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Vila Martel - Nunca Mais É Sábado

Quinta-feira, 30.04.20

Os Vila Martel são Francisco Botelho de Sousa, Rodrigo Marques Mendes, Francisco Inácio, Tiago Cardoso e Afonso Carvalho Alves, um coletivo da capital que se estreou há algumas semanas nos discos com Nunca Mais É Sábado, um espetacular cardápio de oito canções cantadas em português e gravadas há já quase um ano e que são, claramente e sem sombra de dúvida, uma verdadeira lufada de ar fresco no panorama alternativo nacional.

Vila Martel antecipam edição de disco “Nunca Mais É Sábado” com ...

É o puro indie rock, mas de forte travo psicadélico, falsamente inocente, rude e agreste q.b. e buliçoso e optimista que sustenta Nunca Mais É Sábado, um disco que é, também, um verdadeiro portento sonoro que, em quase meia hora, nos instiga e nos abana com ímpar majestosidade. Nunca Mais É Sábado é festa e cor, mas também um impressivo e irrepreensível retrato da urbanidade e dos defeitos e qualidades que tingem o adn de uma grande cidade cosmopolita como é Lisboa no início da segunda década do século vinte e um, um enorme nicho em que centenas de milhares de seres formatados por rotinas, sonhos inatingíveis e superstições inócuas, vagueiam sempre pela mesma rota e com um objetivo sorridente comum... o sábado da libertação, o dia em que não há a obrigação da escala e do serviço e em que a única permissa que realmente interessa é a busca da libertação e da diversão, como se o amanhã fosse apenas uma miragem inócua e ínsipida.

O modus operandi dos Vila Martel para esta epifania, foca-se naquilo que é o elétrico, nomeadamente o modo como a manipulação da eletricidade em estúdio induz, quer nas teclas quer nas cordas,  um caudal massivo de tonalidades sonoras vibrantes, que acabam por funcionar como uma metafora perfeita para tudo aquilo que é o frenesim próprio da nossa contemporaneidade e as alterações que as tais rotinas e obsesões provocaram, inevitavelmente, no mundo que nos rodeia e na sociedade em que vivemos e o quanto isso tem de glorioso e de frenético.

Escorreito e eletrificado de fio a pavio, Nunca Mais É Sábado é redentor no modo como transpira uma profunda sensação de conforto coletivo, não só devido a tudo aquilo que certamente ofereceu aos seus criadores durante o seu período de incubação, mas também por causa do que nos proporciona agora, enquanto objeto sonoro de degustação simples mas contundente e profunda e com um duplo significado, por um lado muito pessoal e circunstancial, por ser capaz de nos fazer sorrir e animar o âmago, mas também, por outro, universal e mitológico, por retratar de modo tão fiel toda a trama que tece as prisões e as contigências que socialmente nos afligem. Espero que apreciesa sugestão...

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publicado por stipe07 às 22:09

Foreign Fields – The Beauty Of Survival

Quarta-feira, 29.04.20

Eric Hillman e Brian Holl são os Foreign Fields, uma dupla norte americana, natural de Nashville, que se tem notabilizado desde dois mil e doze, quando se estrearam com o registo Anywhere But Where Am I, uma consistente coleção de treze canções construídas com fino recorte e indesmentível bom gosto. Take Cover, o segundo longa duração do projeto, lançado no final de dois mil e dezasseis, assumiu-se como o lógico passo em frente desse glorioso percurso inicial, um disco assente em canções bastante emotivas e incisivo a expôr os dilemas e as agruras da vida comum à maioria dos mortais, mas também as alegrias e as recompensas que a existência terrena nos pode proporcionar.

Resultado de imagem para Foreign Fields – Don’t Give Up

Agora, quando ainda se abrem as cortinas de dois mil e vinte, Take Cover tem finalmente sucessor anunciado.The Beauty Of Survival é o terceiro álbum da dupla, um trabalho misturado por Joe Visciano e que nos oferece mais uma banda sonora perfeita para elevar o ego e induzir a tua alma de boas vibrações neste período de confinamento e recolhimento, muito propício à letargia e à intropia mental.

