Lançado no passado dia dez de março pela Memphis Industries e a Oh La La Records e produzido por Bon Iver, Aero Flynn é o álbum de estreia dos Aero Flynn de Josh Scott, o grande mentor da banda, ao qual se juntam Adam Hurlburt, Mike Noyce, Dave Power e Ben Lester. Este é um projeto norte americano oriundo de Minneapolis, liderado por um músico que tendo feito parte dos Amateur Love teve tudo para chegar ao estrelato, mas preferiu refugiar-se em Chicago, há alguns anos, algo deprimido, enquanto via Justin Vernon (Bon Iver), um dos seus melhores amigos e produtor deste álbum atingir o reconhecimento internacional. Aero Flynn é resultado da sua necessidade instintiva de criar e, sem ter a pressão de recuperar tempo perdido, apresentar ao mundo uma coleção de canções que apenas pecam por esta longa espera e por terem estado tanto tempo escondidas no âmago do seu autor.

No frenesim dos dias de hoje, de constante apelo ao repentino, com a constante necessidade de correr, de partir e chegar, de disputar e de argumentar, mesmo que não haja bases sólidas nem tempo para as formar, ter o privilégio de usar alguns instantes do precioso tempo que nos engole, segundo após segundo, para saborear um disco como Aero Flynn é um acontecimento que deveria estar ao alcance do mais comum dos mortais e fazer parte das suas obrigações diárias, como receita eficaz para a preservação da integridade sentimental e espiritual de cada um, duas das facetas que, conjugadas com a inteligência, nos distinguem a nós humanos, dos outros animais.
A miríade de efeitos que replicam sons naturais da contemplativa Twist e o modo como se misturam com as cordas de uma viola, assim como a extrema sensibilidade que escorre desse instrumento e do lindissimo falsete de Josh, em Plates ou em Crisp, são sintomáticos da enorme fragilidade que este músico transpira por todos os poros. E, já agora, analisar a música de Josh Scott e não falar da sua voz é desprezar um elemento fulcral da sua criação artística; Ela é em Aero Flynn um fio condutor das canções, seja através desse falsete, ou através de um registo sussurrante, ou ainda de uma performance vocal mais aberta e luminosa e que muitas vezes, casando com as cordas, contrasta com a natural frieza das batidas digitais, porque expondo-se à boleia de uma folk intimista e sedutora, esta não sobrevive isolada e ganha uma dimensão superior ao abrigar-se num arsenal de sintetizadores que incorporam a densidade e a névoa sombria que a sua música exige e que nessa Crisp ganha contornos superiores de magnificiência e majestosidade.
Como uma espécie de Thom Yorke mais acústico, Josh disserta neste disco sobre os seus anseios, sonhos e angústias, fazendo-o com a inteligência e sagacidade necessárias para que a sua música tenha o efeito soporífero e retemperador acima descrito e que justifica, desse modo, dedicada audição. Não é que Scott faça do seu percurso de vida o principal cavalo de batalha de Aero Flynn, ou que o seu conteúdo sirva para exerocizar diversos demónios. Mas o modo como soa triunfante e luminoso em Dk/Pi ou um pouco só e triste à boleia do piano idílico de Moonbeans, atestam o quanto é frágil este equilibrio em que hoje vive e que mesmo a segurança e o fulgor do groove de Tree não disfarçam nem compôem. Este tema é, sem dúvida, um dos momentos altos do disco, assente numa batida crua, cheia de loops e efeitos em repetição constante e elementos minimalistas que vão sendo adicionados a um baixo sintético com um volume crescente, quase sempre livres de constrangimentos estéticos e que nos provocam um saudável torpor. Podendo tal descrição não ser a imagem de marca mais significativa da música dos Aero Flynn, essa abordagem mais maquinal parece, no entanto, ser obra de alguém decididamente apostado em compôr música com bom gosto e diversidade e, de forma subtil, criar um ambiente muito próprio e único através da forma como o sustenta instrumentalmente, ao privilegiar também, no universo da folk, uma abordagem eminentemente sintética.
É, portanto, de um certo cruzamento espetral e meditativo que o disco vive, um registo que espelha a elevada maturidade dos autores e espelha a natural propensão dos Aero Flynn para conseguirem, com mestria e excelência, manusear a eletrónica digitalmente, através de batidas digitais bombeadas por sintetizadores e adicionar-lhe alma, com as cordas e o piano, replicando alguns dos melhores detalhes da folk contemporânea. Aero Flynn é de uma subtileza experimental incomum e, mesmo que à primeira audição isso não transpareça claramente, os temas estão carregados de sentimentos melancólicos; Cada música tem sempre algo de pessoal e há agregados sonoros que são já um referencial obrigatório de alguns dos melhores momentos ambientais deste ano e que personificam uma arquitetura sonora que sobrevive num domínio muito próprio e que dificilmente encontra paralelo no cenário musical atual. Espero que aprecies a sugestão...

01. Plates2
02. Twist
03. Dk/Pi
04. Crisp
05. Tree
06. Floating
07. Maker
08. Brand New
09. Moonbeams
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