Terça-feira, 22 de Maio de 2018

Damien Jurado – The Horizon Just Laughed

Já chegou aos escaparates um disco novo de Damien Jurado. Chama-se The Horizon Just Laughed e é o décimo terceiro álbum de estúdio deste cantautor norte-americano, sucedendo a Visions Of Us In The Land, disco de 2016 que pôs fim a uma trilogia iniciada com Maraqopa (2012), registo ao qual se seguiu Brothers and Sisters of the Eternal Son, dois anos depois.

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Produzido pelo próprio Jurado e gravado com uma pequena banda num modesto estúdio na Califórnia, The Horizon Just Laughed volta a justificar porque é que Damien Jurado é um dos nomes fundamentais da folk norte americana e um dos artistas que melhor tem sabido preservar algumas das caraterísticas mais genuínas de um cancioneiro que dá enorme protagonismo ao timbre acentuado e rugoso das cordas para dissertar crónicas sobre uma América profunda e muitas vezes oculta, não só para os estrangeiros, mas também para muitos nativos que desde sempre se habituaram à rotina e aos hábitos de algumas das metrópoles mais frenéticas e avançadas do mundo, construídas num país onde ainda é possível encontrar enormes pegadas de ancestralidade e que inspiram calorosamente este músico.

Como é apanágio na discografia de JuradoThe Horizon Just Laughed começou com um sonho que, no caso deste registo, acabou por culminar em onze das canções mais complexas e incisivas da discografia do autor, que já confessou ser este o seu trabalho mais pessoal e enraizado, ainda mais do que aquilo que sucedeu na trilogia Maraqopa.
Ao longo dos cerca de trinta e sete minutos da obra, todas as notas, melodias, versos, acordes, palavras, ideias e arranjos posicionam-se com o firme propósito de apresentar um cantor simultaneamente simples e genuíno, mas também sofisticado, não faltando, nas suas canções, além da típica folk acústica, também abordagens ao samba, ao rock e à pop, numa narrativa sonora vibrante onde vozes e instrumentos compôem um painel muito impressivo que acaba por se tornar num dos momentos maiores da sua carreira, principalmente pelo modo como nele este músico se coneta com a sua mente e os seus dilemas e desejos mais profundos e assim se expôe triunfalmente, sem receio e despudor, tornando-nos confidentes de alguns dos arquétipos essenciais da sua intimidade maior. Espero que aprecies a sugestão...

Damien Jurado - The Horizon Just Laughed

01. Allocate
02. Dear Thomas Wolfe
03. Percy Faith
04. Over Rainbows And Rainier
05. The Last Great Washington State
06. Cindy Lee
07. 1973
08. Marvin Kaplan
09. Lou – Jean
10. Florence – Jean
11. Random Fearless


autor stipe07 às 22:32
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Sexta-feira, 11 de Maio de 2018

Pavo Pavo – Statue Is A Man Inside

Pavo Pavo - Statue Is A Man Inside

Na sequência do enorme sucesso do registo de estreia Young Narrator In The Breakers, os Pavo Pavo de Eliza Bagg e Oliver Hil, aos quais se juntam Nolan Green, Austin Vaughn e Ian Romer, estão de regresso esta primavera com um novo tema intitulado Statue Is A Man Inside que é, como seria de esperar, uma canção com uma elegância ímpar, incubada no seio de uma dupla que é a menina dos olhos da Bella Union e que cria música pop que parece servir para banda sonora de uma representação retro de um futuro utópico e imaginário.

Canção sustentada numa guitarra que debita um efeito planante pleno de charme, que deambula por uma harmonia particularmente cativante, proporcionada por um sintetizador com uma luminosidade intensa e sedutora, Statue Is A Man Inside é a banda sonora perfeita para nos libertar de qualquer amarra ou constrangimento que ainda nos domine. Sobre ela, Oliver referiu recentemente: Statue is a Man Inside got its start in the couple months after Eliza and I split up – it was around the same moment that our first record came out and we started touring, and all the changes at once conspired to create this uncanny feeling, a hardening of the boundaries between me and the rest of the world. I thought of two marble statues, cracking and bleaching in the sun, maybe with eyes and fingers that can still move like a human being. We sang the words to each other at the organ, and as we started playing it with the band, an interesting thing happened where the louder and lusher the arrangement got, the more intimate the singing felt. So we kept elevating and orchestrating the track, trying to make it a spiritualization of our quietest, most inward thoughts. Confere...


