Domingo, 1 de Julho de 2018

Gorillaz – The Now Now

Pouco mais de um ano depois de Humanz, já chegou aos escaparates The Now Now, o mais recente disco dos Gorillaz de 2-D, Murdoc, Noodle e Russel, um trabalho produzido por James Ford e Remi Kabaka Jr e anunciado logo após o lançamento do antecessor e durante a longa digressão de promoção de Humanz.

Apesar de contar com dois produtores de créditos firmados, The Now Now é um disco muito centado na capacidade criativa, quer lírica, quer sonora e instrumental de Damon Albarn. Se Humanz, um registo em que Albarn pouco cantou, continha uma vasta lista de convidados, que cantaram e tocaram em quase todo o alinhamento do álbum, desta vez, à excepção de George Benson, Snoop Dog e Jamie Principle, é Albarn que toma as rédeas, quem mais canta e, servindo-se de um isolamento que potenciou tremendamente a sua capacidade de criar e compôr, cria um dos trabalhos mais interessantes da carreira dos Gorillaz.

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Com particular ênfase numa pop de cariz eminentemente sintético, com raízes do lado de lá do atlântico e que diz cada vez mais a Albarn, The Now Now é um sólido passo dos Gorillaz rumo a uma zona de conforto sonora cada vez mais afastada das experimentações iniciais do projeto que, tendo sempre a eletrónica, o hip-hop e o R&B na mira, também chegou a olhar para o rock com uma certa gula. Mas este rock parece cada vez mais afastado do ponto concetual nevrálgico do projeto, com a eletrónica a abraçar-se principalmente a outras vertentes que sustentam muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje. Assim, se Humility serve-se das teclas sintetizadas e de diversos efeitos para se tornar num dos mais deliciosos apontamentos de charme, seneridade e harmonia da carreira dos Gorillaz e se Hollywood, muito por culpa de Snoop Dog, mantém viva a melhor tradição de abordagem a uma urbanidade americana que esteve sempre impressa no grupo, canções como a desafiante Kansas, a futurista Sorcererz, o dub tremendamente dançavel de Lake Zurich, ou a mais contemplativa e etérea Idaho, para mim a melhor canção do álbum, servem-se de alguns dos melhores artefactos tecnológicos que é possível encontrar hoje num estúdio de gravação para firmarem de modo arrojado este capítulo seguro numa linha de continuidade que, tendo como referência fundamental todo o espetro pop contemporâneo, busca uma filosofia de experimentação contínua, livre de constrangimentos e com um alvo bem definido, um público que procura também na dita pop uma filosofia de criação sonora que foge ao mainstream e que não necessita de ter como objetivo principal o airplay radiofónico.

Aos cinquenta anos Damon Albarn continua a escrever canções para a banda animada mais famosa do mundo porque acredita na ideia romântica de que um grupo mundialmente famoso pode transformar o planeta em que vivemos num sítio melhor. Se em 2010 Plastic Beach centrava-se nas alterações climáticas e na poluição e se o ano passado Humanz dissertava sobre alguns dos principais dilemas e tiros nos pés que a sociedade contemporânea insiste em dar, ainda nos dias de hoje, com o Brexit, Trump e o racismo, The Now Now é súmula e materialização de tudo aquilo que cada um de nós, na sua individualidade, precisa diariamente, independentemente da origem, para se sentir realizado e feliz sem depender da dita classe dominante, uma elite feita de políticos e milionários que pensam em tudo menos no bem comum. Magic City é, muito provavelmente, a descrição, na óptica de Albarn, do local perfeito para encontrarem paz todos aqueles que acreditam que ainda há esperança para todos nós. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Humility (Feat. George Benson)

02. Tranz
03. Hollywood (Feat. Snoop Dogg And Jamie Principle)
04. Kansas
05. Sorcererz
06. Idaho
07. Lake Zurich
08. Magic City
09. Fire Flies
10. One Percent
11. Souk Eye


autor stipe07 às 18:55
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2018

Mimicking Birds – Layers Of Us

Quase quatro anos depois do excelente Eons, os Mimicking Birds, de Nate Lacy, Aaron Hanson, Adam Trachsel, uma banda norte americana de Portland, no Oregon, estão de regresso com Layers Of Us, um trabalho editado no início deste ano através da Glacial Pace Records, estando disponivel para audição e aquisição na página bandcamp do projeto.

