Terça-feira, 31 de Outubro de 2017

Franz Ferdinand – Always Ascending

Franz Ferdinand - Always Ascending

Quatro anos depois de Right Thoughts, Right Words, Righ Action podemos novamente abrir alas para os jeans coçados escondidos no guarda fatos, sacar das t-shirts coloridas e pôr o congelador a bombar com cerveja e a churrasqueira a arder porque o velhinho rock n'roll feito sem grandes segredos, carregado de decibeis, que só os escoceses Franz Ferdinand sabem como replicar está de volta com Always Ascending, lá para fevereiro próximo.

Já é conhecido o single homónimo desse novo registo de originais dos Franz Ferdinand, uma espiral instrumental em que crescem guitarras e bateria e o pendor exaltante dos sintetizadores, num frenesim de dance post punk rock que irá certamente colocar novamente este grupo escocês em plano de destaque no universo sonoro indie em que se insere. Confere...


autor stipe07 às 22:01
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Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

Mano a Mano - Mano a Mano Vol. 2

Os mais atentos ao jazz que se vai fazendo por cá consideram os irmãos André e Bruno Santos, dois guitarristas com um vasto percurso musical, dos melhores intérpretes nacionais desse espetro sonoro na atualidade. E são eles que dão a face pelo projeto Mano a Mano, que se estreou em 2014 nos discos através de uma edição cujo financiamento foi obtido através de uma campanha bem sucedida de crowdfunding e que agora já tem sucessor. Mano a Mano Vol. 2 viu a luz do dia recentemente, onze canções que, de acordo com o press release do lançamento, centram-se num duelo dinâmico de guitarras, um disco cheio de momentos de virtuosismo, elegância e humor, explorando as inúmeras possibilidades deste formato.

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Disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e orgânico e com uma forte toada bluesMano a Mano Vol. 2 vive do violão e das guitarras, como referi, mas também conta com o Braguinha/Machete, um instrumento tradicional da Madeira parecido com o cavaquinho, que faz a sua aparição em alguns temas. Como um todo, assenta numa filosofia sonora com uma especificidade muito própria e estreitamente balizada, mas não deixa, por isso, de nos oferecer um alinhamento sinuoso e cativante e que nos convida frequentemente à introspeção e à reflexão e até à dança, imagine-se. Dinah é um bom exemplo desta aparente ambivalência, numa canção que não pode deixar de ser ouvida sem ser acompanhada por um sorridente bater de pés ou um efusivo abanar de ancas, mas que também não deixa de exalar, na onda dos vários dedilhares que se cruzam entre si, a uma ode sobre o mundo moderno, sendo este tema a opção mais certa para percebermos, à partida, o modo como esta dupla é ímpar a materializar os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora. Depois, através da exploração de várias formas de diversificar os arranjos, usando, por exemplo, processamento de som (reverb, wah-wah, distorção, loops, pitch-shifter e outros), nomeadamente no tema antecessor, o single Super Mario, mas também no espraiar solarengo de A Cadeira, O Baloiço e a Rosa, no frenesim desafiador de Without a Song, na sumptuosa delicadeza que exala das constantes variações de tom em Vignette e no jazzístico arrojo pop a que sabe Nem tudo é o que parece, ficamos esclarecidos acerca de constante inquietação que lateja do diálogo que estes dois músicos estabelecem entre si, sempre a suplicar por um patamar de serenidade que felizmente nunca surge, porque este não é um disco para cativar sem primeiro espicaçar, até porque, mesmo sem letras, não deixa de ser, no seu todo, um exímio e lúcido contador de histórias que servem a qualquer comum dos mortais, deixemo-nos nós absorver por tudo aquilo que as cordas nos sussurram ao ouvido com indesmentível clareza.

Em suma, Mano a Mano Vol. 2 está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem em ambientes carregados de ritmos e estruturas sonoras muitas vezes falsamente minimalistas e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que mesmo este género de música tão específico e sui generis pode ser também um veículo para o encontro do bem e da felicidade, quer individual quer coletiva. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:50
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Quinta-feira, 26 de Outubro de 2017

My Sad Captains – Sun Bridge

Os My Sad Captains são uma banda de rock alternativo natural de Londres, cujo nome foi inspirado por um poema do escritor Thom Gunn. Os membros da banda são Ed Wallis, Leon Dufficy, Ben Walker, Steve Blackwell e Henry Thomas e estão de regresso aos discos com Sun Bridge, dez canções abrigadas pela Bella Union e que estão finalmente a catapultar este projeto que já acompanho à meia década, desde o excelente trabalho de estreia, Fight Less, Win More, para o devido destaque.

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Logo a abrir, o instrumental climático fortemente contemplativo intitulado Early Rivers, é uma canção perfeita para nos introduzir neste disco, já que permite-nos relaxar e assim ficarmos devidamente preparados para um conjunto de canções que tanto podem conter uma sonoridade simultaneamente enérgica e memorável, como é o caso do efusivo single Everything At The End Of Everything, ou então que se abrigam à sombra de territórios sonoros mais delicados e experimentais, como sucede, por exemplo, em Destination Memory, uma composição com um início introspetivo mas que depois seduz definitivamente pela mistura de detalhes e arranjos que resultaram numa melancolia inebriante, épica e grandiosa.

Parece óbvio que estes My Sad Captains parecem fortemente influenciados por bandas indie do outro lado do atlântico, como os Yo La Tengo e os Red House Painters, mas é redutor balizá-los tendo apenas em conta as principais caraterísticas desse indie rck norte-americano mais enraizado, já que eles contêm algns traços identitários muito próprios e peculiares, que passam, essencialmente, pelo cruzamento do timbre da guitarra e das restantes cordas com a uma voz bastante melódica, algo que em Don't Listen to Your Heart é bastante audível. Esse efeito repete-se em Curtain Calls de uma forma ainda mais luminosa e adopta uma faceta mais sintética com o belo murmúrio que atravessa New Sun e o modo como nessa canção a guitarra se entrelaça com efeitos sintetizados borbulhantes e uma bateria com uma cadência pouco usual.

Apesar de algumas canções que sustentam o disco terem uma evidente luminosidade e um apurado sentido épico, abundam neste sun Bridge momentos mais introspetivos, mas igualmente belos, com especial destaque para o minimal dedilhar da viola na balada William Campbell e para a extensa Winter Sweet, outro instrumental que nos abraça e que se entranha sem grande esforço, impondo-nos uma melodia única e extremamente agradável, simultaneamente cândida e profunda.

