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EELS – Earth To Dora

Sexta-feira, 30.10.20

Dois anos depois do excelente registo The Deconstruction, os Eels de E. (Mark Oliver Everett), Kool G Murder e P-Boo regressam hoje mesmo aos lançamentos, no penúltimo dia de outubro deste ano em que se comemoram duas décadas da edição do belíssimo clássico do grupo Daisies Of The Galaxy. O décimo terceiro e novo disco dos Eels intitula-se Earth To Dora e foi gravado no estúdio da banda em Los Feliz, na Califórnia, tendo as sessões de composição e de gravação começado ainda antes do atual período pandémico.

Mark Everett Shares What Went Into Making EELS Latest, 'Earth to Dora'

Em pleno processo de restabelecimento de uma profunda crise de meia idade provocada por três décadas de intensa atividade musical, quase ininterrupta, que o fizeram atingir um profundo desgaste quer físico, quer emocional, levando-o a uma espiral depressiva que o fez perder a sua segunda esposa, uma senhora escocesa que lhe deu o seu primeiro filho em mil novecentos e dezassete, Mark Everett, que usa óculos desde que foi atingido por um laser num concerto dos The Who nos anos oitenta, viveu a sua vida sempre habituado a conviver com a tragédia na sua vida pessoal e a superar eventos nefastos. Tudo começou em mil novecentos e oitenta e dois com a morte por ataque cardíaco do pai, o famoso físico Hugh Everett,  na altura profundamente deprimido por nunca ter conseguido que a sua teoria sobre física quântica fosse aceite no meio científico. Década e meia depois aconteceu o suícidio da irmã Elizabeth em mil novecentos e noventa e seis e a partida da sua mãe, Nancy Everett, devido a um cancro, meses antes do lançamento do espetacular registo Electro-Shock Blues, (1998), disco que se debruça de modo particularemtne impressivo sobre esta espiral de eventos marcantes da vida de Mr E., que ainda teve mais um capítulo no onze de setembro de dois mil e um qundo num dos aviões que foi desviado contra o Pentágono seguia a sua prima Jennifer Lewis Gore.

Earth To Dora marca não só o regresso de Mark Everett à vida ativa na profissão que escolheu e com uma clarividência ímpar, depois da sua própria quarentena, mas também funciona, tendo em conta o conteúdo das doze canções que compôem o seu alinhamento, como um atestado da sua alta clínica, o documento sonoro que confirma o seu regresso em pleno e completamente revigorado ao universo da escrita e composição de canções que, por sinal e como é sabido por todos, são sempre intensamente pessoais e profundas, tratando de temas como a morte, transtornos mentais, a solidão e o amor. O clima geral deste trabalho e o adn lírico do mesmo não fogem, de certa forma, a esta permissa mas, na minha opinião, é um facto que os Eels não lançavam um álbum tão luminoso e otimista desde o já referido Daisies Of The Galaxy.

De facto, se Mr E. gosta de surpreender e consegue sobreviver no universo indie rock devido à forma como tem sabido adaptar os Eels às transformações musicais que vão surgindo no universo alternativo sem que haja uma perca de identidade na conduta sonora do grupo, Earth To Dora mantém-no, nesse aspecto, num nível muitíssimo acima da simples tona da água, tal é o grau qualitativo sentimental deste registo, que instrumentalmente é intenso e melodicamente orelhudo. Tal sucede porque o disco assenta num formato eminentemente pop rock lo fi de elevado travo blues, um clima geral ditado pela orgânica distorção metálica da guitarra e dos arranjos das teclas e de outras cordas, como violinos ou o banjo, de forte índole melancolica e introspetiva, um efeito ampliado por uma percurssão sempre bastante aditiva. Enquanto isso, canção após canção, somos presenteados com belíssimos poemas, quase todos sobre o amor e as múltiplas facetas que ele pode ter, desde o irónico ao depressivo, passando pelo falso e o mais puro e genuíno, sempre com o seu último casamento muito presente e tudo aquilo que de revigorante e nefasto lhe ofereceu enquanto durou e que ficou para smepre carimbado no músico com a descendência que dele resultou (I learned the hard way to be prepared and given the options, I’d rather be alone).

