Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

Purity Ring – Asido

Purity Ring - Asido

Cinco anos depois do lançamento da obra prima Shrines, a dupla canadiana Purity Ring, de Megan James e Corin Roddick, comemora essa efeméride com a divulgação de um novo tema intitulado Asido, a primeira composição do projeto após Another Eternity (2015).

Como seria de esperar, tendo em conta o propósito da canção, Asido remete-nos para o ideário algo enigmático e negro de Shrines, com uma letra muito focada na figura humana e que compara as suas formas anatómicas a uma paisagem com aspetos típicos de ambos os campos lexicais a sublimarem-se entre si. Confere...


autor stipe07 às 15:50
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Quarta-feira, 30 de Agosto de 2017

Liars – TFCF

Poucas bandas se transformaram tanto ao longo da última década como o trio de Nova Iorque chamado Liars e formado originalmente por Angus Andrew, Aaron Hemphill e Julian Gross. Deram início à carreira com uma sonoridade muito perto do noise rock, com experimentações semelhantes ao que fora testado pelos Sonic Youth do início de carreira e até com algumas doses de punk dance e aos poucos foram aproximando-se de uma sonoridade mais amena e introspetiva. O que antes era ruído, distorção e gritos desordenados, passou a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, definição que passou a imperar com evidência desde o disco homónimo lançado em 2007. Este toque experimental acabou por se manter e WIXIW (pronuncia-se wish you), em 2012, foi o culminar de uma tríade que começou no tal Liars de 2007 e prosseguiu em Sisterworld (2010). Dois anos depois, em 2014, os Liars voltam a apostar numa inflexão sonora com Mess, um disco que apresentava uma mistura nada anárquica, mas bastante heterogénea de todos os vetores sonoros que orientaram, até então, a carreira do trio, um álbum carregado de batidas, com uma base sonora bastante peculiar e climática e com propostas ora banhadas por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumidas por um teor ambiental denso e complexo.

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Mess acabou por ser o disco da ruptura e da implosão de um trio que se desmoronou no meio da inquietude e do tal caos, feito de três visões bastantes diferentes daquele que deveria ser o rumo sonoro mais consistente dos Liars, um trajeto que após dezassete anos de busca incessante de consensos, acabou por atingir o limite do tolerável. Assim, Angus Andrew vê-se isolado, mas não dá baixa da marca registada Liars, preferindo, com o acordo dos ex colegas, continuar a dar sequência ao universo com esse nome, agora a solo, sendo TFCF, o primeiro lançamento discográfico nesta nova realidade do projeto. 

Os Liars sempre criaram um som muito difícil de definir porque misturam eletrónica com rock alternativo, noise rock, avant garde, post punk e outras sonoridades e a verdade é que não se pode afirmar que tenham produzido dois trabalhos semelhantes em termos de sonoridade. Este conceito de ruptura mantém-se em TFCF, o que talvez prove que Angus acabou por conseguir fazer prevalecer sempre, acima de todos, a sua filosofia, apesar da aparente democraticidade e busca de pontos de equilíbrio, como descrevi.

Composto integralmente por Angus, no seu país de origem, a Austrália, numa ilha ao largo de Sidney, acessível apenas por barco, num clima de auto isolamento claramente imposto, TFCF materializa esta oportunidade de ouro que o músico finalmente teve para explanar livremente  os conceitos artísticos com que mais se identifica, procurando, ao mesmo tempo, revitalizar o som Liars, elevando-o para uma nova escala e paradigma de inedetismo até porque, a primeira impressão que se tem logo após a audição deste álbum é que não há nenhum projeto contemporâneo conhecido que possa ser equiparado estilisticamente ao que é apresentado nestas onze canções. Já agora, é curiosa a explicação de Angus para o artwork do disco. Justifica-o afirmando que durante dezassete anos sentiu-se de certo modo casado com Aaron Hemphill, o seu principal parceiro nesta aventura e o último a abandoná-lo (Depois de Mess os Liars chegaram a ser uma dupla durante algum tempo) e agora que ele o deixou, ficou sozinho, apenas com um vestido de noiva (I felt like I was married to Aaron [Hemphill] creatively, and now that he is gone I am alone in my wedding dress).

TFCF acaba por refletir bastante esta nova conjuntura, até porque Angus não se fez rogado na hora de aproveitar algum material sonoro que estava guardado em bruto para o próximo disco do projeto no formato trio e em que Angus e Aaron tinham chegado a trabalhar em conjunto, apesar de, durante esse brainstorming virtual, um estar em los Angeles e o outro em Berlim. No Help Pamphlet, um dos poucos momentos acústicos do álbum e onde a guitarra é protagonista, é clara nesta realidade, com a letra a referir-se diretamente a Aaron (OK, that’s it. Those are all the songs I really like… I hope that you have a really great break. And I’m thinking of you all the time.)

Olhando um pouco para o restante conteúdo do disco, independentemente da abordagem que é feita em cada canção e que varia imenso, a eletrónica é o fio condutor, quase sempre envolvida numa embalagem minimal, embrulhada com vozes e sintetizadores num registo predominantemente grave e ligeiramente distorcido, que cria uma atmosfera sombria, hipnótica e visceral. O clima algo caótico e lo fi de The Grand Delusional personifica, claramente, uma forma de procurar exorcizar o modo angustiante como Angus olha para a nova realidade com que convive, mas depois, quer nas cordas medievas de Cliché Suite, acompanhadas por arranjos que dão um tema um clima spaghetti curioso, quer na batida pulsante, grave e sensual de Staring At Zero e nos seus detalhes metálicos, assim como nos samples ambientais da climática Face To Face With My Face e no folk punk caliedoscópico de No Tree No Branch, o músico liberta-se um pouco das amarras identitárias e oferece-nos algumas nuances curiosas que deverão projetar um pouco aquele que será futuro sonoro dos Liars. O vigor percurssivo de Coins In My Caged Fist, acompanhado por um sintetizador algo agreste, talvez seja o momento de TFCF que mais nos remeta para o passado, mas de um modo feliz porque é um tema que vai beber à fonte de Drums Not Dead, a obra-prima do grupo.

Disco que personifica, sem rodeios, um estado de (in)consciência muito próprio de um autor que vive num momento crucial da sua existência, quer pessoal quer artística, TFCF é um corpo sonoro cheio de especificidades, que precisa e merece ser apreciado de acordo com as regras que ele próprio define, sem ideias pré-concebidas ou expetativas balizadas, até porque, na minha opinião, poderá vir a ser um marco imprescindível para a descrição futura testamental da marca Liars, pois estou certo que agora, depois de exorcizados os fantasmas e definidas as novas pistas, Angus não vai ficar por aqui e vai finalmente poder mostrar, sem ter que dar explicações ou fazer concessões, aquilo que artisiticamente realmente vale. E parece ser muito! Espero que aprecies a sugestão...

Liars - TFCF

01. The Grand Delusional
02. Cliche Suite
03. Staring At Zero
04. No Help Pamphlet
05. Face To Face With My Face
06. Emblems Of Another Story
07. No Tree No Branch
08. Cred Woes
09. Coins In My Caged Fist
10. Ripe Ripe Rot
11. Crying Fountain


autor stipe07 às 14:51
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Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

We Invented Paris – Catastrophe

Já chegou aos escaparates Catastrophe, o novo álbum dos suiços We Invented Paris, um trabalho que sucede ao excelente Rocket Spaceship Thing que divulguei em 2014 e cujas treze canções catapultam esta banda liderada por Flavian Graber para um novo patamar de excelência dentro de um paradigma sonoro que, numa esfera eminentemente pop, tanto abraça a folk como a eletrónica futurística, mas de forte pendor retro, criando, desta vez, a banda sonora perfeita para aquilo que um realizador cinematográfico dos anos oitenta imaginaria que fosse hoje o nosso planeta, caso tivesse de colocar numa tela as suas visões trinta anos após esse presente.

