Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

King Gizzard and the Lizard Wizard - Sketches Of Brunswick East

Quando no início do ano o projeto australiano King Gizzard and the Lizard Wizard de Stu Mackenzie anunciou que iria lançar cinco álbuns em 2017, foram muitos os cépticos que se apressaram a apontar o dedo à impossibilidade deste grupo de rock psicadélico conseguir levar por diante tal desiderato. Mas a verdade é que Sketches Of Brunswick East, treze canções que viram a luz do dia a vinte e cinco de agosto, através da ATO Records, são já o terceiro capítulo desta imponente saga onde detalhes da soul, do jazz, do rock, essencialmente o setentista e sonoridades africanas e até a folk tradicional inglesa se misturam, para dar vida e cor a um alinhamento onde também teve uma importante palavra a dizer Alexander Brettin, outro músico australiano e natural de Brunswick East, bairro dos subúrbios de Melbourne, tal como Stu e fã de Todd Rundgren e Wire, que tem como carapaça pop o projeto Mild High Club.

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Com os King Gizzard and the Lizard Wizard a contarem já com cerca de uma dezena de discos em carteira, a verdade é que este Sketches Of Brunswick East é já o terceiro trabalho que também conta com a participação dos Mild High Club. E Sketches Of Brunswick East, que também alude ao clássico de Miles Davis, Sketches Of Spainresulta na plenitude, porque é profusamente intensa e feliz esta estreita colaboração entre Stu e Alexander, nomeadamente através da modo como trocam trechos de guitarra acústica, que acabam por servir depois de base a um posterior trabalho de aperfeiçoamento e desenvolvimento por parte dos restantes membros dos King Gizzard and the Lizard Wizard, com o resultado final, mais uma vez, a ser verdadeiramente intenso e contagiante.

O disco inicia com um solo de piano lindíssimo por parte de Brettin, secundado por alguns detalhes percurssivos da autoria do baterista Michael Cavanagh e a partir daí o que se escuta é uma verdadeira espiral entusiasta e multicolorida, que nos colocabem no centro de um tornado que, da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se delicia com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Se ao longo da audição deste álbum parece evidente que tudo aquilo que se pode escutar, dos arranjos às melodias passando pelos diferentes detalhes e samples, é cuidadosamente pensado. É curioso constatar que a busca do caos também pareceu fazer parte da filosofia dominante no processo de construção do arquétipo das várias canções. O jazz experimental acaba por ser a base, mas é muito redutor uma catalogação tão objetiva já que, obedecendo a uma filosofia firme de controle instrumental, quer a homenagem descarada à melhor bossa nova em You Can Be Your Silhouette, assim como os devaneios dos sopros divagantes de Sketches Of Brunswick East II e o modo como em The Spider And Me as variações rítmicas também sobressaiem devido ao modo como as cordas se entrelaçam com a voz, são apenas alguns exemplos felizes que nos remetem para um espetro muito mais vasto e abrangente, onde diferentes estruturas e influências submergem e se acotovelam, quase em uníssono, para conseguirem destaque entre si. É, em pouco mais de trinta minutos, o espraiar indulgente e sereno de uma prévia colocação numa máquina de lavar, num programa que permitiu uma espécie de rotação e sobreposição constante de tudo aquilo que a herança musical contemporânea, de índole eminentemente psicadélica, foi agregando e assimilando ao longo das últimas cinco décadas.

Mais uma vez os King Gizzard and the Lizard Wizard conseguem facultar-nos um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Stu, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, enquanto tenta ligar-nos umbilicalmente aquela que considera ser a melhor lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Sendo este seu terceiro disco do ano um tratado sonoro de natureza hermética, também não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso, impressionando, assim, pelo arrojo e mostrando-se genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Sketches of Brunswick East artwork

01. Sketches Of Brunswick East I
02. Countdown
03. D-Day
04. Tezeta
05. Cranes, Planes, Migraines
06. The Spider And Me
07. Sketches Of Brunswick East II
08. Dusk To Dawn On Lygon Street
09. The Book
10. A Journey To (S)hell
11. Rolling Stoned
12. You Can Be Your Silhouette
13. Sketches Of Brunswick East III


autor stipe07 às 09:27
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2017

Jens Lekman - Life Will See You Now

Depois de em 2015 o músico e compositor sueco Jens Lekman ter voltado às luzes da ribalta com um assumido compromisso de todas as semanas compor e gravar um novo tema, através do seu projeto Smalltalk, do quel resultou o EP Ghostwriting, uma espécie de complemento dessa hercúlea tarefa onde o autor e a banda que o tem acompanhado transformaram as suas histórias pessoais em canções, assentes numa folk acústica intensa, próxima  e subtilmente encantadora, agora, no dealbar de 2017, este artista que desde 2000 tem revelado o seu charme melancólico e romântico com inegável bom gosto, está de regresso ao formato longa duração, com Life Will See You Now, o quarto álbum da sua carreira, editado a dezassete de fevereiro através da Secretly Canadian.

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Hábil poeta e permanentemente focado e apaixonado pelo processo de escrita e composição, Jens Lekman é exímio a entender os mais variados sentimentos e confissões humanas e fá-lo de forma peculiar, convertendo simples sensações em algo grandioso, épico e ainda assim delicadamente confessional. Neste trabalho, o modo como a sua voz e o piano se apresentam logo na abertura do tema homónimo, causando espanto, faz-nos também entender, com clareza, aquilo que nos espera, em dez canções onde o autor se particularmente intimista e reflexivo, sobrepondo as palavras dos seus poemas com uma evidente exaltação instrumental, necessária e preciosa para a materialização da clara honestidade poética e melódica que sempre o guiou. E essa permissa transforma-se, neste artista, num mecanismo eficaz de diálogo direto com quem se predispõe a ouvi-lo.

Na verdade, Lekman é único e universal a traduzir com simplicidade musical tudo aquilo que gostaríamos de expressar em momentos de maior dor e melancolia, mas também de euforia e exaltação.  What’s That Perfume That You Wear?, tema que inclui um sample do tema The Path de Ralph MacDonald, que data do ano 1978 e que é uma das músicas favoritas do sueco, é um notável exemplo do modo como Lekman retrata o tenebroso final de uma relação amorosa, mas de modo a fazer desse evento uma espécie de desabrochar e a possibilidade de um novo recomeço. E essa capacidade que Lekman tem de nos mostrar sempre o lado positivo e radioso de um qualquer evento, por muito catastrófico que possa parecer, é um dos seus maiores atributos sonoros, audível na exuberância não só das teclas, mas também das cordas e dos metais que tanto se escutam nas suas canções, que nunca descuram a busca de ritmos dançantes e de uma curiosa tropicalidade, também sublime na leveza divertida e primaveril de Wedding In Finistére. Outro bom exemplo dessa estranha dicotomia entre tragédia e celebração está plasmada em Evening Prayer, instante pop também bastante dançante e que se debruça sobre alguém que descobriu que tem cancro e que decide fazer uma cópia do tumor entretanto retirado do próprio corpo numa impressora 3-D. Outra notável canção deste trabalho é, sem dúvida, Our First Fight, composição onde o autor aprimora a sua habitual delicadeza e na pele de um contemporâneo trovador, arrasta-nos, através de soberbos arranjos, para um cenário bucólico bastante impressivo, onde a paixão dá lugar à saudade, o beijo converte-se em despedida e o que é aparentemente grandioso serve agora para nos confortar.