autor stipe07 às 17:45
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Quinta-feira, 10 de Maio de 2018

Bed Legs - Bed Legs

Oriundos de Braga, Fernando Fernandes,Tiago Calçada, Helder Azevedo, David Costa e agora também Leandro Araújo são os Bed Legs, que, de acordo com Marcio Freitas dos Dead Men Talking, autor do press release de lançamento do novo registo discográfico do grupo, se afirmam cada vez mais como criadores de música embebida, entornada e enrolada em melodias que despertam a maior das emoções e sensações, numa roda-viva que brota vivências por todos os lados. Esta banda começou por criar um certo e justificado burburinho, junto dos críticos mais atentos, à boleia de Not Bad, um EP editado no início de 2014 e, dois anos depois, através de Black Bottle, o longa duração de estreia, nove canções que justificaram, desde logo, a ideia de estarmos perante uma banda apostada em calcorrear novos territórios, de modo a entrar, justificadamente e em grande estilo, na primeira divisão do campeonato indie e alternativo nacional.

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Agora, dois anos depois, os Bed Legs editaram o sempre difícil segundo disco, um homónimo gravado na Mobydick Records, com o apoio do GNRation, por Budda Guedes e masterizado por Frederico Cristiano. Dele ficou-se a conhecer há algum tempo Spillin' Blood, o tema que abre um alinhamento onde, citando novamente Marcio Freitas, abunda a soltura dos teclados e do baixo, a riqueza dos ecos das guitarras e da bateria multi-ritualista, (...) num delicioso frenesim que inebria o mais puro dos seres.

De facto, escuta-se Bed Legs na íntegra e a primeira constatação óbvia é que, tendo em conta o registo anterior, os Bed Legs estão cada vez mais maduros e consistentes. Continuam a firmar o seu adn sonoro, impregnado-o e mascarando-o com o clássico rock cru e envolvente, sem máscaras e detalhes desnecessários, mas não faltam novos arranjos, quase sempre fornecidos por uma guitarra nada longe do rock de garagem e a piscar o olho a territórios cada vez mais progressivos (ouça-se Lift Me Up) e a uma salutar vibe psicadélica, exemplarmente replicada no solo eletrificado planante de Keep On, um tratado de lisergia enleante e submersivo.

A voz está também a tornar-se num caso sério da lista de predicados que os Bed Legs possuem, extravasando de modo superior o rol de emoções que as letras suscitam, sendo o complemento perfeito para um emaranhado sonoro, que parece resultar de uma espécie de rasgo das cordas vocais e que se destaca particularmente nas mudanças de tonalidade que executa à boleia da guitarra de Dreams On Fire, principalmente após a guinada ritmica e textural que o tema sofre a meio e no delicioso tratado de rhythm and blues que é Back On Track, uma ode ao melhor rock americano e onde, ao ouvir-se a postura vocal de Fernandes é fácil imaginar que uma lágrima de dor escorre-lhe da garganta ao coração, tal é a emoção com que ele canta. Esta emoção também se sente perfeitamente em Dance! quando Fernandes se cruza com a guitarra e berra literalmente uma espécie de último suspiro antes de um momento de dança desenfreada, claramente há muito contido.

Bed Legs é um título feliz para este disco, exatamente porque no seu conteúdo está impressa a identidade de um projeto onde por detrás da amálgama estilística que abrange, dentro de um espetro sonoro claramente delimitado, existe existe um universo inteiro de detalhes, sobreposições e arranjos que vale a pensa descobrir e que faz dos Bed Legs um nome a reter no cada vez mais intrincado e valioso universo sonoro alternativo nacional. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:23
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Terça-feira, 8 de Maio de 2018

Landing – Bells In New Towns

Oriundos de New Heaven, no Connecticut, os Landing de Daron Gardner, Aaron Snow, Adrienne Snow e John Bent, são um dos nomes fundamentais do shoegaze norte-americano e para marcar os vinte anos de carreira, acabam de lançar Bells In New Towns, um novo compêndio de canções, o segundo na conceituada etiqueta El Paraiso Records, casa de nomes tão fundamentais do indie rock norte-americano como Os Monarch, Brian Ellis, Papir, Sun River, Mythic Sunship, Jonas Munk, entre outros. Apesar de uma carreira já tão longa, os Landing parecem não abrandar criativamente nem colocar em causa a elevada bitola qualitativa da sua herança discográfica, oferecendo-nos, talvez, o alinhamento mais consistente de uma já longa e meritória carreira.