O timbre vocal inédito de Everett é o remate final de um registo que no rock colegial de The Gentle Souls, no clima blues faustoso de Are You Fucking Your Ex, na íntimidade despojada de Dark And Dramatic ou na destreza folk de Baby Let’s Make It Real, prova que merece fazer parte do pódio dos melhores álbuns de uma vasta e gloriosa carreira de um dos melhores e mais peculiares grupos de rock alternativo da nossa contemporaneidade. Espero que aprecies a sugestão...

EELS - Are We Alright Again

01. Anything For Boo
02. Are We Alright Again
03. Who You Say You Are
04. Earth To Dora
05. Dark And Dramatic
06. Are You Fucking Your Ex
07. The Gentle Souls
08. Of Unsent Letters
09. I Got Hurt
10. OK
11. Baby Let’s Make It Real
12. Waking Up

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publicado por stipe07 às 15:58

Bright Eyes – Miracle Of Life

Quinta-feira, 29.10.20

Com a participação especial de Phoebe Bridges, Miracle Of Life é a mais recente novidade do coletivo Bright Eyes, que há alguns meses quebrou um hiato de quase uma década com o registo Down In The Weeds, Where The World Once Was, um álbum urgente, que reflectia sobre o nível apocalíptico de ansiedade dos nossos dias e dedicado ao irmão de Conor Orbest, o líder deste projeto, tragicamente desaparecido em 2016. Refiro-me, portanto, a um coletivo norte-americano encabeçado pelo já referido compositor e guitarrista Conor Oberst, ao qual se juntam, atualmente, o produtor e multi-instrumentista Mike Mogis, o trompetista e pianista Nate Walcott e vários colaboradores rotativos, vindos principalmente do cenário musical indie de Omaha. No caso deste tema, o baixista Flea dos Red Hot Chili Peppers e o baterista John Theodore dos Queens Of The Stone Age também contribuem para o seu conteúdo, juntamente com a já citada Phoebe Bridges.

Bright Eyes lança "Miracle Of Life" para defender a saúde pública nos EUA

Miracle Of Life é um portento de indie rock onde sobressai um incrível e enleante jogo de sedução entre as teclas e as cordas, gizado por uma secção rítmica bem vincada. É uma composição onde abundam diversificados arranjos, marcados pelo uso de pequenas orquestrações e que tem o propósito bem claro de aletar para a problemática da legislação sobre o aborto, em vigor nos Estados Unidos da América e dos direitos de quem o quer fazer. Todos os dividendos obtidos pelos Bright Eyes com a venda desta canção no bandcamp do grupo, vão direitinhos para a conta da organização Planned Parenthood. Confere...

Bright Eyes - Miracle Of Life

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publicado por stipe07 às 18:07

Polyenso – Lost In The Wheel EP

Quarta-feira, 28.10.20

Os Polyenso são uma banda de rock experimental norte americana sedeada em St. Petersburg, na Flórida. A banda é composta pelo vocalista e teclista Brennan Taulbee, pelo multi-instrumentista e vocalista Alexander Schultz e pelo percussionista Denny Agosto. Year Of The Dog foi o último longa duração que o trio lançou, em janeiro do ano passado, oito canções, algumas instrumentais, impregnadas com uma tonalidade refrescante e inédita, um disco cheio de personalidade, com uma produção cuidada e que nos aproximou do que de melhor propõe a música independente americana contemporânea.

Review: Pure in the Plastic by Polyenso – 88.5 KURE

Agora, mais de ano e meio depois desse tomo, os Polyenso voltam a dar sinais de vida com novas canções que fazem adivinhar sucessor e que foram sendo divulgadas desde o início do último verão. A primeira foi Red Colored Pencil, depois chegou a vez da fresquíssima Dust Devil, e agora é a vez de conferirmos Lost In The Wheel, uma deslumbrante canção incubada num território firme de experimentações sonoras e com um travo lisérgico algo incomum no panorama alternativo atual.