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Começa-se a escutar a atmosfera sintética de Looking Back e o modo como o efeito metálico de uma guitarra vibrante atravessa os teclados para se perceber que estes We Invented Paris são um coletivo que aposta numa sonoridade indie com uma forte cariz épico, feita com melodias que transportam uma enorme carga emocional, também bastante ampliada pela irrepreensível postura vocal de Flavian. É uma sonoridade que revela uma enorme competência e interessante grau de criatividade, no que diz respeito ao processo de criação melódica, o que resulta numa atmosfera invulgar e muito agradável de escutar, à qual não escapa nenhuma das treze canções deste Catastrophe.

Na verdade, quase todas as músicas são singles em potência; Em sequência, o timbre funk do baixo e da bateria e o efeito robotizado da voz em Fuss, a luminosidade dos arranjos e do piano que proporcionam uma faceta algo sensível e cândida a Kaleidoscope, os sintetizadores vintage e os ecos que ressoam em High Tide, o rock inebriante e impulsivo de Air Raid Shelter e do tema homónimo, o piscar de olhos à melhor pop oitocentista nórdica em Storm ou a balada simultaneamente doce e inquietante chamada A Lake In The Morning mostram o quanto as músicas deste disco são heterogéneas e individuais, cada uma com traços próprios e conseguindo, assim, recriarem, em conjunto, uma atmosfera diversificada ao álbum.

Os We Invented Paris acabam por se destacar porque não são muitas bandas que conseguem agregar tantos géneros musicais diferentes num só trabalho. Neles encontramos quase todos os subgéneros da pop e do melhor rock alternativo, tudo tocado com violas que soam eufóricas, guitarras tímidas, mas também inquietantes e arrebatadoras e sintetizadores que não se envergonham de abraçar uma vasta panóplia de efeitos e batidas contagiantes. Não é fácil encontrar no cenário europeu exterior à realidade anglo-saxónica uma banda que mostre um conteúdo musical com tanta carga emocional e maturidade musical e Catastrophe, ao conter tantos momentos graciosos e suaves, com uma delicadeza notável e uma sensibilidade que se destaca, faz destes We Invented Paris uma banda que vale realmente a pena ouvir muitas vezes e aproveitar cada audição de forma diferente, num disco que desperta múltiplas sensações e que demonstra o quanto eles se sentem confortáveis dentro da sonoridade criativa que seguem e replicam. Espero que aprecies a sugestão...

We Invented Paris - Catastrophe

01. Looking Back
02. Fuss
03. Kaleidoscope
04. High Tide
05. Air Raid Shelter
06. Storm
07. Superlove
08. Spiderman
09. Catastrophe
10. Touriste
11. A Lake In The Morning
12. When Did I Stop
13. Arsonist


autor stipe07 às 21:17
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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2017

Beck – Dear Life

Beck - Dear Life

Depois de mais de meia década de solidão, o músico que no início da década de noventa atuava em clubes noturnos vestido de stormtrooper e que da aproximação lo-fi ao hip-hop de Mellow Gold e Odelay, passando pela melancolia de Sea Change e a psicadelia de Modern Guilt, nos habituou a frequentes e bem sucedidas inflexões sonoras, regressou em 2014 com Morning Phase, o décimo segundo trabalho da sua carreira e que viu a luz do dia por intermédio da Capitol Records. Falo, obviamente, de Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas duas décadas, um cantor e compositor que tantas vezes já mudou de vida como de casaco e que agora, três anos depois desse belo disco, está de regresso com Colors, dez canções que proporcionarão um novo fôlego na sua carreira, uma espécie de recomeço, depois de nos últimos dois verões ter igualmente surpreendido com dois singles intitulados Dreams e Wow.

Colors verá a luz do dia a treze de outubro, com o selo Capitol Records e Dear Life é um dos avanços, um tema que sobressai pela luminosidade de um piano e pelo fuzz intermitente de uma guitarra que deve muito aquela estética que além de reviver marcas típicas do rock nova iorquino do fim da década de setenta, ressuscita referências mais clássicas, consentâneas com a pop psicadélica, sendo indisfarçavel a busca de uma melodia agradável e marcante e rica em detalhes e texturas. Confere...


autor stipe07 às 21:05
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Sexta-feira, 25 de Agosto de 2017

The War On Drugs – A Deeper Understanding

Os The War On Drugs de Adam Gradunciel já eram sinónimo de saudade na redação de Man On The Moon, até porque não davam sinais de vida desde o excelente Lost In The Dream, editado há cerca de três anos. Refiro-me a um sexteto norte americano formado pelo baixista Dave Hartley, pelo teclista Robbie Bennett, pelo baterista Charlie Hall e pelos multi-instrumentistas Anthony LaMarca e Jon Natchez, além de Gradunciel e cuja sonoridade descomprometida e apimentada com pequenos delírios acústicos foi aos poucos transformando-se numa referência para vários artistas em início de carreira e não só e que está de regresso em 2017 com um novo registo de originais. O novo tomo de canções dos The War On Drugs intitula-se A Deeper Understanding, é o quarto da carreira do grupo, que contou na gravação e produção com a ajuda do engenheiro de som Shawn Everett (Alabama Shakes, Weezer) e viu a luz do dia hoje mesmo. Contém dez maravilhosas canções que deambulam entre a folk, a dream pop, o indie rock e a psicadelia e são bem capazes de oferecer ao autor o pódio no que concerne aos álbuns mais influentes, inspirados e acolhedores de 2017.

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Escutar com devoção os sermões de Gradunciel faz-nos embarcar serenamente e quase sem darmos por isso numa gloriosa viagem pela América que o inspira, uma América ao mesmo tempo tão sui generis, mas também tão genuína nas suas raízes e nos seus cânones fundamentais, mas também uma América plena de contrastes, até porque deve as suas fundações e raízes a numa heterogeneidade civilizacional cimentada ao longo de quatro séculos de choque cultural e civilizacional. E o encontro com este conjunto de incontornáveis permissas é um dos melhores elogios que se pode fazer a um disco que nos mostra com alguma clareza, entre outras coisas, como é viver nos dias de hoje numa sociedade profundamente dividida e carente de um rumo que agregue toda a amálgama de etnias, raças e povos que fazem do maior país do outro lado do atlântico um dos mais heterogéneos e conturbados deste nosso mundo, apesar de apregoar aos sete ventos ser o mais civilizado e desenvolvido de todos.

É curioso ver um tipo tão tímido e introvertido como este Adam Gardunciel parecer querer chamar a si o ónus gigantesco de tentar agregar num mesmo propósito toda uma multiplicidade racial, já que ele compõe canções que tanto servem à esquerda como à direita, a cristãos e a judeus e a brancos, índios, latinos ou negros, porque no fundo daquilo que nelas se fala são de pessoas, seres com uma humanidade própria que, apesar de adorarem vincar divergências, vêem, tantas vezes, quer o amor, quer os sonhos e os anseios, do mesmo modo. O segredo para a pacificação acaba por estar, no fundo, no encontro de pontos comuns e a música dos The War On Drugs é fértil a deixar pistas nesse sentido, porque para este grupo a felicidade não olha a cores de pele, heranças ou deuses para se manifestar. 

Com o reverb das guitarras e os sintetizadores a sustentarem o cardápio sonoro de um disco dinâmico e que se destaca logo na abertura com Up All Night, uma longa canção que apresenta uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados os diversos arranjos que adornam as guitarras e a voz, nomeadamente sintetizadores e uma bateria indulgente, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte, A Deeper Understanding parece ser, por cá, a banda sonora ideal para aquecer os dias mais tristonhos e sombrios que se aproximam, mas também já serve para contemplarmos como serenidade o ocaso de um verão algo frenético e que para muitos não ficará gravado pelos melhores motivos.