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Uma das explicações para o facto de Bells In New Towns ser um disco tremendamente coeso e apelativo será, certamente, o facto de ter a mão de Justin Pizzoferrato (Dinosaur Jr., Elder, Pixies, Sonic Youth), na gravação de grande parte do mesmo. Este nome conceituado da produção acaba por ser fundamental no modo como o habitual som multitextural e abrangente dos Landing, que oscila entre aquele fuzz psicadélico mais contemplativo e luxuosos cenários luminosos e progressivos, consegue incorporar elementos etéreos e melodicamente acessíveis, sem ser necessário renegar a habitual toada lo fi do projeto.
Desse modo, as canções dos Landing estão mais apelativas e acessíveis a outros públicos, mas não renegam a força motriz sonora que está no cerne de um projeto que se foi habituando a apresentar um indie rock contemplativo, melancólico e atmosférico, mas mesmo assim incisivo. E isso acaba por ser uma tremenda mais valia deste Bells In New Towns, não só porque contém uma sonoridade que vai ao encontro daquilo que são hoje importantes premissas de quem acompanha as novidades deste espetro sonoro, mas também porque, num período de algum marasmo, esta tem sido uma estética que tem encontrado bom acolhimento junto do público.
De algum modo mestres da melancolia, instrumentalmente os Landing acabam por emergir-nos num universo muito próprio onde, da criteriosa seleção de efeitos da guitarra à densidade do baixo, passando por uma ímpar subtileza percussiva e um exemplar cariz lo fi na produção, são diversos os elementos que costuram e solidificam um som muito homogéneo e subtil e, também por isso, bastante intenso e catalizador.

Escuta-se os versos quase impercetíveis de Nod e embarcamos numa demanda doutrinal que sabemos, à partida, que não nos vai deixar indiferentes e iguais e depois, impulsionados pela nebulosa pujança do dedilhar das cordas inicial de Secret, uma daquelas canções cujas diversas camadas de som impelem ao cerrar de punhos, pelo encanto etéreo de By Two e pelo doce balanço do baixo que conduz Bright, ficamos certos que a opção tomada foi, como seria de esperar, a mais certeira.

Até ao ocaso de Bells In New Towns, na deliciosa ode ao amor que justifica a filosofia subjacente a Trace, uma canção onde a interação entre a viola e a voz fica muito perto de atingir os píncaros, na crueza orgânica e hipnótica de Wait or Hide e no modo como as distorções impregnadas de shoegaze embelezam toda a subtileza que fica impressa no rasto de Second Sight, fica atestada a segurança, o vigor e o modo ponderado e criativamente superior como este grupo tem um toque de lustro de forte pendor introspetivo, livre de constrangimentos estéticos e que nos provoca um saudável torpor, num disco que, no seu todo, comunica com a nossa mente e os nossos sentidos de modo particularmente libertador e esotérico. Espero que aprecies a sugestão...

Landing - Bells In New Towns

01. Nod
02. By Two
03. Gravitational VII
04. Bright
05. Secret
06. Fallen Name
07. Wait Or Hide
08. Gravitational VIII
09. Trace
10. Second Sight


autor stipe07 às 17:52
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Quarta-feira, 2 de Maio de 2018

Ulrika Spacek – Suggestive Listening EP

Criadores do melhor disco do ano de dois mil e dezassete para a redação deste blogue, os britânicos Ulrika Spacek de Rhys Edwards e Rhys William, aos quais se juntam Ben White, Callum Brown e Joseph Stone, estão de regresso com Suggestive Listening, um EP de cinco canções gravado, produzido e misturado numa galeria de arte chamada KEN e à qual os Ulrika Spacek chamam de sua casa, a bolha onde se refugiam para compôr, idealizar vídeos e expressar-se através de outras formas de arte além da música.