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O efeito da guitarra e os efeitos rugosos do tema que dá nome ao disco e a melodia cinematográfica que sustenta o tema, são detalhes únicos que, abrindo o disco, preparam-nos para a entrada num universo muito peculiar, que ganha uma vida intensa e fica logo colocado a nu, sem truques, no ritmo frenético e no clima rugoso de Another Time e nos efeitos sintetizados borbulhantes e coloridos que divagam pela canção. Os Mimicking Birds apostam num universo feito por um indie rock que se cruza com detalhes típicos da folk e que só faz sentido se pulsar em torno de uma expressão melancólica acústica que este trio norte americano sabe muito bem interpretar, na senda de alguns nomes que sustentam a melhor herança norte americana deste universo sonoro tão peculiar e com raízes tão profundas no outro lado do atlântico.

Layers Of Us é um trabalho que cresce audição após audição; Mesmo não estando na lniha da frente do processo de criação melódica, os sintetizadores conseguem conciliar a efervescência dos efeitos que debitam, com a indispensável dinâmica que constroem com as guitarras, um abraço instrumental que conhece poucos entraves e expande-se com interessante fluídez. A voz também se cruza elegantemente com os instrumentos e elementos como a lua, o sol, animais e cenários campestres apoderam-se da obra com extrema delicadeza. O disco é uma bela exposição sonora de sons e emoções, um trabalho bem expansivo e épico, mas também com uma intimidade muito própria e familiar.

Um dos aspetos mais interessantes de Layers Of Us é a complexidade instrumental que suporta cada uma das canções, com alguns sons a serem quase impercetíveis, mas essenciais para a cadência e a vibração. Se a acusticidade orgânica de Island Shore não é beliscada pela eletrificação da guitarra, o baixo e a percussão também são elementos estruturalmente dominantes em várias canções. Muitas vezes o dedilhar da viola é aquele detalhe que acaba por ser a cereja no topo do bolo de várias composições, cada uma delas com algo distinto.

Do excelente trabalho de guitarra que se escuta em A Part e no rock de One Eyed Jack, à abordagem mais eletrónica de Great Wave, ou da mais ambiental Belongings, Layers Of Us está cheio de exaltações melancólicas, cenários e sensações que se expressam com particular envolvência e que expõem sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema. É impossível ouvir o single Sunlight Daze e não nos sentirmos profundamente tocados pela delicadeza e pela fragilidade que a canção transmite.

No epílogo de Layers Of Us percebemos que escutámos uma ode à América profunda e à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e do rock. A receita é extremamente assertiva e eficaz e o disco reluz porque assenta num som leve e cativante e contém texturas delicadas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

Mimicking Birds - Layers Of Us

01. Dust Layers
02. Another Time
03. Sunlight Daze
04. Island Shore
05. Great Wave
06. A Part
07. Belongings
08. Lumens
09. Time To Waste
10. One Eyed Jack


autor stipe07 às 21:21
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Terça-feira, 26 de Junho de 2018

Jorge Ferraz - Machines dor Don Quixote ...et... viva la muerte?

