man on the moon
music will provide the light you cannot resist! ou o relato de quem vive uma nova luz na sua vida ao som de algumas das melhores bandas de rock alternativo do planeta!
Ulrika Spacek – Square Root Of None
Pouco mais de dois anos depois de Compact Trauma, um dos melhores discos de dois mil e vinte e três para a nossa redação, figurando num honroso décimo sétimo lugar, os britânicos Ulrika Spacek de Rhys Edwards, Rhys Williams, Joseph Stone, Syd Kemp e Callum Brown, estão de regresso ao formato longa duração em dois mil e vinte e seis com EXPO, um alinhamento de onze canções que vai ver a luz do dia a seis de fevereiro, com a chancela da Full Time Hobby Recordings.

pic by Anya Broido
Square Root Of None é o mais recente single revelado do conteúdo de EXPO. Oitava canção do alinhamento do registo, esta composição ilustra o modo exímio como este projeto Ulrika Spacek consegue mesclar concetual e sonoramente o digital e o analógico, através de um modus operandi eminentemente experimental, que utiliza instrumentação sintética, mas também, do ponto de vista mais orgânico, cordas das mais variadas proveniências e variados elementos percussivos.
De facto, o dinamismo e o registo amosférico denso e imersivo, feito de guitarras distorcidas e texturas eletrónicas com um curioso perfil retro, são as traves mestras do esqueleto sonoro de Square Root Of None, um tema que replica uma sonoridade punk, feita com fortes reminiscências naquela faceta sessentista ácida e psicotrópica com um acabamento exemplar, enquanto nos proporciona uma jornada sonora emocionante e introspetiva. Confere Square Root Of None e o artwork e a tracklist de EXPO...


Intro
Picto
I Could Just Do It
Build A Box Then Break It
This Time I'm Present
Showroom Poetry
Expo
Square Root Of None
Weights & Measures
A Modern Low
Incomplete Symphony
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Terrible Mistake - Super Fly
Depois de já terem tocado junos no projeto All Them Lucky, Nuno Dionísio (Me And My Brain, Twin Transistors) e André Pires (The Speechless Monologue) têm um novo projeto em comum, sedeado em Leiria, chamado Terrible Mistake. Aqui exploram o lado sombrio e sensual da eletrónica underground, materializado por estes dias numa viagem intensa e psicadélica intitulada I Have An Atomic Bomb Inside Me, um alinhamento de seis canções, lançado em formato digital e vinil e com a chancela da Omnichord Records.

Super Fly é um dos grandes destaques do alinhamento de I Have An Atomic Bomb Inside Me. O tema é, de certa forma e de acordo com o press release do seu lançamento, o ponto de partida de um disco que traduz uma procura do processo de criação artística e da construção de identidade, tanto do caminho de contador de histórias, como do caminho da composição musical.
Super Fly é uma música que fala sobre a dificuldade de encontro no amor e sobre o caminho de descoberta interior que acompanha a criação, materializada num clima sonoro com um elevado travo, inicialmente jazzístico e depois eminentemente progressivo. Em Super Fly, vozes ecoantes e etéreas, teclados planantes e um registo percussivo algo arrastado mas contagiante, oferecem ao ouvinte pouco mais de seis minutos algo sombrios, mas bastante envolventes e com uma sensualidade hipnótica e vibrante única, que nos prende de modo inebriante e irresistível. Confere...
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Soft Kill – Feel This High
Depois de terem colocado em sentido a crítica em outubro de dois mil e vinte e dois com o registo Canary Yellow, o projeto Soft Kill manteve-se extremamente ativo e profícuo, lançando mais dois discos desde então. Em dois mil e vinte e três incubaram o registo Metta World Peace, que foi cuidadosamente dissecado pela nossa redação e na primavera do ano passado um alinhamento de treze canções intitulado Escape Forever.

