Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015

Cityspark - Violet

Formados a 1 de Dezembro de 2008 entre Castelo de Paiva e Cinfães, os Cityspark abraçaram, de acordo com a banda, o desafio a novas sonoridades que passam pelo rock, a pop e o indie. Começaram por gravar, em 2009, o EP Made In Cityspark e um ano depois regressaram ao estúdio para gravar um novo tema intitulado Butterfly. Agora, alguns anos depois e após muitas dores de cabeça de persistência, de concertos realizados mas, acima de tudo, muita vontade de cumprir um dever realizado, chegou aos escaparates Violet, o primeiro longa duração da banda.

Violet foi gravado nos estúdios Replay Studios, produzido por Mário de Sá e a própria banda e já teve direito a um concerto de apresentação em Castelo de Paiva, que contou com a presença de diversos convidados especiais, estando a decorrer em bom ritmo a promoção do disco.

Independentemente do estado atual daquele indie rock de cariz mais alternativo e que aposta no revivalismo de outras épocas, nomeadamente os primórdios do punk rock mais sombrio que fez furor nos finais da década de setenta e início da seguinte, com nomes com os Joy Division, The Chameleons, ou os Cure à cabeça, o género nunca foi particularmente desenvolvido por cá, apesar do sucesso de algumas bandas nos anos oitenta, que se destacaram confessando essas influências e que, agregadas a esse estigma, procuraram também evoluir, nos trabalhos seguintes, para outras sonoridades e para a exploração de diferentes territórios sonoros.

Duas décadas depois, os Cityspark contêm no seu alinhamento músicos que sempre se mostraram expansivos e claro no modo como confessaram uma profunda devoção por essas referências fundamentais, mas Violet é um sinal claro que, se estes quatro músicos se orgulham dos atalhos e das rotas convergentes e divergentes com as suas preferências pessoais que já exploraram, também querem quebrar o enguiço de quem insiste em querer catalogar com injusto menosprezo alguns instantes discográficos de determinados projetos, afirmando que procuram apenas perceber zonas de conforto. Os Cityspark não renegam as suas raízes, mas também procuram romper com as mesmas e, de modo incisivo, alargar os horizontes até um presente que no universo do rock alternativo, aposta cada vez mais na eletrónica, mesmo que, para este quarteto seja essencial apostar em guitarras angulares, feitas de distorções e aberturas distintas e num baixo cheio daquele groove punk, com a bateria a colar todos estes elementos, com uma coerência exemplar.

Violet são, portanto, onze canções dominadas pelo rock festivo e solarengo, mas onde a eletrónica tem também uma palavra importante a dizer, já que, apesar do papel fundamental da guitarra na arquitetura sonora dos temas, os sintetizadores conduzem também o processo melódico, de modo a replicar uma sonoridade que impressiona pelo equilíbrio perfeito entre a contemporaneidade e um certo charme vintage.

O primeiro single retirado de Violet chama-se Sun Will Shine e o vídeo da canção já pode ser visto e partilhado por todos nas redes sociais. A canção é uma belíssima composição envolvida numa psicadelia luminosa, fortemente urbana, mística, mas igualmente descontraída e jovial, mas não o único grande destaque deste excelente disco; Os riffs de guitarra harmoniosos e a percurssão vincada de Come On e, principalmente, de Everybody, o meu tema preferido do disco, abrem-nos uma janela imensa de luz e cor e se, mais adiante, em Ugly Man, os Cityspark nivelam com elevada bitola qualitativa as suas experiências eletrónicas, em Why Have You Forgotten Me? o jogo de sedução que se estabelece inicialmente entre o orgão e a bateria, acaba por chamar a atenção da guitarra, que pouco depois junta-se e todos mostram como as belas orquestrações podem viver e respirar lado a lado e harmoniosamente com distorções e arranjos mais agressivos. Este quinto tema do alinhamento de Violet atravessa o atlântico para o lado de cá, vindo dos subúrbios de Brooklyn até aquela assumida pompa sinfónica e inconfundível e que nunca descurava as mais básicas tentações pop e que também fez escola no cenário indie britânico na década de noventa.

