Sábado, 30 de Setembro de 2017

The Horrors - V

Três anos depois do grandioso e extraordinário Luminous, já ganhou vida o novo disco dos The Horrors de Faris Badwan, Joshua Hayward, Tom Cowan, Rhys Webb e Joseph Spurgeon, um trabalho lançado às feras recentemente e o quinto tomo da discografia deste quinteto de rapazes com o típico ar punk de há quarenta anos atrás, mas que têm mostrado que não pretendem apenas ser mais uma banda propagadora do garage rock ou do pós-punk britânico dos anos oitenta, mas donos de uma sonoridade própria e de um som adulto, jovial e tremendamente inovador.

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Ao quinto disco os The Horrors estabilizam numa monumentalidade muito própria e que encontra um equilíbrio da vertente sintética com a orgânica das guitarras. Assim, muita da orientação sonora deste disco encontra o seu principal sustento nas guitarras de Joshua e na bateria de Joseph, mas o sintetizador também é protagonista, instrumentos que se entrelaçam na construção de canções assentes numa faceta eminentemente pop, criadas por uma banda que faz questão de viver permanentemente de braço dado com o experimentalismo em simbiose com a psicadelia.

Logo na densidade profunda e bastente intrincada de Hologram há uma distorção de fundo permanente que acomoda o edifício melódico da canção, uma sujidade potente no modo como expõe riffs e reverbs num descontrole que é apenas aparente e que, de certo modo, rejuvenesce a herança de um projeto que nunca tinha chegado tão longe no modo como mistura orgânico e sintético, algumas vezes estabelecendo ténues fronteiras entre os dois campos. Mesmo quando o piano de Press Enter To Exit parece ir clarificar um pouco a toada e dar-lhe um cariz mais límpido, surgem logo no tema loopings e efeitos cujo charme empoeirado mantêm a toada do álbum no rumo certo. E depois, quer na eloquência sintética do single Machine, quer no espírito pulsante de Point no Reply ou até no cariz algo soturno e contemplativo do efeito da guitarra que dá alma a Ghost, ficam desfeitas as dúvidas de quem pudesse querer colocar em causa o habitual ambiente tremendamente lisérgico dos The Horrors, por causa de uma apenas aparente maior primazia dos sitnetizadores em detrimento das guitarras nesta mais recente filosofia estilística do grupo.

Mais densos, hipnóticos e audaciosos do que nunca, os The Horrors chegam a esta faxe fundamental da carreira no auge das suas capacidades enquanto manipuladores sonoros abrangentes, verdadeiros mestres do indie rock progressivo psicadélico, mas que olham para o ruído como da primeira vez, fazendo-o de forma cada vez mais hipnótica, densa e intrincada. Neste V acabam também por desconstruir um pouco aquela ideia de que o estilo sonoro em que se inserem tem de obedecer sempre a normas muito precisas e bem balizadas, sendo bem pensado e preciso o modo como desbravam novas pontes e caminhos, apostando todas as fichas numa explosão de cores e ritmos que criam um álbum despido de exageros desnecessários, mas apoteótico. Espero que aprecies a sugestão...

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1.Hologram
2. Press Enter to Exit
3. Machine
4. Ghost
5. Two Way Mirror
6. Weighed Down
7. World Below
8. Gathering
9. It’s a Good Life
10. Something to Remember Me By


autor stipe07 às 21:30
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Deerhoof - Mountain Moves

Os Deerhoof de São Francisco, formados por John Dieterich, Satomi Matsuzaki, Ed Rodriguez e Greg Saunier, estão de regresso aos discos com mais quinze canções, certamente impregandas com um indie rock carregado de distorções e pesadas batidas que chocam com o punk e o hip hopriffs carregados de groove e toda a amálgama desorientada de texturas sonoras que possas imaginar. A rodela é já a décima quarta do grupo, chama-se Mountain Moves e viu  luz do dia através da Joyful Noise Recordings.

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Sempre inventivos e com uma intocável capacidade em proporcionar, disco após disco, canções e alinhamentos que tanto contêm um travo experimentalista indisfarçável como parecem ir ao encontro das regras mais convencionais da pop contemporânea, os Deerhoof mantêm-se convictamente decididos não só a rasgar toda a sua herança e ir apontando novos direções e rumos, mas também a reforçarem o arsenal de canções que têm à disposição para agradar ao mainstream e assim manterem-se na linha da frente dos projetos mais consensuais e escutados dentro do universo sonoro em que se inserem.

É um facto que nos Deerhoof quanto maior for a sensação de caos e confusão nos nossos ouvidos, maior é a vontade que se tem de elogiar a sua música e neste Mountain Moves aquele lixo sonoro, completamente metafórico e sublime que eles apresentaram em discos tão emblemáticos como Breakup Song, ou o antecessor La Isla Bonita, mantém os seus altíssimos padrões qualitativos, com a voz da japonesa Satomi Matsuzaki, uma miúda cheia de energia, com quem dá vontade de rebolar num jardim e acabar com a boca cheia de húmus e pétalas de jasmins e malmequeres, a ser, ainda por cima, aquele detalhe que não nos faz hesitar em qualquer instante relativamente ao desejo de escutar este trabalho com frequência e de o balizar com natural louvor.

Disco que também impressiona pela presença de algumas versões, com destaque para o tema Gracias a La Vida, um original da chilena Violeta Parra, assim como Freedoom Highway, tema do cardápio setentista dos The Staple Singers e ainda, no final do alinhamento, Small Axe, de Bob Marley, Mountain Moves conta também com as participações especiais do rapper Awkwafina em Your Dystopic Creation Doesn't Fear You, uma luminosa e divertida canção conduzida por cordas inebriantes e das cantoras Laetitia Sadier no funk assertivo de Come Down Here & Say That, Juana Molina, na estrutura caótica, barulhenta e tematicamente reinvindicativa de Slow Motion Detonation e Jenn Wasner no rock enérgico de I Will Spite Survive. São artistas que conferem ao disco um clima ainda mais abrangente e onde abundam guitarras, sintetizadores, sinos, tambores, violas, xilofones e uma praga de instrumentos que nos consomem, numa filosofia de montagem de canções em torre, com loopings e riffs até que a tal torre pareça uma canção e dela se liberte uma energia que nos impele ao movimento indiscriminado.

Mountain Moves é um excelente exemplo do poder de diversão que a música pode ter e, numa banda que, imagine-se, vai já no décimo quarto trabalho da carreira e consegue sempre ser, ainda, familiar e surpreendeente, esta vitalidade no modo como constantemente se reinventa, é um dos maiores elogios que se pode fazer a um alinhamento que comprova que dificilmente os Deerhoof têm concorrência á altura, mantendo intacta a sua ideologia e abraçando, simultaneamente, o inedetismo com grande relevância. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 20:57
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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Tomara - Favourite Ghost

Já chegou aos escaparates Favourite Ghost, o disco de estreia do projeto Tomara da autoria de Filipe Monteiro, um músico que começou por estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e que trabalhou em vídeos e na parte visual de concertos de nomes como os já extintos Da Weasel, mas também com Paulo Furtado, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia. São oito canções plenas daquela nostalgia que provoca encantamento e torpor, temas que enquanto suavemente entram pelos nossos ouvidos, inapelavelmente nos arrebatam e conquistam e em definitivo.

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Logo nas cordas de Hollow Filipe Monteiro convida-nos ao exercício de contemplar o mundo que nos rodeia e, emsimultâneo, a acompanhar o modo como ele também observa o mesmo espaço exterior, mas com uma assertividade incomum, referindo que o mesmo se constrói de exercícios filosóficos que se transformam em tratados lançados para o barulho dos nossos dias e que é importante, vestirmo-nos, se de sapiência formos ricos, do que vale a pena. Este convite inicial e a posterior citação do autor acabam por ser o mote para um álbum que faz uma reflexão crítica bastante pessoal de uma contemporaneidade comum a todos nós, mas que pode ser observada e analisada com diferentes olhares e através de diversos ângulos, sendo o de Filipe claramente aquele que privilegia a componente visual e a musicalidade dessa mesma abordagem.

O disco prossegue e o balanço suave das teclas, as guitarras efusivas e a bateria marcante de Coffee And Toast, a primeira amostra divulgada de Favourite Ghost, remete-nos exatamente para esse universo impressivo, em que a música possibilita a formulação de um ideário e uma trama passíveis de desfilar pela nossa mente, neste caso explicada, novamente pelo próprio autor, como uma canção que narra de forma bela e redentora dias em que a felicidade foi, circunstancialmente, mergulhada num qualquer nevoeiro desordenado e difícil, quase penumbroso, mas com a música a voltar a colocar tudo nos eixos, já que devido a ela o amor emerge ressoante.