Sun Bridge é um disco que não nos dá tempo para recuperar o fôlego, porque são imensos os momentos que proporcionam prazer, conforto e admiração durante a sua escuta. É um trabalho para ser ouvido e contemplado, um alinhamento onde há momentos animados e luminosos, mas também instantes de pausa, de sossego e melancolia, esta, muitas vezes, quase absurda. Tal sofreguidão deve-se, em suma, à consistência com que, música após música, somos confrontados e confortados por melodias maravilhosamente irresistiveis e ternurentas. Espero que aprecies a sugestão...

My Sad Captains - Sun Bridge

01. Early Rivers
02. Everything At The End Of Everything
03. Destination Memory
04. Don’t Listen To Your Heart
05. None In A Million
06. William Campbell
07. Curtain Calls
08. New Sun
09. Wintersweet
10. Relive


autor stipe07 às 21:30
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017

St. Vincent - Masseduction

Foi no passado dia treze, através da Loma Vista Recordings, que chegou aos escaparates Masseduction, o quinto e mais arrojado álbum de St.Vincent, o alter ego sonoro de Annie Clark, uma compositora que nasceu em Tulsa, no Oklahoma, há trinta e cinco anos e que depois de começar a sua carreira musical nos míticos The Polyphonic Spree, enveredou por uma bem sucedida carreira a solo que amplia continuamente, disco após disco, as suas virtudes como cantora e criadora de canções impregnadas com uma rara honestidade, já que são muitas vezes autobiográficas e, ao invés de nos suscitarem a formulação de um julgamento acerca das opções pessoais da artista e da forma vincada como as expõe, optam por nos oferecer esperança enquanto se relacionam connosco com elevada empatia.

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Com uma década de carreira, Annie Clark já cirandou quer pela pop mais ambiental quer pelo rock mais explosivo e orgânico e este Masseduction acaba, de certo modo, por fazer uma espécie de súmula de todas estas abordagens anteriores. Logo a abrir Masseduction deparamo-nos com esta abrangência porque se Hang On Me nos oferece um instante sonoro particularmente emotivo e climático, já Pills tem uma abordagem mais crua e rugosa, ficando assim audível esta intenção, logo á partida, de agregar tudo aquilo que a autora foi testando nos quatro álbuns anteriores, não faltando inclusivé, um pouco adiante,  um flirt consciente ao melhor r&b no tema Savior., um dos momentos altos do álbum.

Sendo assim, o conhecedor profundo da carreira de St. Vincent perceciona com nitidez que este é um disco de súmula, um alinhamento que fazendo juz ao melhor glam rock setentista ou à herança que uma Madonna nos deixou nas duas últimas décadas do século passado, algo que o tema homónimo tão bem plasma, alicerça os seus cânones sonoros quase sempre numa pop orquestralmente rica e que tendo o sexo, as drogas e a depressão no foco lírico, pretende mostrar-nos os diferentes significados da palavra sedução, as suas diversas vertentes, positivas ou nem tanto e o heterogéneo campo semântico que o vocábulo abarca.

Produzido quase na íntegra por Jack Antonoff e contando com as participações especiais de Cara Delevingne, antiga namorada de Annie e de Kamasi Washington, entre outros, Masseduction é, em suma, o retrato vivo de uma intrincada teia relacional que a autora estabelece com um mundo nem sempre disposto a aceitar abertamente a diferença e a busca de caminhos menos habituais para o encontro da felicidade plena. Ela sempre teve o firme propósito de utilizar a música não apenas como um veículo de manifestação artística, mas, principalmente, como um refúgio explícito para uma narrativa que, sendo feita quase sempre na primeira pessoa, materializa o desejo de alguém que já confessou não conseguir fazer música se ela não falar sobre si próprio e que amiúde admite guardar ainda muitos segredos dentro de si.  E neste trabalho ela fá-lo com tremenda nitidez, expondo-se através de um aparato tecnológico mais ou menos amplo que busca sempre e em primeira instância, respeitar a intimidade mais genuína da autora. Espero que aprecies a sugestão...

 


autor stipe07 às 21:12
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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Walk The Moon – Headphones

Walk The Moon - Headphones

Os norte americanos Walk The Moon Nicholas Petricca estão finalmente de regresso aos discos após um hiato algo prolongado. Impressionaram em 2012 com um espetacular homónimo impregnado de canções com refrões acessíveis e aditivos e melodias dançáveis, paisagens sonoras atmosféricas onde ecoavam guitarras, tambores e batidas e que poderão estar de regresso em What If Nothing, o disco que esta banda oriunda de Cincinnati irá lançar a dez de novembro próximo.

Headphones é o primeiro single já divulgado de What If Nothing, um tema que não reprime nenhum impulso na hora de puxar pelo red line e que, impressionando pela crueza e pela rugosidade, tem ainda o bónus de contar com o elevado protagonismo do baixo na arquitetura melódica que o sustenta. Confere...


autor stipe07 às 21:29
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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017

Grandfather's House - Diving

Braga é o poiso natural do projeto Grandfather’s House, banda que surigu há cerca de meia década pelas mãos do guitarrista Tiago Sampaio, ao qual se juntou, entretanto, a irmã Rita Sampaio na voz, dupla que lançou, em 2014, o seu primeiro registo, o EP Skeleton. Entretanto, João Vitor Costeira juntou-se e pegou na bateria e já na forma de trio editaram o ano passado Slow Move, o disco de estreia. Agora, cerca de um ano depois e já com Nuno Gonçalves nas teclas, irá viu a luz do dia Diving, o segundo lançamento do projeto em formato longa duração, um trabalho gravado e produzido na Mobydick Records (Braga) por Budda Guedes e os próprios Grandfather’s House e misturado e masterizado no HAUS (Lisboa) por Makoto Yagyu.

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Nah Nah Nah começa e enquanto não chega a voz enleante e subversiva de Adolfo Luxúria Canibal, os Grandfather's House parecem tocar submergidos num mundo subterrâneo de onde debitam música através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco da melodia. Depois, já com o vocalista dos Mão Morta na linha da frente da síncope do tema, guitarras distorcidas e um baixo proeminente dão asas às emoções que exalam desde as profundezas desse refúgio bucólico e denso onde se embrenharam e insistem em manter-se em Drunken Tears, desta vez com a guitarra a assumir um cariz mais ambiental, sustentada por várias camadas de sopros sintetizados, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo.