O lançamento deste novo single dos Polyenso teve direito ao formato EP, onde se inclui além de Lost In The Wheel, um curto instrumental chamado “Tempo” e que introduz  MissU (Loops And One-Shots), um devaneio de eletrónica climática, algo sujo e caótico, mas bastante hipnótico. Ora ouçam...

Polyenso - Lost In The Wheel

01. Lost In The Wheel
02. “Tempo”
03. MissU (Loops And One-Shots)

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publicado por stipe07 às 18:22

Gorillaz – Sound Machine, Season One: Strange Timez

Terça-feira, 27.10.20

Já chegou aos escaparates Song Machine, Season One: Strange Timez, o sétimo álbum dos britânicos Gorillaz, a última materialização e a maior do mais recente e inovador projeto da banda, intitulado Song Machine, uma aventura que teve início em janeiro com o lançamento do single Momentary Bliss. Depois disso, foram sendo divulgados outros episódios e temas, que mostraram Russell, Noodle, 2D e Murdoc, por locais tão díspares como Paris, Marrocos, Londres, Lago de Como e até a Lua. Sound Machine, Season One: Strange Timez é um portento de world music e conta com a participação de diversos artistas, como Elton John, Robert Smith, Fatoumata Diawara, Beck, ou Peter Hook, entre outros, e tal diversidade artística apenas sucede porque tem no seu âmago o enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro. Em jeito de curiosidade, importa também referir que este novo disco dos Gorillaz marca o retorno do baixista Murdoc Niccals, depois de não ter feito parte dos créditos de The Now Now, por ter sido preso, tendo, nesse registo, sido substituído por Ace, da série Meninas Superpoderosas.

Gorillaz unveil new album 'Song Machine, Season One: Strange Timez'

Melhor álbum dos Gorillaz desde o fabuloso Plastic Beach (2012) e produzido por Remi Kabaka Jr., Sound Machine, Season One: Strange Timez é um passo seguro e estrondosamente feliz deste projeto, no que concerne ao modo como mais uma vez se reinventa, sem renegar, como seria de esperar, a sua essência. Refiro-me a criar canções onde a experimentação é uma matriz essencial, tem a eletrónica aos comandos, o hip-hop e o R&B na mira, mas também olha para o rock com uma certa gula. E nestas dezassete canções encontramos tudo isto e com um grau de ecletismo nunca visto, estando o centro nevrálgico em redor do qual gravita toda esta diversidade em muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico. E uma das facetas mais curiosas das dezassete composições é todas elas conseguirem atingir com enorme mestria o propósito simbiótico entre aquilo que é o som Gorillaz e o adn do convidado desse tema.

A eletrónica minimalista e melancólica de Aries, o ambiente dançante e humorístico de The Valley Of The Pagans, abrilhantado por um Beck na sua melhor forma, o transe melódico de The Lost Chord, o ambiente retro de Pac-Man, abrilhantado por beats inconfundíveis e um jogo vocal entre Albarn e ScHoolboy Q espetacular, a tonalidade pop de Chalk Tablet Towers, a fusão entre rap e o piano de Elton John em The Pink Phantom, a fusão entre dub e downtempo de Friday 13th, o travo latino e caliente de Dead Butterflies e o inesperado cruzamento entre jazz soul e bossanova em Désolé, são os instantes maiores de toda esta caldeirada impressiva, rematada pela simbólica e justíssima homenagem a Tony Allen em How Far?, músico falecido já este ano e parceiro de Albarn em variadíssimas aventuras musicais, com particular destaque para o projeto The Good, The Bad and The Queen.

Portanto, escuta-se o álbum de fio a pavio e parece que estamos a escutar uma coletânea riquíssima dos melhores temas de cada um dos artistas convidados. Tal evidência alimenta a perceção que este foi um registo que se foi alimentando, durante o seu processo de criação e de composição, de um certo caos, de uma amálgama mais ou menos indefinida, como se tivesse florescido num Kong Studios, em Essex, arredores de londres, aberto para quem quisesse nele entrar e gravar com Albarn, não importanto a sua proveniência e gostos musicais, porque havia abertura de espírito e pafernália física e tecnológica disponível para captar o que surgisse. É, por isso, um trabalho que se alimenta do desconhecido e também o faz no modo como funciona, claramente, em puro caos.