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A filosofia de composição musical destes Ulrika Spacek baliza-se através de um assomo de crueza tingido com uma impressiva frontalidade quer lírica quer sonora. Na complacência enganadora de No. 1 Hum há um timbre metálico de guitarra rugosa, acompanhada por uma bateria em contínua contradição, e esta dupla é a mesma que vai ser depois o grande suporte das canções do EP, em volta da qual gravitarão diferentes arranjos, quer orgânicos, quer sintéticos, geralmente com um teor algo minimal. E se a guitarra nunca perde identidade, a bateria vai-se tornando mais precisa no modo como confere alma e robustez ao ritmo de cada composição. Depois, há um baixo implacável na marcação à zona e todo este arsenal instrumental é rematado por uma voz geralmente reverberizada e que se arrasta. É um rock que impressiona pelo forte travo nostálgico e por aquela sensação de espiral progressiva de sensações, que tantas vezes ferem porque atingem o âmago, bastanto ouvir Freudian Slips para se tomar contacto com esta autenticidade que desmascara quem arrisca entrar no jogo de sedução ímpar que Suggestive Listening proporciona.

Canções do calibre de Wave To Paulo, He’s Not There, pouco mais de quatro minutos de um cósmico devaneio soul onde aquela pop sessentista ácida e psicotrópica, encontra o poiso ideal para se espraiar ou a indulgência acústica intensamente reflexiva da já referida Black Mould, plasmam uma das maiores virtudes destes Ulrika Spacek que é a capacidade de conseguirem divagar por diferentes ângulos e espetros dentro de um universo sonoro bastante específico. Isso sucede porque corre-lhes nas veias aquela atitude claramente experimental e enganadoramente despreocupada, expressa numa vontade óbvia de transformar cada composição numa espécie de colagem de vários momentos de improviso. O modo quase cínico como em Lord Luck os Ulrika Spacek nos levam a abanar a anca ao som de uma canção que se insinua continuamente por causa do modo algo desconexo como se vai desenvolvendo ritmíca e melodicamente, acaba por ser a expressão máxima no EP deste modo bastante textural, orgânico e imediato de criar música e de fazer dela uma forma artística privilegiada na transmissão de sensações que não deixam ninguém indiferente.

Suggestive Listening atesta novamente a segurança, o vigor e o modo criativamente superior como este grupo britânico entra em estúdio para compôr e criar um shoegaze progressivo que se firma com um arquétipo sonoro sem qualquer paralelo no universo indie e alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

Ulrika Spacek - Suggestive Listening EP

01. No. 1 Hum
02. Black Mould
03. Freudian Slip
04. Lord Luck
05. Wave To Paulo, He’s Not There


autor stipe07 às 17:40
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Terça-feira, 1 de Maio de 2018

Unknown Mortal Orchestra - Sex & Food

Três anos depois do excelente Multi-Love, os neozelandeses Unknown Mortal Orchestra, do músico e compositor Ruban Nielson e de Jake Portrait e Greg Rogove, instalados em Portland, no Oregon há já aguns anos, estão de regresso ao formato longa duração com Sex & Food, uma extraordinária compilação de doze canções que, estreitando os laços entre a psicadelia e o R&B, contêm a impressão firme da sonoridade típica da banda, catupultando-a ainda para uma estética mais abrangente, reforçando de forma ainda mais comercial e ainda assim específica o que havia de mais tradicional e inventivo na trajetória da banda.

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Produzido pelo próprio Ruban Nielson, gravado entre Seoul (Coreia do Sul), Hanoi (Vietname), Reykjavik (Islândia), Cidade do México (México), Auckland (Nova Zelândia) e Portland (Estados Unidos), lançado com a chancela da Jagjaguwar e fortemente influenciado pela internet, Sex & Food além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, tão bem impressas na vibe escandalosamente urbana de Major League Chemicals, também ressuscita de novo uma das imagens de marca dos Unknown Mortal Orchestra e um dos terrenos onde se sentem mais à vontade, aquelas referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica da década anterior, deliciosamente presentes no efeito da guitarra e no reverb vocal de Ministry Of Alienation. Mas não se pense que este é um disco unicamente revivalista; Aliás, um dos seus grandes atributos é o seu cariz futurista e inovador, sendo, claramente, um dos registos mais criativos e indutores de novas nuances dos últimos tempos, tendo em conta o universo sonoro em que se movimenta. O modo como o rugoso e inebriante efeito da guitarra de American Guilt é acompanhado pela bateria e pela distorção vocal, transportam-nos para um rock que entre uma psicadelia progressiva e o classicismo punk oferecem-nos uma abordagem ao género pouco vista e, logo depois, The Internet Of Love (That Way) acaba por nos facultar o mesmo vigor de inedetismo, desta vez olhando para uma improvável simbiose entre blues e R&B, com um resultado final bastante apelativo. E a seguir, na falsa acusticidade orgânica de Doomsday, na batida, no groove e na riqueza dos arranjos da Everyone Acts Crazy Nowadays e no travo lisérgico das variações rítmicas de How Many Zeros a banda volta a guinar constantemente e a pisar universos nostálgicos, mesmo que díspares, mas apresentando sempre um clima geral muito inovador e difícil de comparar com outros projetos atuais.