Produzido por Ewan Pearson (M83, Goldfrapp, Chemical Brothers), Life Will See You Now é um festim para os nossos ouvidos e uma boa dose de humor, um verdadeiro caleidoscópio de sensações realisticamente agradáveis, mas também profundamente reflexivas, em que cada uma das suas canções tem tudo para transformar-se num memorável clássico do indie pop, um disco que recheia o curriculum deste sueco com um atestado superior de magnificiência sonora, assente também versos pegajosos e um tipo de atmosfera quase mágica que apenas ele parece capaz de desenvolver. Espero que aprecies a sugestão...

Jens Lekman - Life Will See You Now

01. To Know Your Mission
02. Evening Prayer
03. Hotwire The Ferris Wheel
04. What’s That Perfume That You Wear?
05. Our First Fight
06. Wedding In Finistére
07. How We Met, The Long Version
08. How Can I Tell Him
09. Postcard #17
10. Dandelion Seed


autor stipe07 às 17:32
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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2017

Thievery Corporation – The Temple Of I And I

Sem um daqueles sucessos radiofónicos que catapultam um projeto para o éden durante um longo período de tempo, sem uma portentosa máquina de marketing por trás, vídeos com milhões de visualizações ou uma editora internacional nos seus créditos, os Thievery Corporation continuam, quase duas décadas após a estreia, a ser um dos nomes mais consensuais e influentes da chamada música de fusão, tendo uma base de seguidores fiel e numerosa em todo o mundo, a sua própria editora, a ESL Music Label, assento destacado em cartazes de alguns dos mais relevantes festivais de música e, mais importante que tudo isso, uma carreira recheada de extraordinários momentos sonoros. Assim, em 2017 os Thievery Corporation chegam ao seu oitavo disco de originais e embarcam em mais uma digressão que passa hoje por Portugal e que será certamente recheada de excelentes concertos, assentes não só neste novo disco, mas num extenso e eclético catálogo capaz de agradar a todos aqueles que se predisponham a dançar ao som desta dupla de Washington, formada por Rob Garza e Eric Hilton.

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Se em 2014 os Thievery Corporation olharam profundamente para o Brasil no disco Saudade, agora em The Temple Of I And I, é a Jamaica que os seduz, com as quinze canções do registo a captarem muita da essência mítica e do poder da música deste arquipélago caribenho, resultado de uma prolongada estadia da dupla em 2015 numa das suas principais cidades, Port Antonio. Repleto de participações especiais das quais se destacam, por exemplo, os rappers Zee e Notch ou a norte americana Lou Lou Ghelichkhani, acaba por ser à boleia da jamaicana Raquel Jones, quer na contagiante Letter To The Editor, quer na interventiva Road Block, que melhor é absorvida e explanada toda a influência e exotismo deste pedaço de mundo onde nasceu, como todos sabemos, o reggae.

Estando, portanto, toda a herança sonora da Jamaica em ponto de mira para os Thievery Corporation neste The Temple Of I And I, esse mesmo reggae firma-se, naturalmente, como o grande suporte estilístico da sonoridade do seu alinhamento, com o dubb, o jazz, o rap e a eletrónica e fornecerem a base para arranjos, batidas, efeitos e até trechos melódicos, destacando-se, como grandes instantes do disco, o excelente baixo que conduz Strike The Root e True Sons Of Zion, a cadência algo inebriante e hipnótica do instrumental Let The Chalize Blaze e também do tema homónimo e as batidas de Babylon Falling. O objetivo primordial é que se mantém o de sempre; Fazer o ouvinte dançar mas também refletir sobre vários aspetos da vida contemporânea. nomeadamente os de cariz eminentemente político.

Já não restam dúvidas que Garza e Hilton apreciam imenso ir ao génese de alguns dos movimentos musicais essenciais da dita música do mundo, num disco onde, de acordo com os próprios, os Thievery Corporation dão vida à vocalização melancólica, quente e cheia de alma que faz parte da essência do reggae e completam um círculo onde, depois de deambularem pela música eletrónica e, no exato momento anterior a este registo, pela bossa nova, viajaram agora para algo ainda eminentemente orgânico, construindo mais um tronco do túnel do tempo musical que é a sua discografia, antes de passarem ao próximo capítulo. Espero que aprecies a sugestão...

Thievery Corporation - The Temple Of I And I

01. Thief Rockers (Feat. Zee)
02. Letter To The Editor (Feat. Racquel Jones)
03. Strike The Root (Feat. Notch)
04. Ghetto Matrix (Feat. Mr. Lif)
05. True Sons of Zion (Feat. Notch)
06. The Temple of I And I
07. Time + Space (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
08. Love Has No Heart (Feat. Shana Halligan)
09. Lose To Find (Feat. Elin Melgarejo)
10. Let The Chalice Blaze
11. Weapons Of Distraction (Feat. Notch)
12. Road Block (Feat. Raquel Jones)
13. Fight To Survive (Feat. Mr. Lif)
14. Babylon Falling (Feat. Puma)
15. Drop Your Guns (Feat. Notch)


autor stipe07 às 21:09
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016

Bruno Pernadas - Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them

Com ampla formação musical (Escola do Hot-Club de Portugal e Escola Superior de Música de Lisboa), Bruno Pernadas é um músico versátil. Autor, arranjador e guitarrista nos projetos Julie & the Carjackers, When We Left Paris e Suzie´s Velvet, guitarrista no Real Combo Lisbonense e improvisador rodado, Bruno tem também composto e tocado em vários projectos de artes performativas. How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge? foi o seu disco de estreia a solo, um extraordinário trabalho, composto e produzido pelo próprio em 2014 e que contou com a participação de vários músicos, entre os quais João Correia (Julie & the Carjackers, Tape Junk), Afonso Cabral (You Can’t Win, Charlie Brown), Francisca Cortesão (Minta & the Brook Trout, They’re Heading West) e Margarida Campelo (Julie & the Carjackers, Real Combo Lisbonense). Ano e meio depois dessa auspiciosa estreia, Bruno Pernadas está de regresso com Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them, à boleia da Pataca Discos.

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Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them é uma sequência da sonoridade apresentada em How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge? e que nos permitiu contactar com uma variedade imensa de instrumentos de cordas, metais e sopro, além da percurssão. Dos violinos às guitarras e ao violoncelo, passando pelo trombone, trompete e flauta, Bruno Pernadas presenteou-nos nesse alinhamento com um amplo panorama de descobertas sonoras, numa espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade, que agora se repete, em dez canções que foram gravadas nos Estúdios 15A, com a colaboração de João Correia, Nuno Lucas, Margarida Campelo, Afonso Cabral, Francisca Cortesão, Diogo Duque, Diana Mortágua, João Capinha e Raimundo Semedo.

Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them oferece-nos um delicioso caldeirão sonoro, onde as composições vestem a sua própria pele enquanto se dedicam, de corpo e alma, à hercúlea tarefa comunicativa que o autor designou para cada uma, individualmente. E fazem-no fervilhando de emoção, arrojo e astúcia, enquanto vêm potenciadas todas as suas qualidades, à medida que Pernadas polvilha o conteúdo das mesmas com alguns dos melhores tiques de variadíssimos géneros e subgéneros sonoros, cabendo, no desfile dos mesmos, liderados pelo jazz contemporâneo, indie rock, pop, folk, eletrónica, ritmos latinos e até alguns lampejos da música dita mais clássica e erudita.