Com a voz de Albarn a ser aquele inconfundível e delicioso apontamento de charme, serenidade e harmonia, numa multpilicade e heterogeneidade de outros registos, quase sempre abuptos, graves, determinados, contestatários e buliçosos, Sound Machine, Season One: Strange Timez é um intrigante exemplo sonoro de mescla de diferentes culturas, num pacote seguro e familiar, que permite a Albarn deixar mais uma vez vincada a sua apetência natural para se servir das raízes de qualquer estilo e conferir às mesmas o seu toque de personalidade, contornando, sem beliscar, todas as referências culturais dos seus convidados que, se não tivessem a mente tão aberta como o anfitrião, poderiam ver limitado o processo criativo. E assim, isentos de tais formalismos, não receiam misturar tudo aquilo que ouvem, aprendem e assimilam nas respetivas carreiras, fazendo-o com enorme bom gosto, ao mesmo tempo que refletem com indisfarçável temperamento sobre este mundo conturbado em que todos vivemos. Espero que aprecies a sugestão...

Gorillaz - Sound Machine Season One - Strange Timez

01. Strange Timez (Feat. Robert Smith)
02. The Valley Of The Pagans (Feat. Beck)
03. The Lost Chord (Feat. Leee John)
04. Pac-Man (Feat. ScHoolboy Q)
05. Chalk Tablet Towers (Feat. St Vincent)
06. The Pink Phantom (Feat. Elton John And 6LACK)
07. Aries (Feat. Peter Hook And Georgia)
08. Friday 13th (Feat. Octavian)
09. Dead Butterflies (Feat. Kano And Roxani Arias)
10. Désolé (Feat. Fatoumata Diawara) (Extended Version)
11. Momentary Bliss (Feat. slowthai And Slaves)
12. Opium (Feat. EARTHGANG)
13. Simplicity (Feat. Joan As Police Woman)
14. Severed Head (Feat. Goldlink And Unknown Mortal Orchestra)
15. With Love To An Ex (Feat. Moonchild Sanelly)
16. MLS (Feat. JPEGMAFIA And CHAI)
17. How Far? (Feat. Tony Allen And Skepta)

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publicado por stipe07 às 16:08

Zero 7 – Shadows EP

Segunda-feira, 26.10.20

Seis anos após o EP Simple Science e cinco depois de EP3, os britânicos Zero 7, um dos nomes fundamentais da eletrónica downtempo e da chillwave, estão de regresso com um novo EP intitulado Shadows, que também serve para apresentar o novo vocalista principal da banda de Sam Hardaker e Henry Binns, o cantor britânico Lou Stone. Já agora, recordo que os Zero 7 não lançam um disco desde o já longínquo Yeah Ghost de dois mil e nove.

FLOOD | Zero 7 Discuss Returning to Form for Their New “Shadows” EP

Este EP Shadows viu a luz do dia a vinte e três de outubro e oferece-nos um alinhamento muito quente e a apelar à soul, com quatro canções que exalam aquele charme típico da dupla e que reforçam o ambiente fashion que sempre caraterizou os Zero 7. São composições com um enredo bastante centrado nas memórias que Binns e Sam carregam consigo, individualmente e como peças fulcrais do universo Zero 7 e de como as duas décadas que levam juntos as criar e a compôr foram marcando as suas vidas e dando sentido a uma existência que sempre se centrou na necessidade de ambos em criar artisticamente.

É, pois, um EP vibrante, mas também soturno, quatro pérolas buriladas em cima de sintetizadores cósmicos, efusivos em Shadows e algumas cordas, serenas em Take My Hand e belíssimas em After The Fall, esta uma composição onde os típicos violinos, que eram peças chave dos primeiros registos da dupla, se mostram exuberantes. Pelo meio vai sendo tudo acomodado por interseções de arranjos que, contrastando com a emotividade vocal de Stone, uma voz habituada a registos mais folk, mas que se assentou como uma luva nos Zero 7, nos proporciona um resultado final lindíssimo, refinado e tremendamente contemplativo. Espero que aprecies a sugestão...