É este o arranque prometedor de um álbum que nos agarra pelos colarinhos e nos embrenha numa orgânica particularmente minimal, mas profunda e crua, um universo fortemente cinematográfico e imersivo, que instiga e provoca sem pedir licença, com aquela arrogância tipíca de quem sabe o que tem para oferecer e não se faz rogado na hora de colocar em cima da mesa todos os trunfos aos dispôr para ser bem sucedido, neste caso numa demanda sonora que pretende desafiar o lado mais reflexivo e introspetivo do ouvinte, mas também, em determinados momentos, a sua faceta mais libidinosa e misteriosa, eloquente e desafiante na guitarra inquietante que sustenta Sorrow. Alías, impregnado com uma densidade peculiar no modo como hipnotiza e seduz e alicercado naquele falso minimalismo que o compasso de umas palmas, efeitos sintetizados encobertos por uma cosmicidade algo nebulosa e o efeito divagante de uma guitarra proporcionam, You Got Nothing Lose, o primeiro single divulgado deste Diving, é um excelente exemplo desta espécie de duplicidade transversal a todo o alinhamento que, de acordo com o press release do mesmo, vai desde o despertar de memórias que pareciam adormecidas pelo tempo, crescendo uma raiva, quase um estado depressivo, transformando-se na sua aceitação e num estado de paz de espírito.

Diving avança e no piscar de olhos que é feito aquela pop vintage e charmosa, carregada de mistério em She's Looking Good e no som esculpido e complexo, onde é forte a dinâmica entre um enorme manancial de efeitos e samples de sons que parecem ser debitados pela própria natureza em In My Black Book, assim como na grandiosa cândura de Nick's Fault, damos de caras com mais um encadeamento de canções que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador.

O ocaso de Diving acontece em grande estilo ao som do frenesim da guitarra e de uma bateria inebriante adornada por diversos efeitos cósmicos, em I Hope I Won't Die Tomorrow, o epílogo de um álbum onde não existiram regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos, um cenário idílico para os amantes de uma pop que olha de frente para a eletrónica e a dispersa em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico, mas também para aqueles apreciadores do rock progressivo mais experimental e por isso tendencialmente mais enérgico e libertário. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:46
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Sábado, 21 de Outubro de 2017

Hamilton Leithauser – Heartstruck (Wild Hunger) feat. Angel Olsen

Hamilton Leithauser - Heartstruck (Wild Hunger)

No ano transacto Hamilton Leithauser convidou Rostam Batmanglij para uma participaçao especial no tema I Had a Dream That You Were Mine, uma brilhante parceria que nos ofereceu uma notável viagem a sonoridades de outrora por parte deste vocalista dos The Walkmen que a solo costuma enveredar por sonoridades eminentemente clássicas.

Agora, em pleno outono de 2017, Leithauser oferece-nos uma canção onde conta com outra voz feminina imponente, neste caso a de Angel Olsen, na canção Heartstruck (Wild Hunger). Nesta nova composição do músico, o jogo de vozes selvagem e emotivo que se estabelece entre a dupla e o arsenal instrumental escolhido, do qual se destaca um baixo proeminente e um piano frenético, que dá vida a uma orquestração luxuriante particularmente rica e luminosa, resultam em três minutos e meios de uma pop barroca vintage bastante charmosa e comovente. Confere...


autor stipe07 às 14:54
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Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

Paperhaus – Are These The Questions That We Need To Ask

Oriundos de Washington, os norte americanos Paperhaus são Alex Tebeleff, Matt Dowling, Rick Irby e Danny Bentley, uma banda de indie rock bastante seguida e apreciada no cenário alternativo local. A música que eles nos sugerem é imponente, visionária e empolgante, assentando no típico indie rock atmosférico, que vai-se desenvolvendo e nos envolvendo, com vários elementos típicos do krautrock e do post punk a conferirem ao projeto uma dinâmica e um brilho psicadélico incomum. Depois de um excelente homónimo editado na primavera de 2015, eles estão de regresso com Are These The Questions That We Need To Ask, oito canções produzidas pela própria banda e por Peter Larkin e masterizadas por Sarah Register.

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No universo sonoro indie e alternativo abundam, infelizmente, exemplos de bandas que depois de se estrearem com elevada bitola qualitativa devido ao facto de apresentarem uma sonoridade diferente e inédita daquela que o mainstream nos oferece diariamente, acabam por se perder, no álbum seguinte, numa inexplicável redundância. Talvez inebriados pelo sucesso inicial, buscam, no trabalho posterior, um som mais imediato e radiofónico. Mas, felizmente, os Paperhaus não cairam nessa armadilha e em Are These The Questions That We Need To Ask mantêm e aprimoram o espetro sonoro do antecessor, oferecendo-nos um cardápio de oito canções que, logo no primeiro tema do disco, em Told You What To Say, nos mostram um som corrosivo, hipnótico e contundente, um clarividente exemplar da habitual cartilha sonora que este coletivo da costa leste costuma guardar na sua bagagem.

Neste grupo a guitarra é um instrumento de eleição. Ela assume, sem rodeios e desde logo, um amplo plano de destaque no processo de condução melódica, sempre eficazmente acompanhada por um baixo vigoroso e uma bateria entusiasmante e luminosa. Em Go Cozy as mudanças de ritmo com que a mesma guitarra abastece os diferentes efeitos que se escutam no tema e o modo como nos mesmos as quebras e mudanças de ritmo acompanham as variações que ela produz, ampliam a perceção fortemente experimental típica deste grupo, numa canção que ilustra o quanto certeiros e incisivos os Paperhaus conseguem ser na replicação do ambiente sonoro que escolheram. Depois, no clima eminentemente lisérgico e experimental do single Nanana e na rispidez visceral mas apelativa de Walk Through The Woods, assim como nos devaneios cósmicos que abastecem a imponência incisiva  de It's Not There, ficamos esclarecidos acerca desta filosofia compositória, que alicerça um disco que é, no fundo, uma verdadeira espiral de fuzz rock, rugoso, visceral e psicadélico, uma ordenada onda expressiva, que oscila entre o rock sinfónico e o chamado krautrock.

