Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

The Notwist – Superheroes, Ghostvillains And Stuff

Considerados por muitos como verdadeiros pais do indie rock, os The Notwist, liderados pelos irmãos Archer, estão de regresso aos lançamentos discográficos com Superheroes, Ghostvillains And Stuff, um trabalho editado no final de outubro à boleia da Sub Pop Records e que ao longo de mais de hora e meia nos oferece uma viagem ao vivo muito calculada e de algum modo hipnótica pelo universo sonoro que os carateriza enquanto banda de rock, mas cada vez mais dominados pela eletrónica.

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Registo gravado na segunda de três noites consecutivas, sempre esgotadas, em dezasseis de dezembro de 2015, no espaço Connewitz, em Leipzig, na Alemanha, país natal dos The Notwist, Superheroes, Ghostvillains And Stuff revisita o extenso e rico catálogo de um projeto que logo no balanço dos metais de They Follow Me, uma canção que ameaça continuamente uma incomensurável explosão sónica, no krautrock de Close To the Glass e no luminoso andamento progressivo de Kong nos mostra as suas variadas facetas. Aliás, quando no início do espetáculo parecemos positivamente condenados a usufruir de um banquete com um cardápio sintético, surgem as cordas e a guitarra luminosa cheia de distorção desta Kong para provar essa génese de uns The Notwist exímios a piscar o olho ao indie rock psicadélico e a sonoridades mais orgânicas, mesmo em concerto.

Daí em diante, seja através desses ambientes mais crus e orgânicos ou outros mais sintéticos e intrincados, os The Notwist conseguem ser eficazes e bastante criativos no modo como separam bem os diferentes sons e os mantêm isolados e em posição de destaque, durante o processo de construção dos diferentes puzzles que dão substância às suas canções. E ao vivo essa sensação amplia-se, num registo onde, ao contrário da maioria dos trabalhos do género, a produção é mesmo uma das mais valias já que, seja entre o processo dos arranjos selecionados para cada tema, até à manipulação geral do álbum, tudo soa muito polido e nota-se a preocupação por cada mínimo detalhe, o que acaba por gerar num concerto muito homogéneo e conseguido.

Trabalho tremendamente catártico, até pelo modo como em Pick Up The Phone não destoa da fórmula cúmplice, madura e melodicamente acessível que esta canção exige, sem que isso coloque em causa o seu encaixe no restante alinhamento, Superheroes, Ghostvillains And Stuff é a demonstração clara de uma banda versátil, que tem sabido ao longo do tempo adaptar-se e encontrar um sopro de renovação e que servindo-se de elementos do krautrock, passando pelo hip hop mais negro, o indie rock e o jazz progressivo, mostra-se, ao vivo, como um verdadeiro caldeirão cuidadosamente tratado e minuciosamente carregado de vida. Espero que aprecies a sugestão...

The Notwist - Superheroes, Ghostvillains And Stuff

01. They Follow Me
02. Close To The Glass
03. Kong
04. Into Another Tune
05. Pick Up The Phone
06. One With The Freaks
07. This Room
08. One Dark Love Poem
09. Trashing Days
10. Gloomy Planets
11. Run Run Run
12. Gravity
13. Neon Golden
14. Pilot
15. Consequence
16. Gone Gone Gone


autor stipe07 às 17:37
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Sábado, 26 de Novembro de 2016

TOY – Clear Shot

Uma das bandas fundamentais de indie rock psicadélico são os londrinos TOY de Tom Dougall (voz e guitarras), Dominic O'Dair (guitarras), Maxim Barron (baixo e voz), Max Oscarnold (sintetizadores e modulação) e Charlie Salvidge (bateria e voz). Depois de um espetacular disco homónimo de estreia e de um sucessor intitulado Join The Dots, os TOY estão de regresso aos discos com Clear Shot, dez canções que chegaram aos escaparates a vinte e oito de outubro por intermédio da Heavenly Recordings e produzidas por David Wrench.

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Claramente o disco mais arriscado e eclético da carreira dos já consagrados TOY, Clear Shot é um grandioso passo em frente na carreira de uma das bandas mais menosprezadas do cenário psicadélico atual e que são tantas vezes injustamente considerados como uma cópia dos The Horrors quando, na verdade, apesar da amizade que une os dois coletivos, têm tão pouco em comum, pelo menos no aspeto sonoro. Aqui, ao longo de dez canções assiste-se a uma bem sucedida simbiose entre alguns elementos fundamentais da pop mais harmoniosa com o fuzz lisérgico que costuma caraterizar o ambiente sónica deste quinteto que, logo no tema homónimo, cerra os punhos e embrenha-nos numa viagem inebriante por décadas passadas, principalmente o krautrock dos anos setenta.

Mas, como o tal ecletismo acima referido é a pedra basilar de Clear Shot, depois de aberto o alinhamento, começa o desfile eloquente de um leque alargado de sonoridades que incluem também o punk, o psicadelismo e o post rock. Canções do calibre de Fast Silver, uma inebriante viagem psicadélica, onde merece particular realce a voz de Tom Dougall que denota aquela encantadora fragilidade que emociona qualquer mortal, ainda mais quando é acompanhada por um instrumental épico e marcante, ou as variações rítmicas e de tempo que encarreiram a majestosidade de Another Dimension, assim como o dramatismo sensual e bastante revelador de Cinema e o cenário tenebroso fortemente hipnótico dos acordes progressivos de Jungle Games, uma canção capaz de revirar e repôr no sítio mentes inquietas por não terem um rumo, são alguns dos momentos maiores de um trabalho com a dupla capacidade de plasmar, como sempre, algo único e distinto e que, por isso, consegue agradar aos fiéis seguidores e, eventualmente, alargar o leque de ouvidos que procuram aprimorar-se e deliciar-se junto deste estilo musical tão peculiar.

Disco que não nos deixa aterrar de imediato e, pelo contrário, eleva-nos ainda mais alto e ao encontro do típico universo flutuante e inebriante em que assenta a psicadelia, Clear Shot levanta o queixo e empina o nariz, mas também denota aquela encantadora fragilidade que emociona qualquer mortal, demonstrando que os TOY tricotam as agulhas certas num rumo discográfico enleante, que tem trilhado percursos sonoros interessantes, mas sempre pintados por uma psicadelia que escorre, principalmente, nas guitarras, cimentando o cliché que diz que gostar de TOY continua a ser, cada vez mais, uma simples questão de bom gosto. Espero que aprecies a sugestão...