Zero 7 - Shadows

01. Shadows (Feat. Lou Stone)
02. Take My Hand (Feat. Lou Stone)
03. After The Fall (Feat. Lou Stone)
04. Outline (Feat. Lou Stone)

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publicado por stipe07 às 12:54

Local Natives – Sour Lemon EP

Sexta-feira, 23.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que tem a chancela do selo Loma Vista.

Local Natives share “Lemon” featuring Sharon Van Etten | lab.fm

Novidades dos Local Natives são sempre de saudar efusivamente. E quando trazem na bagagem participações especiais de nomes como Sharon Van Etten, então o regozijo torna-se ainda mais audível e justificado. De facto, as quatro canções de Sour Lemon aprimoram ainda mais o habitual patamar instrumental arrojado deste quinteto californiano, mantendo-se a excelência nas abordagens ao lado mais sentimental e frágil da existência humana, traduzida em inspirados versos e a formatação primorosa de diferentes nuances melódicas numa mesma composição, duas imagens de marca do projeto.

Sour Lemon EP convida-nos a penetrar no seu âmago à boleia de Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, Rice e Van Etten, que encaixam na perfeição. Depois, os seguidores mais puristas do grupo ficarão certamente deliciados com o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico, uma canção que nos mostra os Local Natives soterrados em variadas emanações sumptuosas e encaixes musicais sublimes, como é apanágio do seu adn. Para o ocaso, se Lost não engana no modo como, etereamente, pisca o olho a ambientes mais nebulosos e jazzísticos, sem descurar uma leve pitada de R&B, já Future Lover tem o condão de nos fazer levitar e nos dar aconchego, através de um espírito interpretativo intenso e charmoso, onde se destaca o timbre metálico de uma divagante guitarra que contradiz na perfeição um registo percurssivo hipnótico, num resultado final de forte cariz pop.

Uma das grandes virtudes destas quatro novas canções dos Local Natives tem a ver com o facto de se sustentarem numa calculada complexidade, aliada a uma inspirada riqueza estilística, aspectos que fazem muitas vezes parecer que uma mesma composição dos Local Natives resulta de uma colagem simbiótica de diferentes puzzles com tonalidades e características diferentes. E estes dois aspetos peculiares marcam, claramente, um EP de enorme beleza e que merece ser apreciado com cuidado e real atenção, deixando bastante água na boca relativamente a um próximo longa duração deste grupo ímpar no panorama indie atual. Espero que aprecies a sugestão...

Local Natives - Sour Lemon

01. Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02. Statues In The Garden (Arras)
03. Lost
04. Future Lover

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publicado por stipe07 às 16:35

Throwing Muses - Sun Racket

Quinta-feira, 22.10.20

O excelente registo Purgatory/Paradise de dois mil e treze, da autoria do mítico projeto Throwing Muses de Kristin Hersh, David Narcizo e Bernard Georges, já tem finalmente sucessor, para gaúdio dos fiéis seguidores desta mítica banda norte-americana. Sun Racket é o título do novo trabalho discográfico do trio de Rhode Island, um poderoso alinhamento de dez canções que viu a luz do dia no início do passado mês de setembro, à boleia da Fire Records.