Numa edição da sempre muito recomendável Cobra Discos, já viu a luz do dia Machines dor Don Quixote ...et... viva la muerte?, o novo capítulo discográfico de Jorge Ferraz, um consagrado músico e guitarrista que embora trabalhe com muito equipamento electrónico e digital, tem na guitarra a sua grande obsessão. Este compositor e produtor, fundou e liderou algumas bandas portuguesas underground desde o início dos anos oitenta, com destaque para Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, um projeto cujo primeiro registo foi considerado em 1998, num trabalho conjunto do Público e da FNAC, um dos melhores discos da música popular portuguesa de 1960 a 1997. Ezra Pound e a Loucura, ou Fatimah X, foram outros projetos em que se envolveu, tendo sido também cofundador da efémera banda João Peste & o Acidoxibordel que reuniu, entre outros, músicos dos Pop Dell’Arte e dos Santa Maria, Gasolina em Teu Ventre!, bem como o saxofonista Rodrigo Amado.

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Em 2006 Jorge Ferraz passou a trabalhar em nome próprio, tendo publicado, desde então, dois álbuns, um em dois mil e oito e outro em dois mil e dez. Foi produtor dos seus discos a solo e de grande parte das edições das bandas que integrou, tendo ainda desempenhado essas funções com os Pop Dell’Arte e os The Great Lesbian Show. Publicou também poesia e ensaio em revistas como Vértice e Bumerangue, bem como um livro de contos, Telescópio Quebrado Scanner Descontínuo, na Black Sun Editores. Desde 2013 que é igualmente membro fundador do colectivo multimédia Cellarius Noisy Machinae.

No que concerne ao conteúdo de Machines dor Don Quixote ...et... viva la muerte?, o registo contém dezasseis canções que são compêndios de poesia-ruído assumidamente radicais, serenamente aquáticas e borbulhantes e/ou violentas e distorcidas, organizadas em quatro movimentos/partes - talvez pseudo-géneros musicais distintos - com uma duração de cerca de 40 min. Um caminho que vai de infantis melodias de adeus a súbitas atonalidades intrometidas, num sempre aberto jogo de manipulação analógica e digital de tempos, “pitches” e “loops” que resulta do confronto entre a guitarra e outras máquinas. Um vaivém entre o interventivo e o contemplativo, a ruptura activa e a desistência, o rigor maníaco e a displicência ladina, o romântico e o desencantamento irónico. Música e temas onde também se pergunta o que é a identidade de um artista e criador e de onde vem. Qual é a sua liberdade e onde reside a sua coerência? Um romantismo derrotado... de que nunca se desiste.

Rock , eletrónica e jazz são, de certo modo, os grandes eixos orientadores da filosofia sonora deste Machines dor Don Quixote ...et... viva la muerte?, disco onde tudo aquilo que se escuta sabe a uma verdadeira e inspirada ode ao improviso, numa busca constante de sons e melodias que de anárquico terão muito pouco. Assim, do jazz funk de Beirut, the policeman said, versão de uma música incubada no seio dos Santa Maria, Gasolina em teu Ventre!, ao travo eminentemente jazzístico do rock que sustenta Free Rock Songs for Losers and Romantics, que se repete de modo mais subversivo e caricatural em Sax Bitch e que assume uma toada mais abrasiva em Fake-Jazzy Adventures with Alien Breakdowns and Broken Instruments até ao travo pop e de certo modo mais radiofónico de  There is No Second Time and I Feel Fine, este é um disco que procura unificar, através daquilo que o autor apelida de guitartrónica pessoal, toda a miríade de ruídos, ritmos, cadências e pulsares que o  inspiram, mas também o inquietam. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 21:52
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