Daí em diante, qual soberano dos afetos, Filipe tanto nos faz sorrir sem medo do amanhã defronte da luz que exala da folk intuitiva que reina na acusticidade do tema homónimo, como faz balançar suavemente todo aquele caldo de sentimentos e ressentimentos que o nosso coração guarda sem rancor ao som da guitarra eletrificada que sustenta For No Reason, conseguindo também a proeza de, na pop caleidoscópica algo intrincada de Hope for The Beast, nos fazer acreditar piamente que por detrás dos nossos maiores monstros poderá estar aquele às de trunfo que precisamos de levar a jogo para que tudo volte a fazer sentido.

Favourite Ghost é um manual delicioso de exorcização e crença, com o bónus de carregar nos ombros além do rico manancial lírico que permite tal desiderato, conter ainda deliciosas canções adornadas por uma tranquilidade acústica, uma filosofia estilística que impressiona e fica exemplarmente descrita, guiada quase sempre por guitarras, ora límpidas, ora plenas de efeitos eletrificados algo insinuantes, mas sempre com uma profunda gentileza sonora. Muitas vezes, como é o caso de Land At The Bottom Of The Sea, a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e depois, canções como a cândida e intimista The Road ou o minimalismo suave delicioso de House, são outros exemplos extraordinários de temas que transbordam uma majestosa e luminosa melancolia.

Favourite Ghost conta com algumas participações especiais, nomeadamente Márcia na voz, no tema House e depois o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Claúdia Serrão, que já gravaram, por exemplo, com Old Jerusalem e João Cabrita, João Marques e Jorge Teixeira nos sopros. Confere, já a seguir, a entrevista que o Filipe Monteiro gentilmente me concedeu e espero que aprecies a sugestão...

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Hallow

Coffe And Toast

Favourite Ghost

For No Reason

Hope For The Best

The Road

House (feat. Marcia)

Land At The Bottom Of The Sea

Olá Filipe. Obrigado pelo tempo que disponibilizas para responder ao meu blogue. É um gosto ouvir o teu disco de estreia, que me encantou imenso, confesso. Estudaste Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes e trabalhaste em vídeos e na parte visual de concertos de nomes importantes do nosso panorama musical. Como surgiu a ideia de te tornares também um músico?

Na verdade sempre fui músico ainda antes de ser tudo aquilo que mencionaste. O percurso que fui traçando na área do vídeo e da realização foi sendo construído sempre em paralelo com a musica. Após a “extinção” dos Atomic Bees, banda da qual fiz parte em finais dos 90’s, continuei a tocar com a Rita Redshoes (vocalista dos Atomic) e acompanhei-a em estúdio e no palco durante os dois primeiros discos. E agora toco com a Márcia desde 2011 e produzi o Casulo de 2013. A musica sempre esteve nos meus dias, antes de tudo o resto.

Favourite Ghost é, então, o título do teu álbum de estreia. Um título muito curioso que sustenta, na minha opinião, oito canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as tuas expetativas para este novo trabalho e como surgiu o título?

A minha grande expectativa, até agora, era terminar o disco porque foi um processo muito longo. Comecei a trabalhar nele em 2011 e só agora é que vai ver a luz do dia. Agora que está prestes a ser editado acho que o máximo que posso desejar é que ele consiga chegar aos ouvidos de quem por ele se afeiçoe. Não muito mais que isso, e já não é pouca coisa nos dias que correm.

O titulo vem de uma das canções que o compõem. Foi uma canção que escrevi para a minha filha que tem agora 5 anos e meio. É uma canção muito especial para mim e sintetiza muito do que é abordado no disco; fala de um amor incondicional, mas também do medo, da esperança e do Futuro. Os favourite ghosts são os medos essenciais que nos podem vir a definir, para o bem e para o mal, se não aprendermos a lidar com eles. Todo o disco é um reconhecimento desses medos ou fantasmas; uma tentativa de os olhar nos olhos e aprender a conviver com eles. E se não são ultrapassáveis, pelo menos para já, então que os mantenhamos à vista e por perto. Aprender a conviver com isso.

Quando é que este álbum começou a nascer na tua mente?

É uma vontade que vem desde sempre, mas que arrumei numa caixa, longe da vista, durante muitos anos. Mas a ideia concreta de fazer o disco, de assumir isso para mim próprio começou algures em 2011. Daí até hoje foi todo um processo demorado, com muitas interrupções pelo caminho. Se o disco hoje existe devo-o à Márcia que me “empurrou” para o fazer. E me amparou durante todo o processo.

Como é o teu processo de composição? Em que te inspiras para criar estas melodias que me pareceram tão próximas e que cativam com tanta intensidade? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea, ou são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?

Não tenho uma regra. E neste disco isso acontece. Há canções que nasceram da forma mais irreflectida que se possa imaginar. E a maioria talvez tenha surgido assim. Depois nos arranjos é que talvez as coisas difiram muito de caso para caso. A Coffee and Toast e a Favourite Ghost, por exemplo, são canções que levaram algum tempo até encontrarem a sua forma final. Mas quando encontro o “sitio” certo para uma canção é-me muito fácil reconhecê-lo. A For no Reason ou a House são canções cujo arranjo eu encontrei muito instintivamente, tal como os temas instrumentais.

Li algures que Favourite Ghost debruça-se sobre a capacidade de fazermos escolhas e filtramos o que mais nos interessa e nos faz feliz neste barulho dos nossos dias. É mesmo esta, no fundo, a grande mensagem que queres transmitir neste disco?

Essa citação é do Ricardo Mariano que escreveu o press release para o disco. Eu acho que estou demasiado próximo para conseguir ter a necessária lucidez. Mas fiquei muito feliz quando li essa frase por perceber que do disco ele teria retirado essa ideia. E gosto de acreditar que o disco transmite isso. Uma ideia de necessidade de auto-preservação daquilo que é mais importante para cada um. Não é fácil manter o tino nos dias que correm.

Favourite Ghost conta com algumas participações especiais, nomeadamente Márcia na voz, no tema House e depois o quarteto de cordas de Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano e Ana Claúdia Serrão, que já gravaram, por exemplo, com Old Jerusalem e João Cabrita, João Marques e Jorge Teixeira nos sopros. Como foi selecionar e agregar nomes tão ilustres à tua volta? Eram pessoas com quem quiseste desde logo, à partida, trabalhar neste disco, ou foram surgindo e sendo convidadas à medida que as canções iam tomando forma no teu âmago?

A Márcia foi uma escolha óbvia. Além de ser a minha grande companheira de Vida foi a pessoa que me levou a assumir que queria fazer um disco, e que tinha de o fazer. Devo-lhe isso e muito mais. E a canção que cantamos só poderia ser cantada por nós, a dois.

As cordas e os metais surgiram já na recta final de produção do disco. Algumas canções pediam para crescer mais um pouco. E procurei, entre amigos, as pessoas certas para me ajudarem a concretizar isso.

Confesso que o que mais me agradou na audição deste álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase imperceptível, conferindo à sonoridade geral de Favourite Ghost uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaste para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?

Alterações de fundo não. As canções foram crescendo lentamente. Como o processo foi tão demorado fui tendo tempo e distância para as imaginar com muita calma. Por isso não houve nenhum volte face em nenhuma canção. Simplesmente umas estiveram mais tempo em gestação.

Durante a feitura do disco, houve outros que tivesses ouvido muito e te tenham influenciado?

Nem por isso. Ou pelo menos não directamente ou conscientemente. Aquilo que ouço e me cativa não me faz necessariamente querer estar próximo artisticamente. Um dos discos que mais ouvi nestes últimos tempos foi o do Benjamin Clementine. O disco inspira-me imenso mas se calhar a outros níveis, não propriamente na musica que faço. Acho que só consigo fazer aquilo que sou. E eu não sou o Benjamin Clementine. Mas sinto as influências muitas vezes quando componho. E não fujo delas. São referências que fui acumulando ao longo dos anos e algumas nem são propriamente de artistas que tenha ouvido assim com tanta intensidade. Mas estão próximos do meu DNA.