A voz de Tebeleff é também um trunfo declarado dos Paperhaus, devido ao modo como transmite uma sensação de emotividade muito particular e genuína, mas também como acompanha determinados arranjos que, na maioria das vezes, plasmam com precisão as virtudes técnicas do quarteto e o modo como ele consegue abarcar vários géneros e estilos do universo sonoro indie e alternativo, comprimindo-os em algo genuíno e com uma identidade muito própria.

Há nestes Paperhaus uma aúrea de grandiosidade indisfarçável e um notável nível de excelência no modo como conseguem ser nostálgicos e na forma como mutam a sua música e adaptam-na a um público ávido de novidades refrescantes, mas que também recordem os primórdios das primeiras audições musicais que alimentaram o nosso gosto pela música alternativa. Este projeto caminha sobre um trilho aventureiro calcetado com um experimentalismo ousado, que parece não conhecer tabus ou fronteiras e que nos guia propositadamente para um mundo onde reina uma certa megalomania e uma saudável monstruosidade agressiva, aliada a um curioso sentido de estética. Esta cuidada sujidade ruidosa que os Paperhaus produzem, concebida com justificado propósito e usando a distorção das guitarras como veículo para a catarse, é feita com uma química interessante e num ambiente simultaneamente denso e dançável, despido de exageros desnecessários, mas que busca claramente a celebração e o apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

Paperhaus - Are These The Questions That We Need To Ask

01. Told You What To Say
02. Go Cozy
03. Nanana
04. Walk Through the Woods
05. It’s Not There
06. Needle Song
07. Serentine
08. Bismillah


autor stipe07 às 18:56
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Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017

MGMT – Little Dark Age

MGMT - Little Dark Age

Pouco mais de quatro anos depois de um homónimo, a dupla norte-americana MGMT formada por Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, está prestes a regressar aos discos com Little Dark Age, o quarto trabalho destes já veteranos do indie rock psicadélico, que desde o espetacular disco de estreia Oracular Spectacular nos habituaram a uma espécie de rock psicadélico algures entre os Pink Floyd das décadas de sessenta e setenta e uns mais contemporâneos Flaming Lips, mas também com os olhos e ouvidos postos em projetos mais atuais e até, de algum modo, concorrentes, nomeadamente os Tame Impala ou os Animal Collective.

No entanto, parece que desta vez os MGMT vão apostar num ambiente sonoro mais cinzento e eminentemente sintético, fazendo juz ao conteúdo de Little Dark Age, a canção homónima já divulgada do trabalho e que parece ser a banda sonora perfeita para o Halloween que se aproxima. A mesma tem também já um vídeo dirigido por David MacNutt e Nathaniel Axel. Mais de uma década depois da estreia, os MGMT continuam a chegar ao estúdio de mente aberta e dispostos a servir-se de tudo aquilo que é colocado ao seu dispôr para criar músca, sejam instrumentos eletrónicos ou acústicos, para assim fazerem canções cheias de sons poderosos e tortuosos, sintetizadores flutuantes e vozes abafadas. Confere...


autor stipe07 às 20:50
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Noiserv - Dezoito e edição de 00:00:00:00 em vinil.

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Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na bagagem um compêndio de canções que fazem parte dos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra,adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's Therehavendo, desde o outono de 2016 mais um compêndio de canções para juntar a esta lista, um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas um registo que é mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional, de um artista que nos trouxe uma nova forma de compôr e fazer música e que gosta de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e a realidade às vezes tão crua e que ele também sabe tão bem descrever.

Para comemorar um ano de existência, um dos destaques de 00:00:00:00, o tema DEZOITO, que encerra o alinhamento do álbum, acaba de ser editado em single. É uma canção que nos convida à introspeção e a meditar nas consequências dos nosos atos. Nas próprias palavras do músico, serve para se assumir que tudo tem um fim querendo tornar-se eterno e que tudo se reconstrói na inevitabilidade de terminar um dia. O videoclipe que acompanha este edição de DEZOITO em formato single teve realização partilhada com André Tentugal e o apoio da Câmara Municipal do Porto.

Ainda nas comemorações de um ano de existência, 00:00:00:00 acaba ctambém de ser editado em vinil. Num disco que já se conhecia transparente, muitas são emoções que nos transmite agora em doze polegadas girando a quarenta e cinco rotações por minuto.

Noiserv revelou ainda as datas de concertos até final do ano: de Leiria a Braga, passando pela Covilhã, Silves e St. Brieuc em França, terminando já perto do Natal no bonito Teatro Ibérico em Lisboa.

SEX. 27 OUTUBRO - Teatro José Lúcio | Leiria (Portugal)

SEX. 17 NOVEMBRO - Festival Para Gente Sentada | Theatro Circo, Braga (Portugal)

QUI. 23 NOVEMBRO - Festival Y#13 | Teatro das Beiras, Covilhã (Portugal)

SÁB. 25 NOVEMBRO – Teatro Mascarenhas Gregório, Silves (Portugal)

SEX. 01 DEZEMBRO - La Citrouille, St. Brieuc (França)

SEX. 22 DEZEMBRO - Teatro Ibérico, Lisboa (Portugal)

 


autor stipe07 às 13:19
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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Beck - Colors

Depois de mais de meia década de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com Morning Phase, o décimo segundo trabalho da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, três anos depois desse belo disco, está de regresso com Colors, onze canções que proporcionam mais um novo fôlego na sua carreira, uma espécie de recomeço, depois de nos últimos dois verões ter igualmente surpreendido com dois singles intitulados Dreams e Wow.

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Colors viu a luz do dia a treze de outubro, novamente com o selo Capitol e engane-se quem achar que vai encontrar aqui alguma espécie de continuidade relativamente a Morning Phase. Neste seu novo registo Beck regressa ao trilho da pop mais efervescente, sintética e luminosa, com canções a apelarem às pistas e à criatividade dos remisturadores, como é o caso de Colors, o tema homónimo de abertura e, quase no ocaso, a agitada Up All Night, composição cujas palmas e pausas na batida estão mesmo a pedir um mash-up com um daqueles hinos oitocentistas que todos nós decorámos na adolescência. Depois, ainda nessa toada, surge-nos Dear Life, um tema que sobressai pela luminosidade de um piano e pelo fuzz intermitente de uma guitarra que deve muito aquela estética que além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Beck apenas abranda um pouco no registo já quase no final do alinhamento com Fix Me, uma lindíssima balada onde sobressai um piano que acompanha com mestria aquele efeito mais doce com que o músico costuma adornar a sua voz quando quer transmitir algo mais profundo.

