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Sons Of Kemet - Your Queen Is A Reptile

Terça-feira, 09.10.18

Your Queen Is a Reptile é o terceiro álbum do grupo britânico de jazz Sons of Kemet, um coletivo incubado em dois mil e onze e atualmente formado Shabaka Hutchings, Tom Skinner, Theon Cross e Eddie Hick. O grupo costuma servir-se do saxofone e do clarinete, instrumentos de sopro tocados por Hutchings, da tuba de Cross e de um exemplar trabalho de percurssão a cargo de Skinner e Hich para oferecer-nos um som que mistura o melhor do jazz, com alguns dos principais arquétipos do rock, da folk caribenha, do dub, da tropicalia e da música africana de cariz mais tradicional.

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Your Queen Is A Reptile é uma referência direta à rainha de Inglaterra e à coroa britânica, assim como as notas da capa do disco. O objetivo do grupo é denunciar um ponto de vista, segundo o qual a atual monarca britânica não representa os imigrantes negros e não os vê como humanos, discriminando-os racialmente. Assim, nas nove canções do registo, o coletivo serve-se de cada uma das composições para homenagear figuras femininas de relevo, todas reais e com histórias de vida conturbadas, que subiram a pulso e que os Sons Of Kemet assumem ser as mulheres que realmente lhes importam e que regem as suas vidas.
Produzido pelo próprio Shabaka Hutchings, Your Queen Is A Reptile tem como grande motor melódico o saxofone deste músico, instrumento que depois vai suscitar nos restantes elementos sonoros a inserção de arranjos e detalhes que vão dar corpo a composições sempre com uma tonalidade grave, bastante encorpada e tremendamente ritmada. 
Assim, só para citar alguns exemplos e deixando de lado a terminologia inicial My Queen Is, se em Angela Davis, canção que homenageia uma filósofa norte americana comunista acusada injustamente de matar um juiz na época de militância pelos Panteras Negras, na década de sessenta, presente-se os perigos e a perseguição que lhe foi movida através da gravidade da tuba, já em Mamie Phips Clark, uma psicóloga ativista que estudou a autoestima de crianças negras também nessa década, assistimos a uma espiral frenética que mistura dub e rock psicadélico, um efeito potenciado por uma superior performance na bateria. Depois, a coragem e a energia ativista da espiã do tempo da Guerra Civil americana, Harriet Tubman, um rosto recente das notas de vinte dólares e que se notabilizou por levar a cabo missões que libertaram centenas de escravos, é personificada pela modo ágil e virtuoso com que a melodia ganha vida com superior homogeneidade, através dos melhores recursos de todo o arsenal instrumental dos Sons Of Kemet.

Your Queen Is A Reptile tira do anonimato contemporâneo personagens que tiveram os seus momentos de dor, mas também de glória e de reconhecimento, mesmo que póstumo e cujos ideais que defenderam acabam por ser ainda muito atuais, num mundo que continua a não saber respeitar a diferença e as minorias. Numa Inglaterra aristocrática, a viver o Brexit em pleno, com uma certa fobia relativamente aos imigrantes e onde a Monarquia sempre mostrou um posicionamento político algo conservador, este disco faz ainda mais sentido, sendo um exercício claramente recompensador pesquisar acerca destas mulheres constestatárias de sistemas vigentes quase sempre impostos à força e depois relacioná-las com a abordagem sonora que os Sons Of Kemet criaram para lhes dar vida, cor, ritmo e voz. Espero que aprecies a sugestão...

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publicado por stipe07 às 10:40

Sharon Van Etten – Comeback Kid

Segunda-feira, 08.10.18

Sharon Van Etten - Comeback Kid

Quase meia década depois do excelente e melancólico Are We There, e com o nascimento de uma filha pelo meio e a participação nas séries The OA e Twin Peaks como atriz, Sharon Van Etten vai regressar no início do próximo ano aos discos com um trabalho intitulado Remind Me Tomorrow. Esse disco com dez temas será o quinto alinhamento da carreira da autora e compositora norte americana, natural do Tennessee e Comeback Kid é o primeiro single divulgado do registo.