Assim, o exercício que se coloca perante o ouvinte que se predispõe a saborear convenientemente o universo criado por those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them, deverá firmar-se, por exemplo, em Spaceway 70, na vontade de apreciar o modo como uma flauta ou um trompete cirandam em redor de um par de acordes da guitarra, como em Problem number 6 se equilibram com total desembaraço, flashes de samples, alguns sopros que gostam de jogar ao esconde esconde, uma guitarra em contínuo e inquieto frenesim e instrumentos percussivos a tresandar a samba por todos os poros, como na soul contemplativa de Valley in the ocean é dada total liberdade ao piano e às cordas para provocarem em nós uma agradável e viciante sensação de letargia e torpor, o modo como o trompete, o sintetizador e um efeito de guitarra quase surreal produzem um intenso travo oriental e exótico em Anywhere in spacetime, o devaneio cavernoso lo fi das teclas de Because it’s hard to develop that capacity on your own, o ménage a trois desavergonhado e feito cópula, à vez, entre trompete, piano e flauta em Galaxy, ou de perceber a teia intrincada de relações promíscuas que se estabelecem, constantemente, durante os mais de doze minutos de Ya ya breathe, entre as teclas do piano, as distorções da guitarra e os diferentes instrumentos percussivos que se escutam, enquanto o baixo, procura estabelecer alguma ordem e harmonizar um salutar caos, numa composição que sobrevive num terreno experimental e até psicadélico e onde a fronteira entre a heterogeneidade instrumental e melódica final e o (aparente) minimalismo inicial é geralmente indecifrável. Com esta atitude certa, constata-se, então, que those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them é um ponto de partida para muitas emoções agradáveis, por ser, curiosamente, o ponto de chegada de muitas porções de um mundo onde é possível sentir, sonoramente, diferentes cheiros e sabores, enquanto se aprecia composições de diferentes cores, intensidades e balanços, que desafiam e apuram todos os nossos sentidos.

Saboreando poemas escritos em inglês pelo autor do disco e por Rita Westwood, those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them coloca-nos à prova à medida que diante de nós escorre aquilo que o género humano tem de mais genuíno e seu, enquanto Pernadas disserta alegremente e claramente fascinado pelo lado mais luminoso, colorido e natural deste mundo, sobre uma heterogeneidade de sensações e aspetos físicos e naturais que o atraem e que, em contacto com a espécie humana, obriga todas as partes envolvidas a diferentes processos adaptativos, o que resultou numa multiplicidade de raças, experiências e estádios de desenvolvimento que hoje caraterizam a nossa cultura e a nossa essência e que estas dez canções também, à sua maneira, plasmam. E durante este exercício antropológico, o autor aproveita para estabelecer paralelismos com o amor e a teia intrincada de relações, sensoriais e neurológicas que esse sentimento provoca, quer individualmente, quer durante a sua materialização com outro(s), com canções do calibre das já descritas Problem number 6 ou Valley in the ocean a fazerem-nos crer que se há sentimento mais belo e capaz de nos transformar e fazer-nos ver com exatidão o mundo que nos rodeia é a vivência plena do amor. Espero que aprecies a sugestão…

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01. Poem (1)
02. Spaceway 70
03. Problem Number 6
04. Valley In The Ocean
05. Anywhere In Spacetime
06. Poem (2)
07. Because It's Hard To Develop That Capacity On Your Own
08. Galaxy
09. Ya Ya Breathe
10. Lachrymose


autor stipe07 às 18:00
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

O (duplo) regresso de Bruno Pernadas.

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Com ampla formação musical (Escola do Hot-Club de Portugal e Escola Superior de Música de Lisboa), Bruno Pernadas é um músico versátil. Autor, arranjador e guitarrista nos projetos Julie & the Carjackers, When We Left Paris e Suzie´s Velvet, guitarrista no Real Combo Lisbonense e improvisador rodado, Bruno tem também composto e tocado em vários projectos de artes performativas. How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge? foi o seu disco de estreia a solo, um extraordinário trabalho, composto e produzido pelo próprio em 2014 e que contou com a participação de vários músicos, entre os quais João Correia (Julie & the Carjackers, Tape Junk), Afonso Cabral (You Can’t Win, Charlie Brown), Francisca Cortesão (Minta & the Brook Trout, They’re Heading West) e Margarida Campelo (Julie & the Carjackers, Real Combo Lisbonense). Ano e meio depois dessa auspiciosa estreia, Bruno Pernadas está de regresso e em dose dupla com Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them e Worst Summer Ever, à boleia da Pataca Discos.

Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them é uma sequência da sonoridade apresentada em How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge? e que nos permitiu contactar com uma variedade imensa de instrumentos de cordas, metais e sopro, além da percurssão. Dos violinos às guitarras e ao violoncelo, passando pelo trombone, trompete e flauta, Bruno Pernadas presenteou-nos nesse alinhamento com um amplo panorama de descobertas sonoras, numa espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade, que agora se repete, em dez canções que foram gravadas nos Estúdios 15A, com a colaboração de João Correia, Nuno Lucas, Margarida Campelo, Afonso Cabral, Francisca Cortesão, Diogo Duque, Diana Mortágua, João Capinha e Raimundo Semedo e que serão alvo de análise crítica neste espaço muito breve.

Já Worst Summer Ever contém oito temas onde Bruno Pernadas explora o jazz, uma das suas linguagens sonoras predilectas, um compêndio gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho e na Blackbox do CCB recorrendo a formações variáveis, do trio ao sexteto de jazz: Bruno Pernadas (guitarra), Francisco Brito / Pedro Pinto (contrabaixo), Joel Silva / David Pires (bateria), Sérgio Rodrigues (piano), João Mortágua (Saxofone Alto), Desidério Lázaro (Saxofone Tenor).

A treze e a vinte de setembro, Bruno Pernadas irá apresentar os dois discos no Teatro Maria Matos, estando os bilhetes já disponíveis para venda nos locais habituais. Para já, confere Anywhere In space Time, o primeiro single divulgado de Those who throw objects at the crocodiles will be asked to retrieve them.


autor stipe07 às 17:12
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Quarta-feira, 8 de Julho de 2015

TV Girl - Natalie Wood vs Life We Planned

Enquanto não chega aos escaparates Who Really Cares, o novo álbum dos TV Girl, esta banda de São Diego formada por Trung Ngo e Brad Peterson e que toca aquele típico bedroom pop, lo fi, caseiro e deliciosamente irresistível, disponibilizou recentemente, via bandcamp, Natalie Wood e Life We Planned, duas canções que não farão parte desse novo registo de originais da dupla.

Escritas e produzidas por Brad Petering, com exceção do verso cantado por Maddie em Like We Planned e misturadas e masterizadas por Jason Wyman, estas duas canções impressionam pelo modo relaxante como conjugam alguns arranjos que piscam o olho declaradamente ao jazz e à bossa nova e todos juntos, de mãos dadas, apresentam um verdadeiro festim sonoro para os nossos ouvidos sempre sedentos de paisagens sonoras relaxantes e elegantes.

Ouvimos cada uma das músicas e conseguimos, com clareza, perceber os diferentes elementos sonoros que foram sendo adicionados e que esculpiram as canções, com particular destaque para as guitarras, melodicamente sempre muito próximas da postura vocal e para alguns arranjos sintéticos que sobressaiem, não porque ficam na primeira fila daquilo que se escuta, mas porque suportam aqueles simples detalhes que, muitas vezes com uma toada lo fi, fazem toda a diferença no cariz e nas sensações que transmitem. Confere...