The Wave Pictures – Brushes With Happiness

Uma das bandas mais profícuas e queridas do cenário indie britânico são os The Wave Pictures de David Tattersall, Franic Rozycki e Johnny 'Huddersfield' Helm, nestas andanças há uns doze anos, mas que estrearam uma segunda vida discográfica em 2011 com Beer In The Breakers e que têm habituado os seus seguidores a pelo menos um lançamento discográfico de relevo por ano. Em 2018 elevam a fasquia e editam dois compêndios, sendo o primeiro Brushes With Happiness, nove canções gravadas espontaneamente pelo trio em apenas um dia de janeiro, num pequeno estúdio caseiro, abrigadas à sombra da Moshi Moshi Records e que, conforme explica Dave Tattersall, o líder da banda, têm um lado muito espiritual e sentimental; We recorded this album live in a small room to tape on one night in January, playing music into the wee hours. Listening to the album feels like being in a ceremony. It takes you to that place. This is music that emanates from one group of people in one place in space and time. Listening to it is like being let in on a secret. Depois deste Brushes With Happiness, chegará em outubro aos escaparates Look Inside Your Heart, um disco menos intuitivo e mais elaborado e refletido, o que não significa automaticamente que venha a ser qualitativamente superior. Veremos.

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Brushes With Happiness mostra o lado mais contemplativo e cru dos The Wave Pictures. É um registo eminentemente acústico onde canções como The Little Window, que mistura blues e folk com uma certa psicadelia, ou a mais orgânica Jim, assim como as nuances classicistas do rock que abastece o tema homónimo, são excelentes instantes sonoros para se perceber o modo como o processo de composição do trio assenta, acima de tudo, na mente criativa de Dave Tatterstall e na sua guitarra. Esse instrumento é o eixo orientador do processo melódico e rítmico das canções, que segue muitas vezes pelo caminho mais simples e minimal no processo de criação, uma aparente ligeireza que acaba por dar um ar mais familiar e ligeiro às canções, o que faz com que o disco flua com enorme prazer.

Os The Wave Pictures não gostam muito de obedecer a convenções e acima da perfeição colocam o seu talento tipicamente indie ao serviço do gozo que lhes dá criarem composições que toquem no âmago pela tal familiariedade que exalam, mas que também tenham uma tonalidade acessível e otimista. A longa Laces é um excelente exemplo da facilidade com que os The Wave Pictures modelam canções que, pela sua duração poderiam ser aborrecidas, mas que, devido neste caso à toada blues que a sustenta, tornam-se em instantes de elevado prazer.

O disco terá nascido, naturalmente, com processos eminentemente analógicos, normais num ambiente bastante intimista; Este toque algo vintage acaba por conferir ao trabalho um certo charme algo indisfarçável. E ao longo das nove canções Tattersall revela-se, mais uma vez, um brilhante escritor de canções, nas quais escreve imensas vezes na primeira pessoa e referindo-se certamente a ele próprio. Mas o que mais impressiona na sua escrita é a combinação recorrente entre a sinceridade e o sarcasmo e o detalhe com que pinta determinados cenários que quase conseguimos visualizar.

Brushes With Happiness é uma aparente repetição mais intimista de uma fórmula que tem sido muito bem sucedida num projeto já com uma extensa discografica, mas que não completou ainda uma década de carreira no regresso à ribalta, mas é mais uma acha certeira para a fogueira do culto que esta banda já usufrui, principalmente em terras de Sua Majestade, alimentada em grande parte por uma fórmula sonora que nos mostra que na música são os prazeres mais simples, aqueles que melhor recompensam o ouvinte. Espero que aprecies a sugestão...

The Wave Pictures - Brushes With Happiness

01. The Red Suitcase
02. Rise Up
03. Jim
04. Laces
05. The Little Window
06. Crow Jane
07. The Burnt Match
08. Brushes With Happiness
09. Volcano


autor stipe07 às 23:22
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

Spiritualized – I’m Your Man / A Perfect Miracle

Spiritualized - I'm Your Man - A Perfect Miracle

Será a sete de setembro próximo e à boleia da Fat Possum que irá ver a luz do dia And Nothing Hurt, disco que quebra um hiato de seis anos dos britânicos Spiritualized e que sucede ao muito aclamado Sweet Heart Sweet Light, um dos álbuns que mais rodou na nossa redação em 2012. And Nothing Hurt será o oitavo disco da carreira dos Spiritualized e foi gravado na íntegra por Jason Pierce, a.k.a. J. Spaceman, líder do projeto, numa pequena divisão da sua casa, contendo nove canções que, num processo contínuo de tentativa vs erro, se tornaram num verdadeiro desafio para o músico, que procurou um ambiente intimista e recatado sem colocar em causa o exigido som de estúdio que faz parte do adn do projeto.