O teu single Coffee and Toast, teve, na minha opinião, uma excelente e justa aceitação, quer por parte do público, quer por parte da crítica. Surpreendeste-te com a popularidade de uma canção que até não vai muito de encontro aos géneros populares do momento e tal facto também te fez aumentar as expectativas relativamente a este pontapé de saída do projeto Tomara?

Fiquei muito feliz com a recepção ao Coffee and Toast. Tenho perfeita consciência que a minha musica não é talhada para um mainstream e daí as minhas expectativas centrarem-se apenas na vontade de que a musica chegue aos ouvidos de quem dela possa gostar. E sei que esse público existe. Acho que foi um primeiro passo bonito.

Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantares em inglês e a opção será para se manter?

Não existe nenhuma razão especial excepto o facto de me sentir bem a cantar e escrever em inglês. Foi e é uma ambição minha para este projecto ter canções em português porque acho que não há forma mais intensa de comunicar do que na nossa própria língua. Mas neste disco isso acabou por não fazer sentido porque as canções nasceram desta forma e nesta língua. Tentar forçar isso pareceu-me um exercício contra-natura, que iria retirar muita da honestidade que reconheço no disco. No futuro sim, espero conseguir fazer isso e inclusive ter outras vozes a cantar com a minha. Pode parecer estranho dizer isto de um projecto em que gravo os instrumentos todos e canto as canções sozinho, mas a minha ambição para TOMARA é que se torne cada vez mais um projecto colaborativo e não solitário. Este foi apenas o primeiro passo e teve de ser dado desta forma.

O que vai mover Tomara será sempre esta pop folk simultaneamente vibrante e contemplativa, com pitadas de jazz e blues, ou gostarias ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico deste projeto?

Não tenho fronteiras estilísticas para além do meu próprio DNA musical. O processo criativo leva-te sempre (se estiveres aberto a isso) a alargar as tuas próprias fronteiras e acho que isso irá acontecer naturalmente. As minhas “raízes” Folk talvez se mantenham perenes no caminho mas abrem espaços para deixar entrar outras cores. E isso é um processo orgânico e contínuo. Nunca farei um “esforço” para chegar a determinada sonoridade porque isso seria travestir-me artisticamente e não acredito nisso. Pelo menos não para mim.

Obrigado! Um abraço ☺

Obrigado eu pelas perguntas atentas e generosas.


autor stipe07 às 21:52
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

Dear Telephone - Slit

Inspirados pela curta metragem de Peter Greenway intitulada Dear Phone, realizada em 1976, os Dear Telephone vêem de Barcelos e formaram-se há pouco mais de meia década, tendo na sua formação gente que nos tem sempre mostrado, em todos os projectos que se envolvem, uma inegável qualidade enquanto músicos e que prova que na música se pode fazer diferente. Falo de Graciela Coelho, André Simão, Pedro Oliveira e Ricardo Cibrão.

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Em março de 2011 estrearam-se com o EP Birth Of A Robot, um conjunto de canções com uma abordagem sonora algo crua, intimista e minimalista, um EP que foi muito bem recebido pela crítica e apresentado ao vivo em algumas das mais importantes salas de espetáculos do país. Mas também chegaram ecos desse EP ao estrangeiro, com os Dear Telephone a fornecerem um tema para a banda sonora do filme brasileiro Contramão de Fabio Menezes e a representarem Portugal em agosto de 2011 no evento Music Alliance Pact. Dois anos depois, em 2013, estrearam-se no formato longa-duração com Taxi Ballad, um disco onde os Dear Telephone mergulharam sem concessões no assumido fascínio pelo quotidiano e suas contradições, no discurso directo e desconcertante das personagens que as vozes encarnam e numa instrumentação dura e sem artifícios.

Agora, quase no ocaso de 2017, o grupo minhoto irá regressar aos discos com Cut, um compêndio com nove canções que tem em Slit a promeira amostra divulgada, uma canção que pisca o olho ao rock, fazendo-o num formato eminentemente blues, com mestria e com os ingredientes certos, dos quais se destacam uma guitarra que se entranha, de forma sofisticada, inteligente a até corajosa. Confere...


autor stipe07 às 17:56
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Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017

Oh Sees - Orc

Viu a luz do dia a vinte e cinco de agosto último, através da Castle Face, a editora do próprio John Dwyer, Orc, o novo e décimo nono álbum da carreira dos norte americanos Thee Oh Sees, um regresso aos lançamentos discográficos que se saúda desta banda californiana que também acaba de mudar mais uma vez de nome, algo que não é inédito nas cerca de duas décadas que já leva de carreira.

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Querendo ser conhecido a partir de agora simplesmente como Oh Sees (sem o The), este quinteto apresenta em Orc dez canções que mantêm uma elevada bitola qualitativa que sobrevive à custa do modo astuto como o grupo continua a abanar-nos com riffs agressivos e esplendorosos que, quer se prolonguem por músicas completas, ou por instantes das composições, têm sempre uma forte vertente hipnótica e uma ilimitada ousadia visceral, que explode em cordas eletrificadas que clamam por um enorme sentido de urgência e caos, num incómodo sadio que já não nos deixa duvidar acerca do ADN destes agora Oh Sees.

Logo no frenesim impulsivo e até algo inquietante de The Static God Dwier e no fulgor progressivo de Raw Optics Dwyer baliza, nesses que são os temas de abertura e de encerramento do disco, o ambiente geral de Orc, sendo ajudado de modo particular pelos bateristas Dan Rincon e Paul Quattrone nessa demanda. Se nestes dois temas ambos exalam uma deliciosa cumplicidade percurssiva, a mesma atinge o ponto mais alto quando nos instantes instrumentais da majestosa Keys To The Castle, sem serem tão exuberantes, responsabilizam-se por juntar todos os cacos, na forma de efeitos, cordas de guitarra e até de violino que Dwyer atira, conforme lhe apetece, para cima de uma base sonora tremendamente lisérgica e sensorial. Depois, no blues boémio e desmedido de Jettisoned, no arsenal de efeitos que abastece Paranoise e nas teclas setentistas que recriam o experimentalismo psicadélico de Cadaver Dog, Dwyer não disfarça minimamente a predileção que atualmente nutre por misturar de modo aparentemente anárquico alguns dos cânones clássicos do rock alternativo com o heavy metal e o rock progressivo, além de outros subgéneros de um rock que não se coibe de receber de braços abertos tudo aquilo que o músico tiver para testar. E realmente Dwyer testa, experimenta e recria sem ter o mínimo receio de colocar em causa, se tal for necessário, a impossibilidade de confrontar o ouvinte com o melodicamente acessível, já que aquilo que realmente lhe parece importar verdadeiramente é criar e recriar sobrepondo e alternando climas e formatos, de modo a dar vida à sua incasiável alma roqueira.

Edifício sonoro brilhante e cheio de vida e cor, Orc possibilita aos Oh Sees atravessarem novamente as barreiras do tempo e manterem-se, ao mesmo tempo, joviais e coerentes. Para delírio dos fiéis seguidores, o grupo mantém intata a sua insana cartilha de garage folk rock blues com uma capacidade inventiva que se pronuncia instantaneamente, através de um desejo inato de proporcionar o habitual encantamento sem o natural desgaste da contínua replicação do óbvio. A verdade é que o som deste grupo é, cada vez mais, uma espécie de roleta russa e um caldeirão de originalidade, que acaba por transportar o ouvinte para uma espécie de bad trip musical, através de um veículo sonoro que se move através de uma sucessão de loopings bizarros, mas ainda assim dançantes. Espero que aprecies a sugestão... 

Download Oh Sees   Orc (2017) Mp3

01. The Static God
02. Nite Expo
03. Animated Violence
04. Keys to the Castle
05. Jettisoned
06. Cadaver Dog
07. Paranoise
08. Cooling Tower
09. Drowned Beast
10. Raw Optics

 

 


autor stipe07 às 20:51
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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Alvvays - Antisocialites

Os canadianos Alvvays de estão de regresso aos discos com Antisocialites e a tornarem-se num caso sério de popularidade, essencialmente devido ao modo particularmente genuíno e até algo ingénuo com que replicam aquele indie rock de cariz lo-fi, que parece andar um pouco arredado da linha da frente dos lançamentos discográficos, muitas vezes em detrimento de sonoridades mais sintéticas e supostamente intrincadas, que fazem tantos projetos perderem-se um pouco numa espécie de descontrole sonoro, em que não se sabe muitas vezes quais os pontos de partida e de chegada em termos conceptuais. É uma ânsia desemesurada de abarcar, em simultâneo, vários estilos e géneros, como se a capacidade de agregar o mais possível fosse permissa essencial na hora de avaliar a bitola qualitativa de um disco. Estes Alvvays merecem crédito por fazerem exatamente o contrário; fidelizaram-se num espetro sonoro específico e fazem-no sem despudor e com enorme criatividade.