A busca de diferentes ambientes e a capacidade dos Cityspark em abarcar um leque aprofundado de referências fica também plasmada nos efeitos e no fuzz das guitarras de  People Say e Run To The Lady, mais dois temas do disco que merecem audição cuidada. Em ambos, os Cityspark piscam o olho descaradamente ao rock progressivo mais enérgico e ao indie rock dançável e anguloso nova iorquino e à energia do punk que se alia com alguns laivos de eletrónica que, neste caso, casaram impecavelmente com a voz, que, já agora, ao longo do disco evidencia uma elevada elasticidade e a capacidade de reproduzir diferentes registos e dessa forma atingir um significativo plano de destaque. Everybody é um tema essencial para se perceber a capacidade do vocalista em atravessar diferentes picos de tonalidade sem colocar em causa a firmeza e a visceralidade que as distorções a vertente lírica exigem e o jogo de vozes que se estabelece em Ugly Man, assim como os efeitos em eco de Come On também atestam o elevado nivel do registo vocal de Violet.

Com onze canções com uma sonoridade impar, em Violet é possível absorver a obra como um todo, mas entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem o trabalho é outro resultado da mais pura satisfação, como se os Cityspark quisessem projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção do alinhamento. Conforme me confessaram na entrevista que podes conferir abaixo, este disco é para ser consumido de forma agradável e fluente e sem pressões, para que o desejo de carregar novamente no play seja uma realidade. Espero que aprecies a sugestão...

Depois de terem começado a carreira em 2008 e terem editado um EP logo no ano seguinte, porque é que foi preciso esperar tanto tempo para ver a luz do dia o primeir longa duração?

Na realidade boa parte deste álbum já tinha sido gravado em 2013 mas depois de ouvirmos achamos que não reunia as condições necessárias para ser lançado, juntando a tudo isso o facto de ser preciso alguma “capital” para o pôr ca fora. Tudo tem um custo e por vezes esse custo fica caro e quando não se tem apoios fica difícil mas não impossível e o resultado está à vista.

Violet parece-me um título fantástico para um disco de estreia e bastante apelativo. Sabe a uma espécie de grito de revolta colorido, uma daquelas entradas em grande no palco em início do espetáculo, de forma tão ruidosa que desperta logo o espetador mais incauto. É isso que vocês pretendem com o vosso trabalho de estreia? Causar um forte impacto? Como esperam que seja recebida a vossa música?

Evidente que todas as bandas por mais pequenas e anonimas que sejam tem como objectivo causar sempre impacto pela positiva e obvio que não fugimos a essa regra, o nome “violet” surge na simplicidade de querer “abrir” os olhos a quem de repente passa o olhar pela capa do nosso CD, e assim sendo pensamos que isso foi conseguido pelas várias críticas que nos foi feito relativamente ao “violet”. Esperamos que seja consumido pelas pessoas de forma agradável e fluente sem pressões e que o possas ouvir e no final dizer “tenho que ouvir de novo”. O que hoje em dia se passa é bem diferente disso, é meter a ferro e fogo nos ouvintes o que não se quer ouvir.

Quando confessam fazer música como forma de desafio a novas sonoridades que passam pelo rock, a pop e o indie. À medida que iam gerando Violet, preocuparam-se em experimentar e compor de acordo com as vossas preferências, ou também tiveram o foco permanentemente ligado na vertente mais comercial? No fundo, em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente, correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Tudo o que está no “violet” foi feito para nos satisfazer, existem músicas que sem dúvida gostamos mais que outras mas no geral foram e são da nossa preferência.
Quando se fala no “comercial” fala-se quase sempre de algo que agrada a 99% das pessoas e sim não temos problemas em assumir que queremos alcançar o máximo de ouvintes possíveis mas para isso não significa que tenhas que ser ridículo e fazer o tal “lixo “ comercial. Na fase de produção do álbum ouve músicas que entraram de uma forma e saíram de outra mas no final ficamos satisfeitos. Na banda existem músicos com varias preferências musicais e de certa forma ate se torna engraçado porque o que fazemos é juntar tudo e agradar a “gregos e a troianos” onde está presente o rock, pop, indie etc…