Como primeira amostra do álbum, os Spiritualized acabam de divulgar duas das nove canções do seu alinhamento, os temas, A Perfect Miracle e I’m Your Man. As duas canções assentam em guitarras que escorrem  pelas melodias com o habitual travo lisérgico de Pierce, exemplarmente preenchidas por arranjos de cordas, orquestrações, efeitos e vozes, uma receita onde tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração de cada canção tivesse um motivo para ser audível dessa forma. Confere...


autor stipe07 às 19:05
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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

Animal Flag – Void Ripper

Boston, Massachussets, é o poiso do projeto norte americano Matthew Politoski, o grande responsável pelo projeto Animal Flag, de regresso aos lançamentos discográficos com Void Ripper, nove canções que viram a luz do dia em plena primavera passada e disponíveis para audição e possibilidade de doação de um valor pelas mesmas na plataforma bandcamp. Gravado entre 2014 e 2017, em estúdios de Denvers e Boston, no Massachussets, em Void Ripper Matthew contou com a ajuda de Sai Boddupalli nas guitarras, Alex Pickert na bateria, Zach Weeks no baixo e vários intervenientes nas vozes, nomeadamente Sydney Amanuel, Paige Chaplin, Dary Valentina Dominguez, Olivia Laratta e Michi Tassey.

O indie rock que pisca o olho a ambientes particularmente progressivos e com um pendor melódico algo contemplativo e reflexivo é a pedra de toque deste cardápio de temas, uma descrição algo generalista, até porque são temas que merecem audição atenta e que palsma diversas nuances, mas que o tema homónimo claramente exemplifica. Se Candance não foge a esta bitola, com mais ritmo e uma maior amplitude na distorção da guitarra, um rugoso timbre do baixo e algumas variações rítmicas, conferem a esta canção um ambiente ainda mais épico e impulsivo, que mostra o quanto Animal Flag é um projeto particularmente íntimo de uma monumentalidade muito vincada.

À medida que avançamos na audição de Void Ripper vai-se tornando evidente que Matthew e a vasta miríade de convidados que agregou à sua volta para gravar estes temas, não recearam, em nenhum instante, convocar alguns detalhes clássicos que alimentaram os primordios do rock alternativo, sem descurar o compromisso com uma estética muito própria e que, no fundo, não deixando de conter a contemporaneidade e o ideal de inovação, conseguem uma mistura feliz entre estes dois opostos. O piscar de olhos aos Placebo em Stray e aos Bush em Fair, por exemplo e a acusticidade experimental de Lord Of Pain, atingem o louvável intuíto de nos fazer regressar ao passado, enquanto nos entregam sensações auditivas perfumadas por uma herança que nos diz muito.

Se o prazer de escutar estes Animal Flag faz-nos sentir fiéis a um outro tempo que, pelos vistos, não conhece fronteiras temporais, é também a indisfarçável modernidade deste projeto que faz com que esta coleção de canções de fortes inspirações noventistas, possa e deva ser apreciada com a relevância e o valor que, por direito, merece. Espero que aprecies a sugestão...

Animal Flag - Void Ripper

01. Morningstar
02. Void Ripper
03. Candace
04. Stray
05. Fair
06. Lord Of Pain
07. I Can Hear You Laugh
08. Why
09. Five


autor stipe07 às 20:57
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Terça-feira, 19 de Junho de 2018

Emma Louise – Wish You Well

Emma Louise - Wish You Well

Natural de Brisbane, na Austrália, a cantora e compositora Emma Louise prepara-se para lançar Lilac Everything; A Project by Emma Louise, o seu novo registo de originais que, sendo já o quarto da carreira, começou, curiosamente, a ser incubado logo em 2011 durante as gravações de Full Hearts And Empty Rooms, o seu EP de estreia, algo que a autora confessou recentemente numa rede social (The seed of this project was planted about 5 years ago when I was recording my first album. I heard my vocals slowed down on tape and fell in love with this character. I called the voice Joseph and said I’d one day do a full album with his vocals). 