Sempre resistente, inventiva e apaixonada, em Comeback Kid Sharon Van Etten volta a surpreender-nos com a sua voz inconfundível e a sua capacidade única de conseguir fazer-nos crer na nossa capacidade de perseguirmos os nossos sonhos mais verdadeiros, neste caso através de um tema repleto de energia e emotividade. É uma canção que instrumentalmente impressiona pela inserção de uma vertente sintética, algo inédita na carreira da Etten, um detalhe que palpita uma notória sensação instintiva, como se ela tivesse deixado mais uma vez fluir livremente tudo aquilo que sente e a inspira e assim potenciar a possibilidade de nos emocionar genuinamente. Confere...

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publicado por stipe07 às 14:07

Cervelet - Todos Santos

Sexta-feira, 05.10.18

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Oriundos de  Jaboticabal, no estado de São Paulo, uma cidade de setenta mil habitantes, fundada por portugueses e onde prosperam cinco universidades, os brasileiros Cervelet são Guto Cornaccioni, Iuri Nogueira, Igor Nogueira, Tiko Previato e Vitor Marini, uma banda que diz misturar cerveja com música, poesia e liberdade e que, por isso, se considera a banda mais estranha da cidade!

Depois de ter editado na primavera de 2014 Canções de Passagem, o disco de estreia, este quinteto regressou em 2016 aos lançamentos com Degradê, uma canção sobre o amor e, talvez na mesma altura, terá iniciado a composição de Todos Santos, um novo tema do projeto e que acaba por assentar que nem uma luva no panorama atual brasileiro, pelo seu conteúdo tão atual e premonitório. Recordo que o país vive o ocaso de uma campanha eleitoral para a predidência do país algo atribulada e comentada pelo mundo inteiro como o reflexo daquilo que é o Brasil nos dias de hoje. Os principais candidatos a possuir as chaves do Palácio da Alvorada intitulam-se santos e pregam aos quatro cantos do Brasil que prometem salvar o país, mas são poucos os brasileiros que não acreditam que o que eles querem é salvar-se a si próprios.

Sonoramente, Todos Santos assenta numa instrumentação rugosa e musculada, que pende para um hard rock de primeira água, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte. Confere...

 

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publicado por stipe07 às 17:58

We Were Promised Jetpacks – The More I Sleep The Less I Dream

Quinta-feira, 04.10.18

Foi no passado dia catorze de setembro que viu a luz do dia The More I Sleep The Less I Dream, o novo registo de originais dos We Were Promised Jetpacks, quarto disco desta banda de indie rock escocesa, natural de Edimburgo e já com década e meia de carreira. O projeto é composto atualmente por Adam Thompson, Michael Palmer, Sean Smith e Darren Lackie e tem apostado, registo após registo, num som que plana entre a experimentação e o psicadelismo e que se mostra cada vez mais maduro e consistente.

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Este projeto começou a sua carreira em 2003 num concurso de bandas de escola e o primeiro disco, These Four Walls, deveu muito do sucesso às músicas que colocou em várias séries de televisão e filmes. Tal facto não alçou os We Were Promised Jetpacks à fama no imediato, mas deixou-os debaixo do olho clinico de muita gente que, como eu, se interessa pela sonoridade tipica do grupo. Foi no segundo disco, In The Pit Of The Stomach, que este coletivo escocês obteve a consagração definitiva junto da crítica e do grande público, uma visibilidade que se cimentou há cerca de quatro anos com Unravelling, o antecessor deste The More I Sleep The Less I Dream, um disco liderado pelas guitarras e onde se escuta canções fáceis e ao mesmo tempo complexas, com variações, ruídos e efeitos variados.

Um dos factores que vai fazendo elevar a bitola qualitativa dos registos dos We Were Promised Jetpacks é o cada vez mais aturado trabalho de produção, desta vez a cargo de Jonathan Low. Percebe-se, ao longo das dez canções do alinhamento, que nenhum detalhe foi deixado ao acaso e houve sempre a intenção de dar algum sentido épico e grandioso às canções, arriscando-se o máximo até à fronteira entre o indie mais comercial e o teste de outras sonoridades.