Se quiseres mostrar-te disponível a ouvir The Beauty Of Survival com a devoção que este disco merece e se estiveres disposto a te deixares envolver pela indesmentível aúrea de beleza e esplendor que o seu alinhamento contém, então prepara-te porque ao longo dos seus quase quarenta minutos de duração vais ser trespassado por um verdadeiro oásis de poesia comovente, adornada por uma interpretação instrumental rica em detalhes e onde a folk mais clássica e luminosa, profundamente orgânica e sensorial, feita de pianos e cordas efervescentes, é quem mais dita a sua lei.

Do lindíssimo dedilhar de Brand New, um tema típico de início de disco, que nos atiça, levanta e coloca em apurado sentido os nossos sentidos, até ao clima mais orquestral e opulento de Terrible Times, passando pelo exercício de recolhimento sincero a que sabe Light On Your Face e a mestria do rugoso dedilhar acústico da guitarra que conduz Don't Give Up e em redor da qual diferentes texturas e arranjos, proporcionados por teclas e diversos elementos percurssivos e de sopros, se entrelaçam com um agridoce registo vocal, no qual se inclui uma belíssima segunda voz, plena de emotividade e nostalgia, são vários os instantes de absoluto deslumbramento de um registo carregado de esperança para todos aqueles que já duvidam que são reconhecidos lá fora e não percebem muito bem se ainda estão realmente vivos, apesar de habitarem num organismo palpitante de vida. The Beauty Of Survival indica-nos o caminho rumo à luz nestes tempos de escuridão. Espero que aprecies a sugestão...

Foreign Fields - The Beauty Of Survival

01. Brand New
02. Don’t Give Up
03. Terrible Times
04. Light On Your Face
05. Only Water
06. A Better Person
07. Rose Colored
08. The Beauty Of Survival
09. Terrible Times (Reprise)

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publicado por stipe07 às 13:58

The Killers – Fire In Bone

Segunda-feira, 27.04.20

The Killers - Fire In Bone

Continuam a ser revelados mais detalhes de Imploding The Mirage, o sexto registo de originais dos The Killers, que tinha edição prevista para o final de maio, mas que só verá a luz do dia mais adiante, por dificuldades e atrasos na conclusão do disco, de acordo com a própria banda liderada por Brandon Flowers. Produzido por Jonathan Rado e Shawn Everett, Imploding The Mirage irá contar com participações especiais de nomes tão proeminentes como Weyes Blood, K.D. Lang, Adam Granduciel, Blake Mills e Lucius, além de Lindsey Buckingham, que teve uma aparição vocal relevante em Caution, o primeiro single revelado do alinhamento do álbum, há algumas semanas.

Agora, no final de abril, acaba de ser revelado o conteúdo de Fire In Bone, o segundo single extraído de Imploding The Mirage e uma das composições preferidas da banda do seu alinhamento, uma canção repleta de groove, assente num baixo insinuante, um registo percurssivo vincado e efeitos sintetizados plenos de charme, num resultado final melodicamente marcante. Confere...

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publicado por stipe07 às 22:34

James Blake – You’re Too Precious

Domingo, 26.04.20

James Blake - You're Too Precious

Tem cerca de um ano Assume Form, o último registo de originais do londrino James Blake, um álbum que, curiosamente, acabou por afastar o músico um pouco dos holofotes e da vida pública. No entanto, o estado atual global de confinamento parece ter provocado em Blake uma nova vontade de mostrar serviço, que se tem materializado em algumas aparições ao vivo no seu instagram, desde Los Angeles, onde habita atualmente. Nesses mini-concertos Blake já cantou vários clássicos do seu catálogo, mas também uma versão muito feliz de No Surprises, grande tema dos Radiohead e, numa outra aparição,  uma cover de  Georgia On My Mind, original de Ray Charles, gravado em mil novecentos e sessenta e de The First Time Ever I Saw Your Face, um tratado folk da autoria de Roberta Flack, gravado em mil novecentos e sessenta e nove e que ganhou enorme notoriedade quando fez parte da banda sonora de Play Misty Fo Me, o primeiro filme de Clint Eastwood.

