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Glass Vaults – The New Happy

Domingo, 14.05.17

Os Glass Vaults  de Richard Larsen, Rowan Pierce e Bevan Smith são uma banda oriunda de Wellington, na Nova Zelândia e em cujo regaço melancolia e lisergia caminham lado a lado, duas asas montadas em canções que nos oferecem paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos e a voz de Larsen que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta. E tudo isto sente-se com profundo detalhe, numa banda que por vir dos antípodas parece carregar nos seus ombros o peso do mundo inteiro e não se importar nada com isso, algo que nos esclareceu com veemência Sojourn, o longa duração de estreia destes Glass Vaults, editado em 2015 à boleia da Flying Out e que sucedeu a Glass (2010) e Into Clear (2011), dois eps que colocaram logo alguma crítica em sobressalto.

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Agora, quase dois anos depois desse auspicioso início de carreira no formato longa duração, o trio está de regresso aos discos com The New Happy, um trabalho que viu a luz do dia ontem, doze de maio, através de Melodic Records, gravado em três dias e que além dos três músicos da banda, contou ainda com as participações especiais de Daniel Whitaker, Ben Bro and Hikurangi Schaverien-Kaa. Este é um álbum com um som esculpido e complexo e com um encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador, até porque estamos em presença de um registo que corre muito bem o risco de ser um dos melhores do ano.

Logo no groove mágico e melancólico que trespassa a guitarra e os efeitos rugosos da lo fi Mindreader e no funk alegre, divertido e requintado de Ms Woolley, percebemos, com clareza, que este é um disco especial, não só no modo como privilegia uma sensibilidade pop inédita, que em alguns momentos é atingida com um forte cariz épico e monumental, mas também no largo espetro de cruzamentos que executa entre a eletrónica ambiental e um rock de cariz mais experimental e alternativo, uma filosofia sonora que poderá resultar para o ouvinte na possibilidade de obter um completo alheamento de tudo aquilo que o preocupa ou o pode afetar em seu redor.

Ao surgir Brooklyn, canção que é um verdadeiro festim de cor e alegoria, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo a reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo de modo fortemente cinematográfico e imersivo, num resultado final que impressiona pela orgânica e pelo forte cariz sensorial, ficamos definitivamente seduzidos por um daqueles registos discográficos onde a personalidade de cada uma das canções do alinhamento demora um pouco a revelar-se nos nossos ouvidos, mas onde é incrivelmente compensador experimentar sucessivas audições para destrinçar os detalhes precisos que contém e a produção impecável e intrincada que sustenta a bitola qualitativa de um catálogo de canções incubado por um grupo a viver no pico da sua produção criativa.

The New Happy prossegue e enquanto Savant nos oferece uma secção percurssiva de metais com uma exuberância vintage enérgica e marcial, em Rewind e, principalmente, no tema homónimo, os efeitos circenses e o efeito em eco de uma guitarra que parece ser capaz de reproduzir toda a magnificiência deste e de outro mundo num qualquer arraial bucólico de aldeia, atestam, mais uma vez, a facilidade com que estes Glass Vaults mudam de cenário com uma naturalidade invulgar, sem colocarem em causa a homogeneidade de um alinhamento rico e muitas vezes surreal. De referir que essas composições foram intercaladas por Sojourn, canção que deu nome ao disco de estreia e onde parece que os Glass Vaults tocam içados no topo monte Aoraki, o ponto mais alto da Nova Zelândia, de onde debitam esta canção arrebatadora através de tunéis rochosos revestidos com placas metálicas que aprofundam o eco da melodia e dão asas às emoções que exalam desde o sopé desse refúgio bucólico e denso, onde certamente se embrenharam, pelo menos na imaginação, para criar quase oito minutos que impressionam pela orgânica e pelo forte cariz sensorial. A mesma receita, mas de modo ainda mais barroco e hipnótico, repete-se em Bleached Blonde, um desfile inebriante que impressiona pela grandiosidade, patente nos samples, nos teclados e nos sintetizadores livres de constrangimentos, não havendo regras ou limites impostos para a inserção da mais variada miríade de arranjos, detalhes e ruídos. Depois, no ocaso, o minimalismo contagiante em que se sustenta Halaah Ha!, mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete percussivo que contém é outro extraodinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a manipular o sintético e a tornar tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Disco quase indecifrável e com uma linguagem pouco usual mas merecedora de devoção, The New Happy é capaz de projetar nos nossos ouvidos uma tela cheia de sonhos e sensações, com nuances variadas e harmonias magistrais que muitas vezes apenas pequenos detalhes ou amplos arranjos conseguem proporcionar. Na verdade, estes Glass Vaults oferecem-nos gratuitamente a possibilidade de usarmos a sua música para expor dentro de nós sentimentos de alegria e exaltação, mas também de arrepio e um certo torpor perante a grandiosidade de uma receita sonora cujos fundamentos lhes foram revelados em sonhos, já que só eles conseguem descodificar com notável precisão o seu conteúdo. Espero que aprecies a sugestão...

Glass Vaults - The New Happy

01. Mindreader
02. Ms Woolley
03. Brooklyn
04. Savant
05. Sojourn
06. Rewind
07. The New Happy
08. Bleached Blonde
09. Halaah Ha!

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publicado por stipe07 às 00:20






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