Throwing Muses Announce First Album in Seven Years, Sun Racket |  Consequence of Sound

Em pouco mais de meia hora, Sun Racket proporciona um verdadeiro festim para todos os amantes daquele punk rock mais sujo e visceral e, talvez por isso, o mais genuíno e eficaz. Distorções de guitarras em catadupa, espirais de batidas vigorosas proporcionadas por um baixo sempre inquietante, cascatas de ruídos e uma bateria que nunca se escusa a induzir o ritmo que a personalidade de cada canção exige, são os pontos fortes de um alinhamento que também pode ser considerado, de algum modo, como bipolar, à imagem de Hersch, diagnosticada com esse distúrbio desde os dezasseis anos quando conduzia uma bicicleta, foi atropelada e bateu violentamente com a cabeça no chão. Esse evento traumático, e que provocou tal distúrbio mental em Kristin, gerou na artista mudanças de comportamento imprevisíveis, algo constante ao longo de várias décadas, um processo doloroso que, de acordo com a própria autora, ainda hoje só alivia quando ela tansforma os estímulos que sente em canções e depois as grava.

De facto, não faltam em Sun Racket décibeis arrebatadores, mas também dedilhares orgânicos, quebras rítmicas e frenesim constante, em suma, instantes ora fortemente eletrificados ou claramente minimalistas e até, como é o caso de St. Charles, uma simbiose quase indelével, mas indesmentível, de toda esta cópula. No entanto, a matriz é sempre a mesma em todos os segundos do alinhamento; rock puro e duro, sem estigmas nem concessões ao mainstream. Por exemplo, logo a abrir o alinhamento, se Dark Blue uma composição entalhada por um vigoroso indie rock de forte cariz lo fi, está coberta por uma aúrea de aspereza e rugosidade únicas, nuances facultadas por guitarras plenas de poder e fúria, mas também de subtileza e charme, num resultado final inebriante, já Bo Diddley Bridge proporciona-nos comoção ardente, mas sem fazer relaxar o cerrar de punhos que os primeiros segundos de Sun Racket logo incentivaram.

É assim, no dorso de guitarras que oscilam entre o melódico e o distorcido e uma Kristin Hersh nada popupada a debitar letras surrealistas, que se sustenta um disco fascinante, assustador e viciante, enquanto nos leva a testemunhar os delírios e o sofrimento da grande mentora deste projeto único e influente do panorama alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

Throwing Muses - Sun Racket

01. Dark Blue
02. Bywater
03. Maria Laguna
04. Bo Diddley Bridge
05. Milk At McDonald’s
06. Upstairs Dan
07. St. Charles
08. Frosting
09. Kay Catherine
10. Sue’s

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publicado por stipe07 às 16:52

The Killers - Imploding The Mirage

Quarta-feira, 21.10.20

Um dos marcos discográficos de dois mil e vinte é, naturalmente, Imploding The Mirage, o sexto registo de originais dos The Killers, um álbum que tinha edição prevista para o final do passado mês de maio, mas que só viu a luz do dia alguns meses depois, por dificuldades e atrasos na conclusão do disco, de acordo com a própria banda liderada por Brandon Flowers. Produzido por Jonathan Rado e Shawn Everett, Imploding The Mirage conta com participações especiais de nomes tão proeminentes como Weyes Blood, K.D. Lang, Adam Granduciel, Blake Mills, Lucius e Lindsey Buckingham e marca o ocaso de um período particularmente turbulento do grupo que teve de lidar com a saída do guitarrista Dave Keuning e a participação apenas em estúdio do baixista Mark Stoemer.

The Killers Announce New Album 'Imploding The Mirage' & North American Tour  2020, Share Single

Apesar de os The Killers terem andado a divagar, nos discos anteriores, fruto da obsessão de Flowers pelos anos oitenta, por sonoridades onde o experimentalismo dita regras e terem espreitado extremos tão díspares como a pop mais polida ou o rock progressivo, sustentáculos importantes do álbum anterior, o Wonderful Wonderful de dois mil e dezassete, é no clássico rock de arena, vigoroso, imponente e efusivo, que este coletivo se sente mais confortável. Imploding The Mirage encaixa neste arquétipo sonoro como uma luva, mesmo não deixando de conter algumas nuances desses outros espetros sonoros que enchem a alma de Flowers. Aqui, tais homenagens estão impressas indelevelmente no enlace entre a guitarra de Lindsey Buckingham, guitarrista do Fleetwood Mac e os sintetizadores em Caution ou, piscando o loho ao krautrock, nas diversas interseções que definem o andamento vigoroso de running Towards A Place, não esquecendo a utilização de excertos do clássico Hallogallo dos alemães NEU! e de Moonshake dos também germânicos Can em Dying Breed.