Sempre senti uma enorme curiosidade em perceber como se processa a dinâmica no processo de criação melódica. Numa banda com vários elementos, geralmente há sempre uma espécie de regime ditatorial (no bom sentido), com um líder que domina a parte da escrita e, eventualmente, também da criação das melodias, podendo os restantes músicos intervir na escolha dos arranjos instrumentais. Como é a química nos Cityspark? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou um de vocês domina melhor essa componente?

O processo criativo dos Cityspark é simples e creio que seja assim na maioria das bandas e porquê? Porque tem duas vertentes ou seja tanto podemos criar algo em dez, vinte minutos numa jam como andar um mês para finalizar algo já começado. Tanto podes fazer uma música para a vida nuns minutos como uma valente merda em meses, é como a veia criativa estiver. Mas na realidade o que acontece na maioria das vezes nas nossas composições é trabalho de casa onde eu (Hugo) e o Jorge temos um papel mais activo trazendo as musicas e letras e depois os arranjos são feitos no local de ensaio. Mas o importante de tudo isto é que seja Cityspark.

Liricamente, este disco deverá ser certamente resultado de experiências pessoais e da vossa percepção acerca daquilo que vos rodeia. No que diz respeito à escrita das letras, o que mais vos inspira? E, já agora, qual é a dinâmica da banda nesse aspeto?

As letras de facto são elaboradas em experiencias vividas mas nada de extermínios cerebrais onde a depressão e o fascínio pelas coisas negativas esteja presente, pelo menos por enquanto não são feitas nessa direcção. A parte lírica tem como base num simples gesto ou observação ou ate mesmo a preocupação em chamar atenção dos outros em fazer algo de interessante onde o amor e a fantasia estão presentes.

Violet foi produzido por vocês e por Mário de Sá. Como surgiu a possibilidade de trabalhar com uma verdadeira referência? Que peso teve no produto final?

Cruzamo-nos com o Mário num concurso e logo de início houve um interesse da parte dele em crer saber o que fazíamos e os projectos que tínhamos para o futuro, achamos que era uma boa oportunidade para trabalhar com alguém que já tinha passado pelo mesmo e o interesse foi crescendo por ambos ate que surgiu o “Violet”. Quando tens alguém que sabe o que queres é sempre fácil de alcançar certos objectivos e o Mário ajudou-nos muito a nível de aprendizagem e na construção musical. Foi como disse nas palavras acima referidas, houve musicas que entraram de uma forma e saíram de outra e isso chama-se pré produção onde ele teve de facto um papel fundamental.

Como estão a decorrer os concertos de apresentação do disco? E onde podemos ver os Cityspark a tocar num futuro próximo?

Logo após o lançamento do “violet” foram dados alguns concertos para a promoção do álbum onde tivemos convidados e amigos naquela que podemos chamar “a nossa festa”. Neste momento está ser feito todo um trabalho de marcação de concertos
onde brevemente a banda estará na estrada.

Para terminar, outra curiosidade… Quais são as três bandas atuais que mais admiram?

As bandas que mais admiramos é sempre muito complicado responder pois somos cinco músicos onde passa de tudo nos nossos ouvidos e onde os gostos são distintos, mas de uma forma mais simples podemos dizer as bandas que mais impacto tem na cena musical actual e de certa forma nos incentivam para continuarmos a fazer música. São elas, The Killers, The Editors,Coldplay, U2


autor stipe07 às 21:34
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