Parece que ainda foi ontem, mas já está a comemorar uma década de vida Astro Coast, o extraordinário registo de estreia dos Surfer Blood e que colocou esta banda oriunda da Flórida no mapa. Para assinalar a efeméride o grupo anunciou o lançamento do sucessor de Snowdonia (2017), um novo álbum ainda sem nome, que irá chegar aos escaparates no próximo ano e divulgou Hourly Haunts, um EP com seis canções e com uma identidade própria já que nenhum destes novos temas do quarteto fará parte desse trabalho que irá ver a luz do dia em dois mil e vinte.

Atualmente formados por John Paul Pitts, Tyler Schwarz, Mike McCleary e Lindsey Mills e com um percurso algo acidentado mas sempre profícuo e balizado por um surf rock claramente feliz no modo como pisca o olho a espetros sonoros tão variados como a surf music ou o rock alternativo dos anos noventa, os Surfer Blood oferecem-nos em Hourly Haunts talvez a coleção de canções mais inspirada dos seus dez anos de carreira. São seis composições solarengas, assentes num rock direto e incisivo, tremendamente luminoso e otimista, bastante festivo e exuberante, feito à boleia de guitarras em que abundam várias camadas de distorção, um detalhe imprescindível para o dinamismo de um EP extremamente criativo e pleno de melodias únicas e com um forte cariz radiofónico.
Assim, da toada inicialmente sombria mas depois fortemente orquestral de Around Your Sun à nostalgia ensolarada de Atom Bomb e ao frenesim pop de Nm Sky Song, passando, pouco depois, pelo piscar de olhos da distorção das guitarras ao rock mais progressivo em Windy e, no ponto alto do EP, pelo energia otimista que exala de Cariboo, tudo parece ter sido pensado para soar bem nos nossos ouvidos, com naturalidade e sem exageros desnecessários, num resultado final verdadeiramente feliz e inspirado. Não restam dúvidas que os Surfer Blood continuam na sua louvável cruzada de busca incessante do melhor estilo sonoro, num percurso cheio de energia criativa, marcada por uma angústia quase inofensiva, onde não faltam momentos altos e de notável esplendor e júbilo. Este é claramente o caso. Espero que aprecies a sugestão...

01. Around Your Sun
02. Cariboo
03. Windy
04. NM Sky Song
05. Atom Bomb
06. Edge Of The World

Naturais de Los Angeles, os norte americanos Allah-Las de Miles Michaud, Pedrum Siadatian, Spencer Dunham e Matt Correia têm finalmente sucessor para o excelente registo Calico Review de dois mil e dezasseis. Será a onze de outubro que irá ver a luz do dia Lahs, o novo compêndio de originais do quarteto, um trabalho que irá chegar aos escaparates através da Mexican Summer, a habitual editora do grupo.
Os Allah-Las viajaram imenso depois da edição de Calico Review, com passagens por locais táo variados como todo o continente americano, a Europa, África do Sul, Austrália, Rússia e leste da Ásia e o conteúdo de Lahs é bastante inspirado por essa demanda mundo fora, nomeadamente as experiências que a banda foi conseguido vivenciar além das normais rotinas de uma digressão musical.
Polar Onion é o mais recente single divulgado das treze canções do alinhamento de Lahs, uma composição imbuída de uma indesmentível vibe sessentista, assente em luminosas cordas, uma percurssão tremendamente groove e alguns efeitos hipnóticos na guitarra, detalhes que sustentam uma das mais belas melodias de um disco que certamente abraçará também a folk e o country sulista americano, além da típica psicadelia lo-fi que carateriza o adn dos Allah-Las. Confere...
O sono é talvez a atividade humana que ainda carece de maior profundo conhecimento, acerca não só da sua função e dos benefícios que traz para o funcionamento do nosso organismo, mas também do modo como se processa e as caraterísticas essenciais dos diferentes ciclos que contém. Isso não impediu que os islandeses Sigur Rós, provavelmente os maiores responsáveis por toda uma geração de ouvintes se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical, procurassem criar uma espécie de banda sonora perfeita para uma sessão de sono completa, tendo nascido assim Sigur Rós Presents Liminal Sleep, um alinhamento de nove canções pensadas para as diferentes fases do nosso sono, de modo a tornar essa necessidade fisiológica fundamental ainda mais reconfortante e bem sucedida ( we like the fact that sleep remains defiantly mysterious; something we all do — all need to do — but can’t ever get fully inside. this playlist is a modest attempt to mirror the journey of a sleep cycle, with its curves, steady states and natural transitions. - Jónsi, Alex Somers & Paul Corley).

Cada uma das nove composições de Sigur Rós Presents Liminal Sleep, representa um momento específico do ciclo do sono e nelas todas as opções instrumentais, predominantemente sintéticas e minimalistas, se orientaram de forma controlada. Assim, todos os detalhes escutados funcionam como um todo, agregados em nove composições que não deixam de ser um bloco único de som que dá cor, movimento e substância à exuberância natural de um dos pilares essenciais da nossa existencia enquanto organismos vivos e que se querem saudáveis.
Na verdade, neste Sigur Rós Presents Liminal Sleep, os Sigur Rós acabaram por criar um alinhamento musical com um objetivo eminentemente funcional, mas que não deixa de ter uma vincada veia de sensibilidade e emoção. Se a música, como forma eminente de manifestação artística, teve sempre, ao longo da história do homem, seu criador privilegiado, uma faceta bastante recreativa e se culturalmente essa função este sempre um pouco acima de todas as outras, estas nove canções foram idealizadas como elixir soporífero relaxante e meditativo, ou seja, são, na minha modesta opinião, um bom remédio para quem tenha insónias ou outros distúrbios de sono.
Em suma, Sigur Rós Presents Liminal Sleep é claramente capaz estar presente e de ir ao encontro da necessidade intuitiva que todos nós temos de dormir, utilizando essa atividade como arma capaz não só de fazer o nosso corpo descansar e recarregar baterias mais também de modular o nosso humor, sendo, esse mesmo sono, por excelência, o refúgio onde podemos encontrar, também sonoramente, a pura realização feliz e plena desse preenchimento interior.
O resultado final deste trabalho sui generis é um falso minimalismo ambiental que desafia os nossos sentidos, segundo após segundo, tal é a opulência sonora de detalhes, ruídos e efeitos que cruzam as melodias, uma receita que não soará particularmente estranha a quem já está devidamente identificado com a discografia dos Sigur Rós e percebe que há aqui o apelo da novidade, mas sem abandonar a essência. Espero que aprecies a sugestão...