 


autor stipe07 às 13:46
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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2015

Leapling - Vacant Page

Hoje, dia dez de fevereiro, chegou aos escaparates, através da Inflated/Exploding In SoundVacant Page o novo disco do projeto nova iorquino Leapling, um quarteto formado por Dan Arnes, Yoni David, R.J Gordon e Joey Postiglione e que plana em redor de permissas sonoras fortemente experimentais e onde tudo vale quando o objetivo é arregaçar as mangas e criar música sem ideias pré-concebidas, arquétipos rigorosos ou na clara obediência a uma determinada bitola que descreva uma sonoridade especifica.

A intro Negative Space, uma verdadeira amálgama de sons rugosos e metálicos, que ajudados por uma voz reverberada se acumulam sem um propósito evidente, é uma porta de entrada que plasma com nitidez o clima identitário dos Leapling que, apesar de em Flesh Meadowns, devido ao efeito da guitrarra, à subtileza da bateria e ao timbre das cordas, já se aproximam do habitual edificio melódico que sustenta o formato canção mais acessível, não deixam de se manter fiéis ao espírito inicial, permitindo que nos embrenhemos num disco onde é constante o desafio entre o experimentalismo e a chamada dream pop, já que o nível de desordem sonora serve apenas para colocar a nú um aparente caos, com o conteúdo de Vacant Page a mostrar-se sempre acessível ao ouvinte e, apesar de parecer que vale (quase) tudo, a fluir dentro de limites bem definidos.

O típico som feito com guitarras distorcidas, também tem um elevado protagonismo. Silent Stone, uma magnífica canção que que flutua entre o indie rock mais anguloso e aquele que aposta num forte cariz experimental, já que no tema, além de um maravilhoso falsete, sobressai uma percussão com um elevado pendor jazzístico e o doce romantismo de Slip Slidin' Away e a toada blues conferida pelo baixo vigoroso em N.E.R.V.E., entrelaçado com uma bateria que se estende livremente pela melodia, sem cadência rítmica homogénea, são mais três lindíssimos instantes do álbum, que entre o experimental e o atmosférico, seduzem e emocionam. Depois, no piscar de olho à bossa nova em Going Nowhere e no acerto da quente e sedosa melancolia que escorre da guitarra de Retrograde e em redor da qual abundam violinos que tão depressa surgem como se desvanecem, ficamos sempre na dúvida sobre uma possível alteração repentina do rumo dos acontecimentos, algo que nos exige um alerta permanente e o foco contínuo naquilo que se escuta.

Um dos momentos altos de Vacant Page é, sem duvida, a original secção rítmica que sustenta Crooked, onde se inclui um baixo com um certo toque psicadélico, que não receia o risco no modo como transmite nervo e intensidade e alguns arranjos de cordas, aquáticos e claustrufóbicos, que contrastam com a clareza de uma voz que nos embala e convida de modo sedutor a penetrar em direção a um mundo algo fantasmagórico e claustrufóbico, ao qual é difícil resistir. Um pouco adiante, em Hung Out Dry, esse mesmo baixo teima em espreitar, para massajar as nossas têmporas com um misto de delicadeza e vigor, numa canção feita com a típica luminosidade de uma quente tarde de verão que atiça e desarma todos os nossos sentidos.

Com um certo travo punk, enérgico e libertário, que escorre por todos os poros da melodia hipnótica e repetitiva que alicerça In Due Time, termina um disco cheio de emoções fortes, inédito no modo como dificulta uma catalogação rigida e bem balizada, intemporal no cruzamento transversal que faz entre os mais variados espetros do universo sonoro indie, delicado na invocação de sentimentos felizes, divertido na forma como esbanja ritmo e sensualidade e jovial no modo como pode conquistar na nossa prateleira discográfica aquele recanto especial onde se guardam aquelas coleções de canções que chamamos para a parada dos nossos momentos mais genuínos, muitas vezes ocupados na busca por uma musicalidade amena, coberta por uma aúrea de sensibilidade e fragilidade romântica indisfarçáveis. Espero que aprecies a sugestão...

Vacant Page cover art

 

Negative Space

Flesh Meadows

N.E.R.V.E.

Going Nowhere

Crooked

Retrograde

Silent Stone

Hung Out To Dry

Slip Slidin' Away

In Due Time

 


autor stipe07 às 21:20
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2014

Duplodeck - Verões

Os Duplodeck são uma banda indie brasileira que se formou numa localidade chamada Juiz de Fora, em Minas Gerais, no ano de 2001 e cujo ponto comum entre os seis membros era a admiração por Jorge Ben. Entre 2001 e 2005 a banda compôs um vasto reportório, mas apenas se estreou nos lançamentos discográficos em 2011, com um EP homónimo, que continha no alinhamento essas músicas que sofreram uma nova mistura e produção e novas guitarras. Agora, três anos depois, chega finalmente o longa duração de estreia; Verões são oito maravilhosas canções, que sabem, por inteiro, à estação do ano que dá título à rodela, um trabalho que viu a luz do dia a três de fevereiro por intermédio da Pug Records e disponível também na plataforma bandcamp, com a possibilidade de doares um valor pelo mesmo ou de o obteres gratuitamente.

Verões é folk, bossa nova, rock psicadélico, electrónica e ambient, um disco onde o público contacta com uma variedade imensa de instrumentos de cordas e metais e efeitos sintetizados, além da percurssão. Com as guitarras e o sintetizador a assumir as rédeas do processo de criação melódica, os Duplodeck presenteiam-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que fazem com que o álbum seja uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade.

É impressionante a quantidade de detalhes que os Duplodeck colocam a cirandar quase livremente por trás de cada uma das canções que transbordam do disco e ainda mais diversificado é o conjunto de ritmos, sons e incontáveis referências que borbulham enquanto se desenvolve o álbum. Sejam a pop agradável e nada descartável de Saint-Tropez e do tema homónimo, as pequenas transições pela psicadelia garageira em Brisa, ou o indie rock à The Strokes de Boemia e Hi-Fi, tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por várias épocas, estilos e preferências musicais.

Na verdade, assim que o disco começa, somos rapidamente absorvidos pelo mundo caleidoscópico de Verões, um universo cheio de cores e sons que nos causam tanto espanto como a ironia fina que sustenta o primeiro tema do alinhamento, uma canção que leva-nos do típico ambiente folk nórdico, ao blues de Nashville, feito com um subtil e enevoado acorde de uma guitarra elétrica que inflete num arco írís de cordas e arranjos luminosos muito típicos da melhor tropicália de além mar, a sul do Equador.

A voz é um importante trunfo em Verões, quer devido ao registo vocal clássico, que se destaca amplamente não só no tema de abertura, mas, principalmente no quase falsete de Uns Braços, uma canção que plasma claramente o jogo instrumental e alegre que se estabelece entre uma toada mais orgânica, facultada pela bateria e uma vertente sintética proporcionada por um efeito algo hipnótico, com a distorção da guitarra e a voz a serem os fiéis de uma balança que se mantém graciosamente estável, originando um clima sedutor simultaneamente épico e melancólico.

Em suma, Verões é uma coleção de excelentes canções que, entre a eletrónica e o indie rock dançável e orelhudo, procuram conciliar o velho fulgor anguloso e elétrico do rock’n’roll, com novos espetros sonoros e abordagens pop, havendo, pelo meio, a habitual pitada tropicália típica da maioria dos projetos brasileiros a funcionar como uma espécie de cereja no topo do bolo. É incrível a sensação de ligaçao entre as canções e ao longo do alinhamento assiste-se a uma espécie de narrativa leve e sem clímax, com uma dinâmica bem definida e muito agradável.