Ecletismo é também, por tudo isto, uma palavra de ordem em Sex & Food, que podia ser descrito de modo simplista e tremendamente redutor por uma abrangente mistura entre rock e eletrónica, mas o modo como esse ecletismo se define ao longo do registo contém uma multiplicidade quase infinita de detalhes e aspetos que o que importa realmente exaltar é, dentro de toda a salutar amálgama do alinhamento, o modo como Ruben idealizou o volume e a densidade instrumental das canções, todas assentes em ambientes díspares, tornando indisfarçável mais uma busca dos Unknown Mortal Orchestra de melodias agradáveis, marcantes e ricas em detalhes e assentes em texturas com uma grandiosidade controlada, que possam conter um forte apelo às pistas de dança, mas também servir de banda sonora para instantes de maior intimidade, sozinho ou a dois.

A conquistarem um número cada vez maior de adeptos devido a uma especificidade sonora cada vez mais aprimorada e criativa mas sem deixar de ser acessível, os Unknown Mortal Orchestra chegam ao quarto tomo da sua discografia certeiros, relativamente ao estereótipo vincado com que pretendem impregnar o seu cardápio sonoro e que procura reviver os sons outrora desgastados de outra décadas , mas oferecendo aos ouvintes essa viagem ao passado sem se desligarem das novidades e marcas do presente. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 11:12
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Segunda-feira, 30 de Abril de 2018

Sigur Rós - Route One

No solstício de verão de 2016, o dia com mais horas de sol desse ano (o que na Islândia significa que praticamente nunca fica de noite, devido à sua posição sobre o Círculo Polar Ártico) os Sigur Rós embarcaram num interessante projeto designado Route One para mostrar as paisagens da sua terra Natal. Conduziram durante as vinte e quatro horas desse dia pelos mil trezentos e trinta e dois quilómetros da Route One, a estrada que envolve toda a costa do país, motivo pelo qual é também chamada de Ring Route e gravaram essa viagem, cujos filmes, disponíveis no canal de youtube da banda, são uma verdadeira visita guiada por idílicas paisagens e uma bela maneira de ficar a descobrir a Islândia. A essas imagens acabaram por juntar várias melodias que depois de terem sido editadas e comprimidas, resultaram em pouco mais de quarenta minutos de música, divididos em oito faixas, que acabam de ser publicadas, sem aviso prévio, pela XL Recordings, materializando a banda sonora dessa incrível e curiosa jornada.

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Cada uma das oito composições de Route One, o oitavo disco da carreira do grupo islandês, representa um ponto específico da ilha, na forma de coordenadas. Assim, se 63º32’43.7″N 19º43’46.3″W refere-se a Steinahellier Cave, uma caverna encrustada na rocha, no sul da ilha, junto ao lago Holtsós, já 63º47’36.2″N 18º02’16.9″W é numa pequena ilha logo a seguir ao posto de gasolina de ÓB Kirkjubæjarklaustur, perto de Skaftárhreppur, por onde passa a Route One, um pouco a leste do primeiro ponto, 64º02’44.1″N 16º10’48.5″W são as coordenadas da ponte sobre o encontro do lago Jökulsárlón e o mar e 64º08’43.3″N 21º55’38.8″W o ponto de partida, em Reykjavík, só para referir alguns exemplos.

Sonoramente, Route One é um disco onde tudo se orienta de forma controlada, como se todos os detalhes instrumentais escutados, de forte cariz orgânico, fossem agrupados num bloco único de som que dá voz à exuberância natural de um país forjado à milhões de anos a fogo vulcânico e constantemente banhado por gelo. A Islândia é um dos locais do globo onde os quatro elementos melhor se revelam (água, terra, fogo e ar) e de forma mais extraordinária coabitam. Os Sigur Rós percebem melhor do que ninguém esta maravilhosa constatação que é um dos pilares fundamentais da essência de um país e de um povo e musicaram-na dando a maior liberdade possível ao arsenal instrumental de que se serviram, eminentemente sintético, para recriar as oito coordenadas. O resultado final é um falso minimalismo ambiental que desafia os nossos sentidos segundo após segundo, tal é a opulência sonora de detalhes, ruídos e efeitos que cruzam as melodias, uma receita que não soará particularmente estranha a quem já está devidamente identificado com a discografia dos Sigur Rós e percebe que há aqui o apelo da novidade, mas sem abandonar a essência.