01. Sleep 1
02. Sleep 2
03. Sleep 3
04. Sleep 4
05. Sleep 5
06. Sleep 6
07. Sleep 7
08. Sleep 8
09. Sleep 9
Dez anos depois de uma profícua colaboração que resultou num disco intitulado Discovery (2009) e de Rostam Batmanglij, membro dos Vampire Weekend de Ezra Koenig, ter produzido, cerca de meia década depois, Need Your Light, o último registo de originais dos Ra Ra Riot, alinhamento que continha Water, um tema composto a meias por Rostam e a banda, o músico nova iorquino e o coletivo de Siracusa, nos arredores da mesma cidade, voltam a unir esforços em Superbloom, o novo compêndio discográfico do grupo liderado por Wes Miles e ao qual se juntam atualmente Mathieu Santos, Milo Bonacci, Rebecca Zeller e Kenny Bernard, um album com doze canções que colocam os Ra Ra Riot na senda de uma pop nostálgica, mas que entronca nas tendências mais atuais que misturam cordas e sintetizadores sempre com luminosidade e irrepreensível assertividade melódica.

Quem conhece a fundo o trabalho de Rostam Batmanglij, quer como músico quer como produtor, percebe facilmente que Superbloom é um daqueles discos em que o produtor tem uma palavra decisiva no seu conteúdo, mesmo no que concerne ao próprio arquétipo fundamental das canções. Se Need Your Light já tinha mostrado uns Ra Ra Riot mais radiofónicos e longe do lo fi, Superbloom coloca-os decisivamente na rota de uma sonoridade que se quer apelativa, otimista e de fácil assimilação, mas sem deixar de exalar um superior quilate criativo.
Assim, se logo na majestosidade e na amplitude de Flowers é percetível a vasta míriade instrumental que sustenta Superbloom, em Bad To Worse, canção inspirada em vagas memórias e longas viagens rodoviárias, o ritmo divagante e melancólico da bateria e o modo como encaixa na perfeição com o registo vocal em falsete de Miles, enquanto as sintetizações e as cordas, à medida que se acomodam progressivamente na melodia, fazem a canção levitar, levando-nos com ela, deixa-nos letargicamente logo à mercê de um alinhamento que faz ressurgir o nosso baú de memórias, mas também nos acomoda dentro das tendências essenciais da pop atual. E esta dupla capacidade que Superbloom tem de nos surpreender é um dos seus maiores trunfos, amplificada na impetuosidade de Belladonna e no neopsicadelismo de Dangerous, mas também na cadência milimétrica da rugosidade progressiva de Endless Pain/Endless Joy, na cosmicidade retro das sintetizações e da batida de Bitter Conversation e, principalmente, no groove festivo de This Time Of Year, uma das composições mais divertidas da carreira dos Ra Ra Riot.
Superbloom eleva o quinteto para um novo patamar instrumental mais arrojado e afina a excelência com que o grupo continua a abordar o lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzindo essa valência em inspirados versos e, principalmente, num cruzamento feliz entre eletrónica e indie pop, sendo exercício nitidamente recompensador escutar o álbum e conferir a vasta heterogeneidade de elementos e nuances que caraterizam cada um dos tema do melhor registo da carreira dos Ra Ra Riot. Espero que aprecies a sugestão...

01. Flowers
02. Bad To Worse
03. Belladonna
04. Endless Pain/Endless Joy
05. War And Famine
06. Bitter Conversation
07. This Time Of Year
08. Gimme Time
09. Backroads
10. Dangerous
11. An Accident
12. A Check For Daniel

Será a vinte e sete de setembro próximo e à boleia da ATO Records que irá ver a luz do dia o terceiro registo de originais dos britânicos Temples, uma banda de rock psicadélico formada por James Edward Bagshaw (vocalista e guitarrista), Thomas Edison Warsmley (baixista), Sam Toms (baterista) e Adam Smith (teclista e guitarrista). Este quarteto natural de Kessering, estreou-se nos discos em dois mil e catorze com o excelente Sun Structures, três anos depois foi editado Volcano, o sempre difícil segundo disco e agora será a vez de Hot Motion, onze canções das quais já se conhece a que dá nome ao álbum e que abre o seu alinhamento e You’re Either On Something, a segunda composição do registo.
Música tremendamente nostálgica e liricamente muito bem sucedida (You're either on something or you're onto something), You’re Either On Something contém uma sonoridade eminentemente lisérgica e com aquele forte travo setentista, que conduziu alguns dos melhores intérpretes do rock experimental e progressivo da história do rock clássico, uma abordagem algo sombria por parte dos Temples e que faz adivinhar um registo mais intrincado, grandioso e complexo que os antecessores. Confere...

Cerca de ano e meio depois do registo Love In The Modern Age, Josh Rouse, músico natural de Nashville, no Nebraska e um dos meus intérpretes preferidos a solo, está de regresso com Trouble, um novo single lançado por intermédio da Yep Roc Records e uma revisitação feliz de um clássico com trinta e oito anos da autoria de Lindsey Buckingham.
Versão que explana a enorme sensibilidade melódica que é intrínseca a Josh, nomeadamente na reconfortante envolvència entre piano e viola e os arranjos que selecionou para sobressair essa mescla, Trouble transmite-nos uma sensação reconfortante de proximidade e de fulgor, sendo um excelente aperitivo para o concerto que o músico vai apresentar a vinte e oito de Novembro próximo, no Hard Club. Confere...