Lilac Everything; A Project by Emma Louise irá, portanto, marcar uma inflexão na habitual trajetória sonora da cantora, que vai no novo disco dar um maior ênfase à sua prestação vocal, procurando um registo com um grau de dramatismo e de epicidade particularmente vincados, de modo a dar vida ao tal Joseph que ela idealizou. O canadiano Tobias Jesso Jr., produtor do álbum, é também parte fundamental da engrenagem, tendo sido uma das vozes mais encorajadoras para que Emma colocasse finalmente em prática esta sua antiga ambição. O cândido piano e a voz suave de Wish You Well, o primeiro single que acaba de ser divulgado do registo e que foi escrito no México e gravado nos estúdios Bear Creek, em Seattle por Jesso e pelo engenheiro de som Shawn Everett, vencedor de um Grammy,  são nuances que vão claramente ao encontro desse objetivo conceptual. Confere...


autor stipe07 às 15:40
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Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Typhoon – Offerings

Foi no início deste ano que viu a luz do dia Offerings, o quarto álbum dos norte-americanos Typhoon, um coletivo de Portland, no Oregon, que faz parte do catálogo da Roll Call Records, tendo sido este o segundo disco do grupo com a chancela desta etiqueta. Registo conceptual, em quase setenta minutos de música Offerings disserta sobre a vida de um homem que está lentamente a perder a sua memória e oferece aos Typhoon o disco mais dinâmico, ambicioso e impressivo da carreira do projeto até à data.

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Offerings é um daqueles discos que requer tempo e paciência para ser absorvido e contemplado como merece, mas essa é uma tarefa recompensadora, não só porque nos permite conhecer composições sonoras impregnadas com um indie rock orquestral de elevada bitola qualitativa, mas também porque nos faz refletir sobre uma temática que muitas vezes temos receio de encarar de frente, mas com a qual poderemos ter, direta ou indiretamente, de lidar, mais cedo ou mais tarde.

Não é em vão que listen é a primeira palavra que se ouve no disco, com Wake a explicar-nos que a perca dessa faculdade, a audição, é dos eventos mais tristes que pode suceder nas nossas vidas e que, para que tal suceda, não é preciso que fiquemos surdos. Muitas vezes recusamo-nos a ouvir, mesmo que a nossa audição esteja, ainda, em excelente estado, como bem sabemos.

Kyle Morton, o vocalista da banda e responsável por grande parte da lírica das canções, é muito contundente no modo como aborda e crítica a nossa propensão humana para a seleção, já que preterimos muito, na relação com o próximo, aquilo que nos incomoda, dando geralmente primazia no aproveitamento que fazemos da relação, áquilo que podemos beneficiar com a mesma. E, de acordo com Kyle, num homem que está lentamente a perder a memória, essa dificuldade em destrincar o que realmente importa, quer no outro, quer no que nos preenche, é algo ainda mais premente, com cada uma das canções a representar diversos estados de alma que personificam diferentes estádios de degradação da capacidade de reconhecimento dessa personagem. Desse modo, Offerings confronta-nos com o nosso âmago e, por isso, torna-se, no imediato, algo repulsivo, mas os desafios que as suas quase duas mil e trezentas palavras nos colocam, as referências literárias que contém e que vão da filosofia à religião e o modo como nos seduz e convida à auto reflexão, faz dele um álbum extremamente cativante e ao qual acaba por ser difícil resistir.