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Em quase quarenta minutos Antisocialites personifica esta fuga feliz ao mainstream sonoro que descrevi. Mais maduros do que numa estreia que há três anos revelou a quem os quis ouvir um indie rock anguloso e com um certo travo punk salutar, agora oferecem-nos canções com uma luminosidade muito peculiar, um sabor a optimismo que as guitarras frenéticas e o falsete de Plimsoll Punks e a epicidade melódica e nostálgica de In Undertow ilustram na perfeição, mas que também não deixa de estar presente no modo como vários efeitos cósmicos trespassam a bateria sincopada e a guitarra plena de reverb de Hey, no clima surf punk de Your Type e, num outro prisma, na doce ternura complacente do travo acústico de Already Gone e no hipnotismo ique incendeia Forget About Your Life.

Sabendo como não cair na repetição monótoma tendo em conta a especificidade do som que tocam, os Alvvays explicam e mostram neste Antisocialites como ainda é possível olhar para o rock alternativo de outros tempos e trazê-lo novamente à tona de modo brilhante, charmoso e convicto, sem parecer que copiaram uma fórmula já algo desgastada pelo tempo e por uma imensidão de bandas que muitas vezes não conhecem a melhor forma de abordar esta sonoridade carregada de especificidades e ao mesmo tempo tão simples e rica. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 18:27
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

TIPO - Jugoslávia

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Quando em 2015 Salvador Menezes, consagrado membro fundador dos You Can't Win, Charlie Brown, decidiu tirar uns dias de descanso, nunca imaginaria que iria nesse breve interregno incubar um dos mais curiosos projetos a solo do panorama musical nacional atual. Servindo-se de um casio com mais de três décadas do tio, de uma guitarra com três cordas dos anos noventa da irmã, da bateria do irmão e do seu baixo, computador e voz, criou quatro temas, nascendo, assim, TIPO.

Agora, dois anos depois, com um novo emprego, a viver numa outra casa, com três discos dos You Can't Win, Charlie Brown em carteira e já com a paternidade a fazer parte da sua existência, TIPO tem já temas suficientes para se aventurar no formato longa-duração, sendo Jugoslávia o mais recente single divulgado desse que será o seu álbum de estreia, que foi co-produzido por Afonso Cabral, Luís Nunes e Salvador Menezes e terá o selo da Pataca discos e o apoio da Vodafone FM e da GDA, contando também com alguns convidados, nomeadamente Tomás Sousa, quer no single Acção-Reacção, quer nesta Jugoslávia. Esta canção mostra uma faceta pop bastante exuberante e luminosa deste projeto TIPO, através de uma infecciosa harmonia vocal e uma melodia magistral bastante virtuosa e cheia de cor, arrumada com arranjos meticulosos e lúcidos. Confere...


autor stipe07 às 22:27
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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

Work Drugs – Flaunt The Imperfection

Depois do excelente Louisa, editado em finais de 2015, os Work Drugs, uma dupla de Filadélfia já com um assinalável cardápio e que se mantém bastante ativa e profícua, lançando um disco praticamente todos os anos, além de alguns singles e compilações, desde que se estreou com Blood, em 2010, está de regresso no ocaso deste verão com Flaunt The Imperfection, mais dez canções perfeitas para saborear estes últimos raios de sol mais quentes, enquanto não chega a longa penumbra outunal e o interminável frio e implacável inverno.

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Ainda bem que há determinados projetos que se mantêm, por muito ativos e profícuos que sejam, fiéis a uma determinada permissa sonora e os Work Drugs são um bom exemplo disso porque proporcionam-nos sempre aquilo que exatamente procuramos neles, um acervo de canções impregnado com aquela sonoridade pop, um pouco lo fi e shoegaze, numa espécie de mistura entre surf rock e chillwave. E este Flaunt The Imperfection, que conta com as participações especiais de Maxfield Gast no saxofone, Tim Speece na guitarra e Nero Catalano no baixo, é mais um episódio significativo e bem sucedido num já riquíssimo compêndio proporcionado por um dos projetos mais excitantes da pop contemporânea.

Os Work Drugs servem-se, então, mais uma vez e ainda bem, de guitarras cheias de charme, alguns efeitos sintetizados cheios de luz e uma bateria eletrónica bastante insinuante para criar canções que contêm um encanto vintage, relaxante e atmosférico. são composições que além de proporcionarem instantes de relaxamento,também poderão adequar-se a momentos de sedução e a ambientes que exigem uma banda sonora que conjugue charme com uma elevada bitola qualitativa.

Apesar destas virtudes no campo instrumental, um dos maiores segredos destes Work Drugs parece-me ser a postura vocal, às vezes um pouco lo fi e shoegaze, mas que dá às composições aquele encanto vintage, relaxante e atmosférico. Assim, ouvir Flaunt The Imperfection é acompanhar esta dupla norte americana numa espécie de viagem orbitral, mas a uma altitude ainda não muito considerável, numa espécie de posição limbo, já que a maior parte das canções, apesar da forte componente etérea, são simples, concisas, curtas e diretas. Às vezes pressente-se que os Work Drugs não sabem muito bem se queriam que as músicas avançassem para uma sonoridade futurista, ou se tinham a firme intenção de deixá-las a levitar naquela pop típica dos anos oitenta. É certamente nesta aparente indefinição que reside uma importante virtude destes Work  Drugs, uma dupla que espelha com precisão o manto de transição e incerteza que tem invadido o cenário da pop de cariz mais alternativo e independente.

Quando se torna difícil inventar algo novo, a melhor opção poderá passar por baralhar e voltar a dar, de preferência com as cartas muito bem misturadas e os trunfos divididos, talvez num cenário de gravidade zero. Aqui, o charme libidinoso do saxofone de Cheap Shots, a inconfundível toada nostálgico contemplativa de Magic In The Night, o rock impulsivo de Alternative Facts e o delicioso encanto retro de Midnight Emotion, são apenas alguns dos trunfos com que os Work Drugs jogam com quem os escuta para conquistar o apreço de quem se deixar enredar sem dó nem piedade por esta teia sonoroa tremendamente sensorial e emotiva e, por isso, viciante. Espero que aprecies a sugestão...

Work Drugs - Flaunt The Imperfection

01. For The Year
02. Magic In The Night
03. Cheap Shots
04. Tradewinds
05. Flaunt The Imperfection
06. Midnight Emotion
07. Love Higher
08. Alternative Facts
09. Giving Up The Feeling
10. Final Bow


autor stipe07 às 18:06
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Sábado, 16 de Setembro de 2017

The Fresh And Onlys – Wolf Lie Down

Lançado através da Sinderlyn Records, Wolf Lie Down é o novo disco dos The Fresh & Onlys, um trabalho que sucede a Long Slow Dance (2012), ao EP Soothsayer(2013) e ao aclamado House of Spirits (2014) sendo já o sexto disco da carreira de um grupo que nasceu em 2008, natural de São Francisco, na Califórnia e formado por Tim Cohen, ao qual se juntam, atualmente, Shayde Sartin e Kyle Gibson, com James Kim e James Barone a serem os bateristas de serviço em várias canções deste disco.

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Tim Cohen tem tido um ano de 2017 bastante produtivo. Depois de um disco a solo intitulado Luck Man está de regresso com os seus The Fresh And Onlys à boleia de um álbum com oito canções que mantêm o projeto numa elevada bitola. É um registo composto por excelentes canções que logo a abrir, com o tema homónimo, refletem um indie rock portentoso, com aquela sonoridade tipicamente americana. Mas não é só Wolf Lie Down que nos esclarece acerca do feliz acerto deste alinhamento. Daí em diante não faltam outros instantes onde guitarras plenas de fuzz conduzem melodias cativantes, num som que sabe claramente às suas origens, porque exala um odor que se distingue de imediato, tal é a energia deste fio condutor que explora até à exaustão e com particular sentido criativo um filão que abraça todos os detalhes que o indie rock, na sua vertente mais pura e noise, transporta lado a lado com a folk com um elevado pendor psicadélico.