TOY - Clear Shot

01. Clear Shot
02. Another Dimension
03. Fast Silver
04. I’m Still Believing
05. Clouds That Cover The Sun
06. Jungle Games
07. Dream Orchestrator
08. We Will Disperse
09. Spirits Don’t Lie
10. Cinema


autor stipe07 às 15:44
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Efterklang And The Happy Hopeless Orchestra – Leaves: The Colour Of Falling

Foi através da Tambourhinoceros que os dinamarqueses Efterklang, formados por Casper Clausen, Mads Christian Brauer e Rasmus Stolberg, regressaram aos discos, fazendo-o com Leaves: The Colour Of Falling, um álbum de música clássica onde juntamente com a The Happy Hopeless Orchestra e alguns vocalistas conterrâneos de renome, nomeadamente a lendária Lisbeth Balslev (soprano), Morten Grove Frandsen (contratenor), Katinka Fogh Vindelev (soprano) e Nicolai Elsberg (baixo), dão vida a lindíssimos poemas da autoria de Ursula Andkjær Olsen.

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Exímios no modo como nos oferecem sons criados com forte inspiração em elementos paisagísticos, este trabalho tem uma sonoridade única e peculiar e surge na sequência de outros projetos que esta consagrada banda dinamarquesa tem vindo a levar a cabo ultimamente, dos quais se destacam a participação na banda sonora do filme An Island e a criação do ambiente sonoro do restaurante Noma, um dos mais famosos da Dinamarca.

Ao longo da carreira, o som deste grupo não foi sempre algo estanque e a opção por um alinhamento de contornos eminentemente eruditas acaba por ser um passo lógico depois de uma fase feliz que assentou na mistura de sonos típicos do rock mais progressivo com a eletrónica de cariz mais ambiental. Tem sido, portanto, um percurso cheio de períodos de transformação, que oscilaram entre momentos minimalistas e outros mais expansivos e este Leaves: The Colour Of Falling acaba por, à boleia de uma orquestra, fazer uma espécie de súmula de toda uma amálgama de elementos e referências sonoras, como se todo este arsenal instrumental servisse para, no momento certo para, assim como uma linha de costura, unir pedaços separados e que precisavam de ser agregados.

Assim, se em Imagery Of Perfection somos conduzidos para lugares calmos e distantes, algo místicos, já o single City Of Glass parece querer derrubar tratados e convenções rumo a uma reunificação universal onde tudo é transparente e faz realmente sentido, com a voz de Morten em Spider's Web e o som dos metais e dos coros em The Colour Not Of Love a terem aquela cor e brilho que nos fazem levitar, começando assim um disco cheio de sentimos, emocionalmente profundo e que quando termina deixa-nos com a sensação que acabou-nos de passar pelos ouvidos algo muito bonito, denso e profundo e que, por tudo isso, deixou marcas muito positivas e sintomas claros de algum deslumbramento perante a obra. Espero que aprecies a sugestão... 

Efterklang And The Happy Hopeless Orchestra - Leaves The Colour Of Falling

01. Cities Of Glass
02. Imagery Of Perfection
03. Spider’s Web
04. The Colour Not Of Love
05. Leaves
06. Stillborn
07. Abyss
08. No Longer Me
09. Eye Of Growth
10. Wind


autor stipe07 às 18:29
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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

The Blank Tapes - Ojos Rojos

Vieram da Califórnia numa máquina do tempo diretamente da década de sessenta, têm passado por esta publicação várias vezes e aterraram no universo indie pela mão da Antenna Farm Records. Chamam-se The Blank Tapes, são liderados por Matt Adams, ao qual se juntam atualmente Spencer Grossman, Will Halsey e Pearl Charles. Depois de em maio de 2014 me terem chamado a atenção com Vacation, um disco gravado por Carlos Arredondo nos estúdios New, Improved Recording, em Oakland e de pouco antes do ocaso desse ano, terem divulgado mais uma coleção de canções, nada mais nada menos que quarenta e três, intitulada Hwy. 9 e de em janeiro de 2015 terem editado Geodesic Home Place, agora, já em 2016, oferecem-nos Ojos Rojos, mais catorze canções de intensidade festiva máxima e que nos levam de volta à pop luminosa dos anos sessenta, aquela pop tão solarenga como o estado norte americano onde Matt reside.

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(pic by Sheva Kafai)

Reviver sonoramente tempos passados parece ser uma das principais permissas da esmagadora maioria dos projetos musicais norte americanos que vêm da costa oeste. Enquanto que às portas do Atlântico procura-se mergulhar o indie rock em novas tendências e sonoridades mais contemporâneas, basta ouvir-se Sexxy Skyype, um dos temas mais inebriantes e festivos de Ojos Rojos para se perceber que do outro lado da route 66, em São Francisco e Los Angeles, os ares do Pacífico fazem o tempo passar mais lentamente, mesmo quando o pedal das guitarras descontrola-se na surf pop de Dance To Dance ou procura ambientes melódicos mais nostálgicos e progressivos, como é o caso de La Baby ou Beach Party.

Matt, o líder do grupo, é apaixonado pela sonoridade pop e psicadélica dos anos sessenta e setenta, dois períodos localizados no tempo e que semearam grandes ideias e nos deram canções inesquecíveis, lançaram carreiras e ainda hoje são matéria prima de reflexão e os The Blank Tapes querem ser guardiões de um som que agrada imenso a todos os veraneantes cor de salmão e de arca frigorífica na mão, que lutam interiormente ao chegar ao carro, sem saberem se a limpeza das chinelas deve ser exaustiva, ou se os inúmeros grãos de areia que se vão acumular no tapete junto aos pedais do Léon justificam um avanço de algumas centenas de metros na fila de veículos que regressam à metrópole.

O disco prossegue e quer no rock n' roll tresmalhado de Spring Break ou no fuzz complacente de Biggest Blunt In Brazil e na cadência suave e profundamente veraneante de Let Me Hear You Rock, fica claro que Ojos Rojos balança entre uma contemporaneidade vintage e um glorioso suadosimo, em canções com referências bem estabelecidas, numa arquitetura musical que garante a Matt a impressão firme da sua sonoridade típica e que lhe continua a dar margem de manobra para várias experimentações transversais e diferentes subgéneros, que da surf pop, ao indie rock psicadélico, passando pela típica folk norte americana, não descuram um sentimento identitário e de herança que o músico guarda certamente dentro de si e que procura ser coerente com vários discos que têm revivido sons antigos.