Sendo assim, The More I Sleep The Less I Dream é um registo que pega nas experiências pessoais mais recentes do grupo e nas típicas agruras e peripécias de uma banda que passa bastante tempo em digressão, para incubar um som que, não renegando a instintiva simplicidade que sempre pautou a filosofia interpretativa dos We Were Promised Jetpacks, acaba por representar uma nova fase mais eclética, abrangente e sofisticada no formato sonoro do grupo. Basta escutar a toada negra e intrincada do single Hanging In, as guitarras luminosas de Thompson e Michael em In Light, o sumptuoso exercício percurssivo que alicerçou Impossible e o groove do baixo de Sean, exemplar em Someone Else’s Problem, para perceber uma busca pela construção de hinos de estádio à boa maneira do rock britânico, num disco cheio de energia e dominado por um descarado sentimento de urgência, aquele que poderá mostrar a luz a este grupo caso tenha a pretensão de ascender definitivamente à premier league rockeira no arquipélago de Sua Majestade. Espero que aprecies a sugestão...

We Were Promised Jetpacks - The More I Sleep The Less I Dream

01. Impossible
02. In Light
03. Someone Else’s Problem
04. Make It Easier
05. Hanging In
06. Improbable
07. When I Know More
08. Not Wanted
09. Repeating Patterns
10. The More I Sleep, The Less I Dream

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publicado por stipe07 às 20:44

Milo Greene - Adult Contemporary

Terça-feira, 02.10.18

Os norte-americanos Milo Greene de Robbie Arnett, Graham Fink e Marlana Sheetz são um dos projetos mais interessantes da indie atual, exímios intérpretes daquela pop retro cheia de charme e com uma filosofia vintage sempre muito vincada, não só na sonoridade mas também na componente visual do projeto. Começaram por ganhar fama devido aos músicos trocarem constantemente de instrumento durante os concertos e estrearam-se nos discos em dois mil e doze com um homónimo que chamou logo a atenção da crítica. Três anos depois, no sempre difícil segundo álbum, o registo intitulado Control marcou uma inflexão sonora no grupo, que deixou para trás, nessa altura, a sonoridade eminentemente folk da estreia e os Milo Greene conseguiram alargar ainda mais a sua base de fãs. Agora, três anos depois de Control, o trio de Los Angeles, na Califórnia, está de regresso com Adult Contemporary, doze canções produzidas por Bill Reynolds (Band Of Horses, Lissie), com a chancela da Nettwerk Records e que mantêm o projeto na senda de uma pop com uma elevada toada ambiental mas também dançante, à imagem do antecessor Control.

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Adult Contemporary é o disco mais eclético, abrangente e arriscado dos Milo Greene. De facto, tendo a pop em ponto de mira, contém um alinhamento que também capta algumas das principais caraterísticas da eletrónica ambiental, exemplarmente replicada em Be Good To Me, mas também da chamada art pop, belíssima em Drive. Mas um bom tema para nos fazer perceber toda esta espécie de amálgama, nem sempre claramente percetível, ou seja, geralmente bem acomodada e assimilada, é Young At Heart, o single de apresentação do registo, um exuberante tema conduzido por um baixo pulsante e sintetizadores planantes que originaram uma composição com uma elevada toada dançante e com fortes raízes no imaginário oitocentista. O próprio vídeo da canção, dirigido por Nicolas Harvard, é uma combinação feliz entre a postura vocal particularmente atraente de Marlana Sheetz e filmagens de arquivo de alguns icones de uma época que foi sonoramente bastante marcante, particularmente para a minha geração, neste caso Sting e Bruce Springsteen e que, pelos vistos, também marcaram profundamente o imaginário deste grupo.

Familiaridade e liberdade acabam por ser duas sensações que saltam ao ouvinte durante a audição deste alinhamento, não só porque abundam os refrões aditivos, mas principalmente porque se percebe que o trio não se deixou amarrar a nenhum género em específico para recriar uma trama sonora com uma componente fortemente cinematográfica, no modo como nos suscita a lembrança nostálgica de alguns momentos que marcaram a nossa juventude. O final épico de Worth The Waith seria a banda sonora perfeita para ilustrar um final de tarde ao portão de um liceu de esquina, Please Don't recorda-nos aquele amor inocente que nunca foi correspondido e Wolves traz-nos à memória toda a força que sentíamos naqueles anos em que nos sentíamos imparáveis e inquebráveis. Espero que aprecies a sugestão...