Os The New Pornographers de Kathryn Calder, Neko Case, John Collins, Todd Fancey, Carl Newman, Joe Seiders, Blaine Thurier e Simi Stone, já têm sucessor para o excelente Whiteout Conditions de dois mil e dezassete. In The Morse Code Of Brake Lights será o oitavo registo da carreira do coletivo canadiano e terá onze canções que devem manter o habitual indie pop rock inspirado do grupo, tendo em conta o conteúdo de Falling Down the Stairs Of Your Smile, o primeiro avanço já divulgado desse trabalho e que soa a uma típica canção dos The New Pornographers.
De facto, em Falling Down the Stairs Of Your Smile quem vence é aquele pop rock clássico e intemporal, uma canção em que não se deixa, em nenhum instante, de ter vontade de pular e de querer desertar para uma espécie de universo paralelo que o tema sugere, feito com aquela felicidade incontrolável e contagiante que todos nós procuramos e que, nesta composição, tanto surgem na impulsividade do baixo e nas notas mais delicadas do piano e na cosmicidade dos sintetizadores, mas também quando elas estão presentes de um modo particularmente explosivo, nas guitarras, assim como nas vozes de Newman e Case, que se alternam e se sobrepôem em camadas, à medida que estes e outros instrumentos fluem naturalmente, sem se acomodarem ao ponto de se sufocarem entre si, naquilo a que é usual chamar-se de som de banda. Confere Falling Down the Stairs Of Your Smile e a tracklist de In The Morse Code Of Brake Lights...
01 You’ll Need A Backseat Driver
02 The Surprise Knock
03 Falling Down the Stairs Of Your Smile
04 Colossus Of Rhodes
05 Higher Beams
06 Dreamlike And On The Rush
07 You Won’t Need Those Where You’re Going
08 Need Some Giants
09 Opening Ceremony
10 One Kind Of Solomon
11 Leather On The Seat

Quase quatro anos depois de What Went Down, os Foals de Yannis Philippakis prepararam dose dupla para dois mil e dezanove, tendo começado com o lançamento, no passado mês de maio, de Everything Not Saved Will Be Lost Part 1, ao qual sucederá Everything Not Saved Will Be Lost Part 2, já no início do outono, dois trabalhos com a chancela do consórcio Transgressive / Warner Bros. Sexto registo da carreira do projeto britânico e, tal como o antecessor, com artwork do artista equatoriano Vicente Muñoz, que pretende simbolizar muito do conteúdo lírico dos álbuns através de um cruzamento criativo entre a natureza e uma construção humana e produzido pela própria banda e por Brett Shaw, Everything Not Saved Will Be Lost Part 2 é o segundo registo do projeto sem a presença do baixista Walter Gervers que o ano passado abandonou amigavelmente os Foals.
Black Bull é uma das composições já divulgadas de Everything Not Saved Will Be Lost Part 2, uma canção impulsiva e eloquente, assente em guitarras conduzidas por uma epicidade frenética, crua e impulsiva, que tem ainda o bónus de contar com um elevado protagonismo do baixo na arquitetura melódica que a sustenta. Confere...

Na linguagem heráldica, Dexter e Sinister são termos usados para referir a direita e a esquerda, respetivamente, dos elmentos presentes no escudo de um brasão de armas. Esse é também o título do novo tema dos britânicos Elbow de Guy Garvey, uma das bandas fundamentais do cenário indie das duas últimas décadas. Primeira composição gravada pelo grupo em ano e meio, Dexter And Sinister é o avanço revelado para Giants Of All Sizes, o álbum que este grupo natural de uma pequena localidade chamada Salford irá lançar a onze de outubro próximo.
Donos de um som épico, eloquente e que exige dedicação, os Elbow verbalizam sonoramente em Dexter And Sinister uma necessidade quase biológica de Garvey de nos elucidar a sua visão sobre o Brexit e, provavelmente ainda a lidar com as consequências do seu divórcio da escritora Emma Jane Unsworth, como enfrentar a habitual ressaca emocional que os eventos familiares menos positivos provocam no equilíbrio emocional de qualquer mortal.
Gravado em Hamburgo, na Alemanha, nos estúdios Clouds Hill Studios, com equipamento eminentemente analógico que encorajou a banda a gravar o tema tocando-o ao vivo e na íntegra numa sala ampla do local e contando com a participação especial vocal de Jesca Hoop, Dexter And Sinister mistura com ímpar virtuosismo um baixo vibrante, com alguns efeitos sintetizados subtis, nuances que aprimoram ainda mais o já habitual cariz orquestral do grupo, num resultado final com um clima blues particularmente majestoso, charmoso, amplo e criativo. Confere...
Ty Segall é uma máquina de fazer discos. Não apenas trabalhos aleatórios, composições frias ou registos descartáveis, mas lançamentos de peso dentro da cena independente norte-americana. Dono de uma infinidade de projetos paralelos cada um deles com vários álbuns lançados, é quando assume as guitarras na carreira a solo que este californiano, natural de São Francisco, alcança o melhor desempenho. Segall tem editado ultimamente, em média, dois registos por ano, adicionando à sua discografia, tomo após tomo, mais um conjunto de canções assentes em riffs assimétricos, ruídos pop e todo o assertivo clima do garage rock, algo que faz dele um dos artistas de maior relevância no panorama atual. O novo disco do artista chama-se First Taste e viu a luz no início deste mês de agosto, por intermédio da Drag City.