Seja como for, Imploding The Mirage clama, canção após canção, por um olhar nostálgico do ouvinte, para que ele perceba que houve aqui um firme propósito dos The Killers de darem um sinal vigoroso de vida, mostrarem que ainda criam canções orelhudas e que o fazem de modo criativo, cuidado e eclético, ou seja, que aquele período aúreo inicial do grupo ainda não está esquecido. Composições do calibre da já referida Fire In BoneMy Own Soul’s Warning, uma daquelas típicas canções de rock de arena, springsteeniana, majestosa e teatral, assente numa guitarra efusiante, um registo percurssivo vincado e efeitos sintetizados plenos de charme, num resultado final melodicamente marcante e que se debruça sobre as típicas lutas que muitas vezes travamos no nosso íntimo (If you could see through the banner of the sun, Into eternity’s eyes, Like a vision reaching down to you, Would you turn away?), não ficariam nada mal no alinhamento dos clássicos da banda Hot Fuss e Sam’s Town.

Disco indutor, frenético e provocante e cheio de solenidade, Imploding The Mirage cimenta novamente uma posição de relevodos The Killers no panorama sonoro atual, graças a dez canções que, de forma imaculada nos arrastam sem dó nem piedade para o profundo universo emocional que conforta Brandon Flowers e que levam a própria banda a assumir que há um caminho que só eles podem trilhar solitariamente e que, nesse percurso, talvez as formas antigas de composição sejam mesmo as mais eficientes, No entanto, isso não significa que não se devam também orgulhar dos atalhos e das rotas divergentes que já exploraram. Fazendo essa mescla neste trabalho, quebram o enguiço de quem insiste em querer catalogar com injusto menosprezo alguns instantes discográficos de determinados projetos que procuraram apenas, ao longo da carreira, perceber zonas de conforto ou, radicalmente, procurar romper com as mesmas e até viver numa espécie de limbo criativo e ir vendo o que dá. Espero que aprecies a sugestão...

The Killers - Imploding The Mirage

01. My Own Soul’s Warning
02. Blowback
03. Dying Breed
04. Caution
05. Lightning Fields (Feat. K.D. Lang)
06. Fire In Bone
07. Running Towards A Place
08. My God (Feat. Weyes Blood)
09. When The Dreams Run Dry
10. Imploding The Mirage

 

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publicado por stipe07 às 13:54

Wye Oak – No Horizon EP

Terça-feira, 20.10.20

Foi há já algumas semanas que os infatigáveis Wye Oak nos ofereceram No Horizon, um novo EP desta dupla de Baltimore formada por Jenn Wasner e Andy Stack. Mestres da folk e do indie rock, mas com um cardápio sonoramente cada vez mais eclético, suportado por uma sólida carreira de pouco mais de uma década cujos maiores trunfos são a belíssima voz de Jenn e o magnífico trabalho instrumental de Andy, os Wye Oak têm solidificado, nas suas últimas propostas discográficas, nomeadamente o disco de dois mil e dezoito,The Louder I Call, The Faster It Runs, uma opção clara por sonoridades mais contemporâneas e direcionadas, essencialmente, para cruzamentos entre a pop e a eletrónica. Assim, fiéis à natureza maleável da banda, os Wye Oak convidaram o Brooklyn Youth Chorus, um coro gigantesco que empresta uma dose de grandiosidade instantânea a tudo aquilo em que mexe e criaram, todos juntos, um alinhamento de cinco temas exemplarmente ornamentados e imponentes e meticulosamente traçados de modo a oferecer ao ouvinte o máximo impacto orquestral possível.