Apesar deste álbum oferecer ao ouvinte diferentes perspetivas sobre a realidade sociológica que abriga os autores, ao longo da dez canções do disco Gradunciel também medita e repousa e cria facilmente no ouvinte suposições relacionadas sobre a sua vida pessoal, já que é inevitável escutar-se canções como Pain ou Knocked Down e concluir-se que este registo está cheio de poemas com uma elevada componente biográfica, que nos permitem entender melhor o âmago do autor, com a curiosidade de o fazermos através de tudo aquilo que de mais transcendental e lisérgico tem sempre a composição e a criação musical. Thinking Of A Place, onze minutos que são uma verdadeira vibe psicadélica e poeticamente melancólica, com uma progressão interessante e onde vão sendo adicionados diversos arranjos, sintetizadores a batidas que adornam as guitarras e a voz, com um resultado muito atrativo e cativante para o ouvinte, é mais um exemplo concreto deste indisfarçável impressionismo transversal a todo o alinhamento de A Deeper Understanding, um compêndio de várias narrativas onde convive uma míriade alargada de sentimentos que, da angústia à euforia, conseguem ajudar-nos a conhecer melhor a essência do autor e a descortinarmos opinião sobre a tal América que ele medita, assim como as suas conclusões e as perceções pessoais daquilo que observa enquanto a sua vida vai-se desenrolando e ele procura não se perder demasiado na torrente de sonhos que guarda dentro de si e que nem sempre são atingíveis.

Letras tão pessoais exigem, naturalmente, arranjos delicados e cuidados, com os quais o autor se identifique profundamente e, além do esplendor das cordas, particularmente inspiradas na já citada Pain ou no modo como induzem luz e positivismo a Nothing to Find, há que enfatizar as paisagens sonoroas criadas em In Chains e Strangest Thing, duas canções que, apesar de conduzidas pela guitarra, expandem-se e ganham vida devido ao critério que orientou a escolha dos restantes instrumentos e à forma como a voz de Gradunciel se posiciona e se destaca.

A Deeper Understanding é um trabalho que, do vintage ao contemporâneo, consegue encantar-nos e fazer-nos imergir na intimidade de um Gradunciel sereno e bucólico, através de uma viagem aos universos de Dylan e Kurt Vile, passando por Springsteen, com canções cheias de versos intimistas que flutuam livremente. É um disco simultaneamente amplo e conciso sobre as experiências pessoais do músico, mas também sobre o presente, a velhice, o isolamento, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, em suma, sobre a inquietação sentimental, ou seja, o existencialismo e as perceções humanas de uma América que parece ter encalhado e não saber como voltar novamente ao rumo certo. Espero que aprecies a sugestão...

 

The War On Drugs - A Deeper Understanding

01. Up All Night
02. Pain
03. Holding On
04. Strangest Thing
05. Knocked Down
06. Nothing To Find
07. Thinking Of A Place
08. In Chains
09. Clean Living
10. You Don’t Have To Go


autor stipe07 às 22:59
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Quinta-feira, 24 de Agosto de 2017

The Veldt - The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation

Formados em Raleigh pelos irmãos gémeos Daniel e Danny Chavis, aos quais se juntaram, entretanto, o baterista Marvin Levi e o baixista David Burris, os The Veldt foram, no ocaso do século passado, um dos novos nomes mais interessantes do cenário indie da Carolina do Norte, território onde incubaram grupos do calibre de uns Superchunk, Archers of Loaf, The Connells, Dillon Fence, The dBs, Squirrel Nut Zippers e Ryan Adams, entre outros. Estrearam-se nos registos discográficos em 1992 com Marigold, abrigados já pelo consórcio Stardog/Mercury e o sucesso desse arranque valeu-lhes um lucrativo contrato com a Polygram Records. Com essa bagagem financeira fizeram as malas e foram até Londres onde gravaram Afrodisiac, o segundo álbum do projeto, produzido pelo conceituado Ray Shulman (The Sugarcubes,The Sundays).

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De repente, os The Veldt viram-se a partilhar o palco com nomes tão distintos como os Oasis, The Cocteau Twins, The Pixies, Fishbone e Corrosion Of Conformity, bandas seminais e preponderantes, um sucesso que acabou por colocar o grupo numa espécie de impasse relativamente ao rumo a seguir, mas que não os impediu de gravar ainda mais dois registos, os discos Universe Boat, através da Yesha Recordings e Love At First Hate, à boleia da etiqueta que a própria banda entretanto tinha criado, a End Of The World Technologies.

Após estes quatro álbuns, Danny e Burris abandonam os The Veldt, o último dedica-se ao cinema, sendo atualmente produtor da aclamada série Survivor, da CBS e o grupo acaba por encerrar as hostilidades em 1998. De regresso a Nova Iorque, os gémeos Danny e Daniel concentram as suas atenções num novo projeto intitulado Apollo Heights, mais focado em sonoridades relacionadas como o trip-hop e a eletrónica, dos quais resulta um disco que foi bastante aclamado pela crítica, intitulado White Music For Black People, que contou com as participações especiais de Mos Def e Lady Miss Kier e que incluiu nos créditos David Sitek dos TV On The Radio na produção.

Agora, quase duas décadas depois da interrupção, os gémeos Chavis voltam a ressuscitar os The Veldt  e fazem-no acompanhados por Hayato Nakao e Marvin Levi e à boleia de um EP intitulado The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation, cinco canções que não envergonham a herança identitária que o grupo guarda. É um alinhamento assente em guitarras plenas de distorção, geralmente conjugadas com batidas sintetizadas e efeitos de índole eminentemente etérea, numa espécie de punk rock futurista, um shoegaze cibernético que replica atmosferas sonoras bastante hipnóticas e contemplativas, como é se percebe logo em Sanctified, o tema que abre o alinhamento do EP. É um som com uma componente elétrica muito intensa e onde o enigmático e marcante falsete vocal de Daniel é também um elemento importante, principalmente no modo como confere um certo travo nostálgico, algo exultante a cantar os delicados versos de In A Quiet Room e mais orgânico e intituivo a conduzir o clima profusamente sintético e rugoso de A Token, canção onde os atributos de Nakao como programador são levados ao extremo.

Além de manter intacta a aura melancólica e mágica de um projeto que integrou, de pleno direito, a lista de algumas referências óbvias de finais do século passado, The Shocking Fuzz of Your Electric Fur: The Drake Equation exala o contínuo processo de transformação de uns The Veldt que procuram sempre mostrar, com a marca do indie shoegaze muito presente e com uma dose de experimentalismo equilibrada, uma rara sensibilidade e uma explícita habilidade para conceber texturas e atmosferas sonoras que transitam, muitas vezes, entre a euforia e o sossego, de modo quase sempre impercetível, mas que inquietam todos os poros do nosso lado mais sentimental e espiritual. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 14:06
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Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

Swine Tax - Brittle

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Dizendo-se influenciados por nomes tão distitos como os The National ou os Modest Mouse, os britânicos Swine Tax são Vince Lisle, Tom Kelly e Charlie Radford, um trio oriundo de Newcastle e que tem lançado ultimamente uma série de singles disponíveis para audição no soundcloud da banda, certamente a anteciparem um registo de estreia que deverá também ver a luz do dia muito em breve.

Dessa fornada de canções divulgadas destaco os pouco mais de quatro minutos de Brittle, um tema que contém na perfeição um ambicioso punk rock de forte pendor lo fi mas que não deixa de ser também bastante audível. É feito com um baixo rugoso e vibrante e uma guitarra que inflama distorções verdadeiramente inebriantes, pedras de toque de uma composição algo exuberante pelo modo como transmite um forte sentimento de exclamação simltaneamente enérgico e intimista e que por isso facilmente cativa. Confere...


autor stipe07 às 21:24
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Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Everything Everything - A Fever Dream

A Fever Dream é o nome do novo disco dos britânicos Everything Everything, o quarto registo de originais desta banda oriunda de Manchester e que sucede ao aclamado Get to Heaven, o álbum que o quarteto lançou há cerca de dois anos. Depois de terem trabalhado em Get To Heaven com o consagrado Stuart Price (Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters), neste A Fever Dream contaram, na gravação e produção, com a ajuda de James Ford, habitual colaborador de bandas como os  Arctic Monkeys, Depeche Mode ou os Foals.