Ojos Rojos é, portanto, mais uma viagem ao passado sem se desligar das novidades e marcas do presente. É um ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva os The Blank Tapes. É um apanhado sonoro vintage, fruto do psicadelismo que, geração após geração, conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências do passado. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 16:48
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

Foreign Fields – Take Cover

Eric Hillman, Brian Holl, Nathan Reich, Nate Babbs e Clayton Fike, são os Foreign Fields, uma banda norte americana natural de Nashville que se tem notabilizado desde 2012 com uma consistente série de eps, construídos com fino recorte e indesmentível bom gosto. Take Cover, o primeiro longa duração do grupo, assume-se como o lógico passo em frente de um já glorioso percurso, assente em canções bastante emotivas e incisivo a expôr os dilemas e as agruras da vida comum à maioria dos mortais, mas também as alegrias e as recompensas que a existência terrena nos pode proporcionar.

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Logo na inquietude quase impercetível de I Killed You In The Morning percebe- se que há uma espécie de sonambulismo retemperador na música destes Foreign Fields, como se o mundo em redor se estilizasse e ficasse estático e perene, perante este incitamento automático à reclusão e à reflexão profunda. Logo depois, no single Dry, perante o desfilar harmonioso de cordas, teclas e batidas, que ora planando ora se enterrando chão dentro direitinho ao nosso âmago e que carregam consigo uma folk muito introspetiva e tremendamente reflexiva, consegue-se, em simultâneo, obter uma corajosa epicidade e um incomensurável torpor, algo musculado, mas que nos oferece uma sensação de segurança de difícil catalogação.

E assim arranca este Take Cover, um disco onde se escutam alguns arranjos e detalhes muito simples, mas também cavidades intrincadas de sons das mais variadas proveniências e cores, feitas quase sempre com instrumentos de percurssão, teclados e harmónicas, elementos que nos levam ao colo numa viagem intimista pelos caminhos rugosos de uma América sulista, que preza valores e tradições e não aquela América feita apenas com o caos das metrópoles gigantescas, cheias de luzes, néons e cor, mas às vezes também com locais muito escuros e sombrios.

Esta é, no fundo, uma pop suculenta, que por ter uma fácil assimilação, não significa que seja rarefeita, minimal, ou desprovida de ingredientes faustosos, encontrando o seu lado delicioso e atrativo exatamente no modo como conjuga todo um requinte instrumental, à medida que desfila um derrame de versos extensos e quase descritivos dos habituais acontecimentos quotidianos, sempre com um olhar para o mundo físico e não apenas para uma exposição de emoções intrínsecas.

Se vontade faltar para mais, deixemo-nos ficar apenas e sós pelo piano e pelo falsete de Weeping Red Devil, criado para expiar pecados mas também para comungar com o ouvinte os prazeres que experimenta, para percebermos como vale a pena descobrirmos que este disco oferece-nos gratuitamente um exercício de aceitação plena de um estado de consciência sobre uma vida em constante rebuliço, mas constante no modo como lida com os diferentes sentimentos e emoções de uma América campestre, um pouco fechada sobre sim mesma e o seu passado, que muitas vezes parece ter parado há várias décadas no tempo, hoje numa autêntica encruzilhada, mas que não deixa também de ser muito luminosa e acolhedora. Espero que aprecies a sugestão...

Foreign Fields - Take Cover

01. Tangier
02. I Killed You In The Morning
03. Dry
04. I
05. Weeping Red Devil
06. Grounded
07. In Love Again
08. We Live Inside
09. Take Cover
10. Correct Me
11. Hope Inside The Fire
12. When You Wake Up


autor stipe07 às 22:20
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Domingo, 20 de Novembro de 2016

Pavo Pavo – Young Narrator In The Breakers

Eliza Bagg, Oliver Hil, Nolan Green, Austin Vaughn e Ian Romer vêm de Brooklyn, Nova Iorque e renascidos das cinzas dos Plume Giant e com ligações estreitas a nomes tão importantes como os San Fermim ou os Here We Go Magic formam os Pavo Pavo e fazem aquela música pop que parece servir para banda sonora de uma representação retro de um futuro utópico e imaginário, como prova Young Narrator In The Breakers, disco editado por este quinteto a onze de novembro último à boleia da Bella Union. Trabalho produzido pela dupla Danny Molad (Lucius) e Sam Cohen (Yellowbirds, Apollo Sunshine), contém doze canções com uma elegância ímpar, sustentada em guitarras plenas de charme, harmonias particularmente cativantes e sintetizadores com uma luminosidade intensa e sedutora que serviram para criar uma banda sonora feliz no modo como descreve toda aquela magia intrínseca à entrada na vida adulta, mas também os medos, as turbulências e as dúvidas e hesitações que tal passo provoca.

Pavo Pavo

No início de um percurso sonoro que se prevê auspicioso, os Pavo Pavo logo em Ran Ran Run, o tema que abre o disco, balizam com exatidão as suas coordenadas, que servem para estilizar canções em cujo regaço festa e lisergia caminham lado a lado. Falo de duas asas que nos fazem levitar ao encontro de paisagens multicoloridas de sons e sentimentos, arrepios que nos provocam, muitas vezes, autênticas miragens lisérgicas e hipnóticas enquanto deambulam pelos nossos ouvidos num frágil balanço entre uma percussão pulsante, um rock e uma eletrónica com um vincado sentido cósmico e uma indulgência orgânica que se abastece de guitarras plenas de efeitos texturalmente ricos, teclados corrosivos no modo como atentam contra o sossego em que constantemente nos refugiamos e a voz de Eliza que, num registo ecoante e esvoaçante, coloca em sentido todos os alicerces da nossa dimensão pessoal mais frágil e ternurenta.

