Segunda-feira, 28 de Março de 2016

James – Girl At The End Of The World

Há bandas que resistem com firmeza ao definitivo ocaso e os britânicos James de Tim Booth, Jim Glennie (baixo), Larry Gott (guitarra), Saul Davies (guitarra, violino), Mark Hunter (teclados), David Baynton-Power (bateria) e Andy Diagram (trompete), são um excelente exemplo de um grupo que depois de um adeus anunciado com toda a pompa a circunstância, após uma carreira recheada de sucessos e uma popuplaridade enorme por cá, resolveu dar um novo fôlego ao projeto, uma segunda vida que se iniciou em 2008 com Hey Ma, e tem mais um novo capítulo no historial, pronto a ser apreciado por todos aqueles que, como é o meu caso, acompanham o grupo há mais de vinte anos.

james

Girl At The End Of The World, o décimo quarto longa duração dos James, sucede a La Petite Mort e foi produzido por Max Dingel (The Killers, Muse, White Lies), tendo sido escrito e gravado na Escócia e terminado nos estúdios Rak Studios, em St. John's Wood, Londres, contendo doze canções que lidam com o amor e toda a envolvência emocional que este sentimento provoca em quem procura vivênciá-lo com a maior plenitude possível.

Conhecemos Tim Booth há três décadas, já o ouvimos cantar sobre imensas temáticas e muitos de nós apropriaram-se de vários dos seus poemas e canções para expressar sentimentos e enviar mensagens a pessoas queridas, mas é curioso começar a ouvir este disco e perceber, logo em Bitch, que o músico ainda tem intata a capacidade de encarnar outras personagens, de forma bastante plausível, mesmo que sejam do sexo oposto. E neste tema fá-lo de modo bastante convincente,  à boleia de um baixo rugoso e encorpado, atravessado por flashes sintetizados particularmente inspirados, duas das imagens sonoras mais relevantes de Girl At The End Of The World, um disco que, como tem sido hábito nesta segunda vida dos James, procura um equilíbrio entre o charme inconfundível das guitarras que carimbam o ADN dos James com o indie rock que agrada às gerações mais recentes e onde abunda uma primazia dos sintetizadores e teclados com timbres variados, em deterimento das guitarras, talvez em busca de uma toada comercial e de um lado mais radiofónico e menos sombrio e melancólico. A presença de Max Dingel na produção é o tiro certeiro nessa demanda, apesar de não ser justo descurar a herança que nomes como Gil Norton ou Brian Eno, figuras ilustres que já produziram discos dos James, ainda têm na sonoridade do grupo.

Um clima bastante festivo é outra imagem impressiva deste alinhamento, que exala optimismo e luz em praticamente todos os temas. A pop feita alegoria em Waking e a dinâmica de To My Surprise, são dois claros exemplos disso, sendo a última uma canção onde os efeitos e as variações da bateria ajudam as guitarras a fazer brilhar a voz vintage, mas ainda em excelente forma de Booth. Essa excelente forma vocal é ampliada pelo excelente acompanhamento que a mesma faz ao piano em Attention e ao sintetizador na contemplativa Dear John, um dos melhores momentos melódicos do disco, o clássico tema orquestral, com alguns detalhes a darem à canção um clima romântico e sensível único e tipicamente James. Depois, se no clima acústico de Feet Of Clay existem alguns pormenores que nos remetem para os primórdios do grupo, nomeadamente para certos instantes de Laid, já a manta sintética que abastece Surfer's Song e as guitarras de Catapult exalam U2 por todos os poros sonoros, com Move Down South e Alvin a conterem alguns detalhes que nos convidam a uma pequena e discreta visita às pistas de dança mais alternativas, nomeadamente o tal baixo pulsante e vigoroso.

Nomes maiores da pop independente das últimas décadas e detentores de mais de vinte singles que alcançaram o top britânico, os James testemunharam todos os movimentos musicais que foram aparecendo em Inglaterra e foram sempre uma alternativa credível, por exemplo, à britpop. E a verdade é que seguem ainda firmes no seu caminho, a reboque de mais um disco feito com bonitas melodias e cheio de detalhes que mostram que os James ainda estão em plena forma e conhecem a fórmula correta para continuar a deslumbrar-nos com o clássico indie rock harmonioso, vigoroso e singelo a que sempre nos habituaram, fazendo-nos inspirar fundo e suspirar de alívio porque, felizmente, há bandas que, pura e simplesmente, não desistem. Espero que aprecies a sugestão...

James - Girl At The End Of The World

01. Bitch
02. To My Surprise
03. Nothing But Love
04. Attention
05. Dear John
06. Feet Of Clay
07. Surfer’s Song
08. Catapult
09. Move Down South
10. Alvin
11. Waking
12. Girl At The End Of The World


autor stipe07 às 11:19
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