Em suma, das guitarras efusivas de Chiaroscuro, até ao clima sonoro mais direto e intuitivo das cordas de Algernon, um excelente tema para nos elucidar acerca desta trama, passando pelas referências ao clássico cinemtatográfico de 1963 da autoria de Federico Fellini  ou como os arranjos de White Lighter catapultam o foco do som Typhoon para um experimentalismo psrticlarmente salutar, Offerings reforça a reputação que este projeto tem vindo a ganhar de ser um potencial candidato a tornar-se referência obrigatória no espetro sonoro em que se insere. Mesmo nos momentos mais escuros e lo-fi, há paisagens com alguma luminosidade e cor, ideais para a personagem criada pela banda se esconder enquanto nos confrontamos com os seus dilemas. Nesses instantes ela encarna aquele sorriso que muitas vezes conseguimos vislumbrar num rosto que já não tem vida. Espero que apreces a sugestão...

Typhoon - Offerings

01. Wake
02. Rorschach
03. Empiricist
04. Algernon
05. Unusual
06. Beachtowel
07. Remember
08. Mansion
09. Coverings
10. Chiaroscuro
11. Darker
12. Bergeron
13. Ariadne
14. Sleep


autor stipe07 às 21:48
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Sábado, 16 de Junho de 2018

Hooded Fang – Dynasty House EP

Já chegou aos escaparates à boleia da DAPS Records Dinasty House, o novo EP dos canadianos Hooded Fang, uma banda natural de Toronto, formada por April Aliermo, Daniel Lee, D. Alex Meeks e Lane Halley e que do blues dos anos sessenta, ao punk setentista, passando pelo rock experimental e de garagem, são competentes na forma como abordam diferentes estilos e tendências dentro do universo sonoro mais alternativo. Este EP sucede ao aclamado álbum Venus On Edge, editado há pouco mais de dois anos, um alinhamento que chamou ainda mais a atenção da crítica para o grupo e com temas que chegaram a fazer parte da banda sonora de vários anúncios comerciais em televisões europeias e em programas de televisão norte-americanos, tais como The Flash, Parenthood e CSI New York.

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Este quarteto tem vindo a apresentar, registo após registo, um som cada vez mais adulto e intrincado, com uma forte tonalidade urbana e típica dos subúrbios. O baixo e a guitarra abrasiva de Nene Of The Light, o single entretanto extraído de Dinasty House, é uma boa amostra desta evolução e os desvios rítmicos percussivos dessa canção, clarificam um trabalho exploratório que tem feito sempre parte do adn dos Hooded Fang que, sem colocarem de lado a essência pop dos anos sessenta e setenta, usam uma impressiva veia experimentalista para piscarem com cada vez maior confiança o olho a um universo ainda mais progressivo e sombrio.

Embrenhamo-nos corajosamente em Dinasty House e, ainda sem sabermos que, lá mais para o ocaso, o solo do baixo de Mama Pearl vai convencer definitivamente os mais cépticos acerca da excelência criativa destes Hooded Foang, a distorção metálica e as insinuantes cadências rítmicas de Queen Of Agusan Del Norte e o devaneio fortememente etílico que transborda do andamento punk de Sister And Suns, são bons exemplos de duas canções que poderiam estar esquecidas algures numa cassete legendada com uma banda lá do bairro, que apesar de nunca ter saído de um sala de ensaios que também servia de destilaria, tinha todo o potencial para poder chegar a um universo sempre ávido de sonoridades inéditas, como parece ser o caso destes Hooded Fang, já merecedores de uma posição de relevo na esfera indie punk rock internacional

Os Hooded Fang são canadianos, mas é o rock americano, com uma produção forte e notoriamente agressiva e progressiva que se torna no verdadeiro cavalo de batalha do seu som, montado numa crueza lo fi e rugosa, muitas vezs algo inquietante, mas sempre sedutora, até porque este verdadeiro caldeirão insinuante de ruído é ordenado e feito com propósito, num grupo que, lançamento após lançamento, tem aperfeiçoado a sua linguagem sonora. Espero que aprecies a sugestão...