Se o referido tema homónimo debruça-se sobre alguém que anseia quase desesperadamente por um grande amor,  já Black Widow, a canção que encerra Wolf Lie Down, é uma narrativa profunda sobre o lado mais negro da mente humana, sustentada, curiosamente, numa gentil melodia acústica que serve de contraponto ao ideário lírico da canção. E acaba por ser nesta deriva entre dois pólos que muitas vezes se entroncam e misturam na história de cada um de nós que Cohen se inspira para escrever canções que atingem facilmente o nosso âmago, tal é a autenticidade e impressionismo que transportam. Pelo meio, na subtil indiferença do expermentalismo de Walking Blues, na visita que nos é oferecida ao antigo oeste selvagem na curiosa Becomings ou no charme funky que dá ainda mais cor à cósmica Qualm Of Innocence, ampliada por um coro gospel, nunca nos sentimos aborrecidos à medida que vão desfilando belos acordes de cordas que se entrelaçam com samples de teclado, alguns arranjos de sopros e distorções hipnotizantes que impressionam até quem conhece o catálogo deste grupo norte americano.

É bom perceber que Cohen sente-se cada vez mais confortável e maduro na sua posição de reverendo denunciador de tudo aquilo que hoje cativa e inquieta toda uma geração que, a meio do seu percurso existencial, vê todo um legado de ideiais e valores prestes a esfumar-se no meio de uma sociedade cada vez mais frenética e tecnológica. O cariz orgânico e assumidamente rugoso de Dancing Chair expressa esta espécie de grito de revolta, enquanto agrega, bem no centro do alinhamento de Wolf Lie Down, esta viagem criativa e experimental que faz uma espécie de súmula de variadas referências noise, folk e psicadélicas. Tal é conseguido através de um som leve e cativante e com texturas psicadélicas que, simultaneamente, nos alegram e nos conduzem à introspeção, sempre com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

The Fresh And Onlys - Wolf Lie Down

01. Wolf Lie Down
02. One Of A Kind
03. Qualm Of Innocence
04. Walking Blues
05. Dancing Chair
06. Impossible Man
07. Becomings
08. Black Widow


autor stipe07 às 12:30
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Sexta-feira, 15 de Setembro de 2017

Chad VanGaalen – Light Information

Editado no passado dia oito de setembro, por intermédio da Sub Pop Records, Light Information é o novo trabalho de Chad Van Gaalen, um canadiano natural de Calgary e um músico, autor e compositor de quem já sentia saudades, nomeadamente dos seus devaneios cósmicos. Desaparecido depois de em 2010 ter editado o excelente Diaper Island, andou, pelos vistos, a aprender a usar o pedal steel, além de ter trabalhado na banda desenhada de ficção científica Translated Log Of Inhabitants, surpreendeu a crítica e os fãs três anos depois com o excelente Shrink Dust e agora, no final deste verão, oferece-nos mais trinta e oito minutos de excelente música indelevelmente marcada pela parentalidade, uma novidade feliz na vida do ser humano VanGaalen.

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Chad é um artista que domina diferentes vertentes e se expressa em múltiplas linguagens artísticas e culturais, sendo a música mais um dos códigos que ele utliza para expressar o mundo próprio em que habita e dar-lhe a vida e a cor, as formas e os símbolos que ele idealizou. Assim, as suas composições refletem, com alguma minúcia, estados de alma e os contextos que definem o seu momento, através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão plasmadas nas suas canções, usando como principal ferramenta alguns dos típicos traços identitários de uma espécie de folk psicadélica, com uma considerável vertente experimental associada. Esta matriz sonora mais aventureira começou a ganhar forma no antecessor de Shrink Dust, o tal Diaper Island, já que antes disso, em Infiniheart (2004) e Soft Airplane (2008), apostou numa sonoridade folk eminentemente acústica e orgânica. Agora, em Light Information, o autor confronta-nos com uma luminosidade algo inédita, mostrando-se vivo e estranhamento empático e exuberante no modo como comunica connosco.

Sendo a eletrónica o terreno onde musicalmente VanGaalen se move com maior conforto, Chad acaba por olhar com mais atenção para a indie pop movida a cordas reluzentes, nomeadamente no modo como em Mind Hijacker's Curse recria uma toada pulsante e algo épica movida através de uma batida enérgica e um efeito sintetizado cósmico a cheirar ao universo de um Bowie por todos os poros e na leveza de Pine and Clover ao oferecer-nos um cândido instante de blues folk acústica particularmente embaladora e intimista. Acabam por ser dois exemplos antagónicos de uma filosofia comum que busca uma maior assertividade no modo como se serve do habitual formato canção para atingir uma maior variedade de fãs, mesmo que em instantes como a soturna psicadelia de Host Body ou a sobriedade acústica mas indisfarcavelmente punk de Faces Lit, o músico se mantenha fiel aos seus genes, reproduzindo aqui alguns dos sons mais orgânicos que podemos escutar no seu cardápio.

Sintetizadores e teclados, são apenas uma pequena parte do arsenal bélico com que ele nos sacode e traduz, na forma de música, a mente criativa que nele vive e que parece, em determinados períodos, ir além daquilo que ele vê, pensa e sente. Se You Fool é um exercício de manifestação óbvia daquilo que nos faz mudar o facto de sermos pais, enquanto coloca já a nú alguns detalhes que justificam o cariz psicadélico e aventureiro que anima Chad, com as guitarras de Broken Bell, apresentadas logo a seguir, a reforça-se o novo enquadramento da obra, cheia de fragmentos de sons sintetizados e distorcidos, versos hipnóticos e vozes com forte pendor lo fi, mas também subtis instantes melódicos de pura subtileza e encantamento. Chega-se ao ocaso e em Static Shape, ao conferirmos uma nuvem de distorções leves e acolhedoras, enquanto a lisergia sintetizada em que se acomodam cria paisagens sonoras verdadeiramente alucinogénicas, ficamos convencidos da enorme beleza e criatividade impressas num disco que buscou novos estímulos, de forma mais ponderada, com todos os arranjos e detalhes a terem sido certamente ponderados de forma muito cuidada, pois só assim se entende o audível aconchego da profusão de sons e de ruídos e poeiras sonoras que o trespassam, sempre com sentido e ordem, já que tudo parece encaixar devidamente e percebe-se diferentes colagens e sobreposições de sons.

Light Information é, portanto, um verdadeiro jogo de texturas e distorções controladas pelos nossos ouvidos. Um passeio pela essência da música psicadélica, idealizado por um inventor de sons que nos canta as subtilezas da sua existência pessoal, mas sem nunca se entregar ao exagero, até porque é explícita a toada experimental que ocupa este compêndio verdadeiramente obrigatório. Espero que aprecies a sugestão...

Chad VanGaalen - Light Information

01. Mind Hijacker’s Curse
02. Locked In The Phase
03. Prep Piano + 770
04. Host Body
05. Mystery Elementals
06. Old Heads
07. Golden Oceans
08. Faces Lit
09. Pine And Clover
10. You Fool
11. Broken Bell
12. Static Shape


autor stipe07 às 13:40
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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

The National - Sleep Well Beast

Foi no último dia oito que chegou aos escaparates e através da 4AD, Sleep Well Beast, o tão aguardado novo registo de originais dos norte-americanos The National, que sucede a Trouble Will Find Me, o disco que a banda de Matt Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf editou no já longínquo ano de 2013. Sétimo disco da carreira do grupo, Sleep Well Beast foi produzido por Aaron Dessner, com produção adicional de Matt Berninger e Bryce Dessner, misturado por Peter Katis e gravado no estúdio Long Pond em Hudson Valley, Nova Iorque.

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Os The National sempre foram bem aceites e acarinhados por cá devido ao modo como, nos primeiros discos, se tornavam automaticamente nossos amigos e confidentes, não só pela forma como abordavam a tristeza, dando-nos pistas concretas não só na forma de lidar com ela, mas também porque nos mostravam o caminho para a redenção, nem que fosse através da simples lembrança de que amanhã há um novo dia e que a esperança nunca pode esmorecer. E faziam-no apostando as fichas todas na voz grave de Berninger, conjugada com arranjos bastante melódicos, refrões simples e versos acessiveis que, aliando-se a uma orgânica melódica particularmente minimal, mas profunda e crua, nos facultavam tal universo fortemente cinematográfico e imersivo.