Ainda em dois mil e vinte e quatro e algumas semanas depois do lançamento desse oitavo álbum da carreira da banda liderada por Tobias Grave, o projeto sedeado em Portland, mas natural de Chicago, no Ilinois, surpreendeu-nos com uma versão de In The Town Where I Was Born, um original que fazia parte do registo The Pain And The Pinkerton Thugs, que a banda The Pinkerton Thugs lançou em mil novecentos e noventa e sete. Se o original era uma canção de elevado pendor acústico e intimista, a versão assinada pelos Soft Kill colocou todas as fichas num perfil sonoro eminentemente pop, com o timbre metálico enleante de uma guitarra a suportar um shoegaze cósmico repleto de têmpora e invulgarmente luminoso.
Agora, quase no ocaso de dois mil e vinte e cinco, os Soft Kill estão de regresso ao nosso radar devido a um novo single intitulado Feel This High, que tem como b) side o tema Cullerton Girls., ambos produzidos e masterizados por Trey Frye e com direito a uma edição física limitada e em formato maxi-single de 12'', com trezentos exemplares.
Feel this High é uma canção vibrante, um tema com as portas e as janelas escancaradas para um post punk bastante imersivo e exemplarmente nostálgico. O registo ecoante das guitarras, a robustez do baixo e o frenesim dos teclados, aprimoram essa filosofia estilística ímpar e com um adn muito próprio que, no caso dos Soft Kill, acaba por mover-se também nas areias movediças de uma psicadelia lisérgica particularmente narcótica. Confere...

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Saccades – Between Two Bodies Of Water
Os londrinos The KVB, formados pela dupla Nicholas Wood e Kat Day, construiram na última década um firme reputação que permite afirmar, com toda a segurança, que são, atualmente, uma das melhores bandas a apostar na herança do krautrock e do garage rock, aliados com o pós punk britânico dos anos oitenta.

No entanto, não é só dos The KVB, que se faz a carreira musical destes artistas. Wood tem também um projeto a solo que batizou com o nome Saccades, com vários singles já editados e disponíveis na plataforma bandcamp do músico.
Assim depois de no início de outubro último, Saccades ter causado mossa na nossa redação com Greek Fire, um tema com um perfil sonoro bastante solarengo e intimista, mas igualmente imponente e enleante, agora volta a fazê-lo à boleia de uma outra composição. Trata-se de Between Two Bodies Of Water, tema inspirado numa canção com o mesmo nome assinada pelo guitarrista espanhol Paco de Lucia.
Solarenga, charmosa e intimista, Between Two Bodies Of Water impressiona pela riqueza de entalhes e detalhes sintéticos que adornam uma composição com um elevado travo cósmico e com um perfil enleante e aconchegante. É uma canção em que o registo vocal ecoante de Wood, a subtileza das guitarras e a exuberância dos teclados se fundem e se confundem com minúcia e cálculo milimétrico, num resultado final que espreita perigosamente, e ainda bem, uma sonoridade muito próxima da pura psicadelia. Confere...

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Hazel English - Gimme
Artista debaixo dos holofotes da crítica mais atenta desde que lançou há pouco mais de meia década o EP Give In / Never Going Home, Hazel English estreou-se nos discos em dois mil e vinte com Wake Up!, um buliçoso alinhamento de dez composições que nos ofereceram uma bagagem nostálgica tremendamente impressiva, já que, ao escutarmos o registo, parecia que embarcavamos numa máquina do tempo rumo à melhor pop que se fazia há mais ou menos meio século e que ainda hoje influencia fortemente alguns dos melhores nomes da indie contemporânea.