Em suma, à medida que Route One avança e nos dilacera por dentro, testemunhamos euforicamente um intenso impacto lisérgico, num exercício musical que certamente será do agrado de quem não se importa de descobrir uns Sigur Rós mais crus, diretos e psicadélicos, mas que não deixam, mesmo assim, de nos fazer flutuar num universo de composições etéreas e sentimentalmente atrativas. Espero que aprecies a sugestão...

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63º32’43.7″N 19º43’46.3″W
63º47’36.2″N 18º02’16.9″W
64º02’44.1″N 16º10’48.5″W
64º08’43.3″N 21º55’38.8″W
64º46’34.1″N 14º02’55.8″W
65º27’29.1″N 15º31’56.0″W
65º30’17.9″N 18º37’01.3″W
65º38’27.9″N 20º16’56.9″W


autor stipe07 às 21:16
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Quinta-feira, 26 de Abril de 2018

Mall Walk - Rose vs Out To Lunch

Criadores do melhor álbum do ano de 2016 para este blogue, os MALL WALK de Daniel Brown, Nicholas Clark e Rob I. Miller, parece que vão, para grande pena desta redação, encerrar hostilidades. Recordo que este trio oriundo de Oakland, na Califórnia e com um cardápio sonoro impregnado com um manancial de efeitos e distorções alicerçadas em trinta anos de um indie rock feito com guitarras bastante inspiradas, estreou-se em outubro de 2014 com S/T, um EP que ainda roda com insistência na redação deste blogue. Seguiu-se, em 2016, Funny Papers, o tal registo que venceu a categoria de melhor disco em 2016 e que impressionou pela amplitude do trabalho de produção e pela procura de uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, dentro de um espetro sonoro onde aquela visceralidade algo sombria, típica do punk, costuma ditar cartas. Esta apenas aparente ambivalência ficou bem expressa na monumentalidade de temas como Street Drugs and Cartoons, canção onde o próprio rock de cariz mais progressivo também estava fortemente impresso, mas também em Call Again e Exhauster, três espetaculares tratados de punk rock, aditivos, rugosos e viciantes.

A sensibilidade dos solos e riffs da guitarra que exibiam linhas e timbres muito comuns do chamado garage rock, também não foram descurados nesse Funny Papers e nas canções Sleeping In Shifts e Protection Spells acabaram por ser aquele complemento perfeito que nos obrigou a afirmar, na altura, que os MALL WALK foram corajosos no modo como se predispuseram a todo este saudável experimentalismo.

Ainda não são claros os motivos da separação dos MALL WALK e, como se sabe, nestas circunstâncias nem sempre é fácil apurar os verdadeiros factos. Seja como for, é pena ver tanto talento no seio de um trio ser desperdiçado assim, deixando-nos apenas, em jeito de despedida, duas canções, Rose e Out To Lunch, canções que encerram em grande estilo a viagem lisérgica através do tempo em completo transe e hipnose de uma discografia que da psicadelia, ao garage rock, passando pelo shoegaze e  também pelo chamado punk rock, abraçou várias vertentes e influências sonoras, numa curta mas respeitável carreira. Deixam saudades... muitas! Confere...


autor stipe07 às 17:35
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Domingo, 22 de Abril de 2018

Imploding Stars - Demise

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Três anos depois do excelente A Mountain And A Tree, os vimaranenses Imploding Stars de Jorge Cruz, Diogo, Élio, Filipe e Francisco regressam em 2018 aos discos com Riverine, disco com oito temas que, de acordo com o press release do lançamento desta banda das Taipas, aborda o princípio da compreensão dos diferentes estágios de desenvolvimento da vida humana, desde o momento que nascemos até o momento que morremos. Durante a nossa vida, experimentamos diferentes sensações que levam à criação de memórias. No entanto, estamos normalmente limitados aos limites da perceção humana e às decisões sobre o que é bom ou mau nas bifurcações que vamos encontrando. Mas afinal o que é bom ou mau? E se não houver limites nessa perceção humana? E se pudéssemos, de alguma forma, viver para sempre ou reviver.