A música que se ouve aqui é uma harmoniosa chuva de conhecimento musical e espiritual de toda a espécie, de todos os tempos ou apenas de hoje e representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:05
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Sinkane - Mean Love

Quase dois anos após o magnífico Mars, Sinkane está de regresso aos discos com Mean Love, o seu novo registo a solo, novamente com a chancela da insuspeita DFA Records de James Murphy. Extraordinário músico e compositor, oriundo de uma família de professores universitários e músicos do Sudão, Sinkane desembarcou nos Estados Unidos da América em 1989 como refugiado político e cresceu no Ohio a ouvir punkreggae, música eletronica e sons típicos da sua terra natal. Entretanto mudou-se para Brooklyn, em Nova Iorque, onde, antes de iniciar a carreira a solo, tocou com nomes tão importantes do universo indie como os Of Montreal, Yeasayer, ou Caribou e, nesta última década, tem-se debruçado a fundo sobre aquilo que vai escutando e acontecendo musicalmente ao redor, num bairro musicalmente tão efervescente como é Brooklyn, tendo já abordado espetros sonoros tão divergentes como o post rock ou a música de cariz mais erudito, mas nunca renegando as suas raízes africanas, sendo esse, muitas vezes, o elo de ligação privilegiado entre os diferentes géneros que remexe e onde se posiciona.


Se a sonoridade de Mars apontava, acima de tudo, para a sua origem nos povos sudaneses e as suas raízes músicais africanas, em Mean Love Sinkane olha com outra profundidade para aquilo que mais o seduz na música norte-americana e em especial na soul. Com a permanente parceria com os nomes de peso acima citados e, mais recentemente, tendo sido incumbido da direção musical de Atomic Bomb, de Willian Onyeabor, Sinkane acabou por se especializar num espetro sonoro que diz muito ao país que o acolheu. Desse modo, Mean Love é uma bela homenagem à soul que o adotou, mas onde não falta o R&B ou a bossa nova, por exemplo, para enriquecer ainda mais um quadro sonoro magnífico, feito de dez canções que merecem a nossa mais completa devoção. Sejamos, ou não, verdadeiros apreciadores deste universo musical, devemos olhar para Mean Love como uma jóia rara, já que seste disco é um paraíso soul em todos os sentidos e isso deve-se à sua sonoridade universal, dançante e, ao mesmo tempo, íntima e suave.

Ouve-se Mean Love com alguma descontração e somos atravessados por uma certa homogeneidade sonora, como se o alinhamento fosse um todo constituido pela soma de várias partes que pouco diferem entre si. No entanto, da pop luminosa e assente num jogo entre o orgânico, audível na percurssão das palmas e o sintético fornecido pelo efeito do teclado sintetizado em How We Be, ao afrobeat de New Name, passando pelo funk de Yacha, o meu tema preferido do disco, a pop melancólica de Hold Tight e de Son, a bossa nova que sustenta Moonstruck, o reggae que alimenta Young Trouble, o jazz e o blues de Mean Love, o tema homónimo, ou a implícita toada folk de Galley Boys, que se torna mais festiva devido ao efeito de sopros em Omdurman, Mean Love é uma verdadeira passerelle de uma diversidade incrivel de traços e tiques, uma mistura de sonoridades do passado com as ilimitadas possibilidades técnicas que o desenvolvimento tecnológico proporciona e disponibiliza aos produtores e compositores.

Como sempre, Gallab toca quase todos os instrumentos e não se fez rogado no uso de efeitos, quer nas batidas, quer nas guitarras, conseguindo soar, em simultâneo e de forma inteligente, sofisticado e descontraído, havendo no ambiente criado pelas canções um certo humor e boa disposição, numa atmosfera típica de um afável e acolhedor dia de verão.

Em Mean Love, Sinkane deitou-se numa nuvem feita com a melhor pop atual e operou mais um milagre sonoro; Tornou-se expansivo e luminoso, encheu essa nuvem com uma sonoridade eminentemente introspetiva, mas que não deixa de ser alegre, floral e perfumada e fê-lo sem grandes excessos e com um belíssimo acabamento açucarado, duas das permissas que justificam coerência e acerto na estratégia musical escolhida. Mean Love é um belíssimo disco, com um conteúdo grandioso e um desempenho formidável ao nível instrumental e da voz, um tratado musical leve, cuidado e que encanta, não sendo difícil ficarmos rendidos ao seu conteúdo. Espero que aprecies a sugestão... 

01. How We Be
02. New Name
03. Yacha
04. Young Trouble
05. Moonstruck
06. Mean Love
07. Hold Tight
08. Galley Boys
09. Son
10. Omdurman


autor stipe07 às 22:25
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Segunda-feira, 5 de Maio de 2014

Thievery Corporation – Saudade

Lançado no passado dia um de abril por intermédio da própria etiqueta da banda, a ESL Music Label, Saudade é o novo álbum dos Thievery Corporation, o sétimo registo de originais da carreira desta dupla formada por Eric Hilton e Rob Garza. Saudade está disponível para audição no soundcloud dos Thievery Corporation, um dos projetos essenciais do cenário da eletróinica e da dance music contemporânea e que, em Saudade, resolve prestar um tributo à música brasileira, uma influência que foi sempre bastante explícita no percurso musical dos Thievery Corporation.

É comum dizer-se que Saudade é uma palavra exclusiva da língua portuguesa e que não tem tradução em nenhuma outra. E esta palavra, assim como o sentido que nós lhe damos, foi a inspiração para o título deste disco, como explicam os próprios Thievery Corporation, (Saudade borrows its title from a Portuguese word meaning a longing for something or someone that is lost, a contented melancholy, or, simply, the presence of absence).

Saudade impressiona, desde logo, pelo alargado espetro de convidados, que ultrapassam a dezena. Assim, durante o disco podemos deliciar-nos com cinco extraordinárias vozes femininas (LouLou Ghelichkhani, Elin Melgarejo, Karina Zeviani das Nouvelle Vague, Natalia Clavier do projeto Argentine e Shana Halligan dos Bitter:Sweet) e, nos instrumentos, com Michael Lowery, baterista dos U.N.K.L.E,  Federico Aubele, também dos Argentine e o percussionista brasileiro Roberto Santos, entre outros.

Com uma míriade de influências que vão dos clássicos brasileiros Antonio Carlos Jobim, Gal Costa e Luis Bonfá, aos europeus Serge Gainsbourg, e Ennio Morricone, Saudade também tem uma forte componente típica do samba eletro, do qual, por exemplo, Isabelle Antena é hoje um dos nomes mais consensuais.

Não é preciso ser um exímio conhecedor dos universo sonoro abarcado por toda esta amálgama de influências e convidados especiais para adivinhar, prreviamente, que Saudade fará, no seu conteúdo sonoro, uma súmula entre a banda sonora de um dia solarengo na praia de Ipanema com o típico ambiente sonoro que ilustra a Riviera Francesa na época alta. A Europa mediterrânica e o atlântico um pouco a sul do Equador dão as mãos neste disco onde o jazz e a bossa nova dizem olá ao samba e todos juntos, de mãos dadas com a eletrónica, apresentam um verdadeiro festim sonoro para os nossos ouvidos sempre sedentos de paisagens sonoras relaxantes e elegantes.