Na primavera dois mil e vinte e três, e já depois de no final de dois mil e vinte e um nos ter brindado com um inédito intitulado Nine Stories, que foi grande destaque de um EP chamado Summer Nights, lançado no verão do ano seguinte, a cantora australiana a residir atualmente em Oakland, nos Estados Unidos, voltou à carga com uma belíssima cover de Slide, um icónico tema dos anos noventa assinado pelos míticos Goo Goo Dolls de Johnny Rzeznik, Robby Takac, George Tutuska e Mike Malinin.
No outono desse mesmo ano de dois mil e vinte e três, Hazel English deliciou-nos com uma novidade intitulada Heartbreaker, que na altura ainda não trazia atrelado o anúncio de um novo disco da artista e que contava nos créditos de produção com Jackson Phillips, aka Day Wave, seu colaborador de longa data. No entanto, esse segundo registo de originais da cantora de Oakland tornou-se mesmo uma realidade em dois mil e vinte e quatro, com Real Life, um alinhamento de onze canções que marcou mais um capitulo nesta profícua parceria com Day Wave.
Real Life era um regalo para os ouvidos de quem aprecia canções com uma forte tonalidade pop e que estejam adocicadas com aquele registo sonoro que, sem ser demasiado ligeiro e radiofónico, consegue ser constantemente sedutor e instigador. Liricamente, e como seria de esperar, o álbum era uma espécie de tratado filosófico sobre desencontros amorosos e sobre a necessidade de saber seguir em frente quando uma relação termina, ou quando há algo na nossa vida que de certo modo nos emperra e não deixa que o rumo delineado seja calcorreado sem atropelos de maior.
Oito meses depois do lançamento de Real Life, em agosto último, Hazel English regressou ao nosso radar com Baby Blue, uma canção escrita e meias com Jackson Phillips e Rutger van Woudenberg, que também assinou a produção da composição, juntamente com Hazel. Baby Blue era um oásis de pop etérea e solarenga, com um forte travo chillwave, que assentava numa guitarra com um timbre metálico ziguezagueante intenso, algumas sintetizações subtilmente charmosas e um registo vocal ecoante.
Já em outubro tivemos para escuta mais uma novidade de Hazel English, intitulada Calgary, gravada em Londres e escrita com a inestimável ajuda de Frank Colucci. Versando sobre a magia de um amor que tem tudo para correr bem, Calgary começou por impressionar pelo timbre metálico ecoante e psicadélico de uma guitarra, que era depois trespassada por outros efeitos enleantes, uma bateria frenética e um baixo lúcido, num registo pop solarengo, cativante e charmoso.
Agora, quase no ocaso de novembro, temos para escuta Gimme, uma nova canção de Hazel English, que também conta nos créditos da escrita e da produção com Jackson Phillips, aka Day Wave, já acima citado. Apostando no habitual registo sonoro da artista, já descrito e que aposta muito no frenesim percurssivo e no timbre metálico ecoante das guitarras, Gimme é uma canção charmosa e radiante, criada por uma cantora e compositora que, com uma mão na indie folk e a outra no rock alternativo, letra após letra, verso após verso, abre-se connosco enquanto discute consigo mesma e coloca-nos na primeira fila de uma vida, a sua, que acontece mesmo ali, diante de nós. Confere Gimme e o vídeo do tema, gravado num terminal do aeroporto JFK, entretanto encerrado, chamado Twilight Flight Center, construído em mil novecentos e sessenta e dois e convertido num hotel temático em dois mil e um...
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Damien Jurado – Gathered And Stolen By Storm
O norte-americano Damien Jurado atravessa, claramente, desde há algum tempo para cá, uma das fases mais profícuas da sua já longa carreira. Depois de na primavera de dois mil e vinte e um ter editado o excelente registo The Monster Who Hated Pennsylvania, regressou, no verão do ano seguinte, com um novo disco também monstruoso, intitulado Reggae Film Star e em dois mil e vinte e três lançou Sometimes You Hurt The Ones You Hate, o décimo nono registo de originais deste músico e compositor natural de Seattle, um trabalho que, como é habitual neste artista, teve a chancela da Maraqopa Records, a sua própria etiqueta.