Se a audição de Young Narrator in The Breakers nos oferece, no seu todo, vastas paisagens sonoras, nota-se, rapidamente, um ponto em comum em praticamente todas as suas canções. Começam, geralmente, por uma base instrumental minimal, que será aquela que vai sustentar o tema até ao seu ocaso. Tal acontece, logo no início, nos teclados, nos metais e nos coros de Annie Hall e depois acontece sempre uma explosão sónica, feita de exuberância e cor que, do território mais negro e encorpado do instrumental A Quiet Time With Spaceman Sputz, até ao jogo lascivo que se estabelece entre o baixo e o bandolim em 2020, We’ll Have Nothing Going On, passando pela nuvem de plumas que sustenta Somewhere In Iowa, tema que disserta sobre a inocência daqueles dias de verão onde tudo parece possível e a exuberância rítmica de Belle Of The Ball, ou o ambiente mais punk e até dançável do notável baixo de No Mind, mostra-nos sempre um percurso triunfante e seguro, onde abundam guitarras experimentais, uma súmula muitas vezes quase impercetível entre epicidade frenética, crua e impulsiva e sensualidade lasciva, num resultado global borbulhante e colorido.

Bálsamo retemperador perfeito capaz de nos fazer recuperar o fôlego de um dia intenso, Young Narrator In The Breakers ruge nos nossos ouvidos, agita a mente e força-nos a um abanar de ancas intuítivo e capaz de nos libertar de qualquer amarra ou constrangimento que ainda nos domine. E fá-lo conduzido por uma espiral pop onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, através de um som esculpido e complexo, originando um encadeamento que nos obriga a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. O minimalismo contagiante dos efeitos dos violinos em que se sustenta John (A Little Time), mais um tema que nos desarma devido ao registo vocal e ao banquete percussivo que contém e a riqueza sintética que sobressai da tela por onde escorre uma amalgama de efeitos e ruídos, é um extraordinário exemplo do modo como esta banda é capaz de ser genuína a manipular o sintético, de modo a dar-lhe a vida e a retirar aquela faceta algo rígida que a eletrónica muitas vezes intui, convertendo tudo aquilo que poderia ser compreendido por uma maioria de ouvintes como meros ruídos, em produções volumosas e intencionalmente orientadas para algo épico.

Com nuances variadas e harmonias magistrais, em Young Narrator In The Breakers tudo se orienta com o propósito de criar um único bloco de som, fazendo do disco um corpo único e indivisível e com vida própria, com os temas a serem os seus orgãos e membros e a poderem personificar no seu todo um groove e uma ligeireza que fazem estremecer o nosso lado mais libidinoso, servidos em bandeja de ouro por um compêndio aventureiro, que deve figurar na prateleira daqueles trabalhos que são de escuta essencial para se perceber as novas e mais inspiradas tendências do indie rock contemporâneo, além de ser, claramente, um daqueles discos que exige várias e ponderadas audições, porque cada um dos seus temas esconde texturas, vozes, batidas e mínimas frequências que só são percetíveis seguindo essa premissa. Espero que aprecies a sugestão...

Pavo Pavo - Young Narrator In The Breakers

01. Ran Ran Run
02. Annie Hall
03. Ruby (Let’s Buy The Bike)
04. Wiserway
05. A Quiet Time With Spaceman Sputz
06. Somewhere In Iowa
07. Belle Of The Ball
08. The Aquarium
09. No Mind
10. John (A Little Time)
11. Young Narrator In The Breakers
12. 2020, We’ll Have Nothing Going On


autor stipe07 às 14:56
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016

Jagwar Ma - Every Now & Then

Os Jagwar Ma são Jono Ma, Jack Freeman e Gabriel Winterfield uma banda australiana apaixonada pelas sonoridades alternativas dos anos noventa e que procuram promover na sua música uma espécie de simbiose entre a neopsicadelia desenvolvida, por exemplo, pelos Primal Scream, a brit pop dos Blur no período Parklife e os próprios Stone Roses. Fazem canções cheias de colagens e sobreposições instrumentais, que em Howlin, o disco de estreia do projeto, encarnaram uma espécie de súmula de alguns dos mais interessantes detalhes sonoros dessa época.

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Quase no ocaso de 2016 os Jagwar Ma estão de regresso aos discos com Every Now & Then, o sucessor de Howlin, e através da insuspeita Mom+Pop/Marathon. São onze temas produzidos por Ewan Pearson e gravados aqui, na Europa, em dois locais; Na pitoresca ruralidade de França, numa quinta que tem um estúdio chamada La Brèche e no famoso Le Bunker, no norte de Londres.

Os Beastie Boys foram uma inspiração clara para os Jagwar Ma neste disco e O B 1, canção que conta com a participação especial de Stella Mozgawa das Warpaint e Give Me A Reason, os dois singles divulgados do trabalho, demonstram-no, quer no pendor nostálgico dos tais anos noventa, mas também na contemporaneidade de duas canções, que num misto de pop, eletrónica e pequenas experimentações próximas do rock, exemplificam a massa sonora que sustenta o disco e que, como sabemos, caraterizam uma vasta coleção de propostas musicais que nos dias de hoje nos chegam dos quatro cantos do mundo. E esta simbiose entre uma faceta mais orgânica e outra eminentemente sintética baseou-se, desta vez, numa aproximação mais concerta a uma sonoridade que pudesse ser facilmente transposta para o palco, já que uma das lacunas apontadas ao antecessor era a dificuldade em transportar a riqueza e a heterogeneidade do seu conteúdo para o palco, com apenas três músicos. Assim, canções do calibre da efusiante High Rotations ou da hipnótica e contagiante Slipping, por exemplo, são excelentes temas para serem dançados por grandes multidões e passíveis de verem a sua vibração e entusiasmo serem facilmente reproduzidas ao vivo.

Disco com uma tremenda sensibilidade pop, algures entre Tampe Impala e Animal Collective e com uma epicidade incomum e um fulgor que instiga e faz mover quase de modo instintivo, Every Now & Then assume-se como uma ode ao melhor revivalismo neopsicadélico. É um alinhamento coeso e incisivo, que carrega consigo sobreposições eletrónicas vintage e uma pop algo aventureira, sem descurar, num aparente exercício sonoro experimental, a construção de uma identidade própria que permite aos Jagwar Ma criarem raízes no grande público e, ao mesmo tempo, fazerem-no dançar quase como se não houvesse amanhã. Espero que aprecies a sugestão...