Uma das grandes marcas deste disco é, nitidamente, a riqueza que contém ao nível quer dos arranjos, quer do arsenal instrumental que o autor utiliza para colocar em prática um alinhamento bastante luminoso, agitado e comprometido com os conceitos de festa e diversão. Quer os metais e os loopings sintetizados que circundam a batida inebriante de Seventh Heaven, quer a distorção da guitarra que dá corpo e substância ao rock impulsivo e direto de I'm So Free, fornecem-nos tal evidência comum a dois campos apenas aparentemente opostos, o rock e a eletrónica. E com estas duas canções Beck estabelece também o vasto leque de influências que sempre moldou uma carreira livre de constrangimentos ou de obediência direta a uma determinada bitola sonora mais específica.

Este músico californiano gosta, portanto, de jogar em vários campos e posições e fá-lo com enorme à vontade e sempre com brilho e competência, nunca deixando para trás a guitarra, um dos seus instrumentos de eleição, agora quase sempre eletrificada. O timbre anguloso da mesma a conduzir No Distraction e o efeito mais metálico na já referida Up All Night são dois dos melhores instantes de Colors em que Beck se serve desse instrumento para dar alma e cor aos temas, mas sem fazer dele a principal referência quer da melodia quer do arquétipo sonoro.

O Beck que antes brincava com o sexo (Sexx Laws) ou que gozava com o diabo (Devil's Haircut) sem deixar de em em determinados instantes do seu percurso de fazer uma espécie de ode à ideia romântica de uma vida sossegada, realizada e feliz usando a santa triologia da pop, da folk e da country, regressa em Colors a um território sonoro onde também se sente como peixe na água, oferecendo-nos um som intrincado mas cativante e que contém texturas psicadélicas que, simultanemente, nos alegram e nos conduzem à diversão, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Fica claro em Colors que Beck ainda caminha, sofre, ama, decepciona-se, e chora, mas que vive numa fase favorável e animada. Espero que aprecies a sugestão...

Beck - Colors

01. Colors
02. Seventh Heaven
03. I’m So Free
04. Dear Life
05. No Distraction
06. Dreams (Colors Mix)
07. Wow
08. Up All Night
09. Square One
10. Fix Me
11. Dreams


autor stipe07 às 11:32
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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

Django Django – Tic Tac Toe

Django Django - Tic Tac Toe

 

Chegam de Edimburgo, na Escócia, têm um irlandês lá pelo meio, atualmente assentaram arrais em Dalston, aquele bairro de Londres onde tudo acontece, chamam-se Django Django e são um nome que este blogue tem acompanhado com toda a atenção na última meia década. Depois de se terem estreado nos discos em janeiro de 2012 com um trabalho homónimo muito bem aceite pela crítica e nomeado para um Mercury Prize nesse mesmo ano, a banda, formada por Dave Maclean, Vincent Neff, Tommy Grace e Jimmy Dixon, regressou em 2015 com o excelente Born Under Saturn, e agora, no início de 2018, a vinte e seis de janeiro, via Ribbon Music, irá regressar aos lançamentos discográficos com Marble Skies, um alinhamento de dez canções certamente feitas com uma pop angulosa proposta por quatro músicos que, entre muitas outras coisas, tocam baixo, guitarra, bateria e cantam, sendo isto praticamente a única coisa que têm em comum com qualquer outra banda emergente no cenário alternativo atual.

Tic Tac Toe é o primeiro single extraído de Marble Skies, uma canção assente numa percussão tribal, acompanhada por uma guitarra com um delicioso efeito hipnótico da guitarra e um baixo vigoroso e já com direito a um curioso vídeo realizado por John Maclean, membro dos carismáticos The Beta Band. É um filme que aprentemente podia debruçar-se sobre a era dos jogos de arcada, sobre um tempo que parece nunca chegar para nada, sobre o ódio e o amor, o horror ea felicidade, mas que é simplesmente sobre um homem que precisa de comprar algum leite para fazer juntar à sua chávena de chá. Confere...


autor stipe07 às 15:12
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Domingo, 15 de Outubro de 2017

Wild Beasts – Punk Drunk And Trembling

Wild Beasts - Punk Drunk And Trembling

Aproximadamente um ano após o excelente Boy King, que tinha sido já um notável sucessor de Present Tense e da obra prima Smother (2011), o quarteto britânico Wild Beasts acaba de anunciar a separação para tristeza dos inúmeros fãs que têm não só na Europa mas também do outro lado do atlântico. Para encerrar as hostilidades o grupo vai editar um EP daqui a alguns dias com três canções, das quais já se conhece o tema homónimo. Além disso, o grupo também anunciou três concertos de despedida, todos em Inglaterra.

Em Punk Drunk and Trembling, além de impressionar a simbiose entre a distorção das guitarras e um conjunto de referências que piscam o olho a alguns fragmentos mais preponderantes da eletrónica atual, também impressiona o modo como os The Wild Beasts não descuram uma forte presença da synthpop típica dos anos oitenta, de forma equilibrada e não demasiado vintage, aspetos que fazem da canção um excelente aperitivo para um EP que não deverá de deixar de conter o charme inconfundível e o pulsar tremendamente climático, subtil e insinuante de um projeto que chega ao fim no auge da sua maturidade. Confere...


autor stipe07 às 20:28
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Sábado, 14 de Outubro de 2017

Courtney Barnett And Kurt Vile – Lotta Sea Lice

Dois nomes  fundamentais da indie folk atual são a australiana Courtney Barnett e o norte-americano Kurt Vile. Recentemente e em boa hora decidiram dar as mãos para comporem e divertirem-se juntos e assim gravarem Lotta Sea Lice, nove canções editadas com o selo da insupeita Matador. Este disco é resultado de oito dias em estúdio, espalhados por quinze longos meses em que ambos foram encontrando umas abertas nas suas respetivas digressões que fizeram de promoção aos últimos registos de originais de ambos, com Lotta Sea Lice, uma expressão retirada de uma obra da escritora Stella Mozgawa, a ser o nome de uma banda imaginária que ambos idealizaram para estas canções, algumas compostas por ambos em conjunto e outras temas antigos em formato demo que levaram para estúdio.