Agora, muito recentemente, James Blake coloca a cereja no topo do bolo com a edição de um novo single original. A canção chama-se You're Too Precious, encarna uma paisagem sonora assente num minimalismo eletrónico eminentemente etéreo e com uma forte vocação experimental e está impregnada com uma beleza e uma complexidade tal que merece ser apreciada com particular devoção. Confere...

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publicado por stipe07 às 21:04

The Rolling Stones – Living In A Ghost Town

Sábado, 25.04.20

The Rolling Stones - Living In A Ghost Town

O inesperado mas necessário período de confinamento que vivemos, devido ao surto pandémico que afeta o mundo inteiro, tem suscitado e inspirado, no universo sonoro, algumas edições, parcerias, contribuições e regressos, que têm sido, frequentemente, inusitados, inesperados e curiosos. Um desses momentos é, sem dúvida, a divulgação de uma nova canção dos The Rolling Stones, intitulada Living In A Ghost Town.

Primeiro tema que a banda de Mick Jagger revela em oito anos, Living In A Ghost Town tem como ponto de partida um esboço de uma canção que o grupo já tinha gravado há cerca de um ano, altura em que os The Rolling Stones entraram em estúdio para compôr e gravar novo material, um processo abruptamente interrompido devido a este evento de saúde pública. Jagger e Keith Richards acharam que a canção teria potencial para causar uma impressão positiva junto dos fãs, adaptaram a letra à situação atual e o resultado final tem aquele travo inédito e único da mistura de rock, blues e soul que, desde sempre, sustenta o adn deste projeto londrino. Confere... 

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publicado por stipe07 às 15:16

Courteeners – More. Again. Forever.

Quinta-feira, 23.04.20

Os britânicos Courteeners de Liam Fray estão de regresso aos discos com More. Again. Forever., o sexto álbum da carreira deste projeto oriundo de Middleton, nos arredores de Manchester e sucessor do aclamado registo Mapping The Rendezvous de 2016More. Again. Forever. viu a luz do dia no início do ano à boleia da Ignition Records e Better Man e as dez canções do seu alinhamento oferecem-nos, no seu todo, o registo mais maduro e consistente da trajetória discográfica deste projeto natural de terras de Sua Majestade.

The Courteeners — More. Again. Forever. - You! Me! Dancing! - Medium

A crise da meia idade, a adição aos álcool e as doenças mentais são os temas basilares de More. Again. Forever., um disco incubado por uma das bandas mais proeminentes do outro lado do Canal da Mancha e comercialmente das mais bem sucedidas na última década, nem tanto devido à quantidade de discos vendidos mas, principalmente, por causa da excelente reputação que posssuem como banda ao vivo. E nestas dez canções existem vários temas repletos de potencial para aumentarem ainda mais este estatuto de alto nível de live band de um grupo que olha com intensa gula para a herança da brit pop que nomes como os Blur, os Oasis, os Suede, os Primal Scream, os Pulp e tantos outros levaram ao mundo inteiro na última década do século passado, mas com um travo cada vez mais indie e repleto de nuances típicas do rock alternativo norte-americano.

De facto, se Better Man é um delicioso instante de indie brit rock, que numa espécie de cruzamento assertivo entrer as melhores heranças de nomes ímpares como os The Smiths ou os Doves, nos oferece, à boleia de cordas efusivas e uma percurssão vibrante, uma contundente reflexão pessoal, já a guitarra abrasiva e efusiante de Heart Attack e os acordes sujos de Take It On A Chin piscam o olho ao melhor punk rock nova iorquino e Heavy Jacket tem, no groove melódico e na vastidão de efeitos que cirandam pelo baixo e pela bateria, um clima dançante e vibrante capaz de medir forças com as melhores propostas de cariz lo fi de terras de Tio Sam. Por outro lado, o clima mais radiofónico e contemplativo de canções como Hanging Off Your CloudOne Day At A Time, convidam-nos a embarcar num tempero pop mais límpido e intimista, sem deixarem de ser canções capazes de fazer vibrar arenas, muito por causa das distorções hipnóticas que são incorporadas nos refrões, com o propósito evidente de ampliar o grau de emoção e de sentimentalismo da mensagem que os temas pretendem transmitir.