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Desde 2010 que os Everything Everything abordam a condição humana contemporânea e a espécie de miserabilismo que se tem apoderado de um ocidente onde recentemente o brexit, a mudança política no outro lado do atlântico e o terrorismo são eventos algo traumáticos e que marcam negativamente uma realidade fortemente competitiva, frenética e até egoísta para cada entidade individual que luta por um lugar ao sol. Em suma, os Everything Everything têm sabido estar sintonizados com o absurdo sociológico e político dos nossos tempos, numa carreira bastante marcada por momentos de profunda reflexão sobre aquilo que os rodeia e agora fazem-no novamente, de modo ainda mais incisivo e abrigados numa pop hiperativa e fortemente sintetizada, a filosofia sonora fundamental que sustenta este A Fever Dream, onze canções que mostram o quanto o nosso mundo se parece cada vez mais, na óptica do grupo, um lugar pouco convidativo e demasiado instável, porque está repleto de aramadilhas e ziguezagues. A título de exemplo, se a saída do Reino Unido da União Europeia e o aumento da xenofobia nesse país são retratados em Put Me Together, já Big Game aborda os perigos da propensão humana para o autoritarismo e para o individualismo compulsivos, com ambas as canções a constituirem-se como dois bons exemplos do foco que o grupo coloca nestas questões existenciais.

Os Everything Everything sempre procuram replicar um som intuitivo, mas que também fosse desafiante. E Se Get To Heaven foi, logo à partida, um trabalho brilhante no modo como demorava a entrar no âmago dos fãs, em A Fever Dream a digestão do conteúdo sonoro parece ser mais acessível, mas sem quebrar o encanto que se sente sempre que um alinhamento nos faz o convite inconsciente e viciante para uma nova audição. Esta permissa já ficou de algum modo explícita quando há algumas semanas foi divulgado Can't Do, o single de apresentação, uma canção que piscando o olho a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica e o indie rock contemporâneo, plasma um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que seduz o grupo. Tematicamente, é um tema que, de acordo com Jonathan Higgs, o líder dos Everything Everything, pretende alertar as consciência para a noção de normalidade, porque, de acordo com ele, esse é um conceito que ninguém sabe definir com exatidão e, por isso, nenhuma entidade ou indíviduo se pode apropriar do mesmo e apresentar-se como tal e as outras canções confirmam a impressão inicial que o tema causou. A distorção abrasiva da guitarra e as várias nuances rítmicas de Ivory Tower ou o modo como em Run The Numbers passamos, numa fração de segundos, de uma atmosfera contemplativa para um rodopio eletrificado carimbam este modo apenas aparentemente irrefletido de compôr, numa espécie de anarquia minuciosamente planeada que no tema homónimo ganha uma dimensão única devido a um piano cheio de solenidade acompanhado por uma electrónica explosiva feita de beats vincados e o falsete único de Higgs, também extraordinário a refletir uma vincado humor negro à medida que acompanha os sintetizadores de Night Of The Long Knives.

Disco indutor, frenético e provocante, A Fever Dream é um passo seguro e maduro dos Everything Everything rumo ao estrelato, um agregado interessante e improvável de análise psicológica e sociológica do estado atual do mundo, mas que pode sempre encontrar algum conforto e até, quem sabe, a esperada redenção e salvação nas pistas de dança nele espalhadas. Talvez possa ser a música o elemento conciliador e libertador das civilizações e os Everything Everything parecem querer voluntariar-se para levar a cabo essa cruzada inolvidável. Espero que aprecies a sugestão...

Everything Everything - A Fever Dream

01. Night Of The Long Knives
02. Can’t Do
03. Desire
04. Big Game
05. Good Shot, Good Soldier
06. Run The Numbers
07. Put Me Together
08. A Fever Dream
09. Ivory Tower
10. New Deep
11. White Whale


autor stipe07 às 14:52
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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

Steven Wilson - To The Bone

Também conhecido pela sua contribuição ímpar nos projetos Porcupine Tree e Storm Corrosion, Steven Wilson tem também já uma profícua carreira a solo, que viu o seu quinto capítulo a dezoito de agosto último com a edição de To The Bone, o seu mais recente registo discográfico. Este é um dos músicos que na atualidade melhor mistura rock progressivo e eletrónica, fazendo-o sempre com grandiosidade e elevado nível qualitativo. Aliás, basta escutar o antecessor Hand. Cannot. Erase.,(2015) ou a obra-prima The Raven That Refused To Sing (And Other Stories) (2013), para se perceber como Steven Wilson é exímio nessa mescla e como convive confortavelmente com o esplendor e a grandiosidade, não tendo receio de arriscar, geralmente com enorme dinâmica e com uma evidente preocupação pela limpidez sonora.

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Com a participação especial da israelita Ninet Tayeb, que já tinha feito parte dos créditos de Perfect Life e Routine, dois dos melhores temas de Hand. Cannot. Erase., Pariah foi o primeiro single divulgado de To The Bone, uma canção que impressiona pela riqueza melódica e por uma assertiva conexão entre belas paisagens acústicas e instantes de fulgor progressivo, enquanto se debruça sobre alguns dos medos e paranóias do mundo moderno e a dependência que todos sentimos da tecnologia, duas ideias transversais ao restante alinhamento do disco, conforme confessou o autor recentemente (My fifth record is in many ways inspired by the hugely ambitious progressive pop records that I loved in my youth. Lyrically, the album’s eleven tracks veer from the paranoid chaos of the current era in which truth can apparently be a flexible notion, observations of the everyday lives of refugees, terrorists and religious fundamentalists, and a welcome shot of some of the most joyous wide-eyed escapism I’ve created in my career so far.)

E na verdade, logo no esplendoroso e altivo tema homónimo as intenções conceptuais do disco ficam claras e percebe-se que este é um alinhamento recheado de momentos instrumentais extraordinários, que assentam quase sempre em riffs de guitarra viscerais e em batidas pulsantes, um baixo muitas vezes frenético e sintetizadores muito direcionados não só para o krautrock, mas também para um experimentalismo progressivo minuciosamente pensado e peculiar, porque contém uma marca indistinta fornecida por um dos produtores mais inspirados e influentes do cenário musical britânico contemporâneo.

A partir daí não há como ficar indiferente à espiral emotiva sempre crescente que sustenta a nostalgia retro progressiva de Refuge, ao piscar de olhos à pop oitocentista com um certo travo punk que exala das teclas e do baixo da inebriante Permanating e também ao implícito folk rock fornecido por uma linha de guitarra em The Same Asylum As Before, com a particularidade de, nesta composição, essas cordas atingirem um nível de distorção algo incomum no cardápio de Wilson, uma sensação atenuada pelo afago que recebem do piano e por uma forte emotividade vocal. No entanto, a curiosa abordagem vocal a alguns dos cânones que definem o trip-hop de cariz mais ambiental em Song Of I e a luminosidade dos teclados de Nowhere Now, canção feita com um intenso rock progressivo, acabam por ser sonoramente os meus grandes destaques deste álbum, com Detonation a ser também suportada por belos arranjos que lhe conferem uma toada épica muito intensa.

A audição de To The Bone não é apenas um mero exercício de contacto auditivo com um disco pop, mas uma experiência mais alargada, por que é também visual e sonora e que confirma Steven Wilson como um guru do post rock experimental, já que ele prova em cada canção, de modo distinto, criativo e envolvente, que é atualmente um nome fundamental e incontornável do universo sonoro em que se insere. Espero que aprecies a sugestão...