Décimo segundo trabalho discográfico da carreira do músico e o primeiro do californiano sem ter as guitarras na linha da frente do processo de composição das suas canções, First Taste é também um dos seus mais ecléticos e heterogéneos registos, porque nos oferece novas nuances que conferem um grau de inedetismo ao seu alinhamento quando comparado com os antecessores mais recentes. Convém, no entanto, salientar que se as guitarras foram substituidas por teclados, sintetizadores e cordas de outras proveniências, First Taste não deixa de soar a um registo típico de Ty Segall porque, mesmo tendo optado por um caminho diferente do habitual, acabou por entroncar, como seria de esperar, naquela caraterística crueza do fuzz que define a personalidade sonora do autor, mas também, tendo em conta a luminosidade do banjo que sustenta The Arms e a indisfarçável melancolia que exala da fabulosa ode festiva do banjo que aquece Lone Comboys, na limpidez que nunca se mostra exageradamente pop e que também marca alguns dos melhores momentos da sua carreira.
Ty Segall tem uma visão muito própria da dita psicadelia e em First Taste, com a tal opção pelo aparente desprezo relativamente à sua fiel amiga guitarra, mostra não só uma bem sucedida saída da sua habitual zona de conforto, mas também uma nova forma de atingir o noise lo fi que tanto lhe diz. Taste, o ruidoso imponente tema que abre o alinhamento do disco, tem esse cunho de acessibilidade, com o travo blues de Whatever, a majestosidade vocal que depois é afagada por um subtil piano em Ice Plant e a imponente parede percurssiva que cerra os punhos aos sons abrasivos sintetizados que se intrometem em Self Esteem, a serem outros momentos altos de mais uma espécie de viagem lisérgica através do tempo, até há quase meio século, em completo transe e hipnose.
Confesso que sempre admirei a capacidade que algumas bandas ou projetos têm de construirem canções assentes numa multiplicidade de instrumentos e são imensos os casos divulgados e exaltados por cá. Como não podia deixar de ser, no caso de Ty Segall a fórmula selecionada desta vez é muito simples, sair da tal zona de conforto. E aquilo que sobressai de First Taste acaba por ser a genialidade e a capacidade de execução deste verdadeiro mestre do improviso psicadélico, capaz de utilizar um receituário diferente e continuar a criar aquelas atmosferas nostálgicas e hipnotizantes capazes de nos transportar para uma outra galáxia, feita de imensa aúrea crua e visceral e, como é seu apanágio, eminentemente sessentista. Espero que aprecies a sugestão...
Será no próximo dia onze de outubro que irá chegar aos escaparates Senso Comum, o primeiro álbum gravado em estúdio dos madeirenses Men On The Couch, de Guilherme Gomes, João Rodrigues, Tiago Rodrigues e Francisco Sousa, um alinhamento de onze canções capatado nos míticos BlackSheep Studios em Sintra. Após vários anos a tocarem juntos, a banda madeirense decidiu finalmente pegar nas músicas que foi acumulando e aventurar-se na criação do disco de estreia, um álbum que, de acordo com o grupo, carrega todas as felicidades, desilusões, pensamentos e teorias que uns miúdos na casa dos vinte anos possam ter.

Assim, esta banda que começou por cantar em inglês mas rapidamente optou pela língua mãe, oferece-nos em Senso Comum,algumas músicas mais calmas e outras para abanar a anca, tendo, no processo de composição, olhado com uma certa gula para o pop rock contemporâneo, mas também, numa curiosa mescla, para alguma da melhor música popular brasileira. O resultado final são quarenta e três minutos de temas originais e refrescantes, que abordam vários temas do domínio comum da nossa sociedade, com letras leves e fáceis de digerir onde o ouvinte tem espaço para rir, chorar, dançar, gritar e refletir ao som das guitarras melódicas características da banda.
Se eu morresse amanhã é o primeiro avanço retirado de Senso Comum em formato single, uma composição que faz uma abordagem leviana e recheada de ironia a algo que assalta, pelo menos uma vez na vida, o pensamento de todos: O que é que acontecia se morrêssemos amanhã? Ficava tudo igual? Iam chorar por nós? Faziam uma grande festa? Era bolo de quê?, apenas para se chegar à conclusão que a vida continua e o mundo continua a girar.
Este single vem acompanhado de um videoclip, realizado por Paulo André Ferreira, que reflete bem a mensagem da música. Filmado maioritariamente num take em reverse, o vídeo mostra-nos o funeral dos membros da banda onde há espaço para luto, tristeza, desinteresse e também muita alegria. Confere...
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Chama-se Fever Dream o novo álbum dos islandeses Of Monsters And Men de Nanna Bryndís Hilmarsdóttir, Ragnar þórhallsson, Brynjar Leifsson e Arnar Rósenkranz Hilmarsson, um trabalho que viu a luz do dia à boleia da etiqueta Republic Records e que sucede ao aclamado registo Beneath The Skin, lançado em dois mil e quinze.

Imagine-se Reiquiavique em hora de ponta e um cruzamento onde estão parados projetos como os The Naked and Famous, Dirty Projectors, Childish Gambino e Katy Perry. Os semáforos avariam, todos chocam no centro do cruzamento e dessa explosão sónica acidental nasce Fever Dream, um disco produzido pela própria banda e por Rick Costey e que foi idealizado quase integralmente por Nanna Bryndís Hilmarsdóttir, um exercício de escrita e composição que a própria vocalista já confessou ter sido particularmente exaustivo. O modus operandi foi o uso da guitarra acústica como instrumento fundamental do processo de criação do arquétipo melódico dos temas e depois o adorno das mesmas foi feito através do uso assertivo de um sintetizador caseiro. A partir daí, num caminho simbiótico entre o orgânico e o sintético, ganhou vida e cor um alinhamento que tem no tema Alligator, uma vibrante composição que agrega impecavelmente a filosofia sonora do disco, o seu ponto fulcral, mas também outros momentos de particular destaque. Um deles é Wild Roses, uma canção com um elevado cariz reflexivo e melancólico, que inicia com um melodia ao piano bastante aditiva, mas que depois se expande num pop rock apoteótico, através de guitarras pulsantes e sintetizadores plenos de epicidade, à medida que a interpretação vocal de Nanna Hilmarsdóttir ganha entusiasmo e sentimento. Depois, a homenagem que é feita à beleza natural do país da banda em Róróró, a luminosidade do eletropop que edifica Waiting For The Snow, a canção do registo em que melhor ressoam os exímios recursos vocais de Nanna e a impecável performance percurssiva que temas como Ahay e Stuck In Gravity plasmam com superior quilate, são instantes que reforçam a consistência pura de um alinhamento que é também um tratado daquele pop rock apoteótico que se define com uma percussão vibrante e pleno de guitarras e onde cada verso de cada canção é entoado com sentimento e emoção.
Disco que deixa definitivamente de parte aquela pitada folk rock que fez sempre parte do adn dos Of Monsters and Men e que marcou os antecessores My Head is an Animal e Beneath the Skin, Fever Dream aposta definitivamente e em exclusivo naquela pop dançante e efusiva, uma nova postura sonora que acaba por provocar uma conexão imediata entre banda e ouvinte. O seu próprio cariz radiofónico, acessível e orelhudo tem o veneno eficaz para congregar uma vasta legião ainda maior de seguidores entusiastas e ávidos de canções impecavelmente produzidas e que apelem de modo incisivo à grandiosidade do sentimento, confirmando que este quarteto islandês representa muito do que de melhor o mercado alternativo e independente tem atualmente para oferecer. Espero que aprecies a sugestão.