Saudade sabe à banda sonora de um filme europeu francês ou italiano, onde um gigolo ou um sobredotado da cosa nostra dão o golpe e resolvem refugiar-se algures, no Rio, rodeados dos melhores prazeres que esta vida tem para oferecer. A dupla Eric Hilton e Rob Garza teve certamente em mente esta imagem  elegante que povoou tantas vezes o imaginário a preto e branco de quem, do lado de cá do atlântico, olha tantas vezes para os trópicos como o éden só ao alcance dos predestinados e dos espertos.

Ter musas lindas, elegantes e tão femininas e com vozes tão sensuais como as de Shana Halligan, Lou Lou Gleichkhani, Karina Zeviani, Elin Melgarejo e Natalia Clavier a cantar em Saudade, só ajuda a aguçar ainda mais o nosso imaginário relativamente ao universo sedutor e enigmático que os Thievery Corporation criaram em Saudade, um disco cantado em cinco línguas que falam do amor e da tal saudade, em cima de instrumentais luxuriantes dominados pelas cordas, por uma percurssão vibrante e por arranjos sintetizados que tanto nos colocam na loja mais in de Nice como a comer um sorvete nos areais de Ipanema.

Cada canção deste disco é um tratado sobre como se deve conjugar as cordas de uma viola, com a melhor percurssão brasileira; Das mais climáticas Nós Dois e a instrumental canção homónima, passando pelo samba genuíno de Para Sempre e pelas preguiçosas Claridad e Meu Nêgo, até à hipnotizante e sedutora Sola in La Cittá, ou o português ingenúo e quase genuíno de Quem Me Leva, Saudade é um sonho lounge, simultaneamente eletrónico e orgânico, que alimenta um verdadeiro manancial de referências nostálgicas. A própria capa do disco parece ter sido feita dos anos sessenta, tal é a psicadelia melancólica que ela suscita.

Já não restam dúvidas que Garza e Hilton apreciam imenso a música brasileira, num disco onde, de acordo com os próprios, os Thievery Corporation dão vida à vocalização melancólica, quente e cheia de alma que faz parte da essência da bossa nova e completam um círculo onde, depois de deambularem pela música eletrónica, viajaram para algo mais orgânico e construiram um túnel do tempo musical, antes de passarem ao próximo capítulo. Espero que aprecies a sugestão...

Thievery Corporation - Saudade

01. Décollage (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
02. Meu Négo (Feat. Karina Zaviani)
03. Quem Me Leva (Feat. Elin Melgarejo)
04. Firelight (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
05. Sola In Citta (Feat. Elin Melgarejo)
06. No More Disguise (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
07. Saudade
08. Claridad (Feat. Natalia Clavier)
09. Nós Dois (Feat. Karina Zaviani)
10. Le Coeur (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
11. Para Sempre (Feat. Elin Melgarejo)
12. Bateau Rouge (Feat. Lou Lou Ghelichkhani)
13. Depth Of My Soul (Feat. Shana Halligan)

 


autor stipe07 às 18:40
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Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

Bruno Pernadas - How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge?

Com ampla formação musical (Escola do Hot-Club de Portugal e Escola Superior de Música de Lisboa), Bruno Pernadas é um músico versátil. Autor, arranjador e guitarrista nos projetos Julie & the Carjackers, When We Left Paris e Suzie´s Velvet, guitarrista no Real Combo Lisbonense e improvisador rodado, Bruno tem também composto e tocado em vários projectos de artes performativas. How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge? é o seu disco de estreia a solo. Composto e produzido pelo próprio, conta com a participação de vários músicos, entre os quais João Correia (Julie & the Carjackers, Tape Junk), Afonso Cabral (You Can’t Win, Charlie Brown), Francisca Cortesão (Minta & the Brook Trout, They’re Heading West) e Margarida Campelo (Julie & the Carjackers, Real Combo Lisbonense).

O sitio da Pataca Discos esclarece os mais incautos que How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge? é Folk, Jazz, Space Age-Pop, Exótica, Afro-beat, Rock Psicadélico, Electrónica e Ambient e, realmente, em How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge? o público contacta com uma variedade imensa de instrumentos de cordas, metais e sopro, além da percurssão. Dos violinos às guitarra e ao violoncelo, passando pelo trombone, trompete e flauta, Bruno Pernadas presenteia-nos com um amplo panorama de descobertas sonoras que faz com que o álbum seja uma espécie de exercício criativo nostálgico, mas sem descurar o efeito da novidade.

É impressionante a quantidade de detalhes que Bruno coloca a cirandar quase livremente por trás de cada uma das canções que transbordam do disco e ainda mais diversificado é o conjunto de ritmos, sons e incontáveis referências que borbulham enquanto se desenvolve o álbum. Sejam a pop agradável e nada descartável de Première, as pequenas transições pelo jazz e pela bossa nova em Huzoor, o samba e a blues em Ahhhhh, ou mesmo todo o clima caliente de Guitarras, tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por diferentes épocas, estilos e preferências musicais.

Assim que o disco começa somos rapidamente absorvido pelo mundo caleidoscópico de Pernadas, um universo cheio de cores e sons que nos causam tanto espanto como a interjeição que intitula o primeiro tema do alinhamento. Em Ahhhhh parece-me que Bruno procura mostrar como abre a sua boca para absorver todos os sons que o rodeiam e que, depois de serem devidamente processados no seu âmago, são novamente expelidos em música, como se a mesma fosse para si tão importante como o ar que respira e que Ahhhhh também pode claramente querer exemplificar. A canção leva-nos do típico ambiente folk nórdico, ao blues de Nashville feito com um subtil e enevoado acorde de uma guitarra elétrica que, adiante, inflete num arco írís de cordas e arranjos luminosos muito típicos da melhor tropicália de além mar, a sul do Equador.

A voz é um importante trunfo em How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowdlege?, quer devido ao registo vocal clássico, que se destaca amplamente não só no Ahhhhh do tema de abertura, mas, principalmente em Première, assim cono na enorme quantidade de samples que Bruno utiliza nas canções sendo, em algumas, o único registo vocal existente.

Após Guitarras, uma canção cujo nome define claramente o jogo instrumental e alegre desse instrumento, ao qual se junta uma espécie de solo de improvisação de xilofone, o ambiente criado em Pink Ponies Don't Fly on Jupiter e as batidas eletrónicas que se escutam, antecipam o que a melancólica dose dupla intitulada How Would It Be propôe-nos, no fundo uma segunda metade do disco em que domina um som essencialmente bucólico, épico e melancólico, que pode servir de banda sonora para um mundo paralelo cheio de seres fantásticos e criaturas sobrenaturais, que aterrarão um dia, algures em L.A., ao som do último tema do alinhamento.

Em suma, How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge? é uma coleção de excelentes canções, com uma toada ora tímida ora experimental, pontuadas por uma verdadeira mescla de influências que fazem deste trabalho um verdadeiro e feliz caldeirão sonoro. Se Bruno quis abarcar todo o conhecimento deste mundo no cosmos que é este seu How Can We Be Joyful In A World Full Of knowledge?, o que ele realmente conseguiu foi estabelecer um convívio saudável entre tudo o que é a música hoje como forma de arte, sem se especializar conscientemente em nenhum género e sem deixar que qualquer um deles se sobreponha verdadeiramente.