Jagwar Ma - Every Now And Then

01. Falling
02. Say What You Feel
03. Loose Ends
04. Give Me A Reason
05. Ordinary
06. Batter Up
07. O B 1
08. Slipping
09. High Rotations
10. Don’t Make It Right
11. Colours Of Paradise


autor stipe07 às 17:40
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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

The History Of Colour TV – Wreck

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Os berlinenses The History Of Colour TV estão prestes a regressar aos lançamentos discográficos com Something Like Eternity, um álbum que irá ver a luz do dia a vinte e cinco de novembro próximo. De acordo com Wreck, o avanço já divulgado do trabalho, será um registo que certamente nos colocará bem no centro de um noise rock que não deixa de nos fazer recordar experimentações típicas do melhor rock alternativo lo fi dos anos oitenta. Refiro-me a uma canção que se define como um edifício sonoro ruidoso que não dispensa uma forte presença dos sintetizadores e teclados, que agregados a guitarras plenas de distorção e a uma batida vigorosa, acaba, neste caso, por conferir uma explícita dose de um pop punk dance que mescla orgânico e sintético com propósitos bem definidos. O download do tema pode ser feito via bandcamp. Confere...

The History Of Colour TV - Wreck

01. Wreck
02. August Twenty First

 


autor stipe07 às 21:30
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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016

Leapling - Killing Time EP

Alguns meses após o fabuloso Suspended Animation, os nova iorquinos Leapling, um quarteto formado por Dan Arnes, Yoni David, R.J Gordon e Joey Postiglione e que plana em redor de permissas sonoras fortemente experimentais e onde tudo vale quando o objetivo é arregaçar as mangas e criar música sem ideias pré-concebidas, arquétipos rigorosos ou na clara obediência a uma determinada bitola que descreva uma sonoridade especifica, estão de regresso aos lançamentos discográficos com Killing Time, seis canções disponíveis em formato digital no bandcamp do grupo e em formato cassete através da Babe City Records e que sendo b sides de Suspended Animation, mostram uma faceta um pouco mais crua e, na minha opinião, genuína, do modo como se servem de extraordinários acordes de guitarra com um comovente objetivo melódico.

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Utilizando referências do próprio quotidiano para construir um panorama instrumental e lírico que pende ora para o rock experimental, ora para a indie pop adocicada e acessível, os Leapling não param de surpreender e continuam a provar serem mestres no desenvolvimento de uma instrumentação radiante, reflexo da capacidade do grupo em apresentar um som duradouro e sempre próximo do ouvinte. Canções do calibre da insinuante A Different Kind e da deliciosa Just To Hear You Say, temas possuidos por uma crueza e por uma nitidez ímpar, ou a luminosa Killing Time constituem-se como autênticos psicoativos sentimentais que podemos usar sempre que nos apeteça, mas também portas que se abrem para nunca mais se fechar e que têm do outro decisões difíceis que, de repente, perdem toda a sua complexidade. Mas estas canções podem também encarnar manhãs irrepetíveis, sendo exemplos felizes do lado mais sensível e emotivo de um grupo que não receia ligar a sua faceta experimental a pleno gás e que em Tunnelvision atinge um nível de excelência no modo como consegue aquele balanço delicado entre o quase pop e o ruidoso, sem nunca descurar aquela particularidade fortemente melódica que define, desde o excelente disco de estreia, Vacant Page (2015), o arquétipo das suas composições. Espero que aprecies a sugestão...

Leapling - Killing Time EP

01. A Different Kind
02. Killing Time
03. Just To Hear You Say
04. Your Garden Grows
05. Tunnelvision
06. Believe It Or Not


autor stipe07 às 21:01
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Domingo, 13 de Novembro de 2016

The XX – On Hold

The XX - On Hold

Terminou há poucos dias uma longa espera relativamente a novidades dos The XX, após o aclamado Coexist, um longa duração lançado pelo grupo, à boleia da Young Turks, já há quatro anos e que tem finalmente sucessor. O terceiro álbum do trio será editado a treze de Janeiro de 2017 com o mesmo selo Young Turks e chamar-se-á I See You. O disco terá um alinhamento de dez canções, gravadas entre Março de 2014 e Agosto de 2016 em vários sítios como New York, Texas, Reykjavique, Los Angeles e Londres e foi produzido pot Jamie Smith e Rodaidh McDonald.

On Hold é o mais recente tema divulgado desse novo disco de Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie Smith (a baixista Baria Qureshi deixou o grupo ainda em 2009) uma lindíssima composição, certamente das melhores que este projeto já criou e que faz jus à imagem de marca dos The XX. É uma canção de amor que tem como atributo maior o diálogo entre Romy e Oliver, dois corações que flutuam no espaço e quando as mãos de ambos se soltam, sem que percebam, e verificam que estão longe demais e já é tarde demais, percebem que só remando para o mesmo lado é que poderão sobreviver a todos os precalços que o amor coloca sempre. Confere...


autor stipe07 às 19:24
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016

Two Door Cinema Club – Gameshow

Os irlandeses Two Door Cinema Club, de Alex Trimble, Kevin Baird e Sam Halliday, estão de regresso aos discos com Gameshow, dez canções que quebram um hiato de quatro anos do projeto, fazendo-o à boleia da Parlophone Records. Este é o terceiro disco da banda, sucedendo ao muito aclamado Beacon (2012) e a Tourist History (2010), o disco de estreia.

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Produzido por Jacknife Lee, um profissional procurado por nomes tão conceituados como R.E.M., Snow Patrol e U2 e exímio em recriar sonoridades amplas, mas que não coloquem em causa a rugosidade típica do rock, no sentido mais puro do termo, Gameshow é um glossário de diversas estéticas sonoras onde, mais uma vez e como tem sido norma em projetos contemporâneos que procuram assumir uma posição relevante no universo sonoro em que subsistem, se procura uma simbiose entre algumas das mais recentes tendências da eletrónica, constantemente a piscar o olho aos gloriosos anos oitenta e o rock de cariz mais progressivo, que começou a surgir em força, principalmente do outro lado do atlântico, a partir da segunda metade do século passado. Em canções como o single Are We Ready? (Wreck), o primeiro avanço divulgado de Gameshow e nos sintetizadores de Ordinary, é possível perceber esta fórmula simbiótica, com o primeiro tema a mostrar-nos que está de regresso aquele fluxo planante das guitarras, típico de um trio onde tudo flui para impressionar e levar os ouvintes a entregarem-se aos encantos e à dança involuntária que conseguem imprimir ao ideário sonoro das suas canções e com o segundo a mostrar como o baixo é um elemento preponderante de produção melódica no seio destes Two Door Cinema Club. Depois, há aqui canções que oscilam, declaradamente, para um dos dois lados da barricada; Assim, se o tema homónimo é um tratado de indie rock assumidamente cru e minimal e o jogo de cordas de Fever segue na mesma linha, já Je Vivens De La, deixa os estádios de lado e procura entricheirar-se com altivez nos PAs dos clubes mais inn do momento.