01. Alligator
02. Ahay
03. Róróró
04. Waiting For The Snow
05. Vulture, Vulture
06. Wild Roses
07. Stuck In Gravity
08. Sleepwalker
09. Wars
10. Under A Dome
11. Soothsaye
O músico e compositor Tiago Vilhena, que já foi George Marvison noutro projeto e membro dos Savana está prestes a estrear-se nos lançamentos discográficos com um disco que tem em D'esta vida o mais recente single divulgado, assim como o video do mesmo. A propósito deste lançamento, transcrevo o seu press release que descreve com particular grau de impressionismo quer o tema quer o seu filme...

D’esta Vida revela três modos de olhar para, ou de viver a vida, acabando sempre de relatar cada um deles com, e não vou dizer mal desta vida, mostrando que há inúmeras formas de abordar a nossa existência sem que nenhuma delas seja necessariamente melhor do que a outra. Para vincar esta opinião, Tiago escolheu convidar dois músicos para cantar as diferentes filosofias sendo que a primeira é cantada pelo próprio, a segunda é cantada pelo José Penacho (Marvel Lima e Zé Simples) e a terceira pela Bia (April Marmara).
O vídeo que acompanha a música é feito pela Zarolina, que no passado já fez um vídeo para o Tiago Vilhena quando ele usava o nome George Marvinson. Zarolina optou, desta vez, por apresentar silhuetas marcadas por sombras numa parede, deixando a objetividade a cargo da letra da música, acompanhando simplesmente o balanço e o andamento dos instrumentos.
A simplicidade que Tiago tenta puxar da música, apesar da complexidade harmónica, é já um hábito seu. Nesta música, ele mostra também um gosto por instrumentos de orquestra como violinos, dando uso à técnica pizzicato, trombone e tímpanos. Acabando com uma conclusão instrumental, onírica e nostálgica, ficamos com uma música que é também uma história e é também uma ode à diversidade e à aceitação da diferença. Confere...
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Depois de uma revisitação da coleção de singles lançados durante a carreira, feita o ano passado à boleia de State Dogs: Singles 2017-18, a dupla Generationals de Ted Joyner e Grant Widmer, natural de Nova Orleães, no Louisiana e que se estrou nos discos há meia década com o aclamado registo Alix, está de regresso aos lançamentos discográficos com Reader As Detective, um compêndio de dez canções que viu a luz do dia a dezanove de julho último, à boleia da Polyvinyl Records.

Quinto registo de originais da carreira dos Generationals, Reader As Detective é um alinhamento de forte cariz radiofónico, um tratado de indie rock repleto de fuzz e incisivo, pouco mais de trinta minutos inspirados e felizes no modo como nos fazem dançar e despertar em nós aquela alegria e boa disposição que muitas vezes buscamos na música e raramente encontramos com este acerto criativo.
Logo na batida majestosa de I’ve Been Wrong Before somos impelidos a saltar para a pista de dança, inebriados por uma guitarra com um fuzz arrebatador e estilisticamente próxima do melhor punk oitocentista. Depois, o luminoso groove do piano e dos reverbs que sustentam o festim pop I Turned My Back On The Written Word, o clima indie sombrio e nublado de Breaking Your Silence, o eletro que divaga por A List Of The Virtues e o travo mais melancólico de Gatekeeper e Xeno Bobby, dão continuidade a uma sensação permanente de otimismo, cor e euforia, num disco em que não falta um exemplar sentido de urbanidade e uma toada retro bastante apelativa.
Reader As Detective é mais um álbum perfeito para se perceber como este projeto deambula de modo escorreito entre abordagens mais electrónicas e tonalidades que exalam uma indie eminentemente nostálgica, sempre com uma base melódica muito elaborada e coesa, com pronunciadas influências quase sempre relacionadas com os teclados típicos do anos oitenta e que acabam por cair facilmente no goto do grande público, já que para os Generationals, independentemente da receita, uma toada experimental animada, luminosa e feliz é sempre algo transversal ao conteúdo musical que criam. Espero que aprecies a sugestão.

