Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

The National, High Violet - Review

 

Há discos dificeis de descrever e que quanto mais se ouvem e mais familiares se tornam, maior é a dificuldade em abordar o seu conteúdo. Acho que a magia da música, enquanto forma de arte e veículo privilegiado de emoções, é mesmo essa, conseguir deixar-nos abismados, a engolir em seco e sem palavras. São os tais discos que primeiro estranham-se e depois entranham-se!

A primeira audição a sério de High Violet foi uma tremenda desilusão... Tudo soou demasiado estranho. Depois de ouvir milhares de vezes o aclamado Boxer (2007), percebi imediatamente que os The National, no novo disco, não escolheram o caminho mais fácil, tantas pareceram ser desde logo as diferenças. E ainda bem. Mas logo ali, de imediato, suportado em experiências anteriores e por uma genuína e impaciente curiosidade, consegui lucidamente perceber que estava perante um grande álbum, um disco pelo qual me iria certamente apaixonar, ao qual me iria agarrar de imediato e exigir repetidas audições!

Em Terrible Love (It’s a terrible love that I’m walking with spiders) comecei por queixar-me do demasiado barulho e da distorção no final da música! Parece que, tal como Lemonworld (I was a comfortable kid, but I don't think about it much anymore), a música foi gravada nas profundezas do oceano, o que até acaba por estar de acordo com as letras, que falam de rios e oceanos, possíveis metáforas para exprimir sentimentos de distância e desejo em relação a alguém ou algo inacessível! Seja como for, agora já não passo sem aqueles segundos ensurdecedores.

Sorrow (Sorrow that put me on the pills, It's in my honey it's in my milk) desasossega os espíritos mais altivos e orgulhosos e convida à introspecção interior, ao reconhecimento das nossas culpas e ao assumir pleno dos nossos erros e fracassos, em busca de uma suposta absolvição.

De seguida, já com a alma lavada e a redenção no bolso, chega-nos Anyone's Ghost (Go out at night with your headphones on, again, and walk through the Manhattan valleys of the dead), um convite encapotado e, na minha opinião, tremendamente sensual, à festa, à diversão nocturna, à dança, e à busca do desconhecido. Quem exagerar nos festejos e voltar a cair no erro, tem nova hipótese de redenção em Little Faith (All our lonely kicks are getting harder to find, we'll play nuns versus priests until somebody cries) e, mais adiante, em Conversation 16 (Im a confident liar, have my head in the oven so you know where i'll be, i try to be more romantic, i wanna believe in everything you believe). Não há aqui lugar só para as mentes tranquilas e sossegadas e todos temos direito a um final feliz.

Afraid Of Everyone (With my shiny new starspangled tennis shoes on, I'm afraid of everyone, I'm afraid of everyone), uma canção sublime sobre o medo do governo, da paternidade, de tudo, tem também uma distorção muito estranha lá para o fim, mas os coros de Sufjan Stevens e a bateria de Bryan Devendorf, a chicotear a canção por dentro, compensariam sempre tudo o que lá colocassem!  Bryan é, julgo eu, um dos melhores bateristas da actualidade; Não parece ser excepcionalmente virtuoso, mas é muito consistente, a batida é firme, com um cunho muito pessoal e consegue guiar as canções da banda de forma precisa.

Em Bloodbuzz Ohio (I was carried to Ohio in a swarm of bees) fico completamente rendido! Ali, no meio do disco, está aquele que é para mim o ponto alto de High Violet. É, para já, a minha música do ano, superando Mellancholy Hill dos Gorillaz e Tornado de Jónsi; A estória de um tipo que deixa tudo e regressa a Ohio em busca do seu amor, doce como o mel, embalado por um enxame de abelhas, penetrou em mim de tal forma que já não me deixa grande margem para conseguir escrever algo mais sobre a música... A simples visão de um tipo a voar em formação,  sublimado numa esquadrilha de abelhas, tal e qual como no filme A história de uma abelha, ansioso por chegar ao seu destino e transportanto no seu peito um coração cheio do mais doce dos pólens, o amor, é demasiado bela para me perder com outras considerações mais profundas acerca do possível significado do poema.