A música que se ouve aqui é uma harmoniosa chuva de conhecimento musical e espiritual de toda a espécie, de todos os tempos ou apenas de hoje e representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único.

Agradeço à Raquel Laíns e à Let's Start A Fire pelo envio do exemplar físico do disco que possibilitou a publicação deste crítica e espero que aprecies a sugestão...

01. Ahhhhh
02. Indian Interlude
03. Huzoor
04. Première
05. Guitarras
06. Pink Ponies Don’t Fly on Jupiter
07. How Would It Be 1
08. How Would it Be 2
09. L.A.


autor stipe07 às 21:37
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Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

Erlend Øye - Fence Me In

Não há confirmação oficial sobre uma possível rutura no seio dos Kings Of Convenience, mas a verdade é que a dupla norueguesa não lançou mais material inédito depois do terceiro disco do projeto, Declaration Of Dependence, editado em 2009. Se isso sucedeu é uma pena porque os Kings Of Convenience, nos três álbuns que lançaram, criaram alguma da música mais bonita que se ouviu na última década.

Erlend Øye, uma das metades da dupla e que também integra o projeto Whitest Boy Alive, prepara-se para lançar um disco a solo chamado Legao, um trabalho que chegará aos escaparates lá para maio, por intermédio da Bubbles Records, algo que não acontecia desde 2003, ano em que lançou Unrest.

Legao foi gravado em Reiquiavique, capital da Islândia, nos estúdios da banda Hjalmar, que também participa no disco. Fence Me In é o primeiro avanço conhecido de Legao, um tema que cruza uma belíssima indie pop acústica com traços identitários da bossa nova e com aquele caraterístico travo ambiental nórdico. Confere...


autor stipe07 às 12:45
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Terça-feira, 9 de Julho de 2013

Radiation City - Animals in the Median

Lançado pela Tender Loving Empire no passado dia vinte e um de maio, Animals in The Median é o mais recente e segundo disco dos Radiation City, uma banda norte americana natural de Portland, no Oregon e formada por Cameron Spies, Elisabeth Ellison, Randy Bemrose, Matt Rafferty e Patti King. Entretanto, o single Foreign Bodies está disponível para download na Rolling Stone. Os Radiation City surgiram em 2009 devido ao relacionamento afetivo dos dois fundadores a quem se juntaram, pouco tempo depois, um outro casal de músicos e um multi-instrumentista. The Hands That Take You, o disco de estreia, o EP Cool Nightmare que se seguiu em 2011 e os concertos de promoção desses trabalhos deram rapidamente ao grupo uma excelente reputação e fizeram com que Animals In The Median estivesse a ser aguardado com alguma expetativa.

 

Antes de mais importa referir que Animals in the Median é um daqueles discos que não podes deixar de ouvir. As doze músicas são cantadas por Cameron e Elisabeth, sempre com a companhia animada dos outros três elementos. As canções são algo sofisticadas porque têm a típica sonoridade indie pop alegre e extrovertida, apesar de falarem muito da morte (Zombies), de amores perdidos e de traições, o que lhes confere uma certa aura nostálgica. Essa espécie de viagem ao passado também é audível na nebulosa e excitante Wash of Noise, nas nuvens cinzentas de Lark e na melancolia refinada feita com sons de grilos e coaxares de sapos que se escutam em Call Me. O grupo diz que as suas canções falam de corações que não perdem a esperança em dias melhores num mundo cada vez mais perigoso.
Há um apreciável ritmo em muitas canções, com influências da própria bossa nova e alguns tiques e lampejos típicos da eletrónica. Parece-me bastante plausível que os Radiation City ouçam alguns ícones da música brasileira como João Gilberto e Tom Jobim, assim como os Beatles na sua fase mais psicadélica (Buckminsterfullerene), apesar de citarem Dusty Springfield e até os The Flaming Lips e os Stereolab como influências declaradas. Acaba por ser interessante escutar o disco e apreender os diferentes universos sonoros que as canções procuram replicar, ouvir tudo isso em conjunto e assim, perceber o processo de criação dos Radiation City, que escreveram e arranjaram todas as canções em conjunto, durante um ano, entre Washington e Portland.
Animals In The Median impressiona pela excelência alcançada tanto lirica como instrumentalmente e melhora a cada audição. É um disco muito pouco convencional, leve, ideal para esta altura do ano, que flui naturalmente e permanece facilmente na nossa mente durante um longo período de tempo. Espero que aprecies a sugestão...

01. Zombies
02. So Long
03. Wash Of Noise
04. Food
05. Foreign Bodies
06. Wary Eyes
07. LA Beach
08. Entropia
09. Buckminsterfullerene
10. Summer Rain
11. Lark
12. Call Me


autor stipe07 às 13:09
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Terça-feira, 26 de Março de 2013

Devendra Banhart – Mala

Devendra Banhart está de regresso com Mala, o seu oitavo disco lançado recentemente por intermédio da Nonesuch e que interrompe um hiato de quase quatro anos, já que sucede a What Will Be, álbum lançado em 2009 e que replicava novamente a típica sonoridade folk psicadélica e latino americana do músico, razão pela qual todos ansiávamos por um regresso que fosse tudo menos normal e previsível, para que não tívessemos que nos deparar com um Devendra demasiado aobrrecido, previsível e calculista e atirá-lo de vez para a secção das irrelevâncias com as quais não há tempo a perder porque o mundo está demasiado habitado de música e, mais do que nunca, selecionar, é preciso.

Devendra deve ter tido em atenção esta necessidade de inovar quando começou a projetar Mala. Neste novo trabalho do músico mantém-se presente o fascínio pelos ritmos latinos que sempre acompanharam toda a discografia do cantor e compositor texano, porém, nunca de forma tão explícita como agora. Mala está cheio de referências à música construída na América Latina, principalmente os realces que sustentaram a bossa nova e boa parte dos sons brasileiros da década de cinquenta até à explosão da Tropicália. Devendra transforma-se num verdadeiro trovador latino quando interpreta Mi Negrita e cruza a pop solarenga dos Beatles com o glam rock em Won't You Come Over.

Nas suas letras sobressai constantemente um aprimorado jogo entre a gentileza e uma certa agressividade, no seio de canções manchadas pela saudade. Esta dicotomia não é propriamente algo que soe absurdo já que o humor é uma caraterística muito presente na escrita de Devendra e há que não esquecer, nesse apaziguamento, a tal serenidade tropical e o clima latino que banham Mala. Tudo isto cria um composto agridoce e melódico e a própria tristeza é compreendida com um ligeiro sorriso, algo bem patente em Your Fine Petting Duck, um tema que representa bem todo esse sentimento que abastece o álbum, tratando do fim de um relacionamento com nostalgia e com uma certa dose de felicidade.

Mala exala pacatez e honestidade e pressente-se que Devendra se apresenta como é, tão criativo como no começo da carreira e menos próximo do que em alguns momentos parecia ser uma encenação ou um personagem interpretado pelo artista.

Mergulhado em recortes dolorosos de tudo o que o músico viveu nos últimos quatro anos, Mala é atual e um trabalho eminentemente nostálgico. Menos metafórico e muito mais consciente da necessidade de soar íntimo do ouvinte, Devendra Banhart fez de cada tema deste disco um instrumento de aproximação com diferentes públicos, sendo este o álbum mais acessível e encantador da sua carreira. Espero que aprecies a sugestão...

