Terça-feira, 23 de Abril de 2019

Strand Of Oaks - Eraserland

Foi há cerca de dois anos que Tim Showalter editou Hard Love, o quinto registo de originais em que assinou Strand Of OaksHard Love sucedeu ao aclamado disco Heal, que o colocou, em dois mil e catorze, nas luzes da ribalta e foi, de acordo com o autor, um trabalho gravado numa época tumultuosa e sobre enorme pressão, devido ao peso do sucesso de Heal e ao escurtínio que sabia que iria ser feito relativamente ao sucessor desse tão bem sucedido trabalho. A boa aceitação por parte da crítica e dos fãs de Hard Love, acabou por constituir um bálsamo retemperador para Showalter que ganhou elan para colocar nos escaparates, o ano passado, um alinhamento de demos melhorados que sobraram das gravações de Hard Love, intitulado Harder Love, um alinhamento alternativo que encerrou um capítulo importante da vida discográfica do autor e o deixou de mente limpa e consciência tranquila para o próximo passo.

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Agora, um ano depois, Strand Of Oaks está de volta com o seu sexto e novo disco, um registo intitulado Eraserland, que viu a luz do dia à boleia da Dead Oceans, um trabalho curioso porque conta com a participação especial dos My Morning Jacket como banda de suporte de Showalter, além do guitarrista Jason Isbell e da voz de Emma Ruth Rundle num dos temas.

É um Timothy revigorado e com uma impressionante capacidade de nos fazer cavalgar à retaguarda umas quatro décadas sem que quase nos apercebamos, pelo menos de imediato, desse hiato temporal, que se apresenta em Eraserland, um tomo de onze composições que nos oferecem uma sentida homenagem do autor a alguns dos seus heróis musicais, com Springsteen e Tom Petty à cabeça, enquanto nos mostra que afinal pode ser bastante ténua a linha que separa aquilo que é a vida real de qualquer comum mortal e aquilo a que nós temos por hábito de chamar arte, neste caso, arte sonora, música, uma manifestação livre da critividade e da imaginação humanas. Strand Of Oaks volta a falar muito de si e da sua existência e fá-lo com um grau de impressionismo e realismo tal, através da música, que acaba por exaltar e de algum modo normalizar e relativizar aquilo que é para muitos algo só ao alcance de certos predistinados, a criação artística, neste caso a musical. Por exemplo, Weird Ways, um dos momentos maiores de Eraserland, é, talvez, aquela onde se sente o âmago desta genuína entrega por parte do autor. É uma canção plena de intimismo e nostalgia, que começa banhada por um manto etéreo de acusticidade, mas que depois, envolvida por uma vibe pop oitocentista indisfarçável, fica repleta de orquestrações opulentas e, apesar do ruido e da distorção da guitarra, contém, no seu todo, um grau de refinamento classicista incomensuravelmente belo, mas também um modo muito simples, direto e acessível de transmitir o seu ideário lírico, que tem muitas parecenças com nomes contemporâneos como Mount Eerie ou Margo Price, intérpretes e escritores reconhecidos pelo modo como se expôem sem receios e de mente aberta.

Acaba por ser curioso travarmos conhecimento com Timothy, investigando a sua vida pessoal e perceber o quanto ele é recatado e comedido em público e depois contactarmos com esta escrita tão vibrante, confessional e comunicativa. Talvez esta acabe por ser uma fervorosa demonstração de saudável alienação e exorcização por parte de um músico que, com quinze anos, no sotão de sua casa, se sentiu ausente do resto do mundo e percebeu que a música seria a sua cura e a composição sonora a alquimia que lhe permitiria exorcizar todos os seus medos, problemas e angústias.

São, portanto, vários os instantes de puro deleite de um disco escrito sob um manto nublado de dúvidas, hesitações e um estado de espírito algo depressivo depois do frenesim de promoção a Heal e que, de acordo com o próprio Timothy, teve como grande força motriz a audição do clássico registo Spirit Of Eden dos Talk Talk, num passeio junto à praia numa quente noite no verão de dois mil e dezassete. Além da já descrita Weird Ways, logo a seguir, em Hyperspace Blues, encontramos uma canção repleta de cor e frenesim, um luminoso instante pop abastecido por referências noisefolk e psicadélicas, que depois se vão encontrar noutros temas do alinhamento, nomeadamente no clima envolvente do baixo que embala e conduz a pulsante Final Fires, no efeito cósmico da guitarra audível na melancólica Keys e no andamento vibrante, proeminente e majestoso que conduz Moon Landing e, numa faceta mais radiofónica e pop, Ruby, composição em que piano e guitarra conjuram entre si para nos facultar uma impressionante e tremendamente realista viagem ao melhor dos anos oitenta. Depois, momentos mais intimistas como Wild and Willing ou Forever Chords, composições aparentemente minimalistas mas adornadas por camadas sonoras ricas em detalhes implícitos, nunca ofuscam a natural predisposição deste reverendo barbudo para expor tudo aquilo que sente e precisa de expelir com genuína entrega e sensibilidade extrema.

Escutar com devoção Eraserland é embarcar numa viagem emocional e emocionante rumo ao fulcro cósmico da mente de Strand Of Oaks. A empatia entre o autor e os músicos convidados referidos anteriormente é outro factor que ajuda a ampliar ainda mais a elegância e o charme de um alinhamento que de mãos dadas com uma produção irrepreensível, nos proporciona muito do que de melhor propõe hoje a música independente americana contemporânea. É um álbum que volta a expandir os territórios deste artista verdadeiramente singular, que replica uma vez mais com mestria um emaranhado de antigas nostalgias e novas tendências, que reproduzem toda a força neo hippie tipicamente rock, mas que também se deixa consumir abertamente tanto pelo experimentalismo punk lisérgico como pela soul. Espero que aprecies a sugestão...

Strand Of Oaks - Eraserland

01. Weird Ways
02. Hyperspace Blues
03. Keys
04. Visions
05. Final Fires
06. Moon Landing
07. Ruby
08. Wild and Willing
09. Eraserland
10. Forever Chords
11. Cruel Fisherman (Hidden Track)


autor stipe07 às 11:44
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