England (You must be somewhere in London, You must be lovin' the life in the rain) é um hino à libertação, ao apego dos sentimentos e um incentivo a olhar em frente, a sermos sempre honestos e felizes! É a música coldplayana da banda; O piano assume desde logo as rédeas do jogo, com uma melodia bastante simples, mas imensamente doce e profunda e determina os restantes arranjos; O climax chega com a entrada da bateria, como se ali, naquele instante, nos fosse pedido para largar tudo e gritar bem alto o refrão, como se fosse um autêntico grito de guerra! Inicialmente achei que a música tinha lá pelo meio uns loopings muito estranhos e era demasiado longa, nada típica, mas agora fico triste e sinto-me cansado, estranhamente relaxado e em paz, quando soa o último acorde! Um enorme épico, na verdadeira acepção da palavra!

Vanderlyle Crybaby Geeks (leave your home, change your name, live alone, eat your cake) é uma despedida serena, cantada por toda a banda. Se o disco nos tocou e conseguiu pôr a nú todas as nossas frustrações e resignações, os The National encorajam-nos, serenamente, de forma quase imperceptível e  sem grandes ondas a, caso haja necessidade disso, mudarmos lentamente de vida e voltarmos ao trilho certo. Cabe a cada um de nós decidir se aceita o desafio...

Ao longo de High Violet, todos os elementos da banda têm voz activa e estão focalizados exactamente onde devem, sem dispersões inúteis. O baixo e a bateria são os grandes pilares das canções e ambos os instrumentos vão dialogando com as guitarras, o piano e alguns instrumentos de sopro, quase sempre de forma superficial, equilibrada e minimalista, mas enriquecendo enormemente as canções. E claro, a voz única de Matt Berninger quase que nos esmaga; Em Afraid of Everyone, ele dá-nos a metáfora perfeita para o efeito que a sua voz nos povoca, quando diz your voice is swallowing my soul.

 

The National: vocalista dá de comer aos patos em vídeo irónico - veja aqui -

 

No universo indie, os The National dificilmente atingirão o estatuto de uns Arcade Fire ou de uns Interpol; Mas, em cada uma das suas canções, estarão certamente sempre presentes riffs decadentes e gloriosos e frases absurdas sobre os mistérios do coração, versos que me dão uma vontade imensa de pintar nas minhas paredes para que, diariamente, me sinta guiado e inspirado pelo bem que me faz ter a possibilidade de ouvir e usufruir de um álbum assim.

Esta talvez tenha sido uma das críticas menos certeiras e musicalmente concretas que já escrevi a um disco... Quem ler este texto vai ficar provavelmente a saber o mesmo sobre High Violet, mas ficarei satisfeito se conseguir suscitar curiosidade genuína para uma audição. Por muito que tente, está mais que provado que não tenho jeito para colocar por palavras os sentimentos bons que me invadem, quer na música, quer nas mais variadas facetas da minha vida. E por isso, em diferentes momentos da minha existência, quando me sinto invadido desta forma, prefiro sempre o usufruto!

É imenso o prazer que sinto por ir na octagésima quarta audição, conseguir ainda descobrir um detalhe novo e por estas onze músicas me serem já familiares e o seu conteúdo soar cada vez mais linear, claro e belo.

Obsessão? Não. Talvez seja apenas um tipo com sorte, devido ao amor infinito e selectivo que sinto pela música como forma de arte e expressão de sentimentos por excelência.

A voz tímida de Matt Berninger tem-me deixado sem palavras... Tem-me levado à Lua... Literalmente... Feliz.

Um dos meus discos da década... Sem qualquer exagero!

music: The National - England
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autor stipe07 às 22:04
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2 comentários:
De João Rodrigues a 27 de Maio de 2010 às 02:11
John, que bem te compreendo.


De Jonathan a 18 de Junho de 2010 às 04:15
Excelente comentário. The National se superou. É um disco que cresce na gente á medida que ouvimos. Minha favorite é Conversation 16. As músicas são épicas, lembrando ás vezes Arcade Fire. Uma crítica construtiva para teu blog: as letras brancas no fundo preto embaralham demais a visão.


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