Disco feito de referências bem estabelecidas e com uma arquitetura musical carregada de emoção e cor, More. Again. Forever. garante a esta banda inglesa a impressão firme da sua sonoridade típica e ainda lhes permite margem de manobra para futuras experimentações. Há neste cardápio sonoro uma intemporalidade que se expressa na forma como os Courteeners plasmam, com elevada dose de criatividade, o que de melhor recria atualmente o rock alternativo de cariz mais comercial. Espero que aprecies a sugestão...

Courteeners - More. Again. Forever.

01. Heart Attack
02. Heavy Jacket
03. More. Again. Forever.
04. Better Man
05. Hanging Off Your Cloud
06. Previous Parties
07. The Joy Of Missing Out
08. One Day At A Time
09. Take It On the Chin
10. Is Heaven Even Worth It?

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publicado por stipe07 às 21:40

Gengahr – Sanctuary

Terça-feira, 21.04.20

Oriundos de Londres, os britânicos Gengahr são, atualmente,  Felix Bushe (vocal/guitarra), Hugh Schulte (baixo), Danny Ward (bateria) e João Victor (guitarra) e começaram por causar sensação no meio alternativo local quando já no longínquo mês de outubro de dois mil e catorze divulgaram Powder, por intermédio da Transgressive Records, uma canção que os posicionou, desde logo, no universo da indie pop de pendor mais psicadélico, com nomes tão importantes como os MGMT, Tame Impala ou os Unknown Mortal Orchestra a servirem como referências óbvias à crítica que à época começou a ficar particularmente atenta ao quarteto. Depois desse início promissor, os álbuns A Dream Outside (2015), disco em que os Gengahr, logo na estreia, se mostraram assertivos no modo como reinventaram, reformularam ou simplesmente replicaram uma feliz simbiose entre a pop e o experimentalismo e Where Wildness Grows (2018), um compêndio de pop futurista com o ritmo e cadência certas, alicerçado em teclas inebriantes e arranjos sintetizados verdadeiramente genuínos e criativos, cimentaram o travo sonhador, aventureiro e alucinogénico de um projeto único e bastante inventivo.

Gengahr – 'Sanctuary' review

Agora, já em dois mil e vinte, Sanctuary, o terceiro longa-duração dos Gengahr, apresenta o quarteto no seu estado maior de maturidade, abrilhantado por guitarras melodicamente sagazes e apelativas, entrelaçadas com metais, bombos, cordas e teclas, que desfilam orgulhosas e altivas, numa parada de cor, festa e alegria, onde todos os músicos certamente comungam mais o privilégio de estarem juntos, do que propriamente celebrarem o modo como incubam um agregado de sons no formato canção. E acaba por ser curioso sentir uma vibração positiva intensa durante a audição do disco quando o mesmo teve como ponto de partida a morte da mãe de Felix pouco depois da edição de Where Wildness Grows e, pouco tempo depois, a sua namorada, agora esposa, ter sido obrigada a mudar-se para a Austrália. O delicioso falsete de Felix parece ter sido contagiado de modo positivo pela dor, digamos assim, e a indie pop que carimba o adn dos Gengahr, capaz de nos enredar numa teia de emoções que nos prende e desarma sem apelo nem agravo e que tem um poder único de nos descolar da realidade, nunca esteve tão deslumbrante e majestosa como agora.