Gameshow não é o disco que vai salvar as nossas vidas ou modificá-las drasticamente, mas vai-te fazer dançar de forma bem humorada e continuar a fazer sobressair estes Two Door Cinema Club em relação à concorrência. Espero que aprecies a sugestão...

Two Door Cinema Club - Gameshow

01. Are We Ready? (Wreck)
02. Bad Decisions
03. Ordinary
04. Gameshow
05. Lavender
06. Fever
07. Invincible
08. Good Morning
09. Surgery
10. Je Viens De La


autor stipe07 às 20:52
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2016

Cultural Lungs - Fortress

Com uma guitarra na mão e um universo infinito de possibilidades de escrita e composição na outra, Cássio Ferreira é o grande mentor do projeto musical Cultural Lungs, nascido em 2005 e que, de acordo com várias descrições, soa a Hans Zimmer a tentar encorajar os Radiohead a ultrapassar uma depressão. Independentemente dessa ideia e do modo como a mesma poderá, desde logo, balizar na nossa mente o conteúdo sonoro de Fortress, o mais recente disco deste projeto, o importante é, à partida, esclarecer que este não é um alinhamento para ser escutado sem a noção clara que Fortress é um álbum concetual sobre a história da humanidade e que a escolha do modo como se escutam os temas, define o final da mesma.

Nos pouco mais de quarenta minutos deste álbum escorrem dezoito canções que encontram nas cordas de uma viola um veículo privilegiado de transmissão de sentimentos e emoções que impressionam, uma sensação curiosa e reconfortante, que transforma-se, em alguns instantes, numa experiência ímpar e de ascenção plena a um estágio superior de letargia. Logo em Prologue uma voz feminina bastante sedutora e apelativa, dá-nos as boas vindas a esta viagem, que promete ser única, com a crueza das cordas de Glass a esclarecer-nos, no imediato, do elevado grau de pureza e de delicadeza deste autor, que em Walls consegue, num abrir e fechar de olhos, levar-nos do nostálgico ao glorioso, numa espécie de indie-folk-surf-suburbano, cruzado com rock progressivo, uma mistura que encontra o seu sustento nas teclas de um piano carregado de um intenso charme e que parece também não se importar de transmitir uma óbvia sensação de despreocupação, algo que espalha um charme ainda maior pela peça em si que este tema representa.

De aí em diante, enquanto cada canção segue um encadeamento e continua o ideário transmitido pela anterior, Cássio vai continuando a oferecer-nos um naipe riquíssimo de imagens evocativas, que depois sustenta em melodias bastante virtuosas e cheias de cor, arrumadas com arranjos meticulosos e lúcidos e variações rítmicas e emotivas inesperadas, um caudal sonoro e lírico cuja filosofia subjacente prova a sensibilidade do mesmo para expressar pura e metaforicamente a fragilidade humana. Se Room levita em redor de uma névoa lo fi com um fulgurante travo acústico à mistura, já People e Mask são duas peças sonoras eminentemente contemplativas e que oferecem-nos uma espécie de monumentalidade comovente, enquanto Fear e Voice mostram-nos um lado mais solar e extrovertido, algo que sucede em ambos com elevado sentido melódico e uma vincada estética pop.

Com alguns dos temas acima referidos, assim como outros, a terem direito a uma segunda versão, nasegunda metade do álbum, competindo a cada ouvinte, como referi, selecionar que percurso ousa trilhar nesta viagem, Fortress contém um tempero muito próprio e um pulsar particularmente emotivo e rico em sentimentos, eficaz na materialização concreta de melodias que vivem à sombra de uma herança natural claramente definida e que, na minha opinião, atingem à boleia deste músico um estado elevado de consciência e profundidade. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 21:24
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2016

Hope Sandoval And The Warm Inventions - Until The Hunter

Uma das parcerias mais interessantes que surgiu recentemente na penumbra do universo sonoro indie intitula-se Hope Sandoval And The Warm Inventions e junta Hope Sandoval, icónica vocalista dos Mazzy Star e Colm Ó Cíosóig dos My Bloody Valentine. Há já um disco de estreia, intitulado Until The Hunter, que viu a luz do dia a quatro de novembro, através da Tendril Tales, a editora de Hope Sandoval e nele esta dupla oferece-nos uma belíssima viagem lisérgica, patente na instrumentação que se deixa conduzir pelos trilhos sónicos de uma guitarra, elétrica ou acústica, e pela complacência de uma bateria charmosa, tudo embrulhado em letras de acordo com as propostas mais intimistas dos grupos de origem dos mentores deste projeto e onde Let Me Get There, uma canção que conta com a participação especial vocal de Kurt Vile, se assume como momento maior de um enredo de particularmente atrativo e com um charme muito próprio.

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A folk de cariz mais etéreo e intimista, com aquele pendor feminino tão específico e sui generis, é o eixo principal de Until The Hunter, mas algumas das novas tendências da eletrónica mais ambiental, que prescruta, constantemente, caminhos mais sombrios, também tem papel de relevo e logo em Into The Trees, nove nebulosos minutos particularmente hipnóticos e submersivos. Quem se deixar levar por esse pendor inicial e achar que o restante alinhamento segue essa bitola, surpreender-se-á, logo de imediato, com a soul do efeito da guitarra que plana sobre as cordas e a voz incomensuravelmente doce de Sandoval em The Peasant, assim como com os resquícios da dita chamber folk presentes no dedilhar da viola de A Wonderful Seed e de The Hiking Song.

