Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015

José González – Vestiges And Claws

Depois de se ter mostrado um jovem platónico e apaixonado em Veneer (2003), ou um cru e empírico observador da vida em Our Nature (2007), o sueco José González está de regresso e de mãos dadas com ambientes sonoros mais intimistas, à boleia de Vestiges And Claws, uma coleção de dez temas gravados na sua casa em Gotemburgo e que têm na folk acústica, que em determinados instantes pisca o olho a um certo travo psicadélico, as suas traves mestras. Refiro-me a canções competentes na forma como abarcam diferentes sensações dentro de um mesmo cosmos e que misturam harmoniosamente a exuberância acústica das cordas com a voz grave, mas suave e confessional de González, sendo este um álbum ameno, íntimo e cuidadosamente produzido pelo próprio autor e arrojado no modo como exala uma enorme elegância e sofisticação.

Com instantes como Stories We Build, Stories We Tell ou Leaf Off/The Cave, capazes de nos envolver num clima doce e reconfortante, mas também festivo, Vestiges And Claws sobrevive à sombra de arranjos bem feitos, que prendem a atenção, alternando entre climas calmos e agitados, conseguidos através da combinação da guitarra com outros sons e detalhes, quase sempre precurssivos, mas que nunca roubam às cordas o merecido protagonismo.

Cm uma dúzia de anos de carreira, com os Junip a serem também parte fundamental da sua existência musical, González mostra-se, ao terceiro tomo da carreira a solo, mais maduro e consciente do mundo que o rodeia, de certo modo, num estágio superior de sapiência que lhe permite utilizar o seu habitual espírito acústico para colocar-se à boleia de arranjos de cordas tensos, dramáticos e melódicos e contar histórias que o materializam na forma de um conselheiro espiritual sincero e firme e que tem a ousadia de nos querer guiar pelo melhor caminho, sem mostrar um superior pretensiosismo ou tiques desnecessários de superioridade. O sermão que nos oferece no tema homónimo é só um exemplo desta sua vontade de nos fazer refletir, com o romantismo de With The Ink of Ghost, ou a cândura da maravilhosa Let It Carry You (com a percussão feita por uma clave, um instrumento habitual na sua discografia), assim como os sussurros de The Florest a confrontarem-nos com a nossa natureza, uma sensação curiosa e reconfortante que ambientada pelos assobios rústicos de Vessel transforma-se numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia.

Every Age, o primeiro single retirado de Vestiges And Claws, também materializa esta demanda reflexiva que nos é servida por um sábio que surpreende pelo parco mas suficiente e profundo vocabulário que preenche a sua cartilha, sempre aberto às mais variadas interpretações (Some things change, some things remain, We don't choose where we're born, We don't choose in what pocket or form, But we can learn to know Ourselves on this globe in the void). Este acaba por ser um dos momentos líricos mais bonitos de toda a carreira de GonzálezLeaf Off/ The Cave, o segundo single do disco, obedece igualmente a este conceito da progressiva evolução existencial, rcordando-nos que nunca dvemos descurar os conselhos dos mais velhos, essenciais para que a vida seja vivida em plenitude e não apenas como um ponto de passagem esperado e rotineiro (Let the life lead you out).

Se a calma nos transmite sabedoria, ela não se reflete em passividade. José González diz à sua maneira em What Will que as garras e os vestígios do título do disco são os elementos que muitas vezes sobram após a nossa luta diária constante, enquanto os lindíssimos acordes do tema dão-nos a motivação necessária para acreditarmos que vale a pena esse sacrifício desgastante, desde que resulte na tal vivência existencial plena e verdadeiramente feliz.

Se o hinduismo acredita na existência de um estado transitório entre a morte e o ressurreição, onde a nossa alma recupera a divinidade perdida no nascimento, pode-se dizer que a música deste sueco nos concede a mesma sensação no modo como nos renova espiritualmente e nos acalma enquanto transmite sabedoria. Em Vestiges & Claws, o músico emociona, inspira e ilumina, levando-nos para um lugar calmo e pacífico, onde podemos fugir da velocidade, do caos e da ansiedade da vida moderna, um lugar que, independente de géneros ou estilos, definitivamente só existe na música. Espero que aprecies a sugestão...

José González - Vestiges And Claws

01. With The Ink Of A Ghost
02. Let It Carry You
03. Stories We Build, Stories We Tell
04. The Forest
05. Leaf Off / The Cave
06. Every Age
07. What Will
08. Vissel
09. Afterglow
10. Open Book


autor stipe07 às 14:22
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