Steven Wilson - To The Bone

01. To The Bone
02. Nowhere Now
03. Pariah
04. The Same Asylum As Before
05. Refuge
06. Permanating
07. Blank Tapes
08. People Who Eat Darkness
09. Song Of I
10. Detonation
11. Song Of Unborn


autor stipe07 às 14:16
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Domingo, 20 de Agosto de 2017

Grizzly Bear – Painted Ruins

Até parece mentira, mas já foi em 2004 que Horn of Plenty estreou os nova iorquinos Grizzly Bear de Edward Dros, Daniel Rossen, Christopher Bear e Chris Taylor nos lançamentos musicais. Na época, o disco passou despercebido e até há quem não o inclua na discografia oficial da banda, até porque foi composto inteiramente pelo vocalista, Daniel Rossen, com apenas algumas contribuições do baterista, Christopher Bear. Agora, quase década e meia depois, já chegou o quinto disco dos Grizzly Bear, um trabalho editado já cinco anos após o antecessor, o complexo Shields.

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Daniel Rossen não é insensível ao mundo que o rodeia e gosta de colocar na ordem do dia as suas preocupações e angústias relativamente ao que vai observando e vivendo, servindo-se da música como veículo privilegiado não só dessa demanda reflexiva, mas também para procurar alertar quem se predispuser a aceitá-lo como mais um conselheiro seguro e que merece crédito. Assim, se as ruidosas e intrincadas camadas sonoras que sustentavam a densidade de Shields serviram como arma de arremesso para este músico e a banda que lidera exorcizarem alguns demónios seus e outros alheios, em Painted Ruins temos um conjunto de telas que nos descrevem com minúcia a importância de uma vivência plena e feliz, mesmo que os sinais que recebemos do exterior, quer sejam politicos, sociais ou económicos não sejam, por estes dias, os mais aconchegantes e prometedores.

Apesar do sintético, várias vezes na sua vertente mais floreada e intrincada, manter-se presente e até com requintes de charme e magnificiência em temas como Glass Hillside e na cândura de Systole, nestas onze canções o rock numa versão mais pura ganha novamente protagonismo e avança para a linha da frente da filosofia sonora, muito à imagem dos primeiros registos do grupo, mais orgânicos e imediatos do que Shields. Por exemplo, quer a epicidade rugosa e visceral de Mourning Sound, mas também o modo como em Three Rings é refletida muita da melancolia que era exposta nos primórdios da carreira dos Grizzly Bear, são bons exemplos desse feliz retrocesso, algo que no caso de Three Rings se infere da camada de ruídos experimentais e compostos acinzentados que sustentam o tema, com o acrescento de arranjos onde contrastam elementos acústicos e elétricos a deitarem por terra qualquer sintoma de monotonia e repetição e com um baixo incisivo e uma batida plena de pulso e vigor a conferirem a Mourning Sound o cerrar de punhos pretendido. Depois, quer as diversas variações rítmicas e de primazia na condução entre teclas e cordas em Losing All Sense e os diferentes entalhes entre guitarra, efeitos e bateria no caos desafiante do rock progressivo que alimenta Aquarium, acabam por imprimir ao disco o cunho identitário de complexidade que qualquer trabalho deste projeto tem necessariamente de ter, mas sem o desviar do rumo inicialmente traçado.

Álbum desafiante porque só revela todo o seu potencial instrumental e todos os detalhes e nuances que o trespassam após repetidas audições, Painted Ruins é uma verdadeira obra de arte por isso e porque mantém acesa a chama algo angustiante e nebulosa de uns Grizzly Bear que mais do que se preocuparem em agradar ao mainstream e à radiofonia, preferem estar na linha da frente daqueles que compõem com o firme propósito de deixar algo que marque e exercite a mente de quem aceita ouvir e deliciar-se com os seus sermões. Espero que aprecies a sugestão...

Grizzly Bear - Painted Ruins

01. Wasted Acres
02. Mourning Sound
03. Four Cypresses
04. Three Rings
05. Losing All Sense
06. Aquarian
07. Cut-Out
08. Glass Hillside
09. Neighbors
10. Systole
11. Sky Took Hold


autor stipe07 às 14:20
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Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

Grandfather's House - You Got Nothing To Lose

Braga é o poiso natural do projeto Grandfather’s House, banda que surigu há cerca de meia década pelas mãos do guitarrista Tiago Sampaio, ao qual se juntou, entretanto, a irmã Rita Sampaio na voz, dupla que lançou, em 2014, o seu primeiro registo, o EP Skeleton. Entretanto, João Vitor Costeira juntou-se e pegou na bateria e já na forma de trio editaram o ano passado Slow Move, o disco de estreia. Agora, cerca de um ano depois e já com Nuno Gonçalves nas teclas, irá ver a luz do dia Diving, o segundo lançamento do projeto em formato longa duração, um trabalho gravado e produzido na Mobydick Records (Braga) por Budda Guedes e os próprios Grandfather’s House e misturado e masterizado no HAUS (Lisboa) por Makoto Yagyu. Estas oito canções irão ver a luz do dia a quinze de setembro e delas já se conhece o single You Got Nothing Lose e o respetivo vídeo, produzido e realizado por CASOTA Colective (Leiria).

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Impregnado com uma densidade peculiar no modo como hipnotiza e seduz, alicercada naquele falso minimalismo que o compasso de umas palmas, efeitos sintetizados encobertos por uma cosmicidade algo nebulosa e o efeito divagante de uma guitarra proporcionam, You Got Nothing Lose é uma excelente porta de entrada para um alinhamento que, de acordo com o press release do mesmo, vai desde o despertar de memórias que pareciam adormecidas pelo tempo, crescendo uma raiva, quase um estado depressivo, transformando-se na sua aceitação e num estado de paz de espírito. Diving irá certamente catapultar estes Grandfather's House para um lugar de relevo no cenário indie nacional e conta com as participações de Adolfo Luxúria Canibal, Nuno Gonçalves e Mário Afonso, na voz, teclados e saxofone, respectivamente. Confere...


autor stipe07 às 00:10
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Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017

Offa Rex - The Queen Of Hearts

The Queen Of Hearts é o nome do primeiro álbum do projecto Offa Rex que reúne a cantora e multi-instrumentista britânica, Olivia Chaney, uma das melhores da sua geração e os norte-americanos The Decemberists, banda de topo da indie folk do outro lado do atlântico. É um alinhamento de onze canções cuja produção esteve a cargo de Tucker Martine (Modest Mouse, My Morning Jacket, Neko Case) e Colin Meloy. Foi gravado nos Martine’s studio em Portland e viu a luz do dia à boleia da insuspeita e conceituada Nonesuch Records.

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Trocas de mensagens no twitter entre a cantora e o grupo há alguns meses atrás e a descoberta de uma paixão mútua pela folk britânica do início da segunda metade do século passado, acabaram por ser o combústivel que inflamou a mente criativa deste conjunto de músicos para criar um disco que faz não só uma homenagem à herança de grupos como os Fairport Convention ou os Pentangle, mas que também nos oferece uma visão atual particularmente sensível e algo barroca de alguns dos melhores fundamentos da melhor folk. Assim, se o cravo e a voz sensível de Olivia, logo no tema homónimo, esclarecem o ouvinte acerca das principais permissas vintage de The Queen Of Hearts e se as cordas luminosas e o andamento de Blackleg Miner, o único tema cantado no disco por Colin Meloy, o vocalista dos The Decemberists, transporta-nos para um qualquer salão de festas de um sindicato de mineiros há meio século atrás, uma sensação também possível com a harmónica de Constant Billy (Oddington) / I’ll Go Enlist (Sherborne), já o dedilhar fortemente orgânico e contemplativo da guitarra de The Gardener e a tocante interpretação de Olivia do clássico The First Time I Ever Saw Your Face, da autoria do compositor inglês Ewan MacColl e que nos anos setenta já tinha sido revisitado pela americana Roberta Flack, oferecem a tal visão mais contemporânea, sem nunca defraudar o espírito tipicamente british do registo, potenciado ainda mais no timbre classicista do orgão que conduz The Old Churchyard.