A partir daqui já não restam dúvidas que este é um disco de fervura lenta, para ser apreciado lentamente, de modo sossegado e intimista. Se a já referida Let Me Gett There e Day Disguise nos oferecem aquela pureza típica de uma primaveril manhã solarenga em que o único propósito que se apresenta diante de nós é um cadeirão de baloiço no alpendre em frente ao jardim lá de casa, já o efeito da guitarra de Treasure pede uma lareira quente, enquanto Salt Of The Sea e Liquid Lady nos colocam ao fundo de um balcão de um bar boémio e fumarento, em final de noite particularmente bem regada.

Until The Hunter sobrevive num clima doce e tocante, com um imenso travo a melancolia, às vezes perigoso e de lágrima fácil para todos aqueles que habitualmente divagam e exorcizam ao som de canções com um travo bucólico bastante impressivo e sentimentalmente rico. É um alinhamento que marca um início de percurso nos discos imperdível e claramente inspirado de um projeto no panorama musical atual. Espero que aprecies a sugestão...

Hope Sandoval And The Warm Inventions - Until The Hunter

01. Into The Trees
02. The Peasant
03. A Wonderful Seed
04. Let Me Get There
05. Day Disguise
06. Treasure
07. Salt Of The Sea
08. The Hiking Sea
08. Isn’t It True
10. I Took A Sip
11. Liquid Lady


autor stipe07 às 20:11
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2016

The Laurels – Sonicology

Os The Laurels são uma banda de Sidney, na Austrália, formada por Luke O’Farrell (voz, guitarra), Piers Cornelius (voz, guitarra), Conor Hannan (baixo)  e Kate Wilson (bateria). Depois de Plains, o disco de estreia do grupo, editado no passado mês de julho pela Rice Is Nice Records e produzido por  Liam Judson, o mesmo que orientou o EP Mesozoic, primeiro registo oficial da banda, lançado em 2011, o coletivo está de regresso com Sonicology, onze canções que confirmam este projeto como um dos grandes expoentes do shoegaze e do cenário psicadélico dos antípodas.

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Os The Laurels são mais uma banda, como tantas outras que têm passado por cá, a seguir a tendência de redescobrir e reutilizar sonoridades do passado. Algumas fazem-no de forma descaradamente objetiva, copiando estilos e até melodias de forma exaustiva. Outros conseguem utilizar o som de ontem de outra forma, procurando reinventar, fundir referências e, sobretudo, dar personalidade e um cunho identitário próprio (da banda ou artista) ao som.

Considero que os The Laurels encaixam na segunda opção. Sonicology é um misto de várias sonoridades do passado que, por se combinarem, não ficam datadas. Assim, se Reentry apela aquele espírito majestoso da época faustosa da britpop, algures entre o Screamadelica dos Primal Scream, o Definitely Maybe dos Oasis e o Modern Life Is Rubbish dos Blur, já Sonicology, o single homónimo, calcorreia territórios mais relacionados com o punk rock de fino recorte, enquanto Some Other Time, por exemplo, pisca o olho aquela vibe mais etérea e psicadélica setentista, tão do agrado de outros projetos conterrâneos e que são hoje verdadeiros ícones do indie rock de cariz mais lisérgico. E bastam estes três exemplos para percebermos o ambiente geral de um trabalho que nos oferece um som muito plural, criado a partir de elementos retirados das mais diversas épocas e estilos, sem que soem necessariamente presos a esses géneros.

Ouvir este disco é, em suma, como dar um passeio pela história do pop e da psicadelia e também por outros territórios. Acabo por não resistir a finalizar sem deixar de referir que Frequensator traz-nos as guitarras potentes e empoeiradas do shoegaze, também presentes noutras canções e que o baixo de Mecca e a guitarra que sobre ele flutua, contém uma dose de distorção que lembra os Pixies no período aúreo, apesar dos restantes arranjos da composição apelarem para o clima do típico rock psicadélico dos anos setenta, onde também encaixa o edifício sonoro que sustenta Aerodrome.

Em suma, estamos na presença de um típico disco simbiótico, cheio de nuances sónicas que vale a pena descobrir, destrinçar e escutar com particular minúcia, oferecidos por uns The Laurels, conhecidos como uma das melhores bandas ao vivo australianas da atualidade e que continuam a conseguem ultrapassar o sempre difícil teste do segundo disco, com uma postura sonora muito genuína e que exploram positivamente, quase até à exaustão. Espero que aprecies a sugestão...

The Laurels - Sonicology

01. Reentry
02. Sonicology
03. Clear Eyes
04. Some Other Time
05. Trip Sitter
06. Frequensator
07. Aerodrome
08. Hit And Miss
09. Central Premonition Registry
10. Mecca
11. Zodiac K


autor stipe07 às 21:14
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Sexta-feira, 4 de Novembro de 2016

Fujiya And Miyagi – EP1 & EP2

Com já uma década e meia de atividade e assumindo-se, cinco discos depois, como um dos projetos mais relevantes do cenário indie britânico, pelo modo exímio como misturam alguns dos melhores aspetos do rock alternativo com a eletrónica de cariz mais progressivo, os Fujiya And Miyagi resolveram deixar um pouco de lado o habitual formato álbum para se dedicarem à edição de três EPs, espaçados quase por um ano, com o conteúdo dos dois primeiros já conhecido e a merecerem, desde já, cuidada análise.

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Assim, se EP1 viu a luz do dia em finais de maio último e o EP2 ontem mesmo, já o EP3 chegará aos escaparates no início de 2017. E pelo conteúdo dos dois primeiros alinhamentos, fica claro que este quarteto está cada vez mais apostado numa relação estreita entre o krautrock inaugurado nos anos setenta e as tendências atuais da pop movida a sintetizadores, sem nunca descurar a presença do baixo e da guitarra no processo de criação. É uma estética sonora abraçada logo em 2003, quando Steve Lewis e David Best, os membros iniciais do projeto que integrava o conceito de Fujiya (uma marca de equipamentos de som) e Miyagi (o mentor de Daniel-San em Karate Kid), se estrearam e que contém cada vez maior bitola qualitativa, assente num espaço de delicioso diálogo com heranças e referências de outros tempos, algo que Outstripping (The Speed Of Light), o single de abertura de EP2, plasma claramente ao remeter-nos para a sintetização da década de oitenta, no período aúreo de uns Pet Shop Boys ou dos New Order e Swoon eleva, através da simbiose entre as batidas, a voz sussurrada de Best e o groove de um teclado.