Já este ano, Damien Jurado voltou ao formato longa duração, à boleia de Private Hospital, uma coleção de onze músicas produzidas pelo próprio, dissecadas aqui e que, contando com as contribuições especiais de Lacey Brown, Aura Ruddell, Zach Alva e Stevan Alva, proporcionaram-nos, em pouco mais de trinta e dois minutos, um novo festim de indie pop rock luxuriante e vibrante, caraterísticas bem patentes logo em Celia Weston, o tema de abertura, um tratado de epicidade rugoso e simultaneamente luminoso, que dissertava, com sagaz ironia e requinte, sobre o inevitável fim da nossa passagem por esta vida terrena.
Além desse disco, o músico norte-americano tem andado a remexer no seu baú, nomeadamente nas gravações que sobraram da criação do álbum Maraqopa, que Jurado lançou em dois mil e doze e que vêm finalmente a luz do dia. Assim, depois de no início de outubro termos tido a possibilidade de escutarmos o split 7'' We Will Provide The Lightning que, na verdade, se divide em dois temas, The Notes Of Seasons e We Are What We Dream, com o primeiro tema a oferecer-nos um registo interpretativo imponente e rugoso, apostando numa filosofia estilística que colocava na linha da frente uma indisfarçável toada sintética e com o segundo a apostar num registo mais minimal, agora chega a vez de, no mesmo formato, escutarmos os temas On The Land Blues (Acoustic 12 String Version) e The Moon / The Son que, juntos, deram origem ao split 7'' Gathered And Stolen By Storm.
Estas duas canções, On The Land Blues (Acoustic 12 String Version) e The Moon / The Son, são também dois esboços impactantes, que dizem muito sobre o modus operandi de Jurado em estúdio, representando, com notável riqueza estilística, a destreza do artista em manuear as cordas e induzir-lhes, com requinte, arranjos de diferentes proveniências, sempre com o propósito claro de induzir emotividade, charme e altivez às suas criações que balançam, quase sempre, numa fronteira muito ténue entre o clássico, o retro e o futurista. Confere...
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MIRANDA - Un_Love
Chegou no passado dia dezassete de outubro aos escaparates Un-Love, o disco de estreia do projeto MIRANDA, liderado pelo músico João P. Miranda, natural de Portalegre e que, para incubar este alinhamento de oito canções, contou com as inestimáveis contribuições vocais de Liliana Bernardo, Rita Rice e Cat Falcão.

Este álbum de estreia do projeto MIRANDA desenvolve-se a partir de uma questão essencial: é possível desamar ou apenas perder um amor? Essa ambiguidade percorre todo o disco feito de canções que se movem entre a dor do desencontro e a esperança luminosa do reencontro, mostrando que a melancolia pode conviver com a persistência e a beleza do amor. Mais do que um lamento, Un_Love assume a melancolia como um estado de alma, um fado contemporâneo em que a perda não apaga o sentimento, antes o transforma numa presença diferente: a memória, a saudade, a persistência do amor mesmo nas ruínas. Mas ao mesmo tempo, o álbum abre espaço para a esperança de voltar a amar — seja reencontrando o amor perdido, seja descobrindo um novo caminho onde a dor se converte em renovação. Musicalmente, o álbum veste estas emoções com orquestrações grandiosas, atmosferas cinematográficas e vozes sensíveis que dão corpo a essa contradição. Porque, no fundo, desamar pode ser impossível – podemos deixar alguém, mas raramente deixamos de carregar o rasto desse amor, e é dessa marca que também nasce a coragem de amar novamente.
O disco abre com A New Beginning, uma mensagem de união, esperança e reconstrução. É uma canção sobre a necessidade de recomeçar e fala do poder da empatia, da força que nasce quando duas pessoas escolhem caminhar juntas, mesmo em tempos de incerteza. Depois chega a vez de escutarmos Dreaming, uma canção profundamente pessoal e que reflete sobre uma relação vivida com alguém emocionalmente distante, frio e incapaz de ver a beleza e a profundidade do mundo. É o relato de um amor que existiu à superfície, onde o eu lírico tentava mergulhar enquanto o outro permanecia imóvel, alheio à intensidade do sentimento. A letra traduz esse contraste entre o sonho e a realidade, entre quem sente demais e quem não sente o suficiente. É, no fundo, o lamento de quem quis partilhar o infinito com alguém que só via o chão. É uma canção sobre a solidão que nasce mesmo dentro de um abraço, sobre a dor de perceber que nem todos têm a mesma capacidade de se maravilhar.
O disco prossegue e em Happiness, o autor explora pela primeira vez arranjos orquestrais e percussões sinfónicas que, aliados à emoção melódica e à densidade harmónica, acabam por definir e estética de grande parte do álbum. É uma música que respira em camadas, entre a força épica da orquestra e a intimidade das guitarras e vozes. Liricamente, Happiness é um retrato da contradição humana entre o desejo e a perda. Depois, I Wish oferece-nos o momento mais emocional e intenso do alinhamento; Aqui, o amor surge como tempestade, como força descontrolada que destrói e recria. A linguagem é simbólica e cheia de metáforas, debruçando-se sobre o desejo e a vulnerabilidade, sobre o impulso de querermos ser tocados por algo maior do que nós. Ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre o tempo, o esquecimento e a solidão.
Até ao ocaso do disco, Often a Bird é um hino à esperança que renasce das cinzas, falando de de resistência e de transformação. Save Your Soul, tema com uma cadência lenta, quase de marcha fúnebre, cria uma atmosfera densa e ritualística, fala da possibilidade de renascer, de libertar o espírito, de salvar a alma mesmo quando tudo parece perdido. Tear Us Apart mergulha nas ruínas do amor. É uma canção dura, visceral e honesta, que fala sobre o fim e sobre a dor que fica quando as palavras deixam de fazer sentido. Finalmente, When the Night Comes é um lamento e uma oração, um diálogo entre a dor e a memória. Fala de perda, de amor distante, de uma procura espiritual que se estende pela noite. O narrador vagueia por florestas e colinas, entre ecos e sombras, tentando reencontrar a figura amada, que se tornou símbolo de tudo o que se perde mas continua a viver dentro de nós. Espero que aprecies a sugestão...
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Jens Lekman – Songs For Other People’s Weddings
Oito anos depois do espetacular disco Life Will See You Now, o músico e compositor sueco Jens Lekman está de volta às luzes da ribalta com o sucessor, um alinhamento de dezassete canções intitulado Songs for Other People’s Weddings, que viu a luz do dia com a chancela da Secretly Canadian.