Hooded Fang - Dynasty House

01. Queen Of Agusan Del Norte
02. Sister And Suns
03. Nene Of The Light
04. Paramaribo Prince
05. Doñamelia
06. Mama Pearl


autor stipe07 às 12:05
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Sexta-feira, 15 de Junho de 2018

Mating Ritual – Light Myself On Fire

Mating Ritual é o projeto a solo do músico californiano Ryan Marshall Lawhon, que tem a sua própria editora, a Smooth Jaws, através da qual acaba de editar Light Myself On Fire, o seu segundo registo de originais, álbum que sucede ao aclamado registo de estreia, intitulado How You Gonna Stop It?, lançado à cerca de um ano, também através da sua etiqueta.

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Mating Ritual é um artista de várias facetas, já que dentro de um espetro bem delimitado, o rock oitocentista, procura abraçar os diversos subgéneros de um espetro sonoro que está sempre muito presente no nosso imaginário e que é, nos dias de hoje, fonte de inspiração para imensos projetos, com origem, especialmente, do outro lado do atlântico. Logo a abrir o alinhamento de Light Myself On Fire, a excelente melodia do teclado e o swing das guitarras do tema homónimo e, depois, a imponência orquestral do edifício melódico que envolve U + Me Will Never Die, uma canção com um refrão avassalador, percebe-se que Ryan dá primazia a uma faceta algo sonhadora e romântica, que se aplaude e que é também fruto de uma produção cuidada que, nunca disfarçando a intensidade e o vigor elétrico, também demonstra uma atitude corajosa de querer evitar ao máximo que a limpidez e a capacidade de airplay radiofónico dos temas possam castrar a extraordinária capacidade criativa que o músico demonstra possuir, sempre com a objetiva direcionada para o universo sonoro já referido. Depois, a percurssão trememendamente intuitiva e ritmada de Heaven's Lonely e, ainda nesse tema, as guitarras efusiantes e diversificadas em termos de efeitos e o baixo imponente aliado a sintetizadores de elevado cariz retro, com efeitos que disparam em diferentes direções, além do timbre sintético na voz que dá a Ryan uma toada que tem tanto de sexy como de robótico, clarificam-nos, ao terceiro tema que este Light Myself On Fire é a banda sonora perfeita para uma odisseia espacial, congeminada algures no início da década de oitenta e do período aúreo do disco sound.

Assim, é verdade que ao longo do alinhamento do registo abundam os flashes de efeitos vários, mas é o indie rock quem mais ordena, feito com guitarras acomodadas em diversas camadas e melodias orelhudas que tanto nos levam, no caso de Stop Making Sense, para ambientes mais climáticos, mas com uma pinta de epicidade, como para aquela pop efusiante, expansiva, radiofónica e luminosa, exemplarmente retratada em Low Light, um verdadeiro e imenso hino indie rockA viagem interestelar continua em Spliting In Two e depois nas variações rítmicas de Monster e na encantadora tonalidade reflexiva de Lust + Commitment, o autor confere um ambiente ainda mais negro e místico ao disco, ampliando, assim, o seu cariz sonoro abrangente e múltiplo.

Em suma, ao segundo disco Mating Ritual continua a dar vida à fusão única que alimenta entre o talento musical que possui e a nostalgia que sente relativamente a um período musical que o terá marcado profundamente, propondo mais um punhado de canções que exploram a eletrónica e o indie rock de modo a serem simultaneamente abrangentes, versáteis e acessíveis ao grande público, sempre com as pistas de dança debaixo de olho. Espero que aprecies a sugestão...

Mating Ritual - Light Myself On Fire

01. Light Myself On Fire
02. U + Me Will Never Die
03. Heaven’s Lonely
04. Stop Making Sense
05. Low Light
06. Splitting In Two
07. Monster
08. Lust + Commitment
09. I Know So Much Less Than I Thought I Did


autor stipe07 às 10:37
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