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O blues animado de Over Everything é uma excelente porta de entrada para este disco, uma animada e luminosa canção em que Barnett e Vile dialogam enquanto confessam aquilo que pretendem para este Lotta Sea Lice, que é pegarem cada um na sua guitarra, olharem para a linda manhã que começa e deixarem fluir do modo mais espontâneo possível tudo aquilo que guardam no seu âmago. É um tema onde salta ao ouvido o excelente improviso da guitarra por parte de ambos, mas que não define, logo à partida, todo o clima instrumental do alinhamento, já que, em oposição, no clima mais introvertido de Let It Go, canção onde salta à vista o excelente trabalho percussivo e nos seis minutos experimentais e psicadélicos de Outta The Woodwork, fica expresso, de modo sintomático, um certo paradoxo sonoro, uma constante tensão oscilante entre o tédio e a ansiedade, onde o rock e a folk, o doce e o amargo e, enfim, aquilo que é meramente quotidiano e aquilo que é naturalmente poético se entrelaçam.

E já que falamos da vertente temática de Lotta Sea Lice, uma das maiores qualidades destes dois músicos nas respetivas carreiras foi sempre a habilidade em exporem aqueles pequenos detalhes da vida comum que todos vivenciamos e os transformarem, na sua escrita, em eventos magnificientes e plenos de substância. E aqui fazem-no através do derrame de versos extensos e quase descritivos dos habituais acontecimentos quotidianos, sempre com um olhar para o mundo físico e não apenas para uma exposição das suas emoções intrínsecas. Escuta-se o modo como em Fear Is like a Forest ambos dissertam sobre os sonhos e os medos, encontrando paralelismo entre ambos e comparando-os a uma floresta desconhecida por desbravar ou como na já referida Outta The Woodwork descrevem a solidão como algo tão angustiante como a dificuldade em respirar, para se conferir este impressionismo lírico que, no modo como é musicado, acaba por chegar aos nossos ouvidos romanticamente e com um charme algo displiscente mas feliz, sendo esta, de certa forma, a postura que têm ambos em relação à vida. É um caminho sinuoso, mas que não tem de ser vivido em permanente inquietude e depressão. Daí em diante, na lindíssima e exuberante balada Blue Cheese, mas também no experimentalismo boémio patente em Peepin' Town e nos acordes deambulantes que empoeiram Untogether, manifestam-se instrumentalmente estas experiências de vida sincera, uma jornada espiritual que nos é dada a apreciar e saborear em verdadeira plenitude.

Lotta Sea Lice é, antes de mais, um exercício de aceitação plena por parte dos autores de um estado de consciência sobre uma vida que ambos saboreiam em constante rebuliço, mas constante no modo como lidam com os diferentes sentimentos e emoções estejam em que local do mundo estiverem. É, em suma, um conjunto de canções que mostram dois seres humanos profundamente reflexivos, mas também auto confiantes e que servem-se da viola e da guitarra, seus fiéis companheiros nestas jornadas únicas e sentimentais sobre as vidas de dois músicos transportadas para uma contemporaneidade cheia de encruzilhadas e dilemas. Espero que aprecies a sugestão...

Courtney Barnett  And Kurt Vile - Lotta Sea Lice

01. Over Everything
02. Let It Go
03. Fear Is Like A Forest
04. Outta the Woodwork
05. Continental Breakfast
06. On Script
07. Blue Cheese
08. Peepin’ Tom
09. Untogether


autor stipe07 às 10:47
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Noel Gallagher’s High Flying Birds – Holy Mountain

Noel Gallagher's High Flying Birds - Holy Mountain

O ideário sonoro dos gloriosos anos noventa está ainda bem presente entre nós após duas décadas desse período aúreo de movimentos musicais incríveis como a britpop que, do lado de cá do atlântico, fez na altura frente ao grunge e ao indie rock norte americano, num período temporal que massificou definitivamente o acesso global à música. E os Oasis foram um dos nomes fundamentais da arte musical em Terras de Sua Majestade nessa época, liderados pelos irmãos Gallagher que continuam a fazer questão de alimentar uma relação lendariamente conturbada. E agora fazem-no através das suas carreiras a solo, com ambos a editarem discos em nome próprio no ocaso de 2017. O primeiro foi Liam, o mais novo, com o seu registo de estreia As You Were e agora chega a vez de Noel, juntamente com os seus High Flying Birds, através de um trabalho intitulado Who Built the Moon?, que irá ver a luz do dia já em novembro.

Holy Mountain é o primeiro single divulgado de Who Built The Moon?, uma canção impetuosa e com uma vasta miríade de influências, que vão da britpop, ao rock mais ácido e experimental setentista, passando pelo rock alternativo da década seguinte e aquela toada pop algo sintética do mesmo período, com um espírito bastante festivo e dançante. Confere...


autor stipe07 às 21:35
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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Fink - Resurgam

Três anos depois do excelente álbum Hard Believer, o projeto Fink de Fin Greenall (voz, guitarra), um músico britânico com quarenta e cinco anos, natural de Bristol e que, deambulando entre Londres e Berlim, vai-se destacando não só como músico, mas também como compositor e produtor para outros projetos, está de volta com Resurgam, dez canções que viram a luz do dia no final de setembro e que catapultam este projeto para um nível qualitativo de excelência numa carreira sempre a subir, disco após disco.

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O título deste novo disco de Fink é inspirado numa inscrição de origem latina que o autor encontrou numa igreja quase milenar de Cornwall, sua cidade natal e cujo espírito e significado faz-se sentir, transversalmente, ao longo de todo o alinhamento, produzido pelo carismático Flood (PJ Harvey, U2, Foals, Warpaint, The Killers) e gravado nos estúdios Assault & Battery Studios, que este produtor partilha com Alan Moulder no norte de Londres.

Num projeto em que os dois maiores trunfos são a belíssima voz de Fin e o magnífico trabalho instrumental, principalmente de Tim Thornton, à frente da bateria e da guitarra, ficamos logo agarrados ao disco com Resurgam, o tema homónimo de abertura, feito de uma melodia que tem por base uma bateria e a voz de Fink impregnada de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de um teclado e algumas cordas. Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco essencialmente acústico, vincadamente experimental e orgânico e com uma forte toada blues. Depois, no clima envolvente de Day 22, bastante influenciado por alguns arranjos de sopros inebriantes e na sumptuosa delicadeza do piano que baliza Cracks Appear, ao qual vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de uma guitarra eletrificada, percebe-se que há não só um maior arrojo pop relativamente a Hard Believer, mas também a assunção por parte do autor de que a opção por um alinhamento sinuoso e cativante e que nos convide frequentemente à introspeção e à reflexão sobre o mundo moderno, acaba por ser a opção certa não só para conseguir materializar os melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, mas também para chegar a um número ainda maior de ouvintes que ainda não tiveram a oportunidade de se deliciar com a filosofia estilística deste artista tremendamente dotado.