WYE OAK share second track from 'No Horizon EP' - Werkre

No Horizon é, do princípio ao fim, sobre a linguagem e o poder de comunicar. É um alinhamento de assumido confronto com a autoridade politica vigente no país de origem da dupla, que pensa ter a capacidade de minimizar a nossa existência e remover as palavras que usamos. No entanto, os Wye Oak consideram que a linguagem é um poder maior do que  aqueles que a tentam controlar e que somos muito maiores que a linguagem e do que qualquer coisa que possa ser sugerida com palavras. A visão caleidoscópica que os Wye Oak têm da eletrónica atual e que é audível em AEIOU, o tema que abre o alinhamento deste EP, gira em redor deste conceito e explica-o com superior requinte. No ocaso do disco, o grito de revolta da dupla em relação ao status quo vigente é rematado com tremenda inteligência e subtileza em Sky Witness, uma aconchegante imensidão de cordas, teclas e diversos fragmentos samplados, agregados em redor de um fluído de elevado travo orgânico (When the world is just a concept, everything has hidden meaning). Pelo meio, outro grande destaque vai para No Place, canção que reforça essa aposta em sonoridades de forte pendor sintético, apesar da tal filosofia rock que esteve sempre subjacente ao adn dos Wye Oak. É uma canção assente numa salutar confusão sonora muito experimental e apelativa e que originou uma atmosfera sonora simultaneamente íntima e vibrante, que se debruça sobre a fronteira que existe entre a nossa dimensão corporal e biológica e a nossa dimensão metafísica e como muitas vezes as pessoas, recentemente mais direcionadas para profissões que exigem o uso predominante da mente e do pesamento, se esquecem do seu lado físico, descurando o bem estar dessa sua dimensão orgânica.

No Horizon é, em suma, um espelho dos tempos em que vivemos, um modo eloquente mas também intrigante de demonstrar a nossa incapacidade de percebermos que é muito pouco aquilo que controlamos realmente do nosso destino, quando comparado com aquilo que pensamos e ansiamos controlar. Ter essa perceção é meio caminho andado para uma existência mais livre e feliz, uma recomendação que nos é oferecida em bandeja de ouro por uma banda rara no modo como se reinventa em cada novo lançamento e que tem claramente ainda intacta a sua já mítica capacidade de nos surpreender constantemente. Espero que aprecies a sugestão...

Wye Oak - No Horizon

01. AEIOU
02. No Place
03. Spitting Image
04. (Cloud)
05. Sky Witness

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publicado por stipe07 às 13:24

Local Natives - Lemon (feat. Sharon Van Etten)

Segunda-feira, 19.10.20

Ano e meio depois do excelente registo Violet Street, um dos preferidos desta redação do catálogo de dois mil e dezanove, os norte-americanos Local Natives de Taylor Rice estão de regresso com um novo EP intitulado Sour Lemon, gravado logo após as sessões finais de Violet Street com o produtor Chris Coady e que terá a chancela do selo Loma Vista.

Sharon Van Etten Joins Local Natives On New Song "Lemon": Listen - Stereogum

Como certamente os leitores mais atentos deste espaço se recordam, há quase um mês divulgámos o ambiente deslumbrante, luminoso e efervescente de Statues In The Garden (Arras), uma composição que começou a ser incubada na cidade francesa de Arras e que ganhou a sua roupagem final já no lado de lá do atlântico. Essa composição fará parte do alinhamento de Sour Lemon, juntamente com Lemon, a mais recente canção divulgada pelos Local Natives e que conta com a participação especial de Sharon Van Etten, ultimamente ocupada a criar versões de clássicos dos Nine Inch Nails.

Lemon, um portento de melancolia e acusticidade, desenhado com uma viola de elevado pendor clássico, enleada por arranjos de cordas de diferentes proveniências e com diversas tonalidades, e por um registo vocal ímpar de ambos os intervenientes, que encaixam na perfeição, já tem direito a um vídeo dirigido por Kenny Laubbacher e que mostra Rice e Van Etten passeando em margens opostas do Rio Los Angeles. Confere LemonStatues In The Garden (Arras) e a tracklist de Sour Lemon...

Local Natives - Lemon

01 Lemon (Feat. Sharon Van Etten)
02 Statues In The Garden (Arras)
03 Lost
04 Future Lover

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publicado por stipe07 às 13:14


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