Olhando para o restante conteúdo dos dois Eps e continuando a fazê-lo num todo, sem os separar, importa referir ainda que se Serotonin Rushes nos remete para a eletrónica alemã, com o baixo e as guitarras a não esbaterem uma declarada essência vintage, mas a acabarem por encontrar eco em muitas propostas indie atuais que também se movem, com mestria, na mesma miríade de influências, também há que destacar a elegância do groove e do ritmo dos teclados que balançam entre a pista de dança e paisagens cotemplativas em Extended Dance Mix. Este tema é um excelente mote para percebermos o atual estado criativo do grupo e o porquê de serem já uma referência devido ao jogo que estabelecem entre o baixo e as guitarras no meio das batidas, com o charme de Freudian Slips, uma canção que cresce apoiada em batidas sincopadas e que clama por um momento de êxtase que nunca chega, a desfazer ainda mais todas as dúvidas em relação a essa constatação.

Estamos perante uma súmula interessante e bem idealizada de todo o conteúdo que sustentou a eletrónica nos últimos trinta anos, atráves de canções pop bem estruturadas, devidamente adocicadas com arranjos bem conseguidos e que não dispensam a vertente orgânica conferida pelas cordas e pela percussão, tudo envolto com a habitual pulsão rítmica que carateriza a personalidade deste quarteto, que criou mais um conjunto de alinhamentos consistente, carregados de referências assertivas e que constituem um novo marco no percurso deste projeto essencial do panorama da eletrónica do séxculo XXI. Espero que aprecies a sugestão...

Fujiya And Miyagi - EP1

01. Serotonin Rushes
02. To The Last Beat Of My Heart
03. Freudian Slips
04. Magnesium Flares

Fujiya And Miyagi - EP2

01. Outstripping (The Speed Of Light)
02. R.S.I.
03. Swoon
04. Extended Dance Mix


autor stipe07 às 17:44
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2016

The Shins – Dead Alive

The Shins - Dead Alive

Sem dar sinais de vida desde a contribuição em 2004 para a banda sonora do filme So Now What, os The Shins de James Mercer estão de regresso com Dead Alive, uma canção lançada em pleno halloween e que prepara terreno para um novo registo de originais, que deverá ver a luz do dia em 2017.

Dead Alive serve-se de uma já forte referência do nosso quotidiano para construir o panorama lírico de uma canção que pende ora para a folk, ora para a indie pop mais adocicada e acessível, aspetos possibilitados por uma instrumentação radiante, com a possibilidade de constatarmos que Mercer continua a alcançar elevados parâmetros e patamares de qualidade na sua intepretação vocal. Confere...


autor stipe07 às 18:52
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2016

Cave Story - West

Pedro Zina (baixo), Ricardo Mendes (bateria) e Gonçalo Formiga (guitarra e voz) são os Cave Story, uma banda nascida nas Caldas da Rainha em 2013 e que deu o pontapé de saída numa carreira promissora com um conjunto de demos que chamou a atenção de vários promotores e festivais nacionais e internacionais como a FatCat Records e o Reverence Valada, respetivamente. Tendo visto a luz do dia no início de 2015, Spider Tracks foi o primeiro EP dos Cave Story, seis canções gravadas durante um ano e que ganharam vida descritas dentro dos abrangentes limites definidos por um post punk pop experimental, tendo-se seguido depois Garden Exit, um novo tomo de canções do trio, que solidificou e tipificou o som de um projeto sempre aberto e pronto para novas sonoridades, mas que confessa sentir-se mais confortável a explorar os recantos mais obscuros de uma relação que se deseja que não seja sempre pacífica entre a mágica tríade instrumental que compôe o arsenal de grande parte dos projetos inseridos nesta miríade sonora.

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Agora, no ocaso de outubro, chegou aos escaparates West, o longa duração de estreia dos Cave Story, doze canções que são a concretização plena desta desenvoltura rockeira, o epílogo do promissor percurso acima descrito e que confirma estarmos na presença de um nome essencial das várias lebres de uma nova geração de bandas nacionais que redescobriram, à chegada do novo século, o velho fulgor anguloso e elétrico do rock’n’roll.

Gravado nas Caldas da Rainha pela própria banda (excepto os temas Body Of Work, gravado nos estúdios Valentim de Carvalho em Lisboa com Luís Caldeira, e Like Predicted, gravado nos estúdios Sá da Bandeira no Porto por João Brandão), West ganhou vida em formato cd pela Lovers & Lollypops e em vinil pelo Musicbox e leva-nos numa viagem que espelha fielmente o gosto que os Cave Story demonstram relativamente aos primórdios do rock, conseguindo apresentar, em simultâneo, algo inovador e diferente.

O álbum começa a rolar e a distorção da guitarra de Body Of Work dá-nos, só para começar, aquele travo fresco e luminoso, mas apimentado por um manto de fundo lo fi empoeirado, rugoso mas pleno de soul. É uma guitarra vintage, exemplarmente acompanhada por uma secção ritmíca vigorosa e assertiva, num resultado que pouco depois, em Modeller, recua esse instrumento quase meio século até à génese dos The Rolling Stones e à irremediável crueza dos The Kinks. Logo depois, quando no rock de American Nights existe aquele travo indisfarçável que encontra raízes no cenário punk setentista britânico e quando esse mesmo punk, mas o nova iorquino, dominado já na alvorada deste século pelos The Strokes, ganha vida em Darkness Is A Figure e na opulência de Trying Not to Try, o mapa sonoro que define o disco amplia-se ainda mais. A seguir, com o experimentalismo psicadélico setentista, algures entre Sparks e The Television, que orienta Microcosmos e com a guitarra de Like Predicted a conter aquel travo folk sulista que os R.E.M. no início dos anos oitenta adotaram para pedra basilar da sua cartilha, sem descurar a aparição do grunge em Running With Baguettes, percebe-se a elevada abrangência de West e porque este trio deve ser já, a nivel interno, considerado vanguardista e um exemplo a seguir, em plena segunda década do século XXI, devido ao modo como consegue acompanhar os pressupostos que sustentam que o indie rock lo fi e de cariz mais psicotrópico está na ordem do dia.

Ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva esta banda da costa oeste, West conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências antigas. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 17:24
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