Sendo assim, no alinhamento de Riverine, os Imploding Stars tentaram recriar os diferentes estágios temporais que fazem parte da existência humana e que, no fundo, definem o trajeto de vida de cada um de nós, sendo possível, tendo em conta a abordagem da banda a esse ideário, cada ouvinte, à medida que se embrenha no álbum, adaptar os temas à sua experiência pessoal e aos seus pensamentos, experiências, sonhos, conquistas e desejos.

Demise é o primeiro single divulgado deste Riverine, um tema que impressiona pela sua beleza utópica, feita de belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos que aliceracam uma melodia particularmente hipnótica. Confere... 


autor stipe07 às 21:47
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Quarta-feira, 18 de Abril de 2018

A Place To Bury Strangers - Pinned

Obcecados pela morte e pelas supostas tonalidades eróticas da mesma, os nova iorquinos A Place To Bury Strangers têm, disco após disco, reformulado o seu cardápio sonoro sempre dentro de bitola semelhante, uma filosofia assente em linhas de baixo simples mas vincadas, uma percurssão vigorosa, letras algo violentas e instigadoras e toda uma amálgama de sons e efeitos onde reina o ruido e um caos que parece estar sempre aparentemente controlado. No início desta primavera eles estão de regresso aos discos com Pinned, o quinto alinhamento da carreira do trio, renovado recentemente com a presença de Lia Braswell, ex Le Butcherettes, na bateria. Pinned é o sucessor do excelente Transfixiation, um álbum editado editado à quase três anos e que na altura sucedeu a Worship, um registo lançado em 2012 e que explorava uma abordagem ruidosa ao rock, de modo progressivo, industrial e experimental, tudo apimentado com uma elevada toada shoegaze, algo que seis anos depois é ainda uma realidade bastante audível num dos projetos essenciais de um espetro sonoro em que a Dead Oceans continua a apostar vigorosamente.

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Numa época em que a caraterística sujidade das guitarras e do baixo tem sido substituida por sintetizadores, cordas mais leves e por baterias eletrónicas, o que mais cativa nestes A Place to Bury Strangers é perceber que tudo aquilo que há vinte atrás era considerado marginal e corrosivo na esfera sonora em que gravitam, hoje, com novas texturas e vocalizações (além da bateria, Lia também canta, como se percebe logo no primeiro tema) quando replicado por eles, soa intemporal, influente e obrigatório. Escuta-se o baixo de Never Coming Back, tocado por Dion Lunadon, o efeito abrasivo da guitarra de Oliver Ackerman e o modo como a bateria se eleva, sempre numa espécie de coito interrompido e, lá para o meio, a guitarra corrosiva e a percussão inebriante do punk rock de Frustrated Operator e chocamos de frente com o acentuado cariz identitário próprio de quem procura uma textura sonora aberta, melódica e expansiva, mas não descura o indispensável pendor lo fi e uma forte veia experimentalista, trazendo o ruído e a distorção para o centro do processo criativo.

O segredo para a potência sonora inédita deste projeto norte americano fundamental, é não só percetivel na tríade instrumental e nas doses incontroladas de lasers e efeitos, mas também no modo como escapa a todas as categorias e gavetas do rock ao mesmo tempo que as abarca num enorme armário que tem tanto de caótico como de hermético. Acaba por ser uma estratégia que não deixa de se organizar com uma arrumação muito própria e sempre coerente. Assim, há um forte sentido melódico no efeito da guitarra do shoegaze lo fi de Situation Changes e na vibe mais etérea, mas mesmo assim rugosa, de Was It Electric assim como um ambiente psicadélico no falso minimalismo de There's Only One Of Us que nunca compromete as vias auditivas, mesmo que a voz de Oliver no festim sintético de Execution possa distorcer a nossa mente.

Com a guitarra e a bateria a servirem frequentemente de elo de ligação entre os temas, Pinned parece agregar um emaranhado de melodias, mas uma audição atenta mostra-nos que este é um daqueles alinhamentos que encadeiam-se através de um tronco de forte cariz identitário e genuíno, onde não faltando a espaços o típico clima de ocaso que o experimentalismo proporciona, tem como resultado uma obra grandiosa e eloquente, ao mesmo tempo que cimenta a temática obsessiva dos A Place To Bury Strangers, feita, como já referi, de ruído, mas também de odes insinuantes e particularmente inspiradas ao imprevisto. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:21
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