do grupo, gravado em dezembro último na Islington Assembly Hall de Londres. We Are Beautiful, We Are Doomed é o primeiro tema já divulgado...


 Os Sigur Rós acabam de apresentar mais uma nova música do próximo álbum. Desta vez, apenas o som e a letra. É a primeira vez que os Sigur Rós disponibilizam um "lyric vídeo". O álbum sai a 17 de junho...


Depois de Blood Orange, também os Dirty Projectors já apresentaram a sua remistura para Entertainment, o primeiro avanço de Bankrupt!, o próximo álbum dos Phoenix. Confere...

 

Quem duvida que depois de Coexist (2012) os The XX seria incapazes de criar um som tão melancólico e hipnótico como que se ouvia no álbum homónimo de 2009, certamente deixará de ter dúvidas depois de ouvir Together, o tema que a banda apresentou recentemente e que fará parte da banda sonorda de The Great Gatsby. A canção mantém as aproximações à pop eletrónica, sendo guiada pelo conforto das vozes de Romy Madley Croft e Oliver Sim e exemplarmente produzida por Jamie Smith. Com direito a um arranjo de cordas fundamental, a canção entra facilmente para a lista das grandes composições já lançadas pelo trio.


Opala é um projeto carioca, do Rio de Janeiro portanto, encabeçado por Maria Luiza Jobim em parceria com Lucas de Paiva. Come Home é o single mais recente da dupla, disponível para download, um tema que se acomoda em referências que dançam pelo tempo, já que tem ecos dos anos oitenta e do presente. A canção é um tratado de natureza minimalista, compacta, como se fosse uma versão feminina dos suspiros de Nicolas Jaar em Space Is Only Noise (2011). Confere...


autor stipe07 às 10:50
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

Graveola e o Lixo Polifonico - Eu Preciso de um Liquidificador

Mistura rock, samba, funk, bossa nova e pitadas de música latina, aumenta o som e prepara-te para ouvires Eu Preciso de um Liquidificador, o alegre disco dos Graveola e o Lixo Polifonico, editado já em outubro de 2011, mas que, mesmo com um atraso considerável, não poderia deixar de divulgar, devido às letras bem humoradas e contagiantes e por personificar uma autêntica farra de um grupo de jovens músicos que dialogam abertamente com grandes ícones da música brasileira.

Neste disco incrível, desta banda de Belo Horizonte e disponível para download, ouve-se indie rock feito com bons solos de guitarra, como em Blues Via Satélite e Desencontro e samba, daquele gostoso e sem compromisso, que marca presença em Desdenha. Outro ponto que merece destaque é a sintonia entre as vozes de José Luis Braga e Luiz Gabriel Lopes, o principal compositor dos Graveola e o Lixo Polifonico. Eles ainda ganham um reforço de alguns amigos nas canções Kg de Pão, O Cão e a Ciência e Lindo Toque, algo que reforça o espírito de coletividade no seio da banda.

Eu Preciso de um Liquidificador representa então um enorme salto qualitativo numa banda que esbanja beleza, suculentas texturas musicais e uma formatação sonora rara e habilmente desenvolvida.
É impressionante o número de mentes que trabalham por trás de cada uma das canções que transbordam do disco e ainda mais diversificado é o conjunto de ritmos, sons e incontáveis referências que borbulham enquanto se desenvolve o álbum. Sejam a pop agradável e nada descartável da tal Blues Via Stélite, as pequenas transições pelo jazz e pela bossa nova em Canção para um Cão Qualquer Inverno, o samba, como já referi, em Desdenha, ou mesmo todo o clima caliente de Desmantelado, tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por diferentes épocas, estilos e preferências musicais.

Os Graveola e o Lixo Polifónico organizam neste Eu Preciso de um Liquidificador um convívio saudável entre tudo o que é música brasileira e promovem a arte da citação sem serem especializados em nenhum género e sem deixarem que qualquer um deles se sobreponha verdadeiramente. A música que se ouve aqui é uma harmoniosa chuva de detritos de toda a espécie, de todos os tempos ou apenas de hoje e representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo. Espero que aprecies a sugestão...

 clique na capa do disco para realizar o download gratuito. curta e colabore!