Sanctuary oferece-nos, de modo sonhador, aventureiro e alucinogénico, um quadro sonoro de dez canções, fluído, homogéneo e aparentemente ingénuo, que nos emerge num mundo fantástico e que, de certo modo, nos ajuda a resgatar algumas daquelas histórias que preencheram a nossa infância. Mesmo quando Felix escreve e canta sobre bruxas, fantasmas e criaturas marinhas que povoam o nosso imaginário na forma de criaturas horripilantes e desprezíveis, retratadas pelos Gengahr quase que poderiam ser o nosso animal de estimação predilecto, numa ode ao fantástico particularmente colorida e deslumbrante. Em suma, ouvir este alinhamento é como contemplar um quadro sonoro fluído, homogéneo e aparentemente ingénuo, que nos emerge num mundo fantástico e que tem a curiosidade de facilitar aquela sensação estranha mas que todos já vivenciámos de resgatar algumas daquelas histórias que preencheram a nossa infância. Espero que aprecies a sugestão...

Gengahr - Sanctuary

01. Everything And More
02. Atlas Please
03. Heavenly Maybe
04. Never A Low
05. Fantasy
06. You’re No Fun
07. Soaking In Formula
08. Anime
09. Icarus
10. Moonlight

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publicado por stipe07 às 22:16

The Sweet Serenades – City Lights

Segunda-feira, 20.04.20

Cinco anos depois do registo Animal, o projeto sueco The Sweet Serenades, assinado agora apenas por Martin Nordvall, mas que já contou, em tempos, com a companhia de Mathias Näslund, tem um novo disco intitulado City Lights, oito canções abrigadas pela Leon Records, um selo da própria banda, e que abrilhantam com enorme intensidade um projeto discográfico que abriu as hostilidades em nove com Balcony Cigarettes, rodela que continha On My WayMona Lee Die Young, três canções que, à época, fizeram furor no universo musical indie e alternativo. Esse último tema fez parte da banda sonora da série Anatomia de Grey e reza a lenda que, na altura, a ainda dupla gastou os royalties muito bem gastos; Martin foi ao dentista, Mathias comprou um cão e investiram numa rouloute, para passar o tempo, escrever canções e discutir assuntos pertinentes relacionados com a existência humana.

The Sweet Serenades "City Lights" | Surviving the Golden Age

Projeto com uma filosofia sonora tipicamente indie e em que rock e eletrónica se fundem de modo a criar uma amálgama sonora, de caráter urbano e carregada de charme, os The Sweet Serenades mostram em City Lights uma cadência maior para o campo da eletrónica, certamente fruto do fim de uma relação a dois que contribuia para que o equilibrio entre dois territórios sonoros com especificidades bem vincadas fosse uma realidade. Nordvall parece ter uma apetência maior pela componente sintética e City Lights expressa essa natural tendência para plasmar os gostos do comandante atual do barco, apesar de canções como Out Of Time, uma composição vibrante e impulsiva, ou a mais escura e contemplativa Without You Baby I'm Lost,  deverem a sua alma e o seu espírito à presença da guitarra e à companhia ireepreensível de um baixo que não se envergonha de se mostrar com a típica impetuosidade que diferencia a maioria das propostas nórdicas bem sucedidas.

Seja como for, o pendor retro fortemente abrasivo da bateria eletrónica que conduz a secção rítmica do tema homónimo, o efeito vocal robótico e o clima ecoante dos flashes sintetizados que adornam The Night Goes On e o indisfarcável travo techno punk de Ring The Fire são as grandes marcas identitárias de um registo emocionalmente rico, trespassado por uma inquietude que acaba por personificar a atualidade e os tempos conturbados que vivemos e que,num misto de euforia e de contemplação, integra uma espantosa solidez de estruturas que reforçam a justeza da obtenção por parte destes The Sweet Serenades de uma posição de maior relevo, reconhecimento e abrangência junto do público em geral. Espero que aprecies a sugestão...  