Seja por mero capricho, por uma questão de maturidade ou simples espírito aventureiro, a verdade é que tem havido um certo abandono dessa zona de conforto, o que, não colocando em causa a carreira dos The National, tem levado a banda para territórios sonoros menos imediatos e orgânicos, com os sintetizadores e outros arranjos e instrumentos inéditos, a fazerem cada vez mais parte do ideário sonoro do grupo. Desse modo, o primeiro grande elogio que se pode fazer a Sleep Well Beast é que não atira o quinteto nova iorquino para uma possível queda na redudância convencional ou na repetição aborrecida. Portanto, ultimamente, a cada novo lançamento do grupo, mais do que perceber com clareza aquilo que une o alinhamento à herança, convém olhar com atenção para os pontos de ruptura e de diferenciação, algo pertinente desde o antecessor, Trouble Will Find Me. Antes disso a estratégia era claramente outra, já que se Sad Songs for Dirty Lovers  foi a estreia assumida do grupo num contexto mais negro, apesar de não ser o primeiro disco da banda, dois anos depois Alligator trouxe uma maior variedade instrumental e, em 2007, Boxer carimbou a definitiva maturidade e internacionalização do coletivo, além de ter  posicionado na figura do vocalista um personagem que caminhava confortavelmente por cenários que descrevem dores pessoais e escombros sociais. Quanto a High Violet (2010), serviu para colocar ênfase numa toada mais épica e aberta do grupo e demonstrar a capacidade eclética que também têm de compôr, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo (Conversation 16, Sorrow ou Terrible Love) e verdadeiros hinos de estádio (England,Bloodbuzz Ohio), mas sem defraudar o conceito inicial central.

Agora, ao sétimo álbum, os The National conseguem, em temas como Nobody Else Will Be There ou Walk It Back, regressar ao ambiente desolador que percorrem desde o começo de carreira e, ao mesmo tempo, apresentar as novas nuances instrumentais do seu arquétipo, muito firmadas nas teclas e em diversos dos atuais entalhes entre eletrónica e rock alternativo, que procuram incutir luminosidade e cor ao que aparentemente é sombra e rugosidade. Assim, acaba por ser comum escutar em simultâneo, como é o caso de Born to Beg, instantes em que os instrumentos clamam pela simplicidade, mas que acabam por resvalar para uma teia sonora que se diversifica e se expande para, neste caso, com alguma cor e optimismo, dar vida a um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e o habitual desmoronamento pessoal que nos arrasta sem dó nem piedade para o usual ambiente sombrio e nostálgico da banda e depois há ainda canções, como Empire Line, que prezam pelo minimalismo da combinação de apenas quatro instrumentos, mas que, no fundo, tornam-se num refúgio bucólico e denso que impressiona pelo forte cariz sensorial. Finalmente, há ainda outras que soam mais ricas e trabalhadas, como The System Only Dreams In total Darkness, talvez o tema do disco que exale com superior precisão o cada vez maior ecletismo de um grupo mais consciente de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes.

Casado e pai de uma filha, Matt afugenta os seus habituais demónios com maior conforto e uma natural aceitação em relação à impossibilidade do total desaparecimento dos mesmos, mesmo que haja atualmente mais instantes e eventos felizes na sua vida pessoal. Não faltam em Sleep Well Beast bons exemplos que nos remetem para uma certa felicidade, digamos assim, que Matt sente por ter finalmente percebido que os problemas, o sofrimento e a dor estarão sempre lá mesmo que a maior constância de eventos felizes seja uma realidade concreta na sua vida. Há como que uma tomada de consciência de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes. Sendo, sonoramente, o disco mais arriscado da carreira do grupo, Sleep Well Beast é, em suma, uma espécie de exercício de redenção, onde o sofrimento é olhado com a habitual inevitabilidade, mas de uma outra perspetiva, mais madura, assertiva e positiva, um compêndio onde os The National firmam a sua posição na classe dos artistas que basicamente só melhoram com o tempo. Espero que aprecies a sugestão...

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01. Nobody Else Will Be There (4:39)
02. Day I Die (4:31)
03. Walk It Back (5:59)
04. The System Only Dreams in Total Darkness (3:56)
05. Born to Beg (4:22)
06. Turtleneck (3:00)
07. Empire Line (5:23)
08. I’ll Still Destroy You (5:15)
09. Guilty Party (5:38)
10. Carin at the Liquor Store (3:33)
11. Dark Side of the Gym (4:50)
12. Sleep Well Beast (6:31)


autor stipe07 às 16:52
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Domingo, 10 de Setembro de 2017

Noiserv - Caixa de música ONZE

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Uma das mentes mais brilhantes e inspiradas da música nacional chama-se David Santos e assina a sua música como Noiserv. Vindo de Lisboa, Noiserv tem na bagagem um compêndio de canções que fazem parte dos EPs 56010-92 e A Day in the Day of the Days, estando o âmago da sua criação artística nos álbuns One Hundred Miles from Thoughtless Almost Visible Orchestra,adocicados pelo DVD Everything Should Be Perfect Even if no One's Therehavendo, desde o outono de 2016 mais um compêndio de canções para juntar a esta lista, um trabalho intitulado 00:00:00:00, incubado quase de modo espontâneo e sem aviso prévio, mas um registo que é mais um verdadeiro marco numa já assinalável discografia, ímpar no cenário musical nacional, de um artista que nos trouxe uma nova forma de compôr e fazer música e que gosta de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e a realidade às vezes tão crua e que ele também sabe tão bem descrever.

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A dois meses de comemorar um ano de existência, um dos destaques de 00:00:00:00, o tema ONZE, foi transportado para uma bonita caixinha de música, com as teclas do piano a serem replicadas por aquela sonoridade algo metálica, tipicamente infantil, que costuma caraterizar estes objetos que fazem parte do imaginário de todos nós. Compete-nos agora seguir o conselho do David e tornar a música nossa, tocando-a à nossa velocidade.

Num ano cheio de concertos um pouco por todo o lado, dentro e fora do nosso país, Noiserv considera esta uma boa forma de comemorar a boa receptividade que o disco tem tido junto do público e realmente parece-me uma excelente ideia e que terá certamente grande aceitação. Confere um excerto do tema e o aspecto da caixa e os próximos concertos de Noiserv.

Próximos concertos:

QUA. 13 SETEMBRO- Festival Le Chainon, Laval (França)

SÁB. 16 SETEMBRO - Cineteatro João verde, Monção (Portugal)

DOM. 17 SETEMBRO - Festival Iminente, Oeiras (Portugal)

SEX. 22 SETEMBRO - Teatro Baltazar Dias, Funchal (Portugal)


autor stipe07 às 16:53
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Sexta-feira, 8 de Setembro de 2017

The Mynabirds - Be Here Now

No ocaso do passado mês de agosto chegou aos escaparates Be Here Now, o novo capítulo da saga discográfica dos The Mynabirds um coletivo indie pop encabeçado pela cantora e compositora Laura Burhenn. Depois de What We Lose in the Fire We Gain in the Flood (2010), Generals (2012) e Lovers Know (2015), sempre através da Saddle Creek Records, este último um disco gravado em Los Angeles, Joshua Tree, Nashville e Auckland, na Nova Zelândia e produzido por Bradley Hanan Carter, agora chegou a vez de Be Here Now, nove canções abrigadas pela mesma etiqueta e que contêm, como é habitual nesta exímia intérprete, uma variada paleta de sons, replicados por sintetizadores, guitarras elétricas, uma percussão eminentemente sintética e uma voz que encaixa claramente numa sonoridade que bebe essencialmente no indie rock do final do século passado.

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Disco com uma tonalidade bastante atual e com uma componente política quase óbvia e declarada, em Be Here Now Laura trabalhou com o produtor Patrick Damphier no estúdio do mesmo em Nashville e refletiu sobre alguns dos dilemas que atormentam uma américa cada vez mais presa em diversos dilemas antigos que a subida de Trump ao poder potenciou, nomeadamente as dificuldades de integração das minorias e dos imigrantes e o fosso cada vez maior entre ricos e pobres.

Os sintetizadores viajantes da balada Cocoon, a nostálgica e ritmada Ashes In The Rain e o rock pulsante de Witch Wolf, três temas conjugados com uma orgânica sentimental e bastante emotiva, acabam por nos mostrar com clareza a filosofia estilística de um disco cheio de canções com uma profundidade épica sustentada num catálogo sonoro envolvente, climático e tocado pela melancolia, mas que não descura a visceralidade típica do indie rock mais portentoso. Mesmo alguns instantes mais delicados atestam esse vínculo forte com um ambiente sedutor, particularmente feminino e intenso, mas sem colocar de lado a presença de uma distorção ou um detalhe mais rugoso.