01. I’ve Been Wrong Before
02. I Turned My Back On The Written Word
03. Breaking Your Silence
04. A List Of The Virtues
05. Gatekeeper
06. Xeno Bobby
07. Society Of Winners
08. Deadbeat Shiver
09. Save This For Never
10. Dream Box
Será a quatro de outubro e à boleia da Captured Tracks que chegará aos escaparates Deceiver, o terceiro registo de originais dos nova-iorquinos DIIV de Zachary Cole Smith, músico dos Beach Fossils e que tem atualmente como companheiros de banda neste projeto Andrew Bailey (guitarra), Colin Caulfield (baixo) e Ben Newman (bateria). Gravado no passado mês de março em Los Angeles com o produtor Sonny Diperri, Deceiver irá suceder ao excelente Is The Is Are, um registo com já três anos e que não renegando totalmente os atributos essenciais do adn do grupo, assentes num garage rock que dialoga incansavelmente com o surf rock e que incorpora, nessa trama, doses indiscretas de uma pop suja e nostálgica, conduziu-nos, na altura, a um amigável confronto entre o rock alternativo de cariz mais lo fi com aquela pop particularmente luminosa e com um travo a maresia muito peculiar.

Is The Is Are foi um disco muito centrado nos problemas de Zachary com a adição às drogas, mas o músico confessou pouco depois do lançamento desse trabalho que não foi totalmente honesto no conteúdo do mesmo e que era altura de se dedicar verdadeiramente à superação desse problema. Assim, nos últimos três anos o músico tem realmente tentado lutar contra essa questão, tendo estado internado em diferentes clínicas. Skin Game, o primeiro single divulgado de Deceiver, um diálogo imaginário entre duas personagens, que poderão ser muito bem o próprio Zachary e os seus dilemas relativamente à psicotropia, debruça-se exatamente sobre esse processo de reabilitação que tem sido particularmente doloroso para um artista que parece já ter percebido que, além do indispensável isolamento, a auto sinceridade e a força de vontade são condições essenciais para o sucesso, conforme admitiu recentemente: Skin Game it’s an imaginary dialogue between two characters, which could either be myself or people I know. I spent six months in several different rehab facilities at the beginning of 2017. I was living with other addicts. Being a recovering addict myself, there are a lot of questions like, “Who are we? What is this disease?” Our last record was about recovery in general, but I truthfully didn’t buy in. I decided to live in my disease instead. “Skin Game” looks at where the pain comes from. I’m looking at the personal, physical, emotional, and broader political experiences feeding into the cycle of addiction for millions of us.
Sonoramente, Skin Game, um daqueles excelentes instantes sonoros que merecem já figurar em lugar de destaque na indie contemporânea, exala na sua majestosidade instrumental a melhor herança de uns Sonic Youth em plena forma, uma constatação também expressa com intensidade e requinte superiores, na crueza orgânica das guitarras, que fazem questão de viver ao longo da canção de braço dado com o salutar experimentalismo percurssivo do baixo e da bateria, uma simbiose que atinge mesmo, durante o refrão, patamares particularmente turtuosos. Em suma, Skin Game, faz adivinhar que o conteúdo de Deceiver será invariavelmente irrequieto, direto e a encarnação sonora de uma espécie de grito de revolta e de libertação, que se espera ser definitiva. Confere Skin Game e o artwork e a tracklist de Deceiver...

01 Horsehead
02 Like Before You Were Born
03 Skin Game
04 Between Tides
05 Taker
06 For the Guilty
07 The Spark
08 Lorelai
09 Blankenship
10 Acheron

Um dos nomes míticos do catálogo da Tapete Records são os Stereo Total, dupla que começou a fazer música antes da internet existir, antes do Euro, antes da Alemanha se reunir e antes ainda de haver bandas ou músicas. Aliás, pelo andar da carruagem, os Stereo Total provavelmente ainda estarão a tocar quando tudo isso for consignado ao lixo da história. O grupo é composto por Françoise Cactus, também apresentadora de rádio e Brezel Göring, um homem cuja escolha do nome artístico foi motivada pelo desejo de não ser levado a sério pela música e pelos escribas.

Quando começaram a fazer música juntos, os Stereo Total tinham como missão romper as regras, desestabilizar as ideias e sarcasticamente repelir amantes sérios de música enquanto os chocam com uma engenharia de som muito abaixo dos padrões dos ouvintes do mainstream. Ah! Quel Cinéma!, o novo álbum da dupla e décimo segundo da carreira dos Stereo Total, é um descendente fiel de toda uma linhagem de discos que têm reforçado a já mítica propensão deste projeto para o jogo de palavras, mesmo que tal desiderato não esteja em evidência em todas as letras que apresentam. Sendo um álbum com não um, mas dois pontos de exclamação no título, aprimora ainda mais essa caraterística única da dupla, com temas como lesões pessoais (Ich bin cool), traição (Mes copines), deficiências de personalidade provocadas pelo abuso de drogas (Methedrine), raiva (Hass-Satellit) opiniões inflamadas de si próprio (Brezel says), suicídio (Le Spleen), luto (Dancing with a memory) e almas atormentadas (Elektroschocktherapie) a serem apresentadas em formato panorâmico e, muitas vezes, da forma mais divertida possível.
Musicalmente, Ah! Quel Cinéma! acaba por ser de difícil catalogação e esse é, naturalmente, um dos principais elogios que se pode fazer ao panorama geral criado pelas suas catorze composições. Se álbuns anteriores dos Stereo Total ressoaram com influências de chanson, trash, disco para punk, rock'n'roll e NDW (New Wave alemão), Ah! Quel Cinéma! tem como grande enfoque uma espécie de rock de garagem Lo Fi, trespassado por uma eletrónica sagaz que não descura uma forte toada orgânica e sensitiva, assente numa vasta gama instrumental de instrumentos mais propensos a serem encontrados nas mãos de crianças em lares onde uma educação musical não está na agenda. Um órgão de plástico de bébé, um piano de brincar, acompanhado por guitarras caseiras e um Casio adquirido numa feira em segunda mão, são alguns dos exemplos dessa pafernália. Nela, cada instrumento musical provavelmente poderia ser traduzido em coordenadas sociais e, nesse sentido, as ferramentas do comércio de Stereo Total falam uma linguagem inequívoca. Espero que aprecies a sugestão...
Os Foreign Poetry são Danny Geffin e Moritz Kerschbaumer. Danny é inglês, Moritz é austríaco e ambos tocam vários instrumentos e escrevem canções. Conheceram-se em Londres, durante o verão de dois mil e onze, quando tocavam em projetos diferentes e se cruzaram na mesma noite no The Ritzy, em Brixton. Moritz tocava com Luís Nunes, mais conhecido por (Walter) Benjamin e Danny era uma das duas metades dos Geffin Brothers. Alguns anos depois Moritz enviou a Danny duas ideias para canções nas quais andava a trabalhar e este retribuiu dias depois devolvendo-as cheias de ideias novas. Este encontro tornou-se num hábito, as ideias de ambos começaram a andar para trás e para a frente e ao fim de um ano neste modus operandi, estava praticamente estruturado um alinhamento de canções intitulado Grace and Error on the Edge of Now e que irá ver a luz do dia a vinte de Setembro pela Pataca Discos.