Com letras que andam quase sempre à volta de histórias sobre personagens peculiares e do universo fantástico, The Queen Of Hearts está recheado de intensidade e boas canções, que apesar de conterem uma sonoridade algo estranha à banda de Portland, que baseou sempre o seu som na típica coutry-folk americana, foram exemplarmente recriadas e interpretadas pelo grupo, não só com a mescla instrumental apropriada, mas também, e principalmente, com o espírito e a soul muito precisa que uma autêntica carta de amor sentida à folk britânica exigia e que esta aliança aventureira batizada de Offa Rex conseguir redigir com extrema minúcia, astúcia, alma e sensibilidade. Espero que aprecies a sugestão...

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01. The Queen of Hearts
02. Blackleg Miner
03. The Gardener
04. The First Time Ever I Saw Your Face
05. Flash Company
06. The Old Churchyard
07. Constant Billy (Oddington) / I’ll Go Enlist (Sherborne)
08. Willie o’Winsbury
09. Bonny May
10. Sheepcock and Black Dog
11. To Make You Stay


autor stipe07 às 14:21
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Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

The Magnetic Fields - 50 Song Memoir

Cinco anos depois do consistente Love At The Bottom Of The Sea, os The Magnetic Fields de Stephen Merritt regressaram aos discos este ano com 50 Song Memoir, através da conceituada Nonesuch Records. Trata-se de mais um álbum conceptual, dividido em cinco discos, um por cada década, cerca de duas horas e meia de música idealizada por Merritt, que começou a escrever e a compor as cinquenta canções do registo em 2015, ano em que fez cinquenta anos de vida, com cada um dos temas a debruçar-se sobre cada um desses anos e a servir de crónica do mesmo. Merritt canta em todas as cinquenta canções do trabalho e tocou mais de cem instrumentos durante a sua gravação. Já agora, no final do século passado os The Magnetic Fields tinham editado o seu primeiro trabalho conceptual, um triplo álbum com sessenta e nove canções de amor e as suas diversas formas de se manifestar e a forma com a mente tremendamente irónica de Merritt olhava na altura para este sentimento.

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Naturais de Boston, no Massachusetts, os The Magnetic Fields são um dos segredos mais bem guardados da pop e neste disco produzido pelo próprio Merritt, secundado por Thomas Bartlett e Charles Newman, transformaram memórias longínquas e recentes do líder da banda para elaborarem uma curiosa biografia sonora, onde diferentes histórias e personagens, verdadeiras e fictícias, se entrelaçam e de modo cronológico.

Escutar 50 Song Memoir é como assistir ao crescimento quer biológico quer psicológico de Merritt e nele não faltam as habituais referências, geralmente amargas, quer a desilusões amorosas, exemplarmente retratadas em Lover's Lies, mas também aos típicos conflitos interiores que se produzem durante a juventude (I'm Sad!) ou a visão que o autor foi tendo do mundo que o rodeia e das transformações que nele foram acontecendo. Danceteria, Rock’n’Roll Will Ruin Your Life, Hustle 76’, How to Play the Synthesizer e Danceteria, plasmam o modo como o músico assistiu às transformações que a música sofreu durante as décadas de setenta e oitenta do século passado e como as mesmas ajudaram a alterar mentalidades, nomeadamente no que concerne a aspetos tão díspares como a liberdade sexual ou a igualdade entre géneros. Judy Garland é outro tema que se debruça sobre o exterior sociológico de Merritt ao versar sobre a morte da atriz norte-americana que dá nome à canção.

Disco onde predomina uma sonoridade eminentemente clássica e geralmente acústica e de forte pendor orgânico, como é apanágio nos The Magnetic Fields, 50 Song Memoir também não deixou de lado os sintetizadores que a partir da última década do século passado tornaram-se ativo importante no processo de criação sonora do grupo. Assim, se a gentileza e cândura luminosa das cordas de A Cat Called Dionysus ou os violinos de Ethan Frome garantem frescura e leveza ao disco, já os efeitos luminosos do teclado de How I Failed Ethic ou a rugosidade sintética de Foxx And I, oferecem ao registo instantes que provam essa busca de uma necessária contemporaneidade, com o rock lo-fi de The Blizzard of ’78 e de Weird Diseases e o experimetalismo lisérgico de Surfin’ a servirem de complemento e a equilibrarem um alinhamento que privilegia a heterogeneidade e a diversidade sonora e, ao fazê-lo com o típico humor e versatilidade instrumental de Merritt, acaba por contar uma outra história, aquela que descreve os vários territórios sonoros que fizeram escola no cenário indie norte-americano nas últimas décadas. Espero que aprecies a sugestão...

The Magnetic Fields - 50 Song Memoir

CD 1
01. ’66: Wonder Where I’m From
02. ’67: Come Back As A Cockroach
03. ’68: A Cat Called Dionysus
04. ’69: Judy Garland
05. ’70: They’re Killing Children Over There
06. ’71: I Think I’ll Make Another World
07. ’72: Eye Contact
08. ’73: It Could Have Been Paradise
09. ’74: No
10. ’75: My Mama Ain’t

CD 2
01. ’76: Hustle 76
02. ’77: Life Ain’t All Bad
03. ’78: The Blizzard Of ’78
04. ’79: Rock’n’Roll Will Ruin Your Life
05. ’80: London by Jetpack
06. ’81: How To Play The Synthesizer
07. ’82: Happy Beeping
08. ’83: Foxx And I
09. ’84: Danceteria!
10. ’85: Why I Am Not A Teenager

CD 3
01. ’86: How I Failed Ethics
02. ’87: At The Pyramid
03. ’88: Ethan Frome
04. ’89: The 1989 Musical Marching Zoo
05. ’90: Dreaming In Tetris
06. ’91: The Day I Finally…
07. ’92: Weird Diseases
08. ’93: Me And Fred And Dave And Ted
09. ’94: Haven’t Got A Penny
10. ’95: A Serious Mistake

CD 4
01. ’96: I’m Sad!
02. ’97: Eurodisco Trio
03. ’98: Lovers’ Lies
04. ’99: Fathers In The Clouds
05. ’00: Ghosts Of The Marathon Dancers
06. ’01: Have You Seen It In The Snow?
07. ’02: Be True To Your Bar
08. ’03: The Ex And I
09. ’04: Cold-Blooded Man
10. ’05: Never Again

CD 5
01. ’06: “Quotes”
02. ’07: In The Snow White Cottages
03. ’08: Surfin’
04. ’09: Till You Come Back To Me
05. ’10: 20,000 Leagues Under The Sea
06. ’11: Stupid Tears
07. ’12: You Can Never Go Back To New York
08. ’13: Big Enough For Both Of Us
09. ’14: I Wish I Had Pictures
10. ’15: Somebody’s Fetish


autor stipe07 às 09:52
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Domingo, 13 de Agosto de 2017

Vagabon - Infinite Worlds

Camaronesa de nascimento e a viver em Nova Iorque, Laetitia Tamko é, desde 2014, Vagabon, uma autora, cantora, multi-instrumentista e compositora que escreve canções que parecem servir para ilustrar uma multiplicidade de mundos e emoções com uma filosofia muito própria e que se amplia após sucessivas audições, tal é o vício que ela provoca em quem se deixa imbuir pela sua cartilha sonora e aceita abstarir-se de tudo aquilo que o rodeia enquanto a ouve, nomeadamente as oito canções de Infinite Worlds, o seu registo de estreia, editado já este ano à boleia da Father/Daughter Records.