Como costuma suceder nos discos dos The Mynabirds, a voz é, mais uma vez, um dos aspetos que mais sobressai. A produção está melhor do que nunca, com Laura a aperfeiçoar tudo o que já havia mostrado anteriormente e sem violar a essência de quem adora afogar-se em metáforas, no fundo tudo aquilo que tantas vezes nos provoca angústia e que precisa de ser musicalmente desabafado através de uma sonoridade simultaneamente frágil e sensível, mas também segura e equilibrada.

Profundo e expansivo, Be Here Now constitui um verdadeiro passo em frente no aumento dos índices qualitativos do catálogo dos The Mynabirds, ampliado também por alguns arranjos inéditos, que oferecem um acrescento claro a esse cardápio, até pelo inedetismo do seu arquétipo, olhando para outras composições do grupo. É mais um tesouro rico, belo e que merece ser incensado e divulgado, até por causa do tal olhar contemporâneo, abrigado numa sonoridade claramente vintage, sem rodeios, medos ou concessões e com um espírito aberto e criativo. Espero que aprecies a sugestão...

The Mynabirds - Be Here Now

01. Be Here Now
02. New Moon
03. Golden Age
04. Shouting at the Dark
05. Cocoon
06. Witch Wolf
07. Ashes In The Rain
08. Hold On
09. Wild Hearts


autor stipe07 às 19:25
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Quinta-feira, 7 de Setembro de 2017

King Gizzard and the Lizard Wizard - Sketches Of Brunswick East

Quando no início do ano o projeto australiano King Gizzard and the Lizard Wizard de Stu Mackenzie anunciou que iria lançar cinco álbuns em 2017, foram muitos os cépticos que se apressaram a apontar o dedo à impossibilidade deste grupo de rock psicadélico conseguir levar por diante tal desiderato. Mas a verdade é que Sketches Of Brunswick East, treze canções que viram a luz do dia a vinte e cinco de agosto, através da ATO Records, são já o terceiro capítulo desta imponente saga onde detalhes da soul, do jazz, do rock, essencialmente o setentista e sonoridades africanas e até a folk tradicional inglesa se misturam, para dar vida e cor a um alinhamento onde também teve uma importante palavra a dizer Alexander Brettin, outro músico australiano e natural de Brunswick East, bairro dos subúrbios de Melbourne, tal como Stu e fã de Todd Rundgren e Wire, que tem como carapaça pop o projeto Mild High Club.

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Com os King Gizzard and the Lizard Wizard a contarem já com cerca de uma dezena de discos em carteira, a verdade é que este Sketches Of Brunswick East é já o terceiro trabalho que também conta com a participação dos Mild High Club. E Sketches Of Brunswick East, que também alude ao clássico de Miles Davis, Sketches Of Spainresulta na plenitude, porque é profusamente intensa e feliz esta estreita colaboração entre Stu e Alexander, nomeadamente através da modo como trocam trechos de guitarra acústica, que acabam por servir depois de base a um posterior trabalho de aperfeiçoamento e desenvolvimento por parte dos restantes membros dos King Gizzard and the Lizard Wizard, com o resultado final, mais uma vez, a ser verdadeiramente intenso e contagiante.

O disco inicia com um solo de piano lindíssimo por parte de Brettin, secundado por alguns detalhes percurssivos da autoria do baterista Michael Cavanagh e a partir daí o que se escuta é uma verdadeira espiral entusiasta e multicolorida, que nos colocabem no centro de um tornado que, da psicadelia, à dream pop, passando pelo shoegaze e o chamado space rock, se delicia com a mistura destas vertentes e influências sonoras, sempre em busca do puro experimentalismo e com liberdade plena para ir além de qualquer condicionalismo editorial que possa influenciar o processo criativo de um grupo.

Se ao longo da audição deste álbum parece evidente que tudo aquilo que se pode escutar, dos arranjos às melodias passando pelos diferentes detalhes e samples, é cuidadosamente pensado. É curioso constatar que a busca do caos também pareceu fazer parte da filosofia dominante no processo de construção do arquétipo das várias canções. O jazz experimental acaba por ser a base, mas é muito redutor uma catalogação tão objetiva já que, obedecendo a uma filosofia firme de controle instrumental, quer a homenagem descarada à melhor bossa nova em You Can Be Your Silhouette, assim como os devaneios dos sopros divagantes de Sketches Of Brunswick East II e o modo como em The Spider And Me as variações rítmicas também sobressaiem devido ao modo como as cordas se entrelaçam com a voz, são apenas alguns exemplos felizes que nos remetem para um espetro muito mais vasto e abrangente, onde diferentes estruturas e influências submergem e se acotovelam, quase em uníssono, para conseguirem destaque entre si. É, em pouco mais de trinta minutos, o espraiar indulgente e sereno de uma prévia colocação numa máquina de lavar, num programa que permitiu uma espécie de rotação e sobreposição constante de tudo aquilo que a herança musical contemporânea, de índole eminentemente psicadélica, foi agregando e assimilando ao longo das últimas cinco décadas.

Mais uma vez os King Gizzard and the Lizard Wizard conseguem facultar-nos um acervo de canções único e peculiar e que resulta, certamente, da consciência que Stu, o grande mentor do projeto, tem das transformações que abastecem a música psicadélica atual, enquanto tenta ligar-nos umbilicalmente aquela que considera ser a melhor lista de referências essenciais na parada psicotrópica explicitamente aberta ao experimentalismo que tem inundado os nossos ouvidos ultimamente. Sendo este seu terceiro disco do ano um tratado sonoro de natureza hermética, também não se furta a quebrar algumas regras da pop, nomeadamente na questão da crueza lo fi, e até de desafiar as mais elementares do bom senso, impressionando, assim, pelo arrojo e mostrando-se genial no modo como dá vida a mais um excelente tratado sonoro do melhor revivalismo que se escuta atualmente relativamente ao rock psicadélico do século passado. Espero que aprecies a sugestão...

Sketches of Brunswick East artwork

01. Sketches Of Brunswick East I
02. Countdown
03. D-Day
04. Tezeta
05. Cranes, Planes, Migraines
06. The Spider And Me
07. Sketches Of Brunswick East II
08. Dusk To Dawn On Lygon Street
09. The Book
10. A Journey To (S)hell
11. Rolling Stoned
12. You Can Be Your Silhouette
13. Sketches Of Brunswick East III


autor stipe07 às 09:27
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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

Andrew Belle – Dive Deep

O compositor e músico californiano Andrew Belle regressou este verão aos discos com Dive Deep, onze canções escritas e compostas por um dos intérpretes mais importantes da indie pop atual no lado de lá do atlântico, um artista que conhece, com minúcia e destreza, como replicar um ambiente sonoro multicolorido e espetral, sendo claramente influenciado pela paisagem multicultural de Los Angeles, cidade onde Andrew vive atualmente.

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O alinhamento de Dive Deep contém um forte cunho impressivo enquanto explora algumas das mais contemporâneas interseções entre pop e eletrónica, através de uma vasta paleta instrumental que dando primazia ao sintetizador não deixa também de recorrer a alguns detalhes e arranjos de índole mais orgânica, em especial os percurssivos.

No clima etéreo e fortemente climático de Horizon e na batida pulsante de Black Clouds encontramos, logo à partida, um som cheio e irrepreensivelmente produzido, repleto de pequenas nuances que nos vão espevitando e nos fazem manter o foco na audição, à medida que Belle explana todos os seus atributos não só como cantor, mas também, e principalmente, como escritor de poemas que servem a todos quantos procuram viver com intensidade e procuram usufruir o que de melhor a vida pode proporcionar.

Depois de um excelente ano em 2013, que teve como momento alto a edição do aclamado disco Black Bear, Andrew perdeu a voz durante dois meses e nesse período sentiu enorme receio de ter de lidar com um futuro sem a música no centro da sua vida. Felizmente recuperou desse grave problema de saúde e este Dive Deep reflete, com honestidade e uma certa exaltação, a alegria que o músico voltou a sentir por ter novamente a capacidade de utilizar os seus atributos vocais para transmitir tudo aquilo que o emociona.