Intenso e sincero, Jens Lekman oferece-nos neste seu novo disco uma experiência sonora autobiográfica, que tem um lado extravagante muito interessante, que vamos, entretanto, dissecar. Para já, importa dizer que este seu novo catálogo de canções quase que merece ser saboreado como um daqueles bolos de noiva deliciosos, com a sua massa empilhada com as mais sumptuosas coberturas orquestrais que possas imaginar, acrescentando, no fim, generosas porções de doçura, que podem muito ser encarnadas na voz única do autor, que tanto pode soar descaradamente tagarela, como subtilmente sedutora.
Se o amor foi sempre o chamariz do catálogo sonoro do sueco, então Songs for Other People’s Weddings atinge o seu âmago dessa filosofia interpretativa, num disco que teve a sua génese há cerca de vinte anos quando o artista começou a tocar em casamentos e incluiu no seu trabalho de estreia um tema intitulado If You Ever Need a Stranger (To Sing at Your Wedding), o mesmo título de um livro assinado pelo autor David Levithan, com quem trocou correspondência sobre essa temática. Essa obra foi escrita por Levithan também em dois mil e seis e conta a história de um um cantor de casamentos fictício, mas bastante conhecido.
Neste trabalho, em vez de apenas gravar as músicas que compôs para o livro, Lekman foi mais longe, explorando os pontos de vista das personagens, para criar um verdadeiro musical, com dezassete canções intensas e que exalam uma euforia indescrítivel, que é para ser ouvida em cerca de oitenta minutos sem pausas ou cortes, para poder ser devidamente apreciado.
A história das canções, o dito musical, acompanha o arco do romance entre J, o alter ego de Lekman, e V. Conhecem-se num casamento onde todos os convidados estão vestidos como músicas e depois de tomarem um comprimido com sabor a laca, entregam-se à ligação lúdica que definirá a sua intimidade. Trata-se de estar apaixonado e, ao mesmo tempo, ser um observador externo do amor, participante e espectador, uma divisão que esbate a linha entre a vida e a música, algo que Lekman adora fazer. Quando V se muda para o estrangeiro, em busca de espaço, J começa a agendar concertos apenas para estar perto dela. Ao longo da obra, V é interpretada com mestria por Matilda Sargren, que Lekman recrutou através de uma orquestra jovem na sua cidade natal. V tem a última palavra sobre a relação de ambos, e J aprende que o propósito da sua música não é aprisionar a permanência, mas celebrar a ligação, por mais fugaz que seja.
A música deste álbum tem tantas nuances como o amor; ora leve e irreprimível, ora vibrante com uma carga erótica, ora hesitante ou questionador, aconchegante ou desolador. Os duetos desdobram-se em monólogos; o que era alegre regressa, pouco depois, como profundo. A narrativa de Lekman é excecionalmente detalhada e engraçada e o seu alter ego de cantor de casamentos proporciona-lhe um coro de personagens e ambientes cativantes para tecer uma dinâmica contínua e a constante evolução da relação entre J e V.
Assim, em GOT-JFK, por exemplo, enquanto se relatam eventos num casamento em Brooklyn, com subtil delicadeza, em The First Lovesong a voz de Lekman começa surpreendentemente grave e rouca, mas depois escutamos um refrão primorosamente arrebatador. Já Candy From a Stranger exala e pulsa como um perfume caro numa pista de dança quente, enquanto Speak to Me in Music exala a atmosfera de um bar de cocktails dos anos oitenta. Há tiques de INXS em With You I Can Hear My Own Voice, de Tori Amos com um toque de gospel em I Want to Want You Again, um electro-funk à la Prince em Wedding in Brooklyn e traços de Beach Boys em For Skye. Os momentos mais comoventes do alinhamento são frequentemente banhados pela transmissão de que amar é a mais pura alegria de viver, especialmente no hino trance On a Pier, on the Hudson.
Em suma, é apropriado recordar que Songs for Other People’s Weddings tenha surgido de uma troca de correspondência, já que o seu conteúdo tem essa forma e esse efeito algo epistolar e comunicativo. Cada canção é como uma carta que recolhe e transmite uma história única que Lekman recolheu e depois nos devolve de modo mais floreado, brilhante, inteligente, carinhoso e mais perspicaz. O amor é um espetáculo! Espero que aprecies a sugestão...