The Sweet Serenades - City Lights

01. City Lights
02. Out Of Time
03. The Night Goes On
04. Runaway
05. Without You Baby I’m Lost
06. Bring The Fire
07. Close To Me
08. Distance

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publicado por stipe07 às 19:20

Thievery Corporation – Symphonik

Domingo, 19.04.20

Sem um daqueles sucessos radiofónicos que catapultam um projeto para o éden durante um longo período de tempo, sem uma portentosa máquina de marketing por trás, vídeos com milhões de visualizações ou uma editora internacional nos seus créditos, os Thievery Corporation continuam, duas décadas após a estreia, a ser um dos nomes mais consensuais e influentes da chamada música de fusão, tendo uma base de seguidores fiel e numerosa em todo o mundo, a sua própria editora, a ESL Music Label, assento destacado em cartazes de alguns dos mais relevantes festivais de música e, mais importante que tudo isso, uma carreira recheada de extraordinários momentos sonoros.

Listen to Thievery Corporation

Em dois mil e dezassete os Thievery Corporation chegaram ao seu oitavo disco de originais, um registo intitulado The Temple Of I And I e com ele voltámos todos a dançar ao som desta dupla de Washington, formada por Rob Garza e Eric Hilton. Um ano depois completaram essa obra comTreasures from the Temple, um alinhamento de doze canções que eram as gravações originais ou remisturas de temas incluídos em Temple of I & I e que surgiram durante as sessões de gravação desse álbum nos estúdios Geejam, em Port Antonio, na Jamaica.

Agora, em dois mil e vinte, os Thievery Corporation voltam à carga com Symphonik, onze novas roupagens de alguns dos maiores sucessos da incrível carreira da dupla, que teve como ponto de partida um concerto gravado no mesmo ano em que foi criado Treasures From The Temple, no John F. Kennedy Centre for the Performing Arts, com uma orquestra de vinte e dois músicos. O sucesso desse espetáculo e as repercussões positivas que obteve foram de tal ordem que Garza e Hilton acabaram por ter a feliz ideia de criar em estúdio um alinhamento de canções que homenageasse o melhor catálogo do projeto e lhe desse uma nova visão mais clássica e erudita. Surgiu assim Symphonik, um trabalho feito a meias com a FILMharmonic Orchestra, um coletivo da República Checa que já trablhou com nomes tão importantes como os Arcade Fire ou Céline Dion e que faz uma resenha muito bem conseguida dos Thievery Corporation, adicionando aos grandes sucessos do grupo novas roupagens, nuances e detalhes típicos da música clássica e orquestral, algo que geralmente resulta muito bem quando a base se relaciona com a eletrónica de cariz mais ambiental, como é o caso.

Como resultado temos então um novo respirar, ainda mais charmoso, belo e requintado de sucessos como Lebanese Blonde ou Until the Morning e outros que adornam um extenso catálogo que da  bossa nova ao dub, passando pelo reggae, o jazz a chillwave e a própria música de dança, tornaram este projeto num dos nomes fundamentais da música contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

Thievery Corporation - Symphonik

01. Heaven’s Gonna Burn Your Eyes (Feat. Natalia Clavier)
02. Love Has No Heart (Feat. Shana Halligan)
03. Ghetto Matrix (Feat. Mr. Lif)
04. Passing Stars (Feat. Elin Melgarejo)
05. Until The Morning (Feat. Natalia Clavier)
06. Depth Of My Soul (Feat. Shana Halligan)
07. Sweet Tides (Feat. Lou Lou)
08. Lebanese Blonde (Feat. Elin Melgarejo)
09. Weapons Of Distraction (Feat. Puma)
10. The Forgotten People
11. Marching The Hate Machines (Feat. Frank Orrall)

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publicado por stipe07 às 20:49

Aníbal Zola - amortempo

Quinta-feira, 16.04.20

Nascido na Invicta cidade do Porto há trinta e sete anos, Aníbal Zola apaixonou-se pela música e pela interpretação muito cedo. Ainda criança já tocava piano, mas no início da juventude ingressou na Valentim de Carvalho onde estudou guitarra clássica. Começou a tocar baixo eléctrico de forma autodidacta aos dezasseis anos tendo começado a ter aulas aos dezoito com o professor Helder Mendonça e um ano mais tarde, na Escola de Jazz do Porto com o professor João André Piedade durante três anos. Neste período, estudou engenharia civil na FEUP e fez parte do projecto musical Pay Per View?.