Dive Deep acaba por ser um disco que debruçando-se sobre a normalidade da existência humana e as suas rotinas, procura também vestir a pele de conselheiro na hora de tomar aquelas decisões que tantas vezes definem a ténue fronteira que nos separa do mundo da ignorância e dos medos, do usufruto pleno dos desafios com que somos constantemente confrontados. É um disco de esperança, de coragem, alegre e positivo e que não nos deixa paralisar na indecisão e na dúvida, até porque, conforme indica o tema homónimo, são muitas as vezes em que aquilo que de melhor nos sucede é consequência de um anterior mergulho corajoso no desconhecido e na indecisão. Espero que aprecies a sugestão...

Andrew Belle - Dive Deep

01. Horizon
02. Black Clouds
03. Down
04. Honey And Milk
05. Dive Deep
06. T R N T
07. New York
08. You
09. Hurt Nobody
10. Drought
11. When The End Comes


autor stipe07 às 14:26
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Segunda-feira, 4 de Setembro de 2017

Mano a Mano - Super Mario

 

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Os mais atentos ao jazz que se vai fazendo por cá consideram os irmãos André e Bruno Santos, dois guitarristas com um vasto percurso musical, dos melhores intérpretes nacionais desse espetro sonoro na atualidade. E são eles que dão a face pelo projeto Mano a Mano, que se estreou em 2014 nos discos através de uma edição cujo financiamento foi obtido através de uma campanha bem sucedida de crowdfunding e que agora se prepara para lançar o sucessor.

Mano a Mano Vol. 2 irá ver a luz do dia daqui a algumas semanas e Super Mario é o primeiro avaço divulgado das doze canções que irão constituir um alinhamento que, de acordo com o press release do lançamento, centrar-se-ão num duelo dinâmico de guitarras, um disco cheio de momentos de virtuosismo, elegância e humor, explorando as inúmeras possibilidades deste formato. Assim, a vertente acústica, como se percebe neste single, estará na linha da frente da condução dos temas, que também contarão com a exploração de várias formas de diversificar os arranjos, usando, por exemplo, processamento de som (reverb, wah-wah, distorção, loops, pitch-shifter e outros) e técnicas percussivas. O Braguinha/Machete, um instrumento tradicional da Madeira parecido com o cavaquinho, também fará a sua aparição em alguns temas do álbum.

De modo a tornar os concertos dos Mano a Mano ainda mais interessantes, haverá uma forte componente visual nos mesmos, com a inclusão de um cenário que retratará uma simples sala-de-estar, com o objetivo de fazer com que o público se sinta mais acolhido e os temas possam fluir de um modo mais descontraído e familiar. Confere...

 

autor stipe07 às 14:20
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Sábado, 2 de Setembro de 2017

LCD Soundsystem – American Dream

Já há alguns meses que não restavam quaisquer dúvidas que 2017 iria ser o ano em que os LCD Soundsystem de James Murphy iriam editar o sucessor de This Is Happening, nomeadamente desde que foram divulgadas na primavera Call The Police e American Dream, os primeiros avanços do novo álbum do grupo nova iorquino e que acaba de ver a luz do dia através da DFA Records do próprio Murphy. São dez canções que em pouco mais de uma hora nos mostram porque devemo-nos sentir verdadeiramente felizes por This Is Happening não ter sido o epílogo da banda, como foi na altura, no início desta segunda década do século XXI, profusamente prometido (It's (really...) Time To Get Away!). E convém referir que este alinhamento deve também algo de significativo a David Bowie, artista com quem Murphy, durante conversas que tinham como objetivo colocar o patrão da DFA a produzir Blackstar, diversas vezes desabafou a saudade que sentia do seu antigo projeto, um sentimento que ele veio a descobrir ser partilhado também por Nancy Whang e Pat Mahoney, outros dois nomes incontornáveis dos LCD. Aliás, a canção que encerra este American Dream, a sombria e minimal Black Screen, debruça-se sobre esta troca afetiva de argumentos entre Bowie e Murphy.

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Quando uma nova corrente do indie rock começou a fazer escola no início deste século em Nova Iorque e as guitarras e o baixo começaram a dar as mãos aos sintetizadores e à eletrónica para invadir as pistas de dança do mundo inteiro, os LCD Soundsystem estavam na vanguarda desse movimento e a avalancar outros nomes, nomeadamente os Hot Chip, The Rapture, Cut Copy, !!! (chk chk chk), Radio 4 e Fischerspooner, entre outros, alguns deles abrigados pela própria DFA. E a verdade é que com a primeira saída dos LCD Soundsystem de cena, esse espetro sonoro que tanto sucesso obteve durante cerca de uma década, passou a viver um pouco na penumbra, apesar de nomes recentes como os Orange Cassettes e os próprios Liars parecerem sempre dispostos a levar o garage rock novamente nessa direção com assinalável mestria, sempre dançável e psicadélica. Agora, com este segundo capítulo do projeto de James Murphy e tendo em conta a assombrosa bitola qualitativa de American Dream, os dados estão novamente lançados para que o dance post punk rock volte novamente a estar na linha da frente e em plano de destaque no universo sonoro indie e este grupo volte a ocupar um trono que, no fundo, nunca deixou de lhes pertencer.

American Dream está repleto de composições intensas e melancólicas e que nos possibilitam usufruir de um mosaico declarado de referências, que se centram, essencialmente, numa mescla entre a típica eletrónica underground nova iorquina e o colorido neon dos anos oitenta, havendo inclusive, dentro desta bitola referencial, períodos introspetivos, que depois resvalam para finais épicos e de maior exaltação. Logo nos flashes sintetizados vigorosos e no piano divagante da futurista Baby se percebe que este é um disco que não defraudará toda a herança que traz atrás de si. E depois, no ritmo tribalista deliciosamente anguloso, proporcionado, em grande parte, pelo intenso baixo, de Other Voices, exemplarmente acompanhado pelo habitual efeito vocal ecoante de um James Murphy que canta e declama em simultâneo, somos de imediato transportados para os melhores momentos daquele já algo longínquo disco homónimo que ofereceu aos LCD Soundsystem a rampa de lançamento perfeita para um merecido estrelato.

Com estes dois temas iniciais a fazerem a ponte perfeita entre um glorioso passado e aquilo que os LCD Soundsystem querem continuar a explorar nesta nova demanda, American Dream prossegue numa espécie de balanço entre aquele clima underground que pisca o olho de modo bastante apetecível às pistas e momentos de algum pendor mais reflexivo, nomeadamente acerca do modo como Murphy vê a América que atualmente tanto o inquieta. Assim, se os devaneios rítmicos e o modo como é constantemente amplificada uma das cordas do baixo em Change Yr Mind, ou o festim sintético que transborda por todos os poros da efusiva e lasciva Tonite, são composições que nos fazem abanar a anca mesmo que não haja um firme propósito, apenas e só o facto de ser hora de celebrar. Já na espiral instrumental em que crescem guitarras e bateria em I Used To, ou na cadência algo angustiada do tema homónimo, que talvez procure refletir o modo como o tal sonho americano é hoje apenas uma ilusão sem sentido, sentimo-nos impelidos a procurar entender o modo como Murphy, sendo um dos melhores entertainers da atualidade, é também capaz de se sentir frustrado e desanimado com aquilo que observa ao seu redor. O espetacular baixo e o pendor exaltante dos sintetizadores e da batida crescente de Call The Police, acabam por fazer desta canção uma espécie de tema aglutinador perfeito de todo este receituário, um tema onde é possível descobrir razões para dançar de olhos fechados e a sorrir enquanto se pensa na vida e naquilo que mais nos consome e inquieta.

Disco que exige várias audições para ser devidamente compreendido, até porque vive muito deste apelo constante, mas nem sempre explícito, à festa, American Dream talvez reflita, no fundo, a realidade atual de uma América onde não existem, nos dias de hoje, muitas razões para celebrar ou motivos que inspirem à criação musical que exale, de modo evidente, a gloriosa celebração do que é viver num país que nunca se cansa de apregoar que lidera os destinos do mundo. De um modo mais particular, talvez aquele que mais interesse, ensina-nos que nunca é tarde para recomeçar, que os anos podem passar por nós, mas o nosso espírito pode manter-se amplamente jovial e criativo, mesmo que isso suceda de modo menos intuitivo, mas mais refletido, maduro e consciente. É assim, de certo modo, a melhor descrição que se pode fazer destes renovados LCD Soundsystem como entidade. Espero que aprecies a sugestão...

LCD Soundsystem - American Dream

01. Oh Baby
02. Other Voices
03. I Used To
04. Change Yr Mind
05. How Do You Sleep?
06. Tonite
07. Call The Police
08. American Dream
09. Emotional Haircut
10. Black Screen


autor stipe07 às 15:47
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