01. Golden Girls
02. Daniel
03. Fur Hildegard Von Bingen
04. Never Seen Such Good Things
05. Mi Negrita
06. Your Fine Petting Duck
07. The Ballad Of Keenan Milton
08. A Gain
09. Won’t You Come Over
10. Cristobal Risquez
11. Hatchet Wound
12. Mala
13. Won’t You Come Home
14. Taurobolium


autor stipe07 às 13:09
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Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

Graveola e o Lixo Polifonico - Eu Preciso de um Liquidificador

Mistura rock, samba, funk, bossa nova e pitadas de música latina, aumenta o som e prepara-te para ouvires Eu Preciso de um Liquidificador, o alegre disco dos Graveola e o Lixo Polifonico, editado já em outubro de 2011, mas que, mesmo com um atraso considerável, não poderia deixar de divulgar, devido às letras bem humoradas e contagiantes e por personificar uma autêntica farra de um grupo de jovens músicos que dialogam abertamente com grandes ícones da música brasileira.

Neste disco incrível, desta banda de Belo Horizonte e disponível para download, ouve-se indie rock feito com bons solos de guitarra, como em Blues Via Satélite e Desencontro e samba, daquele gostoso e sem compromisso, que marca presença em Desdenha. Outro ponto que merece destaque é a sintonia entre as vozes de José Luis Braga e Luiz Gabriel Lopes, o principal compositor dos Graveola e o Lixo Polifonico. Eles ainda ganham um reforço de alguns amigos nas canções Kg de Pão, O Cão e a Ciência e Lindo Toque, algo que reforça o espírito de coletividade no seio da banda.

Eu Preciso de um Liquidificador representa então um enorme salto qualitativo numa banda que esbanja beleza, suculentas texturas musicais e uma formatação sonora rara e habilmente desenvolvida.
É impressionante o número de mentes que trabalham por trás de cada uma das canções que transbordam do disco e ainda mais diversificado é o conjunto de ritmos, sons e incontáveis referências que borbulham enquanto se desenvolve o álbum. Sejam a pop agradável e nada descartável da tal Blues Via Stélite, as pequenas transições pelo jazz e pela bossa nova em Canção para um Cão Qualquer Inverno, o samba, como já referi, em Desdenha, ou mesmo todo o clima caliente de Desmantelado, tudo se ouve como se estivessemos a fazer um grande passeio por diferentes épocas, estilos e preferências musicais.

Os Graveola e o Lixo Polifónico organizam neste Eu Preciso de um Liquidificador um convívio saudável entre tudo o que é música brasileira e promovem a arte da citação sem serem especializados em nenhum género e sem deixarem que qualquer um deles se sobreponha verdadeiramente. A música que se ouve aqui é uma harmoniosa chuva de detritos de toda a espécie, de todos os tempos ou apenas de hoje e representa uma explosão de criatividade que nunca se descontrola nem perde o rumo. Espero que aprecies a sugestão...

 clique na capa do disco para realizar o download gratuito. curta e colabore!


autor stipe07 às 22:50
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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012

Tom Zé - Tropicália Lixo Lógico

Por mais estranho ou inusitado que possa parecer para alguns, também aprecio alguma da música que se faz no lado de lá do atlântico, no nosso dito país irmão. E um dos nomes que sigo com o maior interesse é, como é fácil de perceber, uma mente que poucos conseguem acompanhar com facilidade, mas que fascina quem se dispõe a tentar entendê-la.  E digo isto porque explicar para confundir e confundir para esclarecer é a missão de Tom Zé, músico natural da Bahia e um dos artistas mais consagrados da cultura musical brasileira das últimas décadas. Tropicalia Lixo Lógico, editado recentemente pela Independente, é o seu disco mais recente e um trabalho onde Tom Zé se inspira na revolução cultural brasileira dos anos sessenta e recorre a fundamentos da filosofia, da história e até mesmo da neurologia para explicar a origem mestiça e a confusão de influências e características culturais e psicológicas do povo brasileiro, a chamada... Tropicália.

Ser Tom Zé deve ser, ao mesmo tempo, complicado, absurdo e fascinante. Além de músico, ele arrisca a tecer considerações acerca de outros campos tão díspares como a tal filosofia e história, para abarcar outras ciências mais exatas. Li algures que, segundo ele, o cérebro humano aloja, no hipotálamo, o que é desprezado pelo raciocínio primário da região principal de nosso cérebro, o córtex. O contato com o pensamento lógico ocidental (sacramentada na figura de Aristóteles) iniciado na creche faz com que as crianças (analfatóteles, os analfabetos em Aristóteles) abandonem o raciocínio nativo, de origem moura, oriental, que se transforma em uma matéria cerebral latente, armazenada no depósito de lixo do hipotálamo. Porém, uma vez ou outra, esse lixo lógico toma o lugar que lhe era de direito e se funde com o que já estava lá.

Assim, este músico considera que esse tal lixo lógico começou a ser plasmado em música quando Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros se debruçaram sobre a cultura popular brasileira para criar canções e assim, voltando ao ancestral, esses músicos modernizaram a cultura brasileira. Saímos da idade média nacional, diretamente para a era do pré-sal, canta Tom Zé em Tropicalea Jacta Est.

Mas neste Tropicália Lixo Lógico também há canções com uma carga menos teórica, digamos assim. Por exemplo, em O Motobói e Maria Clara, que conta com a participação especial de Mallu Magalhães, estamos na presença de uma canção singela sobre um motoqueiro, o trânsito e a sua amada. Aviso aos Passageiros é a versão em canção dos avisos de segurança encontrados nos elevadores. NYC Subway Poetry Department, cantada em inglês e com a participação de Rodrigo Amarante, segue esta mesma linha. Em Jucaju experimenta usar apenas cinco silabas, como se a canção fosse um jogo de montar e recombinar poeticamente. Já em A Terra, Meus Filhos o nosso planeta é retratado como se fosse uma mulher encantadora, singela, sofrida e de algum modo desprezível.

Neste álbum fica claro que Tom Zé é um dos maiores escritores de canções da música brasileira e usa muito bem, em simultâneo, referências eruditas e populares. Nas melodias ele mistura rock, samba, bossa nova e outros géneros, numa receita pouco clara e nada óbvia, mas com um resultado incrível e único. Muitas canções terminam no meo de nada, como se houvesse algum dano no ficheiro, ou uma falha clamorosa no processo de gravação. Essas músicas sem fim trazem uma sensação estranha, de coito interrompido, já que alguns cortes foram feitos nos momentos onde as músicas pareciam ainda ter muito para mostrar.

Tom Zé não quer fazer música ambiente. Este Tropicália Lixo Lógico é mais uma mostra da capacidade criativa e do génio sem fim do artista e a prova de que Tom Zé, mesmo com já cinquenta anos de carreira, é hoje um dos artistas mais inovadores da música brasileira. Espero que aprecies a sugestão...

01. Apocalipsom A (O fim no palco do começo)
02. Capitais e Tais
03. Tropicalea Jacta Est
04. O Motobói e Maria Clara
05. Marcha-Enredo da Creche Tropical
06. Amarração do Amor
07. Tropicália Lixo Lógico
08. Não Tenha Ódio no Verão
09. Jucaju
10. De-De-Dei Xá-Xá-Xá
11. A Terra, Meus Filhos
12. Debaixo da Marquise do Banco Central
13. Navegador de Canções
14. Aviso aos Passageiros
15. NYC Subway Poetry Department
16. Apocalipsom B (O começo no palco do fim)


autor stipe07 às 20:16
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