Na verdade, além dos temas já citados, não faltam neste disco, vários outros exemplos do forte cariz eclético e heterogéneo do cardápio de Fink. Se o transbordar de um sentimento algo angustiante e sentido à boleia do piano em Word to The Wise e da viola em Not Everything Was Better In The Past mostram um lado do músico algo inquietante e a suplicar por um outro patamar de serenidade, já a subtil clareza da batida sincopada que alimenta a sempre crescente The Determined Cut e a suavidade contínua e algo subtil de Godhead oferecem-nos, em oposição, um Fink mais sorridente e esperançoso, um exímio e lúcido contador de histórias que servem a qualquer comum dos mortais.

Resurgam está recheado de sons inteligentes e solidamente construídos, que nos emergem em ambientes carregados de ritmos e estruturas sonoras muitas vezes falsamente minimalistas e que têm como grande atributo poderem facilmente fazer-nos acreditar que a música pode ser realmente um veículo para o encontro do bem e da felicidade coletivas. Espero que aprecies a sugestão...

Fink - Resurgam

01. Resurgam
02. Day 22
03. Cracks Appear
04. Word To The Wise
05. Not Everything Was Better In The Past
06. The Determined Cut
07. Godhead
08. This Isn’t A Mistake
09. Covering Your Tracks
10. There’s Just Something About You


autor stipe07 às 21:25
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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

Black Rebel Motorcycle Club – Little Thing Gone Wild

Black Rebel Motorcycle Club - Little Thing Gone Wild

Quatro anos depois de Specter At The Feast, os norte americanos Black Rebel Motorcycle Club (BRMC) de Peter Hayes, Robert Levon Been e Leah Shapiro, estão de regresso com Wrong Creatures, o oitavo disco de uma carreira de mais de década e meia de uma banda que se estreou em 2001 com um extraordinário homónimo e cujo conteúdo fez desta banda de São Francisco os potenciais salvadores do rock alternativo.

Wrong Creatures foi produzido por Nick Launay (Yeah Yeah Yeahs, Arcade Fire, Nick Cave) e irá ver a luz do dia em janeiro próximo. Do seu alinhamento já se conhece o single Little Thing Gone Wild, um tema onde é perfeito o encontro entre a guitarra de Peter, o baixo de Robert e a forte percussão de Leah. A canção tem traços de post punk e blues e também abraça o noise rock, fazendo antever um álbum mais cru e direto que o antecessor. Confere...


autor stipe07 às 18:13
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Domingo, 8 de Outubro de 2017

The Clientele - Music For The Age Of Miracles

Alasdair MacLean e Anthony Harmer conhecem-se e tocaram juntos em meados dos anos noventa mas perderam contacto. Actualmente, vivem a pouca distância e a sugestão duma sessão experimental juntos levou a que Anthony fizesse os arranjos das músicas de MacLean e isso aconteceu até terem músicas suficientes para um disco. MacLean perguntou a James Hornsey (baixo) e Mark Keen (bateria, piano e percussão) se queriam fazer um novo disco de The Clientele e assim nasceu Music For The Age Of Miracles, o primeiro disco em sete anos desta banda mítica do indie rock psicadélico das últimas duas décadas, um alinhamento de doze canções abrigado pela Tapete Records.

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Logo em The Neighbour, no esplendor de uma viola acústica à qual se junta, pouco depois do início do tema, a congénere elétrica, mas também violinos e uma bateria pulsante, ficamos com a certeza que nos aguarda uma sequência eloquente e grandiosa, proporcionada por um projeto com uma linguagem sonora que até já foi influenciada por sonoridades mais cruas e até próximas do punk, mas que hoje subsiste, de modo bastante particular, à sombra de uma folk pop encharcada com melancolia e romance. De facto, em Music for The Age Of Miracles, MacLean e Harmer procuraram um som mais imediato e acessível do que os trabalhos antecessores, mas igualmente profundo, sedutor e comunicativo.

Depois desse início prometedor, no piano enternecedor do instante instrumental Lyra In April percebe-se a busca de um ambiente intimista e poético, com Lunar Days, logo a seguir, a cimentar essa demanda e, consequentemente, o ambiente geral de um disco que instrumentalmente olha para as cordas com amor e até alguma sofreguidão, mas que também pede às teclas e à bateria para darem o melhor de si na criação do tal ambiente sedutor e envolvente.

Music For The Age Of Miracles está, portanto, repleto de momentos elegantes, bonitos e que merecem dedicada audição, no modo como impressionam e cativam. A progressão simples inicial dos acordes da arrebatadora Falling Asleep, os curiosos efeitos percussivos e depois, em opsição, alguns arranjos deslumbrantes no final, praticularmente ricos, numa das canções mais pessoais do registo, são um excelente tónico para quem quiser realmente deixar-se envolver pela riqueza estilística actual destes The Clientele. Na sequência,o requinte percurssivo e o solo de trompete a cargo de Leon Beckenham em Everything You See Tonight Is Different From Itself, assim como a melodia doce e aditiva de Everyone You Meet, também têm a capacidade de mostrar uma faceta dos The Clientele algo inédita, porque residindo num universo algo sombrio e entalhado numa forte teia emocional amargurada, demonstram e ampliam, desta vez, a capacidade para compôrem, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo, mas também plenos de cor, luminosidade e optimismo. Depois, instantes curiosos como o som do vento captado no exterior da casa do realizador Derek Jarman em North Circular Days, dão um cariz ainda mais abrangente e rico à filosofia criativa que norteou a concepção do trabalho.

Álbum muito bem produzido, sem lacunas, com elevada coerência e sequencialidade, Music for The Age Of Miracles firma uma posição forte dos The Clientele na classe das bandas que atingiram uma posição de relevo no universo sonoro em que se inserem, apostando em canções extremamente simples e outras que soam mais ricas e trabalhadas, sempre com um intenso charme a apoderar-se invariavelmente de todas elas. Espero que aprecies a sugestão...