Milo Greene - Adult Contemporary

01. Easy Listening Pt. 1
02. Be Good To Me
03. Young At Heart
04. Drive
05. Please Don’t
06. Slow
07. Move
08. Runaway Kind
09. Easy Listening Pt. 2
10. Your Eyes
11. Wolves
12. Worth The Wait

 

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publicado por stipe07 às 19:08

Alt-J (∆) – Reduxer

Segunda-feira, 01.10.18

Quase um ano depois do excelente Relaxer, os Alt-J (∆) de Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green, estão de regresso com Reduxer, uma revisitação incrível de onze temas desse disco que viu a luz do dia no ocaso de dois mil e dezassete e que sendo tematicamente corajoso e sonoramente muito complexo e encantador, foi desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasmando, à época, mais uma completa reestruturação no que parecia ser o som já firmado na premissa original da banda. Reduxer acaba por ampliar ainda mais esta permissa, ao oferecer o flanco de Relaxer ao hip hop, num alinhamento que conta com colaborações de GoldLink, o rapper parisiense Lomepal, Kontra K de Berlim, o rapper Rejjie Snow nascido em Dublin, Tuka da Austrália, o rapper porto-riquenho PJ Sin Suela e o aclamado Little Simz de Londres, entre outros, claramente alguns dos mais influentes e prolíficos artistas e produtores de hip hop da atualidade.

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Os Alt-J (∆) têm pautado a sua carreira por bem sucedidas abordagens à pop ambiental contemporânea e ao art-rock clássico e esta abertura às especificidades de um hip hop que, atualmente, está cada vez mais disponível para se cruzar com a eletrónica, acaba por ser uma opção feliz quando a banda achou que deveria dar uma nova roupagem a alguns dos temas do seu último disco , alguns deles já autênticos clássicos do grupo. Portanto, Reduxer assume-se como uma epopeia onde em pouco mais de quarenta minutos se acumula um amplo referencial de elementos típicos de diversos universos sonoros, que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica e até, diria eu, objetivamente sensual, também muito por causa da performance vocal de alguns dos convidados, com especial destaque para Little Simz e Pusha T, que souberam como se aliar à subtileza vocal ímpar de Joe Newman. Assim, no desempenho emotivo de Pusha T em In Cold Blood, um trecho movido a sintetizador, rasgado por uma melodia profundamente sintética e digital, no modo como Jimmy Charles se adaptou ao virtuosismo da guitarra que trespassa o funk de Hit Me Like That Snare, no modo como em Pleader PJ Sin Suela deu um toque de exotismo curioso aos riquíssimos arranjos do diverso arsenal instrumental monumental cuidadosamente executado pela Orquestra Metropolitana de Londres no original, na sensualidade ímpar que Paigey Cakey e Hex ofereceram ao trip-hop acústico de Adeline e na leveza tocante e singela de Terrace Martin em Last Year, rematada pelo modo como o tom grave deste rapper consegue fazer sobressair ainda mais o travo melancólico da voz de Marika Hackman, fica expresso um arregaçar de mangas com uma linguagem criativa bem balizada, com o trio a mostrar uma visão democrática sobre como conseguir expandir o grau de ecletismo do seu cardápio sonoro, neste caso com uma dose algo arriscada de experimentalismo, mas que foi bem sucedida até porque souberam rodear-se das pessoas certas tendo em conta o território sonoro selecionado.

Em suma, mais do que um complemento de um disco anterior, como se fosse uma espécie de seleção de lados b ou novas versões, Reduxer é um álbum com uma identidade muito própria, um registo pleno de especificidades e indutor de novas nuances no seio do universo Alt-J (∆), um registo que além de não renegar a identidade sonora distinta da banda, ainda a elevou para um novo patamar de novos cenários e experiências instrumentais. Espero que aprecies a sugestão...

Alt-J (∆) - Reduxer

01. 3WW (Feat. Little Simz) [OTG Version]
02. In Cold Blood (Feat. Pusha T) [Twin Shadow Version]
03. House Of The Rising Sun (Feat. Tuka) [Tuka Version]
04. Hit Me Like That Snare (Jimi Charles Moody Version)
05. Deadcrush (Feat. Danny Brown) [Alchemist x Trooko Version]
06. Adeline (Feat. Paigey Cakey And Hex) [ADP Version]
07. Last Year (Feat. GoldLink) [Terrace Martin Version]
08. Pleader (Feat. PJ Sin Suela) [Trooko Version]
09. 3WW (Feat. Lomepal) [Lomepal Version]
10. In Cold Blood (Feat. Kontra K) [Kontra K Version]
11. Hit Me Like That Snare (Feat. Rejjie Snow) [Rejjie Snow Version]

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publicado por stipe07 às 14:31


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