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Amante da música tradicional camaronesa, mas também atualizada quanto às novas tendências indie, em Infinite Worlds Laetitia revela-nos, com enorme fluidez e expressividade, a singluridade do seu registo vocal e a sua luminosidade e clarividência instrumental e melódica, em canções que começaram a ver o seu arquétipo desenhado desde 2014, ano em que começou a fazer circular algumas demos, de modo físico e digital, por editoras independentes. Uma cassete intitulada Persian Garden viu mesmo a luz do dia nesse mesmo ano, via Miscreant Records, um compêndio lo-fi onde a autora plasmou, à boleia da guitarra e da voz, os fundamentos básicos da sua filosofia sonora, que agora, três anos depois, também chama a si o sintetizador e a bateria.

Assim, dentro de um indie rock pulsante e onde não falta uma curiosa toada punk, explicíta e gloriosamente inspirada em 100 Years, o que temos em Infinite Worlds são composições com uma energia muito própria e que acabam por exalar também, em determinados momentos, a herança identitária africana de Tamko, já que se debruçam sobre a mudança da família da autora dos Camarões para os Estados Unidos e o choque cultural e as dificuldades de adaptação de toda a prole à nova realidade civilizacional e, mais especificamente, da autora ao sistema escolar norte-americano. São temas repletos de colagens eletrónicas com elevada dose de hipnotismo, que são depois adornados por uma bateria intensa e riffs de guitarra rugosos, contrabalançados pela doçura e inocência da sua voz, como fica explícito logo no single Embers, mas que também mudam bruscamente de direção, para uma toada mais acústica e contemplativa como é o caso do piscar de olhos simultâneo ao R&B e ao rock progressivo em Fear & Force e que acabam também por conseguir, através de várias nuances interpretativas, oscilar entre estes dois universos. O mesmo sucede, numa outra abordagem, em Minneapolis, canção repleta de alterações de tonalidade e euforia, ao nível da eletrificação das cordas, mas também rítmicas.

De modo sujo e empoeirado e pleno de memórias de um passado marcante e feito de mudanças, notavelmente autoral na crueza sentimental e orgânica de Cleaning House, em Infinite WorldsVagabon acaba por fazer uma espécie de reciclagem tecnológica e estética de tudo aquilo que sonoramente a inspira, fazendo-o de modo intimista e natural e de modo a refletir não só uma vontade expressa de experimentar, mas principalmente de estabelecer a sua própria identidade, que também tem um lado solidário no modo como tenta ser uma voz de incentivo e de guia para todos aqueles que hoje precisam de sair do seu habitat natural para sobreviver ou realizar sonhos e acabam, com frequência, por se deparar com uma realidade que coloca mais obstáculos do que portas a uma vivência plena e realizada. As raparigas incomuns, que não são celebradas e as mulheres de cor, são, como referiu recentemente à Pitchfork, os seus principais alvos. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:30
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Sábado, 12 de Agosto de 2017

Said The Whale – Nothing Makes Me Happy (Feat. WILLA)

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Os Said the Whale de Vancouver, no Canadá, regressaram aos discos no início deste ano com As Long As Your Eyes Are Wide e agora, alguns meses depois, divulgam um novo single que não faz parte do alinhamento desse registo. A canção initula-se Nothing Makes Me Happy e foi escrita a meias pelo grupo e por Ali Milner, amiga da banda e que canta a coberto do nome WILLA.

Nothing Makes Me Happy é um festim luminoso de forte índole sintetizada, cerca de quatro minutos que mostram o som claramente um indie rock mas com pegadas de folk, country e muita pop, onde é possível a apreciar delicadas harmonias vocais, pianos, guitarras limpas e um imenso impressionismo na escrita de uma canção que se debruça sobre o modo como as gerações mais jovens vivem obcecadas e presas à tecnologia. Confere...


autor stipe07 às 10:34
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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2017

Mura Masa - Mura Masa

No sul de Inglaterra, em pleno canal da Mancha, situa-se a minúscula ilha de Guernsey, terra natal de Alex Crossan, um músico nascido a cinco de abril de mil novecentos e noventa e seis e que desde muito cedo começou a utlizar a composição musical e o DJing como principal refúgio para a natural sensação de isolamento que sempre sentiu e de modo a materializar também um forte desejo de sair do meio do atlântico e passar viver em Londres. Ele assina a sua música como Mura Masa (nome de um sabre japonês) e estreou-se recentemente nos discos com um homónimo, editado à boleia da Polydor Records e que conta com várias participações especiais de relevo, nomeadamente Damon Albarn, Charli XCX e A$AP Rocky, entre outros.

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Produtor, compositor e multi-instrumentista, Alex Crossan começou a ser notado pela crítica quando em setembro do ano passado apresentou ao mundo Lovesick, um dos temas deste seu álbum de estreia e que conta com a voz de A$AP. A partir daí a ansiedade por novas canções por parte de uma já interessante legião de fãs foi aumentando até ficar finalmente satisfeita com estas treze canções que, do rap à eletrónica, passando pela pop ambiental, o hip-hop, o house tropical, o dubstep e o próprio jazz, abraçam uma multiplicidade de estilos e tendências sonoras que fazem deste Mura Masa um dos discos mais interessantes e multifacetados do momento. 

Caldo sonoro, mas também multicultural, Mura Masa tem instantes que nos incitam à pista de dança e a deixar extravasar o nosso lado mais libidinoso, que irá certamente deliciar-se com a batida afro de Nuggets ou o clima envolvente particularmente sensual do efeito metálico sintético que conduz All Around the World e outros em que predomina um clima de maior introspeção, com particular destaque para o intimismo de Blue, canção que ganha um charme muito próprio devido ao modo como as vozes de Alex e Albarn se entrelaçam. E este jogo entre estas duas vozes contém uma ainda maior simbologia porque encerra um disco que instrumentalmente, entre os vários estilos que cruzam as treze canções, acaba por firmar a atmosfera de um álbum que obriga-nos a esperar o inesperado e a ouvi-lo em constante sobressalto, excitados pela sensualidade de algumas letras e por nunca sabermos muito bem o que poderá vir a seguir. E um dos temas que mais me impressionou e fez-me crer que realmente o inesperado está sempre ao virar da esquina, foi Nothing Else! e a abordagem vocal algo minimalista mais impressiva de Jamie Lidell ao universo mais negro do r&b, o grande detalhe que sustenta a soul essa canção. Mas também merecem, na minha opinião, especial referência o cardápio instrumental sintético que trespassa o frenesim de Helpline e a luminosidade harmónica de Second 2 None.

Mura Masa plasma com particular eloquência e impressiva criatividade a míriade sonora que influencia o seu autor e leva-nos facilmente a admirar o mesmo pelo bom gosto com que navega de influência em influência e acaba, com essa viagem descomprometida, mas inspirada, por construir algo inédito e a sua própria marca sonora identitária, que faz de si um dos produtores mais interessantes da nova pop contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

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1.Messy Love
2. Nuggets (feat. Bonzai)
3. Love$Ick (feat. A$AP Rocky)
4. 1 Night (feat. Charli XCX)
5. All Around the World (feat. Desiigner)
6. give me the ground
7. What If I Go?
8. Firefly (feat. NAO)
9. Nothing Else! (feat. Jamie Lidell)
10. Helpline (feat. Tom Tripp)
11. Second 2 None (feat. Christine and the Queens)
12. Who Is It Gonna B (feat. A.K. Paul)
13. Blu (feat. Damon Albarn)


autor stipe07 às 14:09
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Quarta-feira, 9 de Agosto de 2017

DRLNG - Black Blue

Foto de Drlng Band.