Polido nos estúdios da Pataca Discos, em Lisboa, onde o disco ganhou novas e belas texturas, com a ajuda dos Anna Louisa Etherington (violino), Alice Febles Padron (coros), Luís (W. Benjamin) Nunes (bateria, percussão e coros) e Tony Love (bateria), Grace and Error on the Edge of Now será uma estreia em grande de um projeto que serviu-se de variadas texturas e arranjos, melodias vocais com raízes folclóricas e uma crua vulnerabilidade, para incubar uma espécie de álbum conceptual, que aborda ideias tão mundanas como o universo pessoal, a adolescência e a juventude, o impacto da teconologia na condição humana e as complexidades da vida e das relações humanas, mas de um modo relevante, provocador e rico. Nele, Moritz e Danny criaram paisagens sonoras e orquestrações complexas, mas também apostaramem grooves mais descontraídos e numa narrativa lírica eminentemente simples, com nomes como Arthur Russell, The National, Lambchop e Future Islands, a serem referências óbvias de um compêndio de rock psicadélico, mas sem rock nem psicadelia no seu estado mais puro, já que a folk é também um ingrediente essencial de toda a trama sonora do registo.
Chain Of Events, um dos temas já divulgado deste álbum de estreia dos Foreign Poetry que, já agora, foi misturado por Luís Nunes e o próprio Moritz Kerschbaumer e masterizado por Tiago de Sousa, é um bom exemplo do tal trabalho colaborativo entre a dupla, muitas vezes à distância, acima descrito. Moritz começou por esboçar o tema instrumentalmente, Danny acrescentou as letras e depois, juntos em estúdio, desenvolveram um pouco mais esta música sobre a quantidade de desinformação, preconceito e emoção que alimenta estes tempos e misturaram-na. O resultado final, alicerçado na bitola sonora acima descrita, é um tratado sobre a história do mundo e a psique humana, como eles estão inseparavelmente relacionados um com o outro e como repetimos os erros da história, mesmo quando vemos tudo acontecer no nosso caminho outra vez. Nada nunca permanece o mesmo, tudo é repetido.
O videoclip da canção acaba por obedecer ao propósito dos Foreign Poetry de criar algo que fosse real, visualmente cru e historicamente relevante, algo que encapsulasse a estrutura que permitiu à humanidade chegar a esta vida privilegiada de futurismo e pronunciada inércia. As filmagens foram tiradas de partes de Why We Fight de Frank Capra, uma série de vários filmes de propaganda de início do século passado, usados com o objetivo de persuadir o público americano a apoiar a guerra. São imagens incríveis, de um tempo incrível, onde havia tudo a perder e a segurança das pessoas estava em constante vulnerabilidade. Confere...
João Taborda, Afonso Almeida, Edgar Gomes e Sérgio Dias são os Tricycles, uma espécie de super grupo que se estreou recentemente nos registos discográficos com um homónimo, gravado e produzido por Nelson Carvalho e editado pela Lux Records e que foi alvo de revisão atenta neste blogue.

Descritos como um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, os Tricycles continuam a tirar dividendos desse registo e o mais recente é a divulgação de um vídeo de Hamburger, o segundo tema do seu alinhamento, juntamente com o anúncio do lançamento de Tricycles em formato vinil, lá para o final do ano, talvez ainda a tempo das próximas compras de Natal.
Canção sobre um assunto falsamente risível, (...) a vertigem da queda, que pode ter muitas formas, algumas mais subtis que outras, ou seja, um hamburger muito pouco gourmet, Hamburger oferece-nos um dos instantes mais solarengos e festivos de um disco com uma filosofia interpretativa que dá a primazia à guitarra quer no processo de criação melódica, quer também no modo como as canções vão sendo adornadas, geralmente com rudes baixos que conversam com educadas baterias e pianos falsamente corteses. Este é, pois, um dos momentos maiores de um alinhamento que nos deixa algo inebriados, doze canções que acabam por funcionar, no seu todo, como um sentido quadro sonoro, pintado com belíssimos arranjos e transições entre um alargado e rico espetro sonoro, que abarca alguns dos melhores tiques e heranças do indie rock das últimas décadas.
O videoclip de Hamburger foi filmado em Coimbra, realizado e editado pelo Bruno Pires e João Taborda, e conta com uma série de ilustres convidados da cidade: Vitor Torpedo, António Olaio, Ricardo Jerónimo, Pedro Chau, Pedro Renato, MC Ruze, Maria João Robalo e Joana Cipriano. Confere...
Já chegou aos escaparates Humanworld, o segundo registo de originais da carreira a solo do mítico artista Peter Perrett, antigo vocalista dos The Only Ones, banda que também ajudou a fundar e que acabou por ter um papel preponderante durante o auge da cena punk/new wave britânica, entre os anos setenta e oitenta do século passado. Sucessor do aclamado How The West Was Won, editado em dois mil e dezassete, Humanworld tem a chancela da Domino Records, numa carreira a solo que também funciona como um elíxir terapêutico de excelência após um complicado período de adições psicotrópicas, algo bem percetível num alinhamento em que Perrett volta a dissertar sobre o amor a e política com o habitual sarcasmo que carateriza esta personagem ímpar do cenário musical alternativo britânico.