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Wintersleep – I Got A Feeling
Os canadianos Wintersleep estão a comemorar quase década e meioa de carreira e, depois do registo In The Land Of, lançado em dois mil e dezanove, vão regressar ao formato longa duração a vinte e sete de março do próximo ano com Wishing Moon, o oitavo álbum da carreira deste projeto liderado pelo guitarrista e vocalista Paul Murphy, atualmente acompanhado pelo guitarrista Tim D’Eon, o teclista Jon Samuel, o baixista Chris Bell e o baterista Loel Campbell.

Com um alinhamento de doze canções, Wishing Moon foi gravado nos estúdios de Nicolas Vernhes, que também produziu o disco, perto de Pioneertown, nos arredores do deserto do Majoave e terá a chancela da Dine Alone Records.
I Got A Feeling é o mais recente single retirado do alinhamento de Wishing Moon em formato single. É uma vigorosa canção, com um andamento frenético e impetuoso, sustentado por um baixo imponente, riffs de guitarras incandescentes e um espírito interpretativo que, entre o emo rock colegial e o garage, nos oferece quase três minutos e meio plenos de tensão, de energia e de majestosidade, sempre com um sentido emotivo muito pronunciado. Confere I Got A Feeling e o artwork e o alinhamento de Wishing Moon...


01 Wishing Moon
02 Stranger Now
03 I Got A Feeling
04 Wait For The Tide
05 My Mind Always
06 Gale
07 After You
08 Abyss
09 Redrawn
10 You & I
11 All Eyes
12 Like A God
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Pure Bathing Culture – I Said What I Said (The Softies cover)
Em dois mil e vinte e quatro os The Softies, uma dupla formada por Rose Melberg, que também integra os Tiger Trap e Jen Sbragia, dos Pretty Faces, reuniram-se novamente e lançaram um disco intitulado The Bed I Made. Foi o primeiro álbum do projeto em vinte e quatro anos, já que, tendo a sua origem em mil novecentos e noventa e quatro, tinham-se separado em dois mil, depois de terem lançado alguns registos ainda na década de noventa.

pic by Shervin Lainez
Um dos momentos altos de The Bed I Made era o single I Said What I Said, que acaba de ser exemplarmente revisto pela dupla de Portland, Pure Bathing Culture, formada por Daniel Hindman e Sarah Versprille, antigos membros dos consagrados Vetiver, que já tinham lançado este ano, em formato single, os temas Wild Fillies e Cardinal.
A nova roupagem que os Pure Bathing Culture conferiram a I Said What I Said assenta as suas permissas numa sonoridade eminentemente orgânica, mas luxuriante, com a bossa nova a ser um estilo que salta logo à mente do ouvinte durante a sua audição. É uma versão charmosa e plena de bom gosto, onde os acordes da guitarra e o teclado atmosférico nos fazem planar de forma quase surrealista. Confere a cover assinada pelos Pure Bathing Culture e o original da autoria dos The Softies...
