Quinta-feira, 2 de Maio de 2019

Mano A Mano Vol. 3

Cerca de ano e meio após Vol. 2, já viu a luz do dia Vol. 3, o novo trabalho dos  Mano a Mano dos irmãos André e Bruno Santos, dois guitarristas com um vasto percurso musical, eminentemente jazzístico e dos melhores intérpretes nacionais desse espetro sonoro, na atualidade.  Recordo que o projeto Mano a Mano estreou-se há meia década nos discos através de uma edição cujo financiamento foi obtido através de uma campanha bem sucedida de crowdfunding e que o sucessor, Mano a Mano Vol. 2,continha onze canções que, de acordo com o press release desse lançamento, centravam-se num duelo dinâmico de guitarras, um disco cheio de momentos de virtuosismo, elegância e humor, explorando as inúmeras possibilidades deste formato.

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Gravado no Estúdio Paulo Ferraz, com os manos rodeados de discos de Bill Evans, Ella Fitzgerald & Louis Armstrong, António Carlos Jobim, Boney M. e do projeto Planetarium, de Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlister, conforme se confere na capa do lançamento, Vol. 3 amplia o arrojo instrumental do catálogo da dupla, já que nas suas doze canções, além das presenças habituais da guitarra, da braguinha e do rajão, os sintetizadores e variados instrumentos percurssivos também têm um protagonismo que ainda não tinha sido visto nos Mano A Mano, no que concerne à definição do arquétipo fundamental de algumas das suas composições.

Irmãos com uma química evidente e que tem como um dos factos mais curiosos o André ser destro mas tocar com a guitarra virada para o lado esquerdo devido a uma espécie de efeito de espelho por ver o Bruno a tocar à sua frente anos a fio, os Mano A Mano assentam as suas propostas sonoras numa filosofia estilística com uma especificidade muito própria e estreitamente balizada, mas não deixam, por isso, de nos oferecer alinhamentos cada vez mais sinuosos e cativantes. A luminosidade madrugadora das cordas que vibram na introdutória Parque Aventura é apenas uma pequena amostra de um superior quilate interpretativo, porque Guimarães, logo a seguir, já é sinónimo da maior abrangência deste terceiro volume, numa melodia com forte apelo caliente, clima ampliado pela inserção de vários samples e efeitos percurssivos, alguns apenas insinuantes mas vincados, num resultado final pleno de virtuosismo e sentimento.

Dado em grande estilo o mote e com o ouvinte já preso, rendido e, em simultâneo, a deixar-se espraiar nestes dois temas, mas também a dar por si a sentir uma imensa curiosidade relativamente ao restante alinhamento, Vol. 3 prossegue, em grande estilo, à sombra do travo folk nostálgico de Rosa, da sumptuosa delicadeza que exala das constantes variações de tom em Flor do Amor, do travo afro que não pode deixar de ser ouvido sem ser acompanhado por um sorridente bater de pés ou um efusivo abanar de ancas em Cabo Verde, amplificado pelo kashaka, um instrumento de percurssão típico do arquipélago africano que dá nome ao tema e do fumarento espreguiçar a que nos convida Rocky, canções que vingam na onda dos vários dedilhares que se cruzam entre si e as tricotam de modo a materializar os melhores atributos que os Mano A Mano guardam na sua bagagem sonora. 

Até ao fim de Vol. 3 e ainda antes de uma reintrepretação feliz de Stardust, um original dos anos vinte do século passado de Hoagy Carmichael, revisto aqui com enorme protagonismo do rajão, a Madeira marca a sua presença, através do modo como a braguinha e o mesmo rajão dialogam entre si, com uma ímpar serenidade, na Valsa para Cândido Drumond de Vasconcelos, um tributo a este intérprete do machete e compositor que viveu na Madeira no século dezanove e também à boleia de uma magnífica e nostálgica versão de Noites da Madeira, um original de Tony Amaral, nome importante do jazz funchalense da primeira metade do século passado.

Em suma, é da constante inquietação que lateja do diálogo que estes dois músicos estabelecem entre si, que se sustenta muita da essência de um disco que, mesmo sem letras, não deixa de ser, no seu todo, um exímio e lúcido contador de histórias, deixemo-nos nós absorver por tudo aquilo que as cordas (e não só) nos sussurram ao ouvido com indesmentível clareza. Isso apenas é possível porque Vol. 3 está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que mesmo este género de música tão específico e sui generis pode ser também um veículo para o encontro do bem e da felicidade, quer individual quer coletiva. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 10:54
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