Depois do extraordinário EP Icarus, editado em 2014, os DRLNG, uma banda de Boston formada por Eliza Brown (voz), Martin Newman (guitarras) e James Newman (baixo) das cinzas dos míticos Plumerai, têm lançado uma série de temas em formato single, sendo o mais recente Black Blue, uma canção que conta com as participações especiais de Danny Chavis nas guitarras e Hayato Nakao na programação, membros dos nova iorquinos The Veldt.
Black Blue são pouco mais de cinco minutos que apostam numa fusão do indie rock mais melancólico e sombrio com alguns detalhes da folk americana e da pop. A voz pura e límpida de Eliza é um trunfo explorado positivamente até à exaustão e que ganha um realce ainda maior quando as guitarras algo turvas de Martin têm a capacidade de proporcionar uma aúrea algo mística e ampliada, não só à voz de Eliza, como também, no fundo, à própria mensagem da canção.
Nesta composição conseguimos dissecar diferentes vias e infuências, já que, ao mesmo tempo que há uma paisagem sonora que transparece calma e serenidade, também existe na guitarra uma tensão constante, numa melodia amigável e algo psicadélica, que se arrasta até ao final num longo diálogo entre o efeito metálico e diferentes dinâmicas percussivas.
Quer Black Blue, quer os dois singles já editados antes deste, See It All e Cobra, estão disponíveis para audição e download na plataforma bandcamp do projeto.Confere...


autor stipe07 às 02:16
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Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Fink – Cracks Appear

Fink - Cracks Appear

Três anos depois do excelente álbum Hard Believer, o projeto Fink de Fin Greenall (voz, guitarra), um músico britânico com quarenta e cinco anos, natural de Bristol e que, deambulando entre Londres e Berlim, vai-se destacando não só como músico, mas também como compositor e produtor para outros projetos, está de volta com Resurgam, dez canções que vão ver a luz do dia em setembro próximo.

Cracks Appear é o primeiro tema divulgado de Resurgam, uma composição que tem por base uma bateria e umas teclas impregnadas de soul, às quais vão sendo adicionados vários detalhes e elementos, incluindo o som de uma guitarra eletrificada Este tema inicial é perfeito para nos transportar para um disco que, apesar de um aparente maior arrojo pop relativamente a Hard Believer, será essencialmente acústico, vincadamente experimental e claramente dominado por cordas com uma forte toada blues.

O título deste novo disco de Fink é inspirado numa inscrição de origem latina que Greenall encontrou numa igreja quase milenar de Cornwall, sua cidade natal e cujo espírito e significado faz-se sentir, transversalmente, ao longo de todo o alinhamento, produzido pelo carismático Flood (PJ Harvey, U2, Foals, Warpaint, The Killers) e gravado nos estúdios Assault & Battery Studios, que este produtor partilha com Alan Moulder no norte de Londres. Confere...


autor stipe07 às 00:11
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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

Belle And Sebastian – We Were Beautiful

Belle And Sebastian - We Were Beautiful

Os escoceses Belle & Sebastian parecem já ter sucessor para o aclamado álbum Girls In Peacetime Want To Dance, um disco editado pela banda no início de 2015 e que tendo sido produzido pelo aclamado  Ben H. Allen (Animal Collective, Washed Out), estava recheado de versos confessionais que falam da infância do vocalista e da necessidade que muitas vezes sentimos de regressar às origens para dar um novo impulso à nossa existência.

Gravado em Glasgow, cidade-natal da banda, e produzido pela própria juntamente com Brian McNeill, We Were Beautiful é o novo tema divulgado pelo quarteto, uma canção que conduz-nos de volta ao indie pop mais orelhudo, com aquele requinte vintage que revive os gloriosos anos oitenta e que, por isso, é uma excelente porta de entrada para um futuro alinhamento que será, certamente, instrumentalmente irrepreensível. Confere...


autor stipe07 às 14:33
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Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

The Jungle Giants – Quiet Ferocity

Oriundos de Brisbane e formados por Sam Hales, Cesira Aitken, Andrew Dooris e Keelan Bijker, os The Jungle Giants já têm finalmente nos escaparates o sucessor de Speakerzoid, o segundo disco do projeto, editado há dois anos e que sucedeu ao registo de estreia, um álbum intitulado Learn To Exist, editado em 2013. Quiet Ferocity é o novo álbum deste quarteto australiano, um trabalho que irá certamente continuar a catapultar o grupo para o merecido estrelato.

Escrever sobre o conteúdo de um disco dos The Jungle Giants após uma sardinhada com direito a duas canecas de meio litro de um excelente verde branco fresco de Castelo de Paiva não é uma tarefa fácil, mas como também não é extensa a lista de leitores deste blogue não corro o risco de ver a minha análise colocar em causa de modo permanente a bitola qualitativa quer deste espaço de escrita quer de um grupo que, como se percebe logo em On Your Way Down, assenta a sua permissa sonora numa pop heterógenea que entre o rock experimental e o eletropop,  é feita, geralmente, de um baixo encorpado e pleno de groove, algumas teclas insinuantes, uma guitarra impregnada com aquele fuzz psicadélico hoje tanto em voga e alguns efeitos futuristas, com o resultado global a ser uma ode festiva e inebriante que nos submerge em todos os minutos gastos na sua audição.

Estes The Jungle Giants têm o objetivo claro de fazer os seus ouvintes dançar ou, se não for esse o caso, pelo menos de nos fazer vibrar positivamente ao som das suas canções. E neste terceiro disco conseguem, com maior refinamento, esse propósito, mostrando uma superior clarividência interpretativa e, além disso, um piscar de olhos a territórios sonoros algo inéditos no percurso do grupo. Assim, o indie eletro pop luminoso e festivo de Feel The Way I Do e o clima sintético mas divertido de Bad Dream, assim como a exuberância punk do single Quiet Ferocity e o blues do baixo e da guitarra de Used to Be In Love acentuam ainda mais o cariz infeccioso e contemporâneo de um disco que parece um verdadeiro motim de acordes, arranjos e samples vocais, atributos que abraçam uma quantidade ilimitada de texturas onde sintetizadores e guitarras contagiantes estouram alegria e sedução, como se fossem um par de amantes em permanente troca lasciva de olhares e argumentos.

Se alguns dos principais pilares da pop contemporânea são pedras basilares deste alinhamento, em Quiet Ferocity nem faltam abordagens a um espetro indie mais futurista, repleto de samples curiosos e de efeitos e detalhes bastante criativos. Assim, se Time And Time Again sobrevive devido aos tiques percussivos frenéticos em que se acomoda, tricotados por um baixo dinâmico e fascinante, que depois se entrelaça com uma guitarra que se distorce sem controle, baixo esse que se mostra glorioso em In The Garage, já a soul dos efeitos que acompanham o ritmo da bateria de Waiting For A Sign com uma articulação e um charme incomuns e a vibração excitante do falso minimalismo da eloquente Blinded, constituem um inventivo e luxuriante mosaico que exala uma certa pop negra avançada mas excitante, numa revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto por alguns gigantes que se têm entregue ao flutuar sonoro da lisergia e de cuja listagem os The Jungle Giants também querem fazer parte.

Em suma, cheio de espaço, com texturas e fôlegos diferentes e onde é transversal uma sensação de experimentação nada inócua, Quiet Ferocity cimenta as coordenadas que se apoderaram do departamento de inspiração deste quarteto, sendo o resultado da ambição do mesmo em se rodear com uma áurea resplandecente e inventiva e de mostrar uns The Jungle Giants cada vez mais heterogéneos e abrangentes. Espero que aprecies a sugestão...

The Jungle Giants - Quiet Ferocity

01. On Your Way Down
02. Feel The Way I Do
03. Bad Dream
04. Used To Be In Love
05. Quiet Ferocity
06. Time and Time Again
07. Waiting For A Sign
08. Blinded
09. In The Garage
10. People Always Say


autor stipe07 às 00:34
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