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1. The Neighbour
2. Lyra in April
3. Lunar Days
4. Falling Asleep
5. Everything You See Tonight Is Different From Itself
6. Lyra in October
7. Everyone You Meet
8. The Circus
9. Constellations Echo Lanes
10. The Museum of Fog
11. North Circular Days
12. The Age of Miracles


autor stipe07 às 21:58
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Sexta-feira, 6 de Outubro de 2017

Liam Gallagher – As You Were

O ideário sonoro dos gloriosos anos noventa está ainda bem presentes entre nós após duas décadas desse período aúreo de movimentos musicais incríveis como a britpop que, do lado de cá do atlântico, fez na altura frente ao grunge e ao indie rock norte americano, num período temporal que massificou definitivamente o acesso global à música. E os Oasis foram um dos nomes fundamentais da arte musical em Terras de Sua Majestade nessa época, liderados pelos irmãos Gallagher que continuam a fazer questão de alimentar uma relação lendariamente conturbada. E agora fazem-no através das suas carreiras a solo, com ambos a editarem discos em nome próprio no ocaso de 2017. O primeiro foi Liam, o mais novo, com o seu registo de estreia; Chama-se As You Were e contém doze canções que devem também parte do seu cunho identitário a Greg Kurstin, produtor que além de ter salvo a carreira dos Foo Fighters à cerca de uma década, também ajudou a impulsionar nomes como Sia ou Adele e assina seis das doze músicas deste disco. O outro produtor de As You Were é Dan Grech-Marguerat, que também transita entre a pop e o rock e tem nomes como Lana Del Rey ou os The Vaccines no seu currículo. Já agora, a vinte e quatro de novembro será a vez de Noel regressar aos lançamentos discográficos com um trabalho intitulado Who Built the Moon?.

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Espontaneidade e risco foram duas permissas que Liam certamente teve em conta quando idealizou o conteúdo de As You Were. Logo no rock que tem tanto de incisivo como nostálgico de Wall Of Glass percebe-se que o mais novo dos manos Gallagher mantém intacto o modo emotivo como replica algumas das marcas identitárias do indie rock que povoa o nosso subconsciente e que forjaram parte importante da história da música dos finais do século passado, numa canção cujas distorções e variações percurssivas  transportam consigo muita dessa herança, mas com um espírito renovado e mais contemporâneo. Depois, no dedilhar da viola que conduz Paper Crown, no muro de guitarras que afaga a acusticidade inicial de Bold e no clima impetuoso de Greedy Soul Liam firma essa ideia de espontaneidade e liberdade, conseguindo, por um lado, o indispensável apelo radiofónico e aquele som de estádio que precisa para sustentar com firmeza a promoção ao vivo do registo e, por outro, uma elevada bitola qualitativa no que concerne à demonstração da sua capacidade intuitiva de criar trechos melódicos quer apelativos quer criativos.

Claramente feliz com a liberdade musical ilimitada que uma carreira a solo lhe permite, Liam Gallagher expôe o habitual modelo de canção assente na primazia das cordas das guitarras, no que concerne ao processo de condução melódica, mas está também reservada à bateria e ao baixo um papel mais que acessório e secundário. Se logo nas cordas da já citada Bold e em Universal Gleam é fácil recordarmos o hino Wonderwall e se When I'm In Need deve muito ao clima pop psicadélico gerado pelos Fab Four já o fulgor de I Get By e o rock sujo e empoeirado de You Better Run têm aquela toada épica e gloriosa que os Oasis tanto gostavam de explorar e que o efeito mais contemporâneo do baixo nos dois temas atualiza com notável precisão, cabendo a estes temas funcionarem como uma espécie de cone sonoro por onde acaba por circular o restante alinhamento que, como se vê, tem impressa uma marca identitária única e facilmente identificável.

As You Were é um disco algo crú mas que não deixa também de estar impecavelmente produzido e pronto para ser cantado por multidões que irão decorar estas letras até à exaustão, pensado e idealizado por um dos melhores compositores e cantores ingleses das últimas duas décadas e ao qual o indie rock britânico tanto deve. Espero que aprecies a sugestão...

Liam Gallagher - As You Were

01. Wall Of Glass
02. Bold
03. Greedy Soul
04. Paper Crown
05. For What It’s Worth
06. When I’m In Need
07. You Better Run
08. I Get By
09. Chinatown
00. Come Back To Me
11. Universal Gleam
12. I’ve All I Need


autor stipe07 às 21:30
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Quarta-feira, 4 de Outubro de 2017

Cinnamon Tapes - Nabia

Cinnamon Tapes é o nome artístico de Susan Souza, uma cantora e compositora brasileira, natural de São Paulo, que acaba de se estrear nos discos com Nabia, quase quarenta minutos de uma pop folk introspetiva bastante profunda e um pouco enigmática, que viu a luz do dia através da Balaclava Records e que deve também muito do seu sumo e conteudo à relação de amizade da artista com Steve Shelley, antigo membro dos Sonic Youth.

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É ao som da viola que Susan reflete sobre o mundo à sua volta, fazendo-o, curiosamente, com um certo misticismo, porque no seu universo lírico, ora em inglês ora em português, são várias as referências a elementos como o tarot, o paganismo, ou o zodíaco, este último explícito em Lua, Terra e Sol, por exemplo, mas também com um elevado grau de impressionismo realista, já que as histórias que conta são comuns a qualquer ser humano que anda por cá e que sente algumas dificuldades em ser feliz e sentir-se realizado.

São, no fundo, temas que exalam um certo feminismo algo angustiado, mas também uma acolhedora melancolia, onde a vertente mais acústica destila os sentimentos amargurados e soturnos e os instantes mais elétricos e de maior amplitude instrumental oferecem as composições mais desconcertantes, experimentais e luminosas de Nabia, como é o caso de Cinnamon Sea ou o piano agridoce de Ventre.

Este alinhamento exige tempo, mas quanto mais nos aventuramos nele, melhor percebemos o quanto Susan é uma excelente intérprete como cantora, compositora e até como produtora. Por mais que demore a entrar, quando desvendado Nabia tece no ouvinte uma teia sonora e poética que toca e emociona, mesmo que algumas nuvens tentem bloquear essa sensação. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:38
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