Resultado de imagem para Anibal Zola - Vida de Cão

No final da década passada, motivado pelo crescente interesse na improvisação e na composição baseada na escrita de canções, regressa à Escola de Jazz do Porto desta vez para estudar contrabaixo com o professor João André Piedade e Pedro Barreiros. Fez parte de um combo que participou na Festa do Jazz do S.Luiz em dois mil e onze, ano em que é admitido na ESMAE no curso de Jazz. Terminou a licenciatura em Contrabaixo/Jazz em Julho de dois mil e catorze na ESMAE onde teve a oportunidade de aprender e trabalhar com António Augusto Aguiar, José Carlos Barbosa, Florian Pertzborn, Nuno Ferreira, Michael Lauren, Mário Santos, Carlos Azevedo, Pedro Guedes, Abe Rabade, Telmo Marques, Jeffrey Davis, entre outros.

Actualmente faz parte dos projectos Palankalama, Les Saint Armand, Projecto Ferver e Carol Mello, além do seu projeto a solo Aníbal Zola, que se estreou nos discos há dois anos com Baiumbadaiumbé, um registo com um som muito particular onde se podem sentir influências da música brasileira nordestina, elementos plásticos que remetem à música de Tom Zé e ao tropicalismo brasileiro, algum rock e alguma folk anglo saxónica.

Agora, em dois mil e vinte, Aníbal Zola está de volta aos discos com Amortempo, dez canções sobre o amor, a morte e o tempo, um registo escrito em português e com uma abordagem musical de busca de identidade. De acordo com o press release de lançamento, é um trabalho que resulta do desejo de juntar o contrabaixo e a voz a um conjunto generoso de participações de outros músicos extremamente talentosos que têm vindo a cruzar-se com Aníbal Zola. Procura essencialmente fundir música portuguesa com música latino americana e dá, com frequência, espaço para a improvisação. As letras não são mais do que as próprias inquietações do artista que se espelharam em temas já muito explorados pela humanidade, e que, em Aníbal Zola, surgiram através de um processo bastante inocente.

amortempo é heterogéneo e eclético, mas transpira cheiro e sol portugueses. É um álbum de tato sensível e apurado, um compêndio de afetos, uma ode à melhor tradição do nosso cancionieiro tradicional e que se torna aqui num banquete sensorial de elevada subtileza e encanto por ter sido mesclado com a rica pafernália de tiques e nuances que abastecem a mais altiva e charmosa contemporaneidade sonora que se vai fazendo neste jardim à beira-mar plantado.

O timbre das cordas e a rugosidade do efeito da guitarra de Marujo, forçam logo o ouvinte a percepcionar, mesmo que intuitivamente, essa feliz dicotomia em que acústico e elétrico namoram entre si, sem se perceber claramente quem tem a posição dominante nesta relação que, sendo abençoada por Zola, tem tudo para um final feliz. Depois, quando o orgânico e o romântico fundem-se com superior dose de lascívia, como não podia deixar de ser, em Tango da Lua Nova, quando é fácil saborearmos o sal e a intensa luz que irradiam das ondas que navegam ao sabor do vaivém de um piano que joga conosco ao esconde em redor da secção percurssiva que faz flutuar Mar Profundo, quando percebemos que é impossível à nossa anca resistir à portugalidade a que sabe Samba Pro Pulinho, ou quando o cão de Zola se torna, no regaço das cordas que afagam Vida de Cão, o nosso salvo conduto para a percepção de tantos corropios que nos atormentam, sem razão aparente, torna-se claro que amortempo tem essa facilidade de permitir apropriação por todos aqueles que precisam, de quando em vez, de um porto seguro que lhes mostre que há mais vida do que a rotineira aparência e superficialidade de cumprimento de horários e obrigações em que muitos de nós vivemos. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 22:04


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