Texturalmente e sonicamente rico, urgente e conciso, Humanworld escorre de rajada (doze temas dividios por cerca de trinta e cinco minutos) e com uma leveza algo intrigante, porque se as canções têm um forte cariz radiofónico e uma altivez pop indesmentível, também possuem uma aúrea de mistério e consistência capazes de deixar o ouvinte a refletir sobre o seu conteúdo. Logo a abrir, em I Want Your Dreams, se nas interseções entre baixo e sintetizadores, que são depois abafadas por uma guitarra exuberante, Peter Perret reinvindica os nossos sonhos e quer deles apropriar-se de um modo tipicamente vampiresco e se na pop cósmica de Once Is Enough o músico mantém essa toada altiva e até algo desafiante, aprimorada um pouco adiante no travo punk libidinoso de Believe In Nothing, já no manto de acusticidade tipicamente brit de Heavenly Day o músico começa a mostrar uma faceta mais sentimental e até ternurenta, que depois se aprimora e atinge os píncaros daquela irecusável nostalgia que a todos toca em The Power Is In You, uma majestosa composição em que não faltam violinos e uma vasta panóplia de efeitos ecoantes, detalhes que ajudam o ouvinte a sentir-se ainda mais embalado e seduzido.
É nesta contínua dicotomia entre a vontade de querer dominar o ouvinte e tomar posse de todo o seu eu, mas também ser embalado e entendido por ele, que Peter Perrett conduz um bom disco de indie pop rock, feito da mais pura estirpe de terras de Sua Majestade e que, apesar de piscar o olho a heranças diretas do pós punk e onde não faltam também vias sonoras abertas para o pop rock, a new wave e o grunge, define-se sonoramente pelo modo como faz exalar um intenso charme da agregação de todos estes subgéneros, uma combinação conseguida com superior sentido criativo e à boleia de uma vontade expressa de procurar diferentes ritmos e abordagens instrumentais, sempre com considerável dose de loucura, divertimento e inegável boa disposição e anormalidade. Espero que aprecies a sugestão...

01. I Want Your Dreams
02. Once Is Enough
03. Heavenly Day
04. Love Comes On Silent Feet
05. The Power Is In You
06. Believe In Nothing
07. War Plan Red
08. 48 Crash
09. Walking In Berlin
10. Love’s Inferno
11. Master Of Destruction
12. Carousel
Os seguidores mais atentos do universo sonoro indie e altrnativo já terão certamente ouvido falar de Angus Stone, um cantor, compositor e produtor australiano, nascido a vinte e sete de abril do já longínquo ano de mil novecentos e oitenta e seis e que se tem notabilizado com a sua irmã, formando juntos o duo Angus & Julia Stone, já com quatro discos em carteira, numa carreira iniciado há cerca de uma década com o excleente, Smoking Gun. Ora, Angus Stone também tem uma carreira a solo, onde assina com o pseudónimo Dope Lemon, iniciada há três anos com o registo Honey Bones, que teve sequência, no ano seguinte, com o EP Hounds Tooth e que vê agora sucessor com Smooth Big Cat, dez canções abrigadas pela BMG Australia e que, rezam as crónicas, se tornaram num verdadeiro desafio para o músico, que procurou um ambiente intimista e recatado sem colocar em causa o exigido som de estúdio que faz parte do seu adn.

Tal cono o antecessor, Smooth Big Cat foi gravado nos estúdios Belafonte, que pertencem ao próprio Angus Stone e que se situam num rancho que tambem possui. Stone tocou e gravou todos os instrumentos e misturou e produziu todas as dez composições de um trabalho que relata a vida de uma personagem chamada exatamente Dope Lemon e que funciona como uma espécie de alter-ego do artista. Dope Lemon é, no fundo, um tipo normal mas também bizarro e sempre bem disposto e otimista, que gosta de estar no seu canto a ouvir música com um copo numa mão e um cigarro na outra.
É esta a figura que trespassa a filosofia temática das dez canções de Smooth Big Cat, que tiveram na sua concepção como principal ferramenta alguns dos típicos traços identitários de uma espécie de folk psicadélica de cariz eminentemente etéreo e contemplativo, com uma considerável vertente experimental associada. Canções como a boémia Hey You, movida a cordas reluzentes, adornadas por diversos efeitos e acamadas numa batida algo hipnótica, a cósmica Salt & Pepper, que impressiona pelo efeito metálico e pela vasta miríade de elementos percurssivos, a lisérgica Hey Little Baby, um portento de acusticidade que se espraia por cinco minutos particularmente solarengos, a mais épica e orgânica Lonely Boys Paradise ou a romântica Give Me Honey, oferecem-nos um cândido alinhamento repleto de blues folk acústica particularmente embaladora e intimista, mas também de um rock bastante sui generis, porque não se faz só de guitarras, mas acima de tudo de fragmentos de sons sintetizados e distorcidos, versos hipnóticos, um registo vocal muitas vezes sussurrante, geralmente dialogante e com forte pendor lo fi e também subtis instantes melódicos de pura subtileza e encantamento.
Disco homogéneo e que nos permite aceder a uma outra dimensão, mística e cósmica, num subida feita à boleia de timbres, detalhes e harmonias, agregadas com uma assumida pompa sinfónica e inconfundível, Smooth Big Cat tem aquele travo despreocupado e ligeiro que, sendo particularmente sedutor, provoca imediato encantamento, fazendo-o sem descurar as mais básicas tentações pop, com tudo a soar, no final e no seu todo, utopicamente perfeito. Espero que aprecies a sugestão...

01. Hey You
02. Salt And Pepper
03. Hey Little Baby
04. Lonely Boys Paradise
05. Give Me Honey
06. Dope And Smoke
07. Smooth Big Cat
08. The Midnight Slow
09. Mechanical Bull
10. Hey Man, Don’t Look At Me Like That
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