autor stipe07 às 22:50
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

Tom Zé - Tropicália Lixo Lógico

Por mais estranho ou inusitado que possa parecer para alguns, também aprecio alguma da música que se faz no lado de lá do atlântico, no nosso dito país irmão. E um dos nomes que sigo com o maior interesse é, como é fácil de perceber, uma mente que poucos conseguem acompanhar com facilidade, mas que fascina quem se dispõe a tentar entendê-la.  E digo isto porque explicar para confundir e confundir para esclarecer é a missão de Tom Zé, músico natural da Bahia e um dos artistas mais consagrados da cultura musical brasileira das últimas décadas. Tropicalia Lixo Lógico, editado recentemente pela Independente, é o seu disco mais recente e um trabalho onde Tom Zé se inspira na revolução cultural brasileira dos anos sessenta e recorre a fundamentos da filosofia, da história e até mesmo da neurologia para explicar a origem mestiça e a confusão de influências e características culturais e psicológicas do povo brasileiro, a chamada... Tropicália.

Ser Tom Zé deve ser, ao mesmo tempo, complicado, absurdo e fascinante. Além de músico, ele arrisca a tecer considerações acerca de outros campos tão díspares como a tal filosofia e história, para abarcar outras ciências mais exatas. Li algures que, segundo ele, o cérebro humano aloja, no hipotálamo, o que é desprezado pelo raciocínio primário da região principal de nosso cérebro, o córtex. O contato com o pensamento lógico ocidental (sacramentada na figura de Aristóteles) iniciado na creche faz com que as crianças (analfatóteles, os analfabetos em Aristóteles) abandonem o raciocínio nativo, de origem moura, oriental, que se transforma em uma matéria cerebral latente, armazenada no depósito de lixo do hipotálamo. Porém, uma vez ou outra, esse lixo lógico toma o lugar que lhe era de direito e se funde com o que já estava lá.

Assim, este músico considera que esse tal lixo lógico começou a ser plasmado em música quando Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros se debruçaram sobre a cultura popular brasileira para criar canções e assim, voltando ao ancestral, esses músicos modernizaram a cultura brasileira. Saímos da idade média nacional, diretamente para a era do pré-sal, canta Tom Zé em Tropicalea Jacta Est.

Mas neste Tropicália Lixo Lógico também há canções com uma carga menos teórica, digamos assim. Por exemplo, em O Motobói e Maria Clara, que conta com a participação especial de Mallu Magalhães, estamos na presença de uma canção singela sobre um motoqueiro, o trânsito e a sua amada. Aviso aos Passageiros é a versão em canção dos avisos de segurança encontrados nos elevadores. NYC Subway Poetry Department, cantada em inglês e com a participação de Rodrigo Amarante, segue esta mesma linha. Em Jucaju experimenta usar apenas cinco silabas, como se a canção fosse um jogo de montar e recombinar poeticamente. Já em A Terra, Meus Filhos o nosso planeta é retratado como se fosse uma mulher encantadora, singela, sofrida e de algum modo desprezível.

Neste álbum fica claro que Tom Zé é um dos maiores escritores de canções da música brasileira e usa muito bem, em simultâneo, referências eruditas e populares. Nas melodias ele mistura rock, samba, bossa nova e outros géneros, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Muitas canções terminam no meo de nada, como se houvesse algum dano no ficheiro, ou uma falha clamorosa no processo de gravação. Essas músicas sem fim trazem uma sensação estranha, de coito interrompido, já que alguns cortes foram feitos nos momentos onde as músicas pareciam ainda ter muito para mostrar.

Tom Zé não quer fazer música ambiente. Este Tropicália Lixo Lógico é mais uma mostra da capacidade criativa e do génio sem fim do artista e a prova de que Tom Zé, mesmo com já cinquenta anos de carreira, é hoje um dos artistas mais inovadores da música brasileira. Espero que aprecies a sugestão...

01. Apocalipsom A (O fim no palco do começo)
02. Capitais e Tais
03. Tropicalea Jacta Est
04. O Motobói e Maria Clara
05. Marcha-Enredo da Creche Tropical
06. Amarração do Amor
07. Tropicália Lixo Lógico
08. Não Tenha Ódio no Verão
09. Jucaju
10. De-De-Dei Xá-Xá-Xá
11. A Terra, Meus Filhos
12. Debaixo da Marquise do Banco Central
13. Navegador de Canções
14. Aviso aos Passageiros
15. NYC Subway Poetry Department
16. Apocalipsom B (O começo no palco do fim